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CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2020

© CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução.

Tema: Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso


Lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

MANUAL

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Brasília – DF
Diretor-Geral:
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Mons. Jamil Alves de Souza


Secretário Executivo para Campanhas da CNBB:
Pe. Patriky Samuel Batista
Revisão:
Leticia Figueiredo
Vinícius Pereira Sales
João Vítor Gonzaga
Fernanda Justo
Ilustrações:
Leonardo Cardoso
Cartaz da CF 2020:
Edições CNBB
Capa:
Júlia Costa Fonseca
Projeto Gráfico e diagramação:
Henrique Billygran Santos de Jesus
Impressão e acabamento:
Foxy editora gráfica

Edições CNBB
SAAN Quadra 3, Lotes 590/600
Zona Industrial – Brasília-DF
CEP: 70.632-350
Fone: 0800 940 3019 / (61) 2193-3019
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C748c CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / Campanha da Fraternidade 2020:
Manual. Brasília: Edições CNBB, 2019.

Campanha da Fraternidade 2020: Manual / CNBB.


432 p.: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7972-778-8

1. Campanha da Fraternidade;
2. Dom – compromisso;
3. Paz – solidariedade.

CDU: 250.1
Sumário
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Oração da CF 2019 .........................................................................................4


Hino da CF 2019 ............................................................................................5
Apresentação ...............................................................................................7
Texto-base .................................................................................................11
Fraternidade Viva ....................................................................................114
Encontros Catequéticos para Crianças e Adolescentes ..................................141
Jovens na CF .............................................................................................167
Círculos Bíblicos ........................................................................................198
Via-sacra ..................................................................................................224
Vigília Eucarística e Celebração da Misericórdia ..........................................243
Celebração Ecumênica...............................................................................269
Ensino Fundamental I ...............................................................................279
Ensino Fundamental II ..............................................................................299
Ensino Médio ............................................................................................320
Famílias na CF...........................................................................................338
Retiro Popular Quaresmal .........................................................................370
Oração da Campanha da Fraternidade 2020
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Deus, nosso Pai, fonte da vida e princípio do bem viver,


criastes o ser humano e lhe confiastes o mundo
como um jardim a ser cultivado com amor.

Dai-nos um coração acolhedor para assumir


a vida como dom e compromisso.

Abri nossos olhos para ver


as necessidades dos nossos irmãos e irmãs,
sobretudo dos mais pobres e marginalizados.

Ensinai-nos a sentir a verdadeira compaixão


expressa no cuidado fraterno,
próprio de quem reconhece no próximo
o rosto do vosso Filho.

Inspirai-nos palavras e ações para sermos


construtores de uma nova sociedade,
reconciliada no amor.

Dai-nos a graça de vivermos


em comunidades eclesiais missionárias
que, compadecidas,
vejam, se aproximem e cuidem
daqueles que sofrem,
a exemplo de Maria, a Senhora da Conceição Aparecida,
e de Santa Dulce dos Pobres, Anjo Bom do Brasil.

Por Jesus, o Filho amado,


no Espírito, Senhor que dá a vida.
Amém!

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Hino da Campanha da Fraternidade 2020
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Tema: Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso


Lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (cf. Lc 10,33-34)
Autor: José Antonio de Oliveira

1) Deus de amor e de ternura, contemplamos


este mundo tão bonito que nos deste. (Cf. Gn 1,2-15; 2,1-25)
Desse Dom, fonte da vida, recordamos: (Cf. SI 36,10)
Cuidadores, guardiões tu nos fizeste. (Cf. Gn 2,15)

Peregrinos, aprendemos nesta estrada


o que o “bom samaritano” ensinou:
Ao passar por uma vida ameaçada,
Ele a viu, compadeceu e cuidou. (Cf. Lc 10,33-34)

2) Toda vida é um presente e é sagrada,


seja humana, vegetal ou animal. (Cf. LS, esp. Cap. IV)
É pra sempre ser cuidada e respeitada,
desde o início até seu termo natural.

3) Tua glória é o homem vivo, Deus da Vida; (Cf. Santo Irineu)


ver felizes os teus filhos, tuas filhas;
é a justiça para todos, sem medida; (Cf. Am 5,24)
É formarmos, no amor, bela Família.

4) Mata a vida o vírus torpe da ganância,


da violência, da mentira e da ambição.
Mas também o preconceito, a intolerância.
O caminho é a justiça e conversão. (Cf. 2Tm 2,22-26)

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Apresentação
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A Campanha da Fraternidade é um modo privilegiado pelo qual


a Igreja no Brasil vivencia a Quaresma. Há mais de cinco décadas,
ela anuncia a importância de não separar a conversão do serviço aos
irmãos e irmãs, à sociedade e ao planeta, nossa Casa Comum. A cada
ano, um tema é destacado como sinal de que realmente necessitamos
de conversão. Assim, a Campanha da Fraternidade já nos convidou
a enfrentar realidades muito próximas dos brasileiros, por exemplo:
família, políticas públicas, saúde, trabalho, educação, moradia e vio-
lência, entre outros enfoques. Em cada um desses temas tão especí-
ficos, temos sido convidados a alargar nosso olhar e a perceber que o
pecado ameaça a vida como um todo.
Neste ano, somos convidados a olhar, de modo mais atento e deta-
lhado, para a vida. Longe de ser uma mera repetição de assunto exausti-
vamente abordado, o tema vida emerge em nossos dias como um clamor
que brota de tantos corações que sofrem de inúmeras formas e da criação
que se vê espoliada (LS, n. 53). Como nos indicou a Campanha da Fra-
ternidade de 2019, que tratou das políticas públicas, esse clamor se depa-
ra com a insuficiência de ações efetivas para a superação dos problemas.
O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito qua-
resmal, volta-se também para os irmãos e irmãs, contempla o planeta,
identificando a criação como presente amoroso do Senhor. Percebe-se
também que não estamos cuidando como deveríamos desse amoroso
presente divino. Constata-se que chegamos a um ponto em que até
mesmo a nossa condição humana mais profunda esbarra em uma série
de angustiantes indagações. O que aconteceu conosco? O que vem
ocorrendo com a humanidade, que, embora percebendo o aumento
dos números de sofrimentos, parece não mais sensibilizar-se com eles?
Teríamos deixado se perder o sentido mais profundo da vida? Diante,
por exemplo, de concepções de felicidade individualista e consumista,
não estaríamos nos esquecendo do significado maior da existência?
Por que vemos crescer tantas formas de violência, agressividade e des-
truição? Perdemos, de fato, o valor da fraternidade?
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Em meio a tantas questões, a Campanha da Fraternidade deste
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ano nos convoca a refletir sobre o significado mais profundo da vida e


a encontrar caminhos para que esse sentido seja fortalecido e, algumas
vezes, até mesmo reencontrado. Não será uma Campanha que aborda-
rá apenas uma dentre tantas questões angustiantes, consequências do
pecado. Será uma Campanha que, olhando transversalmente as diver-
sas realidades, nos interpelará a respeito do sentido que estamos, na
prática, atribuindo à vida nas suas diversas dimensões: pessoal, comu-
nitária, social e ecológica.
Para nos ajudar, nunca será demasiado recordar o que o Papa
Francisco conclamou, logo no início do seu pontificado, quando visi-
tou a ilha de Lampedusa, sul da Itália, em julho de 2013. Aquela era
a primeira viagem que ele fazia depois de assumir a missão de suces-
sor de Pedro. Da pequena ilha no Mar Mediterrâneo, o Papa nos con-
vocou a vencer a “globalização da indiferença”. Se já não somos mais
capazes de perceber a desumana dor ao nosso lado, também nós nos
tornamos desumanizados.
É por isso que a Campanha da Fraternidade de 2020 proclama: a
vida é Dom e Compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-
-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que
interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do
caminho (Lc 10,25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo
das dores dos irmãos e irmãs.
Para combater a autossuficiência, somos quaresmalmente convi-
dados a redescobrir o dom de Deus ( Jo 4,10). Vivendo a conversão
e buscando assumir o espírito da Quaresma com toda a sua riqueza
espiritual. Diante da inconsequência, somos interpelados a recuperar
o valor do compromisso (Lc 14,25-33). Assustados pela indiferença,
torna-se urgente testemunhar e estimular a solidariedade (Mt 25,45).
Em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, somos vocaciona-
dos ao intercâmbio do cuidar: cuidamos uns dos outros, cuidamos
juntos da Casa Comum, porque Deus sempre cuida de todos nós
(Sl 8,4; Is 49,15; 1 Pd 5,7)!

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Permita o Bom Deus que cada pessoa, grupo pastoral, movimen-
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to, associação, Igreja Particular, enfim, o Brasil inteiro, motivado pela


Campanha da Fraternidade, possa ver fortalecida a revolução do cui-
dado, do zelo, da preocupação mútua e, portanto, da fraternidade. Ao
final deste texto, como de costume, são apresentadas algumas suges-
tões para o agir. Muito mais pode ser feito quando o coração se abre
para o intercâmbio do cuidado, e a criatividade se deixa conduzir pela
fraternidade e pela solidariedade.
Não nos acomodemos com a virulência do pecado. A Quaresma
é um tempo para reforçarmos em nós a fé no Ressuscitado. Jesus ven-
ceu a morte. Jesus derrotou o pecado. Nele, com Ele e por Ele, também
nós o faremos, reconstruindo os laços, unindo os corações, as mentes
e a sociedade.
Não temamos se nos sentirmos pequenos diante dos problemas.
Lembremo-nos de Santa Dulce dos Pobres, mulher frágil no corpo,
mas fortaleza peregrinante pelas terras de São Salvador da Bahia de
Todos os Santos. Dulce, presença inquestionável do amor de Deus
pelos pobres e sofredores. Dulce, incansável peregrina da caridade e
da fraternidade. Dulce, testemunho irrefutável de que a vida é dom
e compromisso. Dulce que via, se compadecia e cuidava. Dulce que
intercede por nós no céu.

Brasília, 6 de agosto de 2019

Dom Walmor Oliveira de Azevedo Dom Jaime Spengler, OFM


Arcebispo de Belo Horizonte – MG Arcebispo de Porto Alegre – RS
Presidente 1º Vice-Presidente

Dom Mário Antônio da Silva Dom Joel Portella Amado


Bispo de Roraima – RR Bispo Auxiliar de São Sebastião
2º Vice-Presidente do Rio de Janeiro – RJ
Secretário-Geral

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Lista de siglas
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CA Centesimus Annus
CDSI Compêndio da Doutrina Social da Igreja
CIgC Catecismo da Igreja Católica
CV Caritas in Veritate
DAp Documento de Aparecida
DCE Deus Caritas Est
DGAE Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil
DM Dives in Misericordia
EG Evangelii Gaudium
EV Evangelium Vitae
GeE Gaudete et Exsultate
GS Gaudium et Spes
GSa Gratissimam Sane
LS Laudato Si’
NMI Novo Millennio Ineunte

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O Bom Samaritano: Anúncio da
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compaixão e do cuidado com a vida

1. Em meio aos inúmeros e ricos textos bíblicos que podem ilu-


minar a nossa Quaresma, um deles é destacado pela Campanha da
Fraternidade deste ano, tornando-se referência para tudo o que vier-
mos a rezar, refletir e agir: “‘25Um doutor da Lei se levantou e, para
experimentar Jesus, perguntou: “Mestre, que devo fazer para herdar
a vida eterna?” 26Jesus lhe disse: “Que está escrito na Lei? Como lês?”
27
Ele respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com
toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento; e a
teu próximo como a ti mesmo!” 28Jesus lhe disse: “Respondeste correta-
mente. Faze isso e viverás”. 29Ele, porém, querendo justificar-se, disse
a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30Jesus retomou: “Certo homem
descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe
arrancaram tudo, espancaram-no e foram embora, deixando-o meio
morto. 31Por acaso descia por aquele caminho um sacerdote, mas ao
ver o homem, passou longe. 32Assim também um levita: chegou ao lu-
gar, viu o homem e seguiu adiante pelo outro lado. 33Um samaritano,
porém, que estava viajando, chegou perto dele e, ao vê-lo, moveu-se de
compaixão. 34Aproximou-se dele e tratou-lhe as feridas, derramando
nelas azeite e vinho. Depois, colocou-o sobre seu próprio animal e o
levou a uma hospedaria, onde cuidou dele. 35No dia seguinte, pegou
dois denários e deu-os ao dono da hospedaria, recomendando: ‘Cui-
da dele, e o que gastares a mais, eu o pagarei quando eu voltar’. 36No
teu parecer, qual dos três fez-se o próximo do homem que caiu nas
mãos dos assaltantes?” 37Ele respondeu: “Aquele que usou de mise-
ricórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze o mesmo”’
(Lc 10,25-37).
2. Essa parábola, proposta por Jesus em seu caminho de subida a
Jerusalém (Lc 9,51–19,27), é parte da explicação do que seria neces-
sário fazer para entrar na vida eterna. Esse tipo de questionamento era
muito comum naquele tempo já que existiam mais de 613 leis e outras
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prescrições pontuais a serem cumpridas para se chegar a esse fim. Por
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essa razão, vendo a impossibilidade de cumprir fielmente todos os


mandamentos, o doutor da lei questiona Jesus sobre o que realmente
não poderia deixar de ser feito para herdar a vida eterna.
3. “Que devo fazer?”. A busca pelo cumprimento exato das pres-
crições da lei deveria ser seguida do esforço pessoal para colocá-las em
prática. Diante da questão, Jesus responde com uma nova pergunta
com a qual indaga sobre o conteúdo das Escrituras. O que elas dizem
sobre o que fazer para herdar a vida eterna? A resposta oferecida pelo
doutor da lei a Jesus conecta Dt 6,5 a Lv 19,18 criando um mandamen-
to único composto de duas partes: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo
o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu
entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10,27).
4. A Jesus não interessava inserir um novo ensino teórico sobre
os deveres em relação ao mandamento do amor a Deus e ao próximo.
Diante da segunda pergunta do doutor da lei, “Quem é meu próxi-
mo?”, Jesus propõe uma nova perspectiva e uma nova possibilidade
de realizar tal mandamento, divergindo do que havia sido proposto.
Os mestres fariseus já haviam ensaiado muitas vezes respostas sobre
quem seria o próximo citado em Lv 19,18. No entanto, suas respostas
oscilavam sempre entre as ligações nacionais, étnicas, afetivas, sociais
e religiosas. No texto do Antigo Testamento, o próximo era o compa-
triota, membro do povo de Deus e também aquele que tinha sido inse-
rido no povo na medida em que assumia sua religião e seus costumes
(Lv 19,33-34).
5. A parábola é composta por cinco personagens anônimos, indi-
cados apenas por suas etnias ou funções, e ocorre em um local de fácil
compreensão para alguém daquele tempo. Por isso, embora seja uma
parábola, a história narrada possui grande possibilidade de ter sido,
ao menos em parte, um fato que realmente aconteceu na estrada que
ligava Jericó a Jerusalém. Um homem, vítima de salteadores, é deixa-
do quase morto, à beira da estrada. O fato de ter sido agredido leva
a pensar na possibilidade de ter resistido ao assalto, o que lhe teria

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ocasionado a agressão quase fatal e o abandono à beira da estrada, não
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sendo mais capaz de fazer algo por si mesmo.


6. Dois transeuntes oriundos do templo, o sacerdote, responsável
pelos sacrifícios, e o levita, responsável pela animação da liturgia, re-
tornam de Jerusalém após concluírem seus turnos de trabalho e agem
com indiferença diante daquele que jaz sofrendo à beira da estrada.
Não se descreve o motivo da indiferença. Poderia ser por motivos cul-
turais, religiosos [se fossem contaminados com o sangue ou o homem
viesse a morrer, ficariam impuros (Lv 15; 21,11)], ou simplesmente
por não desejarem interromper a viagem, não mudarem seus planos,
não terem seu trajeto e horário prejudicados por esse acontecimento.
De qualquer forma, é dito que viram o homem e se distanciaram dele,
seguindo o trajeto anteriormente proposto.
7. Um samaritano que passava, ao ver o homem, sentiu compai-
xão. Essa compaixão nasceu do seu modo diferente de olhar, do seu
modo diferente de perceber aquela realidade. Essa compaixão o levou
a se aproximar do homem, gastar tempo, modificar parcialmente sua
viagem, tudo para não ser indiferente com aquele que sofria diante
dele. Os cuidados práticos descritos na parábola são emergenciais:
desinfeta as feridas com vinho e alivia a dor com o óleo, costumes da-
quele tempo; transporta o homem até a hospedaria e paga as despesas
de sua estada.
8. A postura inesperada do samaritano contém o centro do en-
sinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem pos-
suímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. É todo
aquele que sofre diante de nós. Não é a lei que estabelece prioridades,
mas a compaixão que impulsiona a fazer pelo outro aquilo que é pos-
sível, rompendo, dessa forma, com a indiferença. A fé leva necessaria-
mente à ação, à fraternidade e à caridade.
9. A vida nos traz oportunidades de concretizar a fé em atitu-
des bem específicas. Para perceber os outros, principalmente em suas
necessidades, não bastam os conceitos, mas, sim, a compaixão e a

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proximidade. Não se deve questionar quem é o destinatário do amor.
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Importa identificar quem deve amar e não tanto quem deve ser amado,
pois todos devem ser amados, sem distinção. Não importa quem é o
próximo. Importa quem, por compaixão, se torna próximo do outro
(Lc 10,36). A medida do amor para com o próximo não é estabelecida
com base em pertença religiosa, grupo social ou visão de mundo. Ela
é estabelecida pela necessidade do outro, acolhendo como próximo
qualquer pessoa de quem se possa acercar com amor generoso e ope-
rativo. Isso abre uma nova perspectiva nos relacionamentos, excluindo
a indiferença diante da dor alheia.
10. No final da narrativa, Jesus se dirige novamente ao doutor da lei
com uma nova pergunta: “No teu parecer, qual dos três fez-se próximo
do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lc 10,36). Desse modo,
afirma Papa Francisco, Jesus inverte a pergunta do seu interlocutor e tam-
bém a lógica de todos nós. Cristo nos faz entender que não somos nós,
com base em nossos critérios, que definimos quem é o próximo e quem
não é, mas é a pessoa em situação de necessidade a quem devemos reco-
nhecer como próximo, isto é, usar de misericórdia para com ela.
11. “Ser capazes de sentir compaixão: essa é a chave. Essa é a nos-
sa chave. Se, diante de uma pessoa necessitada, você não sente com-
paixão, o seu coração não se comove, significa que algo não funciona.
Fique atento, estejamos atentos. Não nos deixemos levar pela insensi-
bilidade egoística. A capacidade de compaixão se tornou a medida do
cristão, ou melhor, do ensinamento de Jesus”. 1
12. Discursando aos párocos da Diocese de Roma sobre o signi-
ficado da misericórdia para um presbítero, o Papa Francisco apresenta
a proximidade, a afinidade e o serviço como critérios para a ação pas-
toral. Atitudes que nascem de uma autêntica escuta nos questionam
sobre a compaixão que habita em nossos corações e é expressa em
nossas atitudes. Interpela-nos o Santo Padre:

1 Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-07/papa-francisco-ange-


lus-bom-samaritano-misericordia.html>. Acesso em: 8 ago. 2019.

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13. “Tu choras? Ou perdemos as lágrimas. Recordo que os mis-
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sais antigos continham uma oração extremamente bonita para pedir


o dom das lágrimas. A oração começava assim: ‘Senhor, vós que con-
fiastes a Moisés o mandato de bater na pedra para que dela brotasse
água, batei na pedra do meu coração, para que eu verta lágrimas. (...)
quantos de nós choram diante do sofrimento de uma criança, perante
a destruição de uma família, diante de tantas pessoas que não encon-
tram o seu caminho?”.2
14. Recordando o exemplo dos moradores de rua e de como nos
comportamos diante de alguém caído no chão, Papa Francisco mais
uma vez nos provoca: “Pergunte a si mesmo se o seu coração não en-
dureceu, se não se tornou gelo. (...) A misericórdia, diante de uma vida
humana em situação de necessidade, é a verdadeira face do amor. Que
a Virgem Maria nos ajude a compreender e, sobretudo, a viver sempre
mais o elo indissolúvel que existe entre o amor a Deus, nosso Pai, e o
amor concreto e generoso pelos nossos irmãos e nos dê a graça de ter e
crescer na compaixão”.3 O Bom Samaritano nos inspira e ensina como
vencer a globalização da indiferença.
15. O rompimento da indiferença torna o samaritano mais hu-
mano. A compaixão expressa o zelo aos moldes de Deus: aproximar-
-se e fazer-se útil ao outro. Servi-lo! Ver, sentir compaixão e cuidar
apresentam-se como um autêntico PROGRAMA QUARESMAL:
1) escuta da Palavra que converte o coração; 2) verdadeira atenção
pelos outros; 3) romper com a indiferença frente ao sofrimento;
4) disponibilidade para o serviço. Torna-se, assim, visível a corres-
ponsabilidade da vida humana, pois somos todos irmãos e irmãs
(Mt 23,8) e, por isso, responsáveis uns pelos outros. Assim se define
a vida!

2 Discurso do Papa Francisco aos párocos da Diocese de Roma. Sala Paulo VI, 6 de março de
2014.
3 Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-07/papa-francisco-ange-
lus-bom-samaritano-misericordia.html>. Acesso em: 8 ago. 2019.

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16. Quaresma é tempo favorável para sairmos de nossa aliena-
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ção existencial causada pelo pecado.4 Tempo de abertura ao mistério


da dor e da morte, da cruz, do Crucificado, Vencedor da morte. Nele
somos conduzidos à graça da vida plena, que é o encontro com Deus
e a aceitação de sua vontade salvífica. Por essa razão, o Evangelho abre
nossos olhos para vermos a grandeza e a profundidade do viver em
Cristo. Graças à escuta da Palavra de Deus, percorremos um itinerário
que nos deixa intuir a preciosidade da existência cristã e vivermos na
liberdade e na verdade de sermos filhas e filhos de Deus. A escuta tam-
bém é profecia: escutar a voz de Deus em sua Palavra e ouvir a palavra
daqueles que já não conseguem dizer nada!
17. A Igreja nos recorda que esse caminho de vida nova em
Cristo e com Cristo pede jejum, oração e esmola. O jejum ajuda a
esvaziar-se, abrir-se ao outro. No vazio de nós mesmos, somos fecun-
dados pela gratuidade da vida. Jesus crucificado, vazio de si, é entrega
suave-sofrida ao Pai: “em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,45).
No jejum somos reintegrados! A oração, diálogo de amor, de amizade,
é aproximação, nova relação, exposição; ocasião em que somos toca-
dos pela amorosidade de Deus. Uma súplica de afeto e amor: “Meu
Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46). Esmola: partilha
de vida, cuidado amoroso, liberdade de entrega! A esmola é encontro
com o próximo; é exercício de compromisso com o dom da vida, pois,
“para o outro, o próximo é você” (CF 1969).
18. “Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo
nos irmãos e irmãs necessitados de serem nutridos, vestidos, alojados,
visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de
pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as
obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efei-
to, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado
que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio

4 FRANCISCO. Mensagem para a Quaresma de 2015. Disponível em: <http://w2.vatican.va/


content/francesco/pt/messages/lent/documents/papa-francesco_20141004_messaggio-qua-
resima2015.html>. Acesso em: 19 set. 2019.

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um pobre mendigo. Por essa estrada, também os soberbos, os pode-
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rosos e os ricos, de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aper-


ceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e
ressuscitado também por eles”.5
19. Jesus é o verdadeiro bom samaritano que se aproxima dos ho-
mens e das mulheres que sofrem e, por compaixão, lhes restitui a digni-
dade perdida. A encarnação é sinal concreto da proximidade de Deus
que salva aqueles que jazem nos sofrimentos. A perspectiva do Paraíso
eterno orienta a vida ainda no momento presente e convida os homens
e as mulheres a terem em si os mesmos sentimentos que estão no cora-
ção misericordioso de Cristo, apresentando, assim, o anúncio do reino
de Deus e ressignificando a vida humana como dom e compromisso.
20. “O próprio Jesus é o modelo dessa opção evangelizadora que
nos introduz no coração do povo. Como nos faz bem vê-lo perto de
todos! Se falava com alguém, fitava os seus olhos com uma profun-
da solicitude cheia de amor: ‘Jesus, fitando-o, com amor’ (Mc 10,21).
Vemo-lo disponível ao encontro, quando manda aproximar-se o cego
do caminho (Mc 10,46-52) e quando come e bebe com os pecado-
res (Mc 2,16), sem se importar que o chamem de comilão e beberrão
(Mt 11,19). Vemo-lo disponível quando deixa uma prostituta ungir-
-lhe os pés (Lc 7,36-50) ou quando recebe, de noite, Nicodemos
( Jo 3,1-15). A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar desse esti-
lo que marcou toda a sua vida. Fascinados por esse modelo, queremos
inserir-nos a fundo na sociedade, partilhamos a vida com todos, ou-
vimos as suas preocupações, colaboramos material e espiritualmente
nas suas necessidades, alegramo-nos com os que estão alegres, chora-
mos com os que choram e comprometemo-nos na construção de um
mundo novo, lado a lado com os outros. Mas não como uma obriga-
ção, nem como um peso que nos desgasta, mas como uma opção pes-
soal que nos enche de alegria e nos dá uma identidade” (EG, n. 269).6

5 Idem.
6 FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: a Alegria do Evangelho sobre o anúncio
do Evangelho no mundo atual. (Documentos Pontifícios, 17). Brasília: Edições CNBB, 2015.

19
21. Na busca de transformação e santificação, a Igreja no Brasil,
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oferece às Comunidades, no tempo da Quaresma, uma realidade para


ser refletida, meditada, rezada. É a Campanha da Fraternidade que, nes-
te ano, tem como tema: “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”
e como Lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).
22. Fraternidade e Vida! Pelo Verbo de Deus tudo foi criado e
no faça-se! (Gn 1,3), quando tudo passou a existir, a vida divina foi
irresistivelmente comunicada como um transbordamento do amor
Trinitário.7 Todos os seres animados e inanimados, como efusão do
amor de Deus, foram criados por amor. Nada escapa ou está fora desse
amor. Assim, Deus vem ao nosso encontro, pois quer “(...) comunicar
a sua própria vida divina aos homens, criados livremente por ele, para
fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos” (CIgC, n. 52).8 Essa
comunicação de Deus nos permite conhecê-lo e amá-lo e, assim, par-
ticiparmos da glória amorosa da Trindade Santa.
23. Dom e Compromisso! A vida é um dom que recebemos
de Deus e que somos chamados a partilhar em busca da plenitude:
“De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito,
para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”
( Jo 3,16). Deus tudo disse no seu Verbo encarnado: “Cristo, o Filho
de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai”
(CIgC, n. 65). Eis o nosso compromisso para com essa vida, dom de
Deus: levá-la à plenitude de Cristo. Criados à sua imagem e semelhan-
ça, somos filhos no Filho e os seus gestos de fraternidade nos ensinam
este caminho: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).
24. Vida é Dom de Deus! “Eu vim para que tenham a vida, e a te-
nham em abundância” ( Jo 10,10). Jesus Cristo não apenas anunciou,
mas Ele mesmo é a plenitude, a consumação de toda a vida. O seu
viver, sua pregação, sua morte e Ressurreição despertam para o senti-
do da vida e, assim, Ele mesmo se revela para nós como o Caminho,

7 SÃO BOAVENTURA. Itinerário da mente para Deus. São Paulo: Vozes, 2012, p. 85-93.
8 SANTA SÉ. Catecismo da Igreja Católica. Brasília: Edições CNBB, 2013.

20
a Verdade e a Vida! ( Jo 14,6). Ele anuncia o ano da graça do Senhor,
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pois, na unção, proclama a liberdade aos presos no corpo e na alma,


oferece visão aos cegos sem horizontes, liberta e alivia os oprimidos
pela ganância e egoísmo; é a Boa-nova da solidariedade e da gratuida-
de para os pobres e desamparados (Lc 4,16-19).
25. Vida é compromisso fraterno! A vida como dom nos con-
duz a um compromisso. Despertamos para a responsabilidade de nos-
sa existência e de todas as criaturas. Compromisso como promessa
de permanecer junto de, comprometer-se com. É o que lemos e vemos
na parábola do bom samaritano. Ele permanece junto ao assaltado e
garante-lhe acolhimento e cuidado: VER, SENTIR COMPAIXÃO e
CUIDAR serão os verbos de ação que nos conduzirão no tempo qua-
resmal. Que possamos nos dispor a uma profunda conversão da cultu-
ra da morte para a cultura da vida.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2020


Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso
“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

Objetivo geral
Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida
como Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo
cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e
no planeta, nossa Casa Comum.

Objetivos específicos
 Apresentar o sentido de vida proposto por Jesus nos Evangelhos;
 Propor a compaixão, a ternura e o cuidado como exigências fun-
damentais da vida para relações sociais mais humanas;
 Fortalecer a cultura do encontro, da fraternidade e a revolução
do cuidado como caminhos de superação da indiferença e da
violência;

21
 Promover e defender a vida, desde a fecundação até o seu fim
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natural, rumo à plenitude;


 Despertar as famílias para a beleza do amor que gera continua-
mente vida nova;
 Preparar os cristãos e as comunidades para anunciar, com o tes-
temunho e as ações de mútuo cuidado, a vida plena do Reino de
Deus;
 Criar espaços nas comunidades para que, pelo batismo, pela
crisma e pela eucaristia, todos percebam, na fraternidade, a vida
como Dom e Compromisso;
 Despertar os jovens para o dom e a beleza da vida, motivando-
-lhes o engajamento em ações de cuidado mútuo, especialmente
de outros jovens em situação de sofrimento e desesperança;
 Valorizar, divulgar e fortalecer as inúmeras iniciativas já existen-
tes em favor da vida;
 Cuidar do planeta, nossa Casa Comum, comprometendo-se
com a ecologia integral.

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I PARTE – “VIU, sentiu compaixão e
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cuidou dele” (Lc 10,33-34)

1. O olhar de Jesus – atenção aos outros


“Se buscarmos o princípio deste olhar,
é necessário voltar ao livro do Gênesis,
naquele instante em que, depois da criação do ser humano,
‘homem e mulher’, Deus viu ‘que era muito bom’.
Esse primeiro olhar do Criador se reflete no olhar de Cristo”.9

26. Diante do convite para vivermos uma profunda conversão,


temos duas maneiras de olhar que são apresentadas por Jesus na pa-
rábola do bom samaritano: um olhar que vê e passa em frente, vivido
pelo sacerdote e pelo levita; e um olhar que vê e permanece, se en-
volve, se compromete, vivido pelo samaritano. Diante desses olhares,
há uma vida em jogo, em perigo, necessitada e vulnerável. Para uma
verdadeira mudança de vida, precisamos aprender a configurar nosso
olhar com o de Jesus, com o olhar do Bom Samaritano. Nesse sentido,
é interessante observar também que as duas vidas marcadas pelo ego-
ísmo correm o risco da morte eterna, consequência do pecado.
27. “Somente um olhar interessado pelo destino do mundo e do
ser humano permitirá experimentar a dor pela situação que rege a his-
tória, mas que é superada pelo amor de Deus que a envolve. Somente
contemplando o mundo com os olhos de Deus, é possível perceber e
acolher o grito que emerge das várias faces da pobreza e da agonia da
criação” (DGAE 2019-2023, n. 102).10

9 SÃO JOÃO PAULO II. Carta aos jovens no ano Internacional da Juventude, 31 de março de
1985, n. 7.
10 CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. (Documentos
da CNBB, 109). Brasília: Edições CNBB, 2019.

23
28. O olhar que vê e passa adiante representa toda indiferença e
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desprezo pela vida do outro. Reflete aquilo que temos por dentro. Pelo
olhar, construímos e se manifestam os conceitos mais profundos sobre
a vida e o viver. Pelo olhar, podemos expressar verdades e mentiras,
amor e ódio, alegria e tristeza. Muitas vezes nosso olhar pode se tornar
maldoso, viciado e cansado. É preciso exercitar a mesma perspectiva
do olhar virtuoso que Cristo nos ensina. Não um olhar de indiferen-
ça, mas de compaixão. Essa foi a virtude que muitos santos buscaram
viver em suas vidas: conformar seus olhos ao olhar de Cristo. Santa
Terezinha, por exemplo, nos diz:

“Ah! Compreendo agora que a caridade perfeita consiste em


suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas
fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que
se lhes vir praticar; mas compreendi, sobretudo, que a caridade não
deve ficar encerrada no fundo do coração: ‘ninguém, disse Jesus,
acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas coloca-
-a sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa’. Creio
que essa luz representa a caridade, que deve iluminar e alegrar, não só
os que são mais queridos, mas todos aqueles que estão em casa, sem
exceção de ninguém”.11

29. Na Conferência de Aparecida (2007), os Bispos afirmam


que devemos olhar a realidade como discípulos missionários de Jesus
Cristo (DAp, n. 20)12 a fim de não nos deixarmos afligir pelas situa-
ções que contrariam o plano de Deus e atentam contra a vida nas suas
múltiplas formas. Além disso, o olhar de discípulos missionários nos
anima, porque nos revela a beleza e a alegria escondidas em uma rea-
lidade que, às vezes, se mostra caótica e desesperadora. A vida, como
Dom e Compromisso, é portadora de uma beleza e de uma alegria que

11 SANTA TEREZINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. São Paulo: Paulos, 2002.
12 CELAM. Documento de Aparecida: Documento Conclusivo da V Conferência Geral do Episco-
pado Latino-Americano e do Caribe. Brasília-São Paulo: Edições CNBB-Paulus-Paulinas, 2008.

