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Capítulo 5

Meio ambiente e trocas atlânticas

Benjamin Breen

Introdução.

o surgimento de viagens transatlânticas contínuas nas décadas


após 1492 rompeu fronteiras ecológicas que haviam dividido a vida na
Terra por milênios. Com exceção de breves encontros com marinhei-
ros nórdicos e, possivelmente, com navegantes polinésios, as sociedades
americanas se desenvolveram em isolamento relativamente àquelas do
Velho Mundo desde o Neolítico.l'" Também isoladas se desenvolveram
a vida microbiana, a flora e a fauna do Novo Mundo.l'" O intercâmbio
colombiano resultante, como Alfred Cosby celebremente o denominou,
impactou não apenas o Homo sapiens mas virtualmente todos os seres
vivos no planeta, da baleia branca ao bacilo da varíola.!" Quando consi-
deradas a partir do ponto de vista privilegiado do século XXI, as trocas

187 Existem evidências emergentes mas cada vez mais sólidas a respeito dos contatos entre os
marinheiros pré-colombianos oriundos do Pacífico e o litoral Oeste da América do Sul, assim
Comoum bem-atestado (ainda que curto) período de contato entre os nórdicos e os povos do
~tual Canadá. Ver Andrew Lawler, "Epic pre-Columbian voyage suggested by genes", in Science
46.6208 (2014) e Antonio Arnaiz- Villena et al., "Pacific Islanders and Amerindian relatedness
according to HLA autosomal genes", in 1nternationaljournal cf Modern rlntbropology 1.7 (2015),
}5' 44-67; Annete Kolodny, 1n Search ifthe First Contact: Tbe Vikings of Vinland, the Peoples of tbe
20;~nland, and the Anglo-American Anxiety if Discooery. Durham, NC: Duke University Press,
to . ~ntretanto, talvez por causa de suas durações relativamente curtas, nenhum destes conta-
s pre-col bi
trá' orn ianos entre o Novo e o Velho Mundos parece ter levado à pandemia global e ao
188 CnSIto de long , . d e fiora e fauna que caractenzou
a d'istancia . 'I
a era pos-co um b'iana.
Ção a ~m a notável exceção da galinha e do inhame, que parecem ter sido carregados em dire-
;1) /J o este por navegadores pré-colornbianos através do Pacífico. Cf. Terry ]ones, Polynesians
algu111erzca: Pl"e-Columbian Contacts with lhe New Worid. London: Altalvlira Press, 2011. Existe
não l11aeVIdência de uma transmissão do coco das Filipinas ao Panamá no século XVI, porém
gaçõ:: ~a~e se isso resultou de contatos pré-colombianos pelo Pacífico ou das primeiras nave-
lt,v' Ibencas; ver Charles R. Clernent et. Al, "Coconuts in the Americas", in Tbe Botanical
189Ie~79.3 (2013), pp. 342-370.
8arb fred Crosby, The Coiumbian Exchange: Biological and Cultural Consequences 0[1492. Santa
ara: Greenwood Press, 1972.

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interoceânicas dos séculos XVI, XVII e XVIII emergem Como o . A fascinação popular e científica com essas trocas na primei-
,.
CIplO d e uma extensa - e continua
'1 - g o b a liIzaçao
- d e p Iantas, ani pr . fl10dernidade deriva em parte do interesse intelectual inerente das
germes e pessoas. Não é coincidência que quando os cientistas co mata, r:estões que elas prov~cam. Como os tomates, a pimenta, o milho ou
ntern
porâneos debatem o alvorecer do antropoceno - uma nova era geol' . ' q baco todos provenientes do Novo Mundo, se adaptaram às culi-
o ta' .
de mudança ecológica induzida pelos humanos - eles apontam par°glca árias e ao modo de VIda do Velho Mundorr" A sífilis realmente foi
conjunto de transformações que se originaram nos três séculos a Utn n nsrnitida da Mesoamérica à Europa na época de Carlos V?196 O que
. ,. vIagens de C'nstovao
,- Co Iom bo e Vasco da G ama.19Qque se tra
seguIram as ativos americanos pensavam a respeito dos animais afro-eurasianos
OS n
Esta, ao menos, é a perspectiva épica que ganhou crédito dornesticados?197 Mas, além disso, a história ambiental do mundo atlân-
histórias ambientais recentes do mundo da primeira modernid~as tico também ajuda a compreender duas das mais colossais catástrofes da
Os trabalhos que fundaram este campo são lhe Columbian Exchan e.
história humana recente. A primeira é a impenetrável tragédia ocasio-
(1972) e Ecologicallmperialism (1986), de Alfred Crosby, nos qUais~e
nada pelas mortes de dezenas de milhões de nativos americanos devido
historiador da Universidade do Texas retratou a narrativa familiar da
a doenças infeciosas como a gripe, o sarampo e a varíola, contra as quais
expansão europeia sobre o pano de fundo mais amplo da transforma_
os indígenas não possuíam resistência.!" A segunda é a contínua di-
ção ecológica, da transmissão epidêmica de doenças e das mudanças
minuição da biodiversidade global, a qual muitos ecologias identificam
nas relações homem-animal.'?' lhe Columbian Exchange, publicado pela
agora como a maior extinção em massa desde o desaparecimento dos
pequena Greenwood Press após um prolongado período de dificuldade
dinossauros há 65 milhões de anos.l" Ao conectar os estudos acerca da
em encontrar um editor, necessitou de muitos anos para emergir como
história do período colonial a preocupações contemporâneas a respeito
o texto fundador pelo qual nós o conhecemos hoje."? As primeiras re-
tanto da sobrevivência de culturas não-ocidentais quanto da preservação
censões foram escassas, indo de avaliações positivas até qualificações que
da biodiversidade restante no planeta, o estudo do intercâmbio colombia-
não eram tão amistosas.l" Nas últimas duas décadas, contudo, a tese de
no emergiu como uma das mais dinâmicas subáreas da historiografia. O
Crosby se inseriu fortemente tanto na produção historiográfica quan-
to na imaginação pública, especialmente via popularizações como a de objetivo deste capítulo é destacar a ampla gama de interesses e métodos
Jared Diamond, Guns, Germs and Steel (1999), e ambiciosos panoramas
como o de John F. Richard, lhe Unending Frontier (2006).194 Mann, 1491: New Reuelations of the Americas Before Columbus. ew York: Knopf, 2005; John F.
Richards, 7he Unending Frontier: An Enuironmentai History ofthe Eady Modern World. Berkeleyl
190 Simon L. Lewis; Mark A. Maslin, "Defining the Anthropocene", in Nature, 519 (Marcb. Los Ange!es: University of California Press, 2006.
2015), pp. 171-180. . 195. Rache! Laudan. Cuisine and Empire: Cooking in Wodd History. Berkeley/Los Angeles: Uni-
191 Alfred Crosby, Columbian Exchange e Ecologicallmperialism: 'Ibe Biological Expanslon of versIty of California Press, 2013.
Europe, 900-1900. Cambridge: Cambridge University Press, 1986 (edição brasileira em Im~ ~6 Kristin N. Harper et. Al, "The origin and antiquity of syphilis revisited: an appraisal of
ralismo ecológico: a expansão biológica da Europa, 900-1900. São Paulo: Companhia das Lerra.s;
1993, reedição pela Companhia de Bolsa em 2011). Para uma visão ampla de trabalh~s
recentes acerca do intercâmbio colombiano, ver Nicole Boivin et al., "Old World globalt:z ° 3
a
:0 A ld World pre-Columbian evidence for treponemal infection", in American [ournal of Physira!
1;7;hro~ology 146.S53, 2011, pp. 99-133.
L' V1rgl!1IaDeJohn Anderson, "K.ing Philip's Herds: Indians, Colonists, and the Problema of
and the Columbian exchange: comparison and constrast", in World Archaeoiogy, vol. 44, o , 4 lVestock in Early New England", in Tbe Wi!!iam and Mm) Quartel'ly,1hird Series, vol. 51, n?
setembro de 2012, pp. 452-469. . . ai and Ea~~tubro de 1994, e, da mesma autora, Creatures of Empire: How Domestic rlnimals T1'fJI1.\[o1'1ned
e
192 William McNeil, "Forward", in Alfred Crosby, Tbe Colurnbian Exchange: Blologl 198 'Y A~ne1'!ca. Oxford: Oxford University Press, 2004.
Cz~tural Consequences of 1492. Westport, CT: Praeger, 2003, p. IX. . '. vaI. 60, 00 2, Cros O autor usa a expressão '''virgin-soil' epidemic diseases", conceito cunhado por Alfred
b
19.> Por exemplo, a resenha por Richard S. Dunn em Tbefournal of 'rlmerican History. . h lI/11ll as ~ em seu Tbe Coinmoian Excbanye para se referir justamente a epidemias de doenças com
" . .' al"e nn a
setembro de 1973, pp. 420-422 notou que Crosby não fez nenhuma pesqUIsa ongin ária. A ter qU,\js a população afetada não teve nenhum contato prévio e, portanto, estão indefesas em
s
c ".
prcrerencia por ".slmp lif -" 011dee "um tratamento mais.' preCIso e d etalhado" era. neces
1 caçoes de 1975,rn. to mos Imunológicos. A opção pela paráfrase adotada aqui não altera o sentido da frase, mas
resenha de Edward E. Berry em 7he American Historical Reuieui, vol. 80, nO1, fevereIro ." orirna-se
i inte resse ao Ieitor
. sa b er que B"enpm1l1 B reen esta' se rererm
['. d o a um conceito
. especi 'fi co
. návelS.
67 também notou que "uma certa quantidade de generalizações ingênuas são questlO I•. "". 19~ nado do livro que inicia sua área de estudos [N.T.].
S .. NewYor~. Nat Anthony D. Barnosky er al., "Has the Earth's sixth mass extinction already arrived?", in
194 jared lV1. Diarnond, Guns, Germs, and Steel: Tbe Fates of Human ociettes. . Char1e5
orton, 1999 (edição brasileira Armas, germes e aço. Rio de Janeiro: Record, 2001), lIre 471.7336, 2011, pp. 51-57.

