A Água como Território Educativo na Amazônia
A Água como Território Educativo na Amazônia
Cametá-PA
2020
“Abrir-se a ‘alma’ da cultura, é deixar-se
‘molhar-se’, ‘ensopar-se’ das águas culturais e
históricas dos indivíduos envolvidos na
experiência” (Freire, 1995, p. 110).
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SUMÁRIO
3
ÁGUAS: TERRITÓRIO EDUCATIVO NA AMAZÔNIA
Vamos tentar compor aqui uma espécie de mapa de drenagem da questão das
águas na Amazônia numa perspectiva territorial. A partir de três temas tributários uns,
dos outros. Primeiro, vamos abordar a dobra mais ontológica das águas - vamos usar
sempre a palavra no plural, por razões que espero ficarem claras ao longo de nossas
discussões -, em particular considerando-as como “elemento”1 cultural, identitário e
constitutivo das práticas socioespaciais.
Não há ser vivo sem água, inclusive o ser humano. Todavia, a matriz
epistêmica hegemônica que separa homem e natureza, que separa ciências
humanas de ciências naturais, quando fala de ciclo da água esquece que o ciclo
da água passa por nós sempre que suamos, transpiramos ou urinamos. O
alimento e os produtos industrializados que usamos são produzidos com água
e, assim, o sistema agrário/agrícola e industrial e parte do ciclo da água (Porto-
Gonçalves, 2015, p. 72-73).
Espero que a partir das diversas experiências com as águas da Amazônia possamos
problematizar a “colonialidade da natureza” (Wash, 2007; Mignolo, 2017), a visão
1
Em certa perspectiva a água é muito mais que um dos elementos físico-químicos da matéria, como tende
a reduzi-la a ciência e o capital.
2
Escobar (2004) explica que a ideia de ontologia política, que ressalta tanto a dimensão ontológica da
política quanto a dimensão política da ontologia, é uma construção conjunta com Mario Blaser e Marisol
de la Cadena. Assim, “La ontología política busca entender el hecho de que todo conjunto de prácticas
enactúa um mundo, aun em los campos de la ciência y la tecnologia; los cuales se presuponen neutraes u
libres de valores, además de universales” (Escobar, 2004, p. 13).
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antropocêntrica da natureza, que nos coloca fora do “ciclo das águas”, desvinculando-a
da produção social. Nós não apenas trabalhamos as águas - a expressão “água de trabalho”
(Witkoski, 2010) tem um valor referencial importante em estudos amazônicos, não há de
se negar -, mas constituímos o ciclo das águas através de diversas práticas sociais, ao
mesmo tempo que este nos constitui culturalmente. O ciclo social das águas, que mais
especificamente constitui um “regime das águas”, não é necessariamente causal ou cíclico
como o ciclo “natural”, pois este, de fato, só existe como uma metáfora, um modelo
interpretativo funcionalista da “natureza”, numa perspectiva moderna-colonial. Quando
tratamos do ciclo social da água “Estamos diante da água em estado vivo, enfim, um outro
estado da água que, assim, não é somente líquido, sólido e gasoso como nos ensinaram
nas escolas” (Porto-Gonçalves, 2015, p. 73). Vamos tentar explorar, então, ou talvez
aproximarmo-nos tentativamente dessa dobra ontológica das águas da Amazônia
compreendendo-as como “águas culturais”, do mesmo modo como falamos de “floresta
cultural tropical” (Posey, 2002), “florestas antropogênicas” (Balée, 2008) ou a floresta
como “artefato social” (Magalhães, 2013).
No segundo momento, nossa passagem pelas águas será através do território. Uso
o epíteto “território educativo” (Singer, 2015; Oliveira Neto, 2011; 2015) para as águas
para designar o caráter epistêmico do território que se constitui nas/com as águas na
Amazônia. Nesse sentido, as águas serão consideradas por nós como fonte de
conhecimentos outros, para além das localizações epistémicas (Mignolo, 2005a). Neste
sentido, proponho uma abordagem teórico-conceitual das águas a partir da territorização
de conhecimentos e modos de conhecer outros. Uma epistemologia das águas. Como
saberes se territorializam em nossas relações com as águas? Como territórios constituem
matrizes epistemológicas através dos regimes das águas? Como os sujeitos
subalternizados, não apenas constituem saberes sobre/com as águas, mas como as águas
permeiam seus conhecimentos e modos de ser e viver, a partir do modo como se
territorializam na/com e através das águas?
3
Souza (2011, p. 163) entrevista Soraia Almeida que criou a expressão Pedagogia das Águas, que nomeou
um curso realizado em Abaetetuba-Pa. Esta compreende que as aprendizagens cotidianas como nadar,
navegar, pescar etc. envolvem uma aprender com/nas águas, associando-a a noção de “pedagogia do
trabalho”: “o conviver com água, de buscar o peixe, de saber nadar, o trabalho que eles fazem para
sobreviver com as águas é que educa também”.
