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Instituto Nacional de Avaliação, Acreditação e Reconhecimento de Estudos


do Ensino Superior (INAAREES): os caminhos da qualidade universitária
em Angola
WILIAM REIMÃO MACHADO PINTO1

RESUMO: O Ensino Universitário é um dos mais altos conhecimentos na sociedade moderna e motor
do progresso nacional e global dos países, especialmente como estratégia de formação de pessoal
qualificado, inovação científica e modernização tecnológica almejada por nações em desenvolvimento
como Angola, após décadas de guerras e da ênfase na alfabetização em massa e da formação de
professores, que recentemente vem empreendendo esforços na criação de um sistema nacional de
garantia de qualidade, avaliação universitária, uma cultura de avaliação do ensino superior e fundou o
Instituto Nacional de Avaliação, Acreditação e Reconhecimento de Estudos do Ensino Superior
(INAAREES) em 2013, a agência pátria dotada de poderes legais e institucionais para impulsionar a
excelência acadêmica em Angola.

PALAVRAS-CHAVE: Ensino Superior Angolano. Avaliação. Qualidade Universitária.

1. INTRODUÇÃO

As preocupações da Qualidade do Ensino Superior se acentuaram nas últimas décadas,


especialmente, nos países emergentes e em desenvolvimento que necessitam com celeridade
atender as conexões da economia, sociedade e tecnologia globais, portanto precisam de
modernização e reformulação de sua ciência e conhecimentos nacionais, o que passa pelo seus
sistemas nacionais de ensino superior e universidades.
Notadamente, a partir da década de 90, por recomendações de entidades multilaterais
internacionais como Banco Mundial e Unesco vem recomendando aos países periféricos do
capitalismo central, a Reforma do Estado da crise do modelo do Estado do Bem Estar Social
para um paradigma neoliberal em que a Universidade é um dos centros de transformações.
Diversos autores (DIAS SOBRINHO, 2000) versam sobre seus reflexos foram a introdução
de um instrumental da Qualidade, até então restrita aos negócios corporativos e sistemas
produtivos, para a Educação Nacional, uma cultura de avaliação, excelência nos processos
educativos, sistemas nacionais de garantia de qualidade, deslocamento da primazia do setor
público para o setor privado, flexibilidade organizacional das unidades educativas, priorização
de conhecimentos e saberes mais ligados ao mercado.
Observar-se na América Latina, onde as experiências de Reforma de Estado foram
laboratórios educacionais nas décadas de 90 e anos 2000 em diante, especialmente o enfoque
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em metodologias da Qualidade Total, como as concepções de clientes ou consumidores dos


cidadãos usuários dos serviços públicos, mensurações de desempenho e democratização do
ensino e arcabouço de práticas do setor privado para o setor público.
Angola, um dos últimos Estados confessos socialistas do mundo após os colapsos do Muro
de Berlim e da União Soviética (uma das principais patrocinadoras e parcerias) no final dos
anos 80, não ficou imune as mudanças globais nas décadas de 90 que também vieram com as
demandas internas de um país sangrado por 27 anos de Guerra Civil (1975-2002), e de 14 anos
de Guerra da Independência (1961-1975), isto é, 41 anos de combates interruptos que
provocaram centenas de milhares de mortos, milhões de feridos e deslocados, palco de
interesses das Superpotências na Guerra Fria que transformaram num conflito mundial e uma
nação traumatizada (e ainda mais empobrecida e muito mais espoliada) para que a emancipação
nacional fosse finalmente conquistada e a paz entre angolanos fosse formalmente declarada.
A Universidade, os órgãos de Estado, sociedade e mercado angolanos trouxeram o debate
para o papel da Educação neste novo contexto nacional de desenvolvimento que ascendeu com
o fim da longa e penosa guerra fraticida, notadamente nos últimos anos que as questões de
avaliação, acreditação, sistema nacional de garantia de qualidade e qualidade universitária, que
iremos debater neste trabalho mais adiante.

2. OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Analisar o contexto e propostas da do Instituto Nacional de Avaliação, Acreditação e


Reconhecimento de Estudos do Ensino Superior (INAAREES) de Angola.

