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A Água como Território Educativo na Amazônia

Este documento discute as águas na Amazônia sob três perspectivas: 1) como elemento cultural e constitutivo de identidades e práticas; 2) como território epistêmico onde saberes se territorializam; 3) propondo metodologias de pesquisa descoloniais como uma "cartografia social" das águas. O objetivo é compreender as águas culturalmente e seu papel nos conhecimentos locais.
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A Água como Território Educativo na Amazônia

Este documento discute as águas na Amazônia sob três perspectivas: 1) como elemento cultural e constitutivo de identidades e práticas; 2) como território epistêmico onde saberes se territorializam; 3) propondo metodologias de pesquisa descoloniais como uma "cartografia social" das águas. O objetivo é compreender as águas culturalmente e seu papel nos conhecimentos locais.
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OFICINA DAS ÁGUAS

Edir Augusto Dias Pereira

Cametá-PA

2020
“Abrir-se a ‘alma’ da cultura, é deixar-se
‘molhar-se’, ‘ensopar-se’ das águas culturais e
históricas dos indivíduos envolvidos na
experiência” (Freire, 1995, p. 110).

2
SUMÁRIO

ÁGUAS: TERRITÓRIO EDUCATIVO NA AMAZÔNIA ................................................... 4


CICLO SOCIAL DAS ÁGUAS: TEMPORALIDADE, IMAGINÁRIO E PRÁTICAS....... 8
O tempo das águas .............................................................................................................. 8
O imaginário das águas ..................................................................................................... 12
Fazeres e Saberes das águas.............................................................................................. 14
ÁGUAS: TERRITÓRIOS DAS EPISTEMOLOGIAS ........................................................ 18
TERRITÓRIO EDUCATIVO .............................................................................................. 24
METODOLOGIAS DE PESQUISA DAS ÁGUAS .......................................................... 28
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 35

3
ÁGUAS: TERRITÓRIO EDUCATIVO NA AMAZÔNIA

Vamos tentar compor aqui uma espécie de mapa de drenagem da questão das
águas na Amazônia numa perspectiva territorial. A partir de três temas tributários uns,
dos outros. Primeiro, vamos abordar a dobra mais ontológica das águas - vamos usar
sempre a palavra no plural, por razões que espero ficarem claras ao longo de nossas
discussões -, em particular considerando-as como “elemento”1 cultural, identitário e
constitutivo das práticas socioespaciais.

O objetivo destas primeiras remadas - permitam-me abusar de metáforas relativas


ao modo de usos e relações com as águas - é suscitar uma série de questionamentos sobre
a maneira pela qual significamos socialmente as águas ao logo da história e em nossas
relações cotidianas, através das apropriações materiais, simbólicas e políticas a que estas
foram e estão submetidas por diferentes grupos sociais (Diegues, 2000). Nos modos pelos
quais os sujeitos se apropriam das águas (para diversos usos e fins) estão implicadas
relações que os constituem, enquanto sujeitos, constituindo também seus territórios e
territorialidades, e universos de sentidos partilhados. Para analisarmos a “ontologia
política”2 das águas (Escobar, 2014) - talvez não se trate tanto de uma análise, mas de um
exercício ensaístico de aproximação oblíqua. Vamos nos concentrar numa linha teórico-
conceitual que envolve o que vamos chamar de o “ciclo social da água” (Porto-Gonçalves,
2017). A água não pode ser avaliada apenas por seus estoques e volumes, pois constitui
o fluxo da vida.

Não há ser vivo sem água, inclusive o ser humano. Todavia, a matriz
epistêmica hegemônica que separa homem e natureza, que separa ciências
humanas de ciências naturais, quando fala de ciclo da água esquece que o ciclo
da água passa por nós sempre que suamos, transpiramos ou urinamos. O
alimento e os produtos industrializados que usamos são produzidos com água
e, assim, o sistema agrário/agrícola e industrial e parte do ciclo da água (Porto-
Gonçalves, 2015, p. 72-73).

Espero que a partir das diversas experiências com as águas da Amazônia possamos
problematizar a “colonialidade da natureza” (Wash, 2007; Mignolo, 2017), a visão

1
Em certa perspectiva a água é muito mais que um dos elementos físico-químicos da matéria, como tende
a reduzi-la a ciência e o capital.
2
Escobar (2004) explica que a ideia de ontologia política, que ressalta tanto a dimensão ontológica da
política quanto a dimensão política da ontologia, é uma construção conjunta com Mario Blaser e Marisol
de la Cadena. Assim, “La ontología política busca entender el hecho de que todo conjunto de prácticas
enactúa um mundo, aun em los campos de la ciência y la tecnologia; los cuales se presuponen neutraes u
libres de valores, además de universales” (Escobar, 2004, p. 13).

4
antropocêntrica da natureza, que nos coloca fora do “ciclo das águas”, desvinculando-a
da produção social. Nós não apenas trabalhamos as águas - a expressão “água de trabalho”
(Witkoski, 2010) tem um valor referencial importante em estudos amazônicos, não há de
se negar -, mas constituímos o ciclo das águas através de diversas práticas sociais, ao
mesmo tempo que este nos constitui culturalmente. O ciclo social das águas, que mais
especificamente constitui um “regime das águas”, não é necessariamente causal ou cíclico
como o ciclo “natural”, pois este, de fato, só existe como uma metáfora, um modelo
interpretativo funcionalista da “natureza”, numa perspectiva moderna-colonial. Quando
tratamos do ciclo social da água “Estamos diante da água em estado vivo, enfim, um outro
estado da água que, assim, não é somente líquido, sólido e gasoso como nos ensinaram
nas escolas” (Porto-Gonçalves, 2015, p. 73). Vamos tentar explorar, então, ou talvez
aproximarmo-nos tentativamente dessa dobra ontológica das águas da Amazônia
compreendendo-as como “águas culturais”, do mesmo modo como falamos de “floresta
cultural tropical” (Posey, 2002), “florestas antropogênicas” (Balée, 2008) ou a floresta
como “artefato social” (Magalhães, 2013).

No segundo momento, nossa passagem pelas águas será através do território. Uso
o epíteto “território educativo” (Singer, 2015; Oliveira Neto, 2011; 2015) para as águas
para designar o caráter epistêmico do território que se constitui nas/com as águas na
Amazônia. Nesse sentido, as águas serão consideradas por nós como fonte de
conhecimentos outros, para além das localizações epistémicas (Mignolo, 2005a). Neste
sentido, proponho uma abordagem teórico-conceitual das águas a partir da territorização
de conhecimentos e modos de conhecer outros. Uma epistemologia das águas. Como
saberes se territorializam em nossas relações com as águas? Como territórios constituem
matrizes epistemológicas através dos regimes das águas? Como os sujeitos
subalternizados, não apenas constituem saberes sobre/com as águas, mas como as águas
permeiam seus conhecimentos e modos de ser e viver, a partir do modo como se
territorializam na/com e através das águas?

Buscaremos avançar um pouco aos espaço-tempos da educação escolar ribeirinha,


para pensamos uma “pedagogia das águas” (Souza, 2011, p. 163)3 como forma de re-

3
Souza (2011, p. 163) entrevista Soraia Almeida que criou a expressão Pedagogia das Águas, que nomeou
um curso realizado em Abaetetuba-Pa. Esta compreende que as aprendizagens cotidianas como nadar,
navegar, pescar etc. envolvem uma aprender com/nas águas, associando-a a noção de “pedagogia do
trabalho”: “o conviver com água, de buscar o peixe, de saber nadar, o trabalho que eles fazem para
sobreviver com as águas é que educa também”.

5
fundar as escolas dos campos ribeirinhos da Amazônia, tomando por base as
epistemologias territoriais, ou, os territórios educativos das águas como horizonte de
sentido descolonial. Não quero banalizar o conceito de território, muito caro a nós
geógrafos. Por isso, o educativo posto como adjetivo ao território tem implicações
fundamentais para a pedagogia das águas na Amazônia4. Veremos como conceitualmente
se articulam território e o conhecimento das águas na Amazônia, através de uma
epistemologia das águas, talvez no sentido da “epistemologia ambiental” (Leff, 2001).

O terceiro momento desta Oficina das Águas é mais experimental e, também,


muito mais desafiador. Exige que estejamos, por isso, muito mais próximos das águas,
sentindo sua pulsação e reverberância. Trata-se de um convite a um exercício de
imaginação coletiva de ”caminhos” para a construção coletiva de conhecimento dos
territórios das águas da Amazônia. Nossa maneira de fazer pesquisa na Amazônia pode
percorrer de que modo os cursos das águas? Não adianta apenas construirmos
novos/outros referenciais teóricos para pensarmos as águas, ontológica e
epistemologicamente, se não somos capazes de criar novos/outros modos de construir
conhecimentos.

O nosso desafio é imaginar metodologias de pesquisa em que as águas sejam


contempladas em suas múltiplas dimensões e determinações, imanências e devires. O que
proponho é uma “cartografia das águas”, entendida aqui muito mais que uma metáfora,
como é comum em educação, no sentido pós-estruturalista do termo. O nosso desafio é
de traduzir as experiências que envolvem as águas na Amazônia a partir de uma produção
“colaborativa” de conhecimento territorialmente mapeáveis. Proponho que pensemos
alguns caminhos e desvios possíveis de construção dessa “cartografia social” (Acselrad,
2008) dos territórios dos sujeitos que habitam as águas na Amazônia. Vamos tentar fazer
isso imaginando a “ecologia de saberes” (Souza Santos, 2006) que uma cartografia social
pode proporcionar em nossos engajamentos intelectuais na produção de conhecimentos
descoloniais na Amazônia. Trata-se, realmente, de imaginarmos metodologias
descoloniais, uma cartografia descolonial das águas. Estas são apenas algumas
coordenadas que devem nos servir minimamente de guia neste caminho das águas.

