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Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

PJe - Processo Judicial Eletrônico

23/10/2020

Número: 0706995-64.2020.8.07.0018
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL
Órgão julgador: 5ª Vara da Fazenda Pública e Saúde Pública do DF
Última distribuição : 23/10/2020
Valor da causa: R$ 500.000,00
Assuntos: Oncológico, Padronizado
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Advogados
DEFENSORIA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL (AUTOR)
INSTITUTO DE GESTÃO ESTRATÉGICA DE SAÚDE DO
DISTRITO FEDERAL - IGESDF (REU)
DISTRITO FEDERAL (REU)

Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
75410231 23/10/2020 Peticao inicial ACP - Quimioterapia Docetaxel e Petição
15:54 Doxorrubicina
AO JUÍZO DA ___ VARA DA FAZENDA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL

DEMANDA COLETIVA VISANDO O RESTABELECIMENTO DE


TRATAMENTO DE QUIMIOTERAPIA, PARALISADO POR FALTA DE
MEDICAMENTOS PADRONIZADOS DOCETAXEL E DOXORRUBICINA

A DEFENSORIA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL, instituição essencial à Justiça,


vem, perante este Juízo, com fulcro nas disposições do art. 134, da Constituição Brasileira, do
art. 114, da Lei Orgânica do DF, do art. 5º, inc. II, da Lei nº 7.347/1985, do art. 4º, inc. VII, da
Lei Complementar Federal nº 80/1994 e do art. 2º, inc. IV, da Lei Complementar Distrital nº
828/2010, propor

AÇÃO CIVIL PÚBLICA

com pedido liminar de tutela de urgência

em desfavor do DISTRITO FEDERAL, pessoa jurídica de direito público interno, que deverá
ser intimado e citado na pessoa do Procurador-Geral do Distrito Federal, que pode ser
encontrado no SAM, Projeção I, Edifício Sede da Procuradoria-Geral do Distrito Federal, CEP
70620-000, telefone 3325-3367; e do INSTITUTO DE GESTÃO ESTRATÉGICA DE
SAÚDE DO DISTRITO FEDERAL – IGESDF, pessoa jurídica de direito privado, inscrito
no CNPJ sob o nº 28.481.233/0001-72, sediado no SHMS Área Especial, Quadra 101, Bloco
A, Brasília-DF, CEP: 70.335-900), pelas razões de fato e de direito a seguir elencadas.

NÚCLEO DE ASSISTÊNCIA JURÍDICA DA SAÚDE.


SETOR COMERCIAL NORTE, QUADRA 01, LOTE G, ED. ROSSI ESPLANADA BUSINESS, LOJA 01.
TELEFONES: 2196-4400 E 2196-4404 - FAX 3399-2162

Número do documento: 20102315540849400000071162672


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=20102315540849400000071162672
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RESUMO DA DEMANDA

A presente ação leva ao conhecimento desse renomado Juízo o seguinte


problema social:

a) Desde a primeira quinzena de outubro, este Núcleo da Defensoria


Pública tem recebido número considerável de atendimentos de assistidas,
relatando que estão em tratamento quimioterápico contra câncer,
especialmente de mama, no Hospital de Base (atual IGESDF) e que
tiveram os seus tratamentos interrompidos.
b) Após a realização de diligências, detectou-se que a interrupção dos
tratamentos quimioterápicos se deu em razão do desabastecimento dos
estoques dos medicamentos doxorrubicina e docexatel no Hospital de
Base, administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do
Distrito Federal;
c) Informações colhidas em processo administrativo apontam que o
atendimento em outras unidades hospitalares também pode estar
comprometido, pois o estoque da própria Secretaria de Saúde “encontra-
se com cobertura de estoque abaixo do ponto de ressuprimento”,
situação que conduziu a SES/DF à medida extrema de não emprestar os
medicamentos ao IGESDF, ocasionando interrupção dos tratamentos.
d) A principal consequência dessa situação é o prejuízo ao tratamento das
pessoas que têm câncer, especialmente câncer de mama, que tiveram
seus tratamentos quimioterápicos interrompidos ou não iniciados e,
assim, correm risco de agravar seu quadro clínico e evoluir a óbito.
e) Apesar da situação descrita, os/as pacientes atendidas no Hospital de
Base seguem sem tratamento, não tendo o Distrito Federal logrado êxito
no planejamento e execução de políticas públicas voltadas para a
normalização do atendimento quimioterápico.

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A Autora da ação postula:

a) a juntada da lista de todos/as pacientes em tratamento no Hospital


de Base que tiveram seu tratamento quimioterápico interrompido ou
não iniciado em razão do desabastecimento dos medicamentos
padronizados DOXORRUBICINA e DOCETAXEL, com indicação
de nome, data do diagnóstico e data do início e interrupção do
tratamento;

b) o reabastecimento dos estoques dos medicamentos padronizados


DOXORRUBICINA e DOCETAXEL no âmbito do Hospital de
Base do Distrito Federal e a retomada do atendimento aos/às
pacientes que tiveram tratamento interrompido ou não iniciado;

c) apresentação de cronograma de atendimentos, com indicação do


início ou retomada do tratamento quimioterápico de cada um dos/das
pacientes, observando-se o prazo máximo de 5 dias para
atendimento daqueles/as pacientes que tiveram tratamento
interrompido e, para os/as pacientes cujo tratamento não tenha sido
iniciado, que seja observado o prazo máximo de atendimento
previsto no art. 2º da Lei 12.732/2012;

d) a manutenção em níveis regulares, suficientes e seguros os


estoques dos medicamentos DOXORRUBICINA e DOCETAXEL,
bem como a garantia aos pacientes dependentes de tratamento
quimioterápico dos referidos fármacos a primeira sessão de
tratamento no prazo máximo de atendimento previsto no art. 2º da
Lei 12.732/2012.

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1 – INTRODUÇÃO

A presente ação civil pública tem por objetivo garantir acesso aos serviços de saúde
pelo Sistema Único de Saúde do Distrito Federal, especificamente para aqueles pacientes com
câncer, com indicação de realização de tratamento quimioterápico com os medicamentos
doxorrubicina e/ou docetaxel1. De início vale registrar que no decorrer dessa peça, quando
nos referimos a Doxorrubicina, trata-se do Cloridrato de Doxorrubicina, contudo, utilizamos
apenas o termo Doxorrubicina pois assim ele é referido em praticamente todas prescrições
médicas e processos de aquisição.

Conforme será demonstrado na presente ação, no âmbito do DF, há considerável


número de pacientes que estavam em tratamento no Hospital de Base (atual IGESDF),
especialmente mulheres contra o câncer de mama, e que pararam de receber quimioterapia2.

Tal fato ocorreu pois os referidos medicamentos tiveram seus estoques


desabastecidos e, até o momento, o fluxo de atendimento às pacientes não foi retomado, embora
a gestão do IGESDF tenha anunciado o breve retorno das atividades após denúncias da
imprensa local, conforme exporemos a seguir. Fato é que as pacientes vêm enfrentando um
grave prejuízo no combate ao câncer e seguem sem tratamento.

Esse problema social foi detectado pelo Núcleo de Saúde da Defensoria Pública do
Distrito Federal, que diariamente recebe mulheres que necessitam do referido tratamento.

Mister destacar que está sendo divulgada a campanha Outubro Rosa, destinada a
combater o câncer de mama. No Distrito Federal, esta é realizada pela Secretaria de Saúde em
parceria com o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IGESDF). Nada
obstante, um dos principais tratamentos não está sendo fornecido.

1
O medicamento Docetaxel é utilizado em associação à Doxorrubicina, motivo pelo qual o tratamento
pode associar ambos os fármacos (conferir bula em anexo à inicial).
2
Em que pese a maior parte das pessoas que recebem esse tratamento sejam mulheres, também há
indicação para pacientes do gênero masculino.
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Para melhor compreender a dimensão do problema apontado e ter condições de
direcionar soluções para o caso, a Defensoria Pública buscou junto à Secretaria de Estado de
Saúde do Distrito Federal (SES/DF) e ao Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito
Federal (IGESDF) dados atualizados sobre o abastecimento dos medicamentos doxorrubicina
e docetaxel, o que será demonstrado de forma detalhada a seguir.

2 - FUNDAMENTOS FÁTICOS DA DEMANDA

É função institucional da Defensoria Pública exercer a defesa dos interesses


individuais e coletivos da criança e do adolescente, do idoso, da pessoa com deficiência, da
mulher vítima de violência doméstica e familiar e de outros grupos sociais vulneráveis que
mereçam proteção especial do Estado (art. 4º, inc. XI, da Lei Complementar 80/94).

No exercício de sua função de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos


necessitados, a Defensoria Pública do Distrito Federal, por meio do atendimento inicial
realizado no NAJ da Saúde, está recebendo demandas de vários pacientes portadores da doença
câncer, especialmente de mulheres com neoplasia maligna de mamas, que tiveram seus
tratamentos quimioterápicos interrompidos ou nem mesmo iniciados, em razão da falta de
estoque dos seguintes medicamentos DOCEXATEL e DOXORRUBICINA, ambos utilizados
no mencionado tratamento.