246 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) . As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 247
que convergem atualmente na história ambiental do mundo atlântic erspectivas europeias. Em geral, as primeiras histórias ambientais do
A primeira seção examinará novas abordagens que "descentralizam"o. ~undo atlântico, como os trabalhos de Crosby e o influente livro de
formulação inicial de Crosby, enquanto a segunda e a terceira se ~ a William Cronon, Changes in the Land, procuravam colocar uma nova
consi d erarão o pape 1 comp 1ementar dee animai
animais e d oenças, assim comÇOes pátina, ecolog~c~mente centrada, na narrativa familiar da imigração bri-
a interpenetração entre as histórias da religião, da ciência e da medicin o tânica na Amenca.
Na conclusão, exporei algumas observações a respeito de para onde: Mais recentemente, Judith Carney contestou a ênfase de
campo pode estar indo no futuro. Crosby em atores europeus ao destacar a importância de cultivos e do
conhecimento natural africano.j'" A ênfase de Carney nas histórias pro-
fundas da agricultura africana subsaariana coloca o intercâmbio colom-
biano sob uma nova luz: ao invés de conceber o encontro pós-colombia-
Descentralizando o intercâmbio colombiano no entre cultivos europeus, ameríndios e africanos como uma imposição
feita por sujeitos europeus móveis sobre populações indígenas estáticas,
"tradicionais", Carney demonstra como os agricultores e curandeiros
Para Crosby, a força dominante atuando na transformação africanos moldaram ativamente a construção de uma esfera ecológica
ambiental da bacia Atlântica foi a troca forçada de plantas, animais e .híbrida na bacia Atlântica. Este não era um novo processo iniciado pe-
germes do Velho Mundo para as Américas - a criação do que ele cha- los europeus, mas uma elaboração e uma expansão de um padrão de
mou "Novas Europas" por meio dos colonizadores ibéricos, franceses, deslocamento de longa distância de biota202 e conhecimento natural que
holandeses e ingleses que carregavam vinhas, trigo, vacas, porcos, cavalos já ocorria dentro da África há milhares de anos. Há até mesmo "quatro
e outros cultivos agrícolas europeus para o Oeste através do Atlântico. mil anos atrás", Carney e Rosamoff afirmam, "plantas alimentícias afri-
Crosby identificou a viagem marítima de longa distância como o motor canas estavam em movimento'V'" Enquanto o primeiro livro de Carney,
destas mudanças e ele situou a agência histórica no lado dos marinhei- Black Rice, traçou o caminho da transmissão de um único cultivo (Oryzo
ros, artesãos e colonizadores europeus da primeira modernidade que ha- glaberrima) da África Ocidental às depressões da Carolina do Sul, In
viam dominado o uso de "armas e velas": tbe Shadow of Slavery oferece um panorama muito mais extenso da glo-
balização de um jardim repleto de cultivos africanos.i?" Estes incluem
As costuras da Pangeia estavam se fechando, cosidas pela
tudo indo do painço (Brachiaria de.flexa), melancia (Citrullus lanatusi,
agulha dos marinheiros. Galinhas encontravam kiwis, gado
encontrava cangurus, irlandeses conheciam as batatas, coman- sésamo (Sesamum alatumi, sorgo (Sorghum bicolor), pimenta malague-
ches se deparavam com cavalos, incas defrontavam-se com a ta (Afromomum melegueta), café (CcifJea robusta), inhame (Dioscorea
varíola - tudo isso pela primeira vez.200 rotundata), quiabo (Hibiscus esculentusi até o todo-poderoso algodão
(Gossypium herbaceum).
Implícita no subtítulo de Ecologicallmperialism
("The Biological Historiadores da ciência e da medicina também reformularam
Expansion of Europe") estava uma visão da globalização e da mudan: ° modelo de Crosby. Como notou Paula de Vos, a busca por novos tem-
ça ecológica na primeira modernidade que privilegiava os atores e a peros e plantas curativas americanas trouxe "um tipo muito particular
---------
1°1 Judith Carney com Richard Nicholas Rosamoff.Z» The Sbadou: of Sla-uery:Aji'ica:r Botanical
200 Alfred W. Crosby, Ecoloyical Lmterialism: The Biological Expansion of Euro~e, 900'~:r~~ 2~~acyin tbe Atlantic Wod~.Berkeley: U niversity .of California Press, 2010. ,
Cambridge: Cambridge University Press, 1986, p. 131. A importância da tecnolog1a das rn seO 203 B10ta se refere ao conjunto de todos os seres VIVOS de um determinado local ou penado [N.T.].
e velas" foi explorada em grande detalhe pelo economista italiano Carlo M. Cipolla ea71siOfl. 20 Carney; Rosamoff, Sbadow of Sla-uerv, 2010, P: L .
Guns, Sails, and Empires: TechnologicalInnovation and the Eariy Phases of European Exp d 4 Judith Carney, Black Rice: TheAfrican Oriyins of Rice Cultivation i71 the rlmericas. Cambn-
1400-1700, NewYork: Pantheon Books, 1966. ge, Mass.: Harvard U niversity Press, 2001.

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de agência humana e padrão de intenções ao intercâmbio colombiano" ribenhas em seus próprios termos, por exemplo, Susan Scott Parish, em
que os trabalhos de Crosby em larga medida ignoraram. Ainda que a seu American Curiosity: Cultures ofNatural History in the Colonial British
compreensão dos deslocamentos ecológicos exija pensar numa escala .Atlantic World (2006), questionou como epistemologias não-cristãs in-
global, também é necessário atenção a contextos altamente específicos' fluenciaram a transmissão do conhecimento natural no mundo atlânti-
211
um bando de agentes imperiais procurando novas fontes de riqueza par~ co. Se estudarmos as relações mais amplas entre homens e a natureza
dar conta dos hábitos de gastança de seus monarcas, por exemplo, ou Urn nos locais de contestação dos impérios europeus, sugere Parish, o que
curandeiro africano trazendo um requisitado medicamento através da encontraremos não será a imposição de uma "racionalidade" europeia
Passagem do Meio,20s ou os ecléticos hábitos de coleção de um filósofo sobre a "espiritualidade" indígena, mas uma complexa hibridização entre
natural ávido por coletar curiosidades exóticas.F" cosmologias e conhecimento natural.ê" Nature, Empire and Nation, de
O intercâmbio colombiano, em suma, foi uma processo multilo- Jorge Cafiizares- Esguerra, explorou temas similares colocando a ênfase
cal e que envolveu uma gama de sujeitos agindo a partir de propósitos em como tipologias religiosas influenciaram as concepções criolias da
cruzados e motivos altamente individuais. Estudos recentes têm abor- natureza no Novo Mundo.ê'" Outros estudiosos têm explorado o papel
dado desde xamãs indígenas americanos e guias para escravos africanos da violência na história ambiental, chamando a atenção para a termino-
até curandeiros como Domingos Álvares, o feiticeiro207 cujas estadas em logia relativamente abstrata empregada frequentemente para descrever
Brasil e em Portugal foram narradas por James Sweet.ê'" Estes traba- as mudanças ambientais do mundo atlântico - "encontros", "intercâm-
lhos enfatizam as maneiras através das quais sociedades hibridizadas bios, "trocas" e "hibridização" - tendem a "diminuir os aspectos muitas
como aquelas das lavouras brasileiras ou os portos da costa africana re- vezes atrozes da violência no intercâmbio colombiano'V'"
pensaram o papel de novos cultivos agrícolas, do conhecimento natural Além de historiadores que enfatizam as particularidades e as
e de seu consumo para se enquadrar em padrões culturais, climáticos agências locais, outros pesquisadores têm sublinhado que a bacia atlân-
e sociais locais.ê''? Recentralizar a hipótese do intercâmbio colombia- tica é um âmbito demasiadamente reduzido para compreender a mu-
no implica em se afastar da América britânica enquanto modelo nor- dança ecológica: seria necessária uma visão global. Estudiosos como
mativo.P" mas isso também significa prestar maior atenção a contextos
211 Susan Scott Parish, American Curiosity: Cultures of Natural Historv in the Colonial Britisb
culturais e epistemológicos específicos que moldaram as relações das
Atlantic Wortd. Chapel Hill, NC: University of North Carolina Press, 2006. Em seu ensaio
pessoas na primeira modernidade com relação à natureza. Ao abordar as "Diasporic African Sources ofEnlightenment Knowledge", inJames Delbourgo; Nicholas Dew
cosmologias dos africanos escravizados e das populações indígenas ca- (eds.), Science and Empire in tbe Atlantic World. London: Routledge, 2007, a autora situa as cren-
ças a respeito das "potências máginas do mundo natural" no contexto de um contínuo "embate
epistemológico" entre as diferentes tradições de conhecimento - europeia, africana e indígena
205 Passagem do Meio traduz a expressão inglesa Middle Passage, que se refere à parte mais - nas Américas, uma perspectiva que eu considero proveitosa para minha própria pesquisa.
dificultosa do trajeto que levava os escravos da África à América [N.T.]. 1 212 Outros trabalhos que seguem por linhas parecidas observaram a relação entre os curan-
r
206 Paula de Vos, "1he Science of Spices: Empiricism and Economic Botany in the Ea y deiros escravos e a natureza. Muitos destes trabalhos se centraram no caribe francês e britãnico;
Spanish Ernpirc", inJournal ofWorld History, 17, nO4, dezembro de 2006. Ver Karol K. Weaver, lvIedical Reoolutionaries: 'lhe Enslaued Healers of Eighteenth Century Saint
207 Em itálico no original [N.T.]. A ln- D.omingue. Champaign: University of Illinois Press, 2006; Juanita de Barros, "'Setting 1hings
.' .. IH' Jthe ta
RIght': Medicine and Magic in British Guiana, 1803-1838", in Slave7} and Abolition, 25:1,
208 James H. Sweet, Do I7UngosAlvares, Afncan Healing, and tbe Intelleaua istory O;
tic vVodd. Chapel Hill, NC: University ofNorth Carolina Press, 2011; Alida C. Metcalf, Go
tuieens and the Colonization of Brazil 1500-1600.
-Be-

Austin: U niversity ofTexas Press, 2005· · tOr


i Pri12004; Christiane Bougerol, "Medical Practices in the French West Indies: Master and
lave in the 17,h and 18,h centuries" in History and Anthropology, 2, 1985. Para uma fonte primá-
"in V rc
209 Elinor G. K. Melville, "Land Use and the Transformation of the Environment , 'dge: rIa escrita por um escravo que descreve rituais de cura, ver a tradução feita por Miguel Bartnet
Bulmer-Thomas et al (eds.), 'lhe Cambridgc Economic History ojLatinAmerica, vol.1. Cam~~Jich, ~as memórias do escravo cubano Esteban Montejo, Biography of a Runaway S!ave. Evanston,
Cambridge University Press, 2006, p. 125. Sobre as"neo-Africas" ver também Jam;sOxford: 2 1: Curbstone Press, 1997.
Replenishiny' tbe Earth: the Settler reuolution and the Rise ofthe Anglo-Wodd, 1783-193 i 13 Jorge Cafiizares- Esguerra, Nature, Empire and Nation. Explorations of the Historv of Science
Oxford University Press, 2009, pp. 25-27 e Carney e Rosamoff,1n 'lhe Shadow ofSlave7Yfor the 271the 1berian World. Stanford: Stanford University Press, 2006, p. 24 [N.T.].
210 Jorge Caüizares-Esguerra; Benjamin Breen, "Hybrid Atlantics: Future DlrectlOns d14 Brian Sandberg, "Beyond Encounters: Religion, Ethnicity, and Violence in the Early Mo-
History of the Atlantic World", in Historv Compass, 11.8,2013, pp. 597-609. ern Atlantic World, 1492-1700", ui fourna! ofWor!d History, vol. 17, nO 1, março de 2006, p. 2.

