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ORLANDI, Eni Puccinelli.

Processo de descolonização linguística: as


representações da língua nacional1. In: GALVES, Charlotte; GARMES, Helder;
RIBEIRO, Fernando Rosa. (org.). África-Brasil: caminhos da língua portuguesa.
Campinas/SP: Unicamp, 2009, p. 2011-223.
Introdução
A língua não é uma, a língua não é uma, as línguas mudam, as línguas entram
em contato, desaparecem, criam-se novas, estão sempre em movimento. Mas
as línguas não são objetos etéreos. São fato social, histórico, são praticadas,
funcionam em condições determinadas, fazem história. As práticas simbólicas,
que são as línguas, funcionam pelo político. Relações de poder regem seu
funcionamento e é impossível pensa-las fora dessas condições que, para
resumir, eu chamaria de político-históricas. Em diferentes momentos da história
as relações de poder se organizam e declinam de modo diferente suas relações
com a língua e entre as línguas. (ORLANDI, 2009, p. 211).
Quando pensamos a questão África-Brasil, não podemos deixar de
pensar que temos algumas coisas em comum e, entre elas, não é pequena a
relação com a colonização portuguesa e com as línguas que praticou esta
colonização. Isso não significa que nossas diferenças não se imponham. E é da
representação dessas semelhanças e diferenças que vamos falar. (ORLANDI,
2009, p. 211).
Tenho-me interessado pela questão da colonização desde muito tempo.
Comecei observando a relação estabelecida pela sociedade nacional brasileira
com os índios. E para melhor compreendê-la tomei dois caminhos: fis pesquisas
de campo com diferentes grupos indígenas e, por outro lado, pesquisei em
arquivos como se documentavam as relações estabelecidas com os índios
desde o século XVI ou, mais recentemente, o que produziu o trabalho linguístico-
missionário do Summer Institute of Linguistics (SIL) com as culturas indígenas
em nosso país. Nosso centro de atenção era a língua, ou as línguas. (ORLANDI,
2009, p. 212).
Dediquei-me, então, a compreender as noções de língua que
sustentavam essas reflexões e identifiquei (1985) o que chamei de língua
imaginária e língua fluida. Interessava-me distinguir justamente a representação