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nos levam a superar a dor e o sofrimento, as injustiças e as violações
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de direitos, convencidos de que “Deus criou o infinito para a vida ser


sempre mais!”.13
Uma samaritana comprometida com a vida
No dia 26 de maio de 1914, nascia em Salvador, Bahia, Maria
Rita de Souza Brito Lopes Pontes, (1914-1992) missionária do amor,
conhecida por todos como Irmã Dulce; nome que traz em homena-
gem à sua mãe, mas que, ao mesmo tempo, carrega a essência de sua
alma, a doçura em seu coração que ardentemente desejava servir a
Deus por intermédio do próximo.
Aos 13 anos, graças ao seu destemor e senso de justiça, traços
marcantes revelados quando ainda era muito novinha, Irmã Dulce
passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando
a residência da família em um centro de atendimento. A casa ficou
conhecida como “A Portaria de São Francisco”, tal o número de
carentes que se aglomeravam à sua porta. Também é nessa época que
ela manifesta, pela primeira vez, após visitar com uma tia áreas onde
habitavam pessoas pobres, o desejo de se dedicar à vida religiosa.
Tendo iniciado sua caminhada junto às Irmãs Missionárias da
Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão,
em Sergipe, depois da profissão religiosa ela retornou para Salvador,
onde se viu imersa em uma realidade de miséria e de pobreza sobre
a qual escreveria tempos depois: “As lágrimas enchiam meus olhos...
O meu coração estava invadido pela dor em ver tanta miséria ao meu
redor”. Foi assim que, caminhando ao lado dos excluídos na região
de Alagados, pelas ruas e vielas, pelas favelas e palafitas da cidade de
Salvador, a presença de Santa Dulce ao lado dos abandonados à mar-
gem do sistema que exclui e flagela o seu povo, é sinal de uma vida
inteiramente doada ao próximo, tal qual o bom samaritano descrito
no Evangelho.
Indo ao encontro daqueles que necessitavam de sua ajuda, em
pouco tempo, Santa Dulce conseguiu autorização de sua superiora

13 Canção: “Se calarem a voz dos profetas”. Autor: Antônio Cardoso.

25
para trabalhar com aqueles a quem tanto chamava seu coração, tor-
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nando-se, assim, verdadeira samaritana em seu meio, presença e ima-


gem de Cristo que cuida e conforta a todos aqueles que se encontram
em estado de miséria e sofrimento.
Santa Dulce cuidou das famílias de operários e desempregados.
Tal cuidado logo se estendeu a todos aqueles que pediam sua aju-
da. Em uma pequena casa abandonada, construiu um consultório
para cuidar daqueles que passavam por grandes enfermidades e não
tinham ninguém para os socorrer, lembrando, assim, o Evangelho de
Lucas: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (10,33-34).
Por estar em uma casa considerada invadida, logo foi expulsa de lá
com seus doentes e, assim, ficou peregrinando por dez anos em diversos
locais de Salvador. Nesse tempo, Deus a inspira a levar seus doentes ao
Convento Santo Antônio, lugar de habitação das religiosas de sua congre-
gação e, com autorização de sua superiora, instalou-os no galinheiro, que
em pouco tempo se tornaria um dos maiores hospitais públicos do Brasil.
Assim, Santa Dulce dedicava-se cada dia à sua missão e, mesmo em
estado de saúde precário, por causa de um problema pulmonar, não con-
seguia ficar longe dos pobres, aqueles a quem se via incumbida por Deus
de cuidar, seus “filhos”, a quem ela configurava a sua vida por amor. E aos
poucos foram nascendo as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), nas quais
nosso anjo bom da Bahia dedicou sua vida a todos aqueles que eram mar-
ginalizados e necessitavam de cuidados, obras que, segundo nossa queri-
da santa brasileira, não eram suas, porém de Deus.
Hoje, mais de vinte anos depois de sua páscoa para a vida eter-
na, temos um grande modelo de santidade, com carisma missionário
e cuidadoso, em nossas vidas. Vida doada é vida santificada! Mulher
corajosa, boa samaritana no meio em que viveu. Irmã Dulce é hoje
para nós exemplo de fé, amor, cuidado com a vida e compromisso
cristão com aqueles que mais necessitam.14

14 PASSARELLI, Gaetano. Irmã Dulce: o anjo bom da Bahia. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2012.

26
1.1. O olhar da indiferença gera ameaças à vida
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1.1.1. O olhar que abandona a vida das pessoas


“É preciso que todos tenham fé e esperança
em um futuro melhor.
O essencial é confiar em Deus.
O amor constrói e solidifica.”
(Santa Dulce dos Pobres)15

30. A realidade mostra que será necessário empreender muitos


esforços para que realmente a vida esteja em primeiro lugar. No Brasil,
22,6% das crianças e adolescentes com idade entre 0 e 14 anos vivem em
situação de extrema pobreza. Esses dados correspondem a 9,4 milhões de
menores com renda domiciliar per capita mensal inferior ou igual a um
quarto de salário mínimo, ou R$ 234,25 em valores de 2017. Além des-
ses dados, 2,5 milhões de crianças e adolescentes até 17 anos trabalham;
11,7 mil crianças e adolescentes foram vítimas de homicídios em 2017;
mais de 3 milhões de domicílios estão em favelas; 16,4% das adolescen-
tes são mães antes dos 19 anos.16 É igualmente alarmante o crescimento
do número de pessoas desaparecidas, razão de angústia para familiares.17
31. A desigualdade é um triste distintivo da sociedade brasileira.
Em 2017, o Brasil era o 9º país mais desigual do planeta em distri-
buição de renda. Dados do IBGE revelam que, no ano de 2018, “os
50% mais pobres da população brasileira sofreram uma retração de
3,5% nos seus rendimentos do trabalho (...) Por outro lado os 10%
de brasileiros mais ricos tiveram crescimento de quase 6% em seus
rendimentos do trabalho”.18

15 Todas as citações de Santa Dulce do presente do texto encontram-se nesta referência: OBRAS
SOCIAIS IRMÃ DULCE. Disponível em: <https://www.irmadulce.org.br/portugues/religio-
so/vida-de-irma-dulce>. Acesso em: 16 set. 2019.
16 ABRINQ (Fundação). Cenário da infância e adolescência no Brasil 2019. Disponível em: <https://
www.fadc.org.br/sites/default/files/2019-05/cenario-brasil-2019.pdf>. Acesso em: 13 set. 2019.
17 Para mais informações, remetemos ao site: < https://www.desaparecidos.gov.br/>.
18 Dados segundo a Organização Não Governamental Oxfam. Disponível em: <http://agen-
ciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-11/renda-recua-e-Brasil-se-torna-o-
-9%C2%BA-pa%C3%ADs-mais-desigual>. Acesso em: 13 set. 2019.

27
32. Segundo os Bispos da América Latina e Caribe, a globaliza-
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ção econômica tem contribuído para o surgimento de novos rostos de


pobres cuja vida é desrespeitada e, constantemente, violada. A lista,
composta em 2007, parece não ter sofrido alterações na perspectiva de
superação da invisibilidade, da exclusão e do descarte que ameaçam a
pessoa humana. Assim, continuam a reclamar nossa atenção e cuida-
do: “os migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados,
as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os en-
fermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxicodependentes,
idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornogra-
fia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas
da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capaci-
dades diferentes, grandes grupos de desempregados(as), os excluídos
pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das gran-
des cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem-terra e
os mineiros” (DAp, n. 402).
33. O aborto é uma realidade que ameaça a vida das crianças des-
de o ventre materno. Vemos claramente o desprezo pelo nascituro e
pela sua dignidade em tantas tentativas de legislar a favor do aborto. A
criança, inocente e vulnerável, torna-se vítima cruel do não reconhe-
cimento do nascituro como pessoa, mas como objeto de descarte e
fonte de lucro, por exemplo, no uso de embriões para pesquisas. Esse
é o olhar perverso que não consegue perceber a dignidade da pessoa
desde a fecundação, negando as fases da nossa própria natureza. Da
mesma forma, o desprezo pela vida se manifesta, também, por meio
de projetos que querem regularizar a eutanásia e o suicídio assistido,
garantindo o que chamam direito de antecipação da morte.
34. Por essa razão, “a defesa do inocente nascituro, por exemplo,
deve ser clara, firme e apaixonada, porque nesse caso está em jogo a
dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda
a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento (...) igualmen-
te sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na mi-
séria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia

28
encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas
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de escravatura e em todas as formas de descarte” (GeE, n. 101).19


35. Nesse horizonte, não podemos deixar de citar também a re-
alidade de milhares de crianças órfãs que perderam suas famílias, so-
bretudo em tempos de forte violência e migração forçada. São crian-
ças que ficam invisíveis na sociedade do espetáculo e do consumo. O
olhar que despreza os mais inocentes e não os acolhe sofre de um ego-
ísmo doentio e de um pessimismo estéril incapaz de gerar vida e amor.
36. Outro cenário que agride a vida humana é o desemprego.
No primeiro trimestre de 2019, a taxa de desemprego atingiu 12,7%
da população. Segundo o IBGE, “a população desocupada (13,4
milhões) cresceu 10,2% (mais 1,2 milhões de pessoas) frente ao tri-
mestre de outubro a dezembro de 2018 (12,2 milhões)”.20 Além disso,
o número de pessoas desalentas (4,8 milhões) subiu em ambas as
comparações: mais 3,9% (180 mil pessoas) em relação ao trimestre
de outubro a dezembro de 2018 e mais 5,6% (256 mil pessoas) em
relação ao mesmo de 2018.
37. “O Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da
América Latina. Nos últimos dez anos, o número de pessoas com de-
pressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indivídu-
os, ou 4,4% da população da Terra. No Brasil, 5,8% dos habitantes (...)
sofrem com o problema. Em relação à ansiedade, o Brasil também lide-
ra, com 9,3% da população. Esse problema engloba efeitos como fobia,
transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático, ataques e
síndrome de pânico. As mulheres sofrem mais com a ansiedade: cerca
de 7,7% das mulheres são ansiosas e 5,1%, deprimidas. Já entre os ho-
mens, o número cai para 3,6% nos dois casos”. 21 Apesar de a depressão

19 FRANCISCO. Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no


mundo atual. (Documentos Pontifícios, 33). 3. ed. Brasília: Edições CNBB, 2019.
20 Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agen-
cia-de-noticias/releases/24284-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-12-7-e-taxa-de-su-
butilizacao-e-de-25-0-no-trimestre-encerrado-em-marco-de-2019>. Acesso em: 9 jul. 2019.
21 Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/brasil-vive-surto-de-depressao-e-ansieda-
de/>. Acesso em: 8 ago. 2019.

29
atingir sujeitos de todas as idades, os fatores de risco se tornam maiores
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quando somados à pobreza, ao desemprego, à promiscuidade sexual, às


mortes violentas, às crises de relacionamento, ao abandono, às doenças
inesperadas e ao uso de álcool e de drogas ilícitas.
38. A automutilação é um fenômeno que tem crescido entre os jo-
vens. Ela consiste em “uma prática de agredir o próprio corpo, que pode
acontecer de diferentes formas. A mais comum é fazer pequenos cortes na
pele, mas a pessoa também pode se bater, se queimar, arrancar os cabelos,
se furar com agulhas ou praticar qualquer outra autolesão. ‘Os ferimentos
costumam ser feitos em lugares que podem ser escondidos, como braço,
perna e barriga. Os adolescentes tentam escondê-los com pulseirinhas,
deixam de usar shorts e passam a usar mais mangas longas’”.22
39. Quem provoca tal agressão a si mesmo não busca a dor física
pelo prazer de senti-la, o que em si já é problemático. “‘Na maioria
dos casos, a automutilação é reflexo de uma incapacidade de lidar com
seus próprios sentimentos, como angústias, medos, tristeza e confli-
tos. Os adolescentes veem nessa prática a saída mais rápida para aliviar
esse intenso sofrimento. É uma troca da dor emocional pela dor física’
(...) O ato também pode ter relação com se punir por alguma atitude,
raiva ou com a baixa autoestima”.23 Em muitos desses casos, a tristeza
se apresenta como característica recorrente. Além disso, o bullying se
apresenta como uma forma de indiferença em nossos dias. Atitudes
agressivas, sejam elas físicas ou verbais, ferem a dignidade humana.
40. Em 2016, no Brasil, houve 11.433 mortes por suicídio, ou
seja, 31 casos de suicídio por dia. Ainda de acordo com o Ministério
da Saúde, o enforcamento aparece como o principal meio de mortes
por suicídio, respondendo por 60% dos óbitos. Intoxicação por drogas
aparece em segundo, com 18%; arma de fogo é a terceira causa, com
10%; outros meios respondem por 12% dos casos. Os jovens, entre 15

22 Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/3384/cutting-o-que-e-como-lidar-com-


-automutilacao-na-escola>. Acesso em: 8 ago. 2019.
23 Idem.

30
e 29 anos, estão entre as maiores vítimas do suicídio que é considerada
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a quarta maior causa de morte nessa faixa etária. Mortes violentas e


por acidente de trânsito também são realidades que inspiram cuidados
e ações concretas de educação para o respeito e a tolerância.24
41. Nos seis primeiros meses de 2018, os acidentes de trânsito
provocaram 19.398 mil mortes e 20 mil casos de invalidez perma-
nente no país. Segundo dados do Centro de Pesquisa e Economia do
Seguro (CPES), “as principais vítimas são homens de 18 a 65 anos
e motociclistas (...) os principais fatores associados aos acidentes são
falta de educação no trânsito, desrespeito às leis, excesso de velocida-
de, ingestão de álcool, direção perigosa e uso de celular”.25
42. A quantidade de vítimas, mortas ou feridas, em acidentes nas
rodovias federais é considerada uma das mais altas do país. Segundo
estudo, “53,7% dos acidentes são causados pela negligência ou impru-
dência dos motoristas, seja por desrespeito às leis de trânsito (30,3%)
ou falta de atenção do condutor (23,4%). É o chamado ‘fator humano’.
Aproximadamente 30% dos casos de óbitos registrados entre 2007 e
2016 são causados pelo desrespeito, o que, em números absolutos, re-
presenta mais de 23 mil mortos. Já em relação à falta de atenção, foram
mais de 15 mil mortos e 276 mil feridos no mesmo período”.26
43. No Brasil, os povos indígenas sofrem sucessivas agressões em
seus territórios, culturas e vidas. Os ataques contra os diferentes povos
têm sido constantes, envolvendo violências físicas, ameaças, precon-
ceitos e homicídios. Entre os anos de 2003 e 2018, ocorreram mais
de 1200 assassinatos de indígenas. A falta de demarcação e proteção
das terras indígenas agravam ainda mais a situação. Em função disso,

24 Disponível em: <http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44404-novos-dados-refor-


cam-a-importancia-da-prevencao-do-suicidio>. Acesso em: 8 ago. 2019.
25 Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-09/mais-de-193-mil-
-pessoas-morreram-em-acidentes-de-transito-em-3-meses>. Acesso em: 7 set. 2019.
26 Dados do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação sobre Segurança nas Rodovias Fe-
derais. Disponível em: <http://transportes.gov.br/ultimas-noticias/7999-estudo-aponta-que-
-mais-de-50-dos-acidentes-de-tr%C3%A2nsito-s%C3%A3o-causados-por-falhas-humanas.
html>. Acesso em: 7 set. 2019.

31
muitos povos continuam vivendo em uma condição de vulnerabilida-
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de social, econômica, cultural e religiosa, em acampamentos de beira


de estrada, em áreas degradadas ambientalmente ou em reservas su-
perlotadas. Dos 128 casos de suicídio registrados entre os indígenas
no ano de 2017, os estados que apresentaram as maiores ocorrências
foram Amazonas (54 casos) e Mato Grosso do Sul (31 casos). Em rela-
ção à mortalidade de crianças de 0 a 5 anos, dos 702 casos registrados,
236 ocorreram no Amazonas, 107 no Mato Grosso e 103 em Roraima.
Os registros do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em relação
à desassistência na área de saúde e à desassistência geral em 2017, tive-
ram a mesma quantidade de casos que em 2016. Já em relação à morte
por desassistência à saúde, disseminação de bebida alcóolica e outras
drogas e desassistência na área de educação escolar indígena houve
um aumento dos registros.27
44. Uma triste ameaça à vida é o aumento do feminicídio. Em
2017, a cada dez feminicídios, registrados em 23 países, quatro ocorre-
ram no Brasil. “Naquele ano, pelo menos 2.795 mulheres foram assas-
sinadas, das quais 1.133 no Brasil. Já o Atlas da Violência 2018, publica-
do pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, apontou uma possível relação entre
machismo e racismo: a taxa de assassinatos de mulheres negras cresceu
15,4% na década encerrada em 2016. Ao todo, a média nacional, no
período, foi de 4,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres, sendo que a
de mulheres negras foi de 5,3 e a de mulheres não negras foi de 3,1”.28
45. Ainda vivemos em um cenário de guerra quando lançamos o
olhar para os conflitos existentes no campo. Conflitos que envolvem ter-
ra, água, trabalho, garimpo e violências contra a pessoa como assassina-
tos, ameaças, agressões, prisões etc. Tais conflitos “aumentaram em 4%
em relação a 2017, passando de 1.431 para 1.489. Desses, 1.124 foram

27 Disponível em: <https://cimi.org.br/2018/09/relatorio-cimi-violencia-contra-os-povos-indi-


genas-no-brasil-tem-aumento-sistemico-e-continuo/>. Acesso em: 13 set. 2019.
28 AGÊNCIA SENADO. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/mate-
rias/2019/06/17/preocupacao-com-aumento-de-feminicidios-no-brasil-motiva-debate-na-
-cdh>. Acesso em: 7 set. 2019.

32
por terra. Perto de um milhão de pessoas foram envolvidas no total dos
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conflitos, 36% a mais que em 2017, 51,6% na região Norte. Aí também a


concentração de terras em conflito: 92% do total em 2018. Outros índi-
ces alarmantes confirmam a Amazônia como foco principal”.29
46. A extensão de terras em conflito vem crescendo ano após
ano. Em 2014, a extensão de terras em conflito atingia uma área de
8.1 milhões de hectares. Em 2015, esse número saltou para 21,3 mi-
lhões de hectares e, no ano seguinte, chegou a um perímetro de 23,6
milhões. Em 2017, os conflitos chegaram a uma área de 37,0 milhões
e, em 2018, a 39,4 milhões o que significa 4,6% do território nacional
em disputa.30
47. Os conflitos por água também vêm crescendo desde 2002,
com um aumento de 40,1%. Ribeirinhos e pescadores foram as víti-
mas preferenciais: 80,5%. Metade desses conflitos foram causados por
mineradoras. Em 2017, foram 71 pessoas assassinadas, sendo 31 em
cinco massacres. Nessa onda de violência, as lideranças do campo, que
lutam pela terra e em defesa dos territórios dos povos originários e
comunidades tradicionais, estão sendo massacradas. No ano de 2018,
73,5% dos casos de conflito de terra e água em todo o Brasil envolve-
ram as populações tradicionais. Os conflitos trabalhistas também au-
mentaram, sobretudo as ocorrências de trabalho escravo: de 66 casos,
envolvendo 530 pessoas, em 2017, para 86, envolvendo 1.465 pessoas,
em 2018.31 Nesse mesmo ano, 13.532 famílias foram expulsas de suas
moradias por ordens de despejo, dando a entender que, com esse ato,
estariam sendo removidos os entraves para o desenvolvimento.
48. Uma série de ameaças à vida está batendo em nossas portas,
por intermédio dos meios de comunicação e das redes sociais, con-
fundindo os cristãos, iludindo as famílias, atraindo os jovens para uma

29 COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no Campo Brasil 2018. Disponível em: <ht-
tps://www.cptnacional.org.br/component/jdownloads/send/41-conflitos-no-campo-brasil-
-publicacao/14154-conflitos-no-campo-brasil-2018?Itemid=0>. Acesso em: 31 ago. 2019. p. 11.
30 Ibidem, p. 12.
31 Idem.

33
mentalidade permissiva disfarçada de progresso científico. Na verda-
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de, são propostas que excluem as pessoas e descartam vidas inocentes.


Essas ameaças à vida têm nome: aborto, eutanásia, suicídio assistido,
eugenia, tráfico de drogas, de pessoas e de órgãos entre outros.
49. As redes sociais, infelizmente, têm funcionado, em muitos
casos, como uma caixa amplificada que reverbera todos esses tipos de
violência, causando grande mal à vida. A banalização da vida alcançou
o mundo virtual por meio das fake news, dos perfis falsos e da dissemi-
nação de notícias caluniosas e raivosas sem nenhuma preocupação em
verificar a veracidade do que se compartilha e do que se curte. Esse ce-
nário vem crescendo e ceifando vidas. Basta observarmos os números
da violência que se apresenta de várias formas.
50. É preciso ficar atento, pois também nós corremos o risco de
entrar na dinâmica perversa que atualmente atinge as redes sociais.
“Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de vio-
lência verbal por meio da internet e de vários fóruns ou espaços de
intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar
os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir
qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se, assim, um dualis-
mo perigoso, porque, nessas redes, dizem-se coisas que não seriam
toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatis-
fações descarregando furiosamente os desejos de vingança. É impres-
sionante como, às vezes, pretendendo defender outros mandamentos,
ignora-se completamente o oitavo: “não levantar falsos testemunhos”
e destrói-se sem piedade a imagem alheia. Nisso se manifesta como a
língua descontrolada “é um fogo! É o universo da malícia (...) e pon-
do em chamas a roda da vida, sendo ela mesma inflamada pela geena”
(Tg 3,6)” (GeE, n. 115).
51. Os vínculos comunitários que identificam o ser humano
como um ser de relações são cada vez mais frágeis em uma organi-
zação social que incentiva o individualismo chegando até o egoísmo.
Isso coloca a pessoa em uma situação de competição, na qual vê-se o
outro como adversário, como inimigo a ser abatido, não como irmão

34
a ser amado, alguém a quem se deve servir. Assim, as relações de so-
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lidariedade e fraternidade vão se diluindo cada vez mais com fortes


consequências para vida do ser humano e para natureza.
52. O individualismo marca de tal maneira as relações, que a vida
corre o risco de ser vista não mais como Dom e Compromisso, mas
como um peso ou como algo de que a pessoa possa dispor a seu bel
prazer. Assistimos, então, a uma cada vez mais crescente mercantiliza-
ção da vida, em que o ser humano passa a ser avaliado pelo que produz
e pelo que consome. Dessa forma, relativizam-se ou, simplesmente,
ignoram-se os direitos humanos, abrindo brecha para o perverso ca-
minho da intolerância política, religiosa e cultural, raiz de fundamen-
talismos, de preconceitos e de discriminações. Por trás de cada ato de
preconceito e discriminação, há muita dor e sofrimento diante dos
quais não podemos permanecer indiferentes.
53. “No atual cenário, enquanto está em curso a mais profunda
transição demográfica de nossa história, rumo ao envelhecimento da
população, a alta letalidade de jovens gera fortes implicações, inclusive
sobre o desenvolvimento econômico e social. De fato, a falta de opor-
tunidades, que levava 23% dos jovens no país a não estarem estudando
nem trabalhando em 2017, aliada à mortalidade precoce da juventude
em consequência da violência, impõe severas consequências sobre o
futuro da nação. Para além da questão da juventude, os dados descri-
tos nesse relatório trazem algumas evidências de um processo extre-
mamente preocupante nos últimos anos: o aumento da violência letal
contra públicos específicos (...)”.32
54. Perante o panorama apresentado, observa-se a forte banali-
zação da vida. Trata-se de uma mentalidade que vai assumindo com
naturalidade a relativização da existência, o enfraquecimento do con-
ceito de pessoa e até a justificativa legal de modalidades de homicí-
dios e extermínios humanos, sob a alegação de conquista de direitos.

32 IPEA (Instituo de Pesquisa Econômica Aplicada); FBSP (Fórum Brasileiro de segurança pú-
blica). Atlas da Violência 2019. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/
PDFs/relatorio_institucional/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf. Acesso em: 5 set. 2019. p. 6.

35
Nesse sentido, assume maior importância o papel do Estado como
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guardião da vida.
55. Em nossos dias, temos assistido uma transformação na con-
cepção do próprio Estado, cujas preocupações parecem estar mais vol-
tadas para o aspecto econômico do que para o cuidado com as pessoas.
Por certo, é possível ouvir que a preocupação com o viés econômico
se destina ao cuidado com as pessoas. Contudo, é preciso indagar: o
que dizer às vítimas de hoje? Elas podem ser sacrificadas em nome de
um progresso que um dia poderá vir? O Estado tem indispensavel-
mente uma função social. Essa função tem de ser cumprida no hoje da
história, com um efetivo equilíbrio entre as questões econômicas e as
sociais. Quando o equilíbrio desaparece, deparamo-nos com uma re-
alidade humanitária cruel que, por vezes, causa desespero, sendo que
os mais pobres são aqueles que mais sofrem.
56. O Estado cuida da vida quando promove ações específicas,
políticas públicas conforme lembrou a CF 2019, em favor de todas
as pessoas, com especial atenção aos mais necessitados. Se, por qual-
quer razão, o Estado se omite, ele se equipara àqueles que promovem
a morte como nos casos de guerra.
57. A incapacidade do Estado de frear a violência contribui para
a banalização do mal, na medida em que grupos de extermínio deter-
minam os que devem viver e os que devem morrer. Os poderes para-
lelos são fortalecidos por um Estado distante e acuado. Com isso, eles
impõem a violência e a morte. Como se este fato já não fosse grave em
si, ainda mais grave é a concepção daqueles que nutrem uma visão na
qual o extermínio do outro soa como alívio.
58. “A pobreza se expande e se manifesta em inúmeras formas
de sofrimento, sombras que desafiam a todos nós. É a vida agredida
nas mais diversas formas, desde a fecundação até a morte natural. É
a forte crise de sentido (DAp, n. 37), que gera desesperança, esgo-
tamento existencial, depressão, chegando até o suicídio, uma reali-
dade da qual ninguém está isento, nem mesmo ministros religiosos”
(DGAE 2019-2023, n. 59).

36
1.1.2. O olhar que destrói a natureza
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“O que fazer para mudar o mundo? Amar.


O amor pode, sim, vencer o egoísmo”
(Santa Dulce dos Pobres)

59. Nos últimos anos, vem crescendo a consciência de que, ar-


ticulada com o desrespeito ao ser humano, encontra-se a agressão à
natureza. “Quando falamos de ‘meio ambiente’, fazemos referência
também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a socie-
dade que a habita. Isso nos impede de considerar a natureza como algo
separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos
incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As razões, pe-
las quais um lugar se contamina, exigem uma análise do funcionamen-
to da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas
maneiras de entender a realidade. Dada a amplitude das mudanças, já
não é possível encontrar uma resposta específica e independente para
cada parte do problema. É fundamental buscar soluções integrais que
considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sis-
temas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra
social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes
para a solução requerem uma abordagem integral para combater a po-
breza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar
da natureza” (LS, n. 139).33
60. Ainda segundo Papa Francisco, só podemos falar de autênti-
co progresso quando há melhoria global na qualidade da vida huma-
na. Para que isso ocorra, é necessário ter atenção para com o todo da
vida, incluindo os ambientes em que vivem as pessoas. Quando esse
ambiente “aparece desordenado, caótico ou cheio de poluição visual
e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas tentativas de
desenvolver uma identidade integrada e feliz” (LS, n. 147).

33 FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da Casa Comum. (Documentos
Pontifícios, 22). Brasília: Edições CNBB, 2016.

37
61. O domínio da economia, que retira o olhar para a pessoa do
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centro, orientando-se por outros interesses, é o motor da desigualdade


social que agride a vida, não só do ser humano, mas de todo o planeta,
modificando nossa Casa Comum. Constatamos, assim, que, por es-
sas e outras razões, a exuberância da criação e da vida não esconde
também seus limites, fraquezas, dores e sofrimentos, os quais têm suas
raízes, ora na própria natureza, ora na ação humana marcada pelo ego-
ísmo, pela ganância e pelo desejo desmesurado do ter e alimentada por
um sistema político-econômico voraz e insaciável.
62. Tanto a extinção de espécies quanto os desequilíbrios climá-
ticos apresentam forte ligação com a exploração desordenada e com o
aumento da poluição. Raramente se registra o deslizamento de terras
em áreas em que a vegetação está preservada. Contudo o contrário
torna-se presente e desastroso em nossos dias, como atestam os rom-
pimentos das barragens de rejeitos de minério no distrito de Fundão,
em Mariana (MG), ocorrido em 5 de novembro de 2015, e no Córre-
go do Feijão, município de Brumadinho (MG), ocorrido pouco mais
de três anos depois, em 25 de janeiro de 2019. No primeiro, 19 pesso-
as foram engolidas pelo tsunami de 55 milhões de metros cúbicos de
rejeitos de minério e, no segundo, centenas de pessoas tiveram suas
vidas tiradas por cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos.
Em ambos os casos e em diversos outros semelhantes Brasil afora, o
dano ecológico e humano é incalculável, modificando a biodiversi-
dade e deixando milhares de pessoas sem seu sustento por causa da
contaminação do solo e das águas da bacia do Rio Doce, no caso de
Mariana, e da bacia do rio Paraopeba, em Brumadinho.
63. “É urgência minimizar a dor dos atingidos por mais esse
desastre ambiental, sem se esquecer de acompanhar, de perto, a atu-
ação das autoridades na apuração dos responsáveis por mais um tris-
te e lamentável episódio, chaga aberta no coração de Minas Gerais.
Que a justiça seja feita com lucidez e sem mediocridades que geram

38
passivos, com sentido humanístico e priorizando o bem comum, com
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incondicional respeito e compromisso com os mais pobres”.34


64. Ao lado da mineração, questiona-se também o modo como
outras atividades econômicas são levadas adiante. Preocupa sua rela-
ção desrespeitosa e danosa com nossa Casa Comum e com a vida hu-
mana. É o caso de alguns tipos de agronegócio e de monoculturas que
não demonstram compromisso com a sustentabilidade, empregando
cada vez mais os agrotóxicos, eufemisticamente chamados defensores
agrícolas.
65. “O Brasil é campeão mundial no uso de pesticidas na agri-
cultura, alternando a posição, dependendo da ocasião, apenas com os
Estados Unidos. O feijão, base da alimentação brasileira, tem um nível
permitido de resíduo de malationa (inseticida) que é 400 vezes maior
do que aquele permitido pela União Europeia. Na água potável brasi-
leira, permite-se 5 mil vezes mais resíduo do herbicida glifosato. Na
soja, podemos encontrar até 200 vezes mais resíduos do mesmo glifo-
sato (...) ‘como se não bastasse, o Brasil liderar este perverso ranking,
[assusta a tentativa de criação de leis] que flexibilizam as atuais regras
para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos’”.
As perdas “não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos
d’água”. Há casos em que, “depois de extensa exposição aos agrotóxi-
cos, ocorrem também casos de mortes e suicídios associados ao con-
tato ou à ingestão dessas substâncias”.35
66. O olhar que destrói a natureza nasce da incapacidade de per-
cebê-la em sua singularidade. A natureza requer paciência para ofere-
cer a nós o melhor ar para respirarmos; a melhor água para nos saciar;

34 Dom Walmor Oliveira de Azevedo em nota da CNBB sobre Brumadinho. In: CNBB é solidá-
ria com as vítimas em Brumadinho (MG) e afirma que o “Desastre de Mariana” ensinou muito
pouco. 26 de Janeiro de 2019. Disponível em: <http://www.cnbb.org.br/cnbb-manifesta-soli-
dariedade-com-as-familias-atingidas-pelo-rompimento-da-barragem-de-brumadinho-mg-
-e-afirma-que-o-desastre-de-mariana-ensinou-muito-pouco/>. Acesso em: 7 set. 2019.
35 Dados do atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia.
In: FERREIRA, Ivanir. Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos no Brasil.
(Disponível em: <https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-ambientais/lancado-na-europa-ma-
pa-do-envenenamento-de-alimentos-no-brasil/>. Acesso em: 10 jul. 2019.

39
o melhor frescor da brisa suave em tempos cálidos; a chuva mansa que
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traz vida à terra. Terra que é mãe a nos oferecer seus mais belos frutos.
Mãe que cuida e a quem devemos cuidar. Por que então não estamos
cuidando dela como deveríamos?
1.1.3. O olhar da indiferença exclui a vida
“No amor e na fé encontraremos
as forças necessárias para a nossa missão”
(Santa Dulce dos Pobres)

67. Essas formas de sofrimento mostram, em primeiro lugar, que


a vida é continuamente agredida. A todo momento, ela é confrontada
com uma mentalidade que insiste em colocar o lucro acima das pes-
soas e da dignidade humana. O mercado, ídolo que seduz a um con-
sumismo desenfreado, atropela a vida dos mais pobres sem escrúpulo
nem constrangimento algum. Com isso, cresce a indiferença com a si-
tuação dos mais frágeis e se desenvolve a cultura da invisibilidade e do
descartável (EG, n. 52-62).
68. Junto à indiferença, sentimo-nos diante de um outro inimigo
que tem crescido em nossos dias: o ódio. A indiferença e o ódio, em
todas as suas formas, paralisam e impedem que se faça o que é justo até
mesmo quando se sabe que é justo. A indiferença “é um vírus que con-
tagia perigosamente a nossa época, um tempo no qual estamos cada
vez mais ligados com os outros, porém sempre menos atentos ao pró-
ximo”. 36 “Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos, nenhuma et-
nia e, muito menos, nenhum país terão futuro se o motor que os une e
encobre as diferenças for a vingança e o ódio”.37 O contexto globaliza-
do do mundo de hoje deveria nos ajudar a compreender que nenhum
de nós é uma ilha, mas que somos responsáveis uns pelos outros. Em

36 FRANCISCO. Discurso aos participantes da conferência Internacional sobre a responsabi-


lidade dos Estados, instituições e indivíduos na luta contra o antissemitismo e aos crimes
ligados ao ódio antissemita, 29 de janeiro de 2018.
37 FRANCISCO. Missa no Estádio Nacional de Zimpeto em Maputo, Moçambique, 6 de setem-
bro de 2019.

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uma sociedade profundamente marcada pelos traços de Caim, Deus
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novamente nos pergunta “Onde está (...) teu irmão?” (Gn 4,9).
69. São João Paulo II, na Encíclica sobre o valor e a inviolabili-
dade da vida (Evangelium Vitae), que, neste ano de 2020, completa
25 anos, retoma as palavras do Concílio Vaticano II para descrever as
ameaças sofridas pela vida humana: “Tudo o que se opõe à vida, qual
seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e sui-
cídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana,
como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas
para violentar as próprias consciências; tudo o que ofende a dignida-
de da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as
prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o co-
mércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de
trabalho em que os operários são tratados como meros instrumentos
de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas essas coisas e
outras semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo que corrompem
a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do
que os que padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra de-
vida ao Criador” (EV, n. 3).38
70. Passados 25 anos da Encíclica, com tristeza, ainda hoje cons-
tatamos sua afirmação: “Infelizmente, esse panorama inquietante, lon-
ge de diminuir, tem vindo a dilatar-se: com as perspectivas abertas pelo
progresso científico e tecnológico, nascem outras formas de atentados
à dignidade do ser humano, enquanto se delineia e consolida uma nova
situação cultural que dá aos crimes contra a vida um aspecto inédito
e – se é possível – ainda mais iníquo, suscitando novas e graves preo-
cupações: amplos setores da opinião pública justificam alguns crimes
contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual e, sobre tal
pressuposto, pretendem não só a sua impunidade, mas ainda a própria
autorização da parte do Estado para praticá-los com absoluta liberdade
e, mais, com a colaboração gratuita dos Serviços de Saúde” (EV, n. 4).

