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1. Quais elementos
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2. Como eles se juntam "
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I 4. Que outros
signíficados você
atribui a essa obra?
Fototropismo. Christiana Moraes, 1998.

D A linguagem do desenho
o desenhoé uma das linguagens da arte, a mais antiga, a mais praticada, pois
todos nós já fizemos um desenho na vida. Não importa se desenhamos sobre a
superfície poeirenta de um carro sujo, sobre o vapor condensado no espelho do
banheiro, na areia da praia ou no chão de terra. Precisamos de muito pouco para
poder desenhar: uma superfície (que não precisa ser plana) e um instrumento que
trace linhas ou pontos sobre essa superfície. Essa possibilidade foi descoberta na
Pré-história por nossos antepassados, que fizeram inúmeros desenhos de animais,
de caçadas e de seres humanos, exercendo suas atividades rituais e de sobrevi-
vência, em fundos de abrigos ou sobre pedras ao relento. Como hoje se fazem os
grafitti nos muros da cidade.
Christiana Moraes, artista brasileira contemporâ- humanos são atraídos e se orientam não só pela luz,
nea, dedica-se ao desenho, além de outras formas de mas por toda a natureza.
arte visual. Esse desenho, da série Fototro ismo, foi
feito com bastão de óleo e lápis contésobre uma pran-
cha ultra mount. Para fazer o fundo negro, usou tinta 11 QUEM É?
látex. A obra mede 2,44 metros por 1,10metro, tendo, Christiana Moraes (1972).Nasceu
em São Paulo e cursou Artes
portanto, um impacto visual bastante grande.
Plásticas, com habilitacão em
Apresenta uma figura humana sentada, com um Gravura, na Escola de Co~urÍica-
buquê de flores entre as mãos; outras quatro flores ções e Artes da Universidade de
estão dispostas, verticalmente, dos dois lados da São Paulo, formando-se em 1993.
figura central. A metade inferior da obra tem fundo Nesse mesmo ano, ganhou o
Prêmio Exposição na VII Mostra Christiana
branco, com desenhos pretos; a metade superior tem
Universitária de Artes Plásticas da Moraes, artista
o fundo negro, com desenhos brancos. Por trás da Faculdade Santa Marcelina e, em plástica brasileira
cabeça da figura central, pode-se ver um braço e uma 1995,o Prêmio Viagem pelo Brasil, nascida em 1972.
mão, segurando a flor do lado superior esquerdo. do XV Salão Nacional de Artes Plásticas. Participou de
O desenho é figurativo, porém não é realista, isto é, várias exposições no Brasile algumas no exterior. Além
não pretende ser uma cópia fiel do real. Tanto que não disso,é pós-graduada em PráxisArtística eTerapêutica
pela Faculdade de Medicina da USP e, em 2004, fez
podemos dizer se a figura humana é um homem ou uma
outro curso de pós-graduação em Performance, noArt
mulher, uma vez que não há detalhes identificadores. Institute de Chicago, Estados Unidos.
A linha é contínua, nem muito grossa nerp fina. A
flor na parte inferior esquerda e o buquê foram dese-
nhados com linhas mais fortes, poderíamos dizer ner-
vosas, uma vez que percebemos o ir e vir do bastão de
fJ O que é uma linguagem?
óleo, num traço contínuo. Já as outras flores e a mão A linguagem é um instrumento que nos permite
que segura a flor são desenhados com linhas tão finas e pensar e comunicar o pensamento, estabelecer diá-
delicadas que é preciso observar o desenho com muita logos com nossos semelhantes e dar sentido à rea-
atenção para vê-los. O fundo preto dá um destaque lidade que nos cerca.
especial ao busto da figura humana, uma vez que ele Quando nos referimos à linguagem, a primeira da
continua em branco, com o preto ao seu redor. qual nos lembramos é a linguagem verbal, tanto a oral
O estilo é expressionista, ou seja, privilegia a quanto a escrita. Por meio dela, nomeamos objetos,
expressão da afetividade e do modo subjetivo com formamos conceitos e articulamos nosso pensamento
que a artista vê o mundo, mais que as questões de sobre o mundo, tanto o mundo subjetivo de sentimen-
exatidão da representação. A figura humana não é tos e desejos quanto o mundo objetivo exterior a nós.
simétrica e suas mãos são indicadas, mas não mos- A linguagem verbal, contudo, não é a primeira
tram todos os dedos. linguagem que aprendemos em nossa vida nem a
Mas se o desenho é uma linguagem, o que será única que usamos para dar significados ao mundo.
que esse desenho pode nos dizer? Que significados Desde bebês, conseguimos nos comunicar por meio
podemos atribuir a ele? do choro, de olhares, de gestos e de balbucios que
Ele nos fala da solidão do ser humano e de sua são compreendidos por todos aqueles que nos cer-
ligação com a natureza. O buquê de flores preenche cam e cuidam de nós.
todo o peito da figura humana, exatamente onde Mas será que todas as linguagens são estrutura-
se situa o coração, considerado simbolicamente das da mesma forma?
como a sede de nossos sentimentos e da afetivi-
dade. Interpretando a imagem a partir de seu título • Estrutura da linguagem
Fototropismo, podemos dizer que, assim como as Toda linguagem é um sistema de signos. O signo,
plantas seguem o movimento do sol (luz), os seres
segundo definição do filósofo Charles Sanders Peirce,
é uma coisa que está no lugar de outra sob algum
Fototropismo. Em biologia, designa a reação de aspecto.' Por exemplo, o choro de uma criança pode
aproximação ou afastamento de um organismo ao estar no lugar do aviso de desconforto, de fome, de frio
estímulo da luz; movimento de orientação realizado ou de dor; ou pode estar no lugar simplesmente da
pela planta sob a ação da luz.
frustração da criança que não conseguiu o que queria.