1Outra versão deste texto foi publicada na revista Línguas e Instrumentos Linguísticos, nº 19,
2007. Há entre as versões diferenças que vale a pena tomar em conta.
imaginária da língua que falamos, representação que produz uma língua
normatizada, una, estabilizada, inexistente, idealizada, mas que é um
instrumento importante na reflexão do linguista. E a língua fluida, esta que nos
atrai, nos desafia em sua compreensão, já que não tem limites, não tem regras,
é movimento contínuo, inapreensível como tal. É a normatização dessa língua
que nos leva à necessidade de desembarcar, classificar, nomear distintos
estados de língua: língua materna, língua nacional, língua oficial. E aí podemos
nomear “nossa” língua de colonização, a língua portuguesa. Mas não estacionei
aí. (ORLANDI, 2009, p. 212).
Em um trabalho que muito me agrada – Terra à vista (1990) – procurei
compreender as formas e os meios do processo de colonização e considerei
então o que chamei de acontecimento linguístico da colonização. Em seguida,
passei a produzir uma reflexão que mostrasse a especificidade tanto da história
como da própria forma de nossa língua, língua nacional, a língua brasileira.
(ORLANDI, 2009, p. 212, grifo da autora).
Em um texto que tem por título justamente “A língua brasileira” (1993),
descrevo três passos que constituem a passagem para um processo que
denomino de historicização da língua da colonização. São três movimentos
enunciativos: em um primeiro momento temos um investimento na relação
palavra-coisa, sendo que a questão incide sobre o referente: na presença de um
nome, estamos diante da mesma coisa (no Brasil e em Portugal)? A partir de sua
memória, o português colonizador reconhece as coisas, os seres, os
acontecimentos, e os nomeia. É a situação enunciativa I. Como estamos no
Brasil, esse “transporte” produzido pela memória força contornos enunciativos
diferenciados. Essa diferença se torna cada vez mais uma diferença de língua –
relação palavra-palavra – e não palavra-coisa. Daí resulta todo um trabalho
sobre a língua: de classificação, de organização, de definições em dicionários.
O português, assim transportado, acaba por estabelecer em seu sítio próprio de
enunciação outras relações palavra-coisa, cuja ambivalência pode ser lida (no
Brasil /em Portugal). Tem início, então, a produção de um espaço de
interpretação com deslizamentos, efeitos metafóricos que historiciza a língua.
Produzem-se transferências, deslocamentos de memória, pois estamos diante
de materialidades discursivas que produzem efeitos de sentidos diferentes.
Configura-se assim uma situação enunciativa II. De novo, em um movimento de
saber paralelo ao anterior, a construção discursiva do referente cede lugar à
distinção, à classificação. A língua praticada aqui realiza, então, deste lado do
Atlântico, a relação unidade-variedade: a unidade agora não se refere mais ao
português do Brasil e ao de Portugal, mas a sua unidade e às variedades
existentes no Brasil. Há um giro no regime da universalidade da língua
portuguesa que passa a ter sua referência no Brasil. A isso que denominamos
historicização da língua. Nessas condições, a variação não tem com referência
Portugal, porém a diversidade concreta produzida neste território, que é o Brasil,
na convivência de povos de línguas diferentes (a indígena, a africana, a de
imigração etc.) aqui. (ORLANDI, 2009, p. 212-213, grifo da autora).
Esse fato da historicização da língua concorre para o que trataremos aqui
como processo de descolonização linguística, que pode ser definido como esse
imaginário no qual se dá também um acontecimento linguístico, desta vez
sustentado no fato de que a língua faz sentido em relação a sujeitos não mais
submetidos a um poder que impõe uma língua sobre sujeitos de uma outra
sociedade, de um outro Estado, de uma outra nação. Se, na colonização, o lugar
de memória pelo qual se significa a língua e seus falantes é Portugal, no
processo de descolonização essa posição se inverte, e o lugar de significação é
deste lado do Atlântico, com sua memória local. A descolonização, assim como
a colonização, tem a ver com o modo como as sociedades se estruturam
politicamente em relação aos países, aos Estados, às nações, às tribos. Isto é,
tanto a colonização como a descolonização aos fatos da relação ente a unidade
necessária e a diversidade concreta em um mesmo território. Relação da língua
fluida e da língua imaginária. (ORLANDI, 2009, p. 213-214, grifo da autora).
Se assim é, em nosso caso, de colonização portuguesa (e aqui me refiro
aos vários países de colonização portuguesa), assim como há o processo de
colonização, há o de descolonização (E. Orlandi, 2001), com suas condições
que, embora diversas, marcam este acontecimento linguístico – o da
historicização de sua língua de acordo com suas condições e as condições em
que funciona sua memória linguística. Assim, pensamos que, em consequência,
também a noção de lusofonia deve ser redefinida. (ORLANDI, 2009, p. 214).
Falaremos de uma representação da colonização portuguesa no Brasil e,
em seguida, das condições de descolonização linguística e das que marcam um
deslocamento da noção de lusofonia. Nesta variação de línguas sem um centro
que organize. Falaremos de um processo específico de descolonização
linguística, que a gramatização das línguas submetidas ao processo de
colonização. A gramatização, ou melhor, a endogramatização (Auroux, 1994)
torna visível a historicização da língua e pode ser considerada como um
instrumento no processo de descolonização, pois ter uma gramática que é sua
(feita por brasileiros e para brasileiros) pode ser um documento de “identidade”
linguística. (ORLANDI, 2009, p. 214).