Segue lista exemplificativa de partes das pessoas que procuram o atendimento


inicial da DPDF, na primeira quinzena do mês de outubro de 2020, devido ao desabastecimento
desses fármacos:

DATA DO
PACIENTE PROCESSO SEI
ATENDIMENTO

A. V. G. 00401-00017297/2020-91 09/10/2020

A. F. I. 00401-00017372/2020-13 13/10/2020

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00401-00017291/2020-13 09/10/2020
C. DA C. M.

J. N. P. 00401-00017083/2020-14 07/10/2020

L. DOS S. T. 00401-00017742/2020-12 19/10/2020

N.DE L. S. R. 00401-00017051/2020-19 06/10/2020

00401-00017638/2020-28 16/10/2020
N. G. C.

S. L. C. S. 00401-00017269/2020-73 09/10/2020

2.1 - DO DESABASTECIMENTO DOS MEDICAMENTOS QUIMIOTERÁPICOS

Em virtude da situação acima narrada, e seguindo o preceituado no artigo 4º, inciso


II, da Lei Complementar 80 de 1994, o qual estabelece como função institucional da Defensoria
Pública a promoção, prioritariamente, da solução extrajudicial dos litígios, foram enviados
ofícios à DIASF e ao IGESDF, em virtude da situação apresentada por cada usuário. A resposta
da administração pública ratificou a falta de estoque dos referidos fármacos, não indicando
providenciais para restabelecer o tratamento das pacientes.

Em virtude disso, foram intentadas demandas individuais pleiteando o


fornecimento dos referidos medicamentos e, por consequência, a retomada do tratamento
quimioterápico dos pacientes.

Com o intuito de buscar solução coletiva ao problema social narrado, a Defensoria


Pública do Distrito Federal também enviou o Ofício nº 686/2020 ao Instituto de Gestão
Estratégica da Saúde do Distrito Federal (IGESDF), à Diretoria de Assistência Farmacêutica
(DIASF) e à Secretaria Adjunta de Assistência à Saúde (SAA), requisitando informações
sobre a eventual falta de medicamentos para o tratamento de câncer de
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mama (doxorrubicina e/ou docexatel) aos pacientes atendidos no IGESDF e,
eventualmente, àqueles atendidos nas demais unidades.

Em resposta, o IGESDF informou que emitiu ordem de fornecimento nº 621/2020


para o medicamento docetaxel 20mg/ml soluçao injetavel frasco/ampola 4ml no dia 21 de
Julho de 2020 para a empresa Medcomerce, sendo essa a detentora da ARP nº 257/2019 cujo a
vigência se encerrou em 15 de Agosto do mesmo ano. Entretanto, essa se recusa a entregar o
medicamento devido a inadimplência do IGESDF acumulando notas fiscais em aberto com
mais de 90 dias.

No que diz respeito ao medicamento doxorrubicina (cloridrato) 50mg sol inj, o


IGESDF esclareceu também que no dia 08 de agosto de 2020 emitiu a ordem de fornecimento
nº 663/2020 para a empresa Costa Camargo, sendo essa a detentora da ARP nº 246/2019 cujo
vigência se encerrou em 15 de Agosto do mesmo ano. Porém, essa também se recusa a entregar
o medicamento afirmando inadimplência financeira por parte do IGESDF que acumula notas
fiscais em aberto com mais de 90 dias.

Outrossim, o IGESDF informou no Memorando Nº 401/2020 que o


desabastecimento de doxorrubicina e docetaxel é devido ao bloqueio financeiro da empresa
Costa Camargo e Medcomerce, mas que poderia ser abrandado se as novas atas

estivessem disponíveis para utilização com os novos fornecedores.

Nesse mesmo memorando, o referido instituto salientou que há um risco iminente


de desabastecimento de mais de 60% dos quimioterápicos do rol disponível no IGESDF:

Salientamos que há um risco iminente de desabastecimento de mais de


60 % dos quimioterápicos do rol disponível no IGESDF, conforme já
alertado anteriormente (48818399), pois NÃO POSSUÍMOS ARP para
compra desses itens e dependemos da assinatura do Diretor - Presidente
Interino para liberar as novas ARPs para consumo.

Nota-se que a falta de estoque dos medicamentos doxorrubicina e docetaxel se


mostra alarmante e tende a se agravar, como enfatizado pelo próprio IGESDF na parte em que
destacou o risco iminente do desabastecimento de mais de 60% dos quimioterápicos.

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Ademais, este Núcleo da Defensoria Pública identificou o processo
público nº 04016-00032718/2020-07, no Sistema Eletrônico de Informações
(SEI), em que o IGESDF solicitou empréstimo de 100 unidades do
medicamento DOXORRUBICINA à SES/DF, no dia 1º de outubro de 2020.

Em resposta, a Gerência de Programação de Medicamentos e Insumos


para Laboratório da SES/DF informou que o referido medicamento se encontra
com cobertura de estoque abaixo do ponto de ressuprimento e se manifestou
desfavoravelmente ao pedido. Nesse mesmo sentido, o Subsecretário de
Logística em Saúde, informou que não é possível o atendimento da solicitação
do IGES/DF, sob risco de prejuízo ao abastecimento da SES/DF. Vejamos:

À SULOG,
Com vistas à DLOG
Assunto: Empréstimo IGESDF
Trata-se do Despacho GESDF/UNAP/SUNAP/SILOG/GEIFO 48153099 referente
a solicitação de empréstimo para atender a demanda do Instituto de Gestão
Estratégica de Saúde do Distrito Federal - IGESDF, dos medicamentos:
• 90795 - DOXORRUBICINA (CLORIDRATO) SOLUÇAO INJETAVEL OU
PO LIOFILIZADO PARA SOLUÇAO INJETAVEL 50 MG FRASCO-AMPOLA
- Quantidade: 100
• 6009 - OXALIPLATINA INJETAVEL100 MG FRASCO-AMPOLA
- Quantidade: 100
• 90052 - MORFINA (SULFATO) COMPRIMIDO 10MG - Quantidade: 5.000
• 90258 - PIPERACILINA + TAZOBACTAN PO LIOFILIZADO PARA
SOLUCAO INJETAVEL 4,0 G + 500 MG FRASCO AMPOLA - Quantidade:
5.000
Considerando que o item 90795 - DOXORRUBICINA (CLORIDRATO)
SOLUÇAO INJETAVEL OU PO LIOFILIZADO PARA SOLUÇAO INJETAVEL
50 MG FRASCO-AMPOLA apresenta um consumo médio mensal de 87
unidades/mês e encontra-se com cobertura de estoque abaixo do ponto de
ressuprimento;
(...)
Considerando que, apesar de tratar-se de empréstimo com a obrigatoriedade da
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devolução, não foi informado o prazo previsto para devolução dos quantitativos a
serem emprestados.
Nesse sentido, com base nos argumentos apresentados acima, esta gerência se
manifesta desfavorável ao empréstimo dos medicamentos em questão.
Diante do exposto, encaminhamos os autos para conhecimento e adoção
das providências cabíveis.
ANDERSON FREIRE NOBRE JÚNIOR
GERENTE
GEPROLAB/DIPRO/SULOG/SES
Ciente e de acordo.
EVELYN HEINZEN
DIRETORA
DIPRO/SULOG/SES

Diante disso, em razão da omissão da Administração Pública em manter o


abastecimento dos citados fármacos e dos respectivos tratamentos quimioterápicos, é necessária
a adoção de medidas por parte do Poder Judiciário, a fim de solucionar o atual litígio, caso
contrário muitos pacientes oncológicos poderão ter seus quadro clínicos agravados de modo
irreversível, ante a progressão da doença, ou até mesmo resultar no óbito de muitos deles, pela
paralisação dos ciclos de quimioterapia.

Cabe ressaltar que, a DPDF recebeu, em grande parte, demandas de pacientes


portadoras de neoplasia maligna de mama. Contudo, os citados fármacos são utilizados também
no tratamento de outros tipos de câncer. Observa-se, assim, a amplitude da presente demanda,
a qual repercute não apenas para os pacientes que buscam a Defensoria Pública, mas também
para centenas de outros pacientes que necessitam de tratamento quimioterápico com os
medicamentos desabastecidos ou em risco de desabastecimento.

Nesse sentido, foi divulgada matéria jornalística, no dia 14/10/2020, sobre a


paralisação da quimioterapia de diversas pessoas, por conta da falta dos medicamentos

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DOXORRUBICINA e DOCETAXEL3.

