Você está na página 1de 38

UNIVERSIDADE ES TADUAL DE MATO GROSSO DO SUL

David Elprin Cipio Lopes

Espectroscopia óptica: histórico, conceitos físicos e


aplicações

DOURADOS-MS
OUTUBRO-2007
David Elprin Cipio Lopes

Espectroscopia óptica: histórico, conceitos físicos e


aplicações

Monografia ap resent ada à disciplina de


Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), do
curso de Licenciatura em Física com ên fase
em Física Ambiental da Universidad e Estadual
de Mato Grosso do Sul – UEMS, como
requisito parci al para obten ção do g rau d e
licenciado em Física.
Orientador: Pro fessor Dr. Sandro Marcio Lima

DOURADOS-MS
OUTUBRO-2007
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Física da Universidade

Estadual de M ato Grosso do Sul sob o título Espectroscopia óptica: histórico, conceitos físicos

e aplicações, defendido por David Elprin Cipio Lopes em 21 de novembro de 2007, em

Dourados, M ato Grosso do Sul, e aprovado pela banca examinadora constituída pelos

professores:

_____________________________
Profº. Dr. Sandro M arcio Lima
Orientador

_________________________
Profº. Dr. Paulo Sousa

____________________________
Profº. M sc. Nilson de Oliveira Silva
Dedico este trabalho de conclusão
de curso a minha mãe, Regina.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, pelo dom da vida, e por ser a força maior nesta minha
caminhada, aos meus familiares pelo apoio nos momentos difíceis, em especial a minha mãe
Regina por todos os esforços, agradeço a todos os amigos pelo carinho e companheirismo
depositado nestes últimos anos, que serviu para um aprendizado imenso na minha vida pessoal e
profissional, amo vocês, e ao Professor orientador desse trabalho Dr. Sandro M arcio Lima como
fonte de admiração e motivação.
“E disse Deus: Haja luz; e ouve luz.”
Gênesis 1:3
SUMÁRIO

Resumo.............................................................................................. .............................................7

Capítulo I - Introdução......................................................................................... ..........................8

Capítulo II - Surgimento da espectroscopia.................................................................................10

2.1 – Newton e a espectroscopia..............................................................................10


2.2 – As Linhas de Fraunhofer.................................................................................12
2.2 – Contribuições de Bunsen e Kirchhoff.............................................................15
2.3 – Contribuições à astronomia.............................................................................17

Capítulo III - Elementos de um espectrofotômetro......................................................................19

3.1 – Fontes de radiação...........................................................................................19


3.1.1 – Lâmpadas incandescentes.................................................................20
3.1.2 – Lâmpadas de M ercúrio de alta pressão.............................................20
3.1.3 – Lâmpadas de M ercúrio de baixa pressão..........................................20
3.1.4 – Lâmpadas fluorescentes....................................................................20
3.1.5 – Lâmpadas de Xenônio......................................................................20
3.1.6 – Lasers................................................................................................2 1

3.2 – M onocromadores..................................................................................... ........23


3.3 – Detectores................................................................................................. .......25
3.3.1 – Detector Piroelétrico.........................................................................25
3.3.2 – Bolômetro.........................................................................................26
3.3.3 – Fotodiodo.......................................................................................... 27
3.3.4 – Fotomultiplicadoras..........................................................................28
3.3.5 – M icrofones........................................................................................2 9
3.3.6 – CCDs............................................................................................... ..29

Capítulo IV - Verificação das Linhas de Emissão do Hidrogênio...............................................31

4.1 – Procedimento experimental.............................................................................31


4.2 – Apresentação dos resultados............................................................................33

Capítulo V - Considerações Finais...............................................................................................35

Referências Bibliográficas............................................................................................................36
RESUMO

O presente trabalho apresenta um levantamento histórico e as aplicações atuais, dos


fundamentos da espectroscopia, desde as primeiras observações da decomp osição da luz branca,
compreendido posteriormente como espectro visível, como as realizadas por Newton em 1664, e
as contribuições de diversos cientistas no decorrer do tempo, entre eles: Fraunhofer, Bunsen e
Kirchhoff. Também serão abordados os princípios físicos do funcionamento dos elementos
básicos de um espectrofotômetro, dos quais se pode citar: fontes de radiação, monocromadores
e detectores, juntamente com alguns tipos desses elementos. Finalizando, foi feita uma
verificação espectrofotométrica das linhas de emissão do Hidrogênio.

Palavras-chave: Origem e Princípio da Espectroscopia; Espectrofotômetro.


Capítulo I

INTRODUÇÃO

A decomposição da luz observada desde a Antigüidade sempre foi visto como um


fenômeno curioso. Aristófanes em 423 a.C. foi um dos primeiros a fazer tal observação, quando
trabalhava na tentativa de construções de lentes (Bergamini, 1971) . Uma compreensão da
natureza da luz e da sua decomposição foi apresentada muito posteriormente, ficando
estabelecido que se tratava de uma decomposição espectral (de luz), hoje denominada de
espectro eletromagnético. Essa distribuição da radiação eletromagnética esta expressa em
relação ao seu comprimento de onda λ ou sua freqüência v. Ao longo da história inúmeros
cientistas realizaram experimentos para a compreensão da luz visível e interpretação do espectro
eletromagnético, contudo, nem todos conseguiram explicar corretamente os fenômenos
observados.
Após os primeiros artigos publicados em 1672 por Isaac Newton sobre a decomposição
da luz branca observada em seus experimentos realizados a partir de 1664, foi possível se
estabelecer uma melhor compreensão da decomposição da luz visível, o que acabou
direcionando a uma nova era na Óptica. Newton afirmava em seus trabalhos que a luz branca,
como a proveniente do Sol, era uma luz policromática, ou seja, composta de diversas cores. As
experiências de Newton marcaram assim o inicio da espectroscopia.
A observação espectral contribuiu significativamente para a descoberta de novos
elementos químicos (Figueiras, 1996) e a compreensão da constituição dos astros. Pode-se dizer
que os trabalhos de Bunsen e Kirchhoff foram extremamente importantes para o
desenvolvimento do instrumento de medida do espectro da luz, hoje denominado
espectroscópio. Eles trabalharam de forma conjunta na análise de inúmeros elementos (Moura
Nunes, 2005).
Com o avanço das pesquisas na área da espectroscopia e o advento de novas tecnologias
na produção de materiais, novos equipamentos foram desenvolvidos para análise espectral.
Como exemplo pode-se mencionar as redes de difração, que possuem um poder de dispersão
superior ao dos prismas utilizados inicialmente como elemento dispersor nos espectroscópios.
Atualmente a espectroscopia conta com equipamentos e métodos diversos,
possibilitando determinações tanto qualitativas quanto quantitativos de diferentes compósitos.
Isso com muita rapidez e precisão, e com potencialidade de aplicações em diversos sistemas,
como compostos orgânicos e inorgânicos.
Os equipamentos utilizados em espectroscopia denominados espectrômetros, ou
espectrofotômetros, possuem três componentes básicos, a saber: uma fonte, um monocromador
e um detector, os quais podem operar em diversas freqüências.
Neste trabalho está apresentada uma abordagem histórica da espectroscopia. Os tópicos
foram separados de forma cronológica, desde o desenvolvimento da análise espectral até as
primeiras contribuições na astronomia. Também será abordado o princípio de funcionamento
dos espectrofotômetros disposto em relação a seus componentes que serão detalhados,
explorando os conceitos físicos de cada componente. Finalizando também será apresentado uma
verificação espectrométrica das linhas de emissão do Hidrogênio, comparando com os valores
aceitos na literatura.
Capítulo II