5
fundar as escolas dos campos ribeirinhos da Amazônia, tomando por base as
epistemologias territoriais, ou, os territórios educativos das águas como horizonte de
sentido descolonial. Não quero banalizar o conceito de território, muito caro a nós
geógrafos. Por isso, o educativo posto como adjetivo ao território tem implicações
fundamentais para a pedagogia das águas na Amazônia4. Veremos como conceitualmente
se articulam território e o conhecimento das águas na Amazônia, através de uma
epistemologia das águas, talvez no sentido da “epistemologia ambiental” (Leff, 2001).
4
Uma outra referência para entender a pedagogia das águas talvez seja a noção da água enquanto “matriz
ecopedagógica” (Catalão; Rodrigues, 2008).
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Antes de tudo é preciso tecer algumas considerações gerais sobre o modo de
abordar essas questões. Muitas dessas ideias são apenas tentativas, encontram-se em
esboço. E, como podem perceber, são tributárias de muitas leituras e discussões teóricas.
Isto significa que não considero o que discuto nesta oficina das águas como ideias
originais, sólidas, sistemáticas e bem assentadas. São ensaios realmente. Algumas vezes
as reflexões se desviam por meandros arriscados, se evidenciam por águas turvas, como
são algumas águas da Amazônia. Algumas ideias são apenas esboços. Apenas inquietudes
ou perguntas que se desdobram em outras perguntas. É que realmente não tenho respostas,
não conheço as respostas e nem formulei ainda adequadamente as perguntas. Talvez esse
processo seja, de fato, um empreendimento coletivo, como o qual espero poder contribuir
de algum modo. Se conseguir suscitar outras inquietações e problematizações, penso que
terei aberto a oficina das águas.
Além das referências teóricas e bibliográficas, muitas das quais ficarão implícitas
na discussão ou não serão necessariamente exploradas e desenvolvidas, há as referências
mais de fundo de minhas experiências de vida e pesquisa em territórios ribeirinhos da
Amazônia Tocantina paraense. Neste caso, é necessário também levar em consideração
que se trata de um trabalho em andamento e que muito ainda falta pesquisarmos para
desenhar um mapa teórico necessário para análise descolonial dos territórios ribeirinhos
da Amazônia. Sabendo que individualmente é possível dá conta dessa tarefa. Talvez
dentro de nossa pequena província da geografia seja possível que possamos daqui a alguns
anos, com o aprofundamento das pesquisas, desenhar linhas mais definidas da geografia
águas numa perspectiva descolonial.
Mas, tudo isso ainda está no começo, ainda estamos engatinhando, portanto,
alguns pontos lhes parecerão difusos, incertos e ambíguos e muitas pontas soltas restarão.
Faço questão, assim, de deixar claro que não tenho a pretensão de esgotar o tema ou de
exauri-lo, nem de apresentar-lhes algo original e inovador. Tenho muito mais questões
ainda não muito bem formuladas para lhes oferecer. Tenho mesmo muitas intuições que
surgem de um certo inconformismo com o modo pelo qual nós, pesquisadores das
ciências sociais, nos aproximamos e abordamos as águas na Amazônia. Trata-se, talvez,
de compartilhar com vocês estas inquietações e perplexidades que me movem.
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CICLO SOCIAL DAS ÁGUAS: TEMPORALIDADE, IMAGINÁRIO E
PRÁTICAS.
Por que esta associação automática e imediata das águas com o tempo? Por que
consideramos que um regime plurifluvial, como o existente na Amazônia, definiria em
essência, o que constitui a marca da temporalidade ribeirinha? O que, de fato, esse regime
temporal das águas tem de “natural”? E o que, fundamentalmente, muito mais tem de
histórico, social e cultural? Ao colocarmos esta problematização da naturalização da
temporalidade das águas, não queremos negar a “dinâmica própria” da natureza: o pulso
diário das marés; as cheias e vazantes; o verão e inverno amazônicos; os rios de terra-
firme e os igarapés das várzeas e ilhas; as águas das fontes e dos igapós; a fertilização
sedimentar das várzeas e as terras caídas; a sazonalidade da produção, coleta de produtos
8
e pesca; o encontro das águas claras e escuras, do rio com o mar; a ligação permanente e
temporária dos lagos e rios etc.
Os ribeirinhos herdam dos indígenas não apenas uma “cultura das águas”, mas
“águas culturais”, no sentido material/simbólico. E ao herdar lançaram adiante esta
herança, deram continuidade a ela, incorporando novos elementos constituídos pelos
processos colonizadores e capitalistas modernos. Com o processo de colonização as águas
se definem não apenas como marcadores do tempo da natureza, mas como
tempos/espaços da produção social e econômica para o mercado além-mar. Seria preciso
nos determos um pouco mais no modo como o processo colononizador das águas dos rios,
igarapés e lagos (e até mesmo litorâneos) na Amazônia engendra historicamente um novo
regime das águas, vinculando-a a relações comerciais de longa escala. As águas são
usadas para alimentar (abastecer) prioritariamente o comércio colonial, além de
geopoliticamente serem os rios as vias privilegiadas da conquista, dominação e
exploração do espaço amazônico. Esta história deixou suas marcas nas águas e em nossas
relações com as águas na Amazônia. O tempo amazônico tem marcas d’águas, mas as
águas também são marcadas por diferentes temporalidades históricas e sociais.