PEIRCE, Charles S. Semiática. São Paulo: Perspectiva, 1977. p. 46.

Linguagem e pensamento Capítulo 5 [ ]


o choro pode ser signo de todas essas coisas e, para outros: nas culturas ocidentais, o preto é sím-
decifrá-Ia adequadamente, precisamos saber o con- bolo de luto; o uso da aliança no dedo anelar da
texto em que ele ocorre e ter familiaridade com a mão esquerda simboliza a condição de casado;
criança que assim se expressa. o desenho de um coração simboliza amor, ami-
Os números e as palavras também são signos, isto zade. Esses signos são aceitos pela sociedade
é, estão no lugar das quantidades reais de objetos ou como representação dos objetos luto, casamento
do próprio objeto. Quando digo: "Há quatro assaltan- e sentimento de amor e mantêm-se por conven-
tes aí fora', estou me referindo à quantidade e à exis- ção, hábito ou tradição.
tência real de quatro pessoas, armadas ou não, que Como só o ser humano é capaz de estabelecer
cometem um crime do lado de fora de onde estamos signos arbitrários, regidos por convenções sociais,
ou estão prestes a iniciá-lo. Conforme o contexto, a dizemos que o mundo humano é simbólico.
afirmação pode funcionar como simples constata- Os animais são capazes de entender apenas íco-
ção de um fato: "Está acontecendo um assalto, mas nes e índices. Os cachorros, por exemplo, utilizam o
fiquem calmos"; ou aviso de perigo "Chamem a polí- signo indicial cheiro. Eles são capazes de reconhecer
cia! Corram! Escondam-se!", na esperança de que algo o cheiro do dono em uma roupa, em um lugar. E o
possa ser feito para resolver o problema. cheiro indica a presença do objeto (dono) que ele pro-
cura. Ele reconhece, ainda, o tom de voz, as ações que
Tipos de signos indicam passeio, castigo ou a hora de comer.
Se o signo está no lugar do objeto, isto é, se o Podemos explicar um signo por meio de outro,
substitui, ele é uma re resentação do objeto. Um inclusive misturando linguagens. Para explicar o
objeto pode ser representado de várias manei- signo-palavra "casa" para uma criança, podemos
ras, dependendo da relação que existe entre ele e fazer um signo-desenho de uma casa. O desenho,
o signo. Vejamos um exemplo: um galo pode ser nesse caso, é um segundo signo que interpreta, dá
representado por uma fotografia, por um desenho, sentido ao primeiro, pela semelhança com o objeto
pela palavra "galo', pelo som de seu canto cocori- representado. Um sinônimo explica igualmente
cÓÓÓó. Cada um desses signos (fotografia, desenho, um signo: "casa" pode também ser interpretada
palavra e cacarejar) mantém uma relação diferente por meio da palavra "lar". O segundo signo (lar)
com o objeto galo. interpreta o primeiro em sentido bastante especí-
Quando a relação é de semelhança, temos um fico de "minha casa" ou "lugar onde moro e consi-
signo do tipo ícone, O desenho do galo é um ícone dero meu refúgio'. Essa explicação é diferente da
quando apresenta semelhança com ele; a repre- oferecida pelo desenho, que se refere mais à arqui-
sentação do galo por meio de seu canto também é tetura que à relação afetiva que mantemos com o
um ícone, pois tem uma semelhança sonora com lugar onde moramos.
o canto da ave.
Se a relação é de causa e efeito, uma relação que
afeta a existência do objeto ou é por ela afetada,
I'IQUEM-fr?
Charles Sanders Peirce (1839-1914),filósofo e lógico
temos um signo do tipo índice. A fotografia do galo é
americano,é ofundadordo pragmatismo eda semió-
um índice de sua existência porque toda fotografia tica. Pensador enciclopédico, é também conhecido
é resultado da ação da luz refletida por um objeto e por suas contribuições para a história da lógica e
captada pela câmera. Ou seja, o objeto fotografado para a matemática, epistemologia, história das ciên-
esteve em frente à câmera no momento em que a cias, psicologia, cosmologia, ontologia, ética, estética
e história. Tevetrês centros de interesse constantes:
fotografia foi feita. Outros exemplos: a chuva pode
a reflexão sobre a linguagem, a significação e,sobre-
ser representada pelo signo indicial nuvem (causa da tudo, o signo.
chuva) ou chão molhado (consequência da chuva); O pragmatismo foi fundado para desembaraçar
a fumaça ou o cheiro de queimado são signos indi- a filosofia das fórmulas vazias em favor do que é
ciais de fogo; os sinais matemáticos (+, -, X e +), verdadeiramente significativo. Contrário à separa-
ção entre matéria e espírito, propõe que a ideia que
quando colocados ao lado de números, são signos
temos de qualquer objeto é igual à soma de todos
indiciais das operações que devem ser efetuadas; a os seus efeitos práticos imagináveis, ou seja, essa
febre é signo que indica doença. Todos esses signos soma dos efeitos práticos é tudo o que conhecemos
indicam o objeto representado. do objeto e basta para guiar nossa ação no mundo.
Se a relação é arbitrária, regida simplesmente Depois de alguns anos, preferiu usar o termo "prag-
maticismo" para sua teoria, para se diferenciar do
por convenção, temos o símbolo. As palavras são
pragmatismo de William James.
o melhor exemplo de símbolo, mas há muitos