25 O As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 251


Kris Lane, J. R. McNeil, Molly Warsh, Sanjay Subrahmanyam eJ oa politização do hábito social de beber em ambos os lados do atlântico
de Vries e outros têm traçado as redes de intercâmbios comerciais r-e-, an
, ·qa~
"
britaDlCO an t es d a revo Iuçao.
- 218
teriais e econômicos de certas mercadorias-chave do período corno Ainda que muitos dos novos trabalhos sobre a circulação pós-
açúcar, o chocolate, o tabaco, a cochonilha e o café (assim como para do~ _colombiana de produtos naturais se ocupe apenas do Império britâni-
enças como a malária e a febre amarela) que se afastam , da esfera atla'n~ co, OS mundos comerciais do Atlântico Sul têm recebido uma atração
tica em direção a locais como o Sudeste asiático, a India e o Pacífico.215 renovada. Mariana Candido, por exemplo, descobriu novas fontes de
Entretanto, para obter uma perspectiva realmente global, estas histórias arquivo relacionadas c?m o movimento dos pombeiros, mercadores itine-
precisam se restringir ao estudo da circulação de uma única mercadoria rantes no interior da Africa centro-ocidental- intermediários frequen-
ou apenas um objeto.!" Rachel Herrmann apontou que a tendência de temente mestiços que difundiram os cultivos ameríndios, europeus e
muitos destes estudos em escolher apenas um alimento ou mercadoria asiáticos para muito além das regiões costeiras da África com as quais os
pode ter o efeito de obscurecer os contextos culturais, políticos e ma- historiadores do mundo atlântico tradicionalmente têm se ocupado.é"
teriais em que eles estavam inseridos.ê'? O trabalho recente de David Da mesma maneira, as pesquisas dos historiadores brasileiros Rafael
Hancock a respeito do comércio de vinho Madeira pode indicar um ca- Chambouleyron e Júnia Furtado, além do geógrafo norte-americano
minho produtivo para futuros desenvolvimentos na área. Seu Oceans oJ Richard A. Voeks, exploraram como as interações entre o conhecimento
Wine aprimora os estudos acerca dos padrões de produção, distribuição médico americano, africano e europeu não apenas influenciaram os con-
e consumo de uma única substância - o vinho - mas ainda assim mapeia tornos do colonialismo no Brasil e na Amazônia mas alteraram também
como a circulação de uma mercadoria específica afetou as formações a própria paisagem.F''
sociais e materiais mais amplas, como o design dos artigos em vidro Também vale a pena notar que as mercadorias atlânticas não
e a performance masculinidade nos banquetes setecentistas. Hancock eram substâncias necessariamente estáveis, imutáveis e inertes. Algumas
também conecta fatores ambientais a mudanças culturais, mostrando delas, como os peixes atlânticos estudados por W. Jeffrey Bolster, esta-
como a cambiante ecologia das ilhas atlântica portuguesas influenciou vam vivas e se movimentavam.P! Os primeiros colonizadores da região
ao Norte da América que depois seria chamada de Cape Cod222 diziam
215 Kris Lane, Color of Paradise: the Emeraid in the Age of Gunpowder Empires. New Haven:
Yale University Press, 2010; Molly Warsh, American Baroque: Pearls and the Nature of Empi-
re, 1492-1700 (no prelo); Sanjay Subrahmanyam, Courtty Encounters: Translating Courtliness 218 David Hancock, Oceans of Wine: Madeira and tbe Emergente of .rlrnerican Trade and Taste.
and Violence in Earty Modern Eurasia. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2010; J.R. New Haven, CT: Yale University Press, 2009.
McNeill, Mosquito Empires: Ecology and VVczrin the Greater Caribbean, 1620-1914. Cambridge: 219 Mariana Candido, An African Slaving Port in tbe Atlantic World:Benguela and it.f Hinter-
Cambridge University Press, 2010; Jan de Vries, "The Limits of Globalization in rhe Early land. Cambridge: Cambridge University Press, 2013.
Modern World", in Economic History Reuieu., 63 (3),2010, pp. 710-733; Matthew Sargent, lhe 220 Rafael Chambouleyron, Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia colonial (J 640-
birth of globalization: cross-cultural knowledge transfers along European-Asian trade rout.es 1706). Pará: Editora Açaí, 2011; do mesmo autor, "Portuguese Colonization of the Amazon
and the ris e of the multinational corporation (1250-1750). Berkeley: U niversity of Californ1a, Region, 1640-1706). Cambridge: University of Cambridge, UK, tese de doutoramento, 2005;
Berkeley, 2013, PhD Dissertation. Ver também Stuart B. Schwartz (ed.), Tropical Babylons: Su- Júnia Ferreira Furtado, "Barbeiros, cirurgiões e médicos na Minas colonial", in Revista doArquivo
gar and the Making ofthe Atlantic World, 1450-1680. Chapel Hill: University ofNorth Carolina PúblicoMineiro, 2005, pp. 88-105; "Tropical Empiricism: Making Medicinal Knowledge in Co-
Press, 2004; Marcy Norron, Sacred Gifts, Profane Pleasures: A History ofTobacco and Chocolate lonial Brazil",James Delbourgo; Nicholas Dew, Science and Empire in the Atlantic World. London:
in tbe Atlantic World. Ithaca: Cornell University Press, 2008; Amy Butler Greenfield, A Perfe~~ Routledge, 2008, e "The eighteenth-century Luso-Brazilian journey to Dahomey: West Africa
Red: Empire, Espionage, and tbe Questfor tbe Coior of Desire. New York: Harper Perennial, 2~? ~ through a scientific lens", in Atlantic Studies, 11:2,2014, pp. 256-276; Robert A. Voeks, "Dis-
Michelle Craig McDonald, "The Chance of the Moment: Coffe and the New West In ;~. turbance Pharmacopeias", in Annals of tbe Association of America Geograpbers,2004, pp. 870-871.
Commodities Trade", in William and Mary Quarterly, 3,d series, 62:3, July 2005, pp. 441-4 , 221 J effrey Bolsters, 'lhe Mortal Sea Fishing in tbe Atlantic in tbe Age of Sail. Harvard: Harvard
Mark Kurlansky, Cod:A Bioe;raphy ofthe Fisb that Changed the World. New York, 1997. . h DnlVersity Press, 2012.
c, • -d "fetle e
216 Ver, por exemplo, a crítica de Bruce Robbins a estes trabalhos como uma vanaçao o 63. 222 Pe'nínsula no estado norte-americano de Massachussetts, conhecida atualmente como um
da mercadoria" em "Commodity Histories", P1WLA, voL 120, na 2, março de 2005, pp. 454-4 íal destino de verão para a alta sociedade da Nova Inglaterra, foi um dos primeiros locais de colo-
217 Rachel B. Herrmann, "The tragical historie': Cannibalism and Abundance in Colonl lllzação britânica na América do Norte. Como a sequência da frase indica, cod indica bacalhau,
Jamestown", in 'lhe WiI/íam and Mary Quarterly, voL 68, na 1,janeiro de 2014, pp. 47-74. então se poderia traduzir o toponímico como "Cabo do Bacalhau" [N.T.].

252 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750)' As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 253
que o bacalhau era tão numeroso que às vezes pulavam, ~or Vontade j\ transmissão de animais e epidemias
própria, para os barcos dos pescadores. Os holandeses nao tardaram
em ganhar dinheiro em cima das riquezas marítimas do Atlântico, e
muitas fortunas de Amsterdã foram feitas com base em seu sofisticado Num dia de primavera em 1580, a primeira frota a realizar com
sistema para conservar bacalhau e arenque e transportá-Ios através de sucesso a travessia do Estreito de Magalhães a partir do Leste apertou
vastas distâncias utilizando jluytschips de grande calado. Na Pensínsula numa ilha deserta. O comandante da expedição, Pedro Sarmiento de
Ibérica da primeira modernidade, assim como nos impérios coloniais
Gamboa, ordenou que seus homens tirassem a medida com o astrolá-
ibéricos, peixe salgado do Atlântico Norte se tornou um prato típico
bio. Usando os dados sobre a latitude, Gamboa consultou seu baú com
da culinária nacional.F' Em seu Fish into Wine, Peter E. Pope enfatizou
cartas portolanas-" e adivinhou corretamente que sua frota havia che-
a importância do conhecimento local compartilhado oralmente pelos
gado na Ilha de Ascensão. Seus pilotos utilizaram outras ferramentas
pescadores na criação dos mercados de pesca atlânticos e outras redes de
para mapear a ilha e traçar a profundidade do leito do oceano. Antes
mercadorias.i" O estudo de Pope a respeito dos contornos da economia
de ir embora, Gamboa ergueu um memorial para marcar a passagem
baseada na pescaria da Terra Nova, no atual Canadá, também empregou
bem-sucedida da frota do Pacífico ao Oceano Atlântico - a primeira
evidências arqueológicas. Umas perspectiva oceânica também altera o
travessia feita seguindo esta direção de que se tem registro na história.P?
modo como pensamos acerca do comércio de longa distância de plantas
O feito alcançado pela frota só foi possível pela combinação de
e animais vendidos como alimento ou remédio. Uma análise recente da
uma ampla quantidade de tecnologias, como instrumentos de navegação
documentação hispânica relacionada com os carregamentos de baca-
e telescópios, canhões e as próprias naus. Gamboa e seus marinheiros,
lhau seco e salgado indicou que o custo de transportá-lo mil milhas por
mar era cerca de 25 vezes menor que o de levá-lo por terra. De fato, o entretanto, adotaram outra prática tecnológica quinhentista que recebeu
transporte no interior da Espanha - por exemplo, de Bilbao a Toledo- menor atenção. Antes de abandonarem a ilha, os marinheiros deixa-
custava significativamente mais que o transporte de longa distância por ram animais em terra, nomeadamente, leitões e cágados. Os marinhei-
mar, como entre Bilbao e Boston.P' ros deixaram pares aptos a se reproduzirem de animais comestíveis na
Porém, o que dizer a respeito
de intercâmbios ecológicos que esperança de que os filhotes destes animais se provassem capazes de
não foram ativamente liderados por merca d ores ou mann. h'erros:? Como Sustentar futuros marinheiros que visitassem a ilha.
a segunda seção explorará, ainda que os humanos tenham alterado a A prática de "semear" ilhas desertas com animais domésticos
paisagem do comércio atlântico, às vezes a paisagem alterava eles. foi um dos aspectos da expansão marítima ibérica de maior importân-
cia ambiental no século XVI. Ainda que os marinheiros envolvidos nela
trabalhassem de forma inteiramente improvisada e acidental, o resulta-
do acumulado foi o de transformar ilhas sem grandes quadrúpedes em
fontes de alimento que se renovavam automaticamente. Como Brian
Jones notou em dissertação recente, suas atividades estabeleceram "es-
calas" escondidas cuja localização era conhecida apenas a grupos seletos
223 Mário Moutinho,

Histâria da Pesca do Bacalhau. L·1Sb oa. . Edi itonial E s tampa 'h1985. C ntury.
• o·

224 Peter E. Pope, Fisb into Wine: Tbe Newfoundland P'tantatton .. tn th e Seventeent e ---------
Chapel Hill, NC: University of Norrh Carolina Press, 2004. . fi rn the 226 Cartas portolanas são mapas de navegação construidos a partir das direções do compasso
225 Regina Grafe, "Turnmg. . .
mantime . .
h1storY,,1~to g Io b a I hiistory, Som. e concluslOns
r 2011,roP: 2 58 e do astrolábio. Eles surgiram no século XIII, na Itália, e foram depois melhor desenvolvidos no
impact of globalization in early modern Spain , m Researcb tn Maririme Histo y, 50-1800. ~~ntexto da expansão ibérica dos séculos XV e XVI [N.T.]. ..
e, da mesma autora, Distant Tyranny: Markets, Power, and Backwardness tn Spain, 16 a 7 Esta descrição é adaptada de Brian jones, "Inventing the Ocean: Early Spanish Manners
Princeron: Princeton University Press, 201l. nd the Creation of Oceanic Space". Austin: University ofTexas, 2014; PhD dissertation.

