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Aula 21 - PARTE III: Organização e Funcionamento Subcelular

Bases bioquímicas do funcionamento da célula nervosa

ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DAS CÉLULAS NERVOSAS

O sistema nervoso é o principal responsável pela regulação das


funções do nosso organismo. Existem milhares de neurónios que recebem
a informação do ambiente externo e interno, e transmitem essa mesma
informação a outras células nervosas para processamento e
armazenamento. Por exemplo, a contracção dos músculos e a secreção de
hormonas é regulada por milhares de neurónios.

O cérebro humano contém cerca de 1012 neurónios interligados que,


deste modo, comunicam a informação através de impulsos eléctricos
(dentro da célula) e através de sinais químicos (entre células). Para além
de neurónios, o sistema nervoso é também formado por células gliais (ou
neuróglia) que preenchem os espaços entre os neurónios fornecendo-lhes
assim um suporte físico e metabólico. Além disso, podem ser responsáveis
pela modulação da própria função neuronal. Um exemplo de neuróglia é o
oligodendrócito que é responsável pela mielinização dos axónios do
sistema nervoso central.

As células nervosas são as células do organismo mais estudadas,


cuja estrutura e função se conhecem em maior detalhe. Os neurónios
comunicam a informação por sinais eléctricos (intracelulares) e sinais
químicos (intercelulares - entre as células).

Um neurónio é formado por 4 regiões diferentes que desempenham


funções igualmente diferentes:

• Corpo celular: Contém o núcleo e lisossomas (importantes para a


síntese proteica e sua eliminação). Todas as proteínas neuronais
são sintetizadas nesta região;
• Dendrites: Convertem os sinais químicos em pequenos impulsos
eléctricos e transmitem-nos ao corpo celular. Se o distúrbio
eléctrico é suficientemente eficaz, então é gerado um potencial de
acção que é dirigido ao axónio. Algumas proteínas são sintetizadas
nas dendrites;
• Axónio: É a estrutura especializada para a condução de um tipo
particular de impulso eléctrico que provém do corpo celular – o
potencial de acção. Nesta estrutura não são sintetizadas quaisquer
proteínas;
• Terminais axónicos: São pequenas ramificações do axónio que
formam sinapses ou conexões com outras células.

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TIPOS DE NEURÓNIOS

Fig.1: Tipos de neurónios e sua estrutura: as setas indicam a direcção da condução dos
potenciais de acção no axónio (vermelho)

a) Interneurónios Multipolares
Cada um tem várias dendrites que recebem sinais de sinapses com
outros neurónios; têm também um longo axónio que se ramifica
lateralmente e na extremidade.

a) Neurónio motor
Inerva uma célula muscular. Tipicamente, estes neurónios têm
apenas um longo axónio que se estende desde o corpo celular até à
célula efectora. Nos mamíferos, estes neurónios são geralmente
revestidos por uma bainha de mielina que é descontínua nos chamados
nódulos de Ranvier e nas terminações axónicas.

b) Neurónio sensorial
As ramificações periféricas transportam os impulsos nervosos desde
o receptor até ao corpo celular, que está situado perto da espinal-
medula; o ramo central transporta o impulso desde o corpo celular até
à espinal-medula ou até ao cérebro. Ambas as ramificações são
axónios.

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DIAGRAMA ESQUEMÁTICO DO SISTEMA NERVOSO (FIG. 2):

O sistema nervoso central (SNC) compreende o cérebro e a espinal-


medula. Ele recebe inputs sensoriais vindos dos olhos, ouvidos, nariz e
língua.

O sistema nervoso periférico (SNP) compreende 3 grupos de


neurónios:
a) Neurónios sensoriais somáticos e viscerais, que transportam
informação para o SNC a partir de receptores nos órgãos somáticos
e internos.
b) Neurónios motores somáticos, que inervam o músculo-esquelético.
c) Neurónios motores autónomos, que inervam o músculo cardíaco, o
músculo liso que rodeia o estômago e o intestino, e glândulas, bem
como o fígado e o pâncreas. Os neurónios motores do sistema
simpático e parassimpático têm geralmente efeitos opostos nos
órgãos internos.

Nota: Os corpos celulares de neurónios motores somáticos estão dentro do


sistema nervoso central.

Sistema Nervoso Central (SNC)

Olhos Ouvidos
(fotorreceptores) (receptores
sonoros)

Nariz (receptor do Língua (receptor


olfacto) do gosto)

Sistema Nervoso Periférico (motor)


Sistema Nervoso Periférico (sensorial)
Neurónios
Contrai o músculo-
somáticos
esquelético motores
Pele
Neurónios (mecanorreceptor)

somáticos
Inibe (relaxa) o Neurónios sensoriais
músculo liso em autónomos Receptor da dor
vários órgãos; motores:
estimula o coração simpático

Neurónios
Estimula (contrai) Receptores nos
Neurónios viscerais órgãos internos
o músculo liso em autónomos sensoriais
vários órgãos; motores:
relaxa o coração parassimpático Gânglios
espinais

Fig.2: Esquema do sistema nervoso.

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POTENCIAL DE ACÇÃO E TRANSMISSÃO SINÁPTICA

O potencial de acção é uma despolarização repentina e transitória da


membrana seguida de repolarização para o potencial de repouso, que se
situa por volta dos -60mV.
O interior é negativo relativamente ao exterior.
Alterações do potencial são geradas e propagadas pela abertura e fecho
de canais iónicos específicos na membrana plasmática dos neurónios.

O gráfico apresentado do
potencial de membrana axonal
no neurónio pré-sináptico (ao
lado) demonstra que a cada 4
milissegundos é gerado um
potencial de acção.

Fig.3: Representação do potencial de membrana


axonal do neurónio pré-sináptico

Os potenciais de acção movem-se ao longo do axónio a uma velocidade


máxima de 100m/s.
A sua chegada à sinapse causa a libertação de neurotransmissores,
que se associam a receptores na célula pós-sináptica, geralmente
despolarizando a membrana (fazendo com que o potencial seja menos
negativo) e tendem a induzir um potencial de acção nessa mesma célula.

O potencial de membrana ao longo da membrana plasmática do


neurónio pré-sináptico pode ser medido através de um pequeno eléctrodo
aí inserido.

Fig.4: Medição do potencial de membrana

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CANAIS IÓNICOS NAS MEMBRANAS DOS NEURÓNIOS

Fig.5: Canais iónicos na membrana plasmática

Cada tipo de canal tem funções específicas na actividade eléctrica dos


neurónios:

a) Canais de K+ em repouso: geram o potencial de repouso ao longo


da membrana.

b) Canais voltagem-dependentes: propagam potenciais de acção ao


longo da membrana axonal.

Dois tipos de canais nas dendrites e nos corpos celulares, que geram
sinais eléctricos nas células pós-sinápticas:

c) Canais ligando-dependentes: têm um sítio de ligação para um


neurotransmissor extracelular específico (•). Estão abertos ou
fechados transitoriamente.

d) Canais sinal-dependentes: estão acoplados a um receptor do


neurotransmissor, o qual está ligado a uma proteína G; esta
responde a sinais intracelulares (•) induzidos pela associação ao
neurotransmissor para separar uma proteína receptora. Os sinais
que activam os diferentes canais são Ca2+, GMPc, e as subunidades
Gβγ.

SINAPSE QUÍMICA

Sinapses são locais


especializados, onde os
neurónios comunicam com
outras células ou com outros
neurónios. Existem sinapses
químicas (as mais comuns no
Homem) e sinapses
eléctricas (menos comuns e
cujas membranas plasmáticas
de ambas as células estão ligadas por junções GAP). Fig.6: Sinapse

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Uma estreita região – a fenda sináptica – separa a membrana
plasmática das células pré-sináptica e pós-sináptica.

A transmissão dos impulsos eléctricