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CASAR PARA SEPARAR

SUELLEN PIMENTEL ASSUNÇÃO1

SUMÁRIO: I – Resumo; II – Introdução; III Amor e Casamento; IV – Os valores do


Casamento Dentro da Ordem Sócio-Jurídico-Psiquica; V – Conclusão; VI – Referência
Bibliográfica.

I-RESUMO
Este artigo tem como objetivo demonstrar o conceito, a importância e
evolução do casamento dentro da Sociedade. Para tanto, insta analisar o casamento
sob a tríade sócio-jurÍdico-psiquica, a afim de que se possa desenvolver entendimento
no sentido de atribuir valores a esses instituto matrimonial totalmente diversos daquele
que o alicerçou durante tantos anos, chegou-se até a realidade ora vivificada (os
tempos do século XXI), onde o casamento, entendido como vida conjugal, distanciou-se
gradativamente de conceitos dantes estipulados.
Palavra-chave: evolução, importância, casamento, sócio-jurídico-psiquica e cônjuges.

II-INTRODUÇÃO
“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só, far-lhe-ei uma
adjutora que esteja como diante dele” (Bíblia Sagrada – Gen. 2.18). A natureza gregária
do homem advém da “Criação do Mundo”. Foi, fundamentalmente, essa idéia, de que o
homem sentia a necessidade de viver em conjunto com outras pessoas, que originou o
casamento como instituto.
No que diz respeito à convivência entre o homem e mulher, sabe-se que
ganhou diversas conotações, conforme o período histórico, justificando-se desde a
concepção reprodutiva até a afetiva.
Nesse contexto, a união associada ao caráter contencioso da libertinagem e
ao da perpetuação da espécie surge com a Igreja. Enquanto que a união associada a
amor, sexo, e casamento é uma inversão da era burguesa. O amor/paixão atrelado à
sexualidade intensificou a idéia de casamento, enquanto instituto jurídico, que ganhou

1
Graduanda em Direito pela Universidade Federal do Pará.
importância com a modernidade, o que enunciou uma nova trajetória até que o “afeto”
se transforme em uma força “irresistível” impulsionando o novo ideal de conjugalidade
disciplinado pelo mundo jurídico e tão sonhado pelo ser humano.
Desde então, a instituição casamento, moldada pelas determinações
econômicas, sociais, culturais, de classe e gênero tem assumido diversas formas.
Atualmente, os movimentos de mudança levam os casais a reverem suas
idealizações de casamento, amor, e sexualidade, reavivando aqueles patrimoniais
inseridos no seio conjugal.
A partir dessa conotação, passa-se a análise mais pormenorizada de todos
os valores assumidos pelo casamento, construído, mormente,para responder às
exigências da sociedade, onde os valores e as regras econômicas estão em constante
mutação.