38 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae sobre o valor e a inviolabilidade da
vida humana, 25 de março de 1995.

41
71. Essa constatação nos leva inevitavelmente a se questionar:
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estaremos marcados para conviver, de modo definitivo, com a indife-


rença e o ódio? Ou seremos capazes de encontrar caminhos de supe-
ração? Para superar o vírus da indiferença, “é urgente educar as jovens
gerações para que participem ativamente na luta contra os ódios e as
discriminações, e também na superação das oposições do passado e
para que nunca se cansem de ir ao encontro do outro. Com efeito, para
preparar um futuro verdadeiramente humano, não é suficiente rejeitar
o mal, mas é preciso construir juntos o bem”.39 Por essa razão, a Cam-
panha da Fraternidade deseja fermentar uma cultura do cuidado, da
responsabilidade, da memória e da proximidade, estabelecendo uma
aliança contra todo tipo de indiferença e ódio.
1.1.4. O olhar da solidariedade social
“O corpo é um templo sagrado. A mente, o altar. Então, devemos
cuidá-los com o maior zelo. Corpo e mente são o reflexo da nossa
alma, a forma como nos apresentamos ao mundo e um cartão de visitas
para o nosso encontro com Deus”
(Santa Dulce dos Pobres)

72. O olhar da fé, ao mesmo tempo em que identifica sombras,


deve, indispensavelmente, identificar luzes. Não é um olhar amargo,
desiludido, apenas para o que é negativo. A tristeza que brota de quem
olha o sofrimento não pode impedir que o olhar de esperança encon-
tre também as luzes da solidariedade. Por isso, não podemos esquecer
o testemunho de quem defende a vida atuando nas diversas entidades,
nos Conselhos de Direitos, Organizações Não Governamentais, nos
Movimentos Sociais e Populares, nos Sindicatos, nas Associações de
Bairros e em muitas outras organizações comprometidas com a vida.

39 FRANCISCO. Discurso aos participantes da conferência Internacional sobre a responsabi-


lidade dos Estados, instituições e indivíduos na luta contra o antissemitismo e aos crimes
ligados ao ódio antissemita, 29 de janeiro de 2018.

42
73. Com esperança, vemos surgirem e mesmo se consolidarem
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serviços de escuta, de ajuda na vitória sobre as drogas, o alcoolismo,


o jogo e outras formas de agressão à vida, experiências de visitas mis-
sionárias a famílias, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade,
presença junto às pessoas em situação de rua. Esses exemplos nos ale-
gram e mostram que muito pode ser feito, apesar dos poucos recursos
que às vezes estão disponíveis.
74. Nossa realidade está repleta de histórias de pessoas que su-
peram a fragilidade da vida, realçando a beleza e a alegria de viver. Na
família, edifica o exemplo dos pais que acolhem com amor os filhos
com deficiência, dedicando-lhes carinho e ternura samaritanos. Com
seu gesto, testemunham o valor e a inviolabilidade da vida humana e
dão prova de que o amor é a medida para se acolher a vida.
75. É incontável o número de pessoas que, pública ou anonima-
mente, dedicam sua existência a promover e defender a vida. Elas o
fazem de forma gratuita, cheias de fé, pela alegria de servir no amor.
Pensemos, por exemplo, nos 74 mil voluntários da Pastoral da Criança
que, em todo o Brasil, atendem mais de 800 mil crianças,40 nos agentes
da Pastoral da Saúde, nos que atuam na Pastoral Carcerária, na Pas-
toral do Povo da Rua e na Pastoral do Menor, nos que se dedicam a
salvar crianças do aborto, acolhem e acompanham mães nas casas
pró-vida, como também os grupos que dão suporte a pais e mães que
passaram pelo trauma de abortar (Projeto Esperança, Projeto Raquel,
Projeto José). Lembremos também dos agentes que atuam nos gru-
pos da Pastoral da Sobriedade, Pastoral da Pessoa Idosa e tantas outras
ações das 26 pastorais sociais da Igreja no Brasil, que promovem e cui-
dam da dignidade da vida humana.

40 Esses dados referem-se a março de 2019 e foram obtidos via e-mail junto à Coordenação
Nacional da Pastoral da Criança.

43
76. O mesmo se diga dos jovens de todo o Setor Juventude nas
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dioceses e de outras expressões juvenis, que levam adiante a campanha


contra a violência e o extermínio dos jovens; dos agentes da Pastoral
da AIDS e da Pastoral da Mulher Marginalizada no duro combate con-
tra a discriminação e o preconceito; dos agentes da Pastoral Familiar; e
dos milhares de catequistas e tantos outros cristãos leigos e leigas que
empregam suas forças nos vários serviços oferecidos em razão da fé.
Como não olhar também para todos os movimentos, entidades, novas
comunidades, organismos que se estruturam única e exclusivamente
para atender aos pobres e aos marginalizados além de experiências an-
tigas e novas que têm marcado a vida da Igreja no Brasil?
77. No campo e nas terras indígenas, a Comissão Pastoral da
Terra (CPT) e o Cimi, profeticamente, se colocam na defesa da vida
ameaçada de trabalhadores e trabalhadoras, indígenas, quilombolas e
ribeirinhos. O testemunho dos que derramaram seu sangue pela cau-
sa da vida, mártires dos tempos atuais, remete-nos a Jesus que disse:
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por
seus amigos” ( Jo 15,13).
78. São animadores o empenho, a dedicação e o exemplo de
Bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, inúme-
ros cristãos leigos e leigas que, destemidamente, dão testemunho do
Evangelho da vida em situações desafiadoras que ameaçam a vida e a
dignidade humanas.
79. Nesse contexto, é significativo recordar a palavra do Papa
Francisco aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos
Populares, em Roma, no ano de 2014: “Vós não trabalhais com ideias,
mas com realidades como as que mencionei e muitas outras que me
descrevestes. Tendes os pés na lama e as mãos na carne. O vosso cheiro
é de bairro, de povo, de luta! Queremos que a vossa voz seja ouvida, a
qual, normalmente, é pouco escutada. Talvez porque incomode, talvez
porque o vosso grito incomode, talvez porque se tenha medo da mu-
dança que vós pretendeis, mas sem a vossa presença, sem ir realmente

44
às periferias, as boas propostas e os projetos que muitas vezes ouvimos
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nas conferências internacionais permanecem no plano da ideia”.41


1.1.5. Qual será o nosso olhar?
“Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Aquele que
bate à nossa porta, em busca de conforto para a sua dor, para o
seu sofrimento, é um outro Cristo que nos procura”.
(Santa Dulce dos Pobres)

80. Essas sombras e luzes nos remetem a um desafio: o que será o


amanhã? Pergunta o poeta. O que é o hoje? Perguntam os que sofrem
e os que sonham com um mundo diferente. Essas perguntas nos re-
metem ao compromisso por um olhar solidário de respeito e cuidado
com a vida, missão primeira do ser humano em relação a toda a cria-
ção, que não será redimida se o ser humano não mudar o paradigma de
relação com a vida em todas as suas formas e expressões. Diante desse
cenário, é necessária uma ética do cuidado que, valorizando as luzes,
passe a olhar com responsabilidade e compromisso todas as criaturas.
81. Devemos ter claro que assumir o olhar solidário capaz de cui-
dar, como modo de ser no mundo, nos permite ir além do egoísmo e da
indiferença. O cuidado reinstaura o espaço da graça e da leveza dian-
te do mundo e de todas as formas de vida, gerando um novo laço de
amor entre nós. Essa imagem nos remete ao belo poema “Não sei” de
Cora Coralina:
Não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós,
mas, sei que nada
do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

41 Disponível em: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2014/october/docu-


ments/papa-francesco_20141028_incontro-mondiale-movimenti-popolari.html>. Acesso
em: 19 fev. 2019.

45
Muitas vezes basta ser:
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o colo que acolhe,


o braço que envolve,
a palavra que conforta,
o silêncio que respeita,
a alegria que contagia,
a lágrima que corre,
o olhar que acaricia,
o desejo que sacia,
o amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não


seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira,
pura enquanto ela durar.

46
II PARTE – “Viu, SENTIU COMPAIXÃO,
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e cuidou dele” (Lc 10,33-34)

2. Compaixão de Jesus – romper


com a indiferença
“O importante é fazer a caridade, não falar de caridade.
Compreender o trabalho em favor dos necessitados
como missão escolhida por Deus”.
(Santa Dulce dos Pobres)

82. Se, por um lado, o olhar da indiferença gera tanto mal, o olhar
da compaixão pode fecundar o bem no coração humano e conferir ver-
dadeiro sentido à vida. Na parábola do Bom Samaritano, o olhar que
Jesus nos ensinou é o olhar daquele que se compromete com o outro. Um
olhar interessado, não em si mesmo, mas no bem do próximo, seja ele
quem for: simpático ou antipático, de qualquer etnia ou religião, amigo
ou inimigo. O olhar da compaixão gera um “permanecer com”, uma pre-
sença que salvaguarda, cuida e transforma a vida de quem mais precisa.
83. Não se trata apenas de um olhar de comiseração ou de dó,
mas, sim, de um olhar compassivo que reconhece a dignidade de cada
um e procura resgatar a imagem e semelhança no rosto de homens e
mulheres desfigurados pelo pecado (Gn 1,26). Esse é o olhar de Deus
manifestado em Jesus Cristo. O olhar de Jesus é revelador do olhar
Trinitário, de um Deus que gera vida e amor. É por isso que, nesta
Quaresma, somos convocados a exercitar esse olhar de Jesus. Somos
interpelados a transformar nosso modo de ver, sentir, conviver, con-
formando-nos à verdade que Ele nos ensinou.
84. Somos chamados a iluminar nosso olhar com o olhar do
Cristo, que, do alto do madeiro, viu e perdoou todos os pecados e nos
salvou por sua misericórdia. “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que
fazem!” (Lc 23,34). Esse novo olhar precisa gerar e promover a vida,

47
defendê-la e dela cuidar desde a fecundação até a plenitude. Não so-
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mente a vida humana, mas também todas as outras formas de vida,


respeitando e preservando a natureza. O Espírito Santo, Senhor que
dá a vida, é o auxílio que garante a continuidade do olhar de Cristo
no nosso olhar e nos impulsiona a ver a dignidade humana e de toda a
obra da criação conforme o beneplácito de Deus. Assim, ainda que ve-
jamos ameaças à vida, existem também muitos olhares de compaixão,
ternura, amor, solidariedade, carinho: olhares de fraternidade.
85. Em uma época na qual a indiferença vai tomando conta das
consciências e dos corações, a Quaresma se mostra como tempo im-
portante para a reflexão sobre a misericórdia e a compaixão. Neste
tempo quaresmal, podemos mergulhar no mistério que nos conduz
para a Paixão, morte e Ressurreição de Jesus Cristo na medida que
nos propomos uma sincera conversão. Para o Papa Francisco, a pará-
bola do Bom Samaritano é uma dádiva maravilhosa, mas também é
um compromisso: “A cada um de nós, Jesus repete aquilo que disse ao
doutor da Lei: Vai e também tu faz o mesmo! Somos todos chamados
a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é a figura de
Cristo: Jesus debruçou-se sobre nós, fez-se nosso servo, e foi assim
que nos salvou, para que também nós pudéssemos amar como Ele nos
amou, do mesmo modo”.42
86. Nessa mesma audiência, o Papa nos faz refletir sobre a centra-
lidade dessa parábola: trata-se exatamente do versículo 33: “encheu-se
de compaixão”. Assim, explica o Santo Padre: “o seu coração, as suas
vísceras comoveram-se! Eis a diferença. Os outros dois viram, mas
os seus corações permaneceram fechados, insensíveis. Ao contrário,
o coração do samaritano estava sintonizado com o coração do pró-
prio Deus. Com efeito, a ‘compaixão’ é uma característica essencial da
misericórdia de Deus. Deus tem compaixão de nós. O que isso signi-
fica? Padece ao nosso lado, sente os nossos sofrimentos. Compaixão
quer dizer ‘padecer com’. O verbo indica que as vísceras se movem e

42 FRANCISCO. Audiência Geral. Praça de São Pedro, 27 de abril de 2016.

48
estremecem à vista do mal do homem. Nos gestos e ações do bom
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samaritano, reconhecemos o agir misericordioso de Deus em toda a


história da salvação”.
87. Acolher essa proposta de vida cristã exige uma autêntica res-
posta às seguintes perguntas: Estou disposto a fazer o mesmo? Quero
concretizar para os irmãos e irmãs a mesma compaixão e cuidado que
o Senhor tem para comigo? Estou disposto a não ignorar ninguém que
me pede ajuda, apoio, socorro, presença, consolação? Se cada um de
nós não se fizer essas perguntas, pelo menos uma vez na vida, não po-
derá dizer que tem verdadeiramente fé e talvez, não poderá nem dizer
que é efetivamente humano, enquanto imagem e semelhança de Deus.
88. Quem ama viu a Deus, porque Deus é amor (1Jo 4,7-16).
Fomos criados pelo Amor e para o amor. Nossa vida assume sentido
quando abrimos nosso coração ao outro, de modo especial ao outro
que sofre, que é pobre, abandonado, esquecido às margens de uma so-
ciedade da indiferença e da exclusão (Mc 10,46-52). O que acontece
com uma pessoa que só pensa em si mesma? O que acontece com uma
sociedade em que o egoísmo, o individualismo, o consumismo, a indi-
ferença e o ódio tendem a predominar? Será que precisaremos de mui-
tas outras provas, de raciocínios complicados, para concluir que pes-
soas egoístas e sociedades indiferentes constroem sombras e mortes?
89. Somos discípulos e amigos do Ressuscitado ( Jo 15,15)!
Estamos a serviço da Vida! Por isso, não nos fechamos em nós mesmos.
A Páscoa nos ensina a, por Cristo, com Cristo e em Cristo, romper os
túmulos da indiferença e do ódio e ressurgir para o zelo, o cuidado e a
solidariedade. O que acontece em nosso coração quando praticamos
o bem? De onde vem a força para compartilhar do pouco que se tem
com quem tem menos ainda? O que leva uma pessoa a se esquecer
totalmente de si e acolher as grandes causas pela transformação do
mundo? Um prato partilhado, um agasalho oferecido, incompreen-
sões sofridas, agressões e repressões, noites em claro, vidas entregues
até o martírio? Fracos com os fracos (1Cor 9,22) levamos alimento
noturno para quem vive nas ruas e, diante deles, não reconhecemos

49
seus rostos à luz do dia; entramos nas cadeias, separando o pecado
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do pecador; limpamos feridas que o pecado e a ganância desprezam;


buscamos terra e direitos defendendo os pequenos; estamos ao lado
de crianças, jovens, adultos e idosos, em suas alegrias e dores. Conso-
lados por Cristo, encontramos, no mais profundo de nós mesmos, a
nossa vocação humana e divina de consolar os que se acham em algu-
ma tribulação (2Cor 1,3-4). É possível que o mundo de indiferença e
ódio nos considere loucos. De algum modo, somos: loucos de amor,
loucos pela fé e, por isso, loucos pela vida.
90. Sentir nas vísceras a dor do outro é muito mais do que ter dó.
Significa comprometer-se com ele, sem medo de aproximar e identifi-
car-se com o próprio amor de Deus para conosco: “Amai-vos uns aos
outros como eu vos amei” ( Jo 13,34).
91. O samaritano agiu com verdadeira misericórdia e foi capaz
de assumir a dor do outro provendo tudo o que lhe era necessário. Na
compaixão não há incertezas, não se titubeia, não existe indiferença,
pois trata-se de ter, em nós, os mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5).
Fazer-se próximo sem preconceitos, sem classificação, sem esperar
nada em troca. Gratuitamente amar! Assim nos ensina Jesus.

2.1. Compaixão é ter mais coração nas mãos


“Se houvesse mais amor, o mundo seria outro;
se nós amássemos mais, haveria menos guerra.
Tudo está resumido nisto:
Dê o máximo de si em favor do seu irmão,
e, assim sendo, haverá paz na terra”.
(Santa Dulce dos Pobres)

92. Na história da Igreja, temos muitos exemplos de homens e


mulheres que, pelo encontro com Jesus Cristo, testemunharam o ver-
dadeiro sentido da compaixão. Um dos momentos mais difíceis da ex-
periência humana é quando somos acometidos de uma doença. Nessa
hora, a compaixão toma seu mais forte significado. Esse “sofrer com”

50
é o sinal do nosso total respeito e interesse pela pessoa enferma. Um
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grande exemplo de compaixão na doença é de São Camilo de Lellis.


Ele dizia aos cuidadores: “Colocai mais coração nessas mãos!”.
93. O Papa Francisco, ao falar para os médicos católicos e para os
profissionais da saúde, nos recorda que, “a fragilidade, a dor e a doença
são uma provação difícil para todos, até para o pessoal médico, são um
apelo à paciência, ao ‘sofrer com’; portanto, não se pode ceder à tenta-
ção funcional de aplicar soluções rápidas e drásticas, movidos por uma
falsa compaixão nem por meros critérios de eficiência e de preserva-
ção econômica. É a dignidade da vida humana que está em jogo”.43

O coração compassivo de São Camilo


“São Camilo de Lellis nasceu em Buquiânico, Itália, em 25 de
maio de 1550. Filho de pai militar e de mãe muito devota, o nasci-
mento de Camilo foi considerado um milagre, tendo em vista que
seus pais ainda não tinham herdeiro e tiveram um filho já em idade
avançada. Ambos faleceram quando Camilo era ainda jovem, levan-
do-o a enfrentar a vida sozinho e a assumir responsabilidades pre-
maturamente. Camilo seguiu a carreira militar do pai, alistando-se
no exército aos 17 anos de idade. Viveu sob condições financeiras
precárias e, sem ainda atentar-se à presença de Deus em sua vida,
entregou-se aos prazeres e aos vícios do mundo, principalmente à
bebida e ao jogo, chegando a perder a própria roupa em uma apos-
ta. Naquele período, Camilo adquiriu também uma dolorosa úlcera
no pé, ferida que o acompanhou durante toda sua vida. Padecendo
sob condições adversas, passando fome, frio e sem ter onde morar,
Camilo foi acolhido no convento dos Capuchinhos, onde passou a
trabalhar. Um dia, levando uma mercadoria do convento para a cida-
de, Camilo cai do animal que o transportava e, em um momento
de profundo arrependimento e comoção, se converte a Deus entre
prantos, comprometendo-se a mudar de vida e a servir a Deus como

43 FRANCISCO. Discurso para os Médicos Católicos, 9 de junho de 2016.

51
religioso capuchinho. Era dia 2 de fevereiro de 1575. A ferida no pé,
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entretanto, impediu-o de permanecer naquele convento e de abra-


çar a vocação capuchinha. Camilo parte, então, para o Hospital São
Tiago, em Roma, onde passa a cuidar dos doentes. Naquele local,
Camilo compreende a missão que Deus queria para sua vida: servir
os enfermos como se fossem o próprio Cristo crucificado. Torna-se
sacerdote e organiza uma companhia de homens de boa vontade que
querem doar suas vidas no cuidado dos doentes e mais necessitados.
O grupo de Camilo foi crescendo e atraindo homens motivados a
cuidar dos enfermos. A Santa Sé autorizou o uso da cruz vermelha
como distintivo do grupo e, logo depois, a Congregação foi eleva-
da ao grau de Ordem Religiosa, sendo conhecida como Ordem dos
Ministros dos Enfermos. Após uma vida de doação ao serviço dos
doentes, Camilo morre em 14 de julho de 1614. Foi canonizado em
1746 e, posteriormente, declarado padroeiro dos doentes, hospitais
e profissionais da saúde”.44

94. De fato, quem ama não julga, não acusa, não divide! Quem
ama, cuida, acolhe, integra. Quem ama dialoga, suporta, se compade-
ce. O egoísta e prepotente, cujo alcance da visão e do coração é ele
mesmo, julga o mundo a partir de si, esquecendo-se de que seu olhar
está embaçado pelo pecado, seu coração está entupido pela maldade.
O que seria do mundo se nos julgássemos menos e nos compreendês-
semos mais? O que seria do mundo se houvesse menos competição e
mais compaixão? Não seria um mundo diferente se houvesse menos
voracidade e mais partilha?
95. “Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que
vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-
-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista,
populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas
mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética

44 BIOGRAFIA. Disponível em: <https://www.camilianos.org.br/sao-camilo/biografia>. Acesso


em: 16 set. 2019.

52
ou um arrazoado que eles defendem. (...) Não podemos nos propor
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um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns


festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do
consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora en-
quanto a sua vida passa e termina miseravelmente”(GeE, n.101).
96. Nossas mãos não podem estar fechadas para socar. Elas têm
de estar abertas para apoiar. Não podem ser mãos fechadas para agre-
dir. Devem ser mãos unidas para cuidar. Sem ter onde reclinar a cabeça
(Mt 8,20), o filho do homem salvou o mundo. O que estamos fazendo
com tantos recursos, tanta tecnologia, tanto avanços científicos? Esta-
mos acomodados em nossa zona de conforto, ou temos coragem de
termos em nós os mesmos sentimentos de Jesus, fazendo de nossas
vidas uma oferta generosa da presença de Deus?
97. Precisamos aprender a contemplar a casa comum e perceber
que toda a criação é um hino à comunhão, à harmonia e à fraternidade.
“Custa-nos reconhecer que o funcionamento dos ecossistemas natu-
rais é exemplar” (LS, n. 22). Triste gastar o tempo nos embates e nas
acusações, quando ele poderia ser utilizado na prática da misericórdia,
da solidariedade e do perdão.

2.2. Compaixão é ter mais justiça no coração


“Habitue-se a ouvir a voz do seu coração.
É através dele que Deus fala conosco e
nos dá a força de que necessitamos para seguirmos em frente,
vencendo os obstáculos que surgem na nossa estrada”
(Santa Dulce dos Pobres)

98. Na encíclica Dives in Misericordia, São João Paulo II afir-


ma que “Jesus revelou, sobretudo com o seu estilo de vida e com as
suas ações, como está presente o amor no mundo em que vivemos,
amor operante, amor que se dirige ao homem e abraça tudo quanto
constitui a sua humanidade. Tal amor transparece especialmente no
contato com o sofrimento, injustiça e pobreza; no contato com toda

53
a ‘condição humana’ histórica, que de vários modos manifesta as limi-
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tações e a fragilidade, tanto físicas como morais, do homem. Precisa-


mente o modo e o âmbito em que se manifesta o amor são chamados
na linguagem bíblica ‘misericórdia’” (DM, n. 3).45
99. Já no Antigo Testamento, ensina-se que, embora a justiça no
homem seja autêntica virtude e em Deus signifique perfeição trans-
cendente, o amor deve ser maior que a própria justiça. É maior no sen-
tido em que, relativamente a ela, é anterior e fundamental. O amor
condiciona a compreensão de justiça. A justiça serve à caridade. O
amor-caridade (Ágape) é a forma mais plena de justiça.
100. O primado e a superioridade do amor em relação à justiça –
ponto característico de toda a Revelação – manifestam-se precisamen-
te pela misericórdia. Isso parece tão claro aos salmistas e aos profetas
que o próprio termo justiça acabou por significar a salvação realizada
pelo Senhor por meio da sua misericórdia (DM, n. 4).
101. A justiça divina revelada na cruz de Cristo é a medida de
Deus, porque nasce do amor e se realiza no amor, produzindo frutos
de salvação. A dimensão divina da Redenção não se verifica somente em
ter feito justiça ao pecado, mas também no fato de ter restituído ao
amor uma nova força criativa, graças à qual o homem tem novamente
acesso à plenitude de vida e de santidade que provém de Deus. Desse
modo, a redenção traz em si a revelação da misericórdia na sua plenitu-
de. O mistério pascal é o ponto culminante da revelação e da atuação
da misericórdia, capaz de justificar o homem e de restabelecer a justiça
como realização do desígnio salvífico de Deus. Até o homem que não
crê poderá descobrir nele a eloquência da solidariedade com o destino
humano, bem como a harmoniosa plenitude da dedicação desinteres-
sada à causa do homem, à verdade e ao amor (DM, n. 7).
102. Não é difícil verificar que hoje se tem falado muito sobre o
sentido da justiça, o que indubitavelmente põe em relevo tudo o que se

45 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Dives in Misericordia sobre Deus-Pai misericordioso.
(Documentos Pontifícios, 21). Brasília: Edições CNBB, 2015.

54
opõe a ela, tanto nas relações entre as pessoas e grupos sociais, como
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nas relações entre os povos e os Estados. Essa corrente profunda e


multiforme, em cuja base a consciência humana contemporânea si-
tuou a justiça, atesta o caráter ético das tensões e das lutas que avassa-
lam o mundo (DM, n. 12).
103. Um dos grandes desafios para o nosso tempo é definir o que se
entende por justiça. Trata-se, sem dúvida, de uma palavra muito usada, po-
rém, com muitas compreensões diferentes. O ponto em comum reside no
fato de que se deva dar a alguém aquilo que ele merece. Diferem, entretan-
to, as compreensões ao especificar o que é merecido. Na maioria das vezes,
trata-se daquilo que pode ser retribuído, com o dinheiro, com o trabalho,
com o bom comportamento, atendendo às expectativas do grupo ou da so-
ciedade em que se está inserido. Esse não é um conceito errado de justiça,
mas ele é incompleto, porque deixa de fora os seres humanos que, de algum
modo, não podem retribuir: os pobres, os pecadores e os inimigos.
104. Todos somos filhos do mesmo Deus que faz chover sobre
maus e bons (Mt 5,45). Onde, portanto, está o erro quando o senhor
da vinha paga por igual a trabalhadores que cumpriram jornadas dife-
rentes (Mt 20,1-11)? Terá o Senhor Jesus errado na parábola, ou esta-
remos nós tão marcados por um conceito incompleto de justiça que
não enxergamos a amplitude de um coração que é, ao mesmo tempo,
justo e misericordioso? Em Jesus, justiça e misericórdia, não se con-
trapõem. Ao contrário, complementam-se, ampliam-se, levando-nos a
tangenciar a eternidade. O Dono da vinha paga por igual, não porque
os trabalhadores renderam por igual, mas porque todos são humanos
e, por isso, são iguais. A justa misericórdia, ou a misericordiosa justiça
de Deus, ultrapassa qualquer situação para ver a pessoa que ali está e
dela cuidar, principalmente quando não merece. “Dificilmente alguém
morrerá por um justo; por uma pessoa boa, talvez alguém ouse mor-
rer. Deus, contudo, prova o seu amor para conosco, pelo fato de que
Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,7-8).
105. Em tudo isso, a misericórdia é a mais perfeita motivação
da igualdade entre os seres humanos e, por conseguinte, também a

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motivação mais perfeita da justiça, na medida em que ambas têm em
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vista o mesmo fim. Enquanto a igualdade introduzida mediante esse


tipo de justiça só considera o merecimento objetivo e extrínseco, o
amor e a misericórdia fazem com que as pessoas se encontrem umas
com as outras. Essa igual dignidade de todos os seres humanos, me-
diante a justiça misericordiosa, não elimina as diferenças.
106. Ao contrário, valorizando as diferenças, convida à comu-
nhão e ao cuidado mútuo. Aquele que dá torna-se mais generoso
quando se sente recompensado por aquele que recebe o seu dom. E,
vice-versa, o que sabe receber o dom com a consciência de que tam-
bém ele faz o bem ao recebê-lo, está, por seu lado, servindo à grande
causa da dignidade da pessoa e contribuindo para unir mais profunda-
mente os homens entre si (DM, n. 14).
107. A justiça misericordiosamente entendida se concretiza no per-
dão. Em passagem alguma do Evangelho, encontramos o perdão signifi-
cando aceitação do mal, do escândalo, da injúria causada ou dos ultrajes.
108. Todas as vezes que encontra um pecador, Jesus proclama:
“Vai, e de agora em diante não peques mais” ( Jo 8,1-11). A reparação
do mal ou do escândalo, a compensação do prejuízo causado e a sa-
tisfação da ofensa são consequências do perdão. Ele é sempre a mais
ampla manifestação da amorosa graça de Deus. Uma vez perdoado, o
coração humano não se cansa de, também ele, transbordar em perdão.
Por isso, podemos falar em reparação.
109. Assim, a estrutura fundamental da justiça é sempre penetra-
da pela misericórdia. Ela tem a missão de conferir à justiça um conteú-
do novo, que se exprime do modo mais simples e pleno no perdão. O
perdão manifesta que, além do processo de compensação e de trégua,
característico da justiça, é necessário também o amor para que o ho-
mem se afirme como tal (DM, n. 14).
110. O cumprimento das condições da justiça é indispensável,
sobretudo para que o amor possa revelar a sua própria fisionomia. Ao
analisarmos a parábola do filho pródigo, dirigimos a atenção para o

56
fato de que aquele que perdoa e o que é perdoado se encontram em um
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ponto essencial, que é a dignidade; isto é, o valor essencial do ser hu-


mano, que não se pode deixar perder e cuja afirmação, ou reencontro,
dá origem a uma alegria ainda maior. Com razão, a Igreja considera
como missão assegurar a autenticidade do perdão, tanto na vida e no
comportamento concreto, como na educação e na pastoral. Não a pro-
tege de outro modo senão guardando a sua fonte, isto é, o mistério da
misericórdia de Deus, revelado em Jesus Cristo (DM, n. 14).
111. A compaixão sentida nas vísceras não é um sentimento qual-
quer. O coração compassivo vai até as raízes da dor e do sofrimento do
outro. Quando essa dor é causada pela injustiça social que gera e ali-
menta o olhar da indiferença, ela se torna ainda mais intensa. Por isso, o
Papa Francisco nos adverte sobre a profunda ligação entre compaixão e
justiça: “A compaixão é um caminho privilegiado também para edificar
a justiça, porque colocarmo-nos na situação do outro, não somente nos
permite encontrar as suas fadigas, dificuldades e receios, mas também
descobrir, no âmbito da fragilidade que conota cada ser humano, a sua
preciosidade e valor único, em uma palavra: a sua dignidade. Porque a
dignidade humana é o fundamento da justiça, enquanto a descoberta
do valor inestimável de cada homem é a força que nos estimula a supe-
rar as desigualdades com entusiasmo e abnegação”.46
112. Nessa perspectiva, a CF 2020, ao tratar da vida como Dom
e Compromisso, nos convida a uma conversão pessoal, comunitá-
ria, social e conceitual em relação à justiça que nutrimos. Em linha
de continuidade com seus predecessores, o Papa Francisco aponta as
desigualdades sociais como raiz de muitos males que desumanizam e
desfiguram a dignidade do homem e da mulher, criados à sua imagem
e semelhança. Se não focarmos na busca de soluções para esse mal que
atinge os mais fracos, jamais viveremos a verdadeira justiça e compai-
xão que transformam e reconstroem a dignidade perdida pelo pecado
encrustado nos corações e pelas injustiças sociais.

46 Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/pont-messages/2017/


documents/papaofrancesco_20171118_conferenza-disparita-salute.html>. Acesso em:
10 jul. 2019.

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113. “A necessidade de resolver as causas estruturais da pobre-
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za não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de


obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para curá-la de
uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas
crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emer-
gências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias.
Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos po-
bres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especula-
ção financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social,
não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema
algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais” (EG, n. 202).
114. A missão do discípulo missionário de Jesus Cristo é revelar
ao mundo o rosto da misericórdia. É edificar a justiça e viver a com-
paixão. É acreditar na justiça expressa na Palavra de Deus e colaborar
para promovê-la e garanti-la. Valorizar a vida e promover a justiça mi-
sericordiosa é um ato de fé. Mas é também um exercício que passa pela
organização comunitária e social que não pode ser confundido como
algo meramente assistencialista.
115. A justiça misericordiosa mostra-se particularmente impor-
tante no contexto atual, em que o valor da pessoa, da sua dignidade
e dos seus direitos são seriamente ameaçados pela generalizada ten-
dência a recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade e da posse
(CDSI, n. 202).47 Também a justiça, com base nesses critérios, é con-
siderada de modo reducionista, ao passo que adquire um significado
mais pleno e autêntico quando vista sob a ótica da Palavra de Deus.
Justiça não é uma simples convenção humana, porque o que é justo
não pode ser determinado apenas pela correlação de forças sociais
nem pela capacidade de se impor sobre os outros, utilizando os mais
diversos instrumentos. Justiça é o encontro de todos, um ideal que co-
meça nesta vida e prolonga-se até a eternidade (1Cor 15,28).

47 PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 26 de


maio de 2006.

58
116. A plena verdade sobre o homem permite superar a limitada
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visão contratualista (CDSI, n. 203) da justiça e se abre para compreen-


dê-la no horizonte da solidariedade e do amor. A justiça contratualista
não consegue dar conta de todos os conflitos. Pode resolver questões
imediatas, mas não transforma pessoas, nem sociedades. Ao conceito
de justiça a Doutrina Social da Igreja associa o valor da solidariedade,
enquanto via privilegiada para a construção da paz. A paz é fruto da
justiça (Is 32,17) e a justiça se compreende a partir da misericórdia e
da solidariedade. O autêntico justo é misericordioso, solidário e capaz
de cuidar. O justo é misericordioso e solidário. Ele exerce sua justiça
mediante o cuidado, o zelo, pelos outros e pela Casa Comum!

2.3. A caridade: verdadeiro sentido da vida


117. “Nenhuma legislação, nenhum sistema de regras ou de pac-
tos, conseguirá persuadir homens e povos a viver na unidade, na fra-
ternidade e na paz, nenhuma argumentação poderá superar o apelo da
caridade” (CDSI, n. 207). Somente ela pode animar e modificar o agir
social no contexto de um mundo cada vez mais complexo. Para que
tudo isso aconteça, é necessário redescobrir a caridade, não só como
inspiradora da ação individual, mas também, como força capaz de sus-
citar novas vias de enfrentamento dos problemas do mundo de hoje
renovando estruturas, organizações sociais e ordenamentos jurídicos.
Nessa perspectiva, a caridade se torna caridade social: a caridade social
nos leva a amar o bem comum e a buscar efetivamente o bem de todas
as pessoas, consideradas não só individualmente, mas também na di-
mensão social que as une (CDSI, n. 207).
118. Assim, na tradição cristã, a justiça jamais estará desvincu-
lada da caridade. A justiça é samaritana, sempre capaz de cuidar in-
dependente das condições em que se encontra aquele que está à bei-
ra do caminho. Nas palavras do Apóstolo das nações: “(...) vivendo
segundo a verdade, no amor, cresceremos sob todos os aspectos em
relação a Cristo, que é a cabeça. É dele que o corpo todo recebe coesão
e harmonia, mediante toda sorte de articulações e, assim, realiza o seu
crescimento, construindo-se no amor, graças à atuação devida de cada
membro” (Ef 4,15-16).