Representação de uma forma de colonização: a inscrição das línguas nos relatos


dos missionários

Os discursos dos missionários e de viajantes europeus no Brasil (E. Orlandi,


1990) apresentam-se como o lugar de divisão de sentidos onde podemos
observar:
(a) o modo como os europeus sistematizam suas novas experiências e seus
conhecimentos produzindo sentidos onde ainda não havia sentidos
estabelecidos; e
(b) a construção de um discurso “outro”, um discurso sobre a origem, para os
brasileiros. (ORLANDI, 2009, p. 214)
Os materiais que analisamos (E. Orlandi, 1990) – relatos de missionários
capuchinhos franceses, de Jean de Léry e de viajantes como Hans Staden, Wied
Neuwied, entre outros – mostram a aliança de três discursos produzidos: o da
ciência, o da política social e o da religião, que são três modos de domesticar a
diferença: o primeiro pelo conhecimento, o segundo pelos processos de
mediação e o terceiro pela salvação. A ciência torna o mundo observável e sua
cultura lisível; a política social torna-o administrável e a religião torna-o
assimilável. (ORLANDI, 2009, p. 215).
Cabe perguntar o que acontece com a língua nessas condições. Que
línguas nós apagamos para ter UMA língua nacional? Empreendendo a (des)
construção desse apagamento, nossa análise nos permitiu tornar visíveis os
traços da história do tupi e do português. Para isso, nós distinguimos, como
dissemos acima, duas concepções de língua (idem, 1990): a língua imaginária e
a língua fluida. A língua imaginária é a que os analistas fixam com suas
tematizações, e a língua fluida é a que não se deixa imobilizar nas redes de
sistematizações e das fórmulas. Há vários modos de produção da língua
imaginária e seus produtos são bastante diferentes: a língua-mãe (o indo-
europeu), a língua ideal (a lógica), a língua universal (o esperanto) e, no caso
brasileiro, a língua geral (o tupi-jesuítico). (ORLANDI, 2009, p. 215)
Os missionários disciplinaram o tupi sob o modelo do latim, a fim de
instalar seu poder de controle sobre os índios e seu poder de negociação com o
governo português. Eles reproduziram uma língua imaginária que adquiriu,
entretanto, uma realidade como projeto de Estado, pois ela se instituiu em língua
de uso geral, historicizando-se. (ORLANDI, 2009, p. 215).
Os relatos dos missionários mostram que a forma com que eles obtinham
os dados e os apresentavam já era uma maneira de fabricar uma língua e de
instituir uma relação determinada com ela e seus locutores. Se adotarmos a
perspectiva da história das ciências, podemos dizer que a forma como a
pesquisa das línguas dos índios é representada e, sobretudo, o modo como a
coleta de dados se faz, estigmatiza a língua indígena como incapaz de
desenvolvimento interno, matéria inerte, sem história, como uma língua que não
é somente incapaz de influenciar outras línguas, mas, ainda mais, ela é rígida,
simples e pobre. (ORLANDI, 2009, p. 215).
Quanto aos viajantes, a imagem da língua que eles produziram não difere
muito da dos missionários, ainda que suas finalidades fossem um pouco
diferentes no imediato: tratava-se, no seu caso, de construir um conhecimento
menos utilitário, mais centrado nele mesmo. (ORLANDI, 2009, p. 216).
Em geral, eles não reproduziram uma linguística ou uma gramática, mas
uma etnografia. Mesmo não estritamente codificados sob o modo do
conhecimento científico, os saberes produzidos pelos relatos do período colonial
sob o germe de uma ciência que se explicitaria no século XIX, ou mesmo antes,
se pensarmos nas Considerações de De Gerando. (ORLANDI, 2009, p. 216).
No início do século XIX o interesse pelas línguas continuava a ser dos
estrangeiros, mas não se tratava mais dos religiosos, porém dos naturalistas.
Tratava-se de traçar os contornos do patrimônio universal, (natural): determinar,
descrever, tornar disponível, recensear a presença de suas diferentes espécies
e apreciar suas qualidades naturais. Construir bases de dados disponíveis.
(ORLANDI, 2009, p. 216).
Falta dizer que, tanto na época colonial como no início do século XIX, o
interesse pelas línguas e seu estudo foi um fato de estrangeiros (religiosos ou
não), e a direção do olhar era da Europa para o Brasil. Não foi senão com Dom
Padro II, atraído pelo romantismo, que a direção desse olhar mudou e foi da
América para a Europa. Depois, a partir do século XIX, a produção do
conhecimento sobre a língua passou a ser um fato dos brasileiros sobre sua
língua, como veremos em seguida. (ORLANDI, 2009, p. 216).