III-AMOR E CASAMENTO
O amor e o casamento, tal como conhecemos hoje, somente surgiu com a
ordem burguesa, ganhando força no século XVIII, momento ao qual a sexualidade era
figura quase inexistente dentro do casamento, muitas vezes ocorrendo na
clandestinidade – adultério – e a sexualidade não era lugar de prazer, mas sim de
reprodução. O casamento era a firmação de um contrato entre família, em que os
indivíduos não o faziam por prazer, ao revés, o faziam a conselho de suas famílias e
para o bem delas, pois servia como base de aliança, fortalecendo poderes já existentes.
Com isso, verifica-se o quão o amor e a sexualidade foram subjugados ao
poder, sendo a sexualidade parte do contrato, ao passo que a paixão e a escolha não
pesavam na ocasião.
Patente é o fato de que a Igreja teve um papel fundamental na formação do
casamento, vez que o influenciou bastante. Até o século V, a união do casal e
celebração das núpcias não sofria a interferência do clero. No entanto, a partir daí seu
papel foi altamente influenciador, tanto que a fecundidade passou a ser fator
indispensável no casamento, assim como a fidelidade absoluta da mulher. Nesse
momento, a Igreja institui o casamento como único espaço legítimo para a sexualidade,
logicamente, que o objeto exclusivo da procriação.
Sem embargo, tais ideais de condenação incomensurável ao desejo e ao
prazer não se sustentaram por muito tempo, pois a Igreja acabou considerando o
matrimonio como contenção aos libertinos, conforme se depreende da Epístola aos
coríntios (I Cor., VII, 1), Paulo diz: “que cada homem tenha uma mulher, e cada mulher,
um homem. Melhor seria que ficassem castos, mas se não podem se conter, casem-se.
É melhor do que arder”. Aqui o casamento passa a ser visto como uma concessão e
não como mandamento, para evitar o alastramento da impudicia.
A sacralização do casamento só ocorreu por volta do Século XII,
estabelecendo-se no século XIII, tornando-o monogâmico e indissolúvel. Com isso, a
celebração do ato matrimonial saiu do local tradicional, que era a casa, e passou a ser
cerimoniado na Igreja e conduzido por um padre.
A dessacralização do casamento ocorre com a revolução, que vai a
desilusão religiosa com efusão da ética protestante e do espírito capitalista. E segundo
diz Marx no Manifesto do Partido Comunista “Tudo era sólido e estável evapora-se,
tudo que era sagrado é profano, e os homens são finalmente, obrigados a encarar com
serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas” (Marx & Engels,
1999, p. 79). O mundo público e privado entra num processo de constante
transformação.
Segundo Áries (1987)2, a partir daí começaram a ser instauradas mudanças
no casamento, que tão-só vão ganhar destaque com a modernidade. Ocorre a
valorização do amor individual; estabelece o casamento por amor/paixão, com
predomínio do erotismo na relação conjugal. Esse novo ideal de casamento impôs aos
esposos que se amasse ou parecessem se amar, construindo uma relação de respeito
e de felicidade matrimonial, o que acabou por gerar “idealizações” e, em corolário, uma
armadilha para os casais na medida em que os conflitos resultantes da “desilusão”
cresciam em face do não atendimento das expectativas.
Nesse diapasão, chega-se a época atual, onde o casamento ainda continua,
sem sua grande maioria, sendo realizado com arrimo na feição, no sexo, tudo somado
com o patrimônio. Contudo, aquelas “desilusões” não desapareceram, pelo contrário,
eclodiram com tal veracidade que mesmo sendo juridicamente estatuído deveres com o
2
Áries, P. (1987). Oamor no casamento. Em Áries, P. E Béjin, A. (orgs) Sexualidade Ocidentais (pp.153-
162).
respeito mútuo, fidelidade recíproca, sustento guarda e educação dos filhos, entre os
outros (art. 1.566, do Código Civil/2002) ainda se vislumbra dissociações conjugais por
inobservância a quaisquer desses deveres.
Note-se que quando o amor romântico se torna o ideal de casamento, o
erotismo expulsa a reserva tradicional, mas introduz um outro aspecto relevante: coloca
a prova a existência do casamento. O divórcio, então, coloca-se como uma
possibilidade, tomando característica de sanção normal a um sentimento que não amis
existe, e que deve dar lugar a outro seguinte.