59
119. A contribuição cristã mais característica a serviço da vida
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e de tantos que, em nosso tempo, necessitam descobrir o sentido da


existência é, em uma palavra, o amor. “O amor – caritas – será sempre
necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer orde-
namento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor.
Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do ho-
mem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda.
Haverá sempre solidão” (DCE, n. 28b).48
120. A caridade se expressa no empenho e na atuação política dos
cristãos e das Comunidades Eclesiais Missionárias. “A caridade deve
animar a existência inteira dos fiéis leigos e, consequentemente, também
a sua atividade política vivida como ‘caridade social’” (DCE, n. 29). A
boa política é um meio privilegiado para promover a paz e os direitos
humanos fundamentais.49 A caridade, portanto, “é o princípio não só
das microrrelações (...), mas também das macrorrelações como relacio-
namentos sociais, econômicos, políticos. A omissão dos cristãos nesse
campo pode trazer gravíssimas consequências para a ação transforma-
dora na Igreja e no mundo” (DGAE 2019-2023, n. 107; cf. n. 182).
121. Verdadeira caridade é também ofertar um coração capaz de
escutar o outro. A escuta também é profecia. Assim nos exorta o Papa
Francisco: “Gostaria de analisar também uma questão imprescindível,
sobretudo para quem serve o Senhor dedicando-se à saúde dos irmãos.
Se o aspeto organizativo é fundamental para prestar os cuidados devi-
dos e oferecer a melhor atenção ao ser humano, é também necessário
que nunca venham a faltar (...) as dimensões da escuta, do acompa-
nhamento e do apoio à pessoa. Jesus, na parábola do bom samaritano,
oferece-nos as atitudes pelas quais concretiza os cuidados em relação
ao nosso próximo marcado pelo sofrimento. Antes de tudo, o sama-
ritano ‘vê’, apercebe-se e ‘sente compaixão’ pelo homem despojado e
ferido. Não é só uma compaixão sinônima de pena ou consternação, é

48 BENTO XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est sobre o amor cristão. (Documentos Pontifícios,
1). Brasília: Edições CNBB, 2007.
49 FRANCISCO. Mensagem para o 52º Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2019).

60
algo mais: indica a predisposição para entrar no problema, na situação
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do outro. Mesmo se o homem não pode igualar a compaixão de Deus,


que entra no coração do homem e habitando-o o regenera, pode, con-
tudo, imitá-la ‘fazendo-se próximo’, ‘cuidando dele’”. 50
122. Uma Igreja samaritana, sinal e expressão da caridade de Cristo,
vê além das aparências e para além das circunstâncias. Uma Igreja que
cuida pessoalmente daqueles que estão feridos à beira do caminho e que
não permite que lá permaneçam. “Uma Igreja das pessoas e não dos pa-
péis e dos poderes (...) uma Igreja onde as pessoas vivem pela fé, dentro
da qual se deixam transformar, segundo o modo de existência da comu-
nhão, segundo a verdade Trinitária gravada no coração do homem, feito
à imagem e semelhança de Deus”.51 Em todo o tempo, é tempo de fazer o
bem. Para quem vive o mandamento do amor cáritas, sempre é tempo de
cuidar, pois o próximo é quem cuida com misericórdia (Lc 10,37).
123. Assim, tendo na caridade o verdadeiro sentido da vida, no
itinerário de conversão que a Quaresma no convida, é urgente que, em
nossas ações, possamos promover o diálogo entre irmãos que frater-
nalmente também é estabelecido a partir do encontro. Pensando no
diálogo como forma de encontro, o Papa Francisco nos indica ações
concretas capazes de promover a cultura do encontro. “(...) O Evange-
lho nos convida sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do
outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimento e
suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa, permanecendo lado
a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do
dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da recon-
ciliação com a carne dos outros. Na sua Encarnação, o Filho de Deus
convidou-nos à revolução da ternura” (EG, n. 88).
124. Por fim, sob tantos aspectos, o próximo a ser amado se apre-
senta em sociedade, de sorte que amá-lo no plano social significa, de

50 Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/november/docu-


ments/papa-francesco_20171116_unioneapostolica-clero.html>. Acesso em: 2 set. 2019.
51 RUPNIK, Marko Ivan. Segundo o Espírito: a teologia espiritual no caminho da Igreja do Papa
Francisco. (A Teologia do Papa Francisco, 11). Brasília: Edições CNBB, 2019. p. 29.

61
acordo com as situações, valer-se das mediações sociais para melhorar
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sua vida ou remover os fatores sociais que causam a sua indigência. Sem
dúvida alguma, é um ato de caridade a obra de misericórdia com que
se responde aqui e agora a uma necessidade real que impele ao próxi-
mo (2Cor 5,14), mas é igualmente um ato de caridade indispensável o
empenho com vistas a organizar e estruturar a sociedade de modo que o
próximo não venha a se encontrar na miséria, sobretudo quando essa se
torna a situação em que se debate um incomensurável número de pes-
soas e mesmo povos inteiros. Essa situação assume hoje proporções de
uma verdadeira e própria questão social mundial, global (CDSI, n. 208).
125. É preciso redescobrir o valor e a beleza do conteúdo cristão
da justiça. Diante de várias formas de compreendê-la, lançamos um
olhar sobre as concepções retributiva e restaurativa. Sob o olhar retri-
butivo a justiça é vista como merecimento, uma retribuição à altura
diante do delito cometido. Embora a lei de talião, olho por olho e den-
te por dente, tenha sido um avanço na história da humanidade, Jesus
avançou muito mais. Ele não se limitou a retribuir, pois, na verdade,
nada havia a retribuir. Ele restaurou. Por isso, compreender a justiça
no horizonte restaurativo é estabelecer uma nova compreensão sobre
a pessoa que errou e sobre o conflito no qual ela se encontra envolvida.
126. Aqui, temos uma perspectiva não meramente punitiva, mas,
tendo em vista a reparação dos danos provocados e o restabelecimento
dos laços sociais entre os envolvidos, desponta para toda comunidade
um bem maior que surge como alternativa a um sistema predominan-
temente retributivo, na prática punitivo, que tem apresentado poucos
resultados no que tange à sua eficácia.
127. Na parábola dos trabalhadores da décima primeira hora
(Mt 20,1-11), encontramos um exemplo de justiça restaurativa. Aquele
que saiu à procura de trabalhadores para sua vinha contratou vários ope-
rários ao longo de todo o dia. No entardecer, na hora do pagamento, os
primeiros a serem chamados pensam que, por merecimento, deveriam
receber mais do que aqueles que chegaram ao findar do dia. Foi então que
o dono da vinha surpreendeu a todos, pois, para ele, não havia diferença.

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Todos receberam o mesmo valor pelo serviço prestado. Para o dono da
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vinha, as pessoas não são classificadas em razão do que podem render pe-
los serviços prestados. São classificadas a partir de um amor que é graça
radical e que as considera, simplesmente, porque elas existem.
128. A reação daqueles que esperavam uma ação retributiva é ime-
diata: “Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós,
que suportamos o peso do dia e o calor intenso” (Mt 20,12). Aqui, re-
vela-se um conceito de justiça que se baseia na mentalidade do olho por
olho, dente por dente. Aquele, porém, que chama os trabalhadores para
sua vinha, olha o ser humano de forma integral, no desejo de contribuir
com a restauração da sua dignidade corrompida, no caso da parábola,
pela falta de trabalho. Cuidar da vida, ser justo, é, acima de tudo, ter um
coração misericordioso. Diante daqueles que o censuravam, o dono da
vinha adverte: “me olhas mal, porque estou sendo bom?” (Mt 20,15).
129. É possível que alguém pense que a justiça misericordiosa é
idílica, é irreal, acontecendo somente nos sonhos e nas histórias infan-
tis. A Quaresma, no entanto, é um tempo propício para discernirmos
se, de fato, estamos diante de uma fantasia ou em face ao sentido mais
profundo do nosso existir. A justiça misericordiosa está na nossa ori-
gem e no nosso destino. Fomos criados por um amor gratuito para um
dia nos apresentarmos diante desse mesmo amor, levando conosco o
que tivermos praticado ou não (Mt 25,31-46). Por isso, um dos gran-
des desafios da humanidade, desafio que se torna ainda mais urgen-
te em nossos dias, consiste em traduzir a concepção misericordiosa
de justiça em estruturas jurídicas e políticas. Temos aqui o desafio de
construir uma verdadeira democracia. Essa responsabilidade é de to-
dos os cidadãos, independentemente de qualquer outra condição. As-
sim como o senhor da vinha equiparou os operários com idêntico sa-
lário, o Deus de misericórdia a todos equipara com a mesma graça para
contribuírem, a partir das suas aptidões, em vista do bem comum, para
que se descubram caminhos eficazes de edificação da democracia.
130. Em discurso dirigido a juízes, advogados, assessores e de-
fensores no final de um encontro sobre direitos sociais e doutrina

63
franciscana, o Papa Francisco afirma que “A injustiça e a falta de opor-
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tunidades tangíveis e concretas são também uma forma de gerar violên-


cia: silenciosa, mas violência”.52 Segundo o Papa, um sistema político-
-econômico precisa garantir que a democracia não seja somente nomi-
nal, mas também marcada por ações concretas que velem pela dignida-
de de todos os cidadãos. Isso exige esforços por parte das autoridades
para reduzir a distância entre o reconhecimento jurídico e a sua prática.
131. “Não existe democracia com fome, desenvolvimento com po-
breza nem justiça com iniquidade”. A igualdade perante a lei, continua
Francisco, não pode degenerar em propensão à injustiça. “Em um mun-
do de transformação e fragmentação, os direitos sociais não podem ser
somente exortativos ou apelativos nominais, mas farol e bússola para o
caminho”. Nesse cenário, o Papa recorda que os setores populares não são
um problema, mas parte ativa do rosto de nossas comunidades e nações e
têm todo o direito de participar na busca e construção de soluções inclu-
sivas. Por isso, é importante estimular que, desde o início de sua forma-
ção, os operadores da justiça e do direito, possam estar em contato com
as realidades a que um dia servirão, conhecendo-as em primeira mão e
compreendendo as injustiças contra as quais um dia terão de combater.
132. Os operadores do direito e da justiça “têm um papel essen-
cial, são também poetas sociais quando não têm medo de serem pro-
tagonistas na transformação do sistema judicial baseado no valor, na
justiça e na primazia da dignidade da pessoa humana sobre qualquer
outro tipo de interesse ou justificação”.53 Tal empreendimento requer
lideranças valentes capazes de abrir caminhos às gerações atuais e tam-
bém às futuras, criando condições para superar as dinâmicas de exclu-
são e segregação de modo que a injustiça não tenha a última palavra.
Que sejamos promotores da justiça do Reino, expressa em atitudes
que iniciem processos de perdão e reconciliação e que contribuam
com a restauração da vida humana.

52 Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-06/papa-francisco-discur-


so-juizes-encontro-vaticano.html>. Acesso em: 8 ago. 2019.
53 Idem.

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133. Muitas histórias de valorização da vida e de superação da
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miséria e da fome já foram contadas nas biografias de muitos homens


e mulheres corajosos que desafiaram o mundo para salvaguardar os
mais pequeninos. No Brasil, um exemplo dessa incansável dedicação
foi vivido pela leiga, médica, Dra. Zilda Arns. Ela dizia: “As crianças,
quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não
existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem pre-
conceitos que as crianças”. Viver a compaixão é ter mais justiça no
coração e, para a Dra. Zilda Arns, essa justiça é compreendida já no
coração dos mais pequeninos, a nós cabe garantir que ela continue a
crescer no coração da humanidade e nunca permitir que a beleza da
vida se desfigure no rosto dos mais pobres.

Uma mulher de coragem!


“Dra. Zilda viveu para defender e promover as crianças, ges-
tantes e idosos, construir uma sociedade mais justa, fraterna, com
menos doenças e sofrimento humano. Em seu trabalho, sempre aliou
o conhecimento científico ao conhecimento e à cultura populares;
valorizou o papel da mulher pobre na transformação social; mobili-
zou a todos, pobres e ricos, analfabetos e doutores, na busca da Vida
Plena para todos. Ela costumava dizer: “Há muito o que se fazer, por-
que a desigualdade social é grande. Os esforços que estão sendo fei-
tos precisam ser valorizados para que gerem outros ainda maiores”.
Morreu dia 12 de janeiro de 2010 no terremoto que devastou o Haiti.
Nesse mesmo dia, discursara sobre como salvar vidas com medidas
simples, educativas e preventivas. Fez o que sempre falou: congregou
mais pessoas para se unirem na busca de “vida em abundância” para
crianças e gestantes pobres. Deixou sua marca na história do Brasil ao
fundar e coordenar a Pastoral da Criança e Pastoral da Pessoa Idosa”.54

54 Disponível em: <https://www.pastoraldacrianca.org.br/dra-zilda-arns-neumann>. Acesso


em: 16 set. 2019.

65
2.4. Cuidar é ter mais ternura na vida
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134. Diante da realidade em que vivem as pessoas, outro modo


de traduzir para os nossos tempos o afeto que o Senhor sente por nós
se apresenta por meio da ternura. Ela pode concretizar precisamente
o nosso modo de acolher hoje a misericórdia divina. “A ternura revela-
-nos, ao lado do rosto paterno, o materno, o rosto materno de Deus,
de um Deus apaixonado pelo homem, que nos ama com um amor in-
finitamente maior do que o de uma mãe pelo próprio filho. Indepen-
dentemente do que acontece, do que fazemos, temos a certeza de que
Deus está próximo, compassivo, pronto para se comover por nós. Ter-
nura é uma palavra benéfica, é o antídoto do medo em relação a Deus,
porque no amor não há temor, porque a confiança vence o medo. Por-
tanto, sentirmo-nos amados significa aprender a confiar em Deus, a
dizer-lhe, como Ele quer: ‘Jesus, confio em ti’”.55
135. Quando o ser humano se sente amado, sente-se estimulado
a amar e a cuidar. Se Deus é ternura infinita, também o ser humano,
criado à sua imagem, é capaz de ternura. “Então a ternura, longe de ser
apenas sentimentalismo, é o primeiro passo para superar o fechamento
em si mesmo, para sair do egocentrismo que deturpa a liberdade huma-
na. A ternura de Deus leva-nos a compreender que o amor é o sentido
da vida. Compreendemos assim que a raiz da nossa liberdade nunca é
autorreferencial. E sentimo-nos chamados a verter no mundo o amor
recebido do Senhor, a decliná-lo na Igreja, na família, na sociedade, a
conjugá-lo no servir e no doar-nos. Tudo isso não por dever, mas por
amor, por amor àquele pelo qual somos ternamente amados”.56
136. Sentir compaixão e cuidar com ternura é reacender a chama
de uma vida; é reconstruir uma história; é aquecer um coração deses-
perado; é iluminar quem está na escuridão; é abrir os braços para quem
precisa de um abraço; é fazer-se presente onde ninguém deseja estar
ou queira ficar. O Papa Francisco, ao discursar para os membros da

55 FRANCISCO. Discurso do Santo Padre aos participantes do Simpósio nacional sobre a teolo-
gia da ternura do Papa Francisco. Sala Clementina, 13 de setembro de 2018.
56 Idem.

66
comunidade de Santo Egídio, que cuida dos pobres em Roma, expressa
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bem esse sentimento: “Caminhando assim, contribuís para fazer pros-


perar a compaixão no cerne da sociedade – que é a verdadeira revolução,
a da compaixão e da ternura, aquela que nasce do coração – para fazer
crescer a amizade e não os fantasmas da inimizade e da indiferença”.57
137. Não é possível falar de cuidado sem falar de ternura. Ambos
são centelhas do amor Divino que experimentamos quando saímos de
nós mesmos e vamos ao encontro dos outros. Para viver a compaixão e a
ternura, não se tem uma receita pronta, mas é sempre uma surpresa divi-
na que o Espírito Santo impulsiona com uma moção de “loucura e pai-
xão” (1Cor 1,21). Precisamos estar atentos para não perder a graça que
todos os dias passa por nós e nos convida a viver o cuidado e a ternura.
138. Quem cuida não deixa de sofrer diante do sofrimento, dian-
te dos sofredores. O coração do cuidador, repleto de ternura, é um
coração sofrido e, por isso mesmo, indignado quando percebe que o
sofrimento poderia ser facilmente evitado. A Igreja em saída, cami-
nhando entre as periferias existenciais, não se incomodando em sujar
os pés com as poeiras do mundo, sabe que, em hipótese alguma, pode
perder a ternura. Se algumas vezes o profeta experimenta uma ira santa
(Sl 59,13), ele saberá, pela graça de Deus, do Deus que se rebaixa, do
Deus que alimenta e cuida, levantar-se e continuar caminhando em
ternura, esperança e missão (1Rs 19,9-18). Em um mundo que aban-
dona e despreza, o profetismo cristão também se faz presente pelo
cuidado; interpela-se a indiferença quando, servindo à ternura, nos
tornamos cuidadosos.
139. Quem viveu com intensidade essas virtudes foi Santa Dulce
dos Pobres, nossa querida Irmã Dulce. Sua peregrinação pelas ruas da
cidade, encontrando pobres e desamparados, demonstra claramente
como age um coração cuidador e cheio de ternura sintonizado com

57 FRANCISCO. Palavras do Papa Francisco durante a visita à comunidade de Santo Egídio. Ba-
sílica de Santa Maria em Trastevere, 15 de junho de 2014. Disponível em: <http://w2.vatican.
va/content/francesco/pt/speeches/2014/june/documents/papa-francesco_20140615_comu-
nita-sant-egidio.html>. Acesso em: 16 set. 2019.

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Deus. É um esvaziar-se de si mesmo para deixar Deus preencher todo
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o nosso vazio com a abundância da sua graça, que nos impulsiona a ir


ao encontro dos mais fragilizados. Santa Dulce pulsava a ternura di-
vina no seu coração e se compadecia com a dor do rosto de Deus no
rosto humano. Dulce, rosto da ternura de Deus, caminhando em meio
aos pobres.
140. Os pés, as mãos, os olhos e o sentimento de um coração cui-
dador se confundem com os pés, as mãos, os olhos e as dores daquele
que sofre, tamanha é a configuração entre cuidado e ternura. Assim
dizia Santa Dulce: “Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido?
Aquele que bate à nossa porta, em busca de conforto para a sua dor,
para o seu sofrimento, é um outro Cristo que nos procura”.
141. A ternura nos torna mais abertos a aceitar os outros. Uma
vida que é movida e impulsionada pela ternura não tem medo de en-
frentar a escuridão dos erros e dos pecados, pois, pela misericórdia
de Deus, ultrapassa essa escuridão e encontra a pessoa, como Deus a
sonhou. Santa Dulce acreditou na vida por inteiro e na pessoa pela sua
dignidade: “No coração de cada homem, por mais violento que seja,
há sempre uma semente de amor prestes a brotar”.
142. A fonte de toda ternura não está em nós. Deus é a fonte de
todo bem e de toda ternura. Mesmo nas situações mais difíceis da
vida, Ele se revela presente e transforma as situações mais difíceis em
grandes oportunidades de aprendizado, por meio das quais amadu-
recemos e nos tornamos melhores, mais afáveis, mais ternos. Santa
Dulce passou por momentos difíceis, mas nunca desanimou de con-
tinuar fazendo o bem ao próximo e a fé a ajudou a perseverar no ca-
minho da defesa da vida, do cuidado fraterno e da compaixão terna.
Seu testemunho de vida é uma grande mensagem para vivermos nesta
Quaresma: “Habitue-se a ouvir a voz do seu coração. É através dele
que Deus fala conosco e nos dá a força que necessitamos para seguir-
mos em frente, vencendo os obstáculos que surgem na nossa estrada”.

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2.5. A boa-nova do cuidado da vida
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143. O Evangelho da vida encontra eco profundo e persuasivo no


coração de cada pessoa. Mesmo entre dificuldades e incertezas, todo o ser
humano sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e
com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita
no coração, o valor sagrado da vida humana desde o seu início até o seu
termo, e afirmar o direito, que todo o ser humano tem, de ver plenamente
respeitado esse seu bem primário. Sobre o reconhecimento de tal direito,
é que se funda a convivência humana e a própria comunidade política. “O
Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus. Amorosamen-
te acolhido cada dia pela Igreja, há de ser fiel e corajosamente anunciado
como Boa-Nova aos homens de todos os tempos e culturas” (EV, n. 1).
144. Em cada tempo, a Igreja discerne os sofrimentos mais agudos
e se faz presente junto aos que padecem. No início deste terceiro milê-
nio do cristianismo, São João Paulo II convidou-nos a considerar que, às
antigas formas de pobreza e de miséria, se juntaram novas formas, como
o “desespero da falta de sentido, a tentação da droga, a solidão na velhice
ou na doença, a marginalização ou discriminação social”. A partir disso,
indicou consequentemente a relação entre a atuação cristã e a fé: “o cris-
tão que se debruça sobre esse cenário deve aprender a fazer o seu ato de
fé em Cristo, decifrando o apelo que Ele lança a partir deste mundo de
pobreza. Trata-se de dar continuidade a uma tradição de caridade, que
já teve inumeráveis manifestações nos dois milênios passados, mas hoje
requer, talvez, ainda maior capacidade inventiva. É hora de uma nova
‘fantasia da caridade’, que se manifeste não só – nem sobretudo – na efi-
cácia dos socorros prestados, mas na capacidade de pensar e ser solidá-
rio com quem sofre, de tal modo que o gesto de ajuda seja sentido, não
como esmola humilhante, mas como partilha fraterna” (NMI, n. 50).58
145. A noção bíblica de imagem de Deus é o ponto de referência
mais importante para a rica história do Magistério sobre o tema da

58 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte ao episcopado, ao clero e aos
fiéis no termo do grande Jubileu do ano 2000, 6 de janeiro de 2001.

69
vida humana. Sua tradução para a cultura greco-romana se deu por
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meio do conceito de pessoa, que é uma das contribuições mais impor-


tantes do cristianismo para a cultura humana em geral. No Magistério
recente, as noções de ecologia humana e de ecologia integral sinteti-
zam e, ao mesmo tempo, aprofundam esse Magistério.
146. Entre a Escritura e o Magistério recente, toda a tradição cris-
tã, com unanimidade, propõe e defende a dignidade e a inviolabilidade
da vida e da liberdade humana opondo-se, muitas vezes, a costumes
profundamente arraigados em certas culturas. Sua posição em favor da
vida e da liberdade muitas vezes levou cristãos a sofrer, custando per-
seguições de vários tipos. Entre os escritos cristãos mais antigos con-
tam-se, por exemplo, a Didaqué e a Epístola a Diogneto. Na primeira,
afirma-se que um distintivo dos cristãos é o seu respeito pela vida: “Tu
não matarás, mediante o aborto, o fruto do seio; e não farás perecer a
criança já nascida”.59 Na segunda, esse ensinamento é reafirmado: “Eles
[os cristãos] procriam filhos, mas não eliminam nunca os fetos”.60
147. Entretanto, a Igreja não se limita às declarações de seu Ma-
gistério. Em todos os lugares em que está presente, ensina com clareza e
defende com vigor esses altíssimos valores. Isso porque considera que
uma civilização só se constrói e se mantém sobre eles, como as únicas
bases realmente sólidas e duráveis. Não apenas ensina e defende, mas
ela mesma, por diversos meios, cria instituições para a promoção e a
defesa desses valores. Ao longo de sua história, é pioneira na criação
de escolas, hospitais, abrigos para órfãos e anciãos desamparados.

2.6. Ecologia integral


148. A Igreja, evocando a “urgente necessidade moral de uma re-
novada solidariedade” (CV, n. 48),61 nas relações entre os países como
também individualmente entre as pessoas, indica como fundamento

59 Didache apostolorum, V, 2 (FUNK, Francicus Xaverius. Patres Apostolici, 1,17).


60 Sources Chrétiennes 33,63.
61 BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in Veritate sobre o desenvolvimento humano integral na
caridade e na verdade. (Documentos Pontifícios, 3). Brasília: Edições CNBB, 2009.

70
a convicção segundo a qual Deus oferece a todos o ambiente natural
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e, em decorrência, o gozo desse bem implica responsabilidade pesso-


al frente a toda a humanidade, particularmente frente aos pobres e às
gerações futuras. Trata-se de uma verdadeira responsabilidade pela cria-
ção, de acordo com a qual, a Igreja não tem o compromisso de promo-
ver apenas a defesa da terra, da água e do ar. Seu dever sagrado inclui
contribuir para proteger as pessoas de uma possível destruição de si
mesmas. Isso porque, quando a ecologia humana é respeitada dentro da
sociedade, beneficia-se também a ecologia ambiental. O caminho que
ela indica é o desenvolvimento “da aliança entre ser humano e ambien-
te, que deve ser espelho do amor criador de Deus”.62
149. “O compromisso para superar problemas como fome e in-
segurança alimentar, persistente desconforto social e econômico, de-
gradação do ecossistema e ‘cultura do desperdício’ requer uma renova-
da visão ética, que saiba colocar no centro as pessoas, com o objetivo
de não deixar ninguém à margem da vida. Uma visão que una em vez
de dividir, que inclua ao invés de excluir”.63
150. A inclusão da noção de ecologia integral na Doutrina Social
da Igreja, de modo articulado e orgânico, é uma das grandes contri-
buições do Papa Francisco. Com a Encíclica Laudato Si’, recolhendo
elementos tradicionais da fé judaico-cristã, do Magistério de seus ime-
diatos predecessores e do pensamento humanista e científico recente,
ofereceu uma reflexão profunda e abrangente sobre esse tema canden-
te. É de se notar que esse ensinamento se articula tendo por base a
dignidade da vida, em particular da vida humana. Ele nos recorda que
o desenvolvimento de uma ecologia integral é tanto um chamado como um
dever. “É um chamado a redescobrir a nossa identidade de filhos e fi-
lhas de nosso Pai Celeste, criados à imagem de Deus e encarregados
de ser administradores da terra, recriados por meio da morte salvífica
e da Ressurreição de Jesus Cristo, santificados pelo dom do Espírito

62 Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2008, n. 7.


63 FRANCISCO. Discurso aos participantes do encontro Internacional “A Doutrina Social da
Igreja, das raízes à era digital”, 8 de junho de 2019.

71
Santo”. O desafio de “ser mais solidários como irmãos e irmãs e de uma
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responsabilidade compartilhada pela Casa Comum”, torna-se cada vez


mais urgente. “Mudar o modelo de desenvolvimento global, abrindo
um novo diálogo sobre o futuro de nosso planeta”, é a tarefa que está
diante de nós.64
151. “A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuida-
do da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida,
reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade
de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia
de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ruído
constante, da distração permanente e ansiosa, ou do culto da notorie-
dade? Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que
as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupa-
das, em uma pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo
o que tem ao seu redor. Isso tem incidência no modo como se trata o
ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo
para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre o nosso
estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre
nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença ‘não precisa de ser criada,
mas descoberta, desvendada’” (LS, n. 225).
152. Quando nos permitimos parar e observar a natureza, damo-
-nos conta da beleza da criação. Vem-nos à mente o cântico de São
Francisco lembrado na encíclica Laudato Si’. “Louvado sejas, meu Se-
nhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e pro-
duz variados frutos com flores coloridas e verduras” (LS, n. 1). Nosso
pensamento se volta, então, para aqueles que fazem da defesa e pro-
teção da natureza uma de suas maiores causas na vida. Recordamos,
por exemplo, os povos originários a cuja cultura e costumes devemos
a preservação da Amazônia, não obstante as agressões provocadas pela
ação devastadora dos que colocam o lucro acima da vida. Igualmente
admirável é o empenho dos que se entregam à defesa e à prática de

64 Idem.

72
uma produção ecologicamente sustentável, como acontece na agri-
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cultura familiar, combatendo o alto índice de agrotóxicos e toda for-


ma predatória de uso da natureza. Não se pode esquecer também do
árduo trabalho daqueles que se põem contra a exploração predatória
das riquezas da natureza. Só o amor à criação será capaz de vencer o
egoísmo e a ganância.
153. Ainda na Laudato Si’, o Papa recorda que a experiência reli-
giosa pode oferecer um contributo de especial importância à ecologia,
na medida que ambas são manifestações de Deus Criador. Em espe-
cial, destaca a capacidade do cristianismo para tal contribuição. De
São Francisco, recorda que “seu testemunho mostra-nos também que
uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcen-
dem a linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em
contato com a essência do ser humano” (LS, n. 11).

2.7. O desafio do sentido


154. Na consideração dos atuais e diversos tipos de atentado
contra a vida e contra a dignidade humana, São João Paulo II diagnos-
ticou, como fonte de uma profunda crise de valores, verdadeira crise
civilizatória, que inclui o ceticismo quanto aos fundamentos do co-
nhecimento e da ética, que “torna cada vez mais difícil compreender
claramente o sentido do homem, dos seus direitos e dos seus deveres”.
A essa falta radical de fundamento, prossegue o Papa: “vêm juntar-se
as mais diversas dificuldades existenciais e interpessoais, agravadas
pela realidade de uma sociedade complexa, em que frequentemente as
pessoas, os casais, as famílias são deixadas sozinhas, entregues aos seus
problemas” (EV, n. 11).
155. A Igreja, que faz suas, juntamente com as alegrias e espe-
ranças, as tristezas e as angústias humanas (GeE, n. 1), sente-se com-
prometida e solidária com toda a humanidade em suas interrogações
fundamentais: o que é a pessoa humana? Qual o sentido e a finalidade
da vida, especialmente da vida humana? De onde provêm os inúmeros

73
sofrimentos? Como alcançar a almejada felicidade? Como promover a
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paz de modo definitivo? (NA, n. 1).65


156. Para a Igreja, a solidariedade se fundamenta na considera-
ção de que em Cristo, essas respostas foram dadas de modo definiti-
vo. “Cristo, o novo Adão, manifesta plenamente o homem ao próprio
homem e lhe revela a sua altíssima vocação” (GS, n. 22).66 Em Cristo,
esclarece-se o enigma da vida humana. A solidariedade da Igreja com
o ser humano leva-a a perguntar pelos valores absolutos que podem
garantir a verdadeira e permanente felicidade. Refere-se, obviamente,
não aos valores em si mesmos, mas ao modo como ela pode partilhar
com todos as suas profundas convicções. Refere-se também aos mo-
dos como seus filhos podem ter o conhecimento correto desses valo-
res, mergulhados nos desafios e limites de seu tempo.
157. Conhecer e redescobrir o sentido da vida e traduzir esse
conhecimento em atitudes e mediações adequadas é um dos maiores
desafios de nosso tempo. De modo vigoroso, o Papa Francisco expri-
me esta mais tradicional convicção cristã: “Somente graças a este en-
contro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em
amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e
da autorreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos quan-
do somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos
conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser
mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se
alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é
que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?” (EG, n. 8).
158. “Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da co-
municação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o de-
safio de descobrir e transmitir a ‘mística’ de viver juntos, misturar-nos,

65 CONCÍLIO VATICANO II. Declaração Nostra Aetate sobre a Igreja e as religiões não cristãs.
In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília: Edições CNBB, 2018,
p. 659-667.
66 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Gaudium et Spes. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumêni-
co Vaticano II: Documentos. Brasília: Edições CNBB, 2018, p. 199-329.

74
encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar desta maré um pouco
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caótica que pode transformar-se em uma verdadeira experiência de fra-


ternidade, em uma caravana solidária, em uma peregrinação sagrada.
Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em
novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos. Como
seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este
caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se
em si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade
perderá com cada opção egoísta que fizermos” (EG, n. 87).
159. “A Igreja proclama a ‘Boa-Nova da paz’ (Ef 6,15) e está aber-
ta à colaboração com todas as autoridades nacionais e internacionais
para cuidar deste bem universal tão grande. Ao anunciar Jesus Cristo,
que é a paz em pessoa (cf. Ef 2,14), a nova evangelização incentiva
todo batizado a ser instrumento de pacificação e testemunha credí-
vel de uma vida reconciliada. É hora de saber como projetar, em uma
cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de
consenso e de acordos, mas sem a separação da preocupação por uma
sociedade justa, capaz de memória, sem exclusões. O autor principal,
o sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua cultura, não uma
classe, uma fração, um grupo, uma elite. Não precisamos de um pro-
jeto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou teste-
munhal que se aproprie de um sentimento coletivo. Trata-se de um
acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural” (EG, n. 239).

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III PARTE – “Viu, sentiu compaixão, e
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CUIDOU DELE” (Lc 10,33-34)

3. O cuidar de Jesus – disposição em servir


“Nós somos como um lápis com que Deus escreve os textos que
Ele quer ditos nos corações dos homens”
(Santa Dulce dos Pobres)

160. Percebendo o ser humano integrado a toda vida pulsante


do planeta, assim indaga o salmista: “Quando vejo os teus céus, obra
dos teus dedos, a lua e as estrelas, as coisas que criaste, que é o ser hu-
mano, para dele te lembrares, o filho do homem, para que o visites?”
(Sl 8,4s.) O ser humano, que recebe o carinho divino e que é chamado
a cultivar a criação, é também convocado a cuidar com divino carinho
da vida em todas as suas formas e expressões.
161. O sentido da vida, nós o encontramos no amor que, entre ou-
tros aspectos, se traduz na capacidade de se compadecer e cuidar. Por essa
razão, um dos primeiros passos do nosso agir não poderia ser outro senão
este: como discípulos missionários daquele que é Vida, resgatar o sentido
do viver no horizonte da fé cristã proclamando a beleza da vida. “Fazei
coisas belas, mas, sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”.67
162. A vida, enquanto lugar da manifestação de uma beleza
única e singular, só será redescoberta assim quando abrimos nossos
corações a uma real convivência com o outro. Somos todos irmãos!
Diante da globalização da indiferença em uma sociedade de Caim, é
urgente iniciar processos de construção de uma autêntica fraternida-
de. Tal construção supõe um renovado compromisso fundamentado
no amor de Cristo Pastor e Missionário, superando assim a indiferen-
ça que invade a sociedade e fere a sacralidade da vida quando impede
de reconhecer o próximo em sua singularidade.