9
Portanto, não há apenas predominantemente uma temporalidade natural das águas
na Amazônia. Um “ciclo social das águas” se estabelece ao longo das ocupações humanas
(Porto-Gonçalves, 2017), criando um regime das águas que se configura culturalmente
como um regime indígena, um regime moderno-colonial capitalista e um regime
ribeirinho. Na atualidade, um regime desenvolvimentista estatal, associado ao moderno-
colonial capitalista, impacta profundamente o ciclo social das águas, como através da
implantação de grandes hidrelétricas, hidrovias, portos graneleiros, fazendas e
empreendimentos mínerometalúrgicos e agroexportadores. Navegamos em águas
culturais, nos banhamos em águas culturalmente modificadas, marcadas, apropriadas
econômica, cultural e geopoliticamente. Os ciclos naturais das águas na Amazônia são
inseparáveis dos ciclos sociais das águas e juntos formam o regime da temporalidade das
águas, histórico e cultural.
O que acontece, então, com o tempo? O tempo das águas, o relógio das águas, o
calendário das águas, é muito mais complexo, do que os ritmos e períodos desenhados
por “dinâmicas naturais”. O que temos é uma coordenação do modo de vida dos
amazônidas com dinâmicas próprias das águas fluviais, pluviais, subterrâneas e
litorâneas. Mas, as marés diárias e as cheias e vazantes anuais, por exemplo, não
determinam o tempo de vida dos amazônidas, integram um conjunto complexo de
relações e práticas socioespaciais que garantem com que os “povos das águas” se
mantenham em seus territórios com seu modo de vida. Os fazeres que envolvem as águas
estão adequados às dinâmicas das águas, aos saberes que os amazônidas construíram
sobre as águas. Assim, tempo, fazer e saber foram histórica e socialmente coordenados
para garantir a reprodução de um regime de sociabilidade ribeirinho inseparável do
regime das águas.
Mas, não devemos esquecer que os ribeirinhos e demais povos das águas da
Amazônia atuam sobre ambientes ou ecossistemas aquáticos culturalmente apropriados,
modificados e significados. As ilhas construídas no Amazonas, as espécies de peixes mais
pescadas, a abertura de passagens (varadouros) entre rios, as influências atuais no
assoreamento, poluição e modificação físico-química das águas, o barramento de igarapés
e de rios por hidrelétricas, a manutenção e derrubada da floresta5 etc., representam
5
Cada vez mais é comprovada a íntima relação entre águas e florestas na Amazônia. A floresta não apena
atua no processo de evapotranspiração, as árvores produzem chuva (Fisch; Marengo; Nobre, 1998).
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processos de longa duração que conformaram culturalmente muitos ecossistemas
aquáticos da Amazônia.
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natureza quando se pesca o camarão ou mapará “miúdo”, sem que este tenha se
desenvolvido adequadamente em função da necessidade de venda deste produto.
São necessários ainda muito mais esclarecimentos sobre esta associação das águas
com a temporalidade e suas implicações para a compreensão das culturas e práticas
ribeirinhas na Amazônia. Mas, um outro aspecto importante das águas na Amazônia está
na sua simbolização, relaciona-se ao imaginário das águas que se funda na região. No
ciclo social das águas estas são, por assim dizer, profundamente simbolizadas, no
imaginário social. As águas são filtradas pelo imaginário, condensadas, redistribuídas
pelas forças do imaginário, não apenas dos indígenas e posteriormente dos colonizadores.
Nós não nos banhamos apenas no rio ou no mar, nós nos banhamos nas águas do
imaginário.
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Existem também uma outra dimensão desse imaginário das águas, o que está ligado
aos “espaços poéticos” ou poiéticos, nos quais outros sentidos são atribuídos as águas. É
o imaginário das águas da produção poética, literária, artística, cultural de resistência e r-
existência (Porto-Gonçalves, 2001; 2006). A poética dos espaços das águas funda este
imaginário de resistência e esboça, em certo sentido, uma descolonização do imaginário
Amazônico. Os ritmos musicais, os poemas, os textos literários, o artesanato, a construção
de embarcações etc. constituem este outro regime de representação das águas amazônicas,
em grande parte potencial ou expressamente descolonial.
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A expressão é atribuída por Mignolo (2003; 2014) a Enrique Dussel. Acompanhada também da expressão
corpopolítica do conhecimento e colonialidade do saber (Lander, 2005). Ver também a maneira como
Grosfoguel (2010; 2016) e Maldonado-Torres (2008) tratam do tema.