254 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 255
de navegadores espanhóis e portugueses.ê" Estas formas improVisad J.V1elvillee Crosby mas também criaturas exóticas alimentadas durante
de manipulação ecológica foram frequentemente negligenciadas as longas viagens para servir de presentes dignos de serem dados a monar-
los historiadores (e até mesmo pelos próprios observadores da é pe~ caS. Animais usados como presentes exóticos no período iam do coitado
ca ) porque o con ecirnento d e inrormaçoes
heci . I: -
geogra , fi cas e ambientai
po~ do rinoceronte que o rei D. Manuel de Portugal famosamente forçou a
lutar com, um elefante até o peru norte-americano presentado pelo vi-
Potencialmente valiosas era muitas vezes guardado
com zelo . Co rnoS
Maria Portuondo observou, o conhecimento marítimo ibérico era urna ce-rei da lndia portuguesa ao imperador mogol-" Jahangir em 1612.234
"ciência secreta".229 Os porcos e cágados deixados por Gamboa erarn
uma informação com dono, não menos que os contornos das ilhas qUe
navegara ou as profundezas que sondara.
O papel mais amplo dos animais como uma força de mudança
ecológica tem recebido, no geral, menos atenção que outros componen~
tes do intercâmbio colombiano.230 Da tríade composta por "germes, plan-
tas e animais" frequentemente utilizada por historiadores ambientais ,
nós tendemos a enfatizar mais os dois primeiros que o último. Motivos
para esta ênfase não são difíceis de encontrar: a enorme taxa de morta-
lidade de doenças contagiosas na primeira modernidade como a varíola,
a gripe, a febre amarela e a malária, e a importância econômica de mer-
cadorias oriundas de plantas como a cinchona (fonte de quinino),'?' anil
e açúcar. Com a notável exceção do que Elinor Melville denominou "a
erupção dos ungulados",232 de animais domesticados da Eurásia para o
Novo Mundo, as histórias ambientais de animais na primeira moderni-
dade não deram origem a narrativas igualmente estimulantes. Um olhar
mais atento, porém, aos registros textuais e visuais das trocas marítimas
entre os séculos XVI e XVIII - como os relatos acobertados de Gamboa
e outros navegadores ibéricos - revela a proeminência dos intercâmbios
animais. Estes incluíam não apenas o gado domesticado estudado por
Figura 1
" Richard H. G rove, Green Imperialism:
.' Cotonia
I . IE . n Tropical
228 jones, 2014 e tambem xpansto, . _
. . of Ettuironmentalism,
.' C am brid C am b.nídge Um'lhaver
Island Edens and the Origins 1600-1860. fi ge:
s
siry Press, 1996, o qual mostra como esta forma primitiva de manipulação amblental de I . A imagem na figura 1 é um detalhe de uma pintura feita pos-
levou ao pensamento ecológico no século XVIII. . . go' SIVelmente pelo artista japonês Kano Domi que utiliza o vocabulário vi-
. .' h ~T TU ·!d Chlca .
229 Mana M. Portuondo, Secret Science. Spamsh Cosmograpby a11C1t e iveu: rvOI •
U niversity of Chicago Press, 2009. . Tralls- sual do nanban, estilo artístico japonês da primeira modernidade. Ainda
230 Ver, porém, Virginia De] ohn Anderson, Creatures of 'Empire: How DomesticatedAnt1l1a!s . t»:
formed EarlyAmerica. Oxford: Oxford University Press, 2004; Elinor Melville,A P!ague of
She {396. ---------
~!~ ~ughal ou Mogol designa o império que resultou da dominação rurco-rnongol do Norte
oironmentat Consequences ofthe Conquest of Mexico. Cambridge: Cambridge Universi~ Pre,ss, ara OS
231 O autor utiliza a expressão "[esuit's bark", que era um nome popular em JI1glesp 234 ndla ~o século XVI [N.T.].
remédios contra a malária [N.T.]. rno ° en " Felipe Vieira de Castro, 'Ibe Pepper Wi'eck (Texas A&.M Press, 2005); Benjamin Bre-
232 No original, "ungulate eruption". Ungulados são os grandes mamíferos terrestres, CO bl~ }he Emperor's Turkey", in The Appendix, November 28, 2013 [http://theappendix.netl
gado, o porco e o cavalo [N.T.]. g 2013l1l1the-emperors-turkey].