67 BENTO XVI. Discurso no Encontro com o mundo da cultura. Lisboa, 12 de maio de 2010.

76
163. Assim, aprendemos com o Bom Samaritano: o meu próxi-
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mo é aquele de quem eu me achego. É aquele a quem dedico cuida-


do. É aquele com quem tenho a alegria de compartilhar o caminho da
vida. Neste mundo tão acelerado, é preciso ter a coragem da fé, que é
capaz de parar, de interromper a rotina, para cuidar. A vida é essencial-
mente samaritana!
164. Não basta se aproximar de qualquer modo. É preciso des-
cer da montaria e oferecê-la a quem está ferido à beira do caminho e
precisa ser conduzido à hospedaria ou, como diria o Papa Francisco,
ao hospital de campanha, que é a Igreja, que são nossas comunidades
eclesiais missionárias. Se for preciso, devemos seguir adiante para en-
contrar outros que talvez estejam em situação semelhante àquele que
estava ferido e abandonado à beira do caminho.
165. Agir como o bom samaritano supõe um novo aprendizado:
empregar nossos melhores recursos, humanos, materiais e espirituais,
para que aqueles que estão desfigurados pela dor possam reencontrar,
com o auxílio da fraternidade, a dignidade da vida: “Cuida dele, e o
que gastares a mais, eu o pagarei quando eu voltar” (Lc 10,35).
166. Com a Campanha da fraternidade, somos convidados a
proclamar em todo país que a vida, Dom e Compromisso, é essencial-
mente samaritana! Convertidos pela Palavra de vida e salvação, somos
convocados a testemunhar e estimular a solidariedade; fortalecer a re-
volução do cuidado, da ternura e da fraternidade como testemunho de
vida dos discípulos missionários, daquele que oferece vida em pleni-
tude. A missão evangelizadora brota de um coração capaz de cuidar e
de ser cuidado.
167. Recolhendo as boas inspirações que estimulam e motivam
o agir da Campanha da Fraternidade, não podemos nos distanciar do
horizonte quaresmal. Durante a Semana Santa, inúmeras comunida-
des realizam atividades evangelizadoras, orações e encenações que
ajudam a reviver as horas que antecederam a oferta da própria vida do
Senhor no calvário. Recordamos e celebramos a oferta de uma vida
que foi intensamente doada, dedicada, compartilhada, cuidadora.

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Neste intercâmbio do amor-doação, lembramos o gesto de Pilatos,
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que ficou eternizado na história da humanidade. Ele lavou as mãos,


mesmo consciente da inocência de Jesus, não foi capaz de agir em fa-
vor da vida do Salvador.
168. Em nosso agir evangelizador, “também temos, diante de
nós, à nossa disposição, duas bacias com água: de um lado, a bacia
utilizada por Pilatos, símbolo da indiferença e da omissão; do outro
lado, a bacia utilizada por Jesus no lava-pés, sinal de terno cuidado e
compromisso para com o serviço. Serviço evangelizador que dá visi-
bilidade ao Reino de Deus presente no mundo. Qual das duas bacias
temos utilizado como evangelizadores?”.68
169. Não necessitamos de novos Pilatos, que buscam ilusoria-
mente justificar a indiferença e a omissão diante da dor do próximo.
Necessitamos de corações semelhantes ao coração de Jesus, que se
curvou sensivelmente à dor de toda a humanidade e dela cuidou. “O
Senhor envolve-se e envolve os seus, pondo-se de joelhos diante dos
outros para lavá-los; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: ‘Sereis feli-
zes se o puserdes em prática’ ( Jo 13,17)” (EG, n. 24).
170. Redescobrindo as águas do nosso Batismo, as águas da ba-
cia do lava-pés e, com elas, os gestos que tocam a vida da Igreja, preci-
samos colocar em atitudes a beleza de uma Igreja em saída. Para isso, é
preciso ousadia e criatividade; dedicação e compromisso, a fim de que
a vida seja valorizada em todas as suas formas e expressões.
171. Uma das maiores contribuições que os cristãos são vocacio-
nados a dar a uma sociedade marcada pela indiferença e pela morte
consiste em incansavelmente anunciar que o sentido da vida se en-
contra no amor, o qual se traduz no cuidado para com os que sofrem.
Não se pode amar a Deus se não vemos, se nos deixamos levar pela
indiferença perante quem está diante de nossos olhos (1Jo 4,19-20).
“Somos frágeis, mas portadores de um tesouro que nos faz grandes e

68 Batista, P. Samuel. Animados pela força do Evangelho: sermão da Ceia do Senhor. Paróquia São
Carlos Borromeu, Lagoa da Prata-MG, 2016.

78
pode tornar melhores e mais felizes aqueles que o recebem. A ousadia
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e a coragem apostólica são constitutivas da missão” (GeE, n. 131).


172. Para o discípulo missionário de Jesus Cristo, o sentido da
vida está naquele que disse: eu sou o caminho, a verdade e a VIDA. Na-
quele que é a vida, encontramos o sentido do viver. Mas onde o en-
contramos? Ele mesmo nos diz: “onde dois ou três estiverem reunidos
em meu nome, ali eu estarei, no meio deles” (Mt 18,20). A vida é um
intercâmbio de cuidados. Encontro que transforma, presença que for-
talece os vínculos fraternos.
173. Tudo o que é ofertado, tudo o que é compartilhado se trans-
forma. Assim acontece na ceia eucarística: ofertamos pão e vinho que
são transformados na presença real do Senhor. A presença real do Se-
nhor da vida clama por uma presença real e concreta de seus discípu-
los na vida, sobretudo onde a vida grita por sobrevivência. Portanto,
é preciso ter coragem para ofertar a própria vida e dedicar tempo aos
apelos do Evangelho.
174. “Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho
em pessoa, identificou-se especialmente com os mais pequeninos
(cf. Mt 25,40). Isso recorda-nos, a todos os cristãos, que somos cha-
mados a cuidar dos mais frágeis da Terra. Mas, no modelo ‘do êxito’ e
‘do individualismo’ em vigor, parece que não faz sentido investir para
que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na
vida” (EG, n. 209).
175. Há uma íntima conexão entre evangelização e promoção
humana que se deve exprimir e desenvolver em toda a ação evangeliza-
dora. Tudo a partir do coração do Evangelho: “Confessar que o Filho
de Deus assumiu a nossa carne humana significa que cada pessoa hu-
mana foi elevada até o próprio coração de Deus. Confessar que Jesus
deu o seu sangue por nós nos impede de ter qualquer dúvida acerca
do amor sem limites que enobrece todo o ser humano. A sua redenção
tem um sentido social, porque ‘Deus, em Cristo, não redime somente
a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens’.

79
Confessar que o Espírito Santo atua em todos implica reconhecer que
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Ele procura permear toda a situação humana e todos os vínculos so-


ciais: ‘O Espírito Santo possui uma inventiva infinita, própria da men-
te divina, que sabe prover a desfazer os nós das vicissitudes humanas
mais complexas e impenetráveis’” (EG, n. 178).
176. Neste cenário é preciso primeirear, ter iniciativa!
(EG, n. 24). O Evangelho nos apresenta um belo horizonte para a
ação: não basta ter sensibilidade diante de quem sofre, é preciso,
à semelhança do bom pastor que sai em busca da ovelha perdida
(Lc 15,1-7), tomar a iniciativa, não se contentando em atender apenas
aos que chegam. É preciso sair em busca dos que não têm mais forças
para chegar até nós. Quais foram nossas últimas iniciativas concretas
em favor da vida e da dignidade de alguém? O que nos motiva a servir
àqueles a quem chamamos de irmãos?
177. “A fé nos faz próximos, aproxima-nos da vida dos outros.
A fé desperta o nosso compromisso com os outros, desperta a nossa
solidariedade (...) a fé que não se faz solidariedade é uma fé morta. É
uma fé sem Cristo, uma fé sem Deus, uma fé sem irmãos. O primeiro a
ser solidário foi o Senhor, que escolheu viver entre nós, escolheu viver
no nosso meio (...). A fé que Jesus desperta é uma fé com capacidade
de sonhar o futuro e de lutar por ele no presente”. 69
178. É necessário promover a solidariedade com os sofredores (...)
como sinal privilegiado a interpelar e a permitir o diálogo com o mundo
que aí está. Enquanto ele “tende ao individualismo que acaba por ex-
cluir, a vivência do Evangelho necessita explicitamente gerar experiên-
cias de solidariedade e inclusão”. Junto aos que sofrem, especialmente
os que sequer têm direito à sobrevivência, a Igreja é chamada a reprodu-
zir a imagem do Bom Samaritano (DGAE 2019-2023, n. 174).
179. De fato, “Contemplar o Cristo sofredor na pessoa dos po-
bres significa comprometer-se com todos os que sofrem, buscando

69 FRANCISCO. Discurso na visita a Bañado Norte, Paraguai, 12 de julho de 2015.

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compreender as causas de seus flagelos, especialmente as que os jo-
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gam na exclusão. A ausência de sentido para a vida é fonte de grande


sofrimento. De fato, a correria do cotidiano, a exigência de metas e
desempenho e a lógica da eficiência afetam a qualidade de vida na so-
ciedade atual, cada vez mais urbanizada, individualista e consumista.
O vazio tende a colocar em crise o sentido da vida para muitas pessoas.
A frustação, especialmente dos jovens, emerge quando não se conse-
gue alcançar o desempenho sugerido pela sociedade de infinitas pos-
sibilidades. Também os cristãos são afetados por essa crise de sentido
que gera cansaço, depressão, pânico, transtornos de personalidade e
até o suicídio. Essa situação ocorre porque se vive em uma sociedade
que sustenta tudo ser possível, especialmente com o avanço das novas
tecnologias” (DGAE 2019-2023, n. 110).
180. Nesse cenário, falar da beleza da vida é resgatar os gestos
e ações de fraternidade que colocam o amor em ação. Se “A glória de
Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”, mais do
que nunca é preciso renovar nosso compromisso com a vida. A co-
munhão eclesial que une todo o Brasil em um caminho de dedicação
e amor ao próximo, sinais do Ressuscitado, nos ensina que a Cam-
panha da Fraternidade nada mais é do que o amor organizado, que
resgata e promove a vida e a dignidade da pessoa a partir da procla-
mação do Evangelho: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em
abundância” ( Jo 10,10).

3.1. Um compromisso com a vida


181. “O amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o
encontro em plenitude com Deus, a ponto de se dizer, de quem não
ama o irmão, que ‘está nas trevas, caminha nas trevas’ (1Jo 2,11),
‘permanece na morte’ (1Jo 3,14) e ‘não chegou a conhecer a Deus’”
(1Jo 4,8). Bento XVI disse que “fechar os olhos diante do próximo tor-
na cegos também diante de Deus”, e que o amor é fundamentalmente
a única luz que “ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos
dá a coragem de viver e agir” (EG, n. 272).

81
182. “Portanto, quando vivemos a mística de nos aproximar dos
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outros com a intenção de procurar o seu bem, ampliamos o nosso in-


terior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos
encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de desco-
brir algo de novo sobre Deus. Cada vez que os nossos olhos se abrem
para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para reconhecer a
Deus. Em consequência disso, se queremos crescer na vida espiritual,
não podemos renunciar a ser missionários” (EG, n. 272).
183. “A tarefa da evangelização enriquece a mente e o coração,
abre-nos horizontes espirituais, torna-nos mais sensíveis para reco-
nhecer a ação do Espírito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais
limitados. Ao mesmo tempo, um missionário plenamente devotado ao
seu trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transbor-
da e refresca os outros. Só pode ser missionário quem se sente bem,
procurando o bem do próximo, desejando a felicidade dos outros.
Esta abertura do coração é fonte de felicidade, porque ‘há mais felici-
dade em dar do que em receber’ (At 20,35)” (EG, n. 272).

3.2. Um compromisso pessoal


184. As mudanças que tanto queremos no mundo só serão reais
se começarem em nós, a partir de nós, afetando, assim, o ambiente em
que vivemos. A conversão pastoral é fruto da conversão pessoal. “Vai e
faze o mesmo” (Lc 10,37). Daí a importância de renovarmos, pessoal-
mente, nosso compromisso de cuidado e valorização da vida. Dar iní-
cio a processos de fraternidade e de ternura. Cultivar boas amizades.
Redescobrir o valor da vizinhança. Valorizar desde o simples cuidado
com a própria saúde, até o lazer e o descanso, sem descuidar da solida-
riedade. Somos imagem e semelhança de um Deus que é comunhão e
que, em comunhão, cuida.
185. Por mais que tenhamos desafios pessoais e comunitários,
jamais podemos no acomodar diante deles. “‘No deserto, é possível
redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no
mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último
da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente.

82
E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que,
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com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida,


mantendo assim viva a esperança’. Em todo caso, lá somos chamados
a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o cântaro
se transforma em uma pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que
o Senhor, trespassado, se entregou a nós como fonte de água viva. Não
deixemos que nos roubem a esperança!” (EG, n. 86).
186. Como discípulos missionários que vivem em Cristo
(Gl 4,20) devemos sempre recordar das palavras de Santa Teresa de
Calcutá: “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma
gota de água no oceano. Mas o oceano seria menor se lhe faltasse uma
gota”. Um pequeno gesto é capaz de fazer diferença em uma existência
toda. Quando tais gestos nascem do coração configurado ao coração
do Senhor da Vida, tornam-se capazes de conferir sentido e plenitude
à existência.

3.3. Uma renovação familiar


187. São João Paulo II já apontou uma das causas da crise que
vem crescendo e se desenvolvendo no coração das nações: um ataque
desenfreado contra a família, santuário da vida. A família “é o lugar
onde a vida, dom de Deus, pode ser convenientemente acolhida e pro-
tegida contra os múltiplos ataques a que está exposta e, pode desenvol-
ver-se segundo as exigências de um crescimento humano autêntico”
(CA, n. 39).70 Por isso, o Papa apresentava a família como um valor
imprescindível para a humanidade: “Determinante e insubstituí-
vel é, e deve ser, considerado o seu papel para promover e construir
a cultura da vida (EV, n. 92) contra a difusão de uma autocivilização
destruidora” (GSa, n. 13).71
188. No horizonte das novas Diretrizes Gerais da Ação Evan-
gelizadora da Igreja no Brasil, é imprescindível reafirmar o valor da

70 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Centesimus Annus no centenário da Rerum Novarum,
1º de setembro de 1991.
71 SÃO JOÃO PAULO II. Carta às famílias Gratissimam Sane, 2 de fevereiro de 1994.

83
família e motivar, organizar, ainda mais, a Pastoral Familiar em to-
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dos os lugares e ambientes como resposta a esse desafio de tornar


nossos lares, nossas casas comunidades de fé, de ternura e de cuida-
do para com a vida. “A família é o ponto de chegada para nossa ação
pastoral e o ponto de partida para a vida comunitária mais ampla”
(DGAE 2019-2023, n. 138).
189. Nos setores pré e pós-matrimonial e em casos especiais, a
Pastoral Familiar tem uma série de iniciativas para cuidar da vida em
família, desde a concepção até o seu declínio natural, sem perder de
vista o horizonte da plenitude. Um bom caminho de ação é valorizar,
formar e potencializar todos os serviços pastorais em favor da família.
190. Mas como? Cuidar melhor da preparação personalizada para
os noivos com sensibilização para abertura à vida; promover encontros
de namorados e de casais para vivência cristã à luz da Palavra de Deus
nos lares; preparar de maneira personalizada o Matrimônio; optar pela
pedagogia da presença com o acompanhamento de gestantes; oferecer
apoio e suporte para as famílias na educação cristã e catequese fami-
liar com temas relacionados à defesa e à promoção da vida; vivenciar e
aprofundar os temas relacionados à vida na semana nacional da família
e na semana nacional da vida com grupos de reflexão chamados Hora
da Família e Hora da vida. Essas são iniciativas que podem ser potencia-
lizadas e valorizadas à luz da Campanha da Fraternidade.
191. É preciso realizar um itinerário catecumenal para a prepa-
ração do sacramento do Matrimônio que contemple os temas da vida
em família; criar programas de formação permanente nos grupos de
reflexão em família com temas voltados ao cuidado da vida em todas
as etapas; dar suporte a casais recém-casados, valorizar a adoção; ser
presença junto às famílias que enfrentam problemas com filhos ado-
lescentes para ajudar nos conflitos de perda de sentido ou nos peri-
gos do uso das redes sociais, que podem incentivar a automutilação;
acompanhar espiritual e psico-afetivamente as famílias que têm situa-
ções persistentes de depressão, desde aquelas pós-parto até idosos em
situação vulnerável.

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192. Outra bela iniciativa são as visitas às famílias que passaram por
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experiências de violência ou que perderam familiares nessa situação; a


atenção especial aos pais que têm filhos dependentes de drogas; o acom-
panhamento de famílias em situação de violência reincidentes; e o acom-
panhamento nos momentos de luto com a luz da fé no Ressuscitado.
193. Cuidar dos viúvos e viúvas motivando grupos de apoio, de
oração e de suporte em situações de abandono; organizar cuidados
pastorais com as famílias que têm idosos com doenças degenerativas;
organizar a formação e o incentivo a grupos de famílias missionárias
pela vida.
194. Incentivar as famílias a formarem associações, inclusive de
caráter jurídico, para a defesa dos direitos da família. Assim, poderão in-
fluenciar, de modo organizado e eficaz, as políticas sociais e os meios de
comunicação, a fim de se criar uma cultura, uma legislação e uma ação go-
vernamental favoráveis à dignidade e aos direitos da instituição familiar.

3.4. Em Comunidades Eclesiais Missionárias


195. O Senhor nos chama e nos envia em missão para evangeli-
zar. A comunidade também evangeliza. Anunciar Jesus não é um ato
individual, mas compromisso de toda uma comunidade que experi-
menta o amor do Ressuscitado e deseja comunicá-lo a todos. “Ele cha-
ma para estar consigo e para sair em missão. Por isso, não se pode sepa-
rar a vida em comunidade da ação missionária, como se uma só dessas
dimensões bastasse. ‘A vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano
por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana em sua di-
mensão pessoal, familiar, social e cultural’” (DGAE 2019-2023, n. 18)
196. Por esta razão “a evangelização está essencialmente relacio-
nada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus
Cristo ou que sempre o recusaram. Muitos deles buscam secretamente a
Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga
tradição cristã. Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos
têm o dever de anunciá-lo, sem excluir ninguém, e não como quem im-
põe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica

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um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não
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cresce por proselitismo, mas ‘por atração’” (EG, n. 14).


197. É preciso evangelizar assumindo a vida em comunidade
como sinal de vida nova em meio à sociedade. Uma comunidade que
é lar: casa da Palavra, do Pão, da Caridade e da Ação Missionária. Des-
sa forma, essa comunidade-casa deve estar de portas abertas para ser
sinal profético de acolhida do dom da vida. “Abrir as portas para aco-
lher os irmãos e as irmãs é um sinal profético em um mundo no qual
o individualismo, o medo da violência e o predomínio das relações
virtualizadas, e no qual os espaços físicos das casas se tornam cada vez
menores e menos vivenciais. Nesse contexto, ser comunidade é, em si,
profecia” (DGAE 2019-2023, n. 130).
198. Diante do olhar individualista e indiferente, nossas comu-
nidades devem ser um oásis de misericórdia. Uma comunidade que
revele ao mundo de hoje o olhar de Jesus frente a novas realidades que,
à semelhança dos assaltantes da parábola do bom samaritano, deixam
a humanidade como que morta, sem horizontes de vida.
199. Inserida em um mundo, onde ninguém tem tempo para o
outro, a comunidade-casa deve ser o lugar do afeto, da ternura e do
abraço, do encontro fraterno em torno da Palavra e da Eucaristia, que
geram vida. A comunidade gera vida pela proclamação da Palavra e
pela vivência da fraternidade.
200. Superando as relações de superficialidade, mecanicistas,
fundadas no fazer coisas que tornam as pessoas dependentes e angus-
tiadas, somos convidados a construir comunidades-casas nas quais se-
jamos sustentados pela afeição, pelo bem-querer, pelo desejo de estar
juntos e partilhar uma vida sadia, fraterna e solidária como nas primei-
ras comunidades.
201. Contra uma cultura de morte, de ódio, de violência cres-
cente e de polarizações, as comunidades eclesiais missionárias devem
ser lugares de reconciliação, perdão e resiliência, anunciando a cultura
da vida.

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202. Indo para além do conformismo, do pessimismo estéril, da ti-
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bieza e da acomodação, a comunidade-casa deve ter portas abertas para


acolher, mas também para sair. Ouvindo o Ide contra todo tipo de exclu-
são, a comunidade-casa deve promover ações concretas de solidariedade
e de inclusão, junto aos que sofrem e sequer têm direito à sobrevivência.
203. “Quem deseja viver com dignidade e em plenitude não
tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem”
(EG, n. 9). A comunidade eclesial missionária é a casa na qual reconhe-
cemos o outro e na qual podemos fazer, primeiramente, o bem àquele
que é o meu próximo. Essa comunidade é chamada a atuar no mundo
como comunidade em saída rumo às periferias humanas e existenciais.
204. Torna-se urgente unir todos os esforços de promoção e de-
fesa da vida a partir, principalmente, dos resultados dos Sínodos da
Família, da Juventude e para a Amazônia, abrindo-se para diferentes
projetos de valorização da vida. Além disso, a comunidade precisa fa-
vorecer espaços de apoio às vítimas de todo tipo de violência, bem
como de todos os atentados contra a vida, mobilizando campanhas de
conscientização e de formação, seja por meio da iniciação à vida cristã,
dos movimentos, das pastorais ou mesmo de parcerias.
205. A Igreja em saída é a comunidade de discípulos missioná-
rios que assumem e realizam as seguintes atitudes: primeirar, envolver,
acompanhar, frutificar e festejar. Agindo assim, guiados e conduzidos
na força do Espírito Santo, Senhor que dá a vida, iniciaremos bons
processos de concretização da Igreja em saída (EG, n. 24).

3.5. Jornada Mundial dos Pobres


206. Impulsionados pelo Papa Francisco, somos todos convida-
dos a assumir a Jornada Mundial dos Pobres como gesto concreto da
Campanha da Fraternidade 2020. Ela será celebrada ao final do ano
litúrgico, na semana que antecede a festa de Cristo Rei. Contudo, sua
motivação deve fazer parte das ações da Campanha da Fraternidade e
deve ser intensificada já durante o período quaresmal.

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207. Partindo da dimensão da caridade e do comprometimen-
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to da Igreja com sua ação sócio-transformadora, o compromisso com


a Jornada Mundial dos Pobres tem se fortalecido desde que o Papa
Francisco a instituiu e convocou a Igreja a viver ainda mais o Evange-
lho voltando-se aos principais destinatários do Reino, os pobres!
208. Em sua intenção, o Papa Francisco instituiu a Jornada Mun-
dial dos Pobres, como advertência a um mundo profundamente mar-
cado pela indiferença. Ele alerta que não se trata de uma atitude a ser
concretizada apenas em um único dia, mas que deve marcar toda a
vida dos cristãos.
209. Em sua mensagem de 24 de maio 2019, a Papa Francisco
afirmou: “os pobres não são figuras, mas pessoas às quais devemos aju-
dar, acompanhar, proteger, defender e salvar. E isso não é possível sem
a humildade de ouvir, o carisma de estar junto e o valor da renúncia”.
Portanto, para viver a fé e celebrar com dignidade o Dia Mundial dos
Pobres, o sofrimento, a responsabilidade social dos cristãos e o cuida-
do para com os empobrecidos no mundo devem fazer parte do exer-
cício e do compromisso quaresmal de todos os cristãos. É uma forma
atual de viver a esmola.
210. Também em seu pronunciamento, o Papa nos lembrou que
“para aqueles que querem percorrer os caminhos da caridade, humil-
dade e escuta é significativo ouvir os mais pequenos”, porque é tam-
bém por intermédio deles que Deus se revela. Por isso, ainda segun-
do o Papa, não é possível viver a misericórdia sem ouvir e estar com
aqueles e aquelas que, em sua essência, trazem a misericórdia de Deus.
Com essa preocupação, ele afirmou que nunca devemos olhar para
ninguém por cima do ombro! Ressaltando que a única possibilidade
de se olhar para uma pessoa de cima é quando temos que ajudar essa
pessoa a se recuperar.
211. Outra preocupação despertada pela penitência quaresmal, a
qual nos leva a refletir sobre a vida, Dom e Compromisso na Jornada
Mundial dos Pobres, é a questão migratória, em nossos dias acentuada
pela triste e vergonhosa realidade dos refugiados. A prática do acolher

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envolve não só, mas principalmente essas populações. Ela exige ressig-
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nificar as vidas dilaceradas por essas violências.


212. O Papa Francisco quis se reunir, de 26 a 28 de março de
2020, em Assis (Itália), com jovens economistas e empresários de
todo o mundo durante um evento sobre uma nova economia, reno-
vando assim seu apelo de pôr em prática um modelo econômico fruto
de uma cultura de comunhão, baseada na fraternidade e na igualdade.
Com ênfase nas questões ambientais que não podem ser dissociadas
da garantia da justiça com os pobres.
213. Neste cenário, vejamos algumas iniciativas que podem ins-
pirar ainda mais a ação de nossas comunidades eclesiais missionárias
em vista do cuidado para com o próximo. É preciso redescobrir pe-
quenas atitudes cotidianas capazes de renovar a vida pessoal e a vida
comunitária, acolhendo assim o frescor original do Evangelho. É pre-
ciso potencializar as boas iniciativas e valorizar as coisas simples que
provocam grandes transformações.
214. Primeirar. Ter iniciativa. Ousemos ser mais ousados: a bele-
za de compartilhar a vida.
a. Redescobrir os lugares onde não há presença de uma comunida-
de eclesial missionária e ali ser presença de vida;
b. Ir além das tradicionais reuniões que acontecem, criando outros
espaços e momentos que favoreçam a partilha da vida e da expe-
riência de fé entre os membros da comunidade;
c. Superar a lentidão que subordina a ação missionária à existên-
cia de espaços físicos e construções, sendo criativos, valorizando
as casas das famílias, espaços físicos cedidos, alugados e outros
espaços;
d. Valorizar o protagonismo dos leigos e leigas com a criação e for-
talecimento dos diversos serviços e ministérios, bem como dos
conselhos de pastoral e de administração nas comunidades;
e. Oferecer atendimento, escuta, aconselhamento e assessoria (ju-
rídica, psicológica e social) e atividades evangelizadoras em dias,
horários e locais acessíveis às pessoas;

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f. Promover o diálogo ecumênico e inter-religioso com organiza-
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ções e favorecer espaços de diálogos entre os jovens e as lideran-


ças mais experientes nas comunidades;
g. Ampliar o diálogo e melhorar a presença pública da Igreja na socie-
dade, estimulando leigos e leigas a se engajarem nos diversos orga-
nismos de defesa dos direitos e na participação política em geral;
h. Aproveitar as festas eclesiais para expressar o sentido de corres-
ponsabilidade, partilha e convívio: festa dos padroeiros, romaria
das águas e da terra, gritos dos excluídos, Dia nacional da juven-
tude, entre outros;
i. Valorizar datas importantes da sociedade: o dia internacional da
mulher, do migrante, da ecologia, do meio ambiente, dentre ou-
tros, como momentos fortes para formação de uma consciência
marcada pela fraternidade e pelo mútuo cuidado.

215. Envolver: a vida é um intercâmbio de ternura e cuidado!


a. Estabelecer parcerias com a comunidade escolar local tendo em
vista a formação para convivência a partir do resgate dos valores
humanos;
b. Acompanhar as famílias, com uma especial atenção as várias ex-
pressões de juventudes;
c. Promover rodas de conversa sobre temas diretamente ligados à
realidade local;
d. Fortalecer laços de vizinhança, estimulando também a parti-
cipação nas associações de moradores e em outras entidades
semelhantes;
e. Participar, junto com outros organismos da sociedade civil, das
iniciativas voltadas para a Ecologia Integral;
f. Estabelecer diálogo com poder público e entidades da sociedade
civil para a promoção e valorização da agricultura familiar e das
cooperativas em seus mais diversos âmbitos;
g. Formar parcerias com organizações que cuidem da vida a partir
dos mesmos valores do Reino de Deus.

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216. Acompanhar: processos fundamentados no Evangelho.
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a. Promover iniciativas na perspectiva da iniciação à vida cristã,


centrada na Palavra de Deus, que visem a encontros vivenciais
que despertem o seguimento e o discipulado;
b. Redescobrir a importância da liturgia como momento forte em
que se experimenta o cuidado de Deus por nós;
c. Celebrar missionariamente, com as famílias enlutadas, a dor que
brota da morte de entes queridos;
d. Promover a valorização das celebrações da Palavra de Deus com
a formação dos ministros da Palavra no horizonte do Documento
108 da CNBB;
e. Estabelecer programas de visitas missionárias a regiões desassis-
tidas pastoralmente, expressando, com isso, o cuidado da Igreja
por todas as pessoas, estejam elas onde estiverem;
f. Potencializar o acompanhamento dos processos de engajamento
e incidência das lideranças nos espaços sociais e políticos de mo-
bilização social, políticas públicas e controle social.

217. Frutificar: não perder a paz por causa do joio. É Deus quem
tudo conduz!
a. No âmbito da pessoa: fazer um sério exame de consciência tendo
em vista o pecado da omissão;
b. No âmbito da comunidade: torná-las verdadeiramente “casa da
acolhida”, “casa da amizade”, “casa do fraterno cuidado”, firmando
o projeto de chegar ao Domingo da Páscoa do Senhor com novas
comunidades formadas;
c. No âmbito da sociedade: redescobrir a esperança como força
agregadora de sentido à vida. Dessa forma, que os leigos e leigas
não se isentem da participação social e política, sendo canais de
diálogo em tempos de radicalizações.

218. Festejar: vida – dom a ser anunciado e compromisso a ser


realizado.

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a. Não descuidar dos momentos de confraternização na ação
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evangelizadora (aniversários, nascimentos, pequenas alegrias e


conquistas);
b. Promover iniciativas que favoreçam a amizade entre as pessoas:
confraternizações, passeios, mutirões, ações caritativas e ecológi-
cas, prática de esportes, dentre outros.

3.6. Uma colaboração social


219. Acolher:
a. Organizar espaços de acolhida, casas pró-vida, lugares de escuta
e apoio à vida, casas terapêuticas e de apoio a familiares de de-
pendentes químicos, enfim, espaços onde a vida possa ser cul-
tivada e promovida, lugares de valorização da vida em todas as
suas etapas;
b. Criar centros de escuta e programas de prevenção ao suicídio,
bem como capacitar os agentes de pastoral a identificar possíveis
sinais que apontem para o risco de a pessoa tomar essa atitude;
c. Ampliar o serviço e a escuta aos pobres, implementando a ideia
de construção de casas de apoio, proporcionando alternativas de
superação da pobreza;
d. Dar voz efetivamente aos pobres, valorizando a iniciativa do “Dia
mundial dos pobres” como oportunidade para refletir sobre as
causas da pobreza, favorecendo espaços onde os pobres sejam
protagonistas na partilha da situação por eles vivida;
e. Acolher os fragilizados em espaços de solidariedade e
misericórdia.

220. Proteger:
a. Acompanhar e dar suporte aos pais que descobrem que o filho
que está para nascer possui uma doença específica;
b. Criar e fortalecer grupos de valorização da vida e prevenção ao
suicídio;
c. Criar e favorecer espaços em favor das crianças;

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d. Formar Redes de Proteção, criar e estabelecer casas pró-vida,
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com equipes multidisciplinares das áreas da medicina e enfer-


magem, bem como agentes de pastoral, que possam colaborar na
defesa do nascituro e apoiar famílias em situação de vulnerabili-
dade social.

221. Promover:
a. Formação da consciência sobre o valor da própria vida e da vida
do próximo;
b. Propor a formação de agentes para cuidados paliativos;
c. Presença junto aos hospitais, principalmente os católicos, para
que aprofundem seu agir, em consonância com a proposta da
vida cristã;
d. Projetos com universidades e escolas, públicas e particulares,
para a promoção da cultura do encontro;
e. Gestos e atitudes que transformam:
š assumir um compromisso radical com a justiça e a

solidariedade;
š apostar na capacidade das pessoas de serem construtoras da

vida;
š eliminar todo tipo de exclusão ou apartação social;

š respeitar a vida das diversas culturas e das diferentes etnias;

š ampliar as lutas para a conquista de direitos.

f. Abrir uma linha de ação por meio da realização de seminários,


fóruns, debates em diálogo com a sociedade civil, com vistas a
gerar nova consciência nas pessoas, com marcas claras de uma
sociedade emancipatória, justa e fraterna;
g. Universidades e centros de capacitação, escolas de Fé e Política,
seminários eclesiais, centro de formação para agentes pastorais,
oferecendo formação sobre a Doutrina Social da Igreja;
h. Cultivar uma espiritualidade de abertura, acolhida, convivência,
diálogo e respeito frente ao crescimento do conflito, da intolerân-
cia, do ódio e da vontade de combate.

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222. Integrar:
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a. Incentivar a consciência da dignidade do ser humano e a impor-


tância da justiça restaurativa em todos os âmbitos, principalmen-
te no âmbito carcerário;
b. Combater a visão reducionista da vida com uma visão integral do
ser humano e dos seus direitos, promovendo os movimentos e as
associações que se dedicam às suas defesas e garantias;
c. Prevenção ao feminicídio, valorização da mulher, grupos de
apoio, partilha de vida, rodas de conversas;
d. Conscientizar sobre a vida substitutiva da inteligência ar-
tificial e sobre as questões do pós-humano com os avanços
biotecnológicos;
e. Organizar atividades para a semana da família, semana da vida,
dia do nascituro que promovam, valorizem e defendam a vida,
em unidade com todas as iniciativas das Pastorais, Movimentos,
Serviços e Organismos, especialmente aqueles que têm parti-
cipação nos conselhos Municipais, Estaduais e Nacionais, for-
talecendo uma agenda em prol da vida em todos os âmbitos da
sociedade pela garantia de políticas públicas em vista do tempo
comum;
f. Criar espaços de defesa e de promoção da vida dos povos ne-
gros e indígenas, dos sem teto e daqueles sem condições de
sobrevivência;
g. Ações concretas em vista da ecologia integral, considerando a
Laudato Si’ e as conclusões do sínodo Pan-Amazônico, cuidando:
š da vida no seu conjunto;

š dos bens da natureza;

š dos mais pobres;

š dos povos tradicionais tirando-os da invisibilidade social;

š da qualidade da vida humana;

š da ecologia;

š das riquezas culturais, naturais e ambientais da humanidade;

š da justiça entre as gerações.