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um sentido construtivo de significados e práticas. Não é apenas um reflexo das águas na
imaginação. Há um imaginário das águas herdado, transmitidos pela oralidade e pela
prática, e este é inseparável das imagens e símbolos construídos pela relação direta com
as águas através do banho, das brincadeiras, das viagens, da relação cotidiana com as
águas. Também este imaginário é afetado e transformado pelas imagens dos meios de
comunicação, da educação escolar e outros meios de representação das águas. As águas
são impostas imagens resultados de interesses, ainda que seja os fabulosos “interesses
quiméricos” (Bachelard, 2018). Na nossa região, o imaginário das águas também é
marcado pela memória e histórias das viagens, dos barcos e portos. O imaginário das
águas é repleto de barcos e viagens realmente existentes e fantasiados. Ou seja, é um
imaginário de ligações com outros lugares através dos rios.
A terceira dobra do ciclo social das águas na Amazônia tem a ver com os saberes e
as práticas, com o que se convencionou chamar na literatura acadêmica de “saberes das
águas” (Pojo; Elias; Vilhena, 2014) e “águas de trabalho” (Vitikoski, 2010). Talvez o
nome mais adequado seria “águas dos fazeres” ou “fazeres das águas”. São as diversas
práticas sociais produtivas relacionadas as águas e os conhecimentos que as constituem.
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Territorializam e des-reterritorializam sujeitos, saberes, lugares, sentidos e usos das
águas.
Há práticas, portanto, que não são produtores de identidade dos lugares e das
pessoas, de grupos sociais e territórios amazônicos. As questões referentes a produção
territorial das identidades ribeirinhas passam pelas práticas de apropriação material,
simbólico/cultural das águas na Amazônia. Ao trabalhar as águas os ribeirinhos produzem
seus territórios e suas diversas formas de identidade “hídrica” e “híbrida”.
Umas das práticas que merecem nossa atenção são as práticas de gestão das águas,
como as estratégias territoriais que constituem os acordos comunitários de pesca na
Amazônia. Por isso mesmo o termo águas de trabalho não abre todo o aspecto de práticas
relativas as apropriações, controle, acesso e uso das águas na Amazônia. A gestão das
águas tem envolvido uma série de conflitos, entre diversos agentes sociais em lugares
distintos da região. Cada vez mais deve se tornar fonte geradora de tensões, disputas e
problemas, em razão do valor estratégico que tem o controle sobre os chamados “recurso
hídricos” (numa perspectiva de mercado muito adotada por estudiosos) e os recursos
naturais aquáticos.
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Outro campo importante das práticas na construção cultural das identidades
ribeirinhas com/através das águas diz respeito à educação escolar. Mas, esta dimensão
prática enfatizaremos melhor ao tratar das águas a partir das epistemologias territoriais e
do território educativo. Caberia, talvez focalizar aqui o caráter político das práticas
educacionais em espaços ribeirinhos, onde as práticas relacionadas às águas são
secundarizadas, pois quando muito a água aparece no abastecimento das escolas e
residências.
De uma forma geral, o ciclo social das águas é constituído por práticas de acesso,
controle, apropriação e usos das águas e seus recursos. Estas práticas se articulam com as
demais práticas relacionadas às florestas e as terras. Além de constituírem as identidades
sociais e territoriais dos grupos sociais ribeirinhos, envolvem diferentes relações de
poder. São mesmo práticas políticas, com as de gestão das águas e de recursos aquáticos.
A partir dos modos de vida ou regime de sociabilidade das populações ribeirinhas, as
águas são trabalhadas por práticas que as constituem elementos importantes da
territorialidade e identidade ribeirinha, atualmente fortemente marcada por práticas de
resistência e r-existência. O âmbito das práticas que envolvem a pesca e a navegação, por
exemplo, indicam de que modo o ciclo social das águas se constituem de práticas
complexas de múltiplos sentidos e escalas. Se constituem politicamente, fazendo das
águas um campo de práticas em tensionamento permanente. As águas enquanto campo
de práticas culturais e identitárias, do regime de sociabilidade ribeirinha, não devem ser
vistas dissociadas das práticas hegemônicas que sobre elas incidem cada vez com mais
força.
Em síntese, as águas na Amazônia constituem um “ciclo social”, que pode ser lido
como um regime de poder/saber. O ciclo social da água se constitui, pelo menos, por três
dobras políticos-analíticas: das temporalidades das águas, do imaginário das águas e das
práticas e saberes das águas, ambas articuladas entre si complexamente. A temporalidade
das águas constitui e é produzida pelo imaginário das águas e práticas; o imaginário das
águas permeia e significa as práticas e saberes de diferentes temporalidades. Portanto, o
ciclo das águas na Amazônia constitui-se em um regime de diferentes regimes, inclusive
o hegemonicamente marcado pela colonialidade (do poder, do saber, do ser e da
natureza).
