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Livros didáticos do Novo Ensino Médio:


o choque do PNLD 2021
Professores no olho do furacão com a mudança dos materiais didáticos para o
Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Lena Costa Carvalho


fevereiro/2021

Há uma semana estou sendo atacada por uma insônia ansiosa. Nada de novo pra
quem vive o Brasil desses últimos anos, mas o conteúdo dessa angústia não tem
nada a ver com a pandemia, e sim com o caos instaurado nesse momento com a
mudança dos materiais didáticos para o “Novo Ensino Médio”. Quem
acompanhou a Reforma do Ensino Médio e a publicação da Base Nacional
Comum Curricular (BNCC) para esse nível de ensino em 2017 já sabia que
haveria impactos nos Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Ainda
assim, a confusão está tão grande que, ao invés de apenas encaminhar o material
para análise e escolha dos professores, as editoras estão promovendo reuniões
remotas com os docentes e gestores das redes públicas de ensino para tentar
explicar o que está acontecendo. Tive a oportunidade de participar de um desses
encontros e, mesmo tendo lido o material informativo e acessado os primeiros
livros liberados, precisei ler e reler o edital em si para entender essas mudanças.

Enquanto isso, os professores do ensino básico estão no olho do furacão, sendo


chamados a escolher os materiais que chegarão às escolas a partir deste ano. E
como se não bastasse o prazo exíguo para analisar os primeiros dois livros,
escritos em um estilo totalmente diferente do que costumam trabalhar, precisam
fazer isso em meio a uma chuva de informações confusas sobre o que o edital do
PNLD 2021 denominou “5 objetos”. Esse texto, portanto, vem como uma
colaboração para quem não tem tempo para se debruçar sobre esse material
bruto[1] e, ainda, como um alerta inicial sobre as prováveis consequências dessa
mudança forçada e atropelada no ensino médio brasileiro.
Oficialmente, o currículo escolar deve ser construído localmente, a partir de
diretrizes gerais que vêm do Ministério da Educação. Para tanto, a comunidade
escolar precisaria de tempo, formação, autonomia e liberdade. Porém, os
obstáculos são muitos quando as condições de trabalho são de sobrecarga, a
formação docente é desvalorizada e a escolha do que ensinar e de como avaliar é
cada vez mais submetida à pressão das avaliações externas que classificam redes
de ensino e escolas em rankings (Saeb, Prova Brasil, Enem). Diante disso, os
livros didáticos acabam se tornando a mediação central entre os documentos
curriculares oficiais e a prática da sala de aula, por isso o edital do PNLD tem
impacto decisivo na vida de professores e estudantes de todo o país.

O edital define as linhas para a seleção de livros escolares a serem distribuídos


pelas redes públicas de ensino, servindo de guia para o mercado editorial. Para
entender o PNLD 2021 e a confusão por ele gerada, é preciso ter em mente as
mudanças trazidas pela Reforma do Ensino Médio e pela BNCC que lhe deu
seguimento. As primeiras elaborações dessa reforma datam de 2013 e geraram
uma série de debates, interrompidos abruptamente quando, em seu primeiro mês
de governo, Michel Temer editou a Medida Provisória 746, que acabou com a
obrigatoriedade das disciplinas de arte, educação física, sociologia e filosofia no
ensino médio e indicou que o ensino seria não mais por disciplinas, e sim por
áreas do conhecimento. Diante do rebuliço causado, a lei que instituiu de fato o
“Novo Ensino Médio” (Lei13.415/2017) suavizou o tom, sem que isso
significasse a obrigatoriedade das disciplinas[2]. O próximo passo foi a
publicação da BNCC, documento que veio para enterrar os anteriores
(Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1999, e Orientações Curriculares para o
Ensino Médio, de 2006).

Embora não tenha sequer uma linha de apresentação de suas bases pedagógicas
(tampouco lista de referências bibliográficas), a BNCC é pincelada com vários
termos celebrados no campo da educação, como se a simples grafia das palavras
tivesse algum efeito mágico: “ensino contextualizado”, “interdisciplinaridade”,
“autonomia”, “protagonismo”. A realidade, porém, é que nossas políticas
educacionais têm retomado o que houve de pior na pedagogia tecnicista do
século XX: produção curricular externa à escola, padronização dos métodos de
ensino e avaliação; desconsideração dos aspectos intersubjetivos no processo de
ensino e aprendizagem; uso de avaliações externas como pressão para a
adequação das escolas; transformação do ensino em treinamento para as
avaliações externas; preocupação excessiva com o preenchimento de papelada
burocrática e, sobretudo, adesão irrestrita à ideologia da eficiência como
panaceia para todos os problemas da educação. Enquanto escrevo essa lista de
características, estou pensando em propostas testadas no Brasil com a reforma
do ensino médio de 1971 (sim, a do regime militar). Mas como isso pode estar
ganhando espaço justamente quando o que mais se ouve falar é em
modernização do ensino médio? Vejamos.

Os documentos anteriores traziam orientações gerais e diversas sugestões para a


ação pedagógica, sem definir de maneira rígida o que ou como os professores
deveriam trabalhar. No caso das ciências humanas, por exemplo, os PCN e as
OCEM trazem uma grande quantidade de temas e conceitos sugeridos (não
obrigatórios) para as disciplinas história, geografia, sociologia e filosofia, bem
como propostas de trabalhos interdisciplinares. Tudo isso teria como horizonte
um conjunto definido de competências a serem desenvolvidas pelos estudantes
ao longo do percurso educacional (um conjunto de competências referentes à
área do conhecimento como um todo e um conjunto de competências específicas
para cada uma das disciplinas). Ao contrário disso, a BNCC não apresenta
nenhuma orientação específica por disciplina, limitando-se a listar competências
e habilidades muito genéricas, acompanhadas de uma lista de categorias a serem
trabalhadas. Sob o pretexto de promover a interdisciplinaridade e o ensino
contextualizado, A BNCC e, consequentemente, o edital do PNLD 2021,
promovem o apagamento dos componentes curriculares, como se as disciplinas
não tivessem saberes próprios indispensáveis, podendo ser diluídas em um
emaranhado de temas transversais.

Na prática, as únicas disciplinas obrigatórias no ensino médio são português,


matemática e inglês, podendo as demais ser reduzidas à superficialidade dos
“conhecimentos de”, compilados por área (“ciências humanas e sociais
aplicadas”, “ciências da natureza e suas tecnologias”, “linguagens e suas
tecnologias” e “matemática e suas tecnologias”). Os cortes no currículo são
justificados com o discurso de que o ensino médio tem disciplinas demais e que
essa é a razão para os jovens não se identificarem com a escola. Ou seja, não é
porque os professores estejam sobrecarregados com a carga horária de sala de
aula e o número cada vez maior de turmas (e de alunos em cada turma); não é
porque muitos acabem trabalhando em dois contratos diferentes, ocupando os
três turnos do dia; não é porque a educação em tempo integral foi empurrada
goela abaixo como mero aumento da carga horária para os estudantes; não é
porque o espaço de autonomia e criatividade docente é anulado quando sua
atividade passa a ser treinar os estudantes para as avaliações externas geradoras
de rankings; não é porque a maquiagem dos dados de evasão e fracasso escolar
tem se tornado mais eficaz enquanto os problemas de base seguem intocados;
não é porque, em um país desigual como o nosso, os estudantes saibam que
estudar não é garantia de futuro melhor quando não se tem privilégios. Nada
disso. De acordo com as mentes “brilhantes” por trás do “Novo Ensino Médio”,
o problema estava em haver disciplinas demais[3]. Sim, isso faz tanto sentido
quanto Bolsonaro afirmar que o problema dos livros didáticos é serem “um
amontoado de muita coisa escrita”[4]. Pois bem, para acabar com o “amontoado
de muita coisa escrita” e com o “amontoado de disciplinas”, a lei agora é a
organização do material didático nos tais 5 objetos. Vamos a eles:

Objeto 1 – Obras Didáticas de Projetos Integradores e de Projeto de Vida


destinadas aos estudantes e professores do ensino médio

A ironia começa aqui, com dois livros que, segundo o edital, podem ser escritos
por qualquer graduado, não importando a área de formação. Ao mesmo tempo
em que se fala que a escola tem disciplinas demais, criam-se disciplinas novas
como Projeto de Vida e Empreendedorismo. No novo PNLD, as únicas
disciplinas com livros específicos são língua portuguesa, matemática, inglês e
projeto de vida. Em verdade, Projeto de vida não é apresentado como disciplina
no documento (nem como coisa alguma), mas na prática é o que tem ocorrido
nas escolas para dar conta da insistência da BNCC nesse termo. Em linhas
gerais, Projeto de Vida deve trabalhar o autoconhecimento, a reflexão sobre
relações sociais e o planejamento de futuro (com foco na dimensão profissional).
Em partes, trata-se de questões cabíveis a um profissional da psicologia e, em
partes, de temáticas do ensino de sociologia e filosofia. Entretanto, o caminho
escolhido é um material didático a ser entregue nas mãos de um professor de
qualquer área para complementação de carga horária.

Quanto aos projetos integradores, a proposta é a implementação da pedagogia de


projetos, de modo a promover a interdisciplinaridade e o ensino contextualizado.
Cada área de conhecimento terá um livro formado por 6 projetos, dos quais 4
tiveram seus temas definidos pelo edital, bem como as competências a serem
trabalhadas em cada um. Cada projeto deve ter definido de partida o produto
final a ser criado, passível de ser apresentado ao público externo e privilegiando
o uso de tecnologias da informação. Será preciso escrever mais demoradamente
sobre isso em outro momento, mas já vale sinalizar para a contradição entre o
discurso da autonomia e da contextualização e a distribuição de material
didático com projetos já prontos.

Objeto 2 – Obras Didáticas por Áreas do Conhecimento e Obras Didáticas


Específicas destinadas aos estudantes e professores do ensino médio

Até 2021, cada disciplina tem um livro didático em volume único para todo o
ensino médio. A partir do próximo ano, porém, haverá apenas um livro didático
para cada área do conhecimento, composto por 6 volumes de até 160 páginas[5].
O resultado disso ainda não está disponível para análise, mas esses livros estarão
na escola a partir de 2022. A reflexão sobre essa mudança, que também exige
uma análise em separado, passa pela desvalorização das disciplinas e da
formação específica dos professores. A produção de livros didáticos por área de
conhecimento incentiva justamente essa adoção do professor generalista como
regra. E se antes o docente formado em outra área acabava tendo que ensinar
conceitos, temas e teorias das disciplina que assumisse, ainda que limitando-se a
seguir o livro didático, agora a tendência é a redução do ensino de toda a área de
conhecimento à sua disciplina de formação, dado que o livro “liberto das
fronteiras disciplinares” possibilitará isso. A longo prazo, o rumo traçado por
essa diretriz (e isso já se reflete na Base Nacional Comum para a Formação
Continuada de Professores da Educação Básica) é tornar inócua a licenciatura
em áreas específicas. Afinal de contas, se o currículo é por área de
conhecimento, para que professores com formação específica em disciplinas
diferentes? Eis aí uma bela forma de economizar recursos e reduzir a qualidade
dos profissionais que atuarão nas escolas.

Objeto 3 – Obras de Formação Continuada – Professor e Gestor


Como se não bastasse a perda de autonomia na definição e elaboração dos
projetos, a formação continuada de professores e da equipe gestora sai das redes
de ensino e passa para as mãos das editoras. O material é composto por um livro
para a equipe gestora e um para os professores de cada área do conhecimento
(um volume por disciplina). A justificativa é a necessidade de formar para a
vivência efetiva da interdisciplinaridade, o que é irônico porque, com novas
diretrizes para a formação de professores, interdisciplinaridade torna-se um
eufemismo para docente generalista com conhecimentos superficiais.