256 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 257
que todas as oito figuras estejam vestidas à maneira do Portugal qui, a testar os perigos do clima tropical mas os efeitos biológicos da resi-
nhentista, o artista claramente se esforçou para diferenciá-Ias ao nível dência permanente nestas latitudes - os efeitos que surgem na transição
étnico ou fenotípico: os dois carregadores de pele escura são, prova, entre ser um invasor ecológico e um nativo.
velmente, ou africanos ou escravos do Sudeste Asiático. O artista tarn, Relatos desse tipo revelam uma rede em grande medida es-
bérn estava claramente fascinado pelas mercadorias que estes exóticos condida de trocas a longa distância de animais que ajudaram a moldar
estrangeiros carregavam: um macaco, um pequeno animal que lembrava a globalização da primeira modernidade. Essas redes de troca permane-
um cervo com manchas no couro, uma ave-do-paraíso e um galo bran- cem difíceis de traçar, contudo, dada a fluidez tanto dos animais quanto
co. As figu_ras representadas aqui, como Gamboa e outros navegadores dos termos utilizados para descrevê-los. Um testemunho disso são as
engajados em implantar e transportar animais, praticavam uma espécie confusões geográficas ocasionadas pelo nome "peru", que é conhecido
de ciência vernácula, não-elitista. Essa ciência dependia de improvisos corno dinde - "da Índia", em francês, mas em português é chamado peru,
e acasos: encontrar um par compatível de papagaios.ê" por exemplo, e por causa do país. Nós viajamos da Turquia à Índia ao Peru simplesmen-
decidir mantê-los presos juntos para ver se eles cruzavam. Mas ela tam- te acompanhando o nome de um pássaro que, na verdade, não provém
bém dependia de uma capacidade de previsão, do empirismo e de uma de nenhum destes lugares.238 Uma forma de responder a esta fluidez é
espécie de nascente consciência ecológica - o tipo de pensamento que prestar mais atenção a uma espécie de texto escondido - o DNA mito-
Richard Grave descreveu em seu livro Green ImperialismP" condrial- escondido no interior de cada animal. Há quinze anos atrás,
Um missionário em Angola em 1678, por exemplo, registrou o uso do sequenciamento genético como uma fonte histórica pareceria
seus experimentos privados com cavalos e o clima local. Ele notou que ficção científica, mas hoje ele já foi colocado em prática. O artigo pio-
"cavalos trazidos do Brasil e terras estrangeiras (... ) [tendiam a] morrer, neiro de Sam White intitulado "Capitalist Pigs", de 2011, por exemplo,
ou se tornavam incapacitados, devido à mudança de clima, sobretudo no usou um sequenciamento recente do DNA suíno para provar que os
interior" e ele descreveu "testes" (experimenta) envolvendo tentativas de porcos que achamos que conhecemos são, na verdade, uma espécie de
adaptar cavalos não-nativos à paisagem 10cal.237O missionário concluiu, impostores, passando da China à Europa na época da Rota da Seda e
porém, que "cavalos nativos do clima local são mais fortes e com menor deslocando uma outra subespécie, agora extinta, que era então comum
tendência a ficarem doentes, como foi testado com três ou quatro [cava- na Europa.239 Da mesma forma, muitas doenças epidêmicas eram para-
Ias] nativos da terra". Aqui, e talvez também nos casos de marinheiros sitárias de animais domésticos que viviam em grande proximidade dos
"semeando" ilhas com porcos e cabras, o animal se transforma efetiva- humanos, abrindo a possibilidade de uma análise dos padrões históricos
mente num substituto do colonizador, uma cobaia destinada não apenas de doenças por meio de traços deixados no DNA animal.
Ainda que os estudos animais sejam frequentemente classifica-
235 O autor usa a palavra puffin, que indica papagaio-do-mar [N.T.]. .. dos como história ambiental, vale a pena refletir sobre o que distingue
236 Richard Grove, Green Imperialism: Colonial Expansion, Tropical Island Edens and the Orig»:
os animais de seu entorno. Animais também são indivíduos, eles pos-
nofEnvironmentalism, 1600-1800. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
237 Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Conselho Ultramarino, Angola, Caixa 11, d~~. suem uma espécie de subjetividade e de agência histórica, no sentido de
100, Março 26, 1678. Maria Portuondo argumenta que os experimenta ibéricos deste tipo re: 1~ que podem atuar de maneiras que são autodirigidas e independentes do
zados nos séculos XVI e XVII podem ser decididamente traduzidos de modo viável corno ex
r Controle humano. Escrever história animal é perfazer um delicado equi-
perirnentos", Maria Portuondo, Secret Science,op. cit., P: 95. Seguindo a definição de Peter Dea
que
de um experimento científico como "envolvendo uma questão específica acerca da natureza -:------
o resultado experimental é projetado para resolver", nós podemos, por exemplo, classificar est~ 238 A confusão mencionada pelo autor faz sentido em inglês, onde Turkey diz respeito tanto
relato de 1678 de um experimenta com cavalos dentro desta categona.
. O experWle1l,
. ta que'fica c ao país - Turquia _ quanto ao animal, o peru. Não deixa de ser curioso - e existem m,otIVos
tendo a traduzir como um "teste" ou "prova", de fato procurava responder uma ques:ão espe ote
Cl ~,stóricos para que isso tenha sido assim - que o nome de dois países diferentes em duas hnguas
e ,ferentes se refira ao mesmo animal [N.T.].
sobre a natureza tropical, qual seja, animais e humanos europeus sucumbem mais faci1rn the
a doenças tropicais? Ver Peter Dear, Discipline and Experiment - lhe Mathematical 1#Iy tT1 239 Sam White, "From Globalized Pig Breeds to Capitalist Pigs: A Study in Animal Cultures
and Evolutionary History", in En-uironmental History, vol. 16, n? 1,January 2011, pp. 94-120.
Scientijic Revolution. Chicago: The U niversity of Chicago Press, 1995.
As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 259
258 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750)
líbrio: embora seja necessário considerá-Ias como seres independente mação das crenças religiosas e epistemologias da natureza. Go-Betweens
e sentientes ao invés de dados inertes do ambiente, em termos prático: in the Colonization of Brazil, de Alida Metcalf, desenvolve as conexões
muitas vezes é impossível fazer isso. Animais deixam poucos traços de entre a mudança ambiental, a identidade cultural e o conhecimen-
arquivo, e, como Amy Kohout já apontou, mesmo esses poucos traços to natural no contexto do Brasi1.243 Mas nem tudo era transformação.
colocam desafios únicos. Os historiadores sabem exatamente o que fazer Recreating Africa, de James Sweet, se baseou em arquivos portugueses
com um baú cheio de cartas - mas nós temos menos segurança para pou~o consultados para defender que as religiões e práticas culturais
lidar com uma águia empalhada numa gaveta.240 Creatures of Empire da Africa Central e Ocidental foram recriadas integralmente nas co-
de Virginia DeJohn Anderson, por exemplo, demonstra brilhantement: munidades escravas do Brasil colonial.?" Levando o argumento mais
como animais domésticos se tornaram locais de contestação dos indí- além, ele sustentou que "recriar a África" nos novos espaços da escravi-
genas americanos aos regimes europeus de propriedade e civilidade.241 dão americana oferecia aos africanos um certo grau de resistência, um
Para Anderson, um algonquin matando a vaca de um inglês era mais do que estava centrado em torno ao poder espiritual- especialmente a di-
que a destruição de propriedade: era a afirmação de uma oposição a uma vinação e as práticas curandeiras, muitas vezes usando drogas nativas e
ordem social que reforçava limites rígidos entre a selvageria e a domesti- africanas - mais do que a violência física.
cidade, entre o espaço aberto e os terrenos fechados, entre um regime de A compreensão mais matizada dos papeis exercidos pelas prá-
propriedade e uma forma de vida que o desconhecia. Mas estes animais ticas ameríndias e africanas de produção do conhecimento que ajudaram
também não eram nada constantes, passando de instrumentos da do- a moldar a ciência global da primeira modernidade que esta abordagem
mesticação europeia a bandos selvagens, se transformando em foragidos enfatiza tem o potencial de desestabilizar alguns pressupostos acerca da
dos sistemas coloniais cuja trajetória histórica falhou em se conformar expansão imperial e do comércio seiscentistas. Pode se tornar difícil, por
às necessidades de qualquer grupo humano singular. exemplo, continuar a considerar as trocas de mercadorias como existin-
do numa esfera separada das práticas religiosas quando prestamos maior
atenção às concepções indígenas de mercadorias enquanto imbuídas de
propriedades "sobrenaturais", ou as práticas equivalentes em torno dos
Ciência, espiritualidade e natureza no mundo atlântico feitiços centro-africanos, para não mencionar nada das muitas crenças
"mágicas" a respeito de drogas medicinais como bezoares+" no contexto
cultural europeu). O potencial de uma história trans-irnperial das tro-
Em seu recente panorama sobre a história ambiental da cas de mercadorias que integre a compreensão espiritual e religiosa em
América colonial, Cameron Strang e Chris Parsons argumentaram que torno aos bens materiais é sugerida no recente livro de Kris Lanes, The
compreender o papel do ambiente no mundo atlântico significa reco- Colour of Paradise, que mostra como o comércio global de esmeraldas
nhecer que "praticamente todos os observadores viam a natureza corno - uma das gemas mais valorizadas na primeira modernidade - se desen-
plena de espiritualidade't.ê'" De fato, não pode haver uma história da volveu a partir de crenças dos Andes pré-colornbianos e da dominação
mudança ecológica no Atlântico sem que se preste atenção à transfor-
243 Alida C. Metcalf, Go-Betuieens and the Colonization ofBraziI1500-1600. Austin: U niver-
240 Amy Kohout, "From the Aviary: Haliaeetus leucocepbalus", in 1heAppendix 1:2, Apri12013, sity ofTexas Press, 2005.
pp.64-66. , 244 James Sweet, Recreating Africa: Culture, Knowledge and Religion in the African-Portuguese
241 Virginia DeJohn Anderson, Creatures ofEmpire: How Domestic AnimaIs Tmnsjõrmed Ear!)' World. Chapel Hill: University ofNorth Carolina Press, 2003.
America. Oxford: Oxford University Press, 2004. E _ 245 Bezoar é uma pedra formada no trato gastrointestinal que resulta de uma incapacidade
242 Chrisropher Parsons; Cameron Strang, "Old Roots, ew Shoots: Ear1y American °2 de digestão pelo organismo. No período medieval e na Idade Moderna, acreditava-se que os
vironmental History", in Early rlmerican Studies: An Interdisciplinary [ournal, volume 13, n? , bezoares eram capazes de desfazer a ação nociva de diferentes venenos, constituindo-se, assim,
Spring 2015, p. 281. em um procurado remédio [N.T.].

260 As Américas na Primeira Modernidadc (1492-1750) . As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 261
mughal da Índia que apreciavam as esmeraldas por causa de sua coneXão ojDrugs Unlock'd incluía um catálogo de drogas exóticas que provinham
ao divino.i'" Este trabalho, que transita com delicadeza entre a Nov de 36 regiões espe,cíficas fora da Europa, incluindo 46 drogas das Índias
, a
Granada e o Oceano Indico, também aponta para as maneiras que urna Orientais,23 das Indias Ocidentais e cinco da "Guiné", ou seja, da costa
demasiada dependência aos limites do paradigma atlântico podem nos da África ocidental.ê" As funções destas substâncias eram muitas vezes
cegar às circulações de conhecimento e objetos que rapidamente cruza_ tanto físicas quanto espirituais: curar uma alma possuída pelo demônio
vam estas fronteiras. era muitas vezes equivalente a aplicar uma erva em pó ou cataplasma no
O volume Searchingfor the Secrets of Nature: the Life and Works corpO do paciente. Além disso, a eficácia medicinal dessas drogas não
ofDr. Francisco Hernández (2000) explora a fascinação que a "caçada" por derivava das crenças a respeito de seus constituintes farmacêuticos ou
fenômenos sobrenaturais no Novo Mundo exerceu sobre filósofos e mé- químicos, mas sim de um entendimento holístico do funcionamento das
dicos na primeira modernidade. Um ensaio no volume, ao apresentar uma forças humanas e divinas. O papel das configurações astrológicas sobre
lista dos remédios passíveis de serem encontrados na Cidade do México a saúde humana explorado por Cafiizares- Esguerra em "New World,
em 1706, fornece uma impressão vívida da variedade de materiais que New Stars" se aplica igualmente aos produtos vegetais e animais que
estas investigações haviam tornado disponíveis já por aquela época: os pacientes da época consumiam para se curarem. Em outras palavras,
se considerava que os remédios naturais eram influenciados pelas mes-
o estoque de uma farmácia na Cidade do México continha mas forças misteriosas - as poderosas conjunções de planetas e estrelas,
(...) chifres de narval, (...) cochinilhas, lagostins, besouros,
"miasmas" de vapores nocivos, maldições demoníacas ou mesmo do pró-
cágados e sapos (...). Lagostins, víboras, serpentes, galhadas,
prio Satã - que se considerava ter causado a doença em primeiro lugar. 249
crânios humanos, patas de anta e sangue de mula (...) Farelos
de olhos de lagostim aliviavam dores causadas por pedras nos Estes "portentos" sobrenaturais nos circuitos comerciais atlân-
rins, feridas na bexiga, hemorroidas e dores renais. Intestinos ticos, explorados por Joyce Chaplin e, mais recentemente, por Benjamin
secos de sapo eram considerados como capazes de dissolver Schmidt, também apontam para a integração deste emergente comércio
pedras nos runs. Fígado seco de lobo, assim como seus intesti- de drogas medicinais com correntes espirituais mais amplas que inte-
nos, era bom para cólica. Asas pulverizadas de andorinha com gravam teorias da natureza de origem ameríndia, africana e europeia.ê'"
sangue combinadas com sal e certas farinhas ajudavam a curar
A crença de que os sábios europeus deviam conhecer toda a variedade da
infecções renais.ê"
criação divina para entender a ordem estabelecida por Deus - notoria-
mente descrita por Francis Bacon em sua Nova Atlântida - era central
Ecoando o elogio feito por Alexis de Piedmont às "fezes de
bestas e pássaros", outras drogas à venda incluíam "urina e excrementoS
de animais como ganso, jumento, porcos selvagens, bois, vacas, cabras, 248 john Jacob Berlu, me Treasurv ofDrugs Unlocé'd 01'a Full and True Description of ali sorts or
cegonhas, serpentes, cavalos, galinhas, pessoas, ovelhas, pardais, galos, Drug.r and Chemical Preparations, sold by Drugists, Whebe1yyoy may know theplaee of their growth,
cachorros, águias, filhotes de pombo e raposa". Em 1690, John Jacob andfrom whence they come, ete. London:John Harris and Tho. Hawkins, 1690. Vasos de remédios
preservados no Museu da História da Ciência, em Oxford, atestam para o amplo uso de farinha
Berlu, um negociante de fármacos sediado em Londres, mostrou que a de pulmão de raposa, bezoares e "cranium humanum" (bem literalmente, a "caveira de um huma-
")
situação era essencialmente a mesma no contexto britânico: seu Treasury no de forma muito parecida com os dos boticários da Nova Espanha. Ver também Pierre Po-
~et, Histoire generale des drogues, traitant desplants, des animaux et des minéraux, ete. (Paris, 1694).
49 Jorge Canizares- Esguerra, "New World, New Stars: Patriotic Astrology and the Invention
rIa-
246 Kris Lane, me Colour of Paradise: me Emerald in the Age ofGunpowder Empires. New ~Indian and Creole Bodies in Colonial Spanish America, 1600-1650", in rl merican Historical
ven: Yale University Press, 2010. . dez", 2 eV1ew, 104:1 (1999).
247 JonJayTepaske, "Regulation ofMedical Practioners in the Age ofFrancisco Hernan}/er_ ~O Benjamin Schmidt, Inventing Exorcism: Geography, Globalism, and Europe's Early Modern
in Simon Varey (ed.), Searcbingfor the Secrets of Nature: the Life and Works of Dr. FranClSCOj 'OS c orld. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2015; Joyce Chaplin, Subject Matter: Te-
. . .. . F'l' Pa ael ' ~1l010gy,the Body, and Science on tbe Anglo-American Frontier, 1500-1676. Cambridge, Mass.:
nandez: Stanford: Stanford University Press, 2000, p. 61, citando remédios de e IX
Palestra Farmaceutica chimica-ga!énica (Madri, 1706, 1723, 1730 etc.). arvard University Press, 200l.

262 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 263
à empresa colonial europeia.i" Porém obter acesso aos novos fenôrne~ próximo com climatologistas e ecologistas cujas pesquisas tendem a ser
nos naturais que a expansão atlântica tornava disponível era um negó~ delimitadas pela ausência de dados confiáveis para o período antes de
cio difícil que dependia de uma longa cadeia de informantes indígenas, 1800. Colaborações entre historiadores, geógrafos, etnobotânicos, eco-
mestiços e criollos, assim como de uma complexa rede de transportado~ logistas históricos e cientistas do clima oferecem a possibilidade de uma
res, mercadores, marinheiros e outros intermediários. Como a cornpli~ compreensão holística e interdisciplinar da transição entre tecnologias
cada história editoral dos esforços do próprio Hernández para decifrar pré-industriais e industriais. Pesquisas futuras conseguirão, desse modo,
o mundo natural da Nova Espanha deixou claro, as vastas distâncias, iluminar as origens humanas do antropoceno, a nova era geológica na
as incongruências culturais e as divisões políticas do mundo atlântico qual a mudança climática induzida pelos humanos e a perda de espécies
seguidamente mais atrapalhavam a venatio dos segredos da natureza do se tornaram os fatores ambientais dominantes numa escala planetária.
que contribuíam para ela. Um artigo recente e que teve muita repercussão afirma que as
origens do antropoceno se encontram por volta de 1650, o que demons-
tra o papel que os historiadores podem ter no desenvolvimento dos de-
bates e descobertas futuras a respeito da trajetória histórica do papel
Direções futuras para a história ambienta! do ambiental da humanidade.ê" Ainda que o artigo, intitulado "Defining
mundo atlântico the Anthropocene", tenha lidado com fontes secundárias relacionadas
à crise do século XVII e a história ambiental da era colonial , nenhum
historiador esteve diretamente envolvido em sua criação, e, por conse-
Em artigo recente publicado na Early American Studies, Joyce guinte, o artigo sofre de uma falta de contextualização histórica e de
Chaplin chamou atenção para o significado da Revolução Industrial e uma compreensão demasiadamente determinista de como a expansão
o conceito de "pré-industrial" em nossa reflexão acerca da história am- colonial influenciou a mudança ambiental.
biental do Atlântico.252 Como ela aponta no artigo, a ascensão dos regi- Outra abordagem que vem ganhando espaço no que toca à
mes industrial de trabalho e uso da terra e as correspondentes mudanças história ambiental do Atlântico busca compreender por que certos pro-
tecnológicas na passagem do século XVIII ao XIX tiveram maior rele- dutos falharam em se movimentar através de culturas e oceanos.ê" Um
vância em termos históricos do que as revoluções políticas no mesmo clássico exemplo destes fracassos é a planta de coca: ainda que missio-
período. Enquanto historiadores do mundo atlântico têm costumad~ nários nos Andes reportassem as propriedades miraculosas deste esti-
delimitar seu período com referência a eventos políticos como as revol.u mulante natural já no século XVI, as folhas de coca não se globaliza-
ções Francesa, Americana ou Haitiana, Chaplin argumenta que as ~lS- ramo Num olhar rápido, isso é surpreendente, afinal outros estimulantes,
tórias futuras devem abordar mais. as mu dancas tecnolé oglCas e amblen-
anças tecno ~ c~mo o chá, o café e o chocolate, ganharam enorme popularidade no
tais associadas com a Indusmalização.i" Estudar os padrões de muda~ça ~eculo XVII e emergiram, no século seguinte, como algumas das mais
. 1 na er a pré- ln-
mercadorias e cultivos no comércio global. Dados os ób-
do uso da terra, trabalho, clima e a relação homem-amma . ,._ l~portantes
- " isas hlStofl VlOSbenefícios de introduzir uma nova planta estimulante aos mercados
dustrial não apenas abre novas questoes e tOplCOSpara pesqu .
.' . di '10 o malS
cas futuras mas também leva os historiadores a realizar um ia g globais, por que os espanhóis falharam em explorar a coca andina da
--------
" in ~~4 Simon L. Lewis; Mark A. Maslin, "Defining the Anthropocene", in Nature, 519, Mar~
. F Síd f the Ocean, w.' 2015, pp. 171-180. Para uma replica, ver Clive Hamilton, "Getting the Anthropocene 50
251 Ver a discussão em James Delbourgo e Nicolas Dew, The ar 1 e o d 2008.
. . . h A I . TU ·Id N York: Routle ge,
Delbourgo e Dew (eds.), Science and Empire til t. e t antu: vv07 . ew..
.
02 (Spflng
IOng'"
255 ,1n 7be A ntbropocene Review, vol. 2, n? 2, Augu5t 2015, pp. 102-107.
252 Joyce Chaplin, "The Other Revolution", in Early American Studies, vol. 13, n I Londa Schiebinger, "Agnotology and Exotic Abortifacients: The Cultural Production of
p~norance in the Eighteenth-Century Atlantic World", in Proceedings of the rlmerican Philoso-
2015), pp. 284-308.
leal Soeiety, voi. 149, n? 3, September 2005, pp. 316-343.
253 Idem, p. 286.
264 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 265
mesma maneira? Responder a esta questão necessita do tipo de e:Xper~ trabalhos sobre o "mundo ibérico atlântico" tenham aparecido em
tise transdisciplinar discutida acima: a planta de coca é notoriamente tOS
nOS recentes, a ên fase ate agora tem Si.d o so b re a A"menca h'lspamca.
ase até A'

difícil de ser cultivada fora de seu espaço nativo de grande altitude, e Os ~rn modelo para pensar nestes intercâmbios ecológicos numa forma
estudos farmacológicos modernos têm demonstrado que o alcaloide da transcultural é dada em lhe Monkey and the Inkpot, de Carla Nappi, que
cocaína (que é responsável pelas propriedades estimulantes da planta estuda um manual boticário chinês e as mudanças no conhecimento e
não-processada) se quebra rapidamente, tornando o transporte de lon~ materiais que acompanharam traduções entre diferentes idiomas, fos-
ga distância inviável. Apenas com a invenção da química moderna no sem eles o português, o tupi, o mandarim ou o manchu.ê'" Assim como
começo e em meados do século XIX é que surgiu uma rota alternativa o contexto atlântico, esta maior abertura da esfera chinesa de influência
n ) .
para a transmissão da coca.256 Ao invés de tentar transportar as folhas ossibilitou novas maneiras de pensar a respeito (e pensar com espéci-
ou tentar crescer esta difícil planta em novos climas, se tornou possível ~es botânicos ou animais pouco usuais que a expansão imperial tinha
isolar e transportar o princípio ativo dentro das folhas: a cocaína. encontrado. Uma pergunta que não foi respondida, contudo, no trabalho
Porém entender o fracasso de transferências ecológicas no de Nappi é até que ponto o entendimento chinês da função das drogas e
mundo atlântico envolve mais do que um conhecimento de farmacolo- remédios "exóticos" foram comunicadas através das fronteiras culturais e
gia ou botânica. É necessário considerar os fatores contextuais que de- linguísticas das tradições médicas do Sul da Ásia e da Europa. Que esta
terminavam como os indivíduos na primeira modernidade consumiam, é uma fronteira de investigação que vale a pena ser explorada é dado nos
cultivavam e pensavam a respeito de produtos natural pouco familiares.
Por exemplo, os temores de que os escravos envenenassem seus senho-
primeiros capítulos de Golden-Silk Smoke: A History ofTobacco in
de Carol Benedict, onde se sugere que uma ampla gama de conexoes
+:
res tinham um papel altamente significativo na recepção europeia de _ particularmente o pouco explorado caminho do comércio de plantas
cultivos medicinais africanos. James Sweet identificou a dificuldade de entre a China quinhentista com o México via Manila - ainda aguardam
se saber se estes remédios não podiam também ser venenos como "uma
maiores estudos.i'"
tensão central no entendimento brasileiro das práticas africanas".257 Outras pesquisas importantes têm vindo de historiadores da me-
Além disso, Sweet aponta que muitos produtos se moviam não apenas dicina no Império português, tais como Timothy Walker e J únia Ferreira
entre as categorias conceituais de remédio ou veneno mas também na- Furtado.ê'" Ao esclarecer o papel do que se pode chamar de "informantes
vegavam o que o autor chama de uma "confusa fronteira entre 'ciência'
indígenas" e "curandeiros nativos" na compreensão científica da nature-
e o 'sobrenatural"'. O trabalho de Londa Schiebinger sobre o oculta-
za tropical na primeira modernidade, estes trabalhos buscam ir além da
mento intencional do conhecimento indígena sobre plantar abortivas
distinção "metrópole/periferia" de muitos dos estudos anteriores sobre a
nas Índias Ocidentais forneceu um influente modelo para compreender
ciência e a medicina coloniais prestando uma atenção mais detida nos
estas falhas na transmissão ecológica.258 Mas são necessários mais traba-
modos que o conhecimento natural surgiu de conexões transimperiais
lhos para entender como as teorias da espiritualidade e do sobrenatural
entre diferentes zonas de contato "periféricas". Exemplos representativos
- como a crença ao mesmo tempo generalizada mas amplamente dive:-
incluem o médico João Curvo de Semedo, que popularizou uma tintura
sificada na possessão espiritual no mundo atlântico - moldou a recepçao
feita de cinchona amazônica (a.Água da Inglaterra) que se tornou popular
e a transmissão de produtos naturais.
na Grã-Bretanha e no Brasil, ou o pirata e naturalista amador William
Outro rico campo para pesquisa futura envolve as conexõ~s
ambientais entre os mundos do Atlântico e do Pacífico. Ainda que rnur 259 Carla Nappi, Tbe Monkey and the Inkpot: Natural History and its Transformation in Early
lvIodern China. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2009. .
256 Paul Gootenburg,Andean 1: Th e Univer-
Cocaine: the Making of a Global Drug. C hape I Hill 260 Carol Benedict, Gotden-Silk Smoke: A History ofTobacco in China, 1550-2010. Berkeley.
siry of Norrh Carolina Press, 2009. Dniversity of California Press, 2011. . .' ./
257 Sweer, Domingos Alva1'es, op. cir., 2011. 261 Ver Sidney Chalhoub et al (eds.),A1'tes e ofícios de curar no Brasil: capaulos de histâria socta .
258 Schiebinger, "Agnotology and Exotic Abortificients", op. cit., 2005. Campinas: Editora da Unicarnp, 2003.