IV-OS VALORES DO CASAMENTO DENTRO DA ORDEM SÓCIO-JURICO-


PSIQUICA
Casamento significa, nos dizeres de Maria Helena Diniz3 “o vínculo jurídico
entre o homem e a mulher que visa o auxílio mútuo material e espiritual, de modo que
haja uma integração fisiopsíquica e a constituição de uma família”.
Conceito semelhante é o propalado nos dicionários brasileiros4: “União
legítima entre homem e mulher”.
Veja-se que dentro do conceito de casamento aparece como protagonista à
união entre o homem e a mulher, sendo esta condição válida desse instrumento. De
outro modo não poderia ser, vez que para a sociedade brasileira a relação homoafeitva
ainda é tabu. No entanto, como o presente artigo não abarca o homossexualismo como
objeto de estudo, esse tipo de discussão ficará para um momento mais oportuno.
De bom aviltre atentar para a questão social do casamento, qual seja a visão
que a sociedade alimenta sobre o casamento. Consabido que a instituição casamento é
uma forma de se jurisdicionalizar as relações familiares, nela contidas a idéia
patrimonial. Assim, o casamento civil acaba por absorver a responsabilidade de dirimir
conflitos, criando leis que auxiliem as pessoas quando postas em litíigios. No direito
pátrio, essas questões matrimoniais são previstas no Código Civil e intitulada Direito de
Família.
De se ver que a convivência, muitas vezes, acaba gerando conflitos que,
dependendo do grau de seriedade, são resolvidos na seara do direito de família. No
3
Diniz, M. H (2008). Curso de Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva.
4
Olinto,. A (2001). Minidicionário Antonio Olinto da Língua Portuguesa. São Paulo: Moderna.
entanto, como alhures exposto, durante muito tempo, o casamento era visto
simplesmente como contrato, o que gerava ainda mais conflitos que eram irresolúveis,
pois não havia, juridicamente, a figura do divórcio, este acontecendo sob a forma de
separação de corpos em sentido estrito, ou seja, os casais viviam sob o mesmo teto,
porém não possuíam vida conjugal.
Com o evoluir da civilização, essa relação passou a ser referendada pelo
Código Civil brasileiro, que abriu a oportunidade das pessoas tentarem encontrar sua
verdadeira felicidade.
Hoje, como salientado a pouco, entende-se como casamento a união entre
homem e mulher por laços de afeto no qual estão imbuído também a sexualidade e o
aspecto patrimonial.
Salta aos olhos que na sociedade que atual ainda existam casamentos
“arranjados”, mas essa é uma realidade que ainda não desapareceu por completo,
apenas reformulou-se, posto que os valores mudaram. Hoje, ainda se casa para manter
a honra, a força do nome, etc. Infelizmente, esse tipo de relação não tende a durar,
entrando para a estatística das separações judiciais.
Por outro lado, enquanto parcela da sociedade vive no atraso social, outra
estimula os avanças, um exemplo disso são os casamentos estabelecidos por meio de
um contrato com cláusulas de fidelidade, onde o cônjuge infiel se submete a pagar
indenizações avultosas para o traído. Isso tem contribuído ara a indústria das
indenizações.
Contudo, em meio a esses extremos estão os casamentos tradicionais, que
seguem rigorosamente todas as formalidades previstas na legislação: vão desde o
processo de habilitação (Lei n. 6.015/73, arts. 67 a 69 c/c arts. 1.525, 1531, 1532, 1550,
IV e 1560, II, do CC/2002) até a cerimônia (arts. 70, 73 e 76, da Lei 6.015 e arts. 1533 a
1542, do CC/2002).
Vale ressaltar que a sociedade evoluiu muito impondo ao casamento outros
valores além do amor, que é a sexualidade. Para Foucault (1988)5 a sociedade não
reagiu contra o sexo, ao contrário, instaurou todo o aparelho para produzir verdadeiros
discursos sobre ele. A própria medicina teve lugar nesses sentido, vez que descobriu

5
Foucault, M (1988). História da Sexualidade. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Gaal.
patologias ligadas à prática sexual por crianças, incesto entre outros. Logo, voltou-se
para a interdição do incesto e caça as sexualidades periféricas (homossexualismo,
sodomia e demais perversões). Mantida essa evolução, algumas sexualidades
periféricas são as realidades mais comuns entre a sociedade mundial, sendo muitas
delas já reguladas normativamente, ganhando validade jurídica.
Pelo exposto, vislumbra-se como os valores do casamento passaram por
reformulações, haja vista que, no princípio, sua finalidade era meramente patrimonial e
reprodutiva. Hoje, além disso, é principalmente amorosa, sendo esse sentimento o
precursor da formação de novas relações conjugais.
Veja-se que a despeito de já haver pessoas convivendo em união estável, o
casamento ainda não perdeu a relação com o romantismo, demonstrando a força do
amor no estabelecimento dessas relações, porquanto, mesmo já convivendo, as
pessoas insistem em casar. Ele virou o sonho de princesa das mulheres e o sinônimo
de maturidade para os homens, embora a realidade não seja esta.
Diante disso, cumpre ressalvar que a questão patrimonial não ficou alijada
desse processo de evolução, ao revés, acompanhou a instituição do casamento em
todas as suas fases evolucionistas, perdurando até hoje, embora com conotação
camuflada pelo amor.
É cediço que o casamento civil tem como fundamento precípuo o amor, e
como secundário, dentre outros, o patrimonial. Este último herdado do capitalismo, pois
os cônjuges casam sabendo quais os bens são meados e quais são seus. Com isso, o
casamento ganha outra importância, o de estipular o regime de bens, evitando litígios
aquando da dissolução da sociedade conjugal.