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h. Envolver as escolas e as universidades na prevenção e acompa-
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nhamento das causas que podem levar ao suicídio;


i. Articular, no mundo político – em termos federais, estaduais e
municipais – mobilizações e ações que garantam o direito à vida
e o respeito à dignidade humana desde a sua concepção até o seu
ocaso natural, com a superação de todas as situações de morte
social (mistanásia72);
j. Despertar para a necessidade de uma legislação ambiental que
siga o princípio da ecologia integral;
k. Motivar uma cultura da paz que ajude – em especial, a juventude
– a promover esse debate em seus mais diversos ambientes;
l. Propagar iniciativas em favor da paz social e da convivência fra-
terna entre os diferentes;
m. Fazer prevalecer, em nossas comunidades, o acolhimento do ou-
tro, daquele que é diferente por pertencer a uma tradição religio-
sa e cultural distinta da nossa.

72 A palavra mistanásia advém do vocábulo grego mis (infeliz) e thanatos (morte), significan-
do, portanto, uma morte infeliz. O termo é utilizado para se referir à morte de pessoas que,
excluídas socialmente, acabam morrendo sem qualquer ou apenas uma precária assistência
de saúde. Assim, podemos afirmar que as vítimas da mistanásia são as pessoas que não dis-
põem de condições financeiras para arcar com os custos advindos dos tratamentos da própria
saúde, ficando na dependência da prestação de assistência pública. Fonte: https://jus.com.br/
artigos/68102/mistanasia-uma-breve-analise-sobre-a-dignidade-humana-no-sistema-unico-
-de-saude-no-brasil. Acesso em: 7 out. 2019.

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Conclusão
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“Se fosse preciso, começaria tudo outra vez do mesmo jeito,


andando pelo mesmo caminho de dificuldades, pois a fé,
que nunca me abandona, me daria forças para
ir sempre em frente”
(Santa Dulce dos Pobres)

223. No caminho que se apresenta a todos nós, encontramos


desafios e oportunidades. Na certeza de que a Vida é um Dom e, ao
mesmo tempo, um Compromisso, a Igreja segue os passos de seu Se-
nhor, vê, sente compaixão e cuida dos homens e das mulheres que se
encontram feridos e necessitados de amor. Sem jamais perder a alegria
do Evangelho, os cristãos são convidados a cultivar, na oração, na fra-
ternidade e no serviço, um olhar de esperança, que irradie para todos
a luz da vitória da Ressurreição de Cristo. Com Ele, a Igreja tem a cer-
teza de que o amor terá a última palavra e vencerá todo tipo de mal.
224. Com o intuito de percorrer com entusiasmo o caminho da
Esperança cristã, propõem-se alguns conselhos que o Papa Francisco
ofereceu a toda a Igreja em sua catequese Educar para a Esperança.73
225. “Não te rendas à noite (...) o mundo caminha graças ao
olhar de tantos homens que abriram frestas, que construíram pontes,
que sonharam e acreditaram; mesmo quando ao seu redor ouviam pa-
lavras de escárnio”.
226. “Onde quer que você esteja, construa! Se você está caído
na terra, levante-se! Não permaneça nunca caído, levante-se, deixe-se
ajudar para ficar de pé. Se está sentado, coloque-se em caminho! Se o
tédio o paralisa, realize obras de bem! Se se sente vazio ou desmorali-
zado, peça que o Espírito Santo possa novamente encher o teu nada”.

73 Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2017/documents/


papa-francesco_20170920_udienza-generale.html>. Acesso em: 10 jul. 2019.

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227. “Promova a paz em meio aos homens e não ouça a voz de
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quem espalha ódio e divisões. Não ouça essas vozes. Os seres huma-
nos, por mais que sejam diversos uns dos outros, foram criados para
viver juntos. Nos contrastes, paciência: um dia descobrirás que cada
um é depositário de um fragmento de verdade”.
228. “Ame as pessoas. Ame-as uma a uma. Respeite o caminho
de todos, seja linear ou difícil, porque cada um tem a sua história a
contar. Também cada um de nós tem a própria história a contar. Cada
criança que nasce é a promessa de uma vida que ainda uma vez se de-
monstra mais forte que a morte. Todo amor que surge é um poder de
transformação que deseja a felicidade”.
229. “Jesus nos entregou uma luz que brilha nas trevas: defenda-
-a, proteja-a. Aquela única luz é a maior riqueza confiada à sua vida.
E, sobretudo, sonhe! Não tenha medo de sonhar. Sonhe! Sonhe um
mundo que ainda não se vê, mas que por certo chegará. A esperança
nos leva a acreditar na existência de uma criação que se estende até o
fim, até o seu cumprimento definitivo, quando Deus será tudo em to-
dos. Os homens capazes de imaginação deram ao homem descobertas
científicas e tecnológicas. Atravessaram oceanos, pisaram terras que
ninguém antes havia pisado. Os homens que cultivaram esperanças
são também aqueles que venceram a escravidão e levaram melhores
condições de vida sobre esta terra. Pensem nesses homens”.
230. “Seja responsável por este mundo e pela vida de cada ho-
mem. Pense que cada injustiça contra um pobre é uma ferida aberta
e diminui a sua própria dignidade. E cada dia peça a Deus o dom da
coragem. Lembre-se de que Jesus venceu por nós o medo. Ele venceu
o medo!”.
231. “Tenha sempre a coragem da verdade, porém lembre-se:
você não é superior a ninguém. Recorde-se disso: você não é superior
a ninguém. Se você permanecer também o último a acreditar na ver-
dade, não se refugie, por isso, da companhia dos homens. Mesmo que
você viva no silêncio de um ermo, leva em teu coração os sofrimentos
de cada criatura. Você é cristão; e na oração tudo entrega a Deus”.

97
232. “Cultive ideais. Viva por algo que supera o homem. E, mes-
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mo que um dia esses ideais peçam a você uma conta salgada para pa-
gar, nunca deixe de levá-los em teu coração”.
233. “Se você errou, levante-se: nada é mais humano que come-
ter erros. E esses mesmos erros não devem se tornar para você uma
prisão. Não se engaiole em seus erros. O Filho de Deus veio não para
os sãos, mas para os doentes: portanto veio também para você”.
234. “Se te atinge a amargura, acredita firmemente em todas as
pessoas que ainda trabalham pelo bem: na humildade deles, há a se-
mente de um mundo novo. Conviva com pessoas que conservaram o
coração como aquele de uma criança. Aprende com a maravilha, culti-
va o estupor. Vive, ama, sonha, acredita. E, com a graça de Deus, nunca
se desespera”.
235. Fraternidade: Dom e compromisso. Ver, solidarizar-se e
cuidar, ações de uma vida samaritana. “Para partilhar a vida com o
povo e dar-nos generosamente, precisamos reconhecer também que
cada pessoa é digna da nossa dedicação. E não pelo seu aspecto físico,
suas capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas satisfações
que nos pode dar, mas porque é obra de Deus, criatura sua. Ele criou-a
à sua imagem, e reflete algo da sua glória. Cada ser humano é objeto da
ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz,
Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Independen-
temente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso
afeto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a
viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. É maravilhoso ser
povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude quando derrubamos os mu-
ros e o coração se enche de rostos e de nomes!” (EG, n. 274).
236. Como povo peregrino, povo da vida e pela vida, como nos
ensinou São João Paulo II, caminhamos confiantes para “um novo céu
e uma nova terra” (Ap 21,1). Não poderíamos concluir este Texto-Ba-
se, sem lançarmos o nosso olhar filial à Mãe da Esperança, a ela confia-
mos tudo o que somos e toda a Campanha da Fraternidade de 2020:

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Ó Maria, aurora do mundo novo,
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Mãe dos viventes, confiamos-vos a causa da vida:


olhai, Mãe, para o número sem fim de crianças
a quem é impedido nascer,
de pobres para quem se torna difícil viver,
de homens e mulheres vítimas de inumana violência,
de idosos e doentes assassinados pela indiferença
ou por uma falsa compaixão.
Fazei com que todos aqueles que creem no vosso Filho
saibam anunciar com desassombro e amor aos homens
do nosso tempo o Evangelho da vida.
Alcançai-lhes a graça de o acolher como
um dom sempre novo, a alegria de o celebrar
com gratidão em toda a sua existência, e a coragem
para o testemunhar com grande tenacidade, para construírem,
juntamente com todos os homens de boa vontade, a civilização
da verdade e do amor, para louvor e glória de
Deus Criador e amante da vida.
Amém!74

74 SÃO JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae, 25 de março de 1995. Disponí-
vel em: <http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_
enc_25031995_evangelium-vitae.html>. Acesso em: 10 jul. 2019.

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Fundo Nacional de Solidariedade
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1. O gesto concreto – Coleta da Solidariedade


A Campanha da Fraternidade se expressa concretamente pela
oferta de doações em dinheiro na coleta da solidariedade, realizada no
Domingo de Ramos. É um gesto concreto de fraternidade, partilha
e solidariedade, feito em âmbito nacional, em todas as comunidades
cristãs, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidariedade é parte inte-
grante da Campanha de Fraternidade.

DIA NACIONAL DA COLETA DA SOLIDARIEDADE


Domingos de Ramos, 05 de abril de 2020

Bispo, padres, religiosos (as), lideranças leigas, agentes de pasto-


ral, colégios católicos e movimentos eclesiais são os principais motiva-
dores e animadores da Campanha da Fraternidade. A Igreja espera que
com essa motivação todos participem, oferecendo sua solidariedade
em favor das pessoas, grupos e comunidades, pois: “Ao longo de uma
história de solidariedade e compromisso com as incontáveis vítimas
das inúmeras formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece ser-
vidora do Deus da Vida” (DGAE 2011-2015, n. 66). O gesto frater-
no da oferta tem um caráter de conversão quaresmal, condição para
que advenha um novo tempo marcado pelo amor e pela valorização
da vida.

2. O Fundo Nacional de Solidariedade


O resultado integral das coletas realizadas nas celebrações do
Domingo de Ramos, Coleta da Solidariedade, com ou sem envelope,
deve ser encaminhado à respectiva Diocese.
Do total arrecadado pela Coleta da Solidariedade, a Diocese deve
enviar 40% ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), gerido pela
CNBB. A outra parte (60%) permanece nas dioceses para atender aos

100
projetos locais, por meio dos respectivos Fundos Diocesanos de Soli-
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dariedade (FDS).

Doações
Doações para o Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB, para
aplicação em projetos sociais, podem ser efetuadas na conta indicada
abaixo, ao longo de todo o ano.

Para depósito dos 40% da Coleta da Solidariedade


(Fundo Nacional de Solidariedade – FNS)
Banco Bradesco, Agência: 0484-7 – Conta Corrente: 4188-2 – CNBB
O comprovante do depósito precisa ser enviado para o e-mail:
financeiro@cnbb.org.br
OU
Correspondência - Endereço
SE/Sul Quadra 801, Conjunto B,
CEP: 70.200-014 – Brasília-DF
Contato pelo telefone: (61) 2103-8311 (falar com o departamento
Financeiro)

3. A destinação dos Recursos


Os recursos arrecadados serão destinados preferencialmente a
projetos que atendam aos Objetivos Gerais e Específicos propostos
pela CF 2020.

3.1. O trâmite dos projetos


A recepção, análise da viabilidade e acompanhamento do desen-
volvimento dos projetos enviados ao Fundo Nacional de Solidarie-
dade (FNS), são trabalhos executados pela CNBB pelo seu Departa-
mento Social.

101
A Supervisão do Fundo Nacional, a destinação dos recursos e a
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aprovação dos projetos está a cargo do Conselho Gestor do FNS, assim


composto: Secretário Geral da CNBB (Presidente do Conselho), Bis-
po Presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Caridade, Justiça e
Paz; Ecônomo da CNBB; um representante das Pastorais Sociais; o
Secretário Executivo da Campanha da Fraternidade; um representan-
te dos Secretários Executivos Regionais da CNBB; o Coordenador de
projetos do FNS; e a Assistente Social da CNBB.
As organizações que desejarem obter apoio do FNS, de acordo
com os critérios de destinação previstos no Edital para a CF 2020,
deverão fazer o cadastro da entidade e do projeto no site <www.fns.
cnbb.org.br>, depois encaminhá-lo, junto à documentação que é exi-
gida para a pré-análise, para o seguinte endereço:

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL –


CNBB
Departamento Social/Fundo Nacional de Solidariedade –
FNS
SE/SUL Quadra 801, Conjunto – B,
CEP: 70.200-014 – Brasília – DF
Contato: (61) 2103-8300. E-mail: fns@cnbb.org.br

Os projetos, após a pré-análise, serão submetidos ao Conselho


Gestor do FNS.
O Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), composto por
60% da coleta do Domingo de Ramos, é administrado pelo Conse-
lho Gestor Diocesano, que pode ser constituído com a participação
de uma pessoa da Cáritas Diocesana (onde ela exista), de um repre-
sentante das Pastorais Sociais, da Coordenação de Pastoral Diocesana,
da Equipe de Animação das Campanhas, do responsável pela admi-
nistração da Diocese e de uma pessoa ligada ao tema da CF. O Bispo
Diocesano constitui este Conselho Gestor e o preside.

102
MEMBROS DO CONSELHO GESTOR - FNS
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Dom Joel Portella Amado – Secretário Geral da CNBB


Dom José Valdecir Santos Mendes – Presidente da Comissão Epis-
copal Pastoral para a Ação Sociotransformadora
Monsenhor Nereudo Freire Henrique – Ecônomo da CNBB
Pe. Patriky Samuel Batista – Secretário Executivo de Campanhas
da CNBB
Frei Olávio Dotto – Assessor da Comissão Episcopal Pastoral para
a Ação Sociotransformadora
Pe. Agenor Guedes Filho – Representante dos Secretários Executi-
vos dos Regionais da CNBB
Franklin Ribeiro Queiroz – Coordenador de projetos – FNS/
CNBB
Antônia Mendes Ribeiro – Assistente Social – CNBB

3.2. Atividades do Fundo Nacional de Solidariedade –


2016 a 2018
Ano Total arrecadado: Total de projetos apoiados:
2016 R$ 6.594.378,91 209*
2017 R$ 6.815.265,38 237
2018 R$ 6.844.022,56 179

3.3. Projetos entendidos por região


Região 2016 2017 2018
Norte 21 23 26
Nordeste 71 77 50
Sul 45 31 17
Sudeste 51 71 61
Centro-Oeste 20 35 24
Haiti* 1* * *
Roraima ** - - 1**
Total 209 237 179

**Em 2018, após pedido feito pela Diocese de Roraima em vir-


tude da difícil situação daquele estado, foi apresentado ao Conselho
Permanente da CNBB um projeto para ajudar a suprir as necessidades

103
dos milhares de imigrantes Venezuelanos que ali aportam – 40% do
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FNS – aprovado na 55ª Assembleia Geral.


Ajude a construir a Campanha da Fraternidade! Para informa-
ções, sugestões, avaliação, esclarecimentos e orientações sobre a
organização e realização da Campanha da Fraternidade, contatar Pe.
Patriky Samuel Batista, Secretário Executivo da CF pelo e-mail: cam-
panhas@cnbb.org.br ou pelo telefone (61) 2103-8300.

3.4. Prestação de contas

CAMPANHA DA FRATERNIDADE – 2018


MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORTE 1
Doador Data Pagamento Valor R$
Alto Solimões - AM 19/04/2018 2.288,27
Borba - AM 12/06/2018 1.992,50
Coari - AM 29/06/2018 3.329,82
Itacoatiara - AM 02/05/2018 3.086,58
Manaus - AM 09/05/2018 64.705,86
Parintins - AM 25/10/2018 3.243,60
Roraima - RR 25/06/2018 9.596,08
Tefé - AM 13/12/2018 3.030,65
São Gabriel da Cachoeira - AM 03/04/2019 2.763,95
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 94.037,31

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORTE 2


Doador Data Pagamento Valor R$
Abaetetuba - PA 12/09/2018 5.454,35
Belém do Pará - PA 10/12/2018 43.200,00
Bragança do Pará - PA 02/07/2018 8.835,06
Cametá - PA 26/06/2018 2.905,22
Castanhal do Pará - PA 11/10/2018 14.070,00
Itaituba - PA 13/09/2018 6.667,60
Macapá - AP 14/05/2018 5.393,50
Marabá - PA 18/06/2018 10.108,45
Marajó - PA 17/05/2018 3.968,86
Óbidos - PA 04/07/2018 9.723,72
Ponta de Pedras - PA 17/07/2018 2.426,60

104
Santarém - PA 08/10/2018 21.218,80
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Santíssima Conceição do Araguaia - PA 19/07/2018 5.167,38


Xingu - PA 29/06/2018 8.119,60
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 147.259,14

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORTE 3


Doador Data Pagamento Valor R$
Cristalândia - TO 10/07/2018 6.417,34
Miracema do Tocantins - TO 16/05/2018 3.328,90
Palmas - TO 26/12/2018 11.001,95
Porto Nacional - TO 06/07/2018 2.630,42
Tocantinópolis - TO 27/08/2018 14.146,86
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 37.525,47

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORDESTE 1


Doador Data Pagamento Valor R$
Crateús - CE 20/06/2018 8.869,02
Crato - CE 30/05/2018 15.276,03
Fortaleza - CE 09/08/2018 84.817,93
Iguatu - CE 30/05/2018 7.585,00
Itapipoca - CE 09/05/2018 10.075,00
Limoeiro do Norte - CE 15/08/2018 8.945,50
Quixadá - CE 14/05/2018 4.819,58
Sobral - CE 20/08/2018 11.344,08
Tianguá - CE 22/05/2018 12.903,70
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 164.635,84

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORDESTE 2


Doador Data Pagamento Valor R$
Afogados da Ingazeira - PE 25/04/2018 10.635,00
Caicó - RN 11/05/2018 9.010,36
Cajazeiras - PB 18/07/2018 10.300,45
Campina Grande - PB 30/04/2018 12.830,35
Caruaru - PE 09/10/2018 11.250,00
Floresta - PE 30/05/2018 3.604,24
Garanhuns - PE 06/06/2018 12.860,10
Guarabira - PB 18/04/2018 7.665,96
Maceió - AL 13/06/2018 26.219,37

105
Mossoró - RN 10/05/2018 22.844,68
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Natal - RN 04/09/2018 41.239,48


Nazaré - PE 08/05/2018 10.736,08
Olinda e Recife - PE 24/04/2019 52.813,35
Palmares - PE 14/05/2018 45.675,73
Palmeira dos Índios - AL 02/07/2018 11.004,00
Paraíba - PB 18/06/2018 27.885,62
Patos - PB 07/05/2018 34.739,54
Penedo - AL 23/08/2018 10.360,46
Pesqueira - PE 29/06/2018 7.888,97
Petrolina - PE 26/06/2018 18.394,82
Salgueiro - PE 21/05/2018 6.983,56
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 394.942,12

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORDESTE 3


Doador Data Pagamento Valor R$
Alagoinhas - BA 23/09/2019 7.400,00
Amargosa - BA 16/05/2018 13.509,88
Aracaju - SE 21/05/2018 29.160,53
Barra - BA 18/06/2018 2.579,53
Barreiras - BA 29/05/2018 14.461,52
Bom Jesus da Lapa - BA 28/05/2018 7.365,70
Bonfim - BA 29/10/2018 7.582,26
Caetité - BA 14/05/2018 28.571,30
Camaçari - BA 05/07/2018 5.679,08
Estância - SE 24/04/2018 11.496,14
Eunápolis - BA 09/07/2018 7.355,00
Feira de Santana - BA 22/05/2018 16.825,64
Ilhéus - BA 10/05/2018 7.129,74
Irecê - BA 05/07/2018 4.009,33
Itabuna - BA 08/05/2018 8.199,82
Jequié-BA 19/09/2018 3.854,30
Juazeiro - BA 28/05/2018 8.176,64
Livramento de Nossa Senhora - BA 24/05/2018 7.859,08
Paulo Afonso - BA 30/01/2018 9.358,74
Propriá - SE 02/05/2018 10.285,54
Ruy Barbosa - BA 16/05/2018 8.160,40

106
São Salvador da Bahia - BA 27/06/2018 45.542,00
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Serrinha - BA 15/06/2018 17.095,88


Teixeira de Freitas - Caravelas - BA 03/07/2018 8.727,52
Vitória da Conquista - BA 27/06/2018 16.532,22
Cruz das Almas - BA 02/05/2018 5.189,90
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 312.107,69

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORDESTE 4


Doador Data Pagamento Valor R$
Bom Jesus do Gurguéia - PI 22/06/2018 2.516,88
Campo Maior - PI 30/07/2018 14.684,94
Floriano - PI 11/12/2018 7.398,50
Oeiras - PI 08/06/2018 9.833,04
Parnaíba - PI 15/06/2018 21.059,91
Picos - PI 16/05/2018 9.783,86
São Raimundo Nonato - PI 15/08/2018 4.768,68
Teresina - PI 12/09/2018 46.700,64
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 116.746,45

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NORDESTE 5


Doador Data Pagamento Valor R$
Bacabal - MA 19/06/2018 12.550,82
Balsas - MA 15/08/2018 5.197,32
Brejo - MA 17/08/2018 7.936,90
Carolina - MA * *
Caxias do Maranhão - MA 16/07/2018 6.100,00
Coroatá - MA 04/05/2018 6.226,34
Grajaú - MA 01/06/2018 3.980,00
Imperatriz - MA 21/06/2018 10.098,70
Pinheiro - MA 18/06/2018 7.493,72
São Luís do Maranhão - MA 30/05/2018 27.896,18
Viana - MA 16/05/2018 6.590,40
Zé Doca - MA 15/05/2018 6.920,94
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 100.991,32

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL LESTE 1


Doador Data Pagamento Valor R$
Adm. Apostólica Pessoal São João Maria Vianney 26/06/2018 3.232,00

107
Barra do Piraí-Volta Redonda - RJ 09/01/2019 38.201,28
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Campos - RJ 16/09/2019 14.052,31


Duque de Caxias - RJ 27/04/2018 21.477,12
Itaguaí - RJ 21/05/2018 9.042,04
Niterói - RJ 11/09/2019 49.188,48
Nova Friburgo - RJ 10/10/2018 27.933,62
Nova Iguaçu - RJ 14/05/2018 29.234,00
Petrópolis - RJ 18/07/2018 17.135,62
São Sebastião do Rio de Janeiro - RJ 30/05/2018 111.261,00
Valença - RJ 23/05/2018 9.405,00
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 330.162,47

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL LESTE 2


Doador Data Pagamento Valor R$
Almenara - MG 10/05/2018 3.791,88
Araçuaí - MG 17/07/2018 4.938,32
Belo Horizonte - MG 30/05/2018 165.801,74
Cachoeiro de Itapemirim - ES 29/11/2018 49.044,21
Campanha - MG 20/04/2018 39.414,66
Caratinga - MG 21/02/2019 22.463,18
Colatina - ES 25/05/2018 45.847,47
Diamantina - MG 29/06/2018 30.144,82
Divinópolis - MG 24/05/2018 60.347,17
Governador Valadares - MG 07/05/2018 26.655,07
Guanhães - MG 07/05/2018 8.402,63
Guaxupé - MG 02/08/2018 28.780,32
Itabira-Coronel Fabriciano - MG 09/07/2018 36.746,16
Ituiutaba - MG 10/07/2018 10.124,21
Janaúba - MG 15/06/2018 4.409,60
Januária - MG 02/01/2019 6.500,00
Juiz de Fora - MG 12/06/2018 38.006,22
Leopoldina - MG 10/05/2018 24.000,00
Luz - MG 27/07/2018 14.910,16
Mariana - MG 24/05/2018 65.345,83
Montes Claros - MG 05/10/2018 21.524,74
Oliveira - MG 13/06/2018 13.722,15
Paracatu - MG 15/06/2018 7.600,64

108
Patos de Minas - MG 30/04/2018 27.224,48
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Pouso Alegre - MG 04/07/2018 46.220,00


São João del Rei - MG 07/05/2018 16.596,15
São Mateus - ES 16/05/2018 44.685,89
Sete Lagoas - MG 28/06/2018 13.652,38
Teófilo Otoni - MG 09/09/2019 1.000,00
Uberaba - MG 24/09/2018 24.960,01
Uberlândia - MG 02/07/2018 15.288,14
Vitória do Espírito Santo - ES 04/06/2018 103.861,81
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 1.022.010,04

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL SUL 1


Doador Data Pagamento Valor R$
Amparo - SP 13/06/2018 13.402,48
Aparecida - SP 25/04/2018 17.835,00
Araçatuba - SP 25/06/2018 21.431,09
Assis - SP 17/05/2018 20.289,80
Barretos - SP 21/05/2018 14.590,32
Bauru - SP 24/05/2018 31.310,61
Botucatu - SP 30/05/2018 30.739,26
Bragança Paulista - SP 26/04/2018 45.422,60
Campo Limpo - SP 29/05/2018 44.394,43
Caraguatatuba - SP 14/09/2018 7.461,20
Catanduva - SP 17/08/2018 20.828,15
Campinas - SP 15/06/2018 67.020,64
Franca - SP 30/04/2018 43.170,81
Guarulhos - SP 18/05/2018 57.156,14
Itapetininga - SP 13/07/2018 21.300,00
Itapeva - SP 20/072019 12.247,59
Jaboticabal - SP 02/05/2018 24.698,05
Jales - SP 25/04/2018 26.817,43
Jundiaí - SP 05/06/2018 98.246,24
Limeira - SP 02/08/2018 61.342,92
Lins - SP 10/12/2018 12.735,00
Lorena - SP 27/06/2018 20.108,96
Marília - SP 27/04/2018 94.520,05
Mogi das Cruzes - SP 22/05/2018 31.432,50
Osasco - SP 30/05/2018 43.671,89
Ourinhos - SP 29/06/2018 19.613,00

109
Piracicaba - SP 15/06/2018 28.700,89
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Presidente Prudente - SP 02/08/2018 40.012,78


Registro - SP 28/06/2018 7.562,00
Ribeirão Preto - SP 07/05/2018 42.014,68
Santo Amaro - SP 25/05/2018 30.856,90
Santo André - SP 15/06/2018 77.227,71
Santos - SP 27/07/2018 57.672,35
São Carlos - SP 07/06/2018 31.157,37
São João da Boa Vista - SP 20/04/2018 26.450,58
São José do Rio Preto - SP 15/05/2018 72.708,48
São José dos Campos - SP 13/04/2018 95.060,02
São Miguel Paulista - SP 30/05/2018 39.485,56
São Paulo - SP 06/07/2018 247.323,94
Sorocaba - SP 25/10/2018 40.957,13
Taubaté - SP 07/05/2018 28.856,74
Votuporanga - SP 05/06/2018 27.504,70
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 1.795.337,99

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL SUL 2


Doador Data Pagamento Valor R$
Apucarana - PR 16/05/2018 40.867,32
Campo Mourão - PR 22/05/2018 46.225,80
Cascavel - PR 08/05/2018 35.719,23
Cornélio Procópio - PR 18/06/2018 8.270,92
Curitiba - PR 28/05/2018 122.761,14
Foz do Iguaçu - PR 11/05/2018 31.717,60
Guarapuava - PR 25/06/2018 20.971,18
Jacarezinho - PR 14/05/2018 36.465,30
Londrina - PR 30/05/2018 78.552,93
Maringá - PR 26/07/2018 65.247,87
Palmas-Francisco Beltrão - PR 02/05/2018 38.584,94
Paranaguá - PR 18/05/2018 18.161,55
Paranavaí - PR 28/05/2018 21.446,04
Ponta Grossa - PR 02/07/2018 52.510,54
São José dos Pinhais - PR 05/06/2018 68.463,91
Toledo - PR 08/05/2018 42.918,75
Umuarama - PR 29/05/2018 39.573,30

110
União da Vitória - PR 09/07/2018 15.568,64
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Imaculada Conceição de Rito Ucraniano 02/08/2018 10.838,00


SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 794.864,96

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL SUL 3


Doador Data Pagamento Valor R$
Bagé - RS 30/05/2018 5.821,36
Cachoeira do Sul - RS 08/06/2018 2.733,59
Caxias do Sul - RS 02/07/2018 51.677,55
Cruz Alta - RS 21/05/2018 22.531,13
Erexim - RS 14/05/2018 22.755,79
Frederico Westphalen - RS 18/05/2018 16.323,05
Montenegro - RS 22/05/2018 25.664,76
Novo Hamburgo - RS 03/08/2018 58.739,07
Osório - RS 10/09/2018 13.788,00
Passo Fundo - RS 20/07/2018 38.984,22
Pelotas - RS 25/04/2019 8.904,79
Porto Alegre - RS 31/08/2018 44.675,20
Rio Grande - RS 28/05/2018 5.454,26
Santa Cruz do Sul - RS 08/06/0218 31.911,83
Santa Maria - RS 15/06/2018 21.723,32
Santo Ângelo - RS 06/07/2018 43.420,55
Uruguaiana - RS 14/11/2018 14.799,80
Vacaria - RS 05/07/2018 6.636,00
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 436.544,27

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL SUL 4


Doador Data Pagamento Valor R$
Blumenau - SC 15/05/2018 45.269,02
Caçador - SC 04/05/2018 20.951,00
Chapecó - SC 18/06/2018 52.150,00
Criciúma - SC 18/06/2018 34.241,13
Florianópolis - SC 2105/2018 104.912,26
Joaçaba - SC 11/05/2018 14.195,33
Joinville - SC 20/07/2018 60.785,26
Lages - SC 31/07/2018 14.622,00
Rio do Sul - SC 18/06/2018 24.996,72

111
Tubarão - SC 20/11/2018 21.341,27
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SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 393.463,99

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL CENTRO-OESTE


Doador Data Pagamento Valor R$
Anápolis - GO 11/05/2018 31.383,50
Brasília - DF 23/08/2018 77.181,41
Formosa - GO 28/09/2018 4.896,16
Goiás - GO 18/06/2018 13.541,64
Goiânia - GO 28/06/2018 69.530,95
Ipameri - GO 08/06/2018 7.345,00
Itumbiara - GO 30/07/2018 8.868,82
Jataí - GO 23/05/2018 17.977,24
Luziânia - GO 09/07/2018 11.865,90
Ordinariado Militar do Brasil * *
Rubiataba-Mozarlândia - GO 09/04/2018 7.912,92
São Luís de Montes Belos - GO 23/04/2018 13.084,54
Uruaçu - GO 07/05/2018 18.431,05
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 282.019,13

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL OESTE 1


Doador Data Pagamento Valor R$
Campo Grande - MS 19/07/2018 41.330,88
Corumbá - MS 24/04/2018 5.048,50
Coxim - MS 23/04/2018 8.285,06
Dourados - MS 18/06/2018 34.078,98
Jardim - MS 04/06/2018 6.078,96
Naviraí - MS 07/05/2018 16.392,34
Três Lagoas - MS 08/06/2018 12.028,04
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 123.242,76

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL OESTE 2


Doador Data Pagamento Valor R$
Barra do Garças - MT 08/06/2018 9.415,34
Cuiabá - MT 24/04/2018 53.058,82
Diamantino - MT 30/05/2018 28.628,94
Juína - MT 03/07/2018 4.658,52
Primavera do Leste - Paranatinga - MT 29/05/2018 16.502,95

112
Rondonópolis - MT 15/06/2018 16.700,40
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São Félix - MT 26/04/2018 7.600,00


São Luiz de Cáceres - MT 15/06/2018 25.199,84
Sinop - MT 01/11/2018 36.558,19
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 198.323,00

MITRAS, ARQ (DIOCESES) REGIONAL NOROESTE


Doador Data Pagamento Valor R$
Cruzeiro do Sul - AC 15/05/2018 4.556,36
Guajará-Mirim - RO 04/06/2018 7.736,00
Ji-Paraná - RO 18/07/2018 38.288,92
Porto Velho - RO 19/07/2018 29.801,31
Rio Branco - AC 03/08/2018 14.050,38
Humaitá - AM 15/05/2018 3.770,04
Lábrea - AM 16/05/2018 1.605,60
SUBTOTAL DA COLETA ------------>>> 99.808,61
TOTAL DA ARRECADAÇÃO DA COLETA ------------>>> 6.844.022,56

(Demonstrativo atualizado em 16/09/2019)


Informações: financeiro@cnbb.org.br

113
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INTRODUÇÃO
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O compromisso da Igreja no Brasil com a defesa incondicional


da vida suscitou, em diferentes momentos da história, experiências
de reflexão e práticas concretas para promover a justiça, os direitos
e a dignidade humana, inspirada no próprio Jesus Cristo, Aquele que
caminhou com os marginalizados, encorajou e estendeu a mão para os
caídos, enfrentou os poderosos do seu tempo para dizer que o amor
tudo supera, o amor é o que nos tornará “benditos do Pai”.
O tempo da Quaresma, no qual somos chamados à conversão
para viver, com alegria, a Páscoa do Senhor, é um caminho que pode
nos permitir encontrar com as motivações e compromissos primei-
ros da fé que professamos no Batismo. Para tal, a Campanha da Fra-
ternidade 2020, que tem como tema: “Fraternidade e Vida: Dom e
Compromisso”, convoca-nos a ver, sentir compaixão e cuidar da vida,
assim como fizera o Samaritano (Lc 10,25-37) com o homem ferido
na estrada quando descia de Jerusalém para Jericó. Ao fim da história,
seremos julgados pelo amor, pelas obras de misericórdia que fizemos
com os irmãos e irmãs que sofrem em uma vida subjugada, ameaçada,
destruída.
Todas as vidas importam, todas as vidas são obras do amor de
Deus. Por isso, este subsídio Fraternidade Viva apresenta três encon-
tros como possibilidade de aprofundar o tema da Campanha da Fra-
ternidade. O primeiro encontro é um olhar para a potência da vida que
se manifesta na criação. No segundo, somos convidados a contemplar
e inspirar nossas práticas a partir do Bom Samaritano, que abdica das
leis do seu tempo para manifestar aquilo que é importante aos olhos
de Deus: o amor e a misericórdia. No terceiro encontro, seremos guia-
dos pela leitura do Evangelista Mateus, que também nos fala sobre cui-
dado, compaixão e caridade para com a vida ameaçada dos irmãos e
irmãs que não têm direitos.

115
Desejamos que este caminho para a Páscoa do Senhor nos aju-
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de na conversão pessoal e comunitária, e que a esperança seja com-


panheira para vencer as trevas da injustiça, da violência e da opressão.
Como as mulheres que visitaram o túmulo e ficaram surpresas quando
não o encontraram, queremos também ver e anunciar que a morte não
vencerá. A vida triunfou!