266 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 267
Dampier, cujos diários de suas circum-navegações estão repletos de re- Roteiro bibliográfico
ferencias portuguesas a mestiços e criollos que lhe ofereciam amostras de
plantas e informação que ele, então, levava através do globo.262
Como Parsons e Strang notam, a história ambiem-] do Panoramas e novas perspectivas sobre o intercâmbio colombiano
Atlântico é uma história de perpétua mudança.ê'" Compreender a his- Enquanto o livro EcologicalImperialism: lhe Biological Expansion
tória ambiental do espaço atlântico significa reconstruir mundos per- ofEurope, 900-1900 (Cambridge University Press, 1986) continua sen-
didos, naturais ou humanos, dos quais hoje existem apenas os obscuros do central e frequentemente citado, ele foi corrigido em anos recentes
contornos. É quanto a este aspecto - o enorme grau de mudança ao por novas interpretações e novos dados. Para um levantamento de fácil
longo do tempo, a quase total obliteração da fiora, da fauna e das socie- acesso e destinado a um público amplo dos desenvolvimentos recen-
dades humanas - que as histórias ambientais da bacia atlântica mais di- tes da arqueologia pré-colombiana, ver Charles C. Mann, 1491: Neto
ferem daquelas de outros tempos e lugares. Enquanto Fernand Braudel Revelations of the Americas Before Columbus (New York: Knopf, 2005).
podia abrir sua famosa história do Mediterrâneo com um elogio das Os trabalhos da geógrafa Judith Carney também acentuam o papel
montanhas Atlas, no Marrocos, meditando sobre alongue durée do re- da África nestas trocas ecológicas, uma faceta do mundo atlântico que
lacionamento da humanidade com a natureza mediterrânica, como os Crosby amplamente deixou de lado. Ver Judith Carney, Black Rice: lhe
movimentos dos pastores ou a enchente dos rios, a história ambiental African Origins of Rice Cultivation in the Americas (Harvard University
do Atlântico sustenta pouco panoramas estáticos no que toca à geogra- Press, 2001) e, com Richard Nicholas Rosomoff,In the Shadow ofSlavery:
fia ou à história.ê'" É uma história de contínuo improviso, adaptação e
Africa's Botanical Legacy in the Atlantic World (Berkeley: University of
mudança, caracterizada mais pela destruição do que pela persistência
California Press, 2010).
de padrões de longa duração, como no caso da Mata Atlântica, hoje
Entretanto, o trabalho de Carney também teve seus detratores:
virtualmente extinta quando comparada a seu alcance original. Também
vários' historiadores de projeção questionaram o uso feito por Carney
é uma história desequilibrada, lidando tanto com momentos aparen-
das evidências históricas a respeito da transferência do assim cha:nado
temente triviais como o peru do imperador Jahangir e com alguns dos
"arroz vermelho" (uma subespécie distinta daquele cultivo) da Africa
mais trágicos episódios da história comum da humanidade. Ambos, as
ocidental para as Carolinas, nos Estados Unidos, que constitui um dos
peregrinações do cultivo do tomate e as mortes de milhões, caem sob
aspectos centrais de seu argumento. Ver David Eltis, Philip Morgan, e
o manto da história ambiental. O desafio colocado ao campo e àqueles
David Richardson, "Black, Brown, or White? Color-Coding American
que trabalham nele é dançar entre os diferentes assuntos que o compõe
Commercial Rice Cultivation with Slave Labor" ,in 'Ibe.rlmerican Historical
sem perder o equilíbrio.
Review, vol. 115, n? 1 (February 2010), pp. 164-171. Outros trabalhos re-
centes de vulto incluem Alida Metcalf, Go-Betweens and the Colonization
oJ Brazil, 1500-1600. Austin: University ofTexas Press, 2005; Daniela
Bleichmar, "Books, Bodies, and Fields: Sixteenth-Century Transatlantic
Encounters with New World Materia Medica", in Londa Schiebinger &
Claudia Swan (eds.), Colonial Botany: Science, Commercv, and Politics in the
Early Modern World. Philadelphia: University ofPennsylvania Press, 2005;
.
262 Benjamin Breen, "Tropical Transplantations; Drugs, Nature, and the G 10 b ar'
iza tion
. in rhc
2015,
nn
e Geoffrey Parker, Global Crisis: Uár, Climate Change, and Catastrophe tn
Portuguese and British Empires, 1640-1755". Austin: The University ofTexas at Aus ,
PhD dissertation. the Seventeenth Century (New Haven, 2013).
263 Parsons; Strang, "Old Roots, New Shoots", op. cit., 2015. .. (1949).
264 Fernand Braudel, La Mediterranee et le monde Mediterranéen à l'Epoque de Phzltppe 11

268 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 269
Coleções e curiosidades nas trocas ecológicas Trocas médico-botânicas e o desfazer dasfronteiras imperiais
A história das maravilhas, milagres e coleções de espécimes na-
Ainda que os historiadores tenham há muito tempo reco-
turais (motivada, talvez, pelo influente trabalho de Lorraine Daston &
nhecido a importância dos impérios ibéricos como locais de circula-
Katherine Park, Wonders and the Order of Nature [Zone Books, 2001)])
ção de novos remédios e drogas, um florescimento de trabalhos sobre
tem interagido recentemente de forma bastante estimulante com a his-
o assunto nas últimas duas décadas abriu novas perspectivas de pes-
tória ambiental. Ver, por exemplo, David Philip Miller & Peter Hanns
quisa. Pesquisadores brasileiros como Marcia Moisés Ribeiro, A ciência
Reill (eds.), Visions of Empire: Voyages, Botany, and Representations
dos trópicos: a arte médica no Brasil do século XVIII (São Paulo: Hucitec,
of Nature (Cambridge: Cambridge University Pre~s, ~011); Londa
1997); Sidney Chalhoub et al, Artes e ofícios de curar no brasil (Campinas:
Schiebinger, Plants and Empire: Colonial Bioprospectzng in the Atlantic
UNICAMP, 2003); e Vera Regina Beltrão Marques, Natureza em boi-
World (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004); Londa
ões: medicinas e boticários no Brasil setecentista (FAPESP, Editora da
Schiebinger & Claudia Swan (eds.), Colonial Botany: Science, Commercy,
U ICAMP/Centro de Memória, UNICAMP, 1999) exploraram como
and Politics in the Early Modern World (Philadelphia: University of
o Brasil e o mundo lusitano em geral se tornou um foco de intercâmbios
Pennsylvania Press, 2005); e Paula de Vos, "The Sci~nce of ~P~,c~s:
transculturais e transimperiais. O trabalho de Rafael Chambouleyron
Empiricism and Economic Botany in the Early Spanish Emplre , 10
acerca da província do Maranhão, como sua dissertação Portuguese
Journal ofWorld History, 17:4 (Dec., 2006).
Colonization of the Amazon Region, 1640-1706) (PhD Dissertation,
Faculty of History, University of Cambridge, UK, 2005), revela o quão
Materialidade e cultura visual no mundo atlântico
O estudo das culturas visual e material constitui uma tendên- porosas e, muitas vezes, inexistentes eram as fronteiras entre as eco-
cia relacionada de trabalho acerca das trocas ambientais atlânticas. O nomias e culturas médicas imperais. Da mesma forma, Júnia Ferreira
abrangente panorama de Arnold J. Bauer, Goods, Power, History: Latin Furtado, "Barbeiros, cirurgiões e médicos na Minas colonial", in Revista
America's Material Culture (Cambridge, 2001) armou a cena para os es- do Arquivo Público Mineiro (2005) sublinha o fracasso das fronteiras
tudos que consideram questões como as diferentes representações visuais disciplinares que separavam médicos licenciados de outros praticantes
de espécies naturais, o papel da espiritualidade e da arte religiosa nas t~o- da medicina nas colônias modernas, como faz J ames Sweet, Domingos
cas de conhecimento e a relação entre as culturas impressa e manuscn.ta. Alvares, African Healing, and the Intellectual History of the Atlantic World
Trabalhos recentes notáveis incluem Daniela Bleichmar, Visible Empt-:e: (University ofNorth Carolina Press, 2011).
.
Botanical Expeditions and Visual Culture tn . the H'tspamc. rvor
ri r. ld . UnivefSlty) Assumindo uma visão mais ampla, Richard Grove, Green
of Chicago Press 2012 e Daniela Bleichmar& Peter Mancall (eds ..' Imperialism: Colonial Expansion, Tropical Island Edens and the Origins
" . Z. Moriern AtlanttC._
Collecting Across Cultures: Material Exchanges tn the Early oJ Environmentalism, 1600-1800 (Cambridge: Cambridge University
World (University of Pennsylvania Press, 2012). Par,a uma persp~cdU Press, 1995); Richard Drayton, Nature's Government: Science, British
va inovadora sobre a circulação da cultura VISU. al na Afinca. do peno h'n o, ImperialismandtheImprovementofthe World(New Haven: Yale University
ver Cecile Fromont Nature, Culture, and Faith in Translation: Capulc7;O ~ress, 2000); John Robert McNeill, Mosquito Empires: Ecology and War
Images and Cross-Cultural Knowledge of Kongo an dA ngo l,a, 1650- cti~
' in the Greater Caribbean, 1620-1914 (Cambridge: Cambridge U niversity
(University of North Carolina Press, 2014). Tomando uma pers~\m: Press, 2010) e outros historiadores do imperialismo britânico e do am-
va mais europela,. o livro
. de B"enJamm S c h mi. dt ,nve
I nting .Exottct
. of biente têm destacado o papel exercido pelas amostrar botânicas em atra-
Geography, Globalism, and Europe's Early Mo~ern World (l!mv~:s~7su1~ vessar as fronteiras imperiais no mundo atlântico e além. Ver também o
Pennsylvania Press 2015) destaca a confusão VISUale matenal q. "de ensaio de David Hancock, "The Triumphs ofMercury: Connection and
' , d "ótlCO
tou da circulação global de formas diferentes de pro utos ex S ,
Control in the Emerging Atlantic Economy", in Soundings in Atlantic
drogas e remédios à iconografia religiosa e mapas. lJistory, op. cit., que coloca a ênfase na "descentralização, nas redes e na
270 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 271
auto-organização" como os elementos definidores do mundo comercial Extratos de documentos
do Atlântico na primeira modernidade.