4
Uma outra referência para entender a pedagogia das águas talvez seja a noção da água enquanto “matriz
ecopedagógica” (Catalão; Rodrigues, 2008).

6
Antes de tudo é preciso tecer algumas considerações gerais sobre o modo de
abordar essas questões. Muitas dessas ideias são apenas tentativas, encontram-se em
esboço. E, como podem perceber, são tributárias de muitas leituras e discussões teóricas.
Isto significa que não considero o que discuto nesta oficina das águas como ideias
originais, sólidas, sistemáticas e bem assentadas. São ensaios realmente. Algumas vezes
as reflexões se desviam por meandros arriscados, se evidenciam por águas turvas, como
são algumas águas da Amazônia. Algumas ideias são apenas esboços. Apenas inquietudes
ou perguntas que se desdobram em outras perguntas. É que realmente não tenho respostas,
não conheço as respostas e nem formulei ainda adequadamente as perguntas. Talvez esse
processo seja, de fato, um empreendimento coletivo, como o qual espero poder contribuir
de algum modo. Se conseguir suscitar outras inquietações e problematizações, penso que
terei aberto a oficina das águas.

Além das referências teóricas e bibliográficas, muitas das quais ficarão implícitas
na discussão ou não serão necessariamente exploradas e desenvolvidas, há as referências
mais de fundo de minhas experiências de vida e pesquisa em territórios ribeirinhos da
Amazônia Tocantina paraense. Neste caso, é necessário também levar em consideração
que se trata de um trabalho em andamento e que muito ainda falta pesquisarmos para
desenhar um mapa teórico necessário para análise descolonial dos territórios ribeirinhos
da Amazônia. Sabendo que individualmente é possível dá conta dessa tarefa. Talvez
dentro de nossa pequena província da geografia seja possível que possamos daqui a alguns
anos, com o aprofundamento das pesquisas, desenhar linhas mais definidas da geografia
águas numa perspectiva descolonial.

Mas, tudo isso ainda está no começo, ainda estamos engatinhando, portanto,
alguns pontos lhes parecerão difusos, incertos e ambíguos e muitas pontas soltas restarão.
Faço questão, assim, de deixar claro que não tenho a pretensão de esgotar o tema ou de
exauri-lo, nem de apresentar-lhes algo original e inovador. Tenho muito mais questões
ainda não muito bem formuladas para lhes oferecer. Tenho mesmo muitas intuições que
surgem de um certo inconformismo com o modo pelo qual nós, pesquisadores das
ciências sociais, nos aproximamos e abordamos as águas na Amazônia. Trata-se, talvez,
de compartilhar com vocês estas inquietações e perplexidades que me movem.

7
CICLO SOCIAL DAS ÁGUAS: TEMPORALIDADE, IMAGINÁRIO E
PRÁTICAS.

O tempo das águas


A primeira ou mais comum associação que se faz na Amazônia das águas é com
o tempo ou a temporalidade. As águas representariam uma “temporalidade” natural na
Amazônia. Em quase todos os trabalhos, nas leituras feitas sobre as águas sobressai-se o
tempo das águas. Algumas vezes de forma até determinista: o rio comanda a vida, por
exemplo.

O rio, sempre o rio, unido ao homem, em associação quase mística, o


que pode comportar a transposição da máxima de Heródoto para os
condados amazônicos, onde a água é uma espécie de fiador dos destinos
humanos. Veias do sangue da planície, caminho natural dos
descobridores, farnel do pobre e do rico, determinante das temperaturas
e dos fenômenos atmosféricos, amados, odiados, louvados,
amaldiçoados, os rios são a fonte perene do progresso, pois sem ele o
vale se estiolaria no vazio inexpressivo dos desertos. Esses oásis
fabulosos tornaram possível a conquista da terra e asseguraram a
presença humana, embelezaram a paisagem, fazem girar a civilização -
comandam a vida no anfiteatro amazônico (Tocantins, 2000, p.278).

As relações dos amazônidas com as águas seria de ordem temporal. O tempo


amazônico (ribeirinho), um tempo da natureza, é subscrito pelo regime das águas. Isto
tem muitas implicações e significados para o modo como olhamos para as populações
ribeirinhas e seus espaços de vida. Nós lhe atribuímos, pelo ritmo e ciclo das águas, um
tempo homogêneo, “naturalizamos” as temporalidades ribeirinhas retirando-as da
história.

Por que esta associação automática e imediata das águas com o tempo? Por que
consideramos que um regime plurifluvial, como o existente na Amazônia, definiria em
essência, o que constitui a marca da temporalidade ribeirinha? O que, de fato, esse regime
temporal das águas tem de “natural”? E o que, fundamentalmente, muito mais tem de
histórico, social e cultural? Ao colocarmos esta problematização da naturalização da
temporalidade das águas, não queremos negar a “dinâmica própria” da natureza: o pulso
diário das marés; as cheias e vazantes; o verão e inverno amazônicos; os rios de terra-
firme e os igarapés das várzeas e ilhas; as águas das fontes e dos igapós; a fertilização
sedimentar das várzeas e as terras caídas; a sazonalidade da produção, coleta de produtos

8
e pesca; o encontro das águas claras e escuras, do rio com o mar; a ligação permanente e
temporária dos lagos e rios etc.

A sazonalidade enquadra determinados práticas ribeirinhas, dão-lhe feições e


ritmos próprios, configuram espaços e tempos de uso e diferenciam os sujeitos sociais e
os lugares. A temporalidade das águas, no entanto, é uma construção histórica, social e
cultural; esse “tempo da natureza”, que configuraria a vida no estuário amazônico, às
margens dos seus rios, é um tempo histórico-social. Quando nos detemos no regime
temporal das águas amazônicas não vemos a separação nítida e decisiva dos “ciclos”
naturais dos ciclos sociais das águas. Os rios também foram moldados, relativamente,
como as terras e as matas por relações sociais e significações culturais.

Historicamente apropriadas, as águas não são apenas definidas por processos


naturais, mas por uma “semântica” cultural que define a estas uma mecânica circular
temporal. As águas foram e são apropriadas por regimes de sociabilidades, de cultura, a
partir do longo convívio, apropriação e usos que delas fizeram as mais diversas tribos
indígenas: construindo casas, barcos, lendas, instrumentos e técnicas de pesca; saberes
sobre sua dinâmica, relações corporais com as águas no banho, nos jogos e ritos, usos
domésticos etc. Os indígenas culturalizaram as águas, assim como culturalizaram,
produziram culturalmente, as matas (Balee, 2008).

Os ribeirinhos herdam dos indígenas não apenas uma “cultura das águas”, mas
“águas culturais”, no sentido material/simbólico. E ao herdar lançaram adiante esta
herança, deram continuidade a ela, incorporando novos elementos constituídos pelos
processos colonizadores e capitalistas modernos. Com o processo de colonização as águas
se definem não apenas como marcadores do tempo da natureza, mas como
tempos/espaços da produção social e econômica para o mercado além-mar. Seria preciso
nos determos um pouco mais no modo como o processo colononizador das águas dos rios,
igarapés e lagos (e até mesmo litorâneos) na Amazônia engendra historicamente um novo
regime das águas, vinculando-a a relações comerciais de longa escala. As águas são
usadas para alimentar (abastecer) prioritariamente o comércio colonial, além de
geopoliticamente serem os rios as vias privilegiadas da conquista, dominação e
exploração do espaço amazônico. Esta história deixou suas marcas nas águas e em nossas
relações com as águas na Amazônia. O tempo amazônico tem marcas d’águas, mas as
águas também são marcadas por diferentes temporalidades históricas e sociais.

9
Portanto, não há apenas predominantemente uma temporalidade natural das águas
na Amazônia. Um “ciclo social das águas” se estabelece ao longo das ocupações humanas
(Porto-Gonçalves, 2017), criando um regime das águas que se configura culturalmente
como um regime indígena, um regime moderno-colonial capitalista e um regime
ribeirinho. Na atualidade, um regime desenvolvimentista estatal, associado ao moderno-
colonial capitalista, impacta profundamente o ciclo social das águas, como através da
implantação de grandes hidrelétricas, hidrovias, portos graneleiros, fazendas e
empreendimentos mínerometalúrgicos e agroexportadores. Navegamos em águas
culturais, nos banhamos em águas culturalmente modificadas, marcadas, apropriadas
econômica, cultural e geopoliticamente. Os ciclos naturais das águas na Amazônia são
inseparáveis dos ciclos sociais das águas e juntos formam o regime da temporalidade das
águas, histórico e cultural.

O que acontece, então, com o tempo? O tempo das águas, o relógio das águas, o
calendário das águas, é muito mais complexo, do que os ritmos e períodos desenhados
por “dinâmicas naturais”. O que temos é uma coordenação do modo de vida dos
amazônidas com dinâmicas próprias das águas fluviais, pluviais, subterrâneas e
litorâneas. Mas, as marés diárias e as cheias e vazantes anuais, por exemplo, não
determinam o tempo de vida dos amazônidas, integram um conjunto complexo de
relações e práticas socioespaciais que garantem com que os “povos das águas” se
mantenham em seus territórios com seu modo de vida. Os fazeres que envolvem as águas
estão adequados às dinâmicas das águas, aos saberes que os amazônidas construíram
sobre as águas. Assim, tempo, fazer e saber foram histórica e socialmente coordenados
para garantir a reprodução de um regime de sociabilidade ribeirinho inseparável do
regime das águas.