SURGIMENTO DA ESPECTROSCOPIA

Neste capítulo é abordada uma pequena biografia dos precursores da observação


espectral: Isaac Newton, Joseph Fraunhofer, Robert Bunsen e Gustav Kirchhoff. Com
contribuições notórias à espectroscopia, estes cientistas marcaram suas épocas por explicarem
corretamente os fenômenos observados e deixar “incógnitas chaves” para a compreensão
espectral, direcionando a inúmeras aplicações, como exemplo na astronomia.

2.1 – Newton e a espectroscopia

Isaac Newton nasceu pouco depois da meia-noite do dia de Natal, em 1642, de parto
prematuro. O seu pai, um agricultor bastante próspero, morreu três meses antes do seu
nascimento, deixando à mulher, Hannah, a responsabilidade sobre as propriedades agrícolas e o
cuidado da frágil criança.
Quando tinha 3 anos sua mãe casou-se novamente, sendo o novo marido um clérigo rico,
de nome B arnabas Smith. Após o casamento, ele aconselhou-a a deixar o filho a viver com a
avó enquanto eles se mudariam para a aldeia onde ele era prior.
Quando tinha 10 anos, o padrasto morreu e a sua mãe voltou para casa onde Newton
vivia com a avó. Dois anos mais tarde, Isaac foi para uma escola situada perto da casa do tio
com quem passou a viver. Foi considerado um aluno médio pelos professores e insociável pelos
seus colegas. Ignorava o trabalho da escola e passava a maior parte do tempo a construir
modelos mecânicos de madeira, como moinhos de vento, e a fazer suas próprias experiências.
Newton começou a trabalhar na propriedade agrícola da família em 1659, mas a sua
capacidade de trabalho na lavoura não era das melhores: sempre deixava o trabalho inacabado.
Felizmente, o seu gênio já tinha sido reconhecido pelo tio, com quem vivera, e pelo diretor da
escola em que estudara. Assim, devido à persuasão destes dois homens Newton foi admitido na
Universidade de C ambridge em 1661.
A mãe de Isaac não tinha recursos suficientes para pagar todos os custos universitários,
por isso ele entrou na universidade como um bolsista especial: em vez de receber uma bolsa,
pagava a Universidade com trabalho, limpando os quartos.
Numa tarde de domingo de 1664, Isaac e John Wickins, um companheiro de quarto,
decidiram visitar uma feira de materiais ópticos. Enquanto conversava com John, o seu olhar foi
atraído por um objeto que brilhava ao sol de fim de tarde, um prisma (M argenau, 1971). Como
os prismas eram considerados brinquedos, os cientistas nunca tinham se preocupado em fazer
experiências com eles, contentando-se em maravilhar-se com o efeito observado semelhante ao
do arco-íris. Após adquirir um prisma, Newton começou a fazer diversas observações em seu
quarto. Ele deixava um raio de luz passar por uma fenda na porta e verificava que o feixe se
abria ao sair do prisma, revelando ser constituído realmante de diferentes cores dispostas na
mesma ordem em que apareciam no arco-íris (ver gravura mostrada na Fig. 1). Para que essas
cores não fossem acrescentadas pelo próprio vidro, Newton fez o feixe colorido passar por um
segundo prisma. Como resultado, as cores voltaram a se juntar, provando que sua recomposição
formava outro feixe de luz branca, igual ao inicial. Newton argumentou que a luz branca era na
verdade uma mistura de diferentes tipos de raios que eram refratados em ângulos ligeiramente
diferentes, e que cada tipo de raio diferente produzia uma cor espectral diferente (Faria, 1987).
Nessa época, o fenômeno que dava origem ao arco-íris já havia sido estudado por Thierry de
Freiberg. Ele supôs que a luz produzida num prisma era um “efeito de superfície”, uma
distorção gerada na interface ar/vidro, e não uma decomposição da luz.

Fig.1 - Gravura de Newton séc. 18.

Em 1672, após doar um telescópio refletor inventado por ele para a Royal Society,
Newton é eleito membro da Royal Society e apresenta um relatório sobre a teoria das cores,
revelando suas experiências sobre a decomposição da luz branca pelo prisma. Ele demonstra no
relatório que as cores primitivas ou fundamentais (amarelo, azul e vermelho) possuem caráter
especial e não são passíveis de decomposição. Este trabalho apresentado à Academia R eal de
Ciências foi em seguida lançado num opúsculo com o título "Nova teoria da luz e da cor".
Em 1703 foi eleito presidente da Royal Society, e foi re-eleito a cada ano até sua morte.
Newton publica o livro Opticks apenas em 1707 (ver capa na Fig.2.), o qual trata da nova teoria
da luz e da cor. Ele foi agraciado com o título de cavalheiro (Sir) em 1708 pela Rainha da
Inglaterra Anne pelas diversas contribuições a ciência. Com isso ele foi o primeiro cientista a
receber esta honra. Newton morreu em 31 de março de 1727 em Londres, Inglaterra.

Fig. 2 - “Opitiks”, publicação de N ewton em 1707

2.2 – As Linhas de Fraunhofer

Nascido em Straubing na Alemanha em 6 de março de 1787, Joseph Von Fraunhofer,


(ver gravura na Fig. 3) filho de um vidraceiro de nome Franz Xaver Fraunhofer e de Maria
Anna Frohlich Fraunhofer, era o mais novo de uma família de 11 irmãos. Esteve sempre
cercado por pessoas ligadas ao trabalho artesanal, particularmente à fabricação e ao corte do
vidro e de artefatos ópticos, desenvolvendo assim pequena habilidade no desenho e construção
de artefatos de vidro.
Após a morte de seus pais, com apenas 12 anos de idade, Fraunhofer foi levado pelos
seus guardiões para M unique para tornar-se aprendiz de Philipp A. Weichselberger, um rude
fabricante de espelhos e vidros ornamentais. Porém, devido à sua limitada educação formal,
Fraunhofer passou a ser tratado como um mero empregado. Não sendo instruído na profissão, e
ainda proibido de participar das aulas das conhecidas Escolas Dominicais com muitas
dificuldades e sem motivação, Fraunhofer não desistiu de um sonho, tornar-se um fabricante de
óculos.
No dia 21 de Julho de 1801 a oficina em que Fraunhofer trabalhava desmoronou,
matando a esposa de Weichselberger e deixando Fraunhofer sob os escombros por 4 horas.
Solidarizado com a situação do órfão Fraunhofer, Elector M aximilian Joseph IV
(posteriormente, Rei M aximilian I) presenteou-o com 18 Ducats (moeda da época).
Após a recuperação do acidente, Fraunhofer continuou a trabalhar com Weichselberger,
sendo permitido a assistir as aulas dominicais e tendo comprado, com o presente ganho, seus
próprios equipamentos para fabricação de vidro e livros sobre óptica e a natureza da luz, a fim
de desenvolver suas habilidades com vidros e lentes.
Quando já havia adquirido uma liberdade como profissional, Fraunhofer conheceu
Joseph Niggl do Instituto de Munique, onde começou a dar os primeiros passos para a
fabricação de lentes. Em maio de 1806, Fraunhofer foi convidado por Utzschneider diretor do
instituto de M unique para trabalhar no instituto em um posto de aprendiz. Em menos de um ano
ele já produzia suas próprias lentes e, algum tempo depois, já possuía sua própria oficina.

Fig. 3 - Gravura de Fraunhofer.

No ano de 1814 Fraunhofer realizou a mesma experiência de decomposição da luz


branca com prismas realizada por Newton, porém o espectro obtido por Fraunhofer era
originado com maior incidência de luz solar e submetido a uma grande ampliação, observando
assim o espectro com maior detalhe. Com efeito, Fraunhofer observou que o espectro solar não
era continuo, mas apresentava falhas: inúmeras linhas escuras foram observadas. Ao utilizar um
telescópio para observar a luz refratada pelo prisma identificou 574 riscas escuras no espectro
da luz do Sol (Friança et.al.,2003). Para designar as oito riscas mais proeminentes usou as letras
de A a G no sentido vermelho-violeta. Fraunhofer foi, no entanto, incapaz de explicar por que
razão estas linhas se encontravam no espectro da luz do Sol. Fraunhofer não fazia idéia que este
espectro era um mapa codificado da composição química do Sol. Na Figura 4 pode-se ver o
espectro da luz solar obtido por Fraunhofer. Em particular Fraunhofer ficou impressionado com
duas linhas, bastante fortes, que apareciam no espectro da luz solar, as quais denominou de
"linhas D".

Fig. 4 - Espectro solar obtido por Fraunhofer.

Fraunhofer também observou, com auxilio de telescópios, linhas nos espectros das
estrelas Sírius, Castor, Pollux, Capella, Betelgeuse e Procyon. Na verdade Fraunhofer utilizava
as linhas do espectro solar para calibrar seus instrumentos (vidros e prismas), identificando
quais eram os de melhor qualidade fabricados naquela época. Como pequenas variações na
quantidade e mistura de quartzo (SiO2), cal (CaO) e soda (carbonato de sódio, Na2CO 3) no
composto que compõem o vidro (basicamente SiO 4), fazem que os prismas fabricados
desloquem o comprimento de onda em diferentes ângulos, Fraunhofer usava as linhas do
espectro solar para determinar as propriedades dos vidros. Apresentando seus resultados na
Academia de C iências da B avária, foi eleito membro e passou a ministrar aulas na Universidade
da Bavária por muitos anos, apesar de não possuir educação formal. Apesar de suas realizações
e contribuições, Fraunhofer não compreendeu a origem das linhas espectrais que observou.
Sabia apenas que era uma característica de cada astro observado (Friança et.al.,2003).
Fraunhofer faleceu em 7 de junho de 1826 e foi cremado em M unique com honras de
estado.
2.3 – Contribuições de Bunsen e Kirchhoff

Robert Wilhelm Eberhard Von Bunsen nasceu em 31 de março de 1811 em Gottingen,


Alemanha, o mais novo de quatro filhos. Seu pai foi professor de línguas modernas na
universidade local, tal que um ambiente acadêmico o cercaria desde o nascimento. Após estudo
básico na cidade de Holzminden, Bunsen estudou química em Gottingen, recebendo seu
doutorado com apenas 19 anos.
Como Bunsen, Kirchhoff veio de uma família de intelectuais. Gustav Robert Kirchhoff
nasceu em 12 março 1824 em Konigsberg, Prússia (atual Kaliningrad, Rússia). Seu pai Friedrich
Kirchhoff, foi um conselheiro da lei em Konigsberg. Ver Figura 5 mostrando uma gravura dos
dois cientistas.

Fig. 5 - Bunsen e Kirchhoff.

Kirchhoff foi educado em Königsberg onde se graduou em Física na Universidade de


Konigsberg em 1847. Em seu primeiro trabalho em 1845 (ainda como aluno), enunciou as leis
que levam seu nome e que permitem o cálculo da corrente, tensão e resistência de um circuito
elétrico. Quando foi ministrar aulas de Física na Universidade de Breslau, Kirchhoff conheceu o
também professor de química Bunsen de quem ficou grande amigo (Figueiras, 1996). Em 1854
Bunsen, que estava trabalhando em Heidelberg, encorajou o amigo para se mudar para lá.
Kirchhoff aceitou a oferta começando uma parceria proveitosa com Bunsen, que já era um
químico conceituado, pois já havia desenvolvido o queimador denominado Bico de Bunsen,
uma adaptação de um projeto de M ichael Faraday, além de diversas contribuições à química e à
geologia.
Bunsen desenvolveu o queimador para identificar metais e seus sais pelas características
de suas chamas coloridas que estes emitiam quando aquecidos (M oura Nunes, 2005). Foi
quando Kirchhoff sugeriu analisar os espectros emitidos por essas chamas, e conseqüentemente
espectros de raios solares obstruídos por vapores metálicos, desenvolvendo um aparato
denominado espectroscópio, o qual continha um prisma como elemento dispersor. Nos
espectroscópios utilizados por Bunsen e Kirchhoff não havia um elemento que pudesse detectar
a intensidade da radiação. As observações eram feitas a “olho nu” e anotadas de acordo com as
sua colorações e intensidades.

Fig. 6 - Ilustração de K irchhoff observando espectros.

Como os espectros de absorção que produziu em suas experiências coincidiam sempre


com os espectros de emissão do mesmo elemento, Kirchhoff concluiu que cada elemento
absorve precisamente a mesma luz que emite (Faria, 1987). Na Figura 7 tem-se alguns exemplos
de espectros obtidos por Kirchhoff.

Fig. 7 - Espectros: contínuo, de emissão e de absorção semelhante aos observados por


Kirchhoff.

Munido deste conhecimento, Kirchhoff decodificou aos estudos das linhas de


Fraunhofer. As linhas escuras e a sua posição indicavam que a atmosfera do Sol continha sódio,
magnésio, ferro, cálcio, cobre, zinco entre outros elementos, pois estes espectros já eram
conhecidos d e Kirchhoff e Bunsen. Eles explicaram que as linhas escuras observadas no
espectro do Sol eram causadas pela absorção de comprimentos de ondas característicos quando
a luz atravessava os gases na atmosfera do Sol (Faria, 1987). Este trabalho direcionaria uma
nova era na astronomia.

2.4 - Contribuições à astronomia

Em 1868, o astrônomo Pierre Jules Cesar Janssen (1824-1907) sugere as vantagens ao se


estudar os espectros provenientes do Sol durante um eclipse. As erupções na superfície do Sol
são somente visíveis quando a parte principal do disco solar esta obstruída. A fim de observar o
eclipse do Sol, previsto para o dia 18 de agosto, vários cientistas e astrônomos, equipados com
telescópios e espectroscópios, se deslocaram para Índia (onde o eclipse seria total). Estudando
os espectros obtidos, constataram a existência de uma linha que, a princípio, foi confundida com
a linha D do sódio. Posteriormente, verificaram que se tratava de uma nova linha e a
denominaram D3. Como ela não correspondia a nenhum dos elementos até então conhecidos na
Terra, pensaram ter descoberto uma nova substância existente apenas no Sol. Por isso, deram-
lhe o nome de Hélium. Os astrônomos tinham agora a chave para determinar a composição das
estrelas e consequentemente do Universo.
Assim, a análise espectral obtida mostrava o que muitos consideravam impossível,
derrubando teorias como a do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), criador da filosofia
positivista (que baseia todo o conhecimento na observação dos fatos, rejeitando especulações
que não sejam comprovadas pelos sentidos). Alguns anos antes, Comte afirmara que nunca seria
possível estudar a composição química dos corpos celestes. A Astrofísica não só o desmentiu
como demonstrou que estabelecer limites para o conhecimento é uma posição insustentável.
As inúmeras possibilidades de utilização dos métodos espectroscópicos também podem
ser exemplificadas pelo estudo da nebulosa de Órion. Durante muito tempo, os astrônomos
acreditaram que essa grande nebulosa fosse um conjunto de estrelas. Estava, porém, tão distante
de nós, que os astros não podiam ser distinguidos pelos mais potentes telescópios. No entanto,
ao analisar o espectro dessa nebulosa, Sir William Huggis verificou que ele não era contínuo
como o do Sol ou o de Sirius, mas sim constituído de algumas linhas brilhantes. Assim, pôde-se
concluir que a nebulosa de Órion era uma grande nuvem de gás rarefeito.
Outra aplicação desses métodos é encontrada na medida da velocidade da matéria
cósmica, estrelas e galáxias, graças ao efeito Doppler-Fizeau. Segundo este, a freqüência de um
fenômeno periódico qualquer (som ou luz) aumenta ou diminui conforme a fonte geradora do
fenômeno se aproxime ou se afaste do observador (Faria, 1987). O som da sirene de uma
ambulância, por exemplo, torna-se mais agudo quando ela vem em nossa direção e mais grave
quando se afasta. De maneira equivalente, observando-se os espectros de cada borda do Sol,
nota-se num deles o desvio das linhas espectrais para a região violeta (aumento da freqüência)
indicando aproximação e, no outro, um desvio para o vermelho (diminuição da freqüência)
indicando afastamento. Disto é possível concluir que o Sol está em rotação. Da mesma forma,
analisando-se os espectros de galáxias longínquas, que apresentam fortes desvios para o
vermelho, pode-se deduzir que elas estão se afastando de nós, ou seja, que o Universo está em
expansão (Friança et.al.,2003).
No mesmo ano da descoberta do Hélio, André Jonas Angströn substituiu a escala
arbitrária estabelecida por Kirchhoff por uma natural, de comprimentos de onda, na qual cada
cor está expressa em Angströn, unidade de comprimento equivalente a um décimo milionésimo
de milímetro (1Å = 0,000 000 1 mm). Assim, a parte visível do espectro vai da cor vermelha
(7000Å) à violeta (4000Å) (Friança et.al.,2003).
Atualmente, a análise espectral vai além da radiação visível (7000 a 4000Å). Com o
auxílio de instrumentos modernos, são estudadas radiações de todos os comprimentos de onda,
emitidas por estrelas, galáxias e outros objetos cósmicos. Os Laboratórios de Plasma e
Espectroscopia Atômica dos modernos centros de pesquisas físicas (como o encontrado na
Universidade Federal Fluminense no Rio de Janeiro, UFF-RJ) se dedicam ao estudo do espectro
na região do VUV (ultravioleta de vácuo) produzido através de plasmas altamente densos e
quentes. Este estudo possibilita aos astrônomos saber a priori qual radiação pertence a cada íon
dos diversos elementos.
Capítulo III

ELEMENTOS DE UM ES PECTROFO TÔMETRO

Nos atuais espectrofotômetros podem-se encontrar diversas formas de arranjos, mas em


geral um espectrofotômetro possui três elementos básicos, dos quais se pode citar: uma fonte de
radiação, um monocromador e um detector, conforme ilustrado na Fig. 8.

Fig. 8 - Esquema simplificado de um espectrofotômetro.

A seguir serão descritos algumas fontes de radiação, tipos de monocromadores e de


detectores.

3.1 – Fontes de Radiação

As fontes de radiação utilizadas em espectroscopia podem ser das mais variadas.


Dependendo da sua finalidade e faixa espectral, podem ser de dois tipos básicos: policromáticas
e monocromáticas, além de lâmpadas incandescentes e de descarga. As primeiras possuem um
filamento que é aquecido pela passagem da corrente elétrica, devido ao efeito Joule, emitindo
muita radiação infravermelha, alguma visível e pouca ultravioleta. Já nas lâmpadas de descarga
a corrente elétrica passa através de um gás, excitando as moléculas desse gás, resultando em
uma emissão de radiação eletromagnética. As características da emissão dependem não só da
natureza do gás, mas também da sua pressão. Também se utiliza lasers, onde estes se diferem
das demais fontes por possuírem características particulares.
A seguir são apresentados alguns comentários sobre os principais tipos de fontes:
3.1.1 - Lâm padas incandescentes
As lâmpadas de filamento são fontes de radiação luminosas mais comuns. Sua radiação
varia com a temperatura e com o comprimento de onda, e possuem um grande potencial na
região do infravermelho. Elas são geralmente constituídas de filamentos de tungstênio e óxidos
de terras raras, os quais são percorridos por uma corrente elétrica operando em média à
temperatura de 1800ºC (Ciefuegos et.al.,2000).
3.1.2 - Lâm pada de vapor de Mercúrio de alta pressão
Esta lâmpada tem um invólucro de quartzo, permeável à radiação com menor
comprimento de onda e resistente à alta pressão que o gás atinge no interior, e contém vapor de
Mercúrio. É uma das fontes mais úteis e emite um espectro descontínuo desde o ultravioleta até
ao infravermelho, com picos em 254, 263, 297, 303 e 365 nm, entre outros. Dada a extensão do
espectro, serve para diversas análises, especialmente se combinada com filtros adequados. Tem
o inconveniente de a irradiância ser fraca entre os picos da emissão, embora aumente nas que
trabalham com maior pressão. Esta pode variar em alguns casos de 1 a 300 atmosferas. É a
lâmpada mais aconselhada para quem possa dispor apenas de uma para um amplo espectro.
3.1.3 - Lâm pada de vapor de Mercúrio de baixa pressão
Trabalha com mercúrio vaporizado, a uma pressão inferior a 1 atmosfera. Emite quase
exclusivamente radiação com 254nm de comprimento de onda (ultravioleta), devendo o
invólucro ser permeável a esta radiação. É muito utilizada em investigação fotobiológica.
3.1.4 - Lâm padas fluorescentes
Têm habitualmente a configuração de um tubo, no interior do qual existe vapor de
Mercúrio a baixa pressão (inferior a 1atm.) e cujas paredes são revestidas por material
fluorescente que absorve a radiação de 254nm (ultravioleta) e a reemite com comprimento de
onda superior, com características que dependem da composição do revestimento. Através delas
é possível obter radiações predominantemente na faixa dos UV, visível e pouco no
infravermelho.
3.1.5 - Lâm pada de Xenônio
Contêm Xenônio dentro de um invólucro, a uma pressão entre 20 e 40 atmosferas. Emite
um espectro muito próximo do solar, embora com um segmento de ultravioleta muito mais rico.
Com alguns dispositivos de correção constitui o que se designa por simulador solar, fonte muito
útil, mas que tem o inconveniente de apenas irradiar áreas pequenas e necessitar de freqüentes
calibrações de posicionamento.
3.1.6 – Laser
Abreviação do termo em inglês Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation
(amplificação da luz por emissão estimulada de radiação), os lasers possuem algumas
características que se acentuam em relação às outras fontes de radiação. Podem ser encontrados
na forma de lasers sólidos, líquidos ou gasosos. A radiação produzida por um laser é uma
radiação eletromagnética com propriedades muito especiais. Por esta razão será melhor
detalhada neste trabalho em relação as demais fontes. Os lasers, assim com as demais fontes de
radiação, podem operar em diversas freqüências de acordo com o material com o qual foi
produzido (ver Tabela 3.1.). Existem lasers com radiação monocromática pura, o que significa
que é constituída apenas por um comprimento de onda. Além disso, é coerente, ou seja, a
radiação desloca-se no espaço com a mesma fase de vibração. Ele também é uma radiação
colimada, dado que os fótons viajam no espaço praticamente sem se dispersarem, mantendo-se a
densidade energética ao longo do trajeto do feixe. Essa densidade é muito grande, mesmo
depois de atravessar meios em que não é absorvida.

Tabela 3.1. Alguns tipos de Lasers


Laser Estado Comprimento de onda
He-Ne Gasoso 632,8 nm
+
Ar Gasoso 514,5 – 488.0 nm
N2 Gasoso 337,1 nm
Corante Solução 570 a 640nm
Rubi (Al2O3)
Dopado 0,05% Cromo Sólido 694,3 nm

O laser é composto basicamente de quatro componentes: meio ativo, fonte para


bombeamento, um espelho de reflexão total e outro de reflexão parcial, como ilustrado na
Figura 9. Os lasers são todos concebidos de forma idêntica, gerando a radiação por emissão
estimulada. A ação de funcionamento de um laser se dá em quatro etapas básicas:
bombeamento, absorção, emissão estimulada e emissão espontânea (Skoog et.al.,2002).
No bombeamento é utilizada uma fonte externa (ver figura 9) na qual a radiação é
incidida sobre o meio ativo do laser. Nesse processo de exposição, vários dos níveis eletrônicos

e vibracionais do meio ativo são promovidos a níveis mais energéticos denominados Ey e Ey (a).
Após um tempo muito curto, esses níveis são “relaxados” a níveis menos energéticos (b)
liberando calor no processo e posteriormente retornando ao nível mais estável Ex (c) emitindo
hc
um fóton (emissão espontânea), com comprimento de onda   , onde h é a constante
Ey  Ex
de Planck e c a velocidade da luz (Skoog et.al.,2002). Como diversas emissões espontâneas
ocorrem juntamente com estados energéticos que se encontram ainda em Ey , essas emissões
estimulam outras novas emissões definidas como emissão estimulada (d).

Fig. 9 - Componentes de um laser e etapas de seu funcionamento

Esse processo acontece de maneira continua emitindo fótons em todas as direções.


Porém, como nas extremidades do laser existem dois espelhos dispostos paralelamente, as
emissões são colimadas em um único eixo, atravessando dessa forma o espelho de transmissão
parcial e se propagando de forma colimada com uma grande potência de emissão.
3.2 – Monocromadores

Os monocromadores são dispositivos que permitem isolar uma linha de comprimento de


onda λ oriundo da fonte de radiação policromática. Podem compreender os filtros, prismas e
redes de difração. Estes últimos são mais utilizados por possuírem um poder maior de
disperssão em relação a um prisma, no qual a disperssão ocorre de forma parcial. Com o
monocromador pode-se selecionar uma vasta gama do espectro variando apenas o seu
posicionamento angular em relação à fonte, o que não se consegue com os filtros, que
transmitem apenas determinados comprimentos de onda absorvendo total ou parcialmente os
demais, de acordo com suas características. Por serem de maior utilização, as redes de difração
por transmissão e por reflexão serão detalhadas neste trabalho.
Consiste numa rede de difração por transmissão uma película com muitíssimas fendas,
podendo variar nos modernos espectrômetros de 600 a 2400 fendas por milímetro. Ao atravessar
a rede, a radiação transmitida sofre difração em cada fenda e consequentemente interferências
construtivas para cada comprimento de onda semelhante. A Figura 10 mostra um esquema da
difração ocorrida em uma rede de difração.