2.2 OBJETIVO ESPECÍFICOS

a) Investigar a evolução e dimensões da Ensino Superior Angolano;

b) Discutir a Reforma do Estado Angolano e seus reflexos Educacionais;

c) Discorrer sobre a Excelência Universitária como política pública.

3. METODOLOGIA
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Este trabalho será uma pesquisa bibliográfica ao levantar e estudar as publicações referentes
ao tema como autores referenciados e documentos primários de instituições públicas oficiais.
Neste sentido, também adotaremos uma abordagem descritiva ao analisar e apresentar as
condicionantes do Ensino Superior e Reforma de Estado de Angola e a valorização da
Qualidade nas práticas universitárias que exigiram a institucionalização do INAAREES.

4. REFORMA DO ESTADO E O ENSINO SUPERIOR ANGOLANO

Apesar de Angola ser uma Colônia de Portugal desde do século XV, para fins didáticos,
sintetizados a época do Ensino Superior em Angola a partir de 1962. A separação das épocas
político-administrativas, em parte, tem como base VALLADADES et all. (2013), que
classificou os cortes temporais pelo modelo de gestão.

4.1 PERÍODO COLONIAL (1962-1975)

Com a fundação dos Estudos Gerais Universitários em 1962 promoveu cursos superiores
em sua maior e mais rica colônia tais como Medicina, Engenharias e Ciências (em Luanda),
Agronomia e Veterinária (em Huambo), e Letras, Geografia e Pedagogia (em Lubango).
Em 1968, os estabelecimentos dos Estudos Gerais passaram a designar-se Universidade de
Luanda, permitindo uma limitada autonomia à Metrópole Portuguesa, caracterizada por uma
Administração Centralizada e que exigia uma subserviência praticamente total de sua Colônia
e habitantes, com limitados direitos políticos e participação dos angolanos nativos nas decisões.
Carvalho (2014) salienta que no período colonial, o Ensino Superior em Angola era restrito
às elites, sendo limitado o acesso das classes médias (já que eram bem reduzidas). Não obstante,
apesar de um certo crescimento do alunato angolanos nativos, a maior parte dos estudantes eram
de brancos (LIBERATO, 2019), o que reitera as já gritantes desigualdades sociais e acentuará
as transformações da política educativa pela luta de Libertação Nacional.
No mesmo ano da fundação dos Estudos Gerais Universitários, surgiram os primeiros
Cursos de Monitores Escolares e Escolas de Magistério Primário, direcionados a formação de
professores para alfabetização de crianças e jovens (ZAU, 2009), recordando que o alfabetismo
no ano da Independência (1975) beirava os 85 % da população angolana.
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4.2 PERÍODO BUROCRÁTICO (1975-1991)

Com a conquista da emancipação política em 1975, a Universidade de Luanda passou a ser


chamada de Universidade de Angola (posteriormente, nomeada de Universidade de Agostinho
Neto em 1985), permanecendo com o monopólio da Educação Superior até 1992, quando foi
autorizada a instalação da Universidade Católica de Angola, a primeira instituição privada.
O período de 1975 a 1991 foi marcada pela alfabetização em massa e preparação de
professores para o combate a baixa escolaridade, inclusive inspirado em experiências de
Educação Popular da América Latina e com mestres cubanos nas salas de aula, outra política
foi as cooperações internacionais para oferecimento de bolsas para estudantes angolanos em
outros países, especialmente do bloco socialista. Liberato (2019) e Alfredo (2014) comentam
na preocupação da formação ideológica na Educação Nacional para legitimação dos valores do
Partido governante (Movimento Popular pela Libertação de Angola – MPLA).
O próprio conflito fraticida foi extremamente danoso à Educação como um todo, tanto que
os órgãos de Educação identificaram um enorme déficit de salas, absenteísmo de professores,
baixa frequência escolar, queda de investimentos e drenagem de recursos para os esforços
militares e infraestruturas (estas, constantemente destruídas pelos combates).
Uma das análises realizadas foi um Diagnóstico do Ministério da Educação (MED) de 1986,
que indicava a reduzidíssima taxa de conclusão das classes escolares primárias (ZAU, 2009).
Sem embargos, o Ensino Superior teve uma pequena e limitada expansão pelos problemas
educacionais relatados e somados ao conflito já relatados, com um crescimento vegetativo e até
declinando o número de estudantes em fases mais agudas da Guerra.
A gestão administrativa do Estado Angolano nesta época turbulenta, marcada pela Guerra
Civil com contornos mundiais, era caracterizado modelo burocrático socialista, prevalecendo o
centralismo democrático que concentrava a tomada de decisões e no monolítico político do
partido único governante (VALADARES et all., 2013).