Mas, não devemos esquecer que os ribeirinhos e demais povos das águas da
Amazônia atuam sobre ambientes ou ecossistemas aquáticos culturalmente apropriados,
modificados e significados. As ilhas construídas no Amazonas, as espécies de peixes mais
pescadas, a abertura de passagens (varadouros) entre rios, as influências atuais no
assoreamento, poluição e modificação físico-química das águas, o barramento de igarapés
e de rios por hidrelétricas, a manutenção e derrubada da floresta5 etc., representam

5
Cada vez mais é comprovada a íntima relação entre águas e florestas na Amazônia. A floresta não apena
atua no processo de evapotranspiração, as árvores produzem chuva (Fisch; Marengo; Nobre, 1998).

10
processos de longa duração que conformaram culturalmente muitos ecossistemas
aquáticos da Amazônia.

Vejamos o que acontece com as atividades relacionadas à pesca, por exemplo,


numa configuração territorial como o baixo curso do rio Tocantins, área de nossos
estudos, no nordeste do estado do Pará. O rio foi modificado pela instalação da
hidrelétrica em Tucuruí, no início da década de 1980. Mas, a presença maior de
comunidades da ictiofauna (peixes como o mapará, o tucunaré, a pescada, o curimatá) é
resultado do longo processo de ação sobre as águas dos indígenas e seus gostos
alimentares. O desaparecimento de espécies e a escassez atual de peixes, em grande parte,
é resultado da UHT, do desmatamento, do assoreamento dos rios e da pesca
indiscriminada para fins comerciais (Mèrona et al, 2010). A água do rio Tocantins em
todo seu baixo curso não pode ser usada para consumo humano sem um tratamento. A
retenção de grande quantidade de água no reservatório da UHT por longo tempo, em um
extenso lago artificial com grande quantidade de matéria orgânica submersa, alterou a
qualidade físico-química da água. Mesmo os períodos das cheias e estiagens anuais, bem
como a intensidade destas, foram alterados pela implantação da UHT. Também a
alteração da velocidade e direção das correntes e na capacidade do rio de transporte de
sedimentos, tem intensificado a formação de bancos de areia (assoreamento) e processos
erosivos. Além do mais, a barragem retém a montante nutrientes que o rio carreava até as
várzeas no inverno amazônico, promovendo a fertilização dessas áreas (Costa; Costa,
2007).

Que temporalidade natural pode haver em um ecossistema assim historicamente


apropriado e socialmente modificado em grande escala? As águas da Amazônia
Tocantina constituem um regime histórica e socialmente definido por essas relações. A
relação direta dos ribeirinhos com ambientes aquáticos específicos não pode ser
compreendida fora desse ciclo social das águas. Sem falar que o crescimento da
população urbana nessa configuração territorial do rio Tocantins também alterou as águas
e as relações dos ribeirinhos com as águas. Entre os ribeirinhos e os rios intervém em suas
práticas de pesca e navegação, por exemplo, relações capitalistas de mercado e
tecnologias de produção industrial de larga escala. A pesca se dá em ambientes e em
dinâmicas das águas já cultural, social e historicamente modificadas em maior ou menor
grau, intensidade e escala. Além dessas práticas de pesca serem mediadas por códigos,
normas, significados culturais diversos (Furtado, 1994). Não se obedece ao tempo da

11
natureza quando se pesca o camarão ou mapará “miúdo”, sem que este tenha se
desenvolvido adequadamente em função da necessidade de venda deste produto.

O imaginário das águas

São necessários ainda muito mais esclarecimentos sobre esta associação das águas
com a temporalidade e suas implicações para a compreensão das culturas e práticas
ribeirinhas na Amazônia. Mas, um outro aspecto importante das águas na Amazônia está
na sua simbolização, relaciona-se ao imaginário das águas que se funda na região. No
ciclo social das águas estas são, por assim dizer, profundamente simbolizadas, no
imaginário social. As águas são filtradas pelo imaginário, condensadas, redistribuídas
pelas forças do imaginário, não apenas dos indígenas e posteriormente dos colonizadores.
Nós não nos banhamos apenas no rio ou no mar, nós nos banhamos nas águas do
imaginário.

Exagero esta série de metáforas aquáticas para destacar, no entanto, a ontologia


política envolvida nesta produção imaginária das águas na Amazônia. Este imaginário
das águas não tem a ver apenas com a constituição de uma “bacia semântica” de imagens
na qual se acumulam o mítico e o lendário; tem a ver com os processos metonímicos mais
gerais de representação da própria Amazônia como um todo, enquanto uma “reserva
hídrica” do planeta. Ou seja, o imaginário das águas envolve um regime metonímico de
representação moderno-colonial, no qual a Amazônia é representada pela natureza, ou
parte dela; a floresta, a água etc.

À visão folclorizada do imaginário das águas na Amazônia oponho o sentido


geopolítico do imaginário (Glissant, 2011; Mignolo, 2005b). Essa visão enfatiza os
legados imaginários do colonizador apenas, como do rio das amazonas, e esquece das
apropriações simbólicas (e materiais) da água pelo imaginário político
desenvolvimentista reafirmado pelo Estado. Os planos, programas, projeções, imagens,
discursos políticos, mapas produzidos pelo Estado para a região são parte significativa
desse imaginário das águas da Amazônia no qual naufragamos e nos afogamos tantas
vezes. Evidentemente que o imaginário indígena/ribeirinho se sobressai pela diversidade
de representações e significações.

12
Existem também uma outra dimensão desse imaginário das águas, o que está ligado
aos “espaços poéticos” ou poiéticos, nos quais outros sentidos são atribuídos as águas. É
o imaginário das águas da produção poética, literária, artística, cultural de resistência e r-
existência (Porto-Gonçalves, 2001; 2006). A poética dos espaços das águas funda este
imaginário de resistência e esboça, em certo sentido, uma descolonização do imaginário
Amazônico. Os ritmos musicais, os poemas, os textos literários, o artesanato, a construção
de embarcações etc. constituem este outro regime de representação das águas amazônicas,
em grande parte potencial ou expressamente descolonial.

Também seria preciso descrever e problematizar melhor estes “regimes de


representação” vinculadas ao imaginário das águas na Amazônia. Pois estes envolvem
diferentes escalas de poder. Se impõe, muitas vezes, à produção acadêmica e científica
como verdades, direcionam o nosso olhar, apagam ou tornam visíveis determinados
sujeitos, lugares, saberes e vozes. Há uma disputa pelo imaginário. As águas não apenas
constituem uma série de imagens que fazem parte a representação da Amazônia, dos
amazônidas e das culturas. O imaginário das águas na Amazônia constitui a “geopolítica
do conhecimento”6 envolvida nos modos diversos de apropriação, uso e gestão das águas.
A definição da água como “recurso” faz parte deste imaginário moderno-colonial
capitalista que afeta/coloniza inclusive os imaginários de longa duração dos povos das
águas.

As águas produzem imagens, representações, ideias, conceitos que fixam seus


sentidos, apropriações e usos. Ao longo da história este imaginário se constitui por uma
variedade de formas de mitos, lendas, crenças, saberes relacionados às aguas. As
populações chamadas indígenas criaram e legaram para os demais povos das águas da
Amazônia um repertório vasto e intricado de imagens associadas às águas. As águas na
Amazônia são habitadas por iaras ou mãe d’água, botos que se transformam em homem,
cobras grandes e outros seres imaginários e encantados. O natural e o sobrenatural não se
separam das águas e matas.

As águas são espaços de práticas sociais e simbólicas (Diegues, 2000),


apresentando significados múltiplos (Cunha, 2000). As imagens e símbolos das águas, no
entanto, são construções geopolíticas do imaginário social. O imaginário das águas tem

6
A expressão é atribuída por Mignolo (2003; 2014) a Enrique Dussel. Acompanhada também da expressão
corpopolítica do conhecimento e colonialidade do saber (Lander, 2005). Ver também a maneira como
Grosfoguel (2010; 2016) e Maldonado-Torres (2008) tratam do tema.

13
um sentido construtivo de significados e práticas. Não é apenas um reflexo das águas na
imaginação. Há um imaginário das águas herdado, transmitidos pela oralidade e pela
prática, e este é inseparável das imagens e símbolos construídos pela relação direta com
as águas através do banho, das brincadeiras, das viagens, da relação cotidiana com as
águas. Também este imaginário é afetado e transformado pelas imagens dos meios de
comunicação, da educação escolar e outros meios de representação das águas. As águas
são impostas imagens resultados de interesses, ainda que seja os fabulosos “interesses
quiméricos” (Bachelard, 2018). Na nossa região, o imaginário das águas também é
marcado pela memória e histórias das viagens, dos barcos e portos. O imaginário das
águas é repleto de barcos e viagens realmente existentes e fantasiados. Ou seja, é um
imaginário de ligações com outros lugares através dos rios.

O imaginário das águas na Amazônia faz parte de um regime de representações


espaciais da região. Constitui sujeitos e saberes, práticas e lugares como um tecido, uma
trama complexa de significados. A trama do imaginário das águas faz-se no encontro
entre o interior (e anterior a conquista colonial) e o exterior (uma exterioridade que
constitui este interior). Ao discurso colonial se apresentaram respostas das comunidades
locais que o ocidente envolveu (Mignolo, 2005b) constituindo o regime de representações
que conformam o imaginário amazônico das águas.

Fazeres e Saberes das águas

A terceira dobra do ciclo social das águas na Amazônia tem a ver com os saberes e
as práticas, com o que se convencionou chamar na literatura acadêmica de “saberes das
águas” (Pojo; Elias; Vilhena, 2014) e “águas de trabalho” (Vitikoski, 2010). Talvez o
nome mais adequado seria “águas dos fazeres” ou “fazeres das águas”. São as diversas
práticas sociais produtivas relacionadas as águas e os conhecimentos que as constituem.

Cotidianamente várias práticas produtivas, culturais, de lazer etc. se apropriam,


usam e exploram as águas na Amazônia. As águas na Amazônia constituem um campo
de práticas diversas e, não de raro, divergentes. Práticas que podem afetar ou direcionar,
definir ou controlar o ciclo social das águas. Práticas que produzem e carregam diferentes
saberes e poderes, e fazem das águas um território em disputa, um território contestado.

14
Territorializam e des-reterritorializam sujeitos, saberes, lugares, sentidos e usos das
águas.

Enquanto campo dessas práticas sociais, políticas, normativas, econômicas (ou


produtivas) as águas configuram, evidentemente, diversos territórios e territorialidades.
Muitas vezes as práticas ribeirinhas são idealizadas ou estereotipadas em nossos estudos,
pois tendemos a dissocia-las dos contextos das relações mais amplas e complexas,
desvinculando-as de processos históricos, sociais, geográficos, econômicos e políticos
que tendem hegemonicamente a se impor à região. As águas aparecem, assim, como
simples meios sobre os quais se realizam as práticas dos sujeitos sociais.

Nas “águas de trabalho” os diversos meios aquáticos são, geralmente, reduzidos a


um papel passivo (instrumental) de mero “elemento natural” sobre/pelo qual se
desenvolve o trabalho humano social. Seria preciso fazer uma crítica dos regimes de
trabalho que se apropriam e definem as formas de apropriação, usos e exploração das
águas para diversos fins socioeconômicos: turismo, lazer, agricultura monocultora,
abastecimento urbano, navegações, pesca, produção de energia hidroelétrica etc. A
relação existente entre estas diversas práticas é fundamental para compreensão em maior
escala do “ciclo social das águas” na Amazônia.

Há práticas, portanto, que não são produtores de identidade dos lugares e das
pessoas, de grupos sociais e territórios amazônicos. As questões referentes a produção
territorial das identidades ribeirinhas passam pelas práticas de apropriação material,
simbólico/cultural das águas na Amazônia. Ao trabalhar as águas os ribeirinhos produzem
seus territórios e suas diversas formas de identidade “hídrica” e “híbrida”.

Umas das práticas que merecem nossa atenção são as práticas de gestão das águas,
como as estratégias territoriais que constituem os acordos comunitários de pesca na
Amazônia. Por isso mesmo o termo águas de trabalho não abre todo o aspecto de práticas
relativas as apropriações, controle, acesso e uso das águas na Amazônia. A gestão das
águas tem envolvido uma série de conflitos, entre diversos agentes sociais em lugares
distintos da região. Cada vez mais deve se tornar fonte geradora de tensões, disputas e
problemas, em razão do valor estratégico que tem o controle sobre os chamados “recurso
hídricos” (numa perspectiva de mercado muito adotada por estudiosos) e os recursos
naturais aquáticos.

15
Outro campo importante das práticas na construção cultural das identidades
ribeirinhas com/através das águas diz respeito à educação escolar. Mas, esta dimensão
prática enfatizaremos melhor ao tratar das águas a partir das epistemologias territoriais e
do território educativo. Caberia, talvez focalizar aqui o caráter político das práticas
educacionais em espaços ribeirinhos, onde as práticas relacionadas às águas são
secundarizadas, pois quando muito a água aparece no abastecimento das escolas e
residências.

De uma forma geral, o ciclo social das águas é constituído por práticas de acesso,
controle, apropriação e usos das águas e seus recursos. Estas práticas se articulam com as
demais práticas relacionadas às florestas e as terras. Além de constituírem as identidades
sociais e territoriais dos grupos sociais ribeirinhos, envolvem diferentes relações de
poder. São mesmo práticas políticas, com as de gestão das águas e de recursos aquáticos.
A partir dos modos de vida ou regime de sociabilidade das populações ribeirinhas, as
águas são trabalhadas por práticas que as constituem elementos importantes da
territorialidade e identidade ribeirinha, atualmente fortemente marcada por práticas de
resistência e r-existência. O âmbito das práticas que envolvem a pesca e a navegação, por
exemplo, indicam de que modo o ciclo social das águas se constituem de práticas
complexas de múltiplos sentidos e escalas. Se constituem politicamente, fazendo das
águas um campo de práticas em tensionamento permanente. As águas enquanto campo
de práticas culturais e identitárias, do regime de sociabilidade ribeirinha, não devem ser
vistas dissociadas das práticas hegemônicas que sobre elas incidem cada vez com mais
força.

Em síntese, as águas na Amazônia constituem um “ciclo social”, que pode ser lido
como um regime de poder/saber. O ciclo social da água se constitui, pelo menos, por três
dobras políticos-analíticas: das temporalidades das águas, do imaginário das águas e das
práticas e saberes das águas, ambas articuladas entre si complexamente. A temporalidade
das águas constitui e é produzida pelo imaginário das águas e práticas; o imaginário das
águas permeia e significa as práticas e saberes de diferentes temporalidades. Portanto, o
ciclo das águas na Amazônia constitui-se em um regime de diferentes regimes, inclusive
o hegemonicamente marcado pela colonialidade (do poder, do saber, do ser e da
natureza).

Portanto, não podemos pensar as águas apenas numa dessas dimensões, ou, como
prefiro, dobras ontológicas. Estas são apenas “indicadores mínimos intensivos” de
16
relações complexas envolvendo uma multiplicidade de atores sociais, interesses, projetos
etc. As águas na Amazônia são, ao mesmo tempo, produtos culturais e re-produtores de
práticas culturais identitárias. Agitam-nas pororocas de relações de poder muitas vezes
submersas e resultantes de várias nascentes, provocando esse encontro turbulento das
águas. O ciclo social das águas, que forma estes regimes das águas na Amazônia, nos
coloca o desafio analítico, político, prático e epistemológico de descolonização da
natureza, do poder, do saber e do ser.

As águas são ao mesmo tempo um campo privilegiado de expressão e


enfrentamento da “colonialidade” (do poder, do saber, do ser e da natureza) e de
construção de direitos, incluindo os “direitos da natureza” (Gudynas, 2019). Mas, ainda
estamos longe de compreender a ontologia política das águas da Amazônia em toda sua
complexidade e implicações. Precisamos nos perguntar em que sentido o regime das
águas importa para compreender o território? Não apenas o território das chamadas
populações tradicionais da Amazônia, mas as modernidades coloniais que constituem
espaço-tempos, culturas e identidades que se miram (ou podemos mirar) no agitado, turvo
e móvel espelho das águas.

17
ÁGUAS: TERRITÓRIOS DAS EPISTEMOLOGIAS

As relações entre epistemologia ou episteme e território definem as águas enquanto


“território educativo”. Antes de “saberes das águas”7 (Pojo; Elias; Vilhena, 2014) temos
na Amazônia, mas não apenas nesta, uma “episteme das águas”. Penso nesta designação
tanto no sentido que Foucault (2002) atribui a episteme8, quanto na maneira como Leff
(2001) trabalha o conceito de epistemologia ambiental. A episteme das águas traduz-se
numa epistemologia ambiental ou territorial.

Com a construção de todo saber ambiental, os saberes das águas envolvem uma
epistemologia vinculada ao território. Portanto, é necessário discutimos sobre
“localizações epistemológicas” (Mignolo, 2005a). Se a construção de saberes das águas,
obrigatoriamente, remete-nos questões epistemológicas, pelo menos duas preposições
temos que des-dobrar: 1) os saberes das águas não são apenas saberes sobre as águas; 2)
os saberes das águas envolvem mais que o que sabemos das águas e aprendemos nas e
com as águas, e sim envolvem todo território, territórios epistemológicos.

As localizações geográficas importam para a genealogia do conhecimento. É nesta


questão geral que repousa nossa questão mais específica: as águas na Amazônia, no que
envolve a construção de conhecimentos (não apenas ribeirinhos, mas das ciências e
humanidades), implicam em que epistemologias territoriais? Nós tendemos a ver os
saberes das águas, genealogicamente, apenas como aqueles gerados nas relações diretas,
historicamente constituídas, e nas experiências particulares entre os sujeitos e as águas. É
como se nestes não intervissem constantemente outros sujeitos, instituições, lugares e
saberes; é como se estas relações não constituíssem saberes das águas vinculadas a

7
Entendo os saberes das águas também como uma forma de saber ambiental (Leff, 2009), no sentido que
neste não se separa o racional e sensível, os saberes e sabores da vida. Como também é ontológico e
histórico, “estabelece-se em novas identidades e territórios de vida”; é uma epistemologia política e “é uma
ética para acarinhar a vida, motivada por um desejo de vida, pela pulsão epistemofílica que erotiza o saber
na existência humana” (p. 18).
8
“Por episteme entende-se, na verdade, o conjunto das relações que podem unir, em uma dada época, as
práticas discursivas que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas
formalizados; o modo segundo o qual, em cada uma dessas formações discursivas, se situam e se realizam
as passagens à epistemologização, à cientificidade, à formalização; a repetição desses limiares que podem
coincidir, ser subordinados uns aos outros, ou estarem defasados no tempo; as relações laterais que podem
existir entre figuras epistemológicas ou ciências, na medida em que se prendam a práticas discursivas
vizinhas mais distintas. A episteme não é uma forma de conhecimento, ou um tipo de racionalidade que,
atravessando as ciências mais diversas, manifestaria a unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou
de uma época; é o conjunto das relações que podem ser descobertas para uma época dada, entre as ciências,
quando estas são analisadas no nível das regularidades discursivas” (Foucault, 2002, p. 217).

18
epistemologias territoriais que não se isolam em conhecimentos ditos tradicionais e/ou
populares “locais” ou regionais.

Não digo que não seja importante descrever, mapear e reconhecer esses
conhecimentos sobre e com as águas gerado desde os indígenas até os ribeirinhos. Mas,
em nossa relação com estes conhecimentos, as transformamos a partir da ciência em
objeto de estudo, em “saberes locais”, em geral subjugados ou subalternizados aos
conhecimentos considerados universais, racionais e desincorporados pela perspectiva
científica da epistemologia colonial/moderna. Os saberes das águas habitam
“epistemologias fronteiriças” e, na “geopolítica do conhecimento”, envolvem um outro
entrelaçamento entre “espaços geográficos e localizações epistemológicas” (Mignolo,
2003; 2005a).

Qual a importância dos saberes das águas produzidos na Amazônia? Como estes
saberes são classificados e posicionados na geopolítica e corpo-política do conhecimento?
Que epistemologias territoriais estes constituem em relação aos “legados coloniais”
(Mingolo, 2005a)? Estas seriam algumas questões para abrirmos e ampliarmos os debates
sobre os saberes das águas para além dos meros inventários.

As águas constituem conhecimentos e territórios na Amazônia. E esta constatação


é bem mais complexa e repleta de implicações do que parece. Pois, onde, como e por
quem estes conhecimentos e territórios se constituem importa, ou seja, fundam
(fundamentam-se) uma ontologia e uma epistemologia com profundas implicações
teóricas e metodológicas para quem se volta para o estudo, a compreensão, a interpretação
deste. A ideia de territórios epistemológicos relacionados aos saberes das águas não
apenas metaforiza o termo território, mas o considera ontologicamente, ou seja,
compreende que o processo de territorialização dos sujeitos envolve a construção de uma
determinada matriz de conhecimento, neste caso dos saberes das águas, das florestas, das
terras, do sobrenatural, uma epistemologia fronteiriça, devido ao “legado colonial” da
Amazônia no sistema-mundo moderno/colonial patriarcal capitalista norteurocêntrico
(Grosfoguel, 2008).

Devíamos estar atentos muitos mais para a racionalidade (ou matriz de


racionalidade) que funda, fundamenta e di-funde os saberes das águas. Esta matriz de
“racionalidade ambiental” (Leff, 2009) funda uma outra epistemologia, constitui uma
outra matriz fundadora de saber. Descrever quais são esses saberes, mapear suas

19
genealogias e formas de transação e transmissão, em cada contexto territorial, é de
fundamental importância. Porém, ao mesmo tempo, compreender a matriz de
racionalidade dentro e a partir da qual são gerados e confinados é muito mais. Além de
questionar ou problematizar a maneira como são concebidos, apropriados e, não de raro,
subjugados ou subalternizados pelas epistemologias ocidentais moderno-coloniais, em
particular pelas ciências. Os saberes das águas são, como a maioria dos povos originários
das América, remanescentes dos epistemicídios (Sousa Santos, 2006) coloniais e, ainda
mais são, formas gnosiológicas de resistência (muitas vezes velada, silenciosa, sutil,
porém tenaz) à “violência epistêmica” (Spivak, 2010) que marca os imperialismos
epistemológicos, a geopolítica do conhecimento (corpo-política e organo-política)
moderno-coloniais (Mignolo, 2014).

Os territórios epistemológicos que constituem os saberes das águas não podem ser
descritos ou inventariados, classificados e mapeados pelos instrumentos de investigação
(geralmente instrumentos de expoliação de saber) teórico-metodológicos da matriz de
racionalidade científica sem que este os deslegitime, inferiorize, estigmatize ou
subalternize. Nosso desafio é compreender como constituem respostas, enfrentamentos e
desprendimentos da retórica da modernidade e da lógica da colonialidade (Mignolo,
2014). Os territórios epistemológicos constituem saberes fundados em espaços
geográficos, legados coloniais de histórias cruzadas, localizadas, a partir do confronto
com projetos globais (Mignolo, 2003). Se não conseguimos dar visibilidade e situá-los
nesse processo, nessas experiências espaços-temporais, continuaremos acreditando na
falácia descartiana do conhecimento desincorparado. Os saberes das águas constituem a
“pluriversalidade epistêmica” (Mingolo, 2014) da Amazônia e do mundo; as
“epistemologias do Sul” em diálogo (tenso, problemático, subscrito e assimétrico) com
as epistemologias do Norte (Sousa Santos, 2010). Se constituem em geografias e histórias
cruzadas, por isso são territórios epistemológicos fronteiriços.

Os ribeirinhos, por exemplo, não constituem apenas uma forma de território ao qual
se vinculam saberes (que por sua vez o vinculam a este território). Seu modo de
terririalização é co-constitutivo de um modo de construção de conhecimentos territoriais,
como os “saberes das águas”. Portanto, ao criar um território re-criam uma epistemologia,
ao produzir determinados saberes produzem ao mesmo tempo um território e um modo
de vida, uma identidade, uma forma de existência. Os ribeirinhos habitam um território
epistêmico, por eles criados e recriados a partir dos repertórios de saberes (e forças

20
sociais) dos legados coloniais. Os “saberes das águas” não existem como que flutuando
ao sabor das marés, mas emergem do “perau” dos territórios epistêmicos em que são
gerados.

Há uma dimensão ou, como prefiro, uma dobra epistêmica das águas. Na Amazônia
as águas fundam territórios epistêmicos que são territórios de resistência e r-existência,
quer dizer, construções e expressões, meios e objetos, forças e estruturas de relações de
poder, de exercícios espaciais de poder. A “colonialidade do saber” (Lander, 2005) aqui
se apresenta e atua de um modo bastante contundente e dramático, mas de tal modo que,
na maioria das vezes, permanece não só oculta (em nossas produções acadêmicas de
conhecimento), como também se justifica pela posição que assumimos e aceitamos na
divisão territorial da produção do conhecimento, na geopolítica do conhecimento.

Quando situamos a episteme, a matriz de racionalidade ambiental dos “saberes das


águas”, a partir da perspectiva do território, a colonialidade, de certo modo, de faz ver
mais nitidamente, como este lado oculto da modernidade (Mignolo, 2017). A importância
da virada epistemológica desde o território está no seu potencial de desvelar a
colonialidade como a cara oculta (é indissociável) da modernidade. Então, notamos nas
teorias, nas metodologias, nos conceitos e expressões que usamos e nos referimos a nós
mesmo, os amazônidas, as marcas distintas da colonialidade: nas separações e hierarquias
entre sociedade e natureza, moderno e tradicional, espaço e tempo, ciência e senso
comum, natural e sobrenatural, mito e história, urbano e rural, saber e conhecimento etc.

As águas nos remetem obrigatoriamente aos saberes fronteiriços que se constituem


na Amazônia. Os saberes das águas se constituem em epistemologias fronteiriças,
portanto, territoriais. Enquanto fundados/fundantes de territórios epistemológicos, as
águas nos conduzem ao desvelamento dos legados coloniais, da geopolítica do
conhecimento, da colonialidade na Amazônia. A diferença colonial da Amazônia se
expressa na matriz de racionalidade fundadora dos saberes das águas, enquanto saberes
ambientais coloniais, de resistência/r-existência e potencialmente portadores de
novos/outros “horizontes de sentidos” (Quijano, 2005; 2010). A politização desses
saberes das águas, pois se constituem a partir de relações de poder, as quais muitas vezes
nossos estudos ignoram, apagam ou secundarizam, envolve considerá-los como co-
constitutivos de territórios de epistemologias fronteiriças, formados entre os “espaços de
experiências” e “os horizontes de expectativas” da modernidade/colonidade (Kosellek,
2006; Mignolo, 2014).
21
Não são apenas indígenas, ribeirinhos, quilombolas que em relação direta com os
mais diversos meios aquáticos na Amazônia produzem “saberes das águas”. Não
podemos ignorar (nem dissociar desse processo epistêmico histórico) a produção de
outros saberes das águas, como por especialistas das ciências, que com as águas
interagem, das quais absorvem e aos quais transmitem saberes importantes para o
entendimento de dinâmicas locais e globais do ciclo social da água. Desde muito tempo,
desde a conquista colonial, as formas de relações econômicas, políticas, culturais-
religiosas e socioespaciais (marcadas pela violência epistêmica) implicam na apropriação
e produção desses conhecimentos que hoje traduzimos como “saberes das águas”. Seria
preciso que nós detivéssemos muito mais nesses processos, experiências, práticas,
relações que constituíram ou constituem as genealogias dos territórios epistêmicos das
águas na Amazônia. Pois, quando descrevemos os saberes das águas (de indígenas,
ribeirinhos, quilombolas, mulheres etc.), possamos fazer ver como se constituem nesses
entrecruzamentos (dramáticos, violentos, muitas vezes conflituosos, mas também
cooperativos) de histórias/geografias locais e projetos globais.

Só para tomarmos um exemplo: os ribeirinhos, do baixo Tocantins, têm “seus”


saberes das águas completamente afetados pelo que tiveram que apender (a partir de
experiências e campos de experiências e lutas diversas) sobre a produção de energia por
usinas hidrelétricas e o que esta produção faz com o rio, como o afeta e transforma. Por
isso que eles falam em “águas turbinadas” quando se ferem as águas presas na represa de
usinas hidrelétricas (Costa, 2006). Águas turbinadas para os ribeirinhos tem um sentido
muito próprio dos efeitos socioambientais perversos provocados pela geração de energia
elétrica. Eles incorporam (criticamente) aos seus saberes das águas (traduzindo-os em
suas linguagens) os saberes dos técnicos e de funcionários da empresa geradora de energia
e dos pesquisadores, ativistas e políticos com as quais interagem, em função dos danos
que sofrem (e o rio sofreu) com o grande empreendimento moderno/colonial
desenvolvimentista.