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7;\,

Toca do Baixão das Mulheres II, Complexo Serra Talhada. (Desenhos reproduzidos
em: VIDAL,Lux. Grafismo indígena. São Paulo: Studio NobellFapesp/Edusp, 1992. p. 27.)
Os desenhos rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, são em sua
maioria figurativos, embora esquemáticos, e às vezes são preenchidos pelo mesmo
tom negro usado para fazer as linhas de seu contorno. São, portanto, signos icônicos,

Outros elementos da linguagem linguagem verbal, do ponto de vista semântico,


Precisamente por ser um sistema de signos, não podemos combinar signos que tenham sen-
toda linguagem possui um repertório, ou seja, tidos opostos: subir/descer, nascer/morrer etc.
uma relação de signos que a compõem. Na lingua- Não podemos dizer "Ele subiu descendo as esca-
gem do desenho, como vimos ao analisar o dese- das", mas podemos dizer "Ele subiu correndo as
nho Fototropismo, que abre o capítulo, o repertório escadas".'
é muito pequeno: o plano ou a superfície, a linha Como último passo, a linguagem deve estabe-
e o ponto. As linhas podem ter diversas qualida- lecer as regras de uso dos signos. Em que ocasiões
des: serem quebradas ou contínuas, retas ou cur- devemos usar o pronome tu e o vós? Devemos vestir
vas, grossas ou finas; a superfície pode ser plana ou as crianças de preto, em ocasiões de luto?
não, e seu próprio relevo pode produzir efeitos no Só quando conhecemos o repertório de signos,
desenho. as regras de combinação e as regras de uso desses
Com os três elementos - superfície, linha e signos é que podemos dizer que dominamos uma
ponto - é possível fazer qualquer desenho, seja linguagem.
técnico, de observação, de ilustração, de ornamen- Por exemplo, o personagem Chico Bento, criado
tação ou de criação, também chamado artístico. por Mauricio de Sousa, não domina as regras de
O repertório das linguagens verbais (ou línguas, combinação e de uso da norma culta da língua
como são chamadas), ao contrário, é bastante portuguesa. Ele desrespeita as regras de concor-
amplo e costuma ser relacionado em dicionários. dância de número, suprime parte das palavras ("os
A linguagem musical tonal, para compor seu otro" e "foro reprovado" em vez de "os outros" e
repertório, dentre todos os sons possíveis, sele- "foram reprovados") e pronuncia as palavras incor-
ciona alguns, denominados dó, ré, mi, fá, sol, lá, retamente. Expressa-se no dialeto caipira, o que
si, acrescidos de sustenidos ou bemóis, que são sobrou da língua nheengatu, mistura de português
semitons. e línguas indígenas, usada pelos índios e descen-
Além do repertório, também é preciso que se dentes de portugueses na época colonial.
estabeleçam as regras de combinação dos signos.
Quais podemos usar juntos, quais não podemos? Representação. O que está presente no espírito, ou
Na linguagem do desenho, plano, linha e ponto seja, o conteúdo concreto de um ato de pensamento.
podem ser usados como o desenhista quiser. Na Semântico. Refere-se ao significado das palavras.

2 Na fala popular brasileira contemporânea, porém, vem sendo utilizada uma expressão criada por
Harry Truman, ex-presidente norte-americano: "Inclua-me fora disso", que é um franco desrespeito
a essa regra semântica.

Linguagem e pensamento Capítulo 5


A construção da significação •. Tipos de linguagem
Até aqui discutimos a questão da linguagem e dos
O ser humano criou e continua criando vários
signos como se a construção da significação fosse
tipos de linguagem que lhe permitem pensar as
um assunto pacífico e todas as pessoas usassem os
diversas facetas da realidade e, também, se expres-
signos e os compreendessem da mesma maneira. sar e se comunicar com seus semelhantes. Temos
Infelizmente não é assim que acontece. a linguagem matemática, as de computador, as
Como já dissemos, todo signo tem um signifi- línguas diversas, as linguagens artísticas (arqui-
cado próprio, estabelecido por convenção social. tetônica, musical, pictórica, escultórica, teatral,
Esses são os significados que constam do dicioná- cinematográfica) e as gestuais, da moda, espa-
rio. Muitas vezes, entretanto, o signo tem mais de ciais e outras. Os avanços da tecnologia nos obri-
um significado, uma vez que seu uso foi sendo modi- gam a adaptar as linguagens já existentes e a
ficado ou ampliado em tempos e lugares diferentes. criar outras, mais adequadas às necessidades da
Vejamos um exemplo: a palavra "manga" pode sig- contemporaneidade.
nificar: a) parte do vestuário que recobre o braço; b) Será que todas essas linguagens se estrutu-
fruta tropical com determinadas características; c) ram da mesma forma? O repertório de signos e as
flexão do verbo "mangar", que quer dizer zombar. regras de combinação e de uso desses signos são
Portanto, só podemos saber com qual signifi- similares?
cado o signo está sendo usado a partir da frase, Logo à primeira vista, fica claro que algumas des-
que oferece o primeiro contexto da comunicação. sas linguagens têm estrutura mais flexível do que
Voltando ao exemplo dado: "Quando esta manga outras.
amadurecer, eu lhe dou um pedaço:'; ou ''A manga Tomando a moda como exemplo de linguagem
está muito curta:'; ou, ainda, "Ele constantemente flexível, percebemos que seu repertório de signos
manga do irmão:'. é alterado com muito mais rapidez do que os sons
A situação social na qual a frase é dita é o segundo e as palavras que compõem uma língua. Há sig-
contexto que nos auxiliará na decodificação do nos que caem em desuso, como o espartilho, e há
signo e da mensagem. Ainda no mesmo exemplo, outros que são introduzidos a cada nova estação,
se estivermos em um pomar ou diante de uma bar- como as sandálias abotinadas.
raca de frutas, não teremos dúvida quanto ao sig- Quanto às regras de combinação, elas também
nificado da frase: "Aquela manga está verde:'. Outro são variáveis. Hoje é possível usar botas e outros
exemplo de como a situação social condiciona o calçados pesados com roupas de tecidos leves,
deciframento de uma mensagem é o do aluno que criando um grande contraste. A sobreposição de
responde "Faltam dez minutos:' ao colega que lhe peças do mesmo gênero, como blusas usadas umas
perguntou as horas durante a aula. Ele sabe perfei- sobre as outras, continua na moda. Há alguns anos,
tamente bem que o colega quer saber quanto tempo isso seria inadmissível e considerado de mau gosto.
falta para a aula terminar e lhe dá essa resposta. Em relação ao uso, podemos dizer o mesmo: hoje o
Não basta, portanto, ter o domínio do código short e ojeans podem ser usados em ocasiões mais
para interpretar corretamente os signos e as men- formais. Roupas que até o final do século XX eram
sagens. É preciso ter conhecimento das situações consideradas de uso íntimo, como a combinação,
sociais, isto é, da cultura na qual a linguagem é uti- passaram a ser usadas como peça principal, à vista
lizada e a comunicação ocorre. de todos.