4.3 PERÍODO TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA (1991 - ...)

A década de 90 foi marcada por uma incipiente transição política para multipartidarismo e
eleições gerais, apesar do MPLA ainda manter posições chaves na Administração Pública,
sendo experimentado os primeiros programas de Reforma Administrativa já com concepções
de descentralização e flexibilidade organizacionais.
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Os investimentos do Estado Angolano em Educação, e notadamente no Ensino Superior


tiveram, uma média, de queda em parte do recrudescimento da Guerra Civil, e, segundo
Liberato (2019), pela continuidade da política de concessão de bolsas internacionais para
formação superior que diminuiu o financiamento do Ensino Superior.
O fim da Guerra Civil em 2002, como analisa Carvalho (2014), trouxe um boom de criação
de instituições privadas de ensino superior e uma evolução exponencial de estudantes
universitários, apenas de 2002 a 2011, de 12.566 vai para 140.016 (um aumento do vulto de
1.041 %), o que impeliu o governo a rever suas políticas educativas. Para atender esta demanda,
a Instituição Mãe de Angola, a Universidade Agostinho Neto em 2009 se dividiu em 9
universidades estatais de âmbito local em Cabinda, Dundo, Huambo, Luanda, Lubango e Uíge.
Outro desdobramento, foi o desenvolvimento ainda incipiente de uma gestão pública
enfocada no Gerencialismo, com a preocupação na formação educacional de executivos
públicos e privados para apoiar nos projetos governamentais e particulares em alta
complexidade, além de elementares mecanismos de transparência e accountability.
Segundo Valladares et all. (2013), a nova fase é da busca a melhoria do serviço prestado ao
cidadão, fortalecimento da carreira pública e reforma na contratação do funcionalismo.
Apesar do Estado Angolano ainda ter graves problemas de clientelismo e patrimonialismo
já que tem o mesmo partido governante desde da Independência em 1975, mesmo que
submetido aos pleitos eleitorais que mantiveram a hegemonia política.
Liberato (2019) compreende que o crescimento descontrolado com a abertura de
instituições e cursos com parcos critérios provocou pela ânsia de obter diplomas a qualquer
custo uma descaracterização da universidade e até desvalorização dos diplomas universitários,
consequente diplomados desempregados e degradação da qualidade da oferta educativa.
Carvalho (2014) dispõem ainda que não apenas os cursos de graduação angolanos têm
baixa qualidade, também os cursos de pós graduação lato e strictu sensus, precisando
urgentemente de uma “avaliação da qualidade dos cursos, de modo que os formando possam
a vir a adquirir formação de qualidade que lhes permita contribuir para a esperada melhoria
da qualidade de ensino [...] e para o desenvolvimento do país.” (CARVALHO, 2014, 38 p.).

5. INAAREES E A BUSCA QUALIDADE ACADÊMICA ANGOLANA

As inquietações educacionais angolanas avançaram no século XXI, sendo a importância da