Em 22/10/2020, foi transmitida novamente matéria jornalística em mídia televisiva


sobre a suspensão da quimioterapia de pacientes portadoras de câncer, em tratamento no
IGESDF, devido ao desabastecimento dos fármacos mencionados4. Veículos da imprensa
escrita também denunciaram a situação.5

Após tais denúncias, a gestão do IGESDF anunciou à imprensa que brevemente


ocorreria a retomada dos atendimentos, inclusive apontou a próxima semana (dias 26 a 30 de
outubro) como meta para retomada do atendimento67. Ocorre que não há formalização de data
e tampouco de detalhamento do prazo para retomada de todos tratamentos interrompidos e
início da admissão de novas pacientes.

Apenas para título de ilustração do problema concreto que ainda existente, na


mesma data (22/10) em que anunciadas boas intenções e medidas por parte da gestão do
IGESDF, a Defensoria Pública recebeu resposta formal do IGESDF na demanda da paciente C.
da C. M.8 no sentido de que o tratamento continua indisponível e sem data para retorno. Eis o
despacho, in verbis:

“IGESDF/DP/HB/SUPHB,

Prezados Senhores,

Vimos informar que, apesar dos esforços da Superintendência Adjunta

3
https://globoplay.globo.com/v/8938811/.
4
https://globoplay.globo.com/v/8960651/programa/
5
https://www.metropoles.com/distrito-federal/no-outubro-rosa-hbdf-fica-sem-remedios-para-
quimioterapia-de-pacientes-com-cancer.
6
https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2020/10/4884112-hospital-de-base-retoma-
sessoes-de-quimioterapia-na-proxima-semana.html
7
https://www.metropoles.com/distrito-federal/hospital-de-base-faz-forca-tarefa-para-retomar-
quimioterapia-no-df
8
Processo SEI 00401-00017291/2020-13, documento 49452427.
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de Insumos e Logística, e outros Setores responsáveis pela aquisição desses
medicamentos quimioterápicos, o tratamento da referida
paciente continua incompleto, visto que medicações citadas no processo
de fato estão temporariamente indisponíveis no momento, conforme
múltiplos despachos no processo 04016-00082024/2020-11.

A Superintendência do Hospital de Base, junto a presidência do IGES-


DF, têm buscado a normalização do fornecimento destes quimioterápicos, e
o tratamento da paciente será retomado tão logo isso ocorra.”

Assim, em que pese os anúncios de medidas logo após as denúncias da


mídia local, certo é que há, hoje, clara violação ao direito à saúde de dezenas de
pacientes. Além disso, há risco que o problema, em verdade, venha a se agravar,
pois as informações colhidas no processo SEI nº 04016-00032718/2020-07
apontam que o atendimento em outras unidades hospitalares também pode estar
comprometido, pois além do desabastecimento do estoque do IGESDF, o estoque
da própria Secretaria de Saúde “encontra-se com cobertura de estoque abaixo
do ponto de ressuprimento”, situação que conduziu a SES/DF à medida extrema
de não emprestar os medicamentos em questão ao IGESDF, conforme requerido,
ocasionando assim a interrupção dos tratamentos.

Além disso, o processo administrativo no qual transcorrem os atos de


requisição e compra dos medicamentos seguem tramitação restrita, o que impede
a avaliação se as medidas anunciadas pela gestão do IGESDF de fato se
traduziram em atos administrativos executórios. Tratam-se dos autos de processo
administrativo SEI 04016-00082024/2020-11 e 04016-00027488/2019-12, que
necessitam ser juntados autos autos.

Importante destacar que, o maior número de reclamações das pacientes sobre a


interrupção do tratamento foi externado no mês de outubro. Como se sabe, não só no Brasil,
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mas em todo o mundo o referido mês é referência na campanha de conscientização acerca do
câncer de mama. De modo contraditório, o Distrito Federal suspendeu a quimioterapia de várias
mulheres, por falta de fármacos padronizados, sem previsão de data para o retorno,
caracterizando patente retrocesso social no combate ao câncer.

2.2 - O CÂNCER E O TRATAMENTO EMPREGADO NO COMBATE À DOENÇA

Segundo informação constante no site do Instituto Nacional do Câncer - INCA,


câncer é o nome doença que tem como característica o crescimento desordenado de células que
invadem tecidos e órgãos, dividindo-se rapidamente estas células tendem a ser muito agressivas
e incontroláveis, formando tumores, que podem se espalhar para outras partes do corpo9.

O tratamento contra a doença varia de acordo com a indicação médica podendo ser
prescrita a quimioterapia, a radioterapia ou a cirurgia, a terapêutica a ser adotada dependerá das
particularidades do caso de cada paciente.

A quimioterapia consiste na utilização de medicamentos para combater o câncer,


que se misturam ao sangue e são levados a todas as partes do corpo destruindo as células doentes
que estão formando o tumor e impedindo, também, que se espalhem.10

A quimioterapia é administrada em ciclos, cada período de tratamento seguido por


um período de descanso, para permitir que o corpo possa se recuperar. Cada ciclo de
quimioterapia dura em geral algumas semanas11.

De acordo com os médicos, a quimioterapia quando adequadamente


promovida, reduz consideravelmente as possibilidades do câncer reaparecer, se o
tratamento é interrompido ou não efetuado da maneira correta a eficácia se reduz,
elevando as chances da doença reincidir, podendo ocasionar a morte daquele paciente que
teve o tratamento paralisado.

Além disso, segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), a neoplasia de

9
Informações retiradas do site: https://www.inca.gov.br/o-que-e-cancer. Acesso em 21/10/2020.
10
Informações retiradas do site: https://www.inca.gov.br/tratamento/quimioterapia. Acesso em 21/10/2020.
11
Informações retiradas do site: http://www.oncoguia.org.br/conteudo/consideracoes-basicas-sobre-a-
quimioterapia/3704/593/. Acesso em 21/10/2020.
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mamas (comumente tratada com os fármacos docetaxel e doxorrubicina) é causa mais frequente
de morte por câncer em mulheres. As estatísticas para o ano 2020 são de 66.280 casos novos, o
que representa uma taxa de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres12.

De acordo com levantamento do INCA, a taxa de mortalidade por câncer de mama


ajustada pela população mundial apresenta uma curva ascendente e representa a primeira causa
de morte por câncer na população feminina brasileira, com 13,84 óbitos/100.000 mulheres em
201813.

Pelas estatísticas elaboradas pelo INCA percebe-se que o câncer de mama tem um
alto percentual de letalidade e há a previsão de um aumento de casos no ano de 2020. Na
contramão do combate à referida doença, o Distrito Federal deu causa à interrupção do
tratamento quimioterápico de um número indeterminado de pacientes, por falta de diligência
na manutenção de medicamentos essenciais na cura da doença câncer.

Dessa forma, esta Ação Civil Pública visa o restabelecimento do tratamento


quimioterápico de todas as(os) pacientes que tiveram os ciclos de quimioterapia interrompidos
no âmbito do Distrito Federal.

No caso em tela, as pacientes e os pacientes que tiveram a quimioterapia paralisada


no interregno do tratamento por falta dos medicamentos DOXORRUBICINA e/ou
DOCETAXEL, poderão sofrer consequências irreversíveis nos quadros clínicos deles, com
chance considerável de agravamento da doença e até mesmo de óbito.

3 - DO DIREITO

12
Dados retirados da página na internet do INCA: https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-de-
mama/conceitomagnitude#:~:text=O%20c%C3%A2ncer%20de%20mama%20%C3%A9%20o%20mais%20inci
dente%20em%20mulheres,por%20c%C3%A2ncer%20em%20mulheres%201. Acesso em 19/10/2020.
13
Dados retirados da página na internet do INCA: https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-de-
mama/conceitoemagnitude#:~:text=O%20c%C3%A2ncer%20de%20mama%20%C3%A9%20o%20mais%20inc
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3.1 - DA LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA PÚBLICA

A legitimidade processual coletiva da Defensoria Pública encontra fundamento


jurídico nos artigos 134, caput, da Constituição Federal de 1988, 5º, inciso II, da Lei da Ação
Civil Pública e 4º, incisos VII, VIII, X e XI, da Lei Complementar 80/1994.

Nesse sentido, a Defensoria exerce ao lado dos demais colegitimados, a defesa dos
direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos que estejam direta ou indiretamente
relacionados às missões constitucionais a ela dirigidas, defesa dos hipossuficientes econômicos,
técnicos e organizacionais e a promoção dos direitos humanos.

Importante enfatizar que, a legitimidade irrestrita da Defensoria Pública para o


exercício de demandas coletivas foi sedimentada por meio do julgamento da ADI nº 3943.

No caso em tela, é ainda evidente o preenchimento do pressuposto da


representatividade adequada, uma vez que se trata de demanda voltada a garantir a dignidade e
o direito fundamental à saúde da coletividade, estando preenchidas a pertinência temática e a
finalidade institucional.

3.2 - DO CABIMENTO DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA:

As ações de responsabilidade pela reparação de danos morais e patrimoniais


causados a qualquer interesse difuso e coletivo são reguladas pela Lei da Ação Civil Pública
(Lei Federal n. 7.347/85), de conformidade com a regra do art. 1º, inc. IV, da referida Lei.