~ PARA SABER MAIS


Como "ler" o significado de uma fotografia? ela faz parte. Foi publicada em jornal, revista ou livro de
Em primeiro lugar, precisamos estabelecer o gênero arte? Fazparte de um álbum defamília,do acervo de uma
a que ela pertence. É uma foto jornalística, um galeria de arte, de coleção particular ou de museu?
retrato, uma paisagem urbana ou rural? É artística, ou Em seguida, devemos observar a imagem com cuidado.
seja, uma foto construida ou manipulada com finali- É uma foto posada ou é um instantãneo? Quais são os
dades artísticas? elementos com positivos, isto é,os planos, o foco, a ilumi-
Depois, precisamos contextualizá-Ia em termos tem- nação, os objetos ou as pessoas representados?
porais (quando foi tirada), espaciais (onde foi tirada) A composição da imagem oferece diversos elemen-
e autorais (quem a tirou e que significado isso tem). tos para compreender a estruturação da cena e sua
Também é importante determinar o contexto do qual intencional idade.

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A flexibilidade característica da linguagem da
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moda decorre do fato de que ela não se estabelece,
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como as línguas faladas, por meio de um processo fi'
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de cristalização social. Ao contrário, ela é ditada w
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por um pequeno grupo de costureiras, desenhis- '"


tas e editores de moda que, em uma sociedade
capitalista, incentivam mudanças que estimulem
o consumo.
No outro pala, podemos usar como exemplo
as linguagens de computador (a Visual Basie ou a
javascript, entre outras), que são fortemente estru-
turadas e bastante inflexíveis. Essas linguagens
têm um número limitado de signos e de regras de
combinação, e o computador só responderá dentro
desses limites. Por exemplo, se errarmos uma letra
de um endereço eletrônico, a mensagem não será
enviada.

~ PARA REFLETIR
Reflita sobre o funcionamento dos computadores
hoje. Em que medida as linguagens criadas espe-
cialmente para executar múltiplas funções nos aju-
dam e nos atrapalham? Eos programas específicos
que tornam essas linguagens aptas a trabalhar com
imagens e sons. Elesdão conta de tudo o que quere- Estudo para uma sibila. Michelangelo (1508-1512).
mos fazer em um computador? É possível "enganar"
uma linguagem ou um programa para que ele faça Observe a tridimensionalidade dessa
o que queremos? roupa, desenhada por Michelangelo, obtida
por meio do uso da perspectiva e do
sombreamento claro-escuro.
As linguagens artísticas constituem um meio-
-termo. Por um lado, respeitam a especificidade de
cada campo artístico; por outro, tendem a explo-
rar esse campo e as possibilidades de cada lingua-
gem até seu limite máximo. E é exatamente a essas
explorações que devemos o desenvolvimento e a QUEM É?
criação de novos estilos e técnicas. Em relação à lin- Michelangelo Buonar-
guagem do desenho, por exemplo: é possível dese- roti (1475-1564).Arquiteto, ~
nhar com cortes sobre uma tela, que seria o plano, escultor e pintor do
Renascimento italiano,
como faz o argentino Lúcio Fontana; com fios sobre
aluno de Ghirlandaio em
uma superfície; até mesmo com raios laser sobre as seu estúdio em Florença.
paredes de edifícios. Lorenzo de Mediei e o
É importante lembrar, neste ponto, que as lin- papa Júlio II foram seus
guagens só se desenvolvem em função de projetos. grandes patronos.Foi um
Michelangelo
grande gênio que domi-
As linguagens artísticas, por serem mais flexíveis, Buonarroti. Giuliano
nou o panorama artístico Bugiardinlrçzz.
podem se estruturar e reestruturar com base em do século XVI.Suas princi-
projetos específicos. No caso das artes visuais, as pais obras foram: na pintura, o teto da Capela Sistina,
regras da perspectiva só foram descobertas e usa- no Vatica no (Roma); na escultura, Davi (Academia, em
das na pintura porque o projeto do Renascimento Florença), a Pietá (Basilica de São Pedro, em Roma)
era o de retratar o mundo como ele é visto e, para e Moisés e os escravos para o túmulo do papa Júlio
11;na arquitetura, a cúpula da Basilica de São Pedro,
isso, era importante inventar uma técnica a fim de
a fachada da Igreja de São Lourenço, a Biblioteca
representar a tridimensionalidade (altura, largura Laurenciana e a Capela Medicea, em Florença, e o
e profundidade) sobre uma superfície bidimensio- Palácio Farnesiano.
nal (altura e largura).