O século IXI: a independência do Brasil e a gramatização de sua língua

O século XIX caracteriza-se, em relação à língua, pelo período de sua


gramatização. Gramatização deita de brasileiro para brasileiros. O que
significava no Brasil do século IXI gramatizar, ser autor de gramática?
(ORLANDI, 2009, p. 216).
Ser autor de gramática no século XIX no Brasil era assumir a posição de
um saber linguístico que não reflete apenas o saber gramatical português (E.
Orlandi, 2001). Nessa época, a do surgimento da República, não era suficiente
para os brasileiros saber a língua; era preciso, do ponto de vista institucional,
que eles soubessem que saibam. Dessa perspectiva, a gramática era o lugar
onde se instituiu a visibilidade desse saber legítimo para a sociedade brasileira.
Quando eles deslocavam a função autor da gramática para o território brasileiro
- mesmo se a gramática, na maior parte das vezes continuasse a se chamar
gramática portuguesa (cf. Júlio Ribeiro, 1881) ou gramática da língua portuguesa
(cf. Pacheco Silva e Lameira de Andrade, 1887) -, o que os gramáticos brasileiros
deslocavam era a autoridade de dizer “como” é sua língua. Ser autor de uma
gramática era ter o lugar da responsabilidade enquanto intelectual e uma posição
de autoridade em relação à singularidade do português do Brasil. Os brasileiros
nesse momento estavam se desembaraçando de sua origem portuguesa.
(ORLANDI, 2009, p. 216-217).
A unidade do Estado se materializa em várias instâncias institucionais,
entre as quais a construção da unidade da língua, de um saber sobre ela e os
meios de seu ensino (criação de escolas e seus programas), que ocupa um lugar
primordial. Como objeto histórico e instrumento linguístico disponível para a
sociedade brasileira, a gramática é, assim, um lugar de construção e de
representação dessa unidade (Língua/Nação/Estado) brasileira, através do
conhecimento. (ORLANDI, 2009, p. 217).
Quando assumiram para eles a função autor, os primeiros gramáticos
brasileiros, como Júlio Ribeiro, João Ribeiro, Maximino Maciel, Lameira de
Andrade e Pacheco Silva, entre outros, participaram da construção do Estado
brasileiro. A história da língua e a produção de objetos/instrumentos para a
sociedade, o conhecimento sobre ela mesma, assim como sobre aqueles que a
praticam (os cidadãos), estão inextricavelmente ligados. O processo brasileiro
de gramatização do português constitui, assim, um saber sobre a língua e suas
singularidades e agencia a historicização da língua no território nacional do
Brasil. Júlio Ribeiro, por exemplo, quando define a gramática como “exposição
metódica dos fatos da língua”, rejeita a tradição estabelecida pelo português
Jerônimo Soares Barbosa e considera que o que este faz é uma “metafísica”.
Isso constitui um gesto fundador que construiu uma filiação à qual os gramáticos
brasileiros farão referência sistemática. (ORLANDI, 2009, p. 217).
Assim, a identidade linguística, a identidade nacional, a identidade do
cidadão na sociedade brasileira conta entre os componentes de sua formação a
gramatização no século XIX: produz-se um saber sobre a língua e estabiliza-se
a língua, e produz-se o gesto de apropriação legítima dessa língua. (ORLANDI,
2009, p. 218).
A gramatização legitimou, ao mesmo tempo, a relação dos brasileiros com
a escrita. Temos uma língua, uma gramática e sujeitos brasileiros de nossa
escrita. Com a função autor dos gramáticos (e os letrados, os historiadores, os
políticos brasileiros etc.) o século XIX foi, entre outras coisas, um momento
intelectual que definiu em que direção pensar a língua, suas instituições e seus
sujeitos, assim como a escrita (“Escrever como se fala no Brasil e não como se
escreve em Portugal”, diz Macedo Soares). (ORLANDI, 2009, p. 218).
Com a Independência, em 1822, o Estado brasileiro estabeleceu-se de
pleno direito, e a questão da língua encontrou-se colocada em relevo. Um
exemplo claro é que, em 1826, se instaurou uma discussão a partir de um projeto
proposto no parlamento e, depois através do poder construído, para que os
diplomas dos médicos fossem redigidos em “linguagem brasileira”. (ORLANDI,
2009, p. 218).
Nos anos seguintes, e com a aproximação da República, tanto a questão
do Estado quanto a da língua brasileira tomaram uma forma mais precisa, e a
emergência das gramáticas, no século XIX, atesta o vigor dessa época e dessa
relação entre língua, sujeito e Estado. (ORLANDI, 2009, p. 218).
A gramatização do português brasileiro, além do fato de construir um
saber sobre a língua brasileira, teve por consequência algo mais substancial e
definidor: a construção de um sujeito nacional, de um cidadão brasileiro com sua
língua própria, estável, capaz de unidade e visível na gramática. O país, seu
saber, seu sujeito político-social e suas instituições se individualizaram. Trata-se
do que eu estou chamando de processos de descolonização do Brasil. Depois
dessa fase, esse contexto se modificou desde o início do século XX. (ORLANDI,
2009, p. 218).

O gramático e o linguista

Em 1900, o Estado brasileiro já se estabelecera claramente e é ele próprio a


garantia de nossa diferença em relação a Portugal. A relação dos brasileiros e
do Brasil com a língua institucionalizou-se, e a sociedade brasileira organizou-
se diante de suas necessidades de representação científica. As faculdades
foram criadas, pois a instituição escola havia adquirido sua maturidade. As
gramaticas não tinham mais por função dar forma aos difíceis limites da
identidade brasileira, mas somente mantê-los em sua configuração, o que
implicava distinguir quem conhecia a língua corretamente daqueles que não a
conheciam. Surgiram, então, numerosas gramáticas cujas diferenças não faziam
referência a função autor dos gramáticos em suas filiações, mas diziam respeito
a diferenças descritivas e analíticas: filigranas de diferenças na análise da
proposição e de complementos, epítetos x ou y etc. As gramáticas começaram
a abundar e essa profusão de função autor de gramáticas produziu o
apagamento da materialidade da função autor praticada no século XIX, que
garantia a construção conjunta de uma língua e de um Estado brasileiro.
(ORLANDI, 2009, p. 218-219).
Com a Norma Gramatical Brasileira (NGB, 1959), uma comissão a partir
de um decreto de Estado, estabeleceu a homogeneidade de uma terminologia,
desacreditando as diferentes posições dos gramáticos. Com a NGB, o Estado
brasileiro tomou em mãos a administração da relação institucional do brasileiro
com a língua nacional, via gramática, pela uniformização da terminologia. Depois
desse deslocamento, a função autor do saber sobre a língua deixou de ser uma
posição do gramático e deslocou-se para o linguista. Seria este quem daria sua
caução ao saber gramatical. O gramático, por sua vez, assumiu uma função de
guardião da norma gramatical. Seu conhecimento, na partilha quem conhece e
quem não conhece a língua, divide o que está e o que não está conforme à
norma. Consequentemente, em relação à norma, um deslizamento ideológico
aconteceu, aqui e lá, sobretudo nas escolas, que produziu o imaginário da
preservação da pureza da língua. E, na ambiguidade da ideologia da
colonização, há deslizamentos para a representação de que a língua verdadeira,
pura, é ainda a língua portuguesa de Portugal, e o brasileiro é um português mal
falado. Passamos, assim, do conhecimento concreto da língua para uma
representação imaginária da língua pura sustentada pela ideologia da
colonização. Aqueles que sucumbem a esse imaginário esquecem o processo
de gramatização que nos garantiu uma língua legítima institucionalmente desde
o século XIX, como língua nacional, oficial. Legitimidade que foi fortemente
trabalhada pelos linguistas a partir do século XX, com alguns gramáticos. Nessa
fase, o Brasil já era um país linguisticamente descolonizado. (ORLANDI, 2009,
p. 219-220).