Fig. 10 - Difração ocorrida na rede de transmissão e diferença de caminho óptico


ocasionando interferência.
O espaçamento entre as fendas, d, é muito pequeno, da ordem do comprimento de onda
da luz visível. Assim sendo, após a difração, cada raio difratado pela fenda percorrerá uma
diferença de caminho óptico δ em relação ao raio oriundo da fenda posterior, ocasionando uma
interferência construtiva em uma determinada posição angular θ em relação ao eixo de
incidência da luz, onde a posição angular para cada ângulo será característica para o
comprimento de onda λ encontrado na luz incidente (Nussenzveig, 2003). A partir da
representação na Figura 9 pode-se facilmente deduzir a equação 3.1 apresentada abaixo.

δ = dsenθ = nλ (3.1)

Já as redes de difração por reflexão consistem em uma superfície metálica com inúmeras
ranhuras (Fig.11) com espaçamento d entre cada ranhura. Como nas redes por transmissão as
dimensões dessas ranhuras são muito pequenas, podendo variar também, de 600 a 2400 por mm
dependendo do monocromador. Quanto maior o número de ranhuras ou sulcos, maior a
capacidade de difração da rede. Como nas redes por transmissão acontece a interferência devido
a diferença de caminho óptico δ em que a luz sofre após ser refletida em diferentes ranhuras
(Fig. 12). Validando também a equação do caso anterior.

Fig. 11 - Fotografia microscópica das ranhuras de uma rede de difração

Fig. 12 - Esquema de uma rede de reflexão


3.3 – Detectores

Os detectores em um espectrofotômetro são dispositivos capazes de fornecer


informações físicas de um sistema quanto à intensidade de radiação incidida no mesmo, ou de
modo indireto, a intensidade absorvida por uma amostra, convertendo esta intensidade de
radiação em um sinal elétrico (Skoog et.al.,2002).
Em princípio, um detector consiste de três componentes: uma parte receptora sensitiva à
determinada característica do sistema, um transdutor para converter a informação obtida em um
sinal elétrico e um amplificador de sinal. Levando-se em conta o tipo de medida a que se
destinam, podem-se classificar os detectores como detectores diretos ou indiretos. Os detectores
diretos são aqueles que captam diretamente a incidência da radiação transmitida a partir da
amostra, já os indiretos são aqueles que captam um segundo ou terceiro sinal sem ser
diretamente a radiação incidida na amostra, como temperatura ou sinal sonoro.
Os detectores podem ser das mais variadas formas, variando de acordo com sua
finalidade e esquema de montagem do espectrofotômetro. A seguir é feita uma pequena
abordagem de alguns tipos de detectores juntamente com a explicação física de seu
funcionamento.
3.3.1- Detector Piroelétrico
Certos cristais dielétricos apresentam polarização dielétrica espontânea. Quando o
momento de dipolo elétrico for dependente da temperatura, o material pode ser usado como um
sensor. Este detector é construído na forma de um capacitor e as cargas induzidas nas duas faces
do cristal pelos dipolos internos estabelecem uma corrente ou diferença de potencial que pode
ser medida por um circuito externo. A Figura 13 ilustra, esquematicamente, um detector
piroelétrico.

Fig. 13 – Representação esquemática de um sensor piroelétrico.


A radiação incidente deve ser entendida como atingindo o cristal piroelétrico e não o
metal como pode parecer, pois este compreende apenas uma película metálica. Os materiais
comumente empregados para a fabricação de detectores piroelétrico são o TGS (TriGlycine
Sulphate), LiTaO3 (Tantalato de Lítio) e PZT (Lead Zinc Titanate) além de alguns polímeros
com propriedades piroelétricas. Usualmente, os detectores piroelétricos dispensam polarização
elétrica e podem operar tanto no modo de corrente quanto no modo de tensão, sendo por isso
bastante flexível. São bastante empregados na construção de radiômetros para medidas de
potências ópticas em uma ampla faixa do espectro.
3.3.2- Bolômetro
Bolômetros compreendem basicamente de um termistor, isto é, de um dispositivo cuja
resistência elétrica varia com a temperatura. Pode ser construído tanto a partir de metais quanto
com semicondutores que apresentem dependência significativa da resistência elétrica com a
temperatura (Skoog et.al.,2002). A utilização dos bolômetros se dá geralmente na região do
infravermelho, na qual o detector pode facilmente interpretar a variação de radiação incidente
como uma variação de temperatura na superfície do mesmo, que consequentemente ocasiona
uma variação na sua resistência. A Figura 14 ilustra, qualitativamente, essa dep endência entre
dois tipos de bolômetros.

Fig. 14 - Comparativo resistência em função da temperatura


para dois tipos de bolômetros.

Para os bolômetros construídos a partir de metais, a dependência da resistência (R) com


a temperatura é expressa pela relação:

R  R 0 1   T  , (3.2)
o -1
com β positivo e variando entre 0,3 - 0,6 C , dependendo do material.
Para os bolômetros construídos com semicondutores, a dependência é expressa como:
R  R0 T  3 / 2 e  / T . (3.3)

Existe ainda uma terceira categoria de materiais conhecidos como Termistores que são
compostos por óxidos mistos e vêm sendo utilizados na construção de bolômetros.
A operação de um bolômetro é relativamente simples, requerendo, entretanto, um
circuito de polarização e um resistor de carga. A tensão de saída do circuito deve ser através de
um capacitor para desacoplar o nível DC da polarização.
O sinal de saída para um bolômetro como o representado na fig. 15 pode ser expresso
pela equação abaixo:

V B R L Rb
VS  (3.4)
Rb  RL 2

Na qual , VB é o potencial inicial, VS o potencial de saída, Rb a resistência do resistor foto


sensível, RL uma resistência de carga e ΔRb a variação da resistência Rb.

Fig. 15 - Exemplo de montagem de um bolômetro

3.3.3 Fotodiodo
Consiste basicamente em uma junção p-n, onde ocorre a for mação de uma zona de
transição entre uma região de material semicondutor, cuja condutividade elétrica é dominada
por portadores de carga tipo n (elétrons), e uma região cuja condutividade é dominada por
portadores de carga tipo p (buracos). A largura w (Fig. 16) e a simetria dessa região dependem
dos processos de fabricação e dos materiais envolvidos. Se a concentração de portadores,
elétrons, por exemplo, varia lentamente ao longo da distância w relativamente ampla, entre o
valor máximo do lado n e o mínimo do lado p, a junção é chamada gradual.