Cáritas Brasileira

116
ORIENTAÇÕES PARA OS ENCONTROS
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Este subsídio foi elaborado com o propósito de oferecer às comu-


nidades, grupos e instituições mais uma possibilidade de aprofundar o
tema da Campanha da Fraternidade 2020: “Fraternidade e Vida: Dom
e Compromisso”, a partir do próprio Texto-Base e de outros materiais
que sustentam a temática.
Desejamos que o tema da Campanha da Fraternidade e o espírito
quaresmal que nos acompanham para a Páscoa do Senhor sejam moti-
vadores para o encontro fraterno entre irmãos e irmãs, pessoas que
desejam reafirmar o compromisso com a defesa da vida, inspirados no
Testemunho de Jesus Ressuscitado.
Para bem experimentar os conteúdos e a metodologia, é impor-
tante preparar os materiais e organizar o espaço para acolher as pes-
soas. No início de cada parte, estão presentes algumas sugestões, mas o
grupo poderá acrescentar outros elementos a partir de sua realidade.
Os encontros apresentam uma metodologia que pode ser viven-
ciada por grupos de diferentes realidades e gerações. A acolhida é a
partir de um refrão meditativo (que pode ser substituído por outro
que também tenha relação com o tema do encontro). O animador e
os leitores conduzem a maior parte do tempo, por isso é importante
envolver diferentes pessoas em cada encontro. O grande ápice está na
escuta e encontro com a Palavra, momento no qual o grupo pode-
rá refletir sobre o cuidado com a vida, iluminada pelas Escrituras. O
olhar para a memória e o testemunho de três mulheres que assumi-
ram a defesa da vida como causa maior de suas vidas nos ajudará no
caminho da conversão para celebrar a Páscoa como cristãos e cristãs
comprometidos com o cuidado, o amor e a justiça. E, por fim, o com-
promisso com a vida é o momento de olhar para as realidades mais
próximas do grupo e pensar concretamente a respeito de que práticas
podem ser assumidas para que a vida seja plena para todas as pessoas.

117
Para aprofundar as reflexões de cada momento de oração, ao final
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do subsídio se encontram indicações de textos, artigos e vídeos que


podem ser utilizados nos encontros, bem como em momentos poste-
riores de estudo pessoal e comunitário.

Bons encontros e boas reflexões!

118
1º ENCONTRO
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“Deus viu tudo quanto havia feito, e era


muito bom” (Gn 1,31)

Preparar o espaço: Bíblia, vela, Cartaz e Texto-Base da Campanha


da Fraternidade 2020, imagem da Irmã Dorothy Stang, vasilha com terra,
vasilha com água, frutos da terra, um globo terrestre, Encíclica Laudato Si’.

1. ACOLHIDA
Refrão meditativo: Deus vos salve Deus. / Deus vos salve Deus.
/ Deus salve a criação onde mora Deus, / Vos salve Deus.
Animador(a): Iniciamos nossa caminhada quaresmal em prepa-
ração para a Páscoa do Senhor. Ao longo desta jornada, somos convi-
dados e convidadas a revisar nossas práticas, rever os olhares e nosso
compromisso com a vida criada por Deus e oferecida a nós para ser
cuidada. “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso” é o tema da
Campanha da Fraternidade 2020. Com essas quatro potentes palavras,
queremos nos preparar individual e coletivamente para celebrar a vitó-
ria da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, a vitória do amor.
Canto: Hino da CF 2020 (p. 5)
Animador(a): Este primeiro encontro retoma a leitura do Livro
do Gênesis e o princípio de toda vida proclamada, criada e doada a
nós por Deus. Os céus, as águas e a terra, os animais, o dia e a noite, os
astros, as flores e os frutos. Tudo o que somos e temos, tudo que nos
cerca e permite nossa vida é dom de Deus. Todas as vidas, em todos os
tempos, devem ser nosso compromisso intransigente.

2. ESCUTA DA PALAVRA
Canto: Toda Palavra de Vida (Zé Vicente)
Toda palavra de vida é Palavra de Deus.
Toda ação de liberdade é a Divindade agindo entre nós.
É a Divindade agindo entre nós.

119
Boa-Nova em nossa vida, Jesus semeou /
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O Evangelho em nosso peito é prova de amor. (bis)


Todo grito por justiça que sobe do chão/
É clamor e profecia que Deus anuncia para a conversão.
Que Deus anuncia para a conversão./
Aleluia, aleluia! Bendita Palavra que faz libertar. (bis)
Leitura do Livro do Gênesis 1,1-31; 2,1-4 (ler na Bíblia.)
(Após leitura: momento de silêncio e meditação.)

3. ENCONTRO COM A PALAVRA


Leitor(a) 1: A leitura do texto de Gênesis narra o cuidado com
que Deus criou todas as coisas. O amor que ele dedicou durante toda
a criação. E sua confiança nas mulheres e homens, também criados por
Ele, para que Sua obra permanecesse “muito boa”.
Todos: Louvado sejas, meu Senhor, pela Mãe Terra!
Leitor(a) 2: O Papa Francisco, na Mensagem para o Dia Mundial
da Criação 2019, recorda que: “Desgraçadamente, a resposta humana
ao dom recebido foi marcada pelo pecado, pelo fechamento na própria
autonomia, pela avidez de possuir e explorar. Egoísmos e interesses
fizeram deste lugar de encontro e partilha, que é a criação, um palco de
rivalidades e confrontos”.1
Leitor(a) 1: Os estilos de vida que adotamos para atender às
nossas vaidades e necessidades dos sistemas de economia que matam
são danosos para os animais, as florestas e as águas; consequentemen-
te, a vida de nossos irmãos e irmãs também está ameaçada, porque
“tudo está interligado” – recorda a Encíclica Laudato Si’.
Leitor(a) 2: Não estamos nós, humanos, de um lado, e o meio
ambiente como restante da criação distante de nós. Somos parte,
interrelacionados, interconectados. O que destrói a Terra e os seus

1 FRANCISCO. Mensagem para o Dia Mundial de Cuidado com a Criação 2019.

120
recursos destrói também a nós. Essa é a perspectiva da Ecologia Inte-
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gral da qual nos fala o Papa Francisco. Ambiente, sociedade, cultura,


economia, política, espiritualidade são elementos que compõem o
grande dom da vida.
Todos: Tudo está interligado! Tudo está interligado!
Leitor(a) 1: Deus viu que toda a criação era boa. Em nossa
comunidade, na nossa região, quais são os sinais de que a “criação está
gemendo como que em dores de parto” (Rm 8,22), que sofre com
nossa falta de cuidado?
(Tempo para partilha do grupo.)
Canto: Cântico das Criaturas (Zé Vicente)
R. Onipotente e bom Senhor
A ti a honra, glória e louvor!
Todas as bênçãos de ti nos vêm
E todo o povo te diz: amém!
Louvado sejas nas criaturas
Primeiro o sol, lá nas alturas
Clareia o dia, grande esplendor
Radiante imagem de ti, Senhor
Louvado sejas pela irmã lua
No céu criaste, é obra tua
Pelas estrelas, claras e belas
Tu és a fonte do brilho delas
Louvado sejas pelo irmão vento
E pelas nuvens, o ar e o tempo
E pela chuva que cai no chão
Nos dá sustento, Deus da criação. R.
Louvado sejas, meu bom Senhor
Pela irmã água e seu valor
Preciosa e casta, humilde e boa
Se corre, um canto a ti entoa

121
Louvado sejas, ó, meu Senhor
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pelo irmão fogo e seu calor


Clareia a noite robusto e forte
Belo e alegre, bendita sorte
Sejas louvado pela irmã terra
Mãe que sustenta e nos governa
Todos os frutos, nos dá o pão
Com flores e ervas sorri o chão. R.
Louvado sejas, meu bom Senhor
Pelas pessoas que em teu amor
Perdoam e sofrem tribulação
Felicidade em ti encontrarão
Louvado sejas pela irmã morte
Que vem a todos, ao fraco e ao forte
Feliz aquele que te amar
A morte eterna não o matará
Bem aventurado quem guarda a paz
Pois o altíssimo o satisfaz
Vamos louvar e agradecer
Com humildade ao Senhor bendizer. R.

4. MEMÓRIA E TESTEMUNHO
Animador(a): Mulheres e homens de todas as partes do mun-
do estão comprometidos e comprometidas com o cuidado da criação.
São pessoas da cidade e do campo que, assumindo a vida como dom,
defendem e protegem a natureza, os territórios e seus povos.
Irmã Dorothy Stang – Mártir da Terra
Hoje fazemos memória de Irmã Dorothy Mae Stang, religio-
sa norte-americana naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de
Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804
por Santa Julie Billiart (1751-1816) e Françoise Blin de Bourdon

122
(1756-1838). Essa congregação católica reúne mais de duas mil
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mulheres que realizam trabalhos pastorais nos cinco continentes.


Em 1966, iniciou seu ministério pastoral e social aqui no
Brasil, na cidade de Coroatá, no Estado do Maranhão. Irmã Doro-
thy estava presente na Amazônia desde a década de 70 junto aos
trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e
missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos
de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores
rurais da área da rodovia Transamazônica.
Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos
fundiários na região. Atuou ativamente nos movimentos sociais no
Pará. Participava da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Confe-
rência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde a sua fundação
e acompanhou com determinação e solidariedade à vida e a luta dos
trabalhadores do campo. Defensora de uma reforma agrária justa
e consequente, Irmã Dorothy mantinha intensa agenda de diálogo
com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de solu-
ções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à explora-
ção da terra na Região Amazônica. 
A sua participação em projetos de desenvolvimento sustentá-
vel ultrapassou as fronteiras da pequena Vila de Sucupira, no muni-
cípio de Anapu, no Estado do Pará, a 500 quilômetros de Belém do
Pará, ganhando reconhecimento nacional e internacional.
Irmã Dorothy recebeu diversas ameaças de morte, sem se dei-
xar intimidar. Pouco antes de ser assassinada, declarou: “Não vou
fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão despro-
tegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida
melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade
sem devastar”.
Foi assassinada com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor
do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, às
sete horas e trinta minutos da manhã, em uma estrada de terra de
difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no
Estado do Pará.

123
Segundo uma testemunha, antes de receber os disparos que
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lhe ceifaram a vida, ao ser indagada se estava armada, Irmã Dorothy


afirmou: “eis a minha arma!”, mostrando a Bíblia. Leu ainda alguns
trechos deste Livro para aquele que logo em seguida lhe balearia.2

5. COMPROMISSO COM A VIDA


Leitor(a) 1: O primeiro gesto que podemos assumir para cuidar
da criação é com os nossos olhos. Sim. Olhar, contemplar e agradecer
pela criação que nos cerca. Quantas vezes paramos para observar tudo
que Deus criou e está ao nosso redor? Desde nosso corpo que respira,
que toca o chão, até o alimento que comemos, que vem da terra, pro-
duzido por outras mãos e regado com a água dos rios. Este será nosso
primeiro compromisso: olhar, contemplar e agradecer. Se possível,
anote, a cada dia, quais as novidades descobertas nessa observação.
Leitor(a) 2: O segundo gesto deve ser um compromisso com a
nossa comunidade, município, região. Quais obras da criação perce-
bemos que precisam de cuidado? Conseguimos realizar algo sozinhos
ou necessitamos dialogar com outros? Recordando a Campanha da
Fraternidade 2019 sobre Políticas Públicas, será que podemos fazer
algum movimento com os governos, secretarias ou conselhos de
nosso município a fim de promover o cuidado com a vida que está
ameaçada?
(Tempo para diálogo.)
Oração da CF 2020 (p. 4)

2 Texto  elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada. Disponível em:
<http://irmandadedosmartires.blogspot.com/2017/02/galeria-dos-martires-irma-dorothy-
-stang.html>.

124
2º ENCONTRO
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“Viu, sentiu compaixão e cuidou”


(Lc 10,33-34)

Preparar o espaço: Bíblia, vela, Cartaz e Texto-Base da Campa-


nha da Fraternidade 2020, imagem de Santa Dulce dos Pobres, foto-
grafia do Papa Francisco.

1. ACOLHIDA
Refrão meditativo: Não nos cansemos de fazer o bem. / Não
nos cansemos de fazer o bem.
Animador(a): Sejam bem-vindas e bem-vindos a este segundo
encontro do nosso caminho em preparação para a Páscoa do Senhor.
Se aproxima a festa maior de nossa Fé Cristã, que nos recorda a potên-
cia da vida manifestada na certeza da Ressureição. Neste ano, a Cam-
panha da Fraternidade é um chamado a olhar para a vida como dom e
compromisso. Parece que ao longo dos últimos tempos, o projeto de
vida plena, como desejara o próprio Jesus ( Jo 10,10) perdeu-se em
meio às migalhas, ao que sobra, àquilo que dá para fazer para continu-
ar vivendo. Como cristãos, nosso compromisso deve ser o de gestar
uma sociedade na qual todas as pessoas e toda a criação tenham vida.
Canto: Hino da CF 2020 (p. 5)
Animador(a): A leitura que nos provoca é a do Bom Samarita-
no. O Evangelista Lucas narra o encontro: indiferença de alguns e a
compaixão de outro. E no cuidado com a vida ameaçada, o amor se faz
compromisso, cumprindo o mandamento de Deus.

2. ESCUTA DA PALAVRA
Canto:
Louvor e glória a ti Senhor / Cristo Palavra / Palavra de Deus!
Oxalá ouvísseis hoje sua voz / Não fecheis os vossos corações.

125
Leitura do Evangelho segundo Lucas 10,25-37 (ler na Bíblia)
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(Após leitura: silêncio e meditação.)

3. ENCONTRO COM A PALAVRA


Leitor(a) 1: A parábola do Bom Samaritano é a grande inspira-
ção para a Campanha da Fraternidade deste ano. Ela suscita em nós
sentimentos e gestos tantas vezes adormecidos, mas que podem ser
ressignificados diante do sofrimento dos irmãos e irmãs.
Leitor(a) 2: Compaixão, bondade, solidariedade, proximidade,
atenção, cuidado. E o gesto-compromisso mais importante da vida
cristã: o amor, a misericórdia. O Sacerdote e o Levita passaram e viram
o homem caído, espancado, maltratado em seu corpo. Não se deixa-
ram afetar. Seguiram indiferentes. O Samaritano, no entanto, aquele
que ninguém esperava que fosse bondoso, foi o irmão que viu, sentiu
compaixão e cuidou.
Leitor(a) 1: Para ver, é preciso se aproximar dos que estão feri-
dos. Padre Adroaldo Palaoro recorda que “se alguém não se aproxima
não pode ver, e a originalidade e qualidade desta visão é o despertador
da própria consciência e é aquela que dá passagem à ação solidária. O
samaritano também conhecia as leis sobre a impureza legal, mas optou
pelo mandamento do amor”.3
Todos: Solidariedade: a força do amor que nos compromete
com a vida.
Leitor(a) 2: Para aliviar as dores dos que sofrem é preciso cora-
gem. Por isso, o Papa Francisco insiste na Cultura do Encontro como
caminho para viver plenamente o mandamento do amor. Estar aber-
to para conhecer, compreender e aprender com a vida daqueles que
são diferentes de nós, de outras culturas, de outros credos, com outras
opiniões.

3 PALAORO, Adroaldo. Solidariedade: o amor como êxodo solidário. Disponível em: < http://
www.ihu.unisinos.br/42-noticias/comentario-do-evangelho/590676-solidariedade-o-amor-
-como-exodo-solidario>.

126
Leitor(a) 1: Jesus desconcerta, desconstrói o que os sacerdotes
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e doutores da lei pregavam como verdade absoluta. O próximo, disse


Jesus através da parábola, não é aquele que comunga com todas as nos-
sas percepções, que está “limpo”.
Leitor(a) 2: O próximo não está nas leis, não está nos tronos. O
amor nos espera naqueles lugares e nas vidas onde muitos não querem
estar: entre os excluídos e excluídas, entre os descartados e descarta-
das, os últimos para os quais a vida é frequentemente negada.
Leitor(a) 1: Olhando para o nosso cotidiano, como reagimos
diante dos corpos e das vidas que encontramos caídas pelo caminho?
Nos deixamos afetar, praticamos a compaixão e o cuidado ou simples-
mente seguimos insensíveis pelo caminho?
(Tempo para reflexões e diálogos.)
Canto: Seu nome é Jesus Cristo (Pe. André Luna)
Seu nome é Jesus Cristo e passa fome / E grita pela boca dos famin-
tos / E a gente quando vê passa adiante / Às vezes pra chegar depres-
sa à igreja.
Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa / E dorme pelas beiras das
calçadas / E a gente quando vê aperta o passo / E diz que ele dormiu
embriagado.
R. Entre nós está e não o conhecemos. / Entre nós está e nós o
desprezamos.
Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto / E vive mendigando um
subemprego / E a gente quando vê, diz: “é um à toa / Melhor que
trabalhasse e não pedisse”.
Seu nome é Jesus Cristo e está banido / Das rodas sociais e das igre-
jas / Porque dele fizeram um Rei potente / Enquanto Ele vive como
um pobre. R.
Seu nome é Jesus Cristo e está doente / E vive atrás das grades da
cadeia / E nós tão raramente vamos vê-lo / Dizemos que ele é um
marginal.

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Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento / Por um mundo de Amor e
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de Justiça / Mas logo que contesta pela Paz / A ordem o obriga a ser
de guerra. R.
Seu nome é Jesus Cristo e é difamado / E vive nos imundos meretrí-
cios / Mas muitos o expulsam da cidade / Com medo de estender a
mão a ele.
Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem / E vive neste mundo ou
quer viver / Pois pra Ele não existem mais fronteiras / Só quer fazer
de todos nós irmãos. R.

4. MEMÓRIA E TESTEMUNHO
Leitor(a) 2: Em outubro de 2019, o Papa Francisco elevou às
honras dos altares a primeira Santa brasileira. Santa Dulce dos Pobres
é um testemunho de compromisso com a vida, de solidariedade e cui-
dado com os pobres.
Santa Dulce dos Pobres: uma samaritana compromissada
com a vida
No dia 26 de maio de 1914, nascia em Salvador, Bahia, Maria
Rita de Souza Brito Lopes Pontes (1914-1992), missionária do
amor, conhecida por todos como Irmã Dulce; nome que traz em
homenagem à sua mãe, mas que, ao mesmo tempo, carrega a essên-
cia de sua alma, a doçura em seu coração que ardentemente deseja-
va servir a Deus através do próximo.
Aos 13 anos, graças a seu destemor e senso de justiça, traços
marcantes revelados quando ainda era muito novinha, Irmã Dul-
ce passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transfor-
mando a residência da família num centro de atendimento. A casa
ficou conhecida como “A Portaria de São Francisco”, tal o núme-
ro de carentes que se aglomeravam à sua porta. Também é nessa
época que ela manifesta, pela primeira vez, após visitar, com uma
tia, áreas onde habitavam pessoas pobres, o desejo de se dedi-
car à vida religiosa. Tendo iniciado sua caminhada junto as Irmãs

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Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de
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São Cristóvão, em Sergipe, depois da profissão religiosa, ela retor-


nou para Salvador onde se viu imersa em uma realidade de misé-
ria e pobreza sobre a qual escreveria tempos depois: “As lágrimas
enchiam meus olhos... O meu coração estava invadido pela dor em
ver tanta miséria ao meu redor”.
Foi assim que, caminhando ao lado dos excluídos na região
de Alagados, pelas ruas e vielas, pelas favelas e palafitas da cidade
de Salvador, a presença de Santa Dulce ao lado dos abandonados à
margem do sistema que exclui e flagela o seu povo, é sinal de uma
vida inteiramente doada ao próximo, tal qual o bom samaritano des-
crito no Evangelho. Indo ao encontro daqueles que necessitavam de
sua ajuda, em pouco tempo Santa Dulce conseguiu autorização de
sua superiora para trabalhar com aqueles a quem tanto chamava seu
coração, tornando-se, assim, verdadeira samaritana em seu meio,
presença e imagem de Cristo que cuida e conforta a todos aqueles
que se encontram em estado de miséria e sofrimento. Santa Dulce
cuidou das famílias de operários e desempregados.
Tal cuidado logo se estendeu a todos aqueles que pediam sua
ajuda. Em uma pequena casa abandonada, construiu um consultó-
rio para cuidar daqueles que passavam por grandes enfermidades e
não tinham ninguém para os socorrer, lembrando, assim, do Evan-
gelho de Lucas: “viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (10,33-34).
Por estar em uma casa considerada invadida, logo foi expulsa de
lá com seus doentes e, assim, ficou peregrinando por dez anos em
diversos locais de Salvador. Nesse tempo, Deus a inspira a levar
seus doentes ao Convento Santo Antônio, lugar de habitação das
religiosas de sua congregação e, com autorização de sua superiora,
instalou-os no galinheiro, que, em pouco tempo, se tornaria um dos
maiores hospitais públicos do Brasil.
Assim, Santa Dulce dedicava-se, cada dia, à sua missão e, mes-
mo em estado de saúde precário, por causa de um problema pul-
monar, não conseguia ficar longe dos pobres, aqueles a quem se via
incumbida por Deus de cuidar, seus “filhos”, a quem ela configurava

129
a sua vida por amor. E, aos poucos, foram nascendo as Obras Sociais
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Irmã Dulce (OSID), nas quais nosso Anjo Bom da Bahia dedicou
sua vida a todos aqueles que eram marginalizados e necessitavam
de cuidados, obras que, segundo nossa querida Santa brasileira, não
eram suas, mas de Deus.4
Todos: Santa Dulce dos Pobres, inspirai em nós compromis-
so com a defesa e a promoção da vida!

5. COMPROMISSO COM A VIDA


Leitor(a) 1: O samaritano viu, teve compaixão e cuidou. Nas
feridas daquele que estava machucado, passou vinho e azeite e o levou
para uma hospedaria para que os cuidados ali continuassem. Quem
são os caídos das ruas e praças de nossas comunidades? O que pode-
mos fazer durante os próximos dias para cuidar de suas feridas?
Leitor(a) 2: O compromisso com a vida não pode ser apenas
através de gestos emergenciais e assistencialistas. Diante da dor e do
sofrimento, eles são inadiáveis, mas é preciso dar passos para que o
cuidado continue e a vida seja, enfim, dom e direito para todas as pes-
soas. Quais parcerias podemos fazer para promover iniciativas de cui-
dado permanente com a vida daqueles e daquelas que estão sofrendo
em nossa comunidade?
Oração da CF 2020 (p. 4)

4 PASSARELLI, Gaetano. Irmã Dulce: o anjo bom da Bahia. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2012.

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3º ENCONTRO
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“Todas as vezes que fizestes isso a um


destes mínimos que são meus irmãos,
foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40)

Preparar o espaço: Bíblia, vela, Cartaz e Texto-Base da Campa-


nha da Fraternidade 2020, imagem da Doutora Zilda Arns, fotografias
de crianças em situação de rua, migrantes, mulheres marginalizadas,
comunidades tradicionais e outras realidades de violação de direitos.

1. ACOLHIDA
Refrão meditativo: Tudo por causa de um grande amor. / Tudo
por causa de um grande amor. / Tudo, tudo, por causa de um grande
amor. / Por causa de um grande amor.
Animador(a): A Quaresma é um tempo propício para voltar a
Jesus e às suas causas. Deixar que nossos corpos, sentimentos e ges-
tos sejam afetados pelo modo de servir ao próximo com amor, com-
paixão e justiça. No primeiro encontro, contemplamos a criação de
Deus: toda a potência da vida e a esperança de que mulheres e homens
sejam sempre seus cuidadores. No segundo encontro, refletimos sobre
a misericórdia para com a vida ameaçada e ferida, o encontro com os
irmãos e irmãs que são destituídos na sua dignidade. Hoje, seguiremos
no caminho do cuidado, da compaixão, da acolhida e do serviço.
Canto: Hino da CF 2020 (p. 5)
Animador(a): Ao aproximarmos da Páscoa do Senhor, quere-
mos olhar para as nossas práticas cotidianas na relação com a criação,
em especial com os nossos irmãos e irmãs. Assumir o testemunho do
Cristo Ressuscitado é abandonar práticas hipócritas e deixar de se
esconder atrás de palavras bem pronunciadas. É preciso que nossa con-
versão quaresmal e a alegria da Ressureição tomem lugar em gestos de
cuidado com aqueles que têm fome, sede, que estão encarcerados, no

131
leito dos hospitais, vivendo nas ruas, sem-terra, sem trabalho, migran-
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tes, crianças e jovens, mulheres marginalizadas.

2. ESCUTA DA PALAVRA
Canto:
Eu vim para escutar: / Tua palavra, Tua palavra, Tua palavra de amor.
/ O mundo ainda vai viver / Tua palavra, Tua palavra, Tua palavra de
amor.
Leitura do Evangelho segundo Mateus 25,31-46 (ler na Bíblia)
(Após leitura: silêncio e meditação.)

3. ENCONTRO COM A PALAVRA


Leitor(a) 1: No fim, seremos julgados não pelo cumprimento
de preceitos religiosos ou políticos, mas pelo amor transformado em
gestos concretos, em obras de misericórdia. No fim, seremos chama-
dos filhos e filhas de Deus se a compaixão penetrar em nossas entra-
nhas, não como os que sentem pena, mas como aqueles e aquelas que,
impulsionados pelo amor, aliviam as dores e promovem a vida plena.
Leitor(a) 2: Os que serão chamados “benditos do Pai” oferecem
ajuda cotidiana para o que têm fome, sede, os que estão nus e encarce-
rados, os que são migrantes, os que são violentados em sua dignidade.
É preciso olhar sem pressa e cuidar com amor da carne machucada de
Cristo na carne dos irmãos que sofrem. “Em cada pessoa que sofre,
Jesus sai ao nosso encontro, olha-nos, interroga-nos e interpela-nos.
Nada nos aproxima mais dele que aprender a olhar demoradamente o
rosto dos que sofrem com compaixão”.5
Leitor(a) 1: Queremos contemplar algumas realidades da socie-
dade, para, a partir delas e da força que nos impulsiona a partir da Pás-
coa, comprometer-nos para a promoção da caridade libertadora que
cuida e acompanha os que têm a vida ferida.

5 PAGOLA, José Antônio. Grupos de Jesus. O decisivo. Disponível em: < https://www.grupos-
dejesus.com/jesus-cristo-rei-do-universo-mateus-2531-46/>.

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(Se possível, as informações apresentadas abaixo podem ser colo-
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cadas em cartazes ou tarjetas para que todas as pessoas visualizem as


realidades.)
Crianças e adolescentes órfãs
“Não podemos deixar de citar também a realidade de milhares
de crianças órfãs que perderam suas famílias, sobretudo em tempos de
forte violência e migração forçada. São crianças que ficam invisíveis na
sociedade do espetáculo e do consumo” (CF 2020: Texto-Base, n. 35).6
Desemprego
“Outro cenário que agride a vida humana é o desemprego. No pri-
meiro trimestre de 2019 a taxa de desemprego atingiu 12,7% da popu-
lação. Segundo o IBGE: ‘a população desocupada (13,4 milhões) cres-
ceu 10,2% (mais 1,2 milhões de pessoas) frente ao trimestre de outubro
a dezembro de 2018 (12,2 milhões)’” (CF 2020: Texto-Base, n. 36).
Saúde mental
“O Brasil já é considerado o país mais ansioso e estressado da
América Latina. Nos últimos dez anos o número de pessoas com
depressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indi-
víduos, ou 4,4% da população da Terra. No Brasil, 5,8% dos habitan-
tes sofrem com o problema. Em relação à ansiedade, o Brasil também
lidera, com 9,3% da população. Esse problema engloba efeitos como
fobia, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático, ata-
ques e síndrome de pânico” (CF 2020: Texto-Base, n. 37).
Fome
De acordo com estudos da Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de cinco milhões de pessoas
ainda passam fome no Brasil. Apesar dos avanços nos últimos anos
em relação às políticas de combate à fome, esse número ainda perma-
nece alto. Além disso, apesar da escassez alimentar para uma parcela
da população brasileira, outros estão se alimentando mal com dietas a

6 CNBB. Campanha da Fraternidade 2020: Texto-Base. Brasília: Edições 2020.

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base de açúcares e gordura, o que tem aumentado o número de brasi-
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leiros obesos, sobretudo entre os adolescentes e jovens.7


Violência contra as mulheres
“Uma triste ameaça à vida é o aumento do feminicídio. Em 2017,
a cada dez feminicídios, registrados em 23 países, quatro ocorreram
no Brasil. “Naquele ano, pelo menos 2.795 mulheres foram assassina-
das, das quais 1.133 no Brasil. Já o Atlas da Violência 2018, publicado
pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, apontou uma possível relação entre
machismo e racismo: a taxa de assassinatos de mulheres negras cres-
ceu 15,4% na década encerrada em 2016. Ao todo, a média nacional,
no período, foi de 4,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres, sendo que
a de mulheres negras foi de 5,3 e a de mulheres não negras foi de 3,1”
(CF 2020: Texto-Base, n. 44).
Migrações
Irmãos e irmãs migrantes são hoje cerca de 272 milhões de pes-
soas, de acordo com dados divulgados pela Organização das Nações
Unidas (ONU)8 em 2019. São diversas as causas que obrigam muitas
pessoas a deixar seus territórios de origem, mas são decisivas as ques-
tões políticas, religiosas e ambientais que tornam impossível a vida
nos países de origem. O Brasil recebe atualmente grande número de
migrantes de países em situação de conflitos políticos, especialmente
do Oriente Médio e da Venezuela.
Conflitos por terra e água
“Conflitos que envolvem terra, água, trabalho, garimpo e violên-
cias contra a pessoa como assassinatos, ameaças, agressões, prisões
etc. Tais conflitos aumentaram em 4% em relação a 2017, passando de
1.431 para 1.489. (...) Em 2018, em 73,5% dos casos de conflito de terra
e água em todo o Brasil predominaram as populações tradicionais. Os

7 Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/apesar-de-menor-fome-


-ainda-afeta-o-brasil-aponta-orgao-da-onu.shtml>.
8 Disponível em: < https://nacoesunidas.org/estudo-da-onu-aponta-aumento-da-populacao-
-de-migrantes-internacionais/>.

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conflitos trabalhistas também aumentaram, sobretudo as ocorrências
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de trabalho escravo: de 66 casos, envolvendo 530 pessoas, em 2017,


para 86, envolvendo 1.465 pessoas, em 2018. Neste mesmo ano 13.532
famílias foram expulsas de suas moradias através de ordens de despe-
jo, dando a entender que, com este ato, estariam sendo removidos os
entraves para o desenvolvimento” (CF 2020: Texto-Base, n. 45; 47).
Leitor(a) 2: Quem são os que têm fome, sede, os que estão
presos, os migrantes, sem-teto e sem-terra, os que precisam de nosso
amor? Vamos olhar concretamente para o nosso bairro, nossa cidade,
região? Onde estão aqueles que precisam do nosso compromisso?

4. MEMÓRIA E TESTEMUNHO
Zilda Arns – misericórdia, cuidado e compromisso
Doutora Zilda Arns Neumann foi médica pediatra e sanitaris-
ta, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança,
fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa –
organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB). Dra. Zilda Arns também foi representante titular
da CNBB, do Conselho Nacional de Saúde e membro do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
Nascida em Forquilhinha (SC), residia em Curitiba (PR), mãe
de cinco filhos e avó de dez netos. Escolheu a medicina como mis-
são e enveredou pelos caminhos da saúde pública. Sua prática diária
como médica pediatra do Hospital de Crianças Cezar Pernetta, em
Curitiba (PR), e posteriormente como diretora de Saúde Materno-
-Infantil, da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, teve como
suporte teórico diversas especializações como Saúde Pública, pela
Universidade de São Paulo (USP) e Administração de Programas
de Saúde Materno-Infantil, pela Organização Pan-Americana de
Saúde (OPAS/OMS). Sua experiência fez com que, em 1980, fosse
convidada a coordenar a campanha de vacinação Sabin para com-
bater a primeira epidemia de poliomielite, que começou em União
da Vitória (PR), criando um método próprio, depois adotado pelo
Ministério da Saúde.

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Em 1983, a pedido da CNBB, a Dra. Zilda Arns criou a Pasto-
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ral da Criança juntamente com Dom Geraldo Magela Agnello, Car-


deal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, que na época era
Arcebispo de Londrina. Foi então que desenvolveu a metodologia
comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade
entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre da multipli-
cação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas,
como narra o Evangelho de São João ( Jo 6,1-15). A educação das
mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor for-
ma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e
a marginalidade das crianças. 
Após 30 anos, a Pastoral acompanha mais de um milhão de
crianças menores de seis anos, 60 mil gestantes e 860 mil famílias
pobres, em 3.665 municípios brasileiros. Seus mais de 175 mil
voluntários levam fé e vida, em forma de solidariedade e conheci-
mentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comu-
nidades mais pobres.
Em 2004, a Dra. Zilda Arns recebeu da CNBB outra missão
semelhante: fundar, organizar e coordenar a Pastoral da Pessoa Ido-
sa. Mais de 163 mil idosos são acompanhados todos os meses por
aproximadamente 19 mil voluntários.
Dra. Zilda Arns Neumann recebeu o título de Cidadã Honorá-
ria de 11 estados e 37 municípios brasileiros, 19 prêmios (nacionais
e internacionais) e dezenas de homenagens de governos, empresas,
universidades e outras instituições, pelo trabalho realizado na Pas-
toral da Criança.9
Faleceu no dia 12 de janeiro de 2010, no terremoto que atin-
giu a cidade de Porto Príncipe, Haiti. Estava em missão de trabalho,
espalhando a metodologia da Pastoral da Criança naquele sofrido
país do Caribe. Morreu junto com os pobres, promovendo e defen-
dendo a dignidade humana.

9 Biografia disponível no site da Pastoral da Criança: <https://www.pastoraldacrianca.org.br/


biografia-dra-zilda>.