Qualidade e Avaliação ressaltadas nos marcos legislativos, como na Lei de Bases do Sistema
Educativo Angolano (Lei n.º 13/2001) que estabelece no seu artigo 63º em que o sistema de
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educação é objeto “de avaliação contínua com incidência especial sobre o desenvolvimento,
a regulamentação e a aplicação da presente lei, tendo em conta os aspectos educativos,
pedagógicos, psicológicos, sociológicos, organizacionais, económicos e financeiros.”
(UNESCO, 2001, grifo nosso).
Percebendo que os sistemas de avaliação em escala nacional ainda tiveram a devida
dimensão devido a falta de uma estrutura institucional e legal para ser realizados, observa-se
que várias universidades e institutos de ensino superior aplicam auto-avaliações e até avaliações
externas por instituições estrangeiras, especialmente em cursos como Ciências Médicas.
Notadamente, a instituição educativa com mais experiências e estudos em Avalições
Institucionais é a maior e a principal do país: a Universidade Agostinho Neto.
Outra reflexão que veio para compreensão das necessidades e diagnóstico foi o Plano
Nacional de Formação de Quadros (PNFQ), que no seu Relatório, (ANGOLA, 2014), que as
instituições de ensino superior estabeleçam cooperação com as melhores escolas de ensino
superior do mundo e uma análise global do sistema de educação e ensino do país.
Neste sentido, nasce pelo Decreto Presidencial n.º 172/2013, o Instituto Nacional de
Avaliação, Acreditação e Reconhecimento de Estudos do Ensino Superior (INAAREES), como
a Agência Central, , no art. 2º para “promover e monitorar a qualidade das condições técnico-
pedagógicas e científicas criadas e dos serviços prestados pelas instituições do ensino superior,
bem como homologar a certificação dos estudos superiores” (ANGOLA, 2013).
Ressaltamos que desde de então, o INAAREES se detém da homologação de diplomas e
cursos superiores, que eventualmente, há críticas da sociedade pelas formalidades e atrasos.
O INAAREES, academia e a sociedade promovem um amplo debate com a forma de
desenvolver um sistema nacional de garantia de qualidade, especialmente cooperação
internacional, resultando o Decreto Presidencial n.º 203/2018, que cria o Regime Jurídico de
Avaliação e Acreditação da Qualidade das Instituições de Ensino Superior que determina a
Acreditação (certificação das instituições de ensino superior e seus cursos), Auto-Avaliação,
Avaliação Externa, Avaliação Institucional e Meta-Avaliação.
Percebe-se que dos modelos internacionais analisadas pelos técnicos e educadores
angolanos veem de Portugal, Cuba e Brasil, país com maior experiência nos sistemas nacionais
de avaliação e garantia de qualidade, como nos primeiros meses de 2019 houve conferências
com a lusitana Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3Es), esta instituição
avaliativa está na Rede Europeia da Qualidade do Ensino Superior (ENQA em inglês).
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6. CONCLUSÃO

O sistema nacional de garantia de qualidade do Ensino Superior de Angola ainda está


estruturado para fornecer a excelência que a comunidade acadêmica e sociedade angolana tanto
merece. Existe grandes desafios e necessidades, especialmente materiais e a criação de uma
cultura de avaliação ainda incipiente, a serem levantadas para sua implantação.
Cabe as nações com mais experiência promoverem uma maior cooperação com Angola,
nação ainda que se ergue de décadas de guerras, que almeja seu lugar no desenvolvimento e
progresso através de uma Educação Superior com Qualidade e Cidadã Africana.

REFERÊNCIAS

ALFREDO, F. C. Avaliação das Aprendizagens: Política, Concepções e Práticas na Formação


de Professores em Angola. Rio de Janeiro: Outras Letras, 2014.
ANGOLA. Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação. Luanda, 2013.
Decreto-Presidencial n.º 172/2013. Disponível em: <
http://www.mescti.gov.ao/verlegislacao.aspx?id=2230 >, Acesso em 07 mai. 2019.
ANGOLA. Parlamento de Angola. Relatório Conjunto sobre o Plano Nacional de Formação de
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http://www.parlamento.ao/documents/91841/0/RELAT%C3%93RIO+CONJUNTO+SOBRE
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DIAS SOBRINHO, J. Avaliação da Educação Superior. Petrópolis: Vozes, 2000.
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VALADARES, J. L. et all. Brasil e Angola: Convergências e Divergências Epistemológicas
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Acessado em 09 maio. 2019.
ZAU, F. Educação em Angola: Novos Trilhos para o Desenvolvimento. Lisboa: Movilivros,
2009.

AUTORE

1. WILIAM REIMÃO MACHADO PINTO


Mestrando do GESTEC/UNEB. Especialista em Gestão da Informação e Inteligência
Competitiva. Graduado em Administração. Professor da Faculdade Dom Pedro II. Contato:
wreimao@gmail.com