A Lei da Ação Civil Pública, em seu art. 21, afirma: “aplicam-se à defesa dos
direitos e interesses difusos, coletivos e individuais, no que for cabível, os dispositivos do Título
III da lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor”.

Por sua vez, o Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal n. 8.078/90), em seu
artigo 81, esclarece que a defesa coletiva pode ser exercida quando houver lesão a interesses

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difusos, coletivos e individuais homogêneos.

Na espécie, a ação civil pública é instrumento apropriado para a defesa de interesses


coletivos das pessoas que realizam tratamento de saúde no Distrito Federal, por meio do SUS.
Cuida-se, majoritariamente, de pessoas em situação de alta vulnerabilidade econômica e social.

Nesse cenário, a ação civil pública apresenta-se como eficaz instrumento de


inclusão jurisdicional da população em condição de vulnerabilidade, permitindo uma defesa
eficaz e transindividual dos direitos tutelados por meio desta demanda.

Os efeitos da coisa julgada nas ações coletivas são condizentes com o processo de
massa e propiciam o acesso coletivo à justiça. Nesse sentido, o art. 16 da Lei da Ação Civil
Pública estabelece que “a sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da
competência territorial do órgão prolator, exceto se o pedido for julgado improcedente por
insuficiência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com
idêntico fundamento, valendo-se de nova prova”.

Por outro lado, o artigo 103 do Código de Defesa do Consumidor prevê, de acordo
com o direito transindividual em questão, efeitos erga omnes ou ultra partes, conforme o
resultado do julgamento ou o resultado da prova, visando a beneficiar todas as pessoas
ameaçadas ou lesadas em seus direitos por determinado acontecimento.

O microssistema processual de tutela coletiva decorre da percepção da insuficiência


e da inadequação das normas do processo civil clássico para prevenir, reprimir e compensar a
lesão a direitos de massa, sob a influência das ondas renovatórias do acesso à justiça. As ondas
renovatórias visaram não somente à reforma das regras processuais, mas à mudança de
mentalidade da sociedade e dos agentes públicos, à implementação de uma cidadania
participativa solidária e, consequentemente, à realização dos objetivos fundamentais do Estado
Social e Democrático de Direito.

3.3 - DA LEGITIMIDADE DO CONTROLE JURISDICIONAL DAS POLÍTICAS


PÚBLICAS DE SAÚDE: A NECESSIDADE DE O JUDICIÁRIO ATUAR EM PROL
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DO ACESSO À SAÚDE

A constitucionalização de direitos fundamentais, segundo o magistério de


Inocêncio Mártires Coelho, transmuda a natureza das constituições, que deixam de ser apenas
“catálogos de competências” ou “leis fundamentais do Estado” e se convertem em “Cartas de
Cidadania”14. A gradual submissão das decisões políticas à exigência de garantia de direitos
fundamentais permite que a política possa, em certa medida, se desacoplar “de injunções
particularistas, oriundas de grupos sociais específicos, e abrindo-se à inclusão de interesses e
aspirações de um público mais variado de indivíduos”15.

No Brasil, a despeito da influência histórica e profunda do constitucionalismo, é


apenas na Constituição de 1988 que são lançadas as bases para o processo descrito por Werneck
Vianna como “judicialização da política e das relações sociais”. Isso porque, dentre vários
avanços na reforma da tradição republicana brasileira, a Carta Cidadã criou bases mais sólidas
para o exercício dos direitos civis de cidadania e para o direito de acesso à Justiça, consagrou o
instituto das Ações Civis Públicas, recriou o Ministério Público, deu destaque à sociedade
organizada, dispôs sobre a Defensoria Pública, previu a criação dos juizados especiais.

Tal processo de judicialização alcançou tanto o campo político quanto as relações


sociais. A judicialização da política pode ser observada no acesso ao Judiciário por meio de
ações diretas para controle de constitucionalidade, situação que ganhou destaque e se tornou
“escoadouro do conflito entre sociedade e Estado”16. Tais instrumentos, além de servirem à
clássica defesa de minorias, também passaram a ser utilizados como “recurso institucional
estratégico de governo”17. A judicialização das relações sociais tomou corpo, por exemplo, com
a constitucionalização dos juizados especiais (art. 98, inciso I, CF) que, ao facilitar o acesso à

14
COELHO, I. M.. Intepretação Constitucional. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 1997, pp.
97-98.
15
DUTRA, Roberto; CAMPOS, Mauro Macedo. Por uma sociologia sistêmica da gestão de políticas
públicas. Conexão Política, Teresina, v. 2, n. 2, pp. 11-47, ago. dez., 2013, p. 34.
16
VIANNA, Luiz Werneck; BURGOS, Marcelo Baumann; SALLES, Paula Martins. Dezessete anos de
judicialização da política. Tempo Social, São Paulo, v. 19, n. 2, pp. 39-85, nov. 2007, p. 43.
17
Ibidem, p. 44.

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Justiça, criou novo canal de expressão para o processo de democratização social.18

No campo das políticas sociais, como a política de saúde, abre-se também um novo
campo de atuação do Sistema de Justiça, movimento comumente denominado de
“judicialização das políticas públicas”19, que se torna viável a partir da construção, na
jurisprudência e na doutrina constitucional, do entendimento de que as prestações relativas a
direitos sociais são direitos exigíveis na condição de direitos subjetivos20. Tal construção
jurídica veio ao encontro dos anseios de dar efetividade aos direitos sociais conquistados na
nova ordem constitucional de 1988. A necessidade de atuação estatal mais ostensiva na seara
social, de fato, se fazia presente, especialmente quando observada a forma mais rápida como os
direitos sociais foram positivados no Brasil, vis-à-vis o processo desenvolvido no ocidente
europeu.21

Assim, com base na Constituição e nas normas que ampliam o rol de


comprometimento com direitos concretamente definidos, o plano da política ficou obrigado
a executar as políticas públicas “com as quais se compromete por meio do processo de
legislativo”22. A proteção jurídico-constitucional dos direitos sociais ganhou relevância como
instrumento para veicular reivindicações relativas à concepção das políticas públicas, bem
como para exigir prestações específicas nas hipóteses em que as políticas estão ausentes, são
insuficientes ou mesmo descumpridas. Tal proteção, assim utilizada, passou a proporcionar o
“empoderamento” dos cidadãos no plano individual e no coletivo, ainda que a ação concreta
exigida não se mostre idealmente a mais efetiva.23

Nesse contexto, a judicialização das políticas públicas também se consubstancia

18
VIANNA, L. W. et al. A judicialização da política e das relações sociais no Brasil. Rio de Janeiro:
Revan, 2a ed., 2014, p. 43.
19
MENICUCCI, T.; MACHADO, J. Judicialization of health policy in the definition of acess to public
goods: Individual Rights versus Collective Rights. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 4, n. 1,
pp. 33-68, 2010, p. 33.
20
SARLET, Ingo W.. Direitos Fundamentais a Prestações Sociais e Crise: Algumas Aproximações.
Espaço Jurídico Journal of Law, Editora UNOESC, Joaçaba, v. 16, n.2, pp. 459-488, jul. dez. 2015,
p. 461-462.
21
SANTOS, Boaventura de S.. Para uma Revolução Democrática da Justiça. São Paulo: Cortez,
2007, p. 20.
22
DUTRA, R.; CAMPOS, M. M.. Por uma sociologia sistêmica da gestão de políticas públicas. Conexão
Política, Teresina, v. 2, n. 2, pp. 11-47, ago./dez., 2013, p. 34.
23
SARLET, Ingo. W., op. cit., p. 483.
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em instrumento da proteção do próprio regime democrático, que, conforme
argumentamos, segue comprometido pelo “bloqueio” ao efetivo exercício da cidadania.
Como destaca Ingo Sarlet, a proteção aos direitos sociais em sua condição subjetiva tem servido
para “imprimir à noção de cidadania um novo contorno e conteúdo, potencialmente mais
inclusivo e solidário”24. Empoderamento do indivíduo e crescimento socialmente inclusivo,
vale lembrar, são os dois elementos mais relevantes no desenvolvimento de uma nação.25

A judicialização das políticas públicas tem alcançado, assim, várias políticas


sociais, a exemplo da educação pública26 e da assistência social27, todavia, é na seara da saúde
que encontra desenvolvimento mais acentuado, seja pela repercussão alcançada no âmbito da
Administração Pública, seja pela receptividade que o Poder Judiciário deu à questão. Conforme
cediço, a denominada judicialização da saúde tem se intensificado, e a ela têm-se atribuído
significativas consequências sociais, institucionais e orçamentárias.