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5. COMPROMISSO COM A VIDA
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Leitor(a) 1: Conversão para o amor, conversão para a com-


paixão. Esse é o chamado para vivermos o tempo quaresmal. Nosso
caminho de reflexão durante os três encontros suscitou em nós quais
compromissos? Que conversão podemos dizer, pessoal e comunita-
riamente, que experimentamos nesta Quaresma?
Leitor(a) 2: Dar de comer, dar de beber, vestir os que não têm
roupa, acolher os migrantes, visitar os presos e doentes são gestos
urgentes que manifestam a conversão para o compromisso com o Rei-
no de Deus e com o seguimento de Jesus Ressuscitado. Porém, esses
gestos não podem ser simplesmente um assistencialismo, como aque-
les que agem com pena. É preciso dar de comer, mas é preciso ques-
tionar e lutar para que todas as pessoas tenham pão em suas mesas.
É preciso acolher os migrantes em casa, mas é preciso acompanhar
as políticas públicas sobre migração e refúgio e não permitir ações de
xenofobia contra aqueles que migram. É preciso cuidar das mulheres,
crianças, idosos e tantos outros violentados, mas nosso compromisso
deve ser que o direito e a justiça nos libertem de todas as formas de
opressão.
(Tempo para diálogo.)
Oração da CF 2020 (p. 4)

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SUGESTÕES PARA APROFUNDAR
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OS ENCONTROS

1º ENCONTRO
Textos e artigos:
FRANCISCO. Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuida-
do da Criação 2019. Disponível em: <http://w2.vatican.
va/content/francesco/pt/messages/pont-messages/2019/
documents/papa-francesco_20190901_messaggio-giorna-
ta-cura-creato.html>.
BARROS, Marcelo. Dia de Oração e Cuidado com a Cria-
ção. Disponível em: <https://cebi.org.br/reflexoes/
dia-de-oracao-e-cuidado-com-a-criacao/>.
REDE ECLESIAL PAN-AMAZÔNICA – REPAM BRASIL. Revis-
ta de Ecoteologia. Disponível em: <http://repam.org.
br/?page_id=1385>.
Vídeos:
CÁRITAS BRASILEIRA . Papa Francisco: uma família humana cuidan-
do da criação. Disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=I4IIcgFi1dg>.
CÁRITAS BRASILEIRA – REPAM BRASIL. Laudato Si: sobre o cui-
dado da Casa Comum. Disponível em: <https://www.you-
tube.com/watch?v=zuuOt4Q5QqA>.
MATARAM IRMÃ DOROTHY. Documentário. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=bg7HJa3NE8g>.

138
2º ENCONTRO
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Textos e artigos:
FRANCISCO. Por uma cultura do encontro. Disponível em: <http://
w2.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2016/docu-
ments/papa-francesco-cotidie_20160913_cultura-do-
-encontro.html>.
PESSINI, Padre Leo. Qual antropologia como fundamento da defesa da
vida?. Disponível em: <https://www.vidapastoral.com.br/
artigos/bioetica/qual-antropologia-como-fundamento-da-
-defesa-da-vida/>.
BIANCHI, Enzo. A comunidade ferida precisa de misericórdia. Dis-
ponível em: <http://www.imissio.net/v2/jubileu-da-
-misericordia/a-humanidade-ferida-precisa-da-miseridor-
dia-enzo-bianchi:3002/>.
RONCHI, Ermes. O Bom Samaritano: a misericórdia começa por ver,
parar e tocar. Disponível em: <https://www.snpcultura.
org/o_bom_samaritano_a_misericordia_comeca_por_
ver_parar_tocar.html>.
NEIVALDO DE SOUZA, José. Solidariedade em tem-
pos de indiferença. Disponível em: <http://amerin-
diaenlared .org/contenido/11533/solidar iedade
-em-tempos-de-indiferenca/>.
Vídeos:
FRANCISCO. Globalização da indiferença. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=f591ErfzKpY>.
REDE APARECIDA DE COMUNICAÇÃO. Irmã Dulce. Docu-
mentário. Disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=YknM7VvB8Bg>.

139
3º ENCONTRO
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Textos e artigos:
CASAROTTI, Ana Maria. Seremos julgados pelo amor. Disponível em:
<http://www.ihu.unisinos.br/42-noticias/comentario-do-
-evangelho/574005-seremos-julgados-pelo-amor>.
MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Quem está aí sou eu. Entre
nós está e não o conhecemos. Disponível em: <https://cebi.
org.br/noticias/mateus-2531-46-quem-esta-ai-sou-eu-
-entre-nos-esta-e-nao-o-conhecemos-mesters-lopes-e-oro-
fino-2/>.
Vídeos:
CÁRITAS BRASILEIRA . Campanha Compartilhe a Viagem. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=OeaJxvMAtBU.
INSTITUTO TRATA BRASIL. Depoimento Dra. Zilda Arns. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=6ahujqkCWVk.

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Orientações gerais
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Cada comunidade tem seu ambiente próprio, onde certos proble-


mas sociais estão mais presentes. Diante disso, podem ser feitas muitas
adaptações nas tarefas propostas e no modo de abordar o tema. Suge-
rimos alguns cantos, mas podem ser usados outros que sejam mais
conhecidos em cada grupo. Os tipos de ajuda ao próximo que serão
sugeridos também podem ser substituídos por outros que combinem
mais com o ambiente e as possibilidades das crianças e dos adolescen-
tes de cada comunidade.

142
1º ENCONTRO: Apresentação geral da
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Campanha e do tema

Preparação do local: expor o material da Campanha, colocar a


Bíblia em lugar de destaque; preparar pequenas faixas com as palavras
e expressões: bondade, violência, amizade, ajuda a quem precisa, ego-
ísmo, solidariedade, amor ao próximo, sabedoria, saber perdoar, indi-
ferença e defesa dos direitos humanos.
Preparar um caderninho com as letras das músicas que serão can-
tadas em todos os encontros.

Canto Inicial
(Enquanto cantam, colocar a Bíblia em destaque)
A Bíblia é a Palavra de Deus semeada no meio do povo/ Que cresceu,
cresceu e nos transformou/ Ensinando-nos viver num mundo novo.
Deus é bom, nos ensina a viver, nos revela o caminho a seguir:/ Só
no amor partilhando seus dons, sua presença iremos sentir./ Somos
povo, o povo de Deus e formamos o Reino de irmãos.
E a Palavra que é viva nos guia e alimenta a nossa união.
(Fr. Fabreti)

O que é uma Campanha da Fraternidade?


Estamos no tempo especial da Quaresma. São 40 dias de prepa-
ração para a Semana Santa, que é quando vamos celebrar os fatos mais
importantes da história da nossa fé: a Santa Ceia, a paixão, a morte e a
ressurreição de Jesus. A Campanha da Fraternidade é uma das partes
dessa preparação. Isso se faz todos os anos refletindo sobre um tema
que nos mostre como precisamos fazer a vontade de Deus e viver a
mensagem de Jesus diante do que acontece em nossa vida. A fraterni-
dade é nosso jeito de viver o amor ao próximo, importando-nos uns

143
com os outros como irmãos que se respeitam e se querem bem, já que
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Deus é o Pai de todos. Afinal, não adianta saber o que Jesus ensinou,
os exemplos que nos deixou e as mensagens da Bíblia se não vivemos
de fato como filhos de Deus e irmãos que sabem se ajudar. Este ano,
o tema da Campanha é “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”.
(Mostrar e comentar o cartaz da Campanha.)

O significado do tema
(Deve ser trabalhado em diálogo com os catequizandos.)
Fraternidade é sabermos viver como irmãos que se amam, se res-
peitam e se ajudam. Jesus ensinou que isso é o modo mais importan-
te de agradar a Deus. Que Pai não gostaria de ver que seus filhos se
amam, partilham coisas boas e cuidam bem uns dos outros? A palavra
vida nesse tema não se refere só a estar vivo, respirando. É a vida como
ela deveria ser, com direitos respeitados, em um planeta bem cuidado,
sem gente sendo maltratada ou tratada como se não existisse. Por que
essas ideias de fraternidade e vida são importantes?
Dom é todo presente que recebemos de Deus, por exemplo: nos-
sa vida, nossos companheiros, nossos talentos, nosso país. Somos obra
de um artista que faz tudo com amor e quer nos ver fazendo coisas
muito boas. Ele deseja que o mundo fique melhor porque nós exis-
timos. Podemos pensar no que deveria ser desenvolvido para todos
viverem melhor. Vamos escolher uma faixa que tenha uma qualidade
importante a ser desenvolvida para que isso aconteça.
(Colocar as faixas no chão e deixar que cada catequizando diga qual
seria a sua escolha; comentar as escolhas, conversar sobre situações em que
essa atitude melhora a vida de alguém; pedir que cada criança ou adoles-
cente diga como pretende viver cada uma das atitudes escolhidas; comen-
tar também os efeitos negativos das condições expostas em faixas que não
devem ser escolhidas.)
Que relação há entre dom e compromisso? Quem recebe uma
coisa boa deve usá-la bem. Por exemplo: quem tem boa voz deve can-
tar músicas bonitas para alegrar os outros; quem estuda em uma boa

144
escola deve ter interesse em estudar e aprender para depois transmitir
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bem esses conhecimentos; quem conseguiu se formar e ter uma boa


profissão deve prestar bons serviços com seu trabalho; quem se sen-
tiu capaz de vencer uma dificuldade deve estar preparado para ajudar
outros em situação parecida.
Os catequizandos podem imaginar, ou até dramatizar, uma cena
mais ou menos assim: Uma pessoa chega bem alegre e dá um presente
a outra. Quem recebeu o presente o joga no lixo, bem na frente da
pessoa que o ofertou. Como se sentiria o doador do presente? E como
seria se a pessoa que deu o presente visse que foi bem aproveitado e
está melhorando a vida de quem o recebeu e de quem está por perto?
Deus nos dá condições para fazer o bem aos nossos companhei-
ros de caminhada que devem ser bem tratados. Mesmo em meio a pro-
blemas e dificuldades, o amor de Deus é o dom maior que nos ajuda
a sermos a pessoa especial que Ele planejou e acompanhou desde que
nascemos. É um presente maravilhoso. Como Ele se sentiria se des-
prezássemos esse presente ou não soubéssemos usá-lo?

A Bíblia nos fala da importância de amar os


outros filhos de Deus
As primeiras comunidades cristãs cresceram e se multiplicaram
porque ali se vivia esse amor de irmãos que se ajudam e partilham seus
dons. Os que chegavam se sentiam bem em um ambiente assim. Isso
era muito importante, como vemos na carta que João escreveu, era
através desse amor ao próximo que se mostrava um verdadeiro amor
a Deus.

Leitura do texto bíblico: 1Jo 4,7-12

Conversa sobre a mensagem do texto bíblico


Deus é amor e no seu amor manifestou-se a nós para que vivamos
nele e amemos os irmãos como ele nos amou. Vamos retomar o texto
e descobrir o que Deus nos diz?

145
Como o amor de Deus é apresentado no texto? O que Deus
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deseja que façamos com esse amor? Como Jesus foi sinal desse amor
de Deus? Como vivemos esse amor na família, com os vizinhos, com
os colegas da escola, na Igreja? Como esse amor pode se manifestar
na vida dos adultos? O que mudaria na vida do nosso povo se todos
vivessem esse amor?

Um exemplo desse amor, que é apresentado na


nossa Campanha da Fraternidade
A figura de Santa Dulce dos Pobres aparece no cartaz da Cam-
panha porque a vida dela foi um sinal vibrante desse amor aos mais
necessitados. Vamos pensar em um resumo de sua história.
Nasceu em 1914 na Bahia. Aos 13 anos, passou a acolher men-
digos e doentes em casa. Entrou depois para a congregação das Irmãs
Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus em Sergipe.
Quando voltou à Bahia ficou comovida com a situação de miséria de
muita gente e sua vida foi um total sinal de amor ao próximo, indo ao
encontro dos necessitados. Cuidou das famílias de operários e desem-
pregados e de todos que pediam a sua ajuda. Acolheu doentes, que
depois foram levados ao Convento Santo Antônio e, com autorização
da madre superiora de sua congregação, criou ali um grande hospi-
tal público. Mesmo tendo problemas de saúde, não ficava longe dos
pobres e por causa de suas ações foram nascendo as Obras Sociais
Irmã Dulce (OSID), que ela não considerava suas, mas de Deus (eram
um dom que ela viveu como compromisso). Hoje, é vista como santa,
um exemplo de fé, de amor, cuidado com a vida e cuidado cristão com
os necessitados.
Nem todos vamos fazer tudo o que ela fez, mas como esse exem-
plo poderia nos animar quando alguém precisa de ajuda? Como ficaria
nosso país se todos os necessitados fossem bem atendidos?
(A turma pode imaginar como seriam as notícias de jornal em um país
onde todos se respeitassem, se ajudassem e tivessem seus direitos garantidos;
pode então ser montada uma folha com as manchetes de um jornal assim.)

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Canto: Hino da CF 2020 (p. 5)
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(Depois de cantar, comentar a letra.)

Tarefas em casa:
Conversar com o pessoal de casa sobre dom e compromisso e
sobre a importância de uma Campanha da Fraternidade. Contar a his-
tória de Santa Dulce dos Pobres e ver se alguém conhece outras histó-
rias de santos dedicados ao serviço dos mais pobres. Lembrar alguns
dons que já conseguem perceber nas pessoas que conhecem. Conver-
sar com Deus sobre os dons que já identificamos nessas pessoas e em
nós e sobre como gostaríamos de os ver crescer.
Oração da CF 2020 (p. 4)

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2º ENCONTRO: A história
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do bom samaritano

Preparação do local: Expor os materiais da Campanha e a Bíblia


em local de destaque.

Canto Inicial
(Depois de cantar, conversar sobre a letra.)
Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão. (2x)
Eis que eu vos dou o meu novo mandamento:/ Amai-vos uns aos
outros como eu vos tenho amado.
Vós sereis os meus amigos se seguirdes meus preceitos:/ Amai-vos uns
aos outros como eu vos tenho amado.
Como o Pai sempre me ama, assim também eu vos amei:/ Amai-vos
uns aos outros como eu vos tenho amado.
Permanecei no meu amor e segui meu mandamento:/ Amai-vos uns
aos outros como eu vos tenho amado.
Nisto todos saberão que vós sois os meus discípulos:/ Amai-vos uns
aos outros como eu vos tenho amado.
(J. Weber)

Partilha das tarefas de casa


Cada catequizando pode contar como foram as conversas em
casa e as experiências de descobrir dons em outras pessoas. É bom
perceber como é importante prestar atenção nas pessoas e descobrir
novas coisas boas até naquelas que a gente pensa que já conhece total-
mente. Que tal escolher alguém para ser olhado com mais profundida-
de e interesse, buscando descobrir coisas interessantes nessa pessoa?

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O lema da Campanha da Fraternidade 2020
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No primeiro encontro, tratamos do tema da CF 2020.


(Ver se alguém tem dúvidas, perguntas ou novas ideias sobre isso.)
Agora, vamos pensar no lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou
dele” (Lc 10,33.34).
Esse lema é um resumo do que fez um personagem de uma histó-
ria contada por Jesus para explicar o que é mais importante para poder-
mos estar com Deus aqui agora e depois no céu. Está em Lc 10,25-37.
Jesus gostava de contar histórias quando queria ensinar algu-
ma coisa. É um modo bem interessante de passar uma mensagem. Já
aprendemos alguma coisa desse jeito? Que histórias ficam guardadas
em nosso coração?
(Pode ser lembrada, por exemplo, a história do Pinóquio, que se tor-
nou um menino de verdade quando deixou a ilha dos prazeres, seguiu sua
consciência e foi salvar o pai que estava dentro da baleia; outra seria a do
Shrek, pois mostra que o valor de cada um não depende da aparência.)
Na história contada por Jesus, a Campanha da Fraternidade está
destacando 3 atitudes:
VER – Muitas vezes passamos pelas pessoas e não prestamos
atenção nelas. Assim é como se não as estivéssemos vendo.
SENTIR COMPAIXÃO – É compartilhar o que outro está sen-
tindo, sentir junto. Assim fica mais fácil querer ajudar.
CUIDAR DO OUTRO – Não basta ver e sentir, é preciso fazer
alguma coisa para melhorar a situação de quem está sofrendo.

Os personagens e a história contada por Jesus


São 4 personagens e um ouvinte que está recebendo o ensina-
mento de Jesus:
O homem assaltado e ferido caído na estrada – não se diz quem é
ele, o que importa é que está em uma situação em que precisa de ajuda.
O sacerdote – um líder religioso daquele tempo, que dirigia as
celebrações.

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O levita – membro da tribo destinada a ajudar no templo.
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O samaritano – pessoa que pertencia a um grupo que era visto


como desviado das práticas religiosas do templo.
O doutor da Lei – é quem ouve a história e deveria conhecer bem
os regulamentos religiosos.

Leitura do texto bíblico: Lc 10,25-37


(Ler pausadamente, refletindo sobre cada parte.)
Para entender o texto:
 O doutor da Lei pergunta o que era preciso fazer para ganhar a
vida eterna. Jesus pede que ele diga o que está na Lei de Deus. Ele
já sabe a resposta e cita os dois mandamentos mais importantes:
amar a Deus e amar ao próximo. Como cumprimos hoje esses
mandamentos?
 Mas aí ele faz a Jesus outra pergunta: Quem é o meu próximo?
Próximo, na nossa linguagem comum, significa o que está perto.
Então alguém podia pensar que se trata de amar só os parentes
e amigos. Mas Jesus mostra que nós é que temos que nos tornar
próximos de quem estiver necessitado. Não se trata só de socorrer
quem é assaltado. O homem caído é um símbolo que representa
qualquer pessoa em situação de sofrimento, precisando de ajuda.
 A gente se torna “próximo” quando sabe ver, prestar atenção no
outro, mesmo quando ainda não o conhecemos. Será que temos
na escola ou na vizinhança alguém em quem ainda não repara-
mos, que não sabemos olhar com atenção e perceber seus sen-
timentos? Como essa pessoa se tornaria um “próximo”, do jeito
como Deus quer?
 Mas não basta ver, é preciso fazer alguma coisa que melhore a si-
tuação da outra pessoa. O samaritano fez isso. E nós? Já ajudamos
alguém porque nosso coração se comoveu (tivemos compaixão)
diante da sua situação?
Podemos lembrar algumas situações em que até as crianças
e os adolescentes podem ser o “próximo” de alguém necessitado.

150
Por exemplo: um colega pode ter estado doente e perdido aulas na
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escola; alguém pode estar triste porque foi ofendido; uma pessoa com
deficiência física pode precisar ser valorizada; alguém com complexo
de inferioridade pode estar se sentindo inútil e sem valor. O que pode-
ríamos fazer para ajudar alguém nessas situações?
Sobre SENTIR COMPAIXÃO, poderíamos pensar na cena de
um seriado americano ER (Emergency Room, um espaço de Pronto-
-Socorro). Era assim:
A enfermeira Abby trabalhava na maternidade e foi transferida
para o Pronto-Socorro. Logo no primeiro dia, ao atender uma senhora
doente, a paciente morreu em seus braços. Abby ficou desesperada e
subiu chorando para o terraço do hospital. Um colega viu e a seguiu,
tentando ajudá-la. Ela chorava e dizia: “Não estou acostumada com
isso. Lá onde eu trabalhava as pessoas não morriam, ficavam felizes
com a criança que nascia”. O colega disse que tinha para ela uma boa e
uma má notícia E perguntou qual ela gostaria de ouvir primeiro? Ela
optou pela má notícia e ele disse: “A má notícia é que você nunca vai se
acostumar. Sempre que acontecer algo assim, você vai sofrer”. No meio
das lágrimas ela perguntou: “E qual é a boa notícia?” Ele respondeu:
“A boa notícia é que você nunca vai se acostumar, porque seu coração
não vai endurecer, você sempre vai ser uma boa pessoa, sensível diante
dos sofrimentos do próximo”.
(A turma pode criar uma história com personagens diferentes,
ambientada nos dias de hoje e passando uma mensagem semelhante.
Depois a história pode ser dramatizada.)

Mas o número de “próximos” pode ser muito


maior que imaginamos
Há os que podemos ajudar pessoalmente e há os que precisam
uma ajuda mais organizada, por exemplo: doentes sem acesso a hos-
pital, crianças que não têm como ir à escola, gente passando fome
porque não consegue emprego, e quem mais? Há ajudas individuais e
há situações que precisam ser corrigidas na sociedade para que todos
tenham seus direitos garantidos.

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(Ver como os catequizandos percebem isso.)
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Nossa Igreja tem grupos de trabalho interessados em defender


os direitos humanos de todos (mencionar as pastorais ativas na comuni-
dade; se for possível e conveniente, convidar uma pessoa envolvida nessas
atividades para participar do quarto encontro).
Canto: Hino da CF 2020 (p. 5)
Tarefa de casa
Conversar com a família sobre direitos humanos que não estão
sendo atendidos. O que seria importante mudar para que todos tives-
sem uma vida digna e fossem bem tratados?
(Anotar o que foi conversado, para partilhar no próximo encontro.)
Oração da CF 2020 (p. 4)

152
3º ENCONTRO: Cuidar bem da casa de
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todos e da família humana


Preparação do local: expor os materiais da Campanha, a Bíblia e um
globo terrestre, rodeado de figuras que mostrem belas paisagens da natu-
reza, cenas urbanas e sinais de danos ao meio ambiente. Preparar o quadro
que deve ser completado e pequenos cartões para registrar a tarefa de casa.

Partilha das tarefas de casa


Que direitos humanos foram lembrados?
O que se percebeu que precisaria mudar?
Hoje, vamos conversar sobre um direito fundamental: Deus nos
deu o planeta, com toda a natureza e com muitos recursos, para ser a
casa de todos. É um dom. Sendo dom, nos pede também o compro-
misso de cuidar bem do que é de todos.

Canto inicial
(Depois de cantar, comentar a letra da canção e o tratamento que
devemos dar à natureza.)
Irmão sol com irmã luz, trazendo o dia pela mão,/ Irmão céu de inten-
so azul a invadir o coração, aleluia!
Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã/ Pois renasceu
mais uma vez a criação nas mãos de Deus./ Irmãos, minhas irmãs,
vamos cantar: Aleluia, aleluia, aleluia!
Minha irmã terra, que ao pé dá segurança de chegar./ Minha irmã
planta, que está suavemente a respirar. Aleluia!
Irmã flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim./ Água irmã
que nos refaz e sai do chão cantando assim. Aleluia!
Passarinhos, meus irmãos, com mil canções a ir e vir./ Homens todos,
meus irmãos, que vossa voz se faça ouvir. Aleluia!
(Waldeci Farias; Navarro)

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Nosso planeta, casa e responsabilidade de todos
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Vamos fazer uma roda em volta do globo terrestre e conversar


sobre nossa relação com o planeta. Ele foi criado por Deus para nós,
tem paisagens bonitas e muitas outras obras interessantes de Deus e
dos seres humanos. As paisagens ao redor do globo serão comenta-
das. Os catequizandos podem falar sobre praias, rios, montanhas, ani-
mais, plantas, flores, céu estrelado e outras coisas que vêm na natureza.
Vamos olhar também as cenas urbanas, cheias de coisas construídas
pelos seres humanos, e também merecedoras de cuidado. .Depois se
conversa sobre algumas perguntas: Para que Deus fez este planeta?
Se o planeta é de todos por que tantos ficam sem casa, sem comida,
sem saúde? Por que muitas vezes se estraga o planeta e a segurança
das pessoas para ganhar mais dinheiro? Como teríamos que cuidar da
natureza e das nossas cidades?
A Bíblia fala do planeta e do ser humano que Deus encarre-
gou de cuidar dele

Leitura do texto bíblico: Gn 1,27-30

Para entender o texto


É um texto que não fala só do que aconteceu no começo do mun-
do, mas quer transmitir uma mensagem um importante para a huma-
nidade de todos os tempos. Deus criou (e continua criando) tudo que
há no mundo, mas deu ao ser humano uma responsabilidade especial.
Conviver em harmonia com todos os seres da terra. Por isso, dominar
a terra como aparece no texto, significa cuidar dela. Ninguém é “dono”
da terra, mas todos têm direito a ela, que precisa ser bem cuidada para
que haja vida digna para todos.
E o que pode prejudicar o planeta que é de todos? Vamos con-
versar sobre o que os catequizandos já sabem sobre cuidados com a
água, as plantas, o ar (coisas indispensáveis para a vida). Ninguém tem
o direito de estragar ou tomar só para si o que é importante para a vida
saudável e digna de todos.

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No Evangelho de Mateus vemos uma regra que melhoraria muito
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o planeta e a vida das pessoas: tudo, portanto, quanto desejais que os


outros vos façam, fazei-os vós também a eles (Mt 7,12).
Não podemos consertar sozinhos tudo que estiver errado. Mas é
importante querer o melhor para todos, ter a opinião correta sobre os
direitos de cada pessoa. Pensando nisso, poderíamos conversar sobre
como se completaria um quadro assim (ou pode ser criado outro que
corresponda mais aos problemas locais):
Quero ter sempre para mim: Então não posso concordar com:
Uma rua limpa para andar. Jogar lixo nas ruas.
Água saudável para beber. ________________________________
Meus direitos respeitados. ________________________________
Uma casa boa para morar. ________________________________
Um ar bom para respirar. ________________________________
Natureza bem cuidada. ________________________________
Segurança ao andar nas ruas. ________________________________
Bom tratamento quando estiver ________________________________
doente. ________________________________

Jesus disse (está no Evangelho de João 10,10): Eu vim para que


todos tenham vida, muita vida (vida em abundância). Essa “muita
vida, vida em abundância” é a vida como ela deveria ser, para todos.
Se somos seguidores de Jesus também temos que querer vida boa para
todos, não só para nós. E ele nos fez também um pedido superimpor-
tante: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também
deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão que sois meus dis-
cípulos: se vos amardes uns aos outros ( Jo 13,34-35).
Conversa em duplas sobre como estamos dispostos a amar
mais o nosso próximo, lembrando o que abordamos no segun-
do encontro: VER – SENTIR COMPAIXÃO – CUIDAR DO
OUTRO.
Depois de partilhar o que foi conversado, o(a) catequista faz em
voz alta uma oração colocando diante de Deus um pedido: que cada

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um consiga responder aos dons recebidos de Deus com um compro-
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misso de cuidar bem do próximo.


O(A) catequista combina com as crianças e os adolescentes para
fazerem um convite a um agente pastoral da comunidade para que
venha ao próximo encontro e conte o que seu grupo está fazendo para
cuidar bem do próximo.
Hino da CF 2020 (p. 5)

Tarefa de casa
Cada um vai receber um cartãozinho para preencher em casa com
2 ou 3 coisas que todos devem fazer para preservar o meio ambiente,
gerando uma vida mais saudável.
Oração da CF 2020 (p. 4)

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4º ENCONTRO: Que bom se cada um
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fizer a sua parte!

Preparação do local: Deixar em exposição a Bíblia e os mate-


riais da Campanha e faixas com as frases que vão ser citadas. Preparar
um quebra-cabeça para ser montado pelo grupo, com a figura do car-
taz da Campanha cortada em pedaços. Antes do encontro, o(a) cate-
quista deverá combinar com a comunidade como será a oferta pedida
para ser entregue na celebração da semana seguinte.

Partilha da tarefa de casa


Em duplas, conversar sobre o que foi registrado no cartão que
cada um levou para casa. Depois, os cartões serão lidos para toda a
turma, colocados em uma cesta ao lado da Bíblia e oferecidos a Deus
com uma prece em que se pede sabedoria e disposição para viver o
compromisso de cuidar da casa comum.
Todos: Dai-nos, Senhor, sabedoria para perceber como
podemos ser bons cuidadores deste planeta, a casa comum que
nos deste. Ajuda-nos a viver com alegria e perseverança esse
compromisso.

Canto Inicial
Os cristãos tinham tudo em comum, dividiam seus bens com alegria./
Deus espera que os dons de cada um se repartam com amor no dia a
dia.
Deus criou este mundo para todos, quem tem mais é chamado a repar-
tir/ Com os outros o pão, a instrução e o progresso, fazer o irmão sorrir.
Mas acima de alguém que tem riqueza está o homem que cresce em
seu valor/ E liberto caminha para Deus, repartindo com todos o amor.
(Navarro e W. Farias)

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Apresentação do(a) representante da pastoral
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que foi convidado(a) para o encontro e será


entrevistado(a) no final.
Não consertamos o mundo sozinhos
Em primeiro lugar, é claro, contamos com a graça de Deus, que
quer agir em nós. Mas pessoas que fizeram muito para defender a vida
deixaram alguns recados para nós. Vejam só:
 Santa Dulce dos Pobres lembrou a importância de termos Deus
como parceiro e disse: “É preciso que todos tenham fé e esperan-
ça em um futuro melhor. O essencial é confiar em Deus. O amor
constrói e solidifica”.
 Assim falou o Papa Francisco, em um discurso em 2018: “Para
preparar um futuro verdadeiramente humano não é suficiente re-
jeitar o mal, mas é preciso construir juntos o bem”.
 Madre Teresa de Calcutá, uma mulher muito santa que cuidou
dos desamparados na Índia nos disse: “Por vezes, sentimos que
aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano.
Mas o oceano seria menor se lhe faltasse uma gota”.
Essa fala de Madre Teresa combina com uma parábola que mui-
tos conhecem. É assim:
Houvera um incêndio grande na floresta e os animais estavam
assustados. Um pássaro mergulhou seu bico na água de um rio e voou
em direção ao local do incêndio. Queria pelo menos jogar gotas de
água nas chamas. Os outros se espantaram porque, é claro, a água que
ele levava não era suficiente para deter o fogo. Então ele disse a todos:
“Pelo menos estou fazendo a minha parte. E, se cada um de vocês fizes-
se o mesmo, o incêndio acabaria diminuindo”.
Os catequizandos podem pensar que, na idade deles, é pouco
o que podem fazer para melhorar o mundo, mas é bom considerar 3
pontos:
1. Crianças e adolescentes que defendem o que é certo e dão bons
exemplos podem impressionar muito os adultos;

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2. Cada um, em seu ambiente, em meio a seus parentes e amigos,
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pode ir plantando boas ideias e assumindo bons comportamen-


tos, ajudando quem estiver precisando de carinho, respeito,
apoio e acolhimento;
3. Quem hoje é criança ou adolescente está se preparando para o fu-
turo. Se começa agora a perceber que tem uma responsabilidade
diante do amor de Deus por todos os seus filhos, vai crescer com
boa disposição para construir o bem.

Leitura do texto bíblico: Rm 12,2-8


Esse capítulo 12 termina com uma frase que pode nos ani-
mar: Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem, ou
seja, nada de desanimar diante do que está errado. Unidos, vamos
mostrar como vale a pena defender a vida. E essa vida é para todos,
não é só para alguns.

Para entender o texto


Os discípulos de Jesus conseguiram anunciar o Evangelho e con-
tagiar corações, porque trabalhavam unidos. Era uma situação difícil,
Jesus tinha sido crucificado, e seus seguidores também estavam sen-
do perseguidos. Tudo poderia ter acabado ali. Mas eles trabalhavam e
viviam em clima de amor fraterno. Assim, o Evangelho foi transmitido
a outros povos e hoje está conosco. Temos hoje esta missão: comuni-
car a todos o Evangelho com alegria.

A Igreja já trabalha em conjunto para


defender a vida
Há transformações que podemos fazer por nossa conta, amando,
acolhendo e ajudando quem precisa. Mas há trabalhos que exigem um
esforço coletivo. Para isso, nossa Igreja tem diversas Pastorais que cui-
dam de ajudar os necessitados. O(A) catequista apresenta a lista das
Pastorais que são ativas na comunidade e explica como elas atuam.
A seguir, o(a) representante presente conversará com os catequizan-
dos sobre o trabalho que seu grupo faz. As crianças e os adolescentes

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podem ser convidados a visitar o trabalho dessa pastoral em uma oca-
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sião a ser combinada.

Um exercício para lembrar o valor do trabalho


conjunto e a importância do que esta
Campanha da Fraternidade está pedindo
O cartaz, o tema e o lema da Campanha pedem um comporta-
mento que será muito mais eficiente se trabalharmos todos juntos.
Ninguém vai fazer tudo sozinho, mas se cada um fizer o que for capaz,
o cenário da defesa da vida vai ficar completo. Então vamos distribuir
pedaços desse cartaz no grupo. Cada um vai escrever, no avesso do
pedaço que receber, algo que vai colocar em prática a partir das refle-
xões desta Quaresma. Depois, todos recomporão a figura, que será
colada e guardada para a celebração da semana seguinte (com local,
data e horário a serem comunicados aqui).
No final, todos fazem uma roda de mãos dadas em volta do car-
taz, cantando o Hino da CF 2020 (p. 5).

Tarefa de casa
Conversar sobre o que foi refletido, convidar parentes e amigos
para a celebração, e cada um pode fazer uma oferta de ajuda aos neces-
sitados (explicar como será, conforme combinado previamente na
comunidade).
Oração da CF 2020 (p. 4)

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CELEBRAÇÃO DO QUE FOI REFLETIDO,
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UM IMPULSO PARA CONTINUAR


DEFENDENDO A VIDA
(Os cantos podem ser substituídos por outros que sejam mais conhe-
cidos na comunidade.)
Entrada dos catequizandos: com os materiais usados nos
encontros, que vão ficar expostos à frente do altar (ou de uma mesa
com um crucifixo e a Bíblia, se a celebração não for feita na igreja).
Canto de entrada: Hino da CF 2020 (p. 5)
Dirigente: Nesta Quaresma, preparamos nosso coração para a
Semana Santa refletindo sobre Fraternidade e Vida. Olhamos para os
dons que recebemos de Deus e queremos nos comprometer com a
tarefa de cuidar bem dos irmãos que Deus nos oferece na grande famí-
lia humana. Agora nos reunimos para colocar diante de Deus o que
refletimos e pedir que Ele nos ajude a sermos todos construtores de
um mundo melhor.

Orações de exposição do que foi refletido.


(Os leitores serão escolhidos entre os catequizandos.)
Leitor(a) 1: Agradecemos a presença de todos que estão aqui
para orar conosco e acolher no coração a mensagem que a Igreja nos
ofereceu na Campanha da Fraternidade. Queremos viver bem na gran-
de família dos filhos e filhas de Deus, inspirados no amor do qual Jesus
foi para nós o maior sinal.
Todos: Nós te agradecemos, Senhor, por estarmos juntos
sempre aprendendo e procurando viver cada vez melhor o teu
projeto de amor.
Leitor(a) 2: (Exibindo o cartaz da Campanha, como ficou monta-
do em conjunto no quarto encontro, com os pedaços unidos.) Neste cartaz
da Campanha da Fraternidade, colocamos, nos pedaços que unimos
para recompor a figura, nossa vontade de trabalhar juntos para que
161
todos tenham uma vida do jeito como Deus quer. Hoje, queremos que
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os desejos aqui reunidos possam ser bem vividos em conjunto, para


sermos mais capazes de construir um mundo melhor.
Todos: Contamos com a tua graça, Senhor, para ajudarmos uns
aos outros na bonita e grandiosa tarefa de cuidar bem da vida de todos.
Leitor(a) 3: Recebemos muitos dons de Deus: a vida, a nature-
za que nos cerca e nos sustenta, os companheiros que estão ao nosso