V-CONCLUSÃO
Considerando todos os aspectos supra levantados, conclui-se que o ser
humano, em geral, casa primeiro para depois unir, isto é, primeiramente são
estipuladas as formas de convivência e de regime de bens para que depois convivam
em união de objetivos. Isso porque o casamento nunca deixou de ter natureza
contratual, em que ainda haja subjetivismo exacerbado (amor/paixão, sexo), há a
racionalidade (questão econômica).
Nesse momento, traz-se á baila o entendimento de que as pessoas casam
pensando no momento de separar. Não que isso vá ocorrer. É mais uma previsão que
uma afirmação. Em outras palavras, o ser humano, acredita que o amor/paixão é um
estágio de elevada irracionalidade, levada a termo no momento de separar. Por isso, a
necessidade de se agir ponderadamente: casando com afeto (livre vontade) e
estipulando previamente o regime de bens a fim de que não haja dúvidas quanto a eles
na hora de separar.
Essa análise pode aparentar ser demasiadamente racionalista. Outra não pe
a pretensão, posto que patente é a verdadeira finalidade do casamento: PATRIMÔNIO.
Dedução esta tomada a partir de uma visão aquém da cobrança social e do amor. Se
contrário fosse a instituição casamento já estaria em desuso, pois é mais fácil “se
juntar” que casar.
Não resta dúvida que o casamento tem o condão de atender aos anseios
sociais e religiosos ainda muito evidentes. A sociedade exige que as pessoas casem. A
convivência (relação estável) reflete o viver em desrespeito profundo aos mandamentos
de Deus, sendo admitida, porém não aceita.
Vale acrescentar que o casamento não é tão-somente revestido por esses
valores. Escondido e pouco visualizado está o aspecto econômico. Casa-se pensando
em estabelecer prévio acordo em relação ao regime de bens, logo a eficácia jurídica do
casamento seria a de estabelecer todos os meios tendentes a evitar litígios, tornando
menos penosa a separação.
Doutra forma, o casamento sendo uma espécie de contrato, deve atender a
certos requisitos, tais quais: o acordo de vontades, como requisito essencial; o aspecto
intuito personae, sendo executável e desfeito por vontade e/ou descumprimento das
obrigações clausuláveis ou legais das partes contratantes – cônjuge varão e virago –
(arts. 1566 e 1571 a 1582, do CC/2002).6
Além disso, é sabido ser também o casamento instituição social por conta de
seu conteúdo, pois nele são estipuladas normas de ordem pública, inafastáveis,
portanto. Isso gera a segurança jurídica. Por isso, as pessoas casam. Contam elas com
segurança gerada pela formalização legal do vinculo conjugal.

6
Barros, F. A M (2007)Manual de Direito Civil, vol. 4. São Paulo: Método Editira.
Destarte, no momento de se dissolver tal vínculo, afastam-se os problemas
de ordem econômico-jurídica inexistente no momento de celebração do casamento,
pois se presume está havendo consentimento voluntário entre as partes, baseadas no
amor.
O s direito e deveres exigíveis na relação matrimonial demonstram
claramente que o casamento não significa apenas simples convivência conjugal, tão-
pouco comunhão de vida, mas sim uma união física, espiritual e patrimonial, gerando
efeitos pessoais, sociais e, por fim, pecuniário.
Com substrução no todo dito, verifica-se que o casamento significa, além de
tudo, o conjunto de normas aplicáveis às relações e interesses econômicos resultantes
do regime matrimonial, que consiste nas disposições normativas aplicáveis à sociedade
conjugal no que atine a interesses pecuniários.
Ilade-se, portanto, que a sociedade conjugal é formada por questões
amorosas, sexuais, religiosas, sociais e pecuniárias. Hodiernamente, casa-se para
separar consensualmente os bens, se necessário.

VI-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
♦Áries, P. (1987). O amor no casamento. Em Áries, P. E Béjin, A. (orgs) Sexualidade
Ocidentais (pp.153-162).
♦Barros, F. A M (2007)Manual de Direito Civil, vol. 4. São Paulo: Método Editora
♦Bíblia Sagrada (1982). Traduzida por: João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro:
Imprensa Bíblica Brasileira.
♦Diniz, M. H (2008). Curso de Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva.
♦Foucault, M (1988). História da Sexualidade. A vontade de saber. Rio de Janeiro:
Gaal.