O acesso à justiça para a proteção da saúde tem sido percebido como um exercício
democrático e legítimo dos direitos sociais de titularidade dos cidadãos28. Isso porque o acesso
às instâncias judiciais passou a ser compreendido como uma forma de garantia dos direitos à
saúde29. João Biehl ainda acrescenta, a partir de pesquisa empírica realizada no estado do Rio
Grande do Sul, que a judicialização no âmbito da saúde é, sobretudo, um movimento pelo qual
pessoas de baixa renda e pessoas idosas se fazem ouvidas pelo ato de “entrar na justiça” 30.
Pela judicialização, tais indivíduos agem como sujeitos políticos em face do Estado, de forma
a responsabilizá-lo e a expor as consequências da “Realpolitik” praticada pelo Executivo e

24
Ibidem, p. 483.
25
UNGER, R. M. The Left Alternative. Nova Iorque: Verso, 2009, p. 65.
26
Para estudo sobre a judicialização das políticas públicas educacionais, conferir: MIGUEL FERREIRA,
L. A.; JAMIL CURY, C. R.. A judicialização da educação. Revista CEJ, v. 13, n. 45, p. 32-45, 2009.
27
Para um amplo estudo da judicialização no âmbito da assistência social, conferir: MINISTÉRIO DA
JUSTIÇA. As relações entre o Sistema Único de Assistência Social - SUAS e o Sistema de
Justiça. Brasília: Ministério da Justiça, Secretaria de Assuntos Legislativos (SAL): IPEA, 2015.
28
Boaventura de Souza Santos, ao se deparar com a judicialização, assevera que “as pessoas, que
têm consciência dos seus direitos, ao verem colocadas em causa as políticas sociais ou de
desenvolvimento do Estado, recorrem aos tribunais para as protegerem ou exigirem a sua efectiva
execução” (SANTOS, B. S.. Para uma Revolução Democrática da Justiça. São Paulo: Cortez, 2007,
p. 29).
29
DUTRA, R.; CAMPOS, M. M., op. cit., loc. cit..
30
BIEHL, J.. Patient-Citizen-Consumers: Judicialization of Health and Metamorphosis of
Biopolitics. Lua Nova, n. 98, pp.77-105, 2016, p. 94.
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Legislativo31.

Nesse passo, a judicialização é essencialmente uma reação ao contexto de exclusão


social que se manifesta de diversas formas, mas que conduz aos mesmos resultados de
iniquidade na distribuição dos cuidados e na precarização dos serviços de saúde ofertadas às
classes populares (pessoas pobres) – quando não à completa negativa de acesso. Tal situação é
subproduto tanto do descompasso entre normas e práticas institucionais, quanto da dubiedade
governamental, que produz políticas de saúde pública inspiradas em um modelo universalista e
políticas econômicas e regulatórias desenhadas para estimular outro modelo – privatizado e
segmentado. A insurgência contra tais iniquidades historicamente construídas é ato de
afirmação da cidadania e do regime democrático, afinal, o caminho escolhido pelo Brasil a
partir de 1988 claramente não é o da exclusão32. O uso do direito e do Sistema de Justiça para
dar braços e armas a esta insurgência é tão legítimo e democrático quanto a consagrada
mobilização política oriunda da participação social.

Ocorre que, além de legítima e democrática, a judicialização da saúde tem sido,


para muitos indivíduos e grupos, alternativa mais viável e efetiva do que os mecanismos atuais
de participação social, em que pese o histórico engajamento e os avanços obtidos por
Instituições de Participação, como o Conselho Nacional de Saúde. Além das limitações gerais
já destacadas, a participação social na seara da saúde, no que tange aos interesses das classes
populares, esbarra exatamente na dificuldade desse grupo de excluídos de se organizar
adequadamente em grupos de interesse e, assim, exercer a pressão política e articular os lobbies
tão característicos do funcionamento do sistema político brasileiro. A participação é limitada,
ainda, pelo desinteresse das elites econômica e burocrática e, notadamente, da própria classe
média pelo fortalecimento do SUS, tendo em vista a acomodação de seus interesses na
organização segmentada ofertada pelo mercado privado – parcialmente subsidiada pelo Estado,

31
Ibidem, p. 94.
32
SARLET, I. W.; FIGUEIREDO, M. F.. Algunas consideraciones sobre el derecho fundamental a la
protección y promoción de la salud a los 20 años de la Constitución Federal de Brasil de 1988. In:
COURTIS, C.; SANTAMARÍA, R. (Orgs.). La Protección judicial de los derechos sociales. Quito:
Ministério de Justicia y Derechos Humanos, 2009, p. 256.

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não olvidemos. Telma Menicucci bem resume essa situação:

A ausência de suporte político por parte de grupos sociais relevantes e pelos


principais afetados positivamente por uma política de saúde inclusiva
demonstra também a inexistência de um consenso societário pela publicização
efetiva da assistência à saúde, entendendo-se por isso a incorporação de todos
os cidadãos ao Sistema Único de Saúde (SUS), legalmente garantida nos
princípios constitucionais, mas de fato negada na realidade da assistência tal
como ela tem se efetivado no país.33

Nesse cenário, o suporte político mais relevante – ou a falta dele – é aquele


representado pela classe média. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a disposição
política da classe média é essencial para o sucesso da adoção de sistemas de saúde universais.
Nos países onde a classe média tem buscado cobertura e tratamento por intermédio de planos
de saúde ou mediante gastos privados, os esforços para estabelecer o acesso universal à saúde
têm sido frustrados, uma vez que há redução dos incentivos para que se estendam os benefícios
aos outros segmentos sociais. 34

Os fatos recentes têm denotado redução do engajamento da classe média brasileira


pelo fortalecimento do modelo público. Nesse sentido, vale salientar que, enquanto inciativas
de desfinanciamento do SUS (Novo Regime Fiscal) e de expansão do mercado privado
(regulamentação dos planos “acessíveis”) seguem sendo implementadas, praticamente não se
debatem as isenções fiscais irrestritas aos gastos com saúde no mercado privado, que têm
aumentado ano após ano, ou os benefícios de saúde pagos com recursos públicos a
determinados segmentos do funcionalismo público. Tais comportamentos do governo e da
classe média, longe de serem imprevisíveis, seguem exatamente o caminho politicamente mais
“seguro” e ameno, que é a adoção de estratégias conservadoras e excludentes na defesa de

33
Nesse sentido: MENICUCCI, T. M. G.. Público e privado na política de assistência à saúde no
Brasil: atores, processos e trajetória. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007, p. 292.
34
BRITNELL, M. In Search of the Perfect Health System. Londres/Nova Iorque: Macmillan
Education/Palgrave, 2015, p. 157.
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interesses35.

Não à toa, a tendência observada em âmbito internacional indica que as reduções


de investimento público em saúde geram resistências politicas menores do que eventuais
restrições da co-participação estatal no financiamento das escolhas dos consumidores36. Em
suma, no cenário de austeridade atual, a redução de custos com saúde encontra menos
resistência política se feita nos recursos do SUS do que nos benefícios ofertados aos
consumidores dos planos de saúde.

Assim, na ausência de expectativas de maiores transformações advindas dos atuais


mecanismos de participação social institucionalizados ou da mobilização política das classes
populares ou da classe média, é razoável afirmar que o movimento de intensa judicialização da
saúde permanecerá sendo utilizado como instrumento de concretização do direito à saúde. A
regulamentação dos planos acessíveis tende a reforçar essa tendência, uma vez que os
atualmente existentes já têm impulsionado o processo de judicialização37. Daí a importância
central de se dar atenção especial à questão da judicialização da saúde.

Há amplo reconhecimento de que a atuação do Sistema de Justiça é instrumento


legítimo para dar eficácia material ao direito à saúde, previsto na Constituição38, mas ela mesma
não oferece os critérios para decidir os exatos contornos desse direito, tarefa que fica reservada
aos órgãos políticos competentes para “definição das linhas gerais das políticas na esfera
socioeconômica”39. Em decorrência disso, há acirrado e complexo debate em torno da
determinação de qual conteúdo pode ser depreendido do texto constitucional e, por conseguinte,

35
UNGER, R. M.. Democracia realizada: a alternativa progressista. São Paulo: Boitempo, 1999, pp.
17-18.
36
TUOHY, C. et al. How Does Private Finance Affect Public Health Care Systems? Marshaling the
Evidence from OECD Nations. Journal of Health Politics, Policy and Law, Duke University Press, v.
29, n. 3, pp.359-396, 2004, p. 388.
37
BAHIA, Ligia et al. Private health plans with limited coverage: the updated privatizing agenda in the
context of Brazil's political and economic crisis. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 32, n. 12, 2016,
p. 3.
38
Para um exemplo, conferir: DALLARI, S. G. NUNES JÚNIOR, V. S. Direito Sanitário. São Paulo:
Verbatim, 2010, p. 93.
39
SARLET, I. W.. Direitos Fundamentais a Prestações Sociais e Crise: Algumas Aproximações. In
Espaço Jurídico Journal of Law, Editora UNOESC, Joaçaba, v. 16, n.2, p. 459-488, jul. dez. 2015, p.
471.
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exigido por intermédio dos instrumentos jurídicos40. Em articulação com esse debate, há, ainda,
ampla reflexão sobre o escopo de qual tutela judicial deve ser assumida, se individual ou
coletiva.

O grande volume de ações e o significativo impacto na gestão da saúde têm


conduzido à intensificação das reflexões no âmbito da pesquisa acadêmica, da mídia, da
Administração Pública e do Legislativo. Nesse contexto, são constantes as assertivas em prol
da valorização da tutela coletiva em relação à tutela individual41, que é exatamente o que
se pretende na presente ação civil pública – transformar os problemas tratados em
dezenas de ações individuais em uma solução coletiva para todos. Dessa forma, a busca do
Sistema de Justiça por garantir efetivo acesso à saúde se mostra uma alternativa relevante –
senão a única – em face da iniquidade e da exclusão decorrentes da desnaturação do modelo
público de saúde brasileiro. Dessa forma, fortalecer esse instrumento de afirmação da cidadania
é combater os problemas estruturais que comprometem a organização do sistema de saúde: a
exclusão no acesso, o desfinanciamento do SUS, a segmentação do cuidado, a precarização dos
serviços públicos, dentre outros.

3.4 – DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO DIREITO À SAÚDE

A presente demanda coletiva está relacionada ao direito à saúde com previsão no


artigo 196 e seguintes da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, na Lei
8.080/1990, bem como na Lei Orgânica do Distrito Federal.

Dada à sua essencialidade para uma existência digna, o direito fundamental à saúde
impõe a todos, e, em especial ao poder público, o dever de jurídico de viabilização e efetivação
do acesso à saúde.

40
SARLET, I. W.; FIGUEIREDO, M. F.. Algunas consideraciones sobre el derecho fundamental a la
protección y promoción de la salud a los 20 años de la Constitución Federal de Brasil de 1988. In:
COURTIS, C.; SANTAMARÍA, R. (Orgs.). La Protección judicial de los derechos sociales. Quito:
Ministério de Justicia y Derechos Humanos, 2009, p. 252.
41
CIARLINI, A. L. de A. S.. Direito à Saúde: paradigmas procedimentais e substanciais da
Constituição. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 22-23.

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Esse dever objetiva o atendimento do direito humano à saúde, previsto no art. 25,
item I, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nos seguintes termos:

Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua
família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao
alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e
tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice
ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes
da sua vontade.

O direito de toda pessoa de desfrutar o mais elevado nível de saúde física e mental,
por meio da criação de condições que assegurem a todos assistência médica e serviços médicos
em caso de enfermidade, também está consignado no art. 12 do Pacto Internacional de Proteção
dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais.

No âmbito do Distrito Federal, a Lei Orgânica do Distrito Federal é clara em afirmar


a responsabilidade desse ente político em garantir o direito à saúde de todos, objetivando o bem-
estar físico, mental e social do indivíduo e da coletividade, à redução do risco de doenças e
outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde, para sua
promoção, prevenção, recuperação e reabilitação, de acordo com o artigo 204, incisos I e II.

Bem por isso, de acordo com a jurisprudência dessa Corte de Justiça “cabe ao
Distrito Federal, por meio da rede pública de saúde, auxiliar todos aqueles que necessitam de
tratamento, disponibilizando profissionais, equipamentos, hospitais, materiais, acesso a exames
indicados e remédios prescritos, já que os cidadãos pagam impostos para também garantir a
saúde aos mais carentes de recursos, sendo dever do Estado colocar à disposição os meios
necessários, mormente se para prolongar e qualificar a vida e a saúde do paciente diante dos
pareceres dos médicos especialistas” (TJDFT, Acórdão n.1026103, 20140111760427RMO,
Relator: ANGELO PASSARELI 5ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 21/06/2017,
Publicado no DJE: 05/07/2017. Pág.: 315/317).

Essa orientação jurisprudencial está em absoluta conformidade com dois dos


princípios que regem as ações e serviços públicos de saúde: I - universalidade de acesso aos
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serviços de saúde em todos os níveis de assistência; e II - integralidade de assistência,
entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos,
individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema.

O reconhecimento jurídico do direito à saúde como direito humano fundamental,


no plano jurídico-objetivo, proíbe a ingerência dos poderes públicos na esfera jurídica
individual da parte, e, no plano jurídico-subjetivo, implica no poder de exercer positivamente
esse direito (liberdade positiva) e de exigir dos poderes públicos que evitem ações e omissões
lesivas a tais direitos (liberdade negativa), segundo leciona J.J. Gomes CANOTILHO (Direito
constitucional. Coimbra: Almedina, 1993, p. 541).

O acesso universal e igualitário às ações e serviços de promoção, proteção e


recuperação da saúde constituem diretrizes de políticas públicas revestidas de conteúdo
programático, mas que possuem caráter cogente e vinculante, como já afirmou o Supremo
Tribunal Federal, em diversos julgamentos (entre os quais destacam-se: ADPF 45, STA 175,
RE 367.432-AgR, RE 543.397, RE 556.556 e RE 574.353).

É certo que não se inclui, ordinariamente, no âmbito das funções institucionais do


Poder Judiciário a atribuição de formular e de implementar políticas públicas, pois, nesse
domínio, o encargo reside, primariamente, nos Poderes Legislativo e Executivo.

Todavia, a incumbência de fazer implementar políticas públicas fundadas na


Constituição deverá, excepcionalmente, ser exercida pelo Poder Judiciário, se e quando os
órgãos estatais competentes, por descumprirem os encargos político-jurídicos que sobre eles
incidem em caráter vinculante, vierem a comprometer a eficácia e a integridade e direitos
individuais e/ou coletivos impregnados de estatura constitucional.

A missão institucional do Poder Judiciário impõe o compromisso de fazer


prevalecer os direitos fundamentais da pessoa, dentre os quais avultam, por sua inegável
precedência, o direito à vida e o direito à saúde.

Tais direitos não se expõem, em seu processo de concretização, a avaliações


meramente discricionárias da Administração Pública nem se subordinam a razões de puro
pragmatismo governamental. Subtrair as políticas públicas na área da saúde ao controle
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jurisdicional apenas contribuiria para agravar o presente quadro de violação massiva e
persistente de direitos fundamentais.

De fato, “seria uma distorção pensar que o princípio da separação dos poderes,
originalmente concebido com o escopo de garantia dos direitos fundamentais, pudesse ser
utilizado justamente como óbice à realização dos direitos sociais, igualmente fundamentais.
Com efeito, a correta interpretação do referido princípio, em matéria de políticas públicas, deve
ser a de utilizá-lo apenas para limitar a atuação do judiciário quando a administração pública
atua dentro dos limites concedidos pela lei. Em casos excepcionais, quando a administração
extrapola os limites da competência que lhe fora atribuída e age sem razão, ou fugindo da
finalidade a qual estava vinculada, autorizado se encontra o Poder Judiciário a corrigir tal
distorção restaurando a ordem jurídica violada” (STJ, REsp 1041197/MS, Rel. Ministro
HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 25/08/2009, DJe 16/09/2009).

Fixadas essas premissas normativas, é imperioso salientar que, como já afirmou o


Supremo Tribunal Federal, a ineficiência administrativa, o descaso governamental com direitos
básicos do cidadão, a incapacidade de gerir os recursos públicos, a incompetência na adequada
implementação da programação orçamentária em tema de saúde pública, a falta de visão política
na justa percepção, pelo administrador, do enorme significado social de que se reveste a saúde,
a inoperância funcional dos gestores públicos na concretização das imposições constitucionais
estabelecidas em favor das pessoas carentes não podem nem devem representar obstáculos à
execução, pelo Poder Público, notadamente pelo Estado, das normas inscritas nos arts. 5º e 196
da Constituição da República (cf. RE 581.352 AgR).

A situação narrada de interrupção dos ciclos da quimioterapia por falta dos


fármacos empregados no tratamento contra o câncer constitui omissão gravíssima por parte dos
réus, que não mantiveram o estoque de medicamentos padronizados, descumprindo
injustificadamente os preceitos constitucionais e legais, que pugnam pela máxima efetividade
do direito fundamental à saúde.

Cumpre aos requeridos o dever irrenunciável de concretizar a política pública de


saúde. A postura desviante torna perfeitamente possível que o Poder Judiciário seja demandado
a corrigir os abusos e omissões constitucionais do administrador, sem que se cogite violação ao
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princípio da separação dos poderes, conforme decidido na ADPF 45.

Em outras palavras, não há conveniência e oportunidade nesta seara, sendo que


eventual negativa, omissão ou oferta irregular implica odioso atraso social, em afronta ao
princípio da vedação ao retrocesso social.

I – A questão discutida no presente feito é diversa daquela que será apreciada no caso
submetido à sistemática da repercussão geral no RE 566.471-RG/RN, Rel. Min.
Marco Aurélio. II - No presente caso, o Estado do Rio de Janeiro, recorrente, não se
opõe a fornecer o medicamento de alto custo a portadores da doença de Gaucher,
buscando apenas eximir-se da obrigação, imposta por força de decisão judicial, de
manter o remédio em estoque pelo prazo de dois meses. III – A jurisprudência e a
doutrina são pacíficas em afirmar que não é necessário, para o prequestionamento,
que o acórdão recorrido mencione expressamente a norma violada. Basta, para tanto,
que o tema constitucional tenha sido objeto de debate na decisão recorrida. IV – O
exame pelo Poder Judiciário de ato administrativo tido por ilegal ou abusivo não viola
o princípio da separação dos poderes. Precedentes. V – O Poder Público não pode se
mostrar indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que
por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional. Precedentes. VI
– Recurso extraordinário a que se nega provimento.(RE 429903, Relator(a): Min.
RICARDO LEWANDOWSKI, Primeira Turma, julgado em 25/06/2014, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-156 DIVULG 13-08-2014 PUBLIC 14-08-2014).

Não bastando normatização constitucional, convencional e legal do direito à saúde,


o legislador editou a Lei 12.732/2012, dispondo no artigo 1º, que o paciente com neoplasia
maligna receberá, gratuitamente, no Sistema Único de Saúde (SUS), todos os tratamentos
necessários.

Ademais, o artigo 2º da supramencionada lei garante aos pacientes acometidos


de neoplasia maligna, o início do tratamento contra a doença no prazo de até 60 (sessenta)
dias contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em
prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário único.

No que se refere aos direitos que compõe o mínimo existencial, como os direitos à
saúde, à vida, à educação, à alimentação e à moradia, dentre outros, não se deve justificar a não
efetivação desses direitos, com base em alegações de insuficiência dos recursos públicos,
fundamentada na teoria da reserva do possível.

No mesmo sentido é o entendimento do TJDFT.

MANDADO DE SEGURANÇA. PRELIMINAR. LEGITIMIDADE DA


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AUTORIDADE IMPETRADA. REALIZAÇÃO DE EXAMES. PRINCÍPIO DA
RESERVA DO POSSÍVEL. CONTRAPOSIÇÃO AO MÍNIMO EXISTENCIAL.
DIREITOS E GARANTIAS CONSTITUCIONALMENTE ASSEGURADAS.
POLÍTICAS PÚBLICAS. CONTROLE JUDICIAL. POSSIBILIDADE.O Secretário
de Estado de Saúde é parte legítima para figurar como autoridade coatora em mandado
de segurança em que se busca o fornecimento de medicamento ou a prestação de
serviços de saúde pela rede pública, uma vez que é atribuição desta autoridade a
implementação de políticas públicas hábeis à concretização do direito à saúde
garantido constitucionalmente.Tendo por base a garantia do mínimo existencial,
tem-se admitido o controle judicial de políticas públicas, a fim de impedir que
haja desrespeito aos preceitos constitucionais. Assim, sendo o direito à saúde uma
garantia constitucional prevalente, deve o Estado primar pelas políticas públicas
necessárias à eficiência do serviço de saúde no país, não servindo de justificativa
para que a Administração deixe de atender aos comandos constitucionais a
alegação de incidência do princípio da reserva do possível, o qual serve somente
de justificativa para que o Estado estabeleça prioridades injustificáveis.(Acórdão
473914, 20100020151319MSG, Relator: NATANAEL CAETANO, CONSELHO
ESPECIAL, data de julgamento: 18/1/2011, publicado no DJE: 27/1/2011. Pág.: 50).

Esse também é o pensamento do STF, como se observa na ementa abaixo:


QUALIFICA O MÍNIMO EXISTENCIAL (RTJ 200/191-197) – O PAPEL DO
PODER JUDICIÁRIO NA IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS
INSTITUÍDAS PELA CONSTITUIÇÃO E NÃO EFETIVADAS PELO PODER
PÚBLICO – A FÓRMULA DA RESERVA DO POSSÍVEL NA PERSPECTIVA DA
TEORIA DOS CUSTOS DOS DIREITOS: IMPOSSIBILIDADE DE SUA
INVOCAÇÃO PARA LEGITIMAR O INJUSTO INADIMPLEMENTO DE
DEVERES ESTATAIS DE PRESTAÇÃO CONSTITUCIONALMENTE
IMPOSTOS AO PODER PÚBLICO – A TEORIA DA “RESTRIÇÃO DAS
RESTRIÇÕES” (OU DA “LIMITAÇÃO DAS LIMITAÇÕES”) – CARÁTER
COGENTE E VINCULANTE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS, INCLUSIVE
DAQUELAS DE CONTEÚDO PROGRAMÁTICO, QUE VEICULAM
DIRETRIZES DE POLÍTICAS PÚBLICAS, ESPECIALMENTE NA ÁREA DA
SAÚDE (CF, ARTS. 6º, 196 E 197) – A QUESTÃO DAS “ESCOLHAS
TRÁGICAS” – A COLMATAÇÃO DE OMISSÕES INCONSTITUCIONAIS
COMO NECESSIDADE INSTITUCIONAL FUNDADA EM COMPORTAMENTO
AFIRMATIVO DOS JUÍZES E TRIBUNAIS E DE QUE RESULTA UMA
POSITIVA CRIAÇÃO JURISPRUDENCIAL DO DIREITO – CONTROLE
JURISDICIONAL DE LEGITIMIDADE DA OMISSÃO DO PODER PÚBLICO:
ATIVIDADE DE FISCALIZAÇÃO JUDICIAL QUE SE JUSTIFICA PELA
NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DE CERTOS PARÂMETROS
CONSTITUCIONAIS (PROIBIÇÃO DE RETROCESSO SOCIAL, PROTEÇÃO
AO MÍNIMO EXISTENCIAL, VEDAÇÃO. ARE 745745 AgR.Órgão julgador:
Segunda Turma; Relator(a): Min. CELSO DE MELLO;Julgamento: 02/12/2014;
Publicação: 19/12/2014.

Assim, a reserva do possível não configura carta de alforria para o Administrador


que, por ação ou omissão, permitir degradação da dignidade da pessoa humana, já que é
impensável que possa legitimar ou justificar a omissão estatal capaz de matar o cidadão de fome
ou por negação de apoio médico-hospitalar. A escusa da "limitação de recursos orçamentários"
frequentemente não passa de biombo para esconder a opção do administrador pelas suas

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prioridades particulares em vez daquelas estatuídas na Constituição e nas leis, sobrepondo o
interesse pessoal às necessidades mais urgentes da coletividade.

Os atos e omissões administrativas que violarem as políticas públicas legisladas são


plenamente sindicáveis pelo Judiciário, não compondo, em absoluto, a esfera da
discricionariedade do Administrador, nem indicando rompimento do princípio da Separação
dos Poderes. "A realização dos Direitos Fundamentais não é opção do governante, não é
resultado de um juízo discricionário nem pode ser encarada como tema que depende unicamente
da vontade política. Aqueles direitos que estão intimamente ligados à dignidade humana não
podem ser limitados em razão da escassez quando esta é fruto das escolhas do administrador"
(REsp. 1.185.474/SC, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 29.4.2010) (REsp
1068731/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
17/02/2011, DJe 08/03/2012).

Precisamente por essa razão, a jurisprudência hegemônica reconhece o direito de


acesso ao tratamento mais adequado e eficaz, apto a ofertar ao enfermo maior dignidade de vida
e menor sofrimento, ainda que seja alto o custo do insumo ou complexo o procedimento médico
indicado ao paciente.

Cabe ao Poder Público, por meio da rede pública de saúde, auxiliar todos aqueles
que necessitam de tratamento, disponibilizando profissionais, equipamentos, hospitais,
materiais, acesso a exames indicados e remédios prescritos, já que os cidadãos pagam impostos
para também garantir a saúde aos mais carentes de recursos, sendo dever do Estado colocar à
disposição os meios necessários, mormente se para prolongar e qualificar a vida e a saúde do
paciente em conformidade com os pareceres dos médicos especialistas.

4 - DA TUTELA DE URGÊNCIA

Há dois requisitos impostos para autorização da tutela provisória em sede de ações


coletivas, quais sejam, a relevância da demanda e justificado risco de ineficácia do
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provimento final, de acordo com artigo 84, § 3º, do CDC.

O primeiro deve permitir, por meio de cognição sumária, um juízo provisório sobre
a veracidade e relevância das alegações, ainda que à mercê de prova inequívoca.

No caso em apreço, é patente a relevância da demanda, recaindo o objeto da tutela


sobre um dos direitos mais caros à pessoa humana - a saúde. A paralisação dos ciclos da
quimioterapia de pacientes portadores de câncer possui relevância do ponto de vista coletivo,
ante a importância do bem jurídico tutelado, bem como em virtude da repercussão em um
número indeterminado de pacientes.