Linguagem e pensamento Capítulo 5


li A linguagem verbal um amigo querido. O simples pronunciar de uma
palavra representa, isto é, torna presente à nossa
Como o ser humano é o único capaz de criar consciência o objeto a que ela se refere. Não pre-
signos arbitrários, podemos dizer, com Georges cisamos mais da existência física das coisas: cria-
Gusdorf, que a palavra é a senha de entrada no mos, por meio da linguagem, um mundo estável de
mundo humano. Por isso, vamos examinar em ideias que nos permite lembrar o que já foi e proje-
maior profundidade o que é a linguagem verbal. tar o que será. Dessa forma, é instaurada a tempo-
A linguagem é um sistema simbólico. O ser ralidade no existir humanó. Pela linguagem, o ser
humano cria símbolos, isto é, signos arbitrários em humano deixa de reagir somente ao presente, ao
relação ao objeto que representam, e que são con- imediato; passa a poder pensar o passado e o futuro
vencionais: para serem usados precisam ser acei- e, com isso, a construir o seu projeto de vida.
tos por todos os membros da sociedade. Tomemos Por transcender ou ir além da situação con-
a palavra "casa". Não há nada no som nem na forma creta, o fluir contínuo da vida, o mundo criado
escrita dessa palavra que nos remeta ao objeto por pela linguagem se apresenta mais estável e sofre
ela representado (cada casa que, concretamente, mudanças mais lentas do que o mundo natural.
existe em nossas ruas). Designar esse objeto pela Pelas palavras, podemos transmitir o conheci-
palavra "casa", então, é um ato arbitrário. Como mento acumulado por uma pessoa ou sociedade,
não há relação alguma entre o signo "casa" e o podemos passar adiante essa construção da razão
objeto por ele representado, necessitamos de uma que se chama cultura.
convenção, aceita pela sociedade, de que aquele
signo representa aquele objeto. Só a partir dessa
aceitação podemos nos comunicar, sabendo que, S Funções da linguagem
ao usarmos a palavra "casa", nosso interlocutor
entenderá o que queremos dizer. A linguagem, E para que servem as linguagens?
portanto, é um sistema de representações aceito O linguista contemporâneo Roman ]akobson
por um grupo social que possibilita a comunicação propôs uma abordagem das funções comunica-
entre os integrantes do grupo. tivas da língua verbal bastante ampla que tam-
Porque o laço entre representação e objeto bém pode ser usada para as demais linguagens.
representado é arbitrário podemos dizer que ele é Na década de 1950, após ter conhecido os traba-
necessariamente uma construção da razão, isto é, lhos de Charles Peirce, percebeu a necessidade de
uma invenção do sujeito para poder se aproximar uma semiótica que firmasse a linguagem como ele-
da realidade. A linguagem, portanto, é produto da mento de comunicação humana por excelência.
razão e só pode existir onde há racionalidade.
A linguagem é um dos principais instrumentos
II'QUEME?
na formação do mundo cultural porque nos per-
Roman Jakobson nasceu em Moscou, em 1896.
mite transcender nossa experiência. No momento Em 1914, inscreveu-se no Instituto de Eslavística
em que damos nome a qualquer objeto da natureza, da Universidade de Moscou, onde a linguística
nós o individuamos, o diferenciamos do resto que o era a disciplina básica. Seus estudos de literatura
cerca; ele passa a existir para a nossa consciência. abrangeram os textos escritos, a poesia oral e o
folclore. Em 1916, com outros estudantes, fundou
Com esse simples ato de nomear, distanciamo-nos
o Círculo Linguístico de Moscou. Em 1920, foi para
da inteligência concreta animal, limitada ao aqui e Praga, onde deu continuidade às suas pesquisas,
agora, e entramos no mundo do simbólico. O nome que o levaram a definir o fonema como unidade
é símbolo dos objetos que existem no mundo natu- autônoma. Em 1939, refugiou-se da perseguição
ral e das entidades abstratas, que só têm existência nazista na Dinamarca, indo, mais tarde, para os
Estados Unidos, onde lecionou em Harvard e no
no nosso pensamento (por exemplo, ações, estados
Massachussetts Institute ofTechnology (MIT). Seus
ou qualidades, como tristeza, beleza, liberdade). conceitos estão até hoje presentes na sem iótica
O nome tem a capacidade de tornar presente para da cultura. Jakobson morreu nos Estados Unidos,
nossa consciência o objeto que está longe de nós. em 1982.
O nome, ou a palavra, retém na nossa memó-
ria, enquanto ideia, aquilo que já não está ao alcan-
ce dos nossos sentidos: o cheiro do mar, o perfume Transcender. No contexto, significa ir além de.
do jasmim numa noite de verão, o toque da mão Semiótica. Teoria geral dos signos.
da pessoa amada, o som da voz do pai, o rosto de