Objeto 4 – Recursos Digitais

Esse item recebeu um edital próprio, publicado apenas em 02 de fevereiro de


2021. O material, dividido por áreas do conhecimento, além de um específico
para inglês e um para língua portuguesa, consiste em um conjunto de videoaulas,
sequências didáticas e questões para serem resolvidas. Em poucas palavras, é a
consolidação da possibilidade aberta nas novas Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio para a oferta de até 20% da carga horária no
regime à distância (ampliada para até 80% na modalidade Educação de Jovens e
Adultos). Mais um passo em direção ao “corte de gastos” via precarização e
padronização.

Objeto 5 – Obras literárias

São os livros destinados a compor o acervo da escola, selecionados a partir de


tema e gênero literário. Os livros devem ser acompanhados de um videotutorial
para os estudantes e outros dois para os professores, todos com duração máxima
de 10 minutos.

Ainda será preciso analisar a fundo esse conjunto de materiais didáticos, que foi
apenas parcialmente lançado, mas duas coisas já estão claras. A primeira é que
as consequências da Reforma do ensino médio e da BNCC agora passarão a ser
sentidas na prática – e não serão suaves. A segunda é que os alertas que há pelo
menos vinte anos são lançados pelo professor Luiz Carlos de Freitas estavam
corretos de cabo a rabo. A reforma empresarial da educação agora está
avançando a passos largos. E isso é muito maior e mais durável que o próprio
governo Bolsonaro.

[1] O edital pode ser conferido


em: https://www.fnde.gov.br/index.php/programas/programas-do-
livro/consultas/editais-programas-livro/item/13106-edital-pnld-2021 A título de
comparação, vale a pena observar o edital
2018: http://www.fnde.gov.br/programas/programas-do-livro/consultas/editais-
programas-livro/item/7932-pnld-2018
[2] Está lá no artigo 35 que a BNCC referente ao ensino médio “incluirá
obrigatoriamente estudos e práticas de educação física, arte, sociologia e
filosofia”.

[3] A afirmação consta na exposição de motivos da Medida Provisória, assinada


pelo então ministro da educação Mendonça Filho, e segue sendo repetida –
inclusive na tal reunião com as editoras.

[4] A declaração foi dada em 03 de janeiro de 2020 na porta do Palácio do


Alvorada. Está registrada em vídeo pra quem quiser, basta digitar “amontoado
de coisa escrita” no youtube.

[5] Para efeitos de comparação, cabe destacar que, no edital PNLD 2018, livros
de inglês poderiam ter até 240 páginas e livros de sociologia, filosofia e arte
poderiam ter até 400.

BNCC educação ensino médio MEC PNLD professores

Lena Costa Carvalho


Doutora em Sociologia e professora adjunta da Universidade Federal de
Campina Grande (UFCG), lotada na Unidade Acadêmica de Ciências Sociais do
Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido. Coordenadora do Núcleo
de Estudos em Ensino de Sociologia.

Prezada Lena, parabéns pela excelente visão panorâmica e crítica, da


situação caótica em que nos encontramos!!

1.

Texto bem pertinente e atento a nossa trágica realidade social, educacional


etc

Lenilda Macêdo
- março/2021

Parabéns Lena Costa, pela análise , apesar de panorâmica, explícita


claramente o reducionismo conteudista e o viés da empresarial e privatista
da reforma.

Rosidalva Evangelina De Cerqueira

- agosto/2021

Excelente esclarecimentos.
Análise perfeita das mudanças drásticas.
Um impacto para o ensino e na prática pedagógica docente.

2.

Beatriz Costa da Silva

- dezembro/2021

Parabéns pelo texto, professora Lena. Sintetiza muito bem as inquietações


que temos vivido diante de tantas inconsistências.

 Escreva

 Contato
Paradox Zero

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