Fig. 16 - Esquema de um fotodiodo

A luz incidente no fotodiodo interage diretamente na região p onde os fótons desta


radiação, de acordo com sua intensidade, “preenchem” os buracos que não permitiam a
passagem da corrente elétrica (Ewing, 2001). Conectando as extremidades do fotodiodo a um
sistema com um voltímetro observa-se a variação da intensidade da radiação de acordo com a
variação da tensão a qual o foto diodo é submetido.
3.3.4– Fotomultiplicadoras
As fotomultiplicadoras, ou tubos fotomultiplicadores, são tubos de vidro sob vácuo,
contendo um foto-catodo (negativo), recoberto por material que absorve a luz e emite elétrons,
que são acelerados em direção a um ânodo (positivo), baseado no princípio do efeito
fotoelétrico. No caminho, estes elétrons se chocam com dinodos que estão progressivamente
com potenciais mais altos (Fig. 17), e em cada um destes um elétron desloca de 3 a 4 novos
elétrons, que são acelerados até o próximo dinodo. Esse processo pode ser repetido de dez a
quinze vezes. A multiplicação por etapas depende também da voltagem aplicada, o que ocasiona
uma amplificação de até 300 vezes (Ciefuegos et.al.,2000). Desta maneira, a luz incidente
permite a passagem de uma corrente elétrica que pode ser medida eletronicamente. O fator de
amplificação é extremamente sensível á mudanças na voltagem (cerca de 1kV), que precisa ser
altamente estabilizada.
Fig. 17 - Esquema de um tubo fotomultiplicador

3.3.5– Microfones
Utilizados na técnica PAS (Photo Acustic Spetroscopy) os microfones captam um sinal
sonoro emitidos pela amostra contida na célula fotoacústica (fig. 18), a qual absorve a radiação
incidente, transformando em um sinal elétrico através de indução eletromagnética. A vantagem
dos microfones em ralação a outros detectores, Bolômetro, por exemplo, é o tempo de resposta,
além de poder receber um sinal em diversas freqüências,

Fig. 18 - Esquema de uma célula fotoacústica

3.3.6- CCD’s
Iniciais do termo em inglês Charge Coupled Device (dispositivo de carga acoplada), os
CCD’s (Fig. 18) criados inicialmente para atuarem como um chip de memória (1969) mostrando
ser um excelente sensor óptico, sendo utilizado como detector em algumas técnicas de
espectroscopia.
O funcionamento dos sensores CCD´s baseia-se no efeito fotoelétrico. Algumas substâncias têm
a propriedade de absorver fótons e libertar no processo um elétron. O silício constitui a matéria-
prima para a construção de um CCD. Um CCD típico consiste numa placa quadrada ou
retangular de silício com 125 a 500 micrômetros de espessura e alguns milímetros de
comprimento. Nesse, é implantada uma rede de eletrodos que capturam e analisam os elétrons
gerados pelo efeito fotoelétrico. Cada trio de eletrodos atua como uma ratoeira eletrostática,
acumulando em seu redor os elétrons gerados na placa de silício. O eletrodo central de cada trio
mantém uma carga positiva, enquanto que os restantes mantêm um potencial nulo. Deste modo
os elétrons, cuja carga é negativa, se acumulam em volta do eletrodo central à medida que a luz
incide no detector. Os trios de eletrodo são dispostos em colunas que cobrem a totalidade do
sensor CCD (Skoog et.al.,2002). As diferentes colunas são isoladas entre si por um material que
gera um potencial negativo permanente ao entrar em contacto com a placa de silício, o que evita
a contaminação entre colunas. As linhas de eletrodos consideradas perpendicularmente às
colunas são designadas como filas. Cada trio de eletrodos é uma peça fundamental do detector
CCD e corresponde a um elemento da imagem digital final, e é designado pixel ou elemento de
imagem. O tamanho físico do pixel é variável. Existem pixels retangulares e pixels quadrados.
As suas dimensões variam habitualmente entre 6 e 27 micrômetros .

Fig. 19 - Exemplo de um CCD


Capítulo IV

VERIFICAÇÃO DAS LINHAS DE EMISSÃO DO HIDROGÊNIO

O Hidrogênio é o elemento de menor número atômico e um dos que possui o espectro


mais simples, com basicamente quatro raias de emissão ou absorção, que são mais visível aos
nossos olhos. Elas são denominadas Hα , H β, H γ e H δ (Melissinos et.al.,2003) e podem ser

vistas na Fig. 20. Outras inúmeras linhas não são visíveis (ou muito pouco) ao olho humano.
Para finalizar este trabalho de conclusão de curso foi realizado um experimento para a
determinação dos comprimentos de onda das linhas de emissão do hidrogênio. Os resultados
serão apresentados e comentados no final deste capítulo.

Fig. 20 - Raias mais visíveis ao olho humano do espectro do Hidrogênio.

4.1 – Procedimento experimental

Para a verificação das linhas de emissão do Hidrogênio foi utilizado um espect rômetro
modelo SP-9268A da PASCO Científic (Fig. 21) juntamente com uma fonte e lâmpada de
Hidrogênio modelo SE-9461, também fabricada pela PASCO Científic. Além disso, foram
utilizadas duas redes de difração, uma de 300 e outra de 600 ranhuras por milímet ro, cujo
funcionamento já foi detalhado no capítulo anterior [3]. Esta verificação foi realizada no
laboratório de Física M oderna da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.
Após posicionar a lâmpada alinhada com o colimador e o telescópio do
espectrofotômetro, movimentou-se o telescópio para localizar o máximo central das
interferências visualizado pelo telescópio, e na escala “Vernier” contida no espectrômetro, foi
coletado o valor do ângulo do alinhamento zero, θ0, o qual marcava 359º05’.
Fig. 21 - Espectrômetro utilizado para realizar verificação.

Após posicionar o telescópio do espectrômetro no máximo central e ajustar o foco para


melhor visualizar a linha de emissão central, o telescópio foi movimentado para a direita e para
a esquerda, localizando as três linhas de emissão que se destacavam pelas suas intensidades:
vermelho, verde e violeta (Fig. 22). Os valores dos ângulos correspondentes a cada uma das
linhas foram lidos na escala “Vernier” para a primeira e segunda ordem.
O experimento foi realizado a princípio com uma rede de 300 ranhuras por mm, e
posteriormente com uma de 600 ranhuras por mm.

Fig. 22. Detalhe das linhas observadas do espectro do hidrogênio.

A seguir estão apresentados nas Tabelas 4.1., 4.2., 4.3. e 4.4. os valores dos ângulos
coletados para as três linhas observadas, definido ns positivos para a difração da direita e ns
negativos para difração da esquerda.

Tabela 4.1. Ângulos coletados para n = ± 1, com rede de 300 ranhuras/mm.


Cor θ: n=1 direita (± 0,5’) θ: n=-1 esquerda (± 0,5’)
Vermelho 10º20’ 347º51’
Verde 7º20’ 350º47’
Violeta 6º24’ 351º14’

Tabela 4.2. Ângulos coletados para n = ± 2, com rede de 300 ranhuras/mm.