Pela redefinição da situação da língua portuguesa no mundo contemporâneo

Não temos exatamente respostas quando se trata de pensar a relação entre


nossos países, na relação África-Brasil. Mas temos o encaminhamento de
algumas reflexões. (ORLANDI, 2009, p. 220).
Já de início podemos perguntar se há algo como a gramatização, a
endogramatização, ou seja, gramáticas feitas por autores locais, que se tenha
dado também nos países africanos de língua de colonização portuguesa, em que
condições isso se deu e para que línguas. (ORLANDI, 2009, p. 220).
Isso desloca um pouco as relações de trabalho que se têm estabelecido
até hoje entre estudos do português e das línguas africanas no Brasil e na África
e que observam, sobretudo, as relações entre as línguas no Brasil e as línguas
africanas em suas “influências” mútuas, através do português. (ORLANDI, 2009,
p. 220).
Um segundo ponto que gostaríamos de colocar é que, sem dúvida,
também é preciso considerar o fato de que tanto o Brasil como a África
sofrem/sofreram o processo de colonização e nisso talvez esteja um pouco
comum a ser considerado. Que resistências isso produziu, aqui e lá? Seria
preciso especificar e refletir sobre essas formas de resistências linguísticas e a
configuração das relações multilíngues em ambos os países. (ORLANDI, 2009,
p. 220).
O espaço de colonização africano é tão mais heterogêneo que o nosso,
do ponto de vista do contacto, da articulação de línguas. Quais as possibilidades
de se estabelecer uma relação do português, e que seja um português
historicizado em território africano, com as marcas das línguas com as quais
convive? É interessante pensar essa relação? No Brasil, sem dúvida, isso é
muito relevante, pois podemos falar em língua brasileira, prenhe dessas
relações. (ORLANDI, 2009, p. 220).
O que significa a resistência linguística em solo africano? É diferente nos
diversos países? O fato de que a relação com o Estado difere de pais para país
produz diferenças importantes nos processos de individualização da língua em
suas formas sociais? (ORLANDI, 2009, p. 220-221).
Essas questões que coloco não são questões retóricas, mas são questões
que nos têm ocupado quando refletimos sobra a situação linguística brasileira e
que sevem para eu encaminhar um primeiro comentário geral: parafraseando
Ernesto Guevara (Diários de motocicleta) – que assim se expressa sobre
América Latina: “Deixemos de estar diante de raças e línguas incertas e distintas
para constituirmos uma raça mestiça em sua pujança” –, eu diria de nossa
relação com a África: deixemos de estar diante de raças e línguas incertas e
distintas para procurarmos encontrar nossas particularidades histórico-
linguísticas, culturais e sociais. Se ideais de liberdade deram aos Estados Unidos
a sua dominância em um mundo em que, em nome da liberdade, se justificam
guerras cruéis; se o tema da igualdade se esgotou em uma experiência como a
soviética, que não conseguiu chegar ao que havia sido idealizado; se a
experiência da fraternidade se dá nos parcos resultados que tem a oferecer o
positivismo (e seus cultos à ciência que se transmutam em moralismo), talvez
esteja na relação contraditória entre liberdade, igualdade e fraternidade alguma
chance de sairmos de situações em que não nos permitem significar. Relação
contraditória essa que é própria dessa situação que estou expondo a partir da
observação do processo de descolonização. Do mesmo modo talvez seja na
tensão contínua entre unidade e diversidade que esteja a possibilidade de
construirmos algo comum. Um processo de descolonização. Aí a referência não
é mais o passado, a busca da unidade, mas o presente e as nossas diferenças
o mundo como elas se organizam. (ORLANDI, 2009, p. 221).
Desse modo, penso que a necessidade que tivemos de construir uma
unidade tem como pressuposto a colonização, e sem dúvida nossa sensibilidade
à diferenças vem da necessidade do processo de descolonização, seja ele qual