O próprio termo desenvolvimento é uma palavra dura, pesada (monstruosa) como


a armação de ferro e concreto do grande objeto técnico que barra o seu rio. Os ribeirinhos
não o incorporam sem algumas ambiguidades, tensão e ironia. Os ribeirinhos do baixo
curso do rio Tocantins, que vivem a jusante da Hidrelétrica de Tucuruí, têm ciência dos
impactados causados pelo desenvolvimento. E o saber que aprenderam dessa experiência
dramática e traumática incorporam, à sua maneira, aos seus saberes das águas. Histórias

22
locais e projetos globais conformam o território epistêmico em que se constituíram os
saberes das águas dos ribeirinhos do baixo Tocantins. Portanto, seus saberes das águas
constituem-se numa epistemologia fronteiriça, desde os processos coloniais.

Mas, e onde as populações que habitam/vivem com as águas não sofreram tais
impactos? Seus saberes das águas também envolvem o confronto/cruzamento de histórias
locais e projetos globais? Os legados coloniais impõem a toda à Amazônia a constituição
fronteiriça das suas epistemologias, de seus territórios epistemológicos. No entanto, em
cada contexto particular os espaços das experiências moderno/coloniais e os horizontes
das expectativas descoloniais se apresentam em combinações dinâmicas e diversas. No
mundo contemporâneo não existe lugar que não foi afetado pelos processos da
globalização. Deveríamos estudar os saberes das águas sempre em suas des-articulações
com o “meio técnico-cientifico informacional” (Santos, 2009) da
modernidade/colonialidade atual.

Penso que, ao considerarmos as águas e os conhecimentos a estas vinculados a


partir do território, é possível compreender estas outras epistemologias. Saímos da
descrição meramente dos saberes das águas como “saberes tradicionais”, herdados e
construídos apenas pelas relações diretas dos ribeirinhos com os meios e as dinâmicas
aquáticas, e compreendemos sua genealogia fronteiriça; sua relação com as formas de
resistência; sua hibridização com outras matrizes de racionalidade; sua história de
apropriação por colonizadores e pesquisadores diversos; seus modos complexos e
localizados de construção e socialização, envolvendo os confrontos das histórias locais
com os projetos globais moderno/coloniais/imperiais. Temos que potencializar também
nossa análise dos saberes das águas, das florestas, das terras e do sobrenatural,
deslocando-nos das categorias, conceitos e conteúdos moderno-coloniais. Antes de tudo,
precisamos atentar para maneira como constituem territórios. Não apenas se vinculam a
determinados territórios, mas constituem territórios epistemológicos, forças
territorializadoras. Os saberes das águas não podem ser desvinculados das relações de
poder das quais são constitutivos, particularmente do exercício espacial do poder que
estruturam os regimes das águas na Amazônia.

23
TERRITÓRIO EDUCATIVO DAS ÁGUAS

Os fazeres e saberes das águas constituem os territórios educativos das águas. Mas,
a educação escolar nos espaços ribeirinhos geralmente se restringe ao espaço da escola.
E os processos educativos constitutivos dos territórios ribeirinhos, por conseguinte, não
adentram ou afetam o espaço escolar. O que temos não é apenas um desencontro ou
dissociação entre educação escolar ribeirinha e território ribeirinho. Acontece que o ciclo
social das águas, o regime das águas e os saberes das águas não envolvem e afetam os
processos educativos escolares que ocorrem nos territórios dos povos das águas da
Amazônia.

O que podemos entender por território educativo? Trata-se de um processo ou de


um projeto? Por que as águas constituem territórios educativos na Amazônia? O território
educa? A educação é territorial? As águas educam? Em que sentido? As águas constituem
um território de aprendizagens? Se ao falarmos de “território educativo”, precisamos
considerar “o conhecimento misturado, aquele que se traduz entre a comunidade e a
escola” (Faria, 2010, p. 98), como as águas integram ou podem integrar este território
educativo?

Primeiro temos que entender a relação do território com a educação no processo de


construção de saberes em geral. Pensar esta relação entre a educação e o território na
Amazônia é bastante problemático, particularmente quando envolve os territórios das
águas. Oliveira Neto (2015, p. 2) expressa da seguinte maneira esta relação:

[...] a educação é elemento fundamental na constituição do território rural-


ribeirinho em dupla dimensão: evitando que os filhos dos trabalhadores do
campo tenham que migrar para a cidade para acessar um direito básico que
deveria assistir a todos, que é a educação, e porque a prática educativa em si
expressa concepções de desenvolvimento e de campo, que articuladas a outros
elementos contribui para a desestruturação ou a reestruturação destas
formações socioespaciais.

O primeiro sentido se refere a relação da educação escolar com a permanência no


território (enquanto espaço de moradia, vida e trabalho) dos filhos e filhas de famílias
ribeirinhas. A segunda dimensão refere-se a forma como a educação constitui o território
das águas na Amazônia, é mais complexas e precisa se melhor desdobrada e
problematizada. Ela diz respeito aos conteúdos e efeitos da educação (não apenas a

24
escolar), através das concepções que transmite, sobre o território. Mas, haveria uma outra
maneira de compreender a articulação educação e território? Uma forma de ver o território
como sujeito da educação? Talvez estas questões precedam as questões colocada por
Oliveira Neto (2015, p. 2): “como os processos simbólicos se relacionam com os
processos de territorialização” e “como os processos educativos podem auxiliar os
sujeitos na interpretação, ressignificação e reestruturação do território local em toda a sua
riqueza e complexidade?”.

O habitar e coabitar com as águas definem os territórios das populações ribeirinhas.


No processo de territorialização, que podemos chamar de ribeirinhidade (o fato dos
ribeirinhos se constituírem enquanto ribeirinhos ao constituírem um território e uma
territorialidade), constroem-se conhecimentos que são territoriais. Ao viver neste
território os ribeirinhos constroem conhecimentos a respeito desse território e aprendem
neste e com este a partir de suas relações e experiências de vida. Assim, temos um
entrelaçamento complexo entre território e processo educativo: na origem da construção
do território se processa a produção de um conhecimento territorial; na forma de
organização do território, em sua apropriação e uso, se mobiliza um conhecimento e uma
aprendizagem; na vivência do território se constroem outros conhecimentos e
aprendizagens, pois aprende-se com e partir do território vivido, percorrido, habitado,
usado.

Esse entrelaçamento entre território e processo educativo é, portanto, histórica: no


território estão inscritos saberes historicamente produzidos no processo de construção do
território. O território, em certo sentido, é uma expressão e resultado de processos de
construção e transmissão de conhecimentos socioespaciais diversos. As residências
ribeirinhas, por exemplo, são formas materiais construídas que expressam e resultam de
conhecimentos socioespaciais historicamente construídos. O entrelaçamento entre
território e educação é também prático: o território constitui lugares em que se aprende,
em que se conhece, se produz e obtém saberes. A atividade de pesca se dá em
determinados lugares onde os mais novos aprendem com os mais velhos a pescar e,
também, aprendem através da vivência das águas na atividade da pesca o que precisam
saber para pescar. O território os educa pela prática.

Não devemos esquecer também que o território ribeirinho não se reduz a área, ao
espaço físico em que os ribeirinhos moram, vivem, usam. O território ribeirinho constitui-
se na articulação de diferentes espaços não necessariamente contíguos (Pereira, 2014).
25
Por exemplo, não podemos compreender o território ribeirinho sem suas relações, muitas
vezes diárias, com cidades e vilas ribeirinhas. Então, há um processo educativo territorial
relacionados as redes de relações socioespaciais realizadas no/através dos deslocamentos
pelos rios. Ao mesmo tempo os espaços ribeirinhos são atravessados pelas
territorialidades, presenças e ações de outros sujeitos e instituições: religiosos,
administradores ou gestores públicos, pesquisadores, políticos, professores de fora da
localidade, técnicos, ativistas de organizações sociais etc. Com estes os ribeirinhos
também aprendem e ensinam. Desse modo, o território é o espaço onde conhecimentos
outros são possibilitados pelos encontros com sujeitos diversos.

Os ribeirinhos, em geral, constituem “um território de resistência dos sujeitos que


lutam tendo como referência o trabalho, a cultura, a memória, a temporalidade e a
identidade de gerações que são reconstruídas cotidianamente a partir de respostas que os
sujeitos têm que dar aos problemas que os atingem” (Oliveira Neto, 2015, p. 7). Portanto,
o território também é um espaço de construção da aprendizagem da luta/na luta por
direitos e pelo direito ao território. Já que à luta pelo território se articula a própria luta
pela educação escolar. O território é o espaço de uma educação política.

O território é uma escola. E a escola deveria se estender ou considerar todo território


como um espaço escolar, e não apenas o prédio físico, o espaço material da escola em si.
A prática educativa escolar é uma prática territorial:

Na prática educativa o território está presente não apenas como conceito, mas
como conteúdo vivo, a partir das suas contradições, conflitos, disputas e
sentidos. A sua carga educativa está para muito além do espaço de sala de aula.
Ele é, em si, educativo e a vivência da comunidade comprova que, nas relações
cotidianas, ele é um elemento importante nas trocas materiais e simbólicas que
estruturam a vida destes grupos sociais (Oliveira Neto, 2015, p. 8).

Desse modo, é que as águas podem ser compreendidas enquanto território educativo
na Amazônia. O território educativo não se restringe ao que acontece na escola ou ao que
escola faz, mas a educação escolar ao considerar todo o território no qual se realiza como
“agente” do processo educativo, também se faz como território educativo, ou seja,
constitui o território educativo na prática. Por isso, Faria (2010, p. 94), em relação ao
espaço da cidade, entende “o território educativo como um movimento de mão dupla: a
escola se abre para a cidade, e a cidade entra efetivamente na escola. Isso envolve espaço
físico, currículo, formação dos educadores e profissionais e gestão intersetorial. É
necessariamente uma conjunção de forças múltiplas”. Poderíamos dizer: a escola se abre

26
para o território e o território se abre para a escola. Aqui o território educativo é ao mesmo
tempo processo e projeto de abertura das práticas de aprendizagem.