Cor θ: n=2 direita (± 0,5’) θ: n=-2 esquerda (± 0,5’)
Vermelho 22º02’ 336º21’
Verde 15º50’ 342º25’
Violeta 14º04’ 344º12’
Tabela 4.3. Ângulos coletados para n = ± 1, com rede de 600 ranhuras/mm.
Cor θ: n=1 direita (±0,5’) θ: n=-1 esquerda (±0,5’)
Vermelho 22º25’ 335º50’
Verde 16º02’ 342º05’
Violeta 14º10’ 343º55’

Tabela 4.4. Ângulos coletados para n = ± 2, com rede de 600 ranhuras/mm.


Cor θ: n=2 direita (±0,5’) θ: n=-2 esquerda (±0,5’)
Vermelho 52º19’ 307º36’
Verde 35º14’ 323º33’
Violeta 30º49’ 327º41’

Para determinar o comprimento de onda das linhas foi utilizada a equação

asen   0 
 , n = ±1, ±2. (4.1)
n

Cuja diferença com respeito à equação mostrada no Capítulo 3 é a inclusão do termo 0 para
corrigir com o ângulo inicial de medida que não é zero no experimento.

4.2 – Apresentação dos Resultados

Os valores calculados para os comprimentos de onda das respectivas cores, tanto para ns
positivos quanto negativos estão apresentados nas Tabelas 4.5., 4.6., 4.7. e 4.8..

Tabela 4.5. Comprimentos de onda calculados para n = ± 1, com rede de 300 ranhuras por mm.
Cor λ: n=1 (direita) ± 0,05 nm λ: n=-1 (esquerda) ± 0,05 nm
Vermelho 650,30 648,70
Verde 478,31 481,19
Violeta 424,51 426,43

Tabela 4.6. Comprimentos de onda calculados para n = ± 2, com rede de 300 ranhuras por mm.
Cor λ: n=2 (direita) ± 0,05 nm λ: n=-2 (esquerda) ± 0,05 nm
Vermelho 649,88 646,31
Verde 480,33 478,01
Violeta 430,90 428,09
Tabela 4.7. Comprimentos de onda calculados para n = ± 1, com rede de 600 ranhuras por mm.
Cor λ: n=1 (direita) ± 0,05 nm λ: n=-1 (esquerda) ± 0,05 nm
Vermelho 660,13 654,91
Verde 485,90 487,29
Violeta 433,71 436,05

Tabela 4.8. Comprimentos de onda calculados para n = ± 2, com rede de 600 ranhuras por mm.
Cor λ: n=2 (direita) ± 0,05 nm λ: n=-2 (esquerda) ± 0,05 nm
Vermelho 667,57 652.02
Verde 491,31 484,31
Violeta 438,31 434,14

Depois de calculado os comprimentos de onda das raias observadas, fez -se os cálculos
da média aritmética para cada cor, cujos valores estão comparados com os valores atuais aceitos
pela literatura e que estão mostrados na Tabela 4.9.

Tabela 4.9 – Comparativo entre as médias calculadas e os valores atuais aceitos na literatura.
Cor  calculado, nm λ aceito na literatura, nm Erro percentual
Vermelho 653,73 656,26 0,39 %
Verde 483,33 486,13 0,56 %
Violeta 431,52 410,17 4,95 %

Os valores calculados foram bem próximos dos valores encontrados na literatura, com
uma pequena exceção para o comprimento de onda da cor violeta. Como para o átomo de
Hidrogênio a emissão do violeta compreende diversas raias, em algumas das observações pode
ter sido coletado valores de uma linha que não fosse necessariamente a mais incidente, pois para
o valor teórico, o comprimento de onda apresentado é para a linha mais incidente.
Capítulo V

CONSIDERAÇÕ ES FI NAIS

Neste trabalho de conclusão de curso pode-se compreender como a espectroscopia se


desenvolveu ao longo da história, e que a ciência em si é construída a partir de conhecimentos
adquiridos ao longo do tempo. As contribuições de inúmeros cientistas de formas tão distintas
fundamentaram essa ciência que hoje se torna indispensável na investigação química de
diversos compostos. Os conceitos físicos abordados ao longo do trabalho contribuíram de forma
significante para a formação acadêmica do estudante, pois muitos dos conceitos aqui abordados
são de fundamental importância na compreensão da ciência moderna. Estes conceitos não são
aprofundados em disciplinas regulares do curso de modo que o presente trabalho contribuiu
significativamente para a formação do licenciado em Física.
Observou-se também, a partir do experimento das linhas de emissão do Hidrogênio que a
ciência é tida como uma linguagem universal. As fundamentações teóricas da ciência dão uma
base sólida para uma real compreensão dos fenômenos envolvidos e o desenvolvimento de
novas teorias depende unicamente de um “censo científico” a despertar naqueles que buscam o
conhecimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGAMINI, D. Biblioteca Científica LIFE “A Matéria”. Ed. Livraria Jóse Olimpo, Rio de
Janeiro, RJ, 1971.

CIEFUEGOS, F., VAITSMAN, D. Análise Instrumental. Ed. Interciência Ltda, Rio de


Janeiro, RJ, 2000.

FARIA, R. P. Fundamentos de Astronomia. 3ª ed., Ed. Papirus, Campinas, SP, 1987.

EWING, G. W. Métodos Instrumentais de Análise Química, VOL.I. 8ª Reimp., Ed. Edgard


Blücher Ltda., São Paulo, SP, 2001.

FIGUEIRAS C. L. A. A Es pectroscopia e a Química, da Descoberta de Novos Elementos ao


Limiar da Teoria Quântica. Revista Nova de Química, maio de 1996 Disponível em:
http://www.sbqensino.foco.fae.ufmg.br/uploads/yW/l0/yWl0_GPJhjyfkB3PI9tj4A/historia.pdf -
acesso em 13 de outubro de 2007.

FRIANÇA, A., DAL PINO, E., SODRÉ, L., JATENCO-PEREIRA, V. Astronomia, Uma
Visão geral do Universo. Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2003.

MARGENAU, H. Biblioteca Científica LIFE “O Cientista”. Ed. Livraria Jóse Olimpo, Rio de
Janeiro, RJ, 1971.

th
MELISSINOS, A. C., NAPOLITANO, J. Experiments in Modern Physics. 2 ed., P.
Academic. San Diego, Califórnia, USA, 2003.

MOURA NUNES, J. F. de, Mistura de Quatro Ondas em S istemas Atômicos com Luz
Incoerente 2005, 104 p. tese (M estrado em Física) - Departamento de Física, Universidade
federal de Pernambuco, Recife, 2003
NUSSENZVEIG, H. M. Curso de Física Básica, Vol. 4. Óptica, Relatividade e Física
Quântica. Ed., Edgard Blücher Ltda. 2003.

SKOOG, D. A., HOLLER, F. J., NIEMAN. T. A. Princípios de Análise Instrumental. 5ª ed.,


Ed. Bookman, São Paulo, SP, 2002.