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Jakobson distingue seis fatores fundamentais na forma. A mensagem poética ou estética é sempre
comunicação verbal que dão origem a seis funções estruturada de maneira ambígua em relação ao
linguísticas diferentes. Esses fatores podem ser esque- código que lhe é subjacente, como veremos com
maticamente representados da seguinte forma: mais profundidade na Unidade 7, "Estética".
Na verdade, essas funções não se apresentam
Contexto separadamente em cada mensagem, mas com-
binam-se entre si. A diversidade das mensagens
Emissor Mensagem Destinatário depende da hierarquização das várias funções, com
predominância de uma sobre as demais.
Contato. Considerando a linguagem do ponto de vista
funcional, Jakobson dá conta não só dos aspec-
Código tos cognitivos da língua, mas também de aspectos
afetivos que fazem parte de quase toda situação
comunicacional.
Esse esquema corresponde a outro, das funções da
Ampliando essas funções para outras lingua-
linguagem originadas por cada um desses fatores:
gens, podemos dizer que tanto a linguagem da
moda quanto as obras de arte expressionistas
Referendal (como o desenho Fototropismo do início do capí-
tulo) fazem uso da função expressiva. Já os manuais
Expressiva Conativa técnicos e todas as obras realistas apresentam uma
preponderância da função referencial. A propaganda,
Fática as preces e a arte romântica estão centradas sobre o
destinatário, tendo função conativa. A introdução de
Metalinguística qualquer peça musical ou o apagar das luzes numa
encenação teatral tem o-objetivo de testar ou estabe-
Explicando: lecer o contato com o destinatário, realizando, por-
tanto, a função fática. Quando fazemos uma paródia,
• A função referencial é orientada para o contexto
estamos usando a função metalinguística; o mesmo
da comunicação, isto é, refere-se ao que está
acontece quando adaptamos um texto para teatro
ao nosso redor, como as afirmações: "Hoje faz
ou cinema. Já a função poética necessariamente está
frio:'; "Isto é uma entrevista:'; "Este sapato está
presente em todas as obras de arte.
apertado:'.
Agora, podemos responder para que serve uma
• A função expressiva ou emotiva está centrada linguagem: para nos comunicarmos com os outros
no emissor que declara sua atitude afetiva sobre seres humanos de hoje, do passado e do futuro; para
o assunto do qual está tratando, por exemplo, a expressar nossos afetos positivos ou negativos;
poesia lírica ou os xingamentos. para falar da realidade que nos circunda; para des-
pertar uma reação no destinatário; para discutir o
• A função conativa é orientada para o destina-
código que estamos usando ou outro qualquer; para
tário, invocando-o ("Ei, você aí!") ou dando-lhe
reafirmar o contato com o outro, sem o que não
uma ordem.
haverá comunicação; e para fazer arte. Dispomos
• A função .fática tem por objetivo estabelecer, man- de toda essa riqueza quando temos o domínio de
ter ou interromper a comunicação (as expressões uma ou de várias linguagens.
"bem", "pois é" ou "escutá' usadas no início da
frase, sem ligação com o que vem depois).
• Na função metalinguistica a mensagem discute 9 Linguagem, pensamento
o uso do próprio código, esclarecendo-o, como e cultura
quando perguntamos o significado de uma pala- Do mesmo modo, como existem diversos tipos
vra. Também pode ser o caso de uma linguagem de linguagem, existem diversos tipos de pensa-
comentar outra linguagem, como a leitura de mento. Há o pensamento concreto, que se forma
uma obra de arte. a partir da percepção sensível, ou seja, da repre-
• A função poética é aquela que visa à mensa- sentação de objetos reais, e é imediato, sensível e
gem em si, colocando em evidência sua própria intuitivo; e o pensamento abstrato, que estabelece

Linguagem e pensamento Capítulo 5 [j


relações (não perceptíveis), que cria os conceitos nós percebemos somente se há neve ou não. Mesmo
e as noções gerais e abstratas, é mediato (precisa porque a neve é uma presença quase contínua para o
da mediação da linguagem) e racional. Por exem- esquimó e um evento raríssimo no Brasil.
plo, percebemos algumas laranjas sobre a fruteira, Outro exemplo interessante é a expressão "ter
num espaço dado, com disposição, cor e odor paciência', usada na língua portuguesa, e a expressão
determinados. Essa percepção, portanto, é con- japonesa "fazer paciência'. Usar o verbo "ter" significa
creta, sensível (as laranjas estão ali), imediata (dis- que a paciência já existe dentro de nós, em estoque
pensa raciocínio) e individual (é daquelas laranjas). maior ou menor; quando se usa o verbo "fazer", entre-
Já quando realizamos a soma 4 + 4, estamos lidando tanto, indicamos que a paciência não habita dentro
com uma noção geral de quantidade. Não encontra- de nós, que precisamos de uma ação voluntária para
mos o número 4 na natureza. Encontramos uma certa "criar" paciência. São modos culturais diferentes de
quantidade de laranjas, abacates, meninos etc., repre- lidar com um sentimento.
sentados abstratamente pelos números que são cons- Podemos dizer que a estruturação da língua
trução da nossa razão (veremos as questões relaciona- influencia a percepção da realidade e os níveis de
das ao conhecimento na Unidade 3). abstração e generalização do pensamento, como
Leia o que afirma o filósofo polonês Adam Schaff: afirma Adam Schaff."
Outros tipos de linguagem, entrefanto, em espe-
cial as linguagens artísticas, são mais adequados ao
[...] o processo de pensamento como processo cognitivo
pensamento concreto, como veremos na Unidade 7,
se verifica não só com o auxílio de meios linguísticos
quando tratarmos da arte como forma de pensa-
(signos verbais), mas também em unidade orgânica
mento e conhecimento. O pintor, por exemplo, está
com os processos linguísticos. Poder-se-ia muito bem
permutar as expressões "pensar" e "experimentar
mais ligado ao mundo visual das cores e formas do
processos linguísticos", pois em ambos os casos nos
que ao mundo dos conceitos.
referimos ao mesmo processo de pensar, com a única Além de estruturar o pensamento, a linguagem
diferença de ênfase em um de seus aspectos.' mantém estreita relação com a cultura. Se, por um
lado, as várias linguagens fixam e passam adiante
os produtos do pensamento sob a forma de ciência,
Para cada tipo de pensamento, há um tipo de lin- técnicas e artes, elas também sofrem a influência das
guagem mais adequado. Vejamos. modificações culturais. Nas línguas há modifica-
Para o pensamento abstrato e conceitual, que se ções semânticas e de repertório a partir das novas
afasta do sensível, do individual, a língua se apresenta descobertas e do desenvolvimento da técnica. Nas
como condição necessária, por ser um sistema de sig- artes, a reestruturação da linguagem responde a
nos simbólicos que, como já dissemos, nos permite ir mudanças de valores, de anseios e de buscas no
além do dado vivido e construir um mundo de ideias. seio da cultura de cada sociedade.
Ora, cada língua possui uma estruturação pró-
pria quanto ao repertório e às regras de combinação
e de uso. Isso quer dizer que cada língua organiza a • A importância da linguagem
realidade de modo diferente de outra, pois estabe- Sabemos que a linguagem é um produto bas-
lece repertório e regras diferentes. tante sofisticado que só a razão humana pode criar.
Exemplo clássico é a língua dos esquimós (inuíte), Por isso, sua aquisição é um marco referencial da
que tem seis nomes diferentes para designar vários humanidade. A linguagem é simbólica, estruturada,
estados da neve. Em português, temos apenas a pala- adequada à cultura dentro da qual se desenvolve,
vra "neve". Outras alternativas não são previstas em apropriada ao tipo de pensamento que vai comuni-
nossa língua. O fato importante de ser ressaltado, car ou expressar. Ela permite que o ser humano vá
entretanto, é que se uma língua tem um maior número além do mundo vivido, do presente, para o mundo
de palavras para recortar a realidade, a existência des- das ideias, da reflexão; permite que ele ultrapasse
sas palavras leva a uma percepção diferente da reali- sua realidade de vida e entre no mundo das possi-
dade. O esquimó percebe os diferentes estados da neve bilidades. Que exerça, enfim, a atividade produtiva
(recém-caída, cristalizada, começando a derreter), e de criar sentidos para o mundo e para sua vida.