Portanto, não podemos pensar as águas apenas numa dessas dimensões, ou, como
prefiro, dobras ontológicas. Estas são apenas “indicadores mínimos intensivos” de
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relações complexas envolvendo uma multiplicidade de atores sociais, interesses, projetos
etc. As águas na Amazônia são, ao mesmo tempo, produtos culturais e re-produtores de
práticas culturais identitárias. Agitam-nas pororocas de relações de poder muitas vezes
submersas e resultantes de várias nascentes, provocando esse encontro turbulento das
águas. O ciclo social das águas, que forma estes regimes das águas na Amazônia, nos
coloca o desafio analítico, político, prático e epistemológico de descolonização da
natureza, do poder, do saber e do ser.
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ÁGUAS: TERRITÓRIOS DAS EPISTEMOLOGIAS
Com a construção de todo saber ambiental, os saberes das águas envolvem uma
epistemologia vinculada ao território. Portanto, é necessário discutimos sobre
“localizações epistemológicas” (Mignolo, 2005a). Se a construção de saberes das águas,
obrigatoriamente, remete-nos questões epistemológicas, pelo menos duas preposições
temos que des-dobrar: 1) os saberes das águas não são apenas saberes sobre as águas; 2)
os saberes das águas envolvem mais que o que sabemos das águas e aprendemos nas e
com as águas, e sim envolvem todo território, territórios epistemológicos.
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Entendo os saberes das águas também como uma forma de saber ambiental (Leff, 2009), no sentido que
neste não se separa o racional e sensível, os saberes e sabores da vida. Como também é ontológico e
histórico, “estabelece-se em novas identidades e territórios de vida”; é uma epistemologia política e “é uma
ética para acarinhar a vida, motivada por um desejo de vida, pela pulsão epistemofílica que erotiza o saber
na existência humana” (p. 18).
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“Por episteme entende-se, na verdade, o conjunto das relações que podem unir, em uma dada época, as
práticas discursivas que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas
formalizados; o modo segundo o qual, em cada uma dessas formações discursivas, se situam e se realizam
as passagens à epistemologização, à cientificidade, à formalização; a repetição desses limiares que podem
coincidir, ser subordinados uns aos outros, ou estarem defasados no tempo; as relações laterais que podem
existir entre figuras epistemológicas ou ciências, na medida em que se prendam a práticas discursivas
vizinhas mais distintas. A episteme não é uma forma de conhecimento, ou um tipo de racionalidade que,
atravessando as ciências mais diversas, manifestaria a unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou
de uma época; é o conjunto das relações que podem ser descobertas para uma época dada, entre as ciências,
quando estas são analisadas no nível das regularidades discursivas” (Foucault, 2002, p. 217).
18
epistemologias territoriais que não se isolam em conhecimentos ditos tradicionais e/ou
populares “locais” ou regionais.
Não digo que não seja importante descrever, mapear e reconhecer esses
conhecimentos sobre e com as águas gerado desde os indígenas até os ribeirinhos. Mas,
em nossa relação com estes conhecimentos, as transformamos a partir da ciência em
objeto de estudo, em “saberes locais”, em geral subjugados ou subalternizados aos
conhecimentos considerados universais, racionais e desincorporados pela perspectiva
científica da epistemologia colonial/moderna. Os saberes das águas habitam
“epistemologias fronteiriças” e, na “geopolítica do conhecimento”, envolvem um outro
entrelaçamento entre “espaços geográficos e localizações epistemológicas” (Mignolo,
2003; 2005a).
Qual a importância dos saberes das águas produzidos na Amazônia? Como estes
saberes são classificados e posicionados na geopolítica e corpo-política do conhecimento?
Que epistemologias territoriais estes constituem em relação aos “legados coloniais”
(Mingolo, 2005a)? Estas seriam algumas questões para abrirmos e ampliarmos os debates
sobre os saberes das águas para além dos meros inventários.
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genealogias e formas de transação e transmissão, em cada contexto territorial, é de
fundamental importância. Porém, ao mesmo tempo, compreender a matriz de
racionalidade dentro e a partir da qual são gerados e confinados é muito mais. Além de
questionar ou problematizar a maneira como são concebidos, apropriados e, não de raro,
subjugados ou subalternizados pelas epistemologias ocidentais moderno-coloniais, em
particular pelas ciências. Os saberes das águas são, como a maioria dos povos originários
das América, remanescentes dos epistemicídios (Sousa Santos, 2006) coloniais e, ainda
mais são, formas gnosiológicas de resistência (muitas vezes velada, silenciosa, sutil,
porém tenaz) à “violência epistêmica” (Spivak, 2010) que marca os imperialismos
epistemológicos, a geopolítica do conhecimento (corpo-política e organo-política)
moderno-coloniais (Mignolo, 2014).