for. Isto é, certamente se dará na África de modo diferente do Brasil, mas
estamos diante da mesma realidade de países que resultam de processos de
colonização, e a língua aí desempenha um papel primordial, se pensarmos a
descolonização. (ORLANDI, 2009, p. 221).
Desse modo, e aí vem um segundo comentário: a questão da lusofonia
deve significar na direção da descolonização. Para isso temos de redefini-la. Ela
seria o sintoma de uma história de dominação que encontrou suas resistências
e que hoje se apresenta em um quadro absolutamente diferente do que se deu
no período colonial. A noção de lusofonia se aplica a situações de domínio das
línguas sob a colonização. Assim, a palavra lusofonia preserva a noção de
homogeneidade e alimenta o repertório da colonização, referido a Portugal. O
Luso é o Português. E nada temos a ver com isso. Precisamos, com a
descolonização, realçar nossa unidade em nossas diferenças: históricas,
linguísticas, culturais, sociais, nacionais e de relações internacionais. O que é
preciso é tornar visíveis essas diferenças. Falamos diferente. As relações entre
nossas línguas formam um intrincado quadro de distinções e transformações. E
essa é nossa realidade linguística atual. Não há uma unidade homogênea que
se possa chamar de lusofonia. Ela pode ser o pretexto para nos
compreendermos em nossa singularidade. Ao invés de trabalharmos um
imaginário de unidades linguísticas concretas no sentido de enriquecermos
nossas relações e nos reforçarmos em nosso processo de descolonização.
(ORLANDI, 2009, p. 221-222).
O mundo de hoje, diz Godelier (2007), saiu de três evoluções maiores,
entre elas a que se dá no pós-guerra, isto é, depois da Segunda Guerra Mundial,
nos anos de 1950. Depois de séculos de dominação, mas também de múltiplos
atos de resistência das partes das populações submetidas a essa dominação,
assistimos à decomposição e ao desaparecimento mais ou menos rápido, mais
ou menos violento, dos impérios coloniais das potencias europeias. Não é o caso
do Brasil, que já se havia independentizado no século XIX, como pudemos ver,
mas de muitos outros países. De todo modo, o que acontece é que os países se
tornaram independentes, mas não puderam organizar-se a partir de suas
histórias ancestrais. Encontraram-se em um mundo já organizado que lhes
impunha seu quadro de vida: o mundo capitalista, o mundo comunista e o
terceiro mundo. Do mesmo modo, o jogo de poder entre línguas já estava
esboçado. E o inglês já se propunha como língua internacional. A
ocidentalização já não se chama colonização e muito em breve vai chamar-se
mundialização (globalização). Com suas intrincadas relações econômicas e sua
divisão entre o norte e o sul. Jogo complicado de integração e segmentação.
Jogo de poder. Quanto mais se esforça em ter o mundo homogeneizado no plano
econômico, mais se assiste à multiplicação de novos Estados-nação e a
reafirmação das identidades locais, étnicas, religiosas ou outras, inclusive
linguísticas. O que significa nessa nova conjuntura ter uma língua nacional? Ter
uma gramática? Ter seus linguistas? Essa é a questão que nos ocupa hoje.
(ORLANDI, 2009, p. 222-223).
Assim, eu concluiria, afirmando que já não cabe falar em lusofonia, mas
refletir sobre a situação de diversidade linguística com que se apresentam hoje
os países que em um momento de sua história foram colonizados por Portugal,
que impôs sua língua, em uma relação de forças e não se sentidos. Países que
hoje têm uma configuração linguística complexa e em que contam mais as
relações de multiplicidade própria ao seu território do que a relação do que ali se
fala com o português. É essa situação que precisa de reflexão. Há uma grande
e importante desordem entre o que se pode chamar hoje de língua portuguesa
e a noção herdada de lusofonia. (ORLANDI, 2009, p. 223).

Referências bibliográficas

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