SCHAFF, Adam. Introdução à semântica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 281-282.
SCHAFF, Adam. Linguagem e conhecimento. Coimbra: Almeida, 1974. p. 252 .

. .J Unidade 2 Antropologia filosófica


Série Bibliotheca,
Rosângela
Rennó,1960.

Do ponto de vista icônico, esta fotografianos encarregadas de zelar pelo bem-estar e pela
mostra uma cena ainda hoje familiar e cotidiana: segurança de crianças. Isso, somado ao contexto
uma mulher negra, adulta, sentada entre duas histórico do Brasil e ao fato de a mulher ser
crianças brancas, com o braço direito passado negra e as crianças brancas de cabelos claros,
ao redor do menino menor, enquanto a menina, nos permite concluir que não se trata de uma
mais velha, sorri para a câmera. Os bobes na família, e que a mulher é uma empregada que
cabeça da mulher, cobertos por um lenço, e o cuida das crianças. O local em que a foto foi
modelo dos vestidos dela e da menina revelam tirada, um quarto com cama de casal, sugere
que a foto foi tirada no inicio da década de 1960. a intimidade das relações entre crianças e
Do ponto de vista indicial, o próprio meio - a empregada. Por outro lado, essa foto é simbolo
fotografia - indica a existência dessas pessoas de um tipo de relação social, entre a "mãe preta"
em frente à câmera, no momento em que a foto e as crianças brancas, iniciada na época da
foi batida. Já o risco laranja que corta a foto escravidão, e que ainda persiste na sociedade
em diagonal indica a passagem do tempo: é brasileira contemporânea, especialmente na
uma quebra, uma rachadura na superfície da classe média.
foto, ocasionada provavelmente por condições Baseando-se no que vimos até aqui, reflita
climáticas e de mau acondicionamento. e responda: como a composição da imagem
Do ponto de vista simbólico, podemos fazer intervém em sua decodificação? Qual a principal
várias outras interpretações: a postura da função das fotos nos álbuns de família? Escreva
mulher abraçando o menino pequeno revela suas conclusões e aplique-as na prática,
uma atitude de proteção comum às pessoas fazendo a leitura de uma foto de sua família.

QUEM É?
Rosângela Rennó (1962).Nasceu em Belo Horizonte (MG), Appel Foundation, na Holanda; em
onde cursou a Escola de Arquitetura da Universidade 1996, apresentou a exposição A cica-
Federal de Minas Gerais (UFMG) e Artes Plásticas na triz, no Museum of Contemporary
EscolaGuignard, formando-se em 198]. Fezdoutorado em Art, de LosAngeles, Califórnia (EUA).
Artes na Escolade Comunicações e Artes da Universidade Em 2003, foi uma das artistas da
de SãoPaulo (ECA-USP).Desdeo início da carreira se devo- representação brasileira na Bienal
tou à fotografia, opera ndo intervenções sobre negativos deVeneza.
já existentes, montando objetos, usando fotos já pron- Em 1995, foi contemplada com
tas. Começou a expor individualmente em 1989,em Belo uma bolsa da Civitella Ranieri
Horizonte, com a mostra Anticinema - Veleidades foto- Foundation, sendo artista residente
gráficas. Em 1991-92 apresentou A identidade em jogo, em Umbertide (Itália). Ganhou
no Centro Cultural São Paulo; em 1994, Humorais e rea- . vários prêmios ao longo de sua carreira e tem obras em
lismo fantástico, no Rio de Janeiro; em 1995,expõs na De museus e coleções brasileiras e estrangeiras.