Mas o território é educativo independentemente da escola. As águas também


constituem este território educativo não apenas como elemento material do território
ribeirinho. Não podemos reduzir as águas à sua materialidade, pois como vimos estas
constituem: um ciclo social ou regime; constituem temporalidades, saberes e imaginários
das águas e a elas se articulam práticas/fazeres, territórios e epistemologias. As águas são
elas próprias um território educativo. As escolas não podem apenas incorporá-las como
um conteúdo do currículo. O que as escolas do campo ribeirinho precisam, de certo modo,
é se inserir efetivamente no território, tomar todo o território como uma escola. Desse
modo, as águas passam a ser também o território educativo das escolas ribeirinhas.

O território coloca, de um outro modo, a ideia da escola existindo em interlocução


com a comunidade (Faria, 2010). Por isso “Se falarmos de território educativo,
precisaremos considerar o conhecimento misturado, aquele que se traduz entre a
comunidade e a escola” (Faria, 2010, p. 97). Além disso, a ideia de território educativo
nos obriga a repensar o modelo arquitetônico das escolas (Faria, 2010): a maneira pelas
quais se constroem as escolas do campo ribeirinho.

As águas enquanto território educativo colocam desafios de caráter


epistemológicos, de considerar as epistemologias das águas (uma epistemologia
ambiental do sul); considerarmos o ciclo social das águas a partir dos regimes de águas
em que se configuram águas culturais (ou ecossistemas aquáticos culturais);
considerarmos dos imaginários, dos saberes e fazeres das águas e a constituição de
territórios educativos, no qual as escolas possam ser não apenas o espaços físicos
escolares, mas os próprios territórios das águas. São, portanto, desafios conceituais,
políticos e práticos colocados pelas águas enquanto território educativos. O que, para nós
pesquisadores, também envolvem desafios metodológicos.

27
METODOLOGIAS DE PESQUISA DAS ÁGUAS

Ousemos tentar des-dobrar algumas reflexões sobre metodologias de pesquisa, em


ciência sociais, envolvendo as águas. Não pretendo apresentar nenhuma proposta
específica de “como fazer pesquisa na Amazônia” com as águas e os sujeitos que
constituem o que estamos chamando de “ciclo social das águas” e “os territórios
epistêmicos das águas”.

Para a reflexão sobre metodologias de pesquisa com as águas na Amazônia


precisamos analisar como fazemos, geralmente, pesquisas sociais com populações,
sujeitos e agentes sociais das águas na região. Existem já consolidados, desde a década
de 1950, o que poderíamos denominar de uma “tradição etnográfica” de pesquisa social
com os territórios dos sujeitos das águas. Esta “tradição” se prolonga até os dias atuais
com muitas transformações significativas no modo como constrói e põe em prática
estratégias metodológicas de pesquisa. E, certamente, apresenta por isso uma ramificação
muito densa e extensa, bem como tem produzido importantes trabalhos. A superação da
visão estereotipadas e folclórica do chamado “caboclo” amazônico tem, nestas linhas,
contribuído para um modo etnográfico de aproximar-se das águas e sujeitos das águas,
produtor de leituras muito importantes da diferença e diversidade sociocultural
amazônica.

As metodologias etnográficas atravessam vários campos de saber acadêmico e


científico das ciências sociais: a antropologia, a sociologia, a educação, a história, a
geografia, etc. Penso que estas metodologias etnográficas são de fundamental
importância, uma vez que captam e descrevem em profundidade relações, sentidos e
saberes construídos pelas populações locais em suas diferentes interações/integrações
com as águas, rompendo campos disciplinares. Mas, talvez ainda nos falte definir e
construir com maior propriedade uma “etnografia das águas” que contemplem a
diversidade contemporânea das experiências sociais.

As águas interiores e as águas litorâneas na Amazônia exigem estudos etnográficos


capazes de constituir uma “visão” mais completa, consistente, sistemática, crítica,
abrangente, teoricamente articulada das “culturas das águas” para além de aspectos locais,
localizados, e fenômenos, ações, práticas, processos, relações, dinâmicas e experiências
particulares/especificas. Uma etnografia das águas, talvez, que seja capaz de
captar/traduzir o “sentido global dos lugares” (Massey, 2000) os quais cotidianamente

28
vivenciam grupos sociais em co-habitação com as águas. O “habitar as águas” na
Amazônia etnograficamente vivenciado e traduzido numa linguagem teórico-conceitual
que traga à tona o sentido global do ciclo social das águas e a condição fronteiriça dos
territórios epistêmicos das águas na Amazônia.

Não nos faltam bons estudos etnográficos envolvendo as águas, faltava-nos, talvez,
uma maior reflexão a respeito das etnografias das águas como experiências que se des-
articulem completamente da produção de visibilidade/invisibilidade, vozes e silêncios,
saberes e ignorâncias, genealogias, arqueologias e cartografias. O “sentir-pensar”
(Escobar, 2014) as águas etnográfico ainda se insinua muito timidamente na direção das
metodologias de pesquisas que também podem ser e são expressões e meios de
reprodução da colonialidade. Ao mesmo tempo são espaços abertos à reconstrução e
ressignificação descoloniais. Uma etnografia das águas pode abrir estas possibilidades de
um “giro descolonial” (Mignolo; Grosfoguel, 2008; Castro-Gomez; Gosfoguel, 2007),
assumindo a necessidade de reinventarmos os instrumentos cognitivos analíticos com os
quais nos situamos em relação ao “mundo da vida” das águas na Amazônia.

Umas das questões que mais me tocam ao tratar dos espaços-tempos das águas é no
que diz respeito a construção de uma “genealogia descolonial” dos saberes das águas. As
pesquisas genealógicas de Foucault9 poderiam ser des-dobradas em termos
metodológicos para analisarmos como se constituem, ao longo da história, a configuração
atual dos territórios e sujeitos das águas da Amazônia. Não se trata de simplesmente de
utilizar a genealogia com fins descoloniais na produção do saber das águas. A ideia seria
tornar um campo de estudo que possibilitasse desenvolver o método genealógico como
um vetor de descolonização da própria genealogia. Logicamente que metodologias
genealógicas nos obrigariam a rever as concepções predominantes que ainda temos de
métodos, de história, de conhecimento, da dialética etc. Nós tratamos com pouca
desconfiança crítica com métodos histórico-dialéticos que automatizam, de certo modo,
nosso saber-fazer pesquisa com as águas. As águas não comportam apenas uma dialética,
como o rio heraclitiano , mas também uma dialógica. Pensar além da dialética (ou, quem
sabe, metodologicamente através da abertura da dialética) talvez seja o que métodos como

9
O método genealógico foi utilizado por Foucault em suas reflexões sobre as tecnologias e dispositivos de
saber-poder. Este consiste em um instrumental de investigação voltado à compreensão da emergência de
configurações singulares de sujeitos, objetos e significações nas relações de poder, associando o exame de
práticas discursivas e não-discursivas. (Moraes, 2018).

29
a genealogia nos possibilitem: a genealogia dos saberes das águas é um desprender-se do
porto seguro da dialética.

Duas outras formas metodológicas que também tocam as águas, a que podemos nos
referir, são: a sistematização de experiências (Holliday, 2007) e a cartografia social
(Acselrad, 2008; 2010; 2013). Na Amazônia a segunda é muito mais conhecida que a
primeira. Ainda assim há uma forte relação entre seus princípios de base metodológicas.
As duas formas de concepção metodológicas centram-se nas experiências que geram
conhecimentos, na recuperação, reelaboração e expressão dessas experiências de forma
coletiva e cooperativa. Portanto, o foco está nas experiências, nos saberes da experiência
(Larrosa, 2002). Esta revalorização das experiências das pessoas na realização cotidiana
de suas vidas reafirmam a dimensão não quantificável das relações sociais e do
conhecimento. Ao mesmo tempo colocam a necessidade de exercitarmos modos
coletivos, cooperativos e/ou participativos de produzir e partilhar conhecimentos
construídos nas e a partir de experiências individuais e coletivas de grupos sociais
geralmente subalternizados em nossa sociedade.

Penso que seja de nosso interesse não apenas conhecer e apropriarmo-nos das
metodologias que envolvem a sistematização de experiências (SE) e a cartografia social
(CS) na produção de conhecimento das águas na Amazônia. Mas, compreendê-las
enquanto processos e meios de conhecimentos que tencionam com os métodos mais
“positivistas” da ciência e dos métodos de produção de conhecimento moderno-coloniais.
A questão central, para o estudo social das águas na Amazônia, está nas possibilidades de
exercitarmos formas alternativas de construímos um saber compartilhado dos fazeres e
saberes das águas, do ciclo social e do regime das águas.

As experiências das populações amazônicas com as águas exigem novas formas de


traduzir o conhecimento que estas comportam, transportam e potencialmente podem
suscitar. As águas são campos de experiências diversas e nossas metodologias muitas
vezes as isolam, silenciam, dissociam-nas de seus contextos e/ou submetem-nas a
preconcepções teórico-conceituais. As experiências dos homens, por exemplo, com as
águas não dialogam, em suas diferenças, com as das mulheres em nossos estudos: apenas
as classificamos muitas vezes. As experiências das crianças e jovens ribeirinhos das águas
não dialogam em nossos estudos com os dos adultos e idosos. As experiências das águas
localizadas em determinado lugar não dialogam com as localizadas em outros lugares da
Amazônia, do Brasil e do mundo. Dissociamos através de nossos métodos, descrição e
30
análises as experiências das águas de atividade específicas, segmentando-as: pesca, lazer,
transporte, navegação, consumo doméstico, agricultura, simbologia etc.

Por exemplo, o mundo dos “encantados” parece estar dissociado do mundo da


“televisão” e dos “rabudos”. As águas nos remetem a necessidade de construção de
metodologias móveis, flutuantes, permeáveis, meandrantes. Não apenas no sentido
banalizado, tantas vezes, da relatividade e flexibilidade metodológica. Mesmo os
instrumentos técnicos que usamos para captar imagens e movimentos não parecem ser
mais que complementos secundários à escrita e aos métodos de coleta de dados e
informações mais tradicionais como entrevistas, observações e documentos, em geral,
escritos. Por isso muitos trabalhos que se autodenominam de “cartografias ribeirinhas”
não apresentam nenhum mapa ao menos, apenas textos e algumas fotografias, usadas em
geral como ilustrações. Reafirmando por escrito que as “culturas populares” da Amazônia
envolvem a oralidade, mas sempre as traduzimos em “nossas” pré-formatadas escritas
acadêmicas. Reconhecemos que os ribeirinhos possuem representações espaciais muito
precisas de seus territórios, e os representamos apenas nos nossos termos e linguagem;
não nos deles/com eles.

Filmar, gravar, fotografar, desenhar, mapear parece ser sempre algo que nós
podemos fazer em nossas pesquisas; e não ações que os próprios ribeirinhos e demais
sujeitos amazônicos possam fazer para construir conosco o saber. Eles são apenas objetos
de observação e informantes. Não os vemos nem possibilitamos que sejam protagonistas
nas investigações que realizamos com eles. Só no discurso, em geral, defendemos esse
protagonismo. Quanto as águas, e a forma pela qual podemos construir novas formas de
pesquisa, seria necessário deslocar-nos da posição privilegiada dos sujeitos que: definem
o que pesquisar, os objetivos da pesquisa, os modos pelos quais obteremos as informações
e realizaremos as interpretações da vida dos outros.

Busquemos ama metodologia de produção colaborativa de conhecimentos que


caminhe com as águas, pulse no ritmo das marés, reflita e retrata as perspectivas dos que
vivenciam a dinâmica das águas no seu cotidiano. Esse des-locamento não é apenas ir ao
encontro das águas e dos sujeitos que as habitam. É um deslocamento epistemológico -
do sujeito do conhecimento – através do “sentirpensar” (Escobar, 2014) as águas
amazônidas nas “escalas da vida”, do “mundo da vida” dos amazônidas e das ações e
estratégias dos agentes que trabalham estas águas de um outro modo e a partir de outros
saberes: como as grandes corporações e hidrelétricas.
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Uma postura metodológica de deslocamento epistemológico que procure o
confronto e articulações dos saberes ambientais numa chave política e analítica crítica e
descolonial. As águas, os encontros das águas da modernidade e colonialidade da
Amazônia, não podem ser separadas por nossas metodologias como as barragens,
rompendo o fluxo natural/social dos rios, separam o rio e águas em jusante e montante.
Águas divididas para o funcionamento dos grandes empreendimentos: portuários,
energéticos, minerometalúgicos, monocultores etc. dividem também os ribeirinhos e
pescadores das águas, mesmo que permaneçam à beira dos rios. Separados das águas,
como podem permanecer ribeirinhos? Pois já não conhecem mais as águas em seus ritmos
e íntimos: os grandes projetos as modificaram e, pouco a pouco, as matam. As águas para
os ribeirinhos não constituem uma fórmula química (H²O), mas são vivas e vida. Se a
água estar viva, ela pode ser morta. E atualmente muitos ribeirinhos, também, em suas
práticas, até certo ponto, contribuem para sua morte.

Como aprender a complexidade desses processos sociometabólicos implodidos por


relações de larga escala socioeconômica? As águas constituem processos
sociometábolicos (Porto-Gonçalves, 2017) complexos, que não dizem respeito apenas às
práticas locais e interações diretas de sujeitos que com elas convivem, delas vivem e com
elas se movem. Quais ferramentas metodológicas devemos mobilizar para que possamos
compreender melhor como as águas constituem um ciclo social e um circuito de
movimento de escalas e sentidos diversos? Nossas pesquisas com as águas na Amazônia
precisam encarar estes e outros desafios metodológicos de construção de conhecimento
das águas. Não mais apenas a partir de referências que nos são alheias e distantes, que
nos foram legadas e impostas muitas vezes por tradições científicas moderno/coloniais;
mas a partir da multiplicidade de experiências, dos diversos agentes, que historicamente
vem constituindo fazeres e saberes das águas, compreendo-a também como “sujeitos de
direito”. Que espaço abrimos nas nossas pesquisas às águas enquanto sujeitos de direito
e territórios epistemológicos e educativos? Lutemos também pelos direitos dos rios,
porque a estes se conectam os direitos dos ribeirinhos e demais povos das águas da
Amazônia.

Certamente, a questão metodológica não pode ser tão somente instrumental. Mas,
eu gostaria, de descrever alguns princípios básicos que talvez nos encaminhe a pensar a
metodologias como um ensaio permanente, portanto, ela mesma uma experiência que se
abre ao diálogo com outras experiências. Se a metodologia na pesquisa com as águas pode

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ser tomada como uma experiência, na qual nos dispomos a envolvermo-nos com outras
experiências, estabelecendo assim uma relação de cooperação dialógica e dialética de
conhecimento, então devemos nos colocar tanto numa situação de exposição e disposição
quanto de compreensão de nós mesmos como agentes que interpelam as experiências dos
outros a falar, digamos assim, com sua própria voz, em sua própria linguagem. O método
é a experiência de trazer para o diálogo aquela voz não ouvida ou que geralmente é calada
por nossas pesquisas e teorias, mesmos quando a fazemos falar com nossas perguntas.

Seria necessário des-dobramos melhor esta noção da metodologia enquanto o


empenhar-se numa experiência de pesquisa que consiste fundamentalmente em um ofício
artesanal (Mills, 2009) com a diversidade de experiências e saberes constitutivos no
mundo da vida dos agentes. A metodologia enquanto leitura e escrita coletiva ou
partilhada de experiências em diálogo tenso, vivo, incerto, negociado, inventivo e
ensaístico. Tudo que nós chamamos de metodologias são sempre ensaios de leitura e
escrita de experiências des-encontradas. Nos estudos que envolvem as águas na
Amazônia ainda se ergue a cada página escrita o clamor por esta inversão de uma
metodologia que escute e ponha a dialogar as múltiplas vozes subalternizadas das
experiências que tecermos com/através das águas. Nosso desafio metodológico é fazer as
águas falarem pelas vozes dissonante das experiências.

Para finalizar esse conjunto de questões metodológicas, gostaria de refletir sobre a


possibilidade de construirmos coletivamente metodologias de pesquisas descoloniais na
Amazônia. Penso que as águas formem um campo fértil para essas práticas de pesquisas.
Mas, para tanto, convém situá-las/colocá-las no registro epistemológico de que falamos
anteriormente. Eu quero apontar três desafios e aberturas instigantes desse processo ou
possibilidades de práticas investigativas descoloniais envolvendo as águas na Amazônia.

Metodologias que considerem a materialidade das águas a partir das relações


complexas das dinâmicas naturais e sociais. Metodologias que não separem umas e
outras, mas captem, re-velem, compreendam a complexidade dessas relações em
múltiplas escalas, na multiescalaridade dos fenômenos, acontecimentos, eventos,
processos, experiências etc. Para isso faz-se necessário partir das experiências dos
sujeitos, dos saberes por eles constituídos e re-elaborados coletivamente em diálogo com
a ciência e as humanidades. Mas, em que sentido é possível, na prática, este diálogo de
saberes sem questionarmos um e outro?

33
O segundo desafio tem a ver com a superação da centralidade da escrita, em
particular a nossa forma de escrita acadêmica padronizada. Por isso, é necessário
atentarmos para a construção de uma linguagem própria das águas, incorporando na
produção de saberes as tecnologias da imagem e do som, as representações gráficas e
cartográficas. A escrita ainda fala a linguagem do colonizador (Cusiqansqui, ). Mas as
águas falam muitas línguas, uma outra linguagem. Os ribeirinhos falam a linguagem das
águas. Como torná-las efetivas na produção do conhecimento das águas?

As águas não são evidentemente homogêneas. Estas comportam uma


multiplicidade de formações, expressões, experiências, dinâmicas e processos. Cada vez
que delas nos aproximamos com um olhar treinado para enquadrá-las em determinados
molduras teórico-conceitual, amputamos esta complexidade. O estudo das águas deve nos
possibilitar a compreensão do ciclo social das águas nas des-articulações de múltiplas
escalas. Portanto, o desafio metodológico é utilizar ou construir instrumentos de análise
capazes de captar as “heterarquias de escala” (Castro-Gómez, 2007) das águas. As
cartografias sociais parecem ter um potencialmente ainda pouco explorado para isso.

Por isso, penso que este desafio está relacionado ao sentido coletivo e ético de toda
pesquisa com as águas. Nós também, a partir da academia, somos sujeitos de construção
de “saberes das águas”. Como fazer ver as lutas, as formas de resistência/r-existência
cotidianas a elas vinculadas? Como aproximarmo-nos das águas com este intento ético e
político que estas comportam? Até aqui nossas incursões aos espaços/tempos das águas
parecem, têm sido muito tranquilos, tranquilizantes e tranquilizadores. Podemos torná-
las mais inquietantes e problematizadoras? Esta também é uma questão que toca às
metodologias de pesquisa.

As águas nos conduzem a um compromisso com o que não está sempre a flor d’água
ou vem à tona em nossos modos de produzir conhecimento. A descolonização
epistemológica é inseparável da descolonização metodológica e ambas são ações ético-
políticas e estético-existenciais, ou do âmbito do que se tem chamado de “ontologia
política”. Uma antologia política das águas nos conduz a problematizar continuamente o
modo como produzimos conhecimentos das águas.

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