Os territórios epistemológicos que constituem os saberes das águas não podem ser
descritos ou inventariados, classificados e mapeados pelos instrumentos de investigação
(geralmente instrumentos de expoliação de saber) teórico-metodológicos da matriz de
racionalidade científica sem que este os deslegitime, inferiorize, estigmatize ou
subalternize. Nosso desafio é compreender como constituem respostas, enfrentamentos e
desprendimentos da retórica da modernidade e da lógica da colonialidade (Mignolo,
2014). Os territórios epistemológicos constituem saberes fundados em espaços
geográficos, legados coloniais de histórias cruzadas, localizadas, a partir do confronto
com projetos globais (Mignolo, 2003). Se não conseguimos dar visibilidade e situá-los
nesse processo, nessas experiências espaços-temporais, continuaremos acreditando na
falácia descartiana do conhecimento desincorparado. Os saberes das águas constituem a
“pluriversalidade epistêmica” (Mingolo, 2014) da Amazônia e do mundo; as
“epistemologias do Sul” em diálogo (tenso, problemático, subscrito e assimétrico) com
as epistemologias do Norte (Sousa Santos, 2010). Se constituem em geografias e histórias
cruzadas, por isso são territórios epistemológicos fronteiriços.
Os ribeirinhos, por exemplo, não constituem apenas uma forma de território ao qual
se vinculam saberes (que por sua vez o vinculam a este território). Seu modo de
terririalização é co-constitutivo de um modo de construção de conhecimentos territoriais,
como os “saberes das águas”. Portanto, ao criar um território re-criam uma epistemologia,
ao produzir determinados saberes produzem ao mesmo tempo um território e um modo
de vida, uma identidade, uma forma de existência. Os ribeirinhos habitam um território
epistêmico, por eles criados e recriados a partir dos repertórios de saberes (e forças
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sociais) dos legados coloniais. Os “saberes das águas” não existem como que flutuando
ao sabor das marés, mas emergem do “perau” dos territórios epistêmicos em que são
gerados.
Há uma dimensão ou, como prefiro, uma dobra epistêmica das águas. Na Amazônia
as águas fundam territórios epistêmicos que são territórios de resistência e r-existência,
quer dizer, construções e expressões, meios e objetos, forças e estruturas de relações de
poder, de exercícios espaciais de poder. A “colonialidade do saber” (Lander, 2005) aqui
se apresenta e atua de um modo bastante contundente e dramático, mas de tal modo que,
na maioria das vezes, permanece não só oculta (em nossas produções acadêmicas de
conhecimento), como também se justifica pela posição que assumimos e aceitamos na
divisão territorial da produção do conhecimento, na geopolítica do conhecimento.
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locais e projetos globais conformam o território epistêmico em que se constituíram os
saberes das águas dos ribeirinhos do baixo Tocantins. Portanto, seus saberes das águas
constituem-se numa epistemologia fronteiriça, desde os processos coloniais.
Mas, e onde as populações que habitam/vivem com as águas não sofreram tais
impactos? Seus saberes das águas também envolvem o confronto/cruzamento de histórias
locais e projetos globais? Os legados coloniais impõem a toda à Amazônia a constituição
fronteiriça das suas epistemologias, de seus territórios epistemológicos. No entanto, em
cada contexto particular os espaços das experiências moderno/coloniais e os horizontes
das expectativas descoloniais se apresentam em combinações dinâmicas e diversas. No
mundo contemporâneo não existe lugar que não foi afetado pelos processos da
globalização. Deveríamos estudar os saberes das águas sempre em suas des-articulações
com o “meio técnico-cientifico informacional” (Santos, 2009) da
modernidade/colonialidade atual.
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TERRITÓRIO EDUCATIVO DAS ÁGUAS
Os fazeres e saberes das águas constituem os territórios educativos das águas. Mas,
a educação escolar nos espaços ribeirinhos geralmente se restringe ao espaço da escola.
E os processos educativos constitutivos dos territórios ribeirinhos, por conseguinte, não
adentram ou afetam o espaço escolar. O que temos não é apenas um desencontro ou
dissociação entre educação escolar ribeirinha e território ribeirinho. Acontece que o ciclo
social das águas, o regime das águas e os saberes das águas não envolvem e afetam os
processos educativos escolares que ocorrem nos territórios dos povos das águas da
Amazônia.
24
escolar), através das concepções que transmite, sobre o território. Mas, haveria uma outra
maneira de compreender a articulação educação e território? Uma forma de ver o território
como sujeito da educação? Talvez estas questões precedam as questões colocada por
Oliveira Neto (2015, p. 2): “como os processos simbólicos se relacionam com os
processos de territorialização” e “como os processos educativos podem auxiliar os
sujeitos na interpretação, ressignificação e reestruturação do território local em toda a sua
riqueza e complexidade?”.
Não devemos esquecer também que o território ribeirinho não se reduz a área, ao
espaço físico em que os ribeirinhos moram, vivem, usam. O território ribeirinho constitui-
se na articulação de diferentes espaços não necessariamente contíguos (Pereira, 2014).
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Por exemplo, não podemos compreender o território ribeirinho sem suas relações, muitas
vezes diárias, com cidades e vilas ribeirinhas. Então, há um processo educativo territorial
relacionados as redes de relações socioespaciais realizadas no/através dos deslocamentos
pelos rios. Ao mesmo tempo os espaços ribeirinhos são atravessados pelas
territorialidades, presenças e ações de outros sujeitos e instituições: religiosos,
administradores ou gestores públicos, pesquisadores, políticos, professores de fora da
localidade, técnicos, ativistas de organizações sociais etc. Com estes os ribeirinhos
também aprendem e ensinam. Desse modo, o território é o espaço onde conhecimentos
outros são possibilitados pelos encontros com sujeitos diversos.
Na prática educativa o território está presente não apenas como conceito, mas
como conteúdo vivo, a partir das suas contradições, conflitos, disputas e
sentidos. A sua carga educativa está para muito além do espaço de sala de aula.
Ele é, em si, educativo e a vivência da comunidade comprova que, nas relações
cotidianas, ele é um elemento importante nas trocas materiais e simbólicas que
estruturam a vida destes grupos sociais (Oliveira Neto, 2015, p. 8).
Desse modo, é que as águas podem ser compreendidas enquanto território educativo
na Amazônia. O território educativo não se restringe ao que acontece na escola ou ao que
escola faz, mas a educação escolar ao considerar todo o território no qual se realiza como
“agente” do processo educativo, também se faz como território educativo, ou seja,
constitui o território educativo na prática. Por isso, Faria (2010, p. 94), em relação ao
espaço da cidade, entende “o território educativo como um movimento de mão dupla: a
escola se abre para a cidade, e a cidade entra efetivamente na escola. Isso envolve espaço
físico, currículo, formação dos educadores e profissionais e gestão intersetorial. É
necessariamente uma conjunção de forças múltiplas”. Poderíamos dizer: a escola se abre
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para o território e o território se abre para a escola. Aqui o território educativo é ao mesmo
tempo processo e projeto de abertura das práticas de aprendizagem.
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METODOLOGIAS DE PESQUISA DAS ÁGUAS
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vivenciam grupos sociais em co-habitação com as águas. O “habitar as águas” na
Amazônia etnograficamente vivenciado e traduzido numa linguagem teórico-conceitual
que traga à tona o sentido global do ciclo social das águas e a condição fronteiriça dos
territórios epistêmicos das águas na Amazônia.
Não nos faltam bons estudos etnográficos envolvendo as águas, faltava-nos, talvez,
uma maior reflexão a respeito das etnografias das águas como experiências que se des-
articulem completamente da produção de visibilidade/invisibilidade, vozes e silêncios,
saberes e ignorâncias, genealogias, arqueologias e cartografias. O “sentir-pensar”
(Escobar, 2014) as águas etnográfico ainda se insinua muito timidamente na direção das
metodologias de pesquisas que também podem ser e são expressões e meios de
reprodução da colonialidade. Ao mesmo tempo são espaços abertos à reconstrução e
ressignificação descoloniais. Uma etnografia das águas pode abrir estas possibilidades de
um “giro descolonial” (Mignolo; Grosfoguel, 2008; Castro-Gomez; Gosfoguel, 2007),
assumindo a necessidade de reinventarmos os instrumentos cognitivos analíticos com os
quais nos situamos em relação ao “mundo da vida” das águas na Amazônia.
Umas das questões que mais me tocam ao tratar dos espaços-tempos das águas é no
que diz respeito a construção de uma “genealogia descolonial” dos saberes das águas. As
pesquisas genealógicas de Foucault9 poderiam ser des-dobradas em termos
metodológicos para analisarmos como se constituem, ao longo da história, a configuração
atual dos territórios e sujeitos das águas da Amazônia. Não se trata de simplesmente de
utilizar a genealogia com fins descoloniais na produção do saber das águas. A ideia seria
tornar um campo de estudo que possibilitasse desenvolver o método genealógico como
um vetor de descolonização da própria genealogia. Logicamente que metodologias
genealógicas nos obrigariam a rever as concepções predominantes que ainda temos de
métodos, de história, de conhecimento, da dialética etc. Nós tratamos com pouca
desconfiança crítica com métodos histórico-dialéticos que automatizam, de certo modo,
nosso saber-fazer pesquisa com as águas. As águas não comportam apenas uma dialética,
como o rio heraclitiano , mas também uma dialógica. Pensar além da dialética (ou, quem
sabe, metodologicamente através da abertura da dialética) talvez seja o que métodos como
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O método genealógico foi utilizado por Foucault em suas reflexões sobre as tecnologias e dispositivos de
saber-poder. Este consiste em um instrumental de investigação voltado à compreensão da emergência de
configurações singulares de sujeitos, objetos e significações nas relações de poder, associando o exame de
práticas discursivas e não-discursivas. (Moraes, 2018).
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a genealogia nos possibilitem: a genealogia dos saberes das águas é um desprender-se do
porto seguro da dialética.