O segundo requisito, por sua vez, vincula a existência de uma situação de risco ao
direito protegido, fundamentando, a necessidade pronta intervenção judicial sob pena de
ineficácia do provimento final.

Esse requisito também está presente nestes autos, pois, em razão da temática
envolvida, direito à saúde, o qual está vinculado ao direito de vida, e, devido ao alto teor de
letalidade da doença câncer, cujo tratamento está interrompido por falta de medicamentos
padronizados, faz-se necessário a concessão de liminar antes do provimento final, sob pena de
ineficácia da tutela jurisdicional.

O perigo de dano ou o risco de ineficácia do provimento final requisitos objetivos


do artigo 300 do CPC, são evidentes no caso em análise. O contrário seria consentir que a
situação desumana de interrupção dos ciclos da quimioterapia perdurasse ao longo de todo o
transcurso deste processo, o que tornaria absolutamente ineficaz a tutela jurisdicional que se
objetiva.

A probabilidade do direito está respaldada pelas disposições constitucionais e legais


que afirmam claramente a responsabilidade do Poder Público em prover os cuidados de saúde
demandados pelos pacientes.

De outro lado, os documentos anexos demonstram, à exaustão, a paralisação do


tratamento de quimioterapia no IGESDF, assim como a possibilidade de desabastecimento de

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TELEFONES: 2196-4400 E 2196-4404 - FAX 3399-2162

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mais de 60% dos quimioterápicos do rol disponível no Instituto, caso não sejam tomadas ações
concretas para restabelecimento do fornecimento dos medicamentos faltantes.

De forma inequívoca, evidenciada está a necessidade de retomada da oferta de


serviços de saúde no Distrito Federal para assegurar, aos usuários do SUS, o tratamento
adequado e tempestivo.

O risco de dano grave e irreparável aos pacientes caracteriza-se pela necessidade de


obtenção do tratamento de conformidade com os ditames normativos e com as boas práticas
internacionais, bem como pelos riscos de agravamento do quadro clínico de saúde dos
pacientes, como risco de óbito, decorrentes da interrupção do tratamento.

IV- DOS PEDIDOS

Ante o exposto, a Defensoria Pública do Distrito Federal requer:

1) a concessão dos benefícios da gratuidade judiciária, com fulcro no art. 18 da Lei


da Ação Civil Pública;

2) a concessão da tutela de urgência para que:

2.1) o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal – IGESDF,


segundo Réu, promova a juntada aos autos, em 48 (quarenta e oito) horas: a) da lista de
todos(as) pacientes em tratamento no Hospital de Base que tiveram seu tratamento
quimioterápico interrompido ou não iniciado em razão do desabastecimento dos medicamentos
padronizados DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL, com indicação de nome, data
do diagnóstico e data do início e interrupção do tratamento; e b) dos processos de aquisição de
medicamentos que tramitam no sistema SEI sob números 04016-00082024/2020-11 e 04016-
00027488/2019-12;

2.2) os Réus Distrito Federal e IGESDF, por esforço conjunto e solidário, sejam
obrigados a:
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2.2.1) no prazo de 5 (cinco) dias, promover o reabastecimento dos estoques dos
medicamentos padronizados DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL no
âmbito do Hospital de Base do Distrito Federal e retomar o atendimento aos(às)
pacientes que tiveram tratamento interrompido ou não iniciado, conforme lista que
for apresentada nos termos requeridos no item 2.1;

2.2.2) apresentar cronograma de atendimentos, com indicação do início ou


retomada do tratamento quimioterápico de cada um dos(das) pacientes constantes
na lista requerida no item 2.1, observando-se o prazo máximo de 5 dias para
atendimento daqueles(as) pacientes que tiveram tratamento interrompido e, para
os(as) pacientes cujo tratamento não tenha sido iniciado, que seja observado o prazo
máximo de atendimento previsto no art. 2º da Lei 12.732/2012 (sessenta dias
contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico);

2.2.3) manter em níveis regulares, suficientes e seguros os estoques dos


medicamentos DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL, bem como
garantir aos pacientes dependentes de tratamento quimioterápico dos referidos
fármacos a primeira sessão de tratamento no prazo máximo de atendimento previsto
no art. 2º da Lei 12.732/2012 (sessenta dias contados a partir do dia em que for
firmado o diagnóstico em laudo patológico, ou prazo menor);

2.3) a intimação pessoal do Secretário de Estado da Saúde do Distrito Federal para


a tomada de todas as providências necessárias ao fiel cumprimento da decisão judicial, sob pena
de cominação de multa diária a ser arbitrado por esse Juízo (art. 11, da Lei nº 7.347/85) para o
caso de eventual descumprimento de cada uma das determinações acima;

3) a publicação de edital no órgão oficial, a fim de que os interessados possam


intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de
comunicação social por parte dos órgãos de defesa do consumidor (art. 94, do CDC);

4) a intimação do Ministério Público, para atuar como fiscal da lei ou como


litisconsorte ativo (art. 5º, §1º, da Lei da Ação Civil Pública);

5) a produção das provas, por todos os meios juridicamente cabíveis, a serem


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oportunamente especificados;

6) a procedência do pedido para:

6.1) condenar o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal –


IGESDF, segundo Réu, a promover a juntada aos autos, em 48 (quarenta e oito) horas: a) da
lista de todos(as) pacientes em tratamento no Hospital de Base que tiveram seu tratamento
quimioterápico interrompido ou não iniciado em razão do desabastecimento dos medicamentos
padronizados DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL, com indicação de nome, data
do diagnóstico e data do início e interrupção do tratamento; e b) dos processos de aquisição de
medicamentos que tramitam no sistema SEI sob números 04016-00082024/2020-11 e 04016-
00027488/2019-12;

6.2) condenar os Réus Distrito Federal e IGESDF, solidariamente, nas seguintes


obrigações:

6.2.1) no prazo de 5 (cinco) dias, promover o reabastecimento dos estoques dos


medicamentos padronizados DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL no
âmbito do Hospital de Base do Distrito Federal e retomar o atendimento aos(às)
pacientes que tiveram tratamento interrompido ou não iniciado, conforme lista que
for apresentada nos termos requeridos no item 2.1;

6.2.2) apresentar cronograma de atendimentos, com indicação do início ou


retomada do tratamento quimioterápico de cada um dos(das) pacientes constantes
na lista requerida no item 2.1, observando-se o prazo máximo de 5 dias para
atendimento daqueles(as) pacientes que tiveram tratamento interrompido e, para
os(as) pacientes cujo tratamento não tenha sido iniciado, que seja observado o prazo
máximo de atendimento previsto no art. 2º da Lei 12.732/2012 (sessenta dias
contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico);

6.2.3) manter em níveis regulares, suficientes e seguros os estoques dos


medicamentos DOXORRUBICINA (cloridrato) e DOCETAXEL, bem como
garantir aos pacientes dependentes de tratamento quimioterápico dos referidos
fármacos a primeira sessão de tratamento no prazo máximo de atendimento previsto
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no art. 2º da Lei 12.732/2012 (sessenta dias contados a partir do dia em que for
firmado o diagnóstico em laudo patológico, ou prazo menor);

7) a intimação pessoal do Secretário de Estado da Saúde do Distrito Federal para a


tomada de todas as providências necessárias ao fiel cumprimento da decisão judicial,
cominando multa diária (art. 11, da Lei nº 7.347/85), para o caso de eventual descumprimento
de cada uma das determinações acima;

8) por fim, a condenação das partes demandadas ao pagamento das verbas


sucumbenciais, conforme Art. 85, § 2º do CPC e nos termos do art. 4º, XXI, da Lei
Complementar n. 80/94;

9) Sejam observadas as prerrogativas institucionais de intimação pessoal e prazos


processuais em dobro, nos termos do art. 44, I, da LC n. 80/94 e art. 186, caput e parágrafo 1º,
do CPC/2015;

V- VALOR DA CAUSA

Atribui-se à causa o valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais).

A Câmara de Uniformização do TJDFT, no julgamento do Incidente de Resolução


de Demandas Repetitivas nº 2016.00.2.024562-9, firmou a tese de que as ações que têm como
objeto o fornecimento de serviços de saúde, inclusive o tratamento mediante internação,
encartam pedido cominatório, e, por isso, o valor da causa deve ser fixado de forma estimativa.
No entanto, caso o entendimento desse Juízo divirja quanto ao valor dado à causa, pede-se que
este seja corrigido de ofício, nos termos do art. 292, §3º, do CPC/2015.

Brasília-DF, 23 de outubro de 2020.

ANA BEATRIZ ROCHA WAGNITZ


Defensora Pública do Distrito Federal

CELESTINO CHUPEL

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Defensor Público do Distrito Federal

RAMIRO NÓBREGA SANT’ANA


Defensor Público do Distrito Federal

ROBERTA DE OLIVEIRA MELO


Defensora Pública do Distrito Federal

THAÍS MARA DA COSTA SILVA


Defensora Pública do Distrito Federal

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