Conhecimento natural e sobrenatural Padre Giovanni Antonio Caoaxzi sobre os 'Venenos da Africa
A substancial bibliografia dedicada à ciência, medicina e o centro-ocidental, década de 1660 ..265
"conhecimento natural" do mundo atlântico possui a tendência de ne- Este relatório feito por um monge capuchinho sobre Angola e Congo
gligenciar os trabalhos sobre o conhecimento sobrenatural. Mas, Como foi traduzido para ofrancês e reimpresso muitas vezes no compêndio em sete
Jorge Cafiizares- Esguerra apontou em seu influente artigo, "N ew World volumes dos relatos de missionários africanos conhecidos como Relation his-
New Stars: Patriotic Astrology and the Invention ofIndian and Creol: torique de l'Ethiopie occidentale. O estilo narrativo de Cavazzi oscila
Bodies in Colonial Spanish America, 1600-1650", inAmerican Historical entre relatos detalhados das práticas médicas e espirituais africanas e seve-
Review, 104 (February 1999), os colonos nas Américas e na África eram ras condenações de sua suposta origem demoníaca. Aqui, Cavazzi lamenta o
guiados tanto por temores de contágio miasmático, possessão demonía- destino de seus companheiros europeus que, aoprocurar a ajuda de curandeiros
ca e influências astrológicas malignas quanto pela curiosidade científica congoleses, "procuravam conservar suas vidas perdendo suas almas". O relato
ou necessidade médica. O brilhante ensaio de Pauline Watts, "Prophecy de Cavazzi destasformas de cura demonstra apreocupação característica com
and Discovery: On the Spiritual Origins of Christopher Columbus modo pelo qual o ambiente, numa escala macro, e a configuração interna dos
'Enterprise of the Indies"', in American Historical Review 90 (1985), ânimos - os chamados "humores" da alma - interagem. Em seu informe sobre
permanence uma das fundações a este respeito; trabalhos mais recentes a picada do "pequeno animal chamado Ban-zo", por exemplo, Cavazzi des-
sobre o papel do sobrenatural nas trocas ambientes do mundo atlântico creve a interrelação entre ameaças ambientais externas (um inseto nocivo), o
incluem a dissertação de Pablo Gomez, "Bodies of Encounter: Health, estado mental das vítimas, que são "atiradas num intenso frenesi" e as práti-
Illness and Death in the Early Modern African-Spanish Caribbean", cas espirituais dos curandeiros.
(PhD dissertation, Vanderbilt University, 2010), e James Sweet, "Estes povos estão sujeitos a muitos males que são particulares
Domingos Alvares, op. cit. Enquanto isso, até os mais ardentemente em- a este clima e, sobretudo, à dolorosa retração dos nervos, que eles cha-
piristas dos cientistas iluministas encontravam obstáculos impostos mam Chiongo. Esta começa com uma violenta dor na cabeça, acompa-
pelo ambiente e pela epistemologia: Neil Safer, em Measuring the Neu nhada por vertigem, convulsões, tremor nos membros e outros sintomas,
World: Enlightenment Science and SouthAmerica (Chicago: University of os quais todos num curto período de tempo reduzem o paciente a pele
Chicago Press, 2008), demonstra adequadamente a interrelação entre e ossos. Acredita-se que este mal é o resultado da pouca constância de
os objetivos da filosofia natural européia e as exigências imprevisíveis de seus costumes. As folhas de uma planta chamada Luqui, não muito di-
tempo, lugar e tradução intercultural do conhecimento natural. ferentes do nosso hissopo, servem de cura. Eles fervem estas folhas e as
reduzem a pó, com o qual eles fazem uma infusão e a bebem. O óleo
que eles tiram das mesmas folhas é utilizado para untar as têmporas do
doente, junto com os piolhos, artérias, pústulas e úlceras de seus corpos;
este é um poderoso remédio. Os europeus e outros que não nasceram
nestas terras, para preservarem a si mesmos destas doenças, que ele pe-
gam bastante facilmente, tomam esta farinha junto com a comida e a

-------
2,65 Giovanni Antonio Cavazzi (traduzido por Jean-Baptiste Labat), Relation historique de
I Etbiopie occidentale.Paris, 1732, I, pp. 79-82.

272 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 273
bebida. Estes povos também estão sujeitos a um horrível inflamação da fonte primária 2:
boca, que se espalha para o pescoço, se tornando maior que a cab
e acompanhado de grandes dores e muito risco de sufocamento ~lça, Duarte Madeira Arrais sobre a transmissão transatlântica da
. c es
chamam isso de garamma. sífilis, 1683 ..266
/ Encontra-se neste país um pequeno animal chamado Ban-zo Por volta do século XVIL médicos e outros comentadores começaram
E de coloração cinza, grande como as moscas que atormentam os ca . a especular a respeito do impacto do comércio transoceânico sobre as doenças
Va-
los. Seu estômago é inteiramente contornado por seus pés. Sua mordida epidêmicas. Duarte Madeira Arrais, um médico baseado em Lisboa, com seu
ou picada é fatal, se o atingido não é sangrado adequadamente. Isso Methodo de conhecer e curar o morbo gallico, foi uma das primeiras
causa dor excessiva e uma febre que tira toda a razão da vítima e a lan a autoridades médicas a argumentar que a sifilis se originou no Novo Mundo.
num intenso frenesi. Diz-se que aqueles que sobreviveram a ela pode~ Seu relato mostra como a transferência por longa distância da flora, fauna e
ficar doentes uma segunda vez sem terem sido picados, como uma lem- germes estava começando a impactar o conhecimento da ciência, da medicina
brança da doença que eles passaram: eles então entram num segundo e da natureza na metrópole.
frenesi que é tão horrível que eles mesmos se matam. "(...) o morbo gálico foi novamente aparecido (...) no ano de
Os padres de seus ídolos fingem ter o segredo de curar este 1493 em Nápoles naqueles dois grandes exércitos dos Reis Católicos
mal com seus encantos e pelo remédio que eu descreverei. Não há dú- de Espanha, & Carlos VIII de França, & deles se comunicou o mal ao
vida que estas pessoas entram num pacto com o diabo. Eles procuram mundo todo, levando-o cada um consigo para à sua pátria.
um dos animais [o Ban-zo] e o matam; eles então colocam o corpo do É também coisa certa entre os mesmos autores, & outros his-
animal numa cova que cavaram na terra, com fumigações, cerimônias e tóricos, que daquela ocasião chegara o famoso Cristóvão Colombo do
invocações que são familiares a eles. Eles jogam uma grande quantidade descobrimento das Índias ocidentais, & que indo a Nápoles dar conta
de terra na cova; diluem e diluem de novo a terra desta cova e, quando a de sua viagem, aos Reis Católicos, em testemunho das terras que des-
água está mais ou menos clara, eles a dão de beber para a pessoa doente; cobrira, levaram consigo muitos Índios, & Índias, & como todos iam
ainda que escura e espessa, de péssimo gosto e odor, o doente não deixa infectos do morbo gálico, assim eles, como os mais soldados, & gente
sobrar nem um pingo. Eles induzem o doente a vomitar, rejeitando o da armada, pela comunicação, que das Índias tinha precedido, & como
veneno, ao menos em parte; frequentemente isso mata vários doentes, também os soldados tivessem conversação com as Índias de novo chega-
e aqueles que não são mortos ficam paralisados, ficando aleijados das das, & outros de Colombo com as mulheres públicas da terra, foi cousa
pernas e dos pés e seus nervos se tornam para sempre sensíveis a este facílima comunicar-se o contágio a grão parte do exército Espanhol, &
permclOso veneno. logo também ao Francês por terem já feito entre si pazes.
Esta doença é tão forte que os europeus não são capazes de Conta além disto evidentemente que era este mal tão antigo
suportá-Ia sozinhos, eles têm tentado, infelizmente, conservar suas vidas nas Índias ocidentais, que não havia já memória de seu princípio. E
perdendo suas almas e tomando este remédio, após terem concordado Como a causa de se comunicar, & disseminar por toda Europa, & depois
com os Sacerdotes do demônio a recompensa que estes irão receber, e por África, & Ásia foi evidente; não há para que recorrer a influxos
são curados com este remédio detestável, apesar da proibição express,~ celestes, nem a vapores corruptos das inundações, nem ao impuro ajun-
da Igreja e dos perigos e efeitos adversos que acabaram de ser relatados, tamento dos dois leprosos, nem ao imódico uso venéreo, nem a semente,

---------
266 Duarte Madeira Arraiz, Methodo de conhecer e curar o morbo gallico; primeira [el segunda
parte: propoemse definitivamente a essencia, species, causas ... et cura do 1I20rbogalfico. Lisboa, 1683,
Pp.72-73 [como se trata de texto cujo original é em língua portuguesa, consultei a edição citada,
apenas atualizando a ortografia (N .T.)]

274 As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750) 275
ou menstruo corruptos, nem à impureza dos alimentos, nem a cOmer Capítulo 6
carne humana, nem finalmente a outras causas particulares, que os au-
tores antes de lhes constar desta verdade dando tratos ao entendimento Saberes e livros no mundo atlântico: o
quiseram esquadrinhar". intercâmbio cultural na Carrera de lndias

Carlos Alberto González Sánchez


Pedro Rueda Ramírez

1. Norte da Contratação

Esta história começa em Sevilha, uma cidade que durante a


Modernidade esteve condicionada por um fenômeno que afetou quase
todas as facetas de seu devir cotidiano: a Carrera de Indias. Concedido
pela Coroa em 1503, o monopólio da navegação e tráfico com o Novo
Mundo foi uma circunstância excepcional que lhe imprimiu uma marca
duradoura e visível, resultado, em parte, de sua estratégica posição geo-
gráfica e de uma dilatada experiência e tradição no comércio em longa
distância. Se levarmos em consideração apenas o tema que é objeto de
nosso interesse, destaca-se a primazia de seu porto entre os peninsulares
no negócio de códices internacionais desde a baixa Idade Média267• A
transformação da cidade em todas as ordens foi radical, chegando ela
a ser uma das maiores urbes do Ocidente. Foi resultado dos efeitos da
"contratação", das linhagens de uma antiga aristocracia e de uma he-
terogênea burguesia de origem forânea (castelhana, cantábrica, basca,
francesa, portuguesa, flamenga, italiana); também, do fato de Sevilha ser
o eixo de confluência de uma complexa humanidade flutuante (delin-
quentes, pobres, pícaros e aventureiros de toda laia) em busca de fortuna
em ambos os lados do Oceano.
A arrancada aludida teve como ponto de partida o estabeleci-
mento da Casa de Contratação (1503), instituição a quem foi destinada

-------
;67 Gil, juan: "La ensefíanza dellatín en Sevilla en Ia época del Descubrimiento". Excerpta
l.:tlol~gica. I, 1 (1991), pp. 259-280. Pardo Rodríguez, M. L., Rodríguez Díaz, E.E.: "Producción
l rafla en Sevilla: artesanos y manuscritos", em E. Condello e G. di Gregorio (ed.), Scrioi e coiofoni.
a Softoscrizioni di copisti dalle origini aIl'avvento de/Ia stampa, CISAM, Spoleto, 1995, pp. 187-222.

276 As Amértcas na Primeira Modernidade (1492-1750) As Américas na Primeira Modernidade (1492-17.50) 277