Duas outras formas metodológicas que também tocam as águas, a que podemos nos
referir, são: a sistematização de experiências (Holliday, 2007) e a cartografia social
(Acselrad, 2008; 2010; 2013). Na Amazônia a segunda é muito mais conhecida que a
primeira. Ainda assim há uma forte relação entre seus princípios de base metodológicas.
As duas formas de concepção metodológicas centram-se nas experiências que geram
conhecimentos, na recuperação, reelaboração e expressão dessas experiências de forma
coletiva e cooperativa. Portanto, o foco está nas experiências, nos saberes da experiência
(Larrosa, 2002). Esta revalorização das experiências das pessoas na realização cotidiana
de suas vidas reafirmam a dimensão não quantificável das relações sociais e do
conhecimento. Ao mesmo tempo colocam a necessidade de exercitarmos modos
coletivos, cooperativos e/ou participativos de produzir e partilhar conhecimentos
construídos nas e a partir de experiências individuais e coletivas de grupos sociais
geralmente subalternizados em nossa sociedade.
Penso que seja de nosso interesse não apenas conhecer e apropriarmo-nos das
metodologias que envolvem a sistematização de experiências (SE) e a cartografia social
(CS) na produção de conhecimento das águas na Amazônia. Mas, compreendê-las
enquanto processos e meios de conhecimentos que tencionam com os métodos mais
“positivistas” da ciência e dos métodos de produção de conhecimento moderno-coloniais.
A questão central, para o estudo social das águas na Amazônia, está nas possibilidades de
exercitarmos formas alternativas de construímos um saber compartilhado dos fazeres e
saberes das águas, do ciclo social e do regime das águas.
Filmar, gravar, fotografar, desenhar, mapear parece ser sempre algo que nós
podemos fazer em nossas pesquisas; e não ações que os próprios ribeirinhos e demais
sujeitos amazônicos possam fazer para construir conosco o saber. Eles são apenas objetos
de observação e informantes. Não os vemos nem possibilitamos que sejam protagonistas
nas investigações que realizamos com eles. Só no discurso, em geral, defendemos esse
protagonismo. Quanto as águas, e a forma pela qual podemos construir novas formas de
pesquisa, seria necessário deslocar-nos da posição privilegiada dos sujeitos que: definem
o que pesquisar, os objetivos da pesquisa, os modos pelos quais obteremos as informações
e realizaremos as interpretações da vida dos outros.
Certamente, a questão metodológica não pode ser tão somente instrumental. Mas,
eu gostaria, de descrever alguns princípios básicos que talvez nos encaminhe a pensar a
metodologias como um ensaio permanente, portanto, ela mesma uma experiência que se
abre ao diálogo com outras experiências. Se a metodologia na pesquisa com as águas pode
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ser tomada como uma experiência, na qual nos dispomos a envolvermo-nos com outras
experiências, estabelecendo assim uma relação de cooperação dialógica e dialética de
conhecimento, então devemos nos colocar tanto numa situação de exposição e disposição
quanto de compreensão de nós mesmos como agentes que interpelam as experiências dos
outros a falar, digamos assim, com sua própria voz, em sua própria linguagem. O método
é a experiência de trazer para o diálogo aquela voz não ouvida ou que geralmente é calada
por nossas pesquisas e teorias, mesmos quando a fazemos falar com nossas perguntas.
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O segundo desafio tem a ver com a superação da centralidade da escrita, em
particular a nossa forma de escrita acadêmica padronizada. Por isso, é necessário
atentarmos para a construção de uma linguagem própria das águas, incorporando na
produção de saberes as tecnologias da imagem e do som, as representações gráficas e
cartográficas. A escrita ainda fala a linguagem do colonizador (Cusiqansqui, ). Mas as
águas falam muitas línguas, uma outra linguagem. Os ribeirinhos falam a linguagem das
águas. Como torná-las efetivas na produção do conhecimento das águas?
Por isso, penso que este desafio está relacionado ao sentido coletivo e ético de toda
pesquisa com as águas. Nós também, a partir da academia, somos sujeitos de construção
de “saberes das águas”. Como fazer ver as lutas, as formas de resistência/r-existência
cotidianas a elas vinculadas? Como aproximarmo-nos das águas com este intento ético e
político que estas comportam? Até aqui nossas incursões aos espaços/tempos das águas
parecem, têm sido muito tranquilos, tranquilizantes e tranquilizadores. Podemos torná-
las mais inquietantes e problematizadoras? Esta também é uma questão que toca às
metodologias de pesquisa.
As águas nos conduzem a um compromisso com o que não está sempre a flor d’água
ou vem à tona em nossos modos de produzir conhecimento. A descolonização
epistemológica é inseparável da descolonização metodológica e ambas são ações ético-
políticas e estético-existenciais, ou do âmbito do que se tem chamado de “ontologia
política”. Uma antologia política das águas nos conduz a problematizar continuamente o
modo como produzimos conhecimentos das águas.
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