Linguagem e pensamento Capítulo 5


Leitura complementar
Leia o texto e responda às questões a seguir.

Papo-furado
"- Iminência ...
- Você quer dizer 'eminência'.
-o quê?
- Você disse 'iminência'. O certo é 'eminência'.
- Perdão. Sou um servo, um réptil, um nada. Uma
sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu
quis dizer 'iminência'.
- Mas está errado! O tratamento correto é 'eminência'.
- Não duvido da sua eminência, monsenhor, mas o
senhor também é iminente. Ou uma eminência iminente.
- Em que sentido?
- No sentido filosófico.
- Você tem dois minutos para explicar, antes que
eu o excomungue.
- Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num
eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem
que seja só o próximo segundo. Na iminência do que virá,
seja o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como - É um emigrante quando sai de um país e um imi-
um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois grante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.
o que somos nós, todos nós, se não expectativas? - Pois então? Muitas vezes a distância entre um 'e'
- Você, então, se acha igual a mim? e um 'i' pode ser um oceano. E garanto que você terá
- Nesse sentido, sim. Somos coiminentes. muitos problemas na vida se não souber diferenciar um
- Com uma diferença. Eu estou na iminência de ônus de um ânus.
mandar açoitá-Io por insolência, e você está na iminên- - Isso são conjunturas.
cia de apanhar. - Você quer dizer 'conjeturas'.
- O senhor tem esse direito hierárquico. Faz parte - Não, conjunturas.
da sua eminência. - Não é 'conjeturas' no sentido de especulações,
- Admita que você queria dizer 'eminência' e disse su posições, hi póteses?
'iminência". E recorreu à filosofia para esconder o erro. - Não. 'Conjunturas' no sentido de situações,
- Só a iminência do açoite me leva a admitir que momentos históricos.
errei. Se bem que ... - Você queria dizer 'conjeturas' mas se enganou.
- Se bem quê? Admita.
- Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que - Eu disse exatamente o que queria dizer, monse-
nada. Um cisco no seu santo olho, monsenhor. Mas é tão nhor.
pequena a diferença entre um 'e' e um 'i' que o protesto - Você errou.
de vossa iminência soa como prepotência. Eminência, - Não errei, iminência.
iminência, que diferença faz uma letra? - Eminência! Eminência."
-Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emi- VERISSIMO,Luis Fernando. o Estado de S. Paulo,19 jul. 2008.
grante não é um imigrante. Caderno D. p. 16.

~ Questões
11 Localize as falas que fazem uso da função meta- IJ A linguagem usada no texto está no registro culto
linguística e justifique suas escolhas. ou popular? Por quê?
IJ Existe alguma expressão com função fática no 11 Procure no texto os termos e as frases que indicam
texto? Explique por quê. a hierarquia entre os dois falantes.

_ Leitura complementar Unidade 2


> Revendo o capitulo b) quem a criou;
c) qual o repertório de sons;
D Por que se pode dizer que a aquisição da lingua-
d) como eles podem ser combinados entre si;
I gem é a senha de entrada no mundo humano?

11 Por que são criadas e) quem a introduziu no Brasil;

II
linguagens de diferentes tipos?
f) quais as transformações pelas quais passou;
Para que elas servem?
g) suas influências na música popular contem-
11 Descreva o processo de significação.
porânea.

> Aplicando os conceitos


> Caiu no vestibular
11 Cite algumas regras de combinação da língua
11 (Fuvest-SP)
portuguesa: regras da escrita e regras de concor-
dância. Procura da poesia
"Não faças versos sobre acontecimentos.
11 Qual a relação entre as regras de uso de uma lín-
Não há criação nem morte perante a poesia.
gua e a cultura na qual ela é usada?
Diante dela a vida é um sol estático,
11 Identifique a função das seguintes mensagens e
não aquece nem ilumina.
justifique sua resposta:
L..J
a) "Colombo! Feche a porta de seus mares ... "
(Castro Alvas) Penetra surdamente no reino das palavras.
b) "Telefone para 0800-XXXX, adquira o seu pro- Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
duto Y e ganhe um frasco de perfume, um CD de Estão paralisados, mas não há desespero,
música eletrônica e um boné. Mas, compre já!" há calma e frescura na superfície intata.
c) Você é um idiota completo! Pensa que pode Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
fazer o que lhe dá na telha, sem pensar nas
L..J"
consequências?
d) Não entendi. O que isso quer dizer? Carlos Drummond de Andrade.
A rosa do povo.
e) Presta atenção! Estou falando com você!
f) Vou lhe contar um segredo. Ontem, depois da No contexto do livro, a afirmação do caráter ver-
festa da Chris, eu fiquei com um cara de fora bal da poesia e a incitação a que se penetre "no
da cidade. reino das palavras", presentes no excerto, indi-
cam que para o poeta de A rosa do povo,
11 Faça o mesmo com este poema de Décio Pignatari,
a) Praticar a arte pela arte é a maneira mais eficaz
capa da obra Poesia, pois é, poesia. São Paulo: Ateliê
de se opor ao mundo capitalista.
Editorial, 2004.
b) A procura da boa poesia começa pela estrita

0 0 e s GJ observância
guagem.
da variedade padrão da lin-

0 0 s O é c) Fazer poesia é produzir enigmas verbais que


não podem nem devem ser interpretados.
0 O E S A
d) As intenções sociais da poesia não a dis-
pensam de ter em conta o que é próprio da
> Pesquisa linguagem.
e) Os poemas metalínguístícos, nos quais a poe-
11 Faça uma pesquisa sobre a linguagem da música sia fala apenas de si mesma, são superiores
dodecafônica: aos poemas que falam também de outros
a) quando ela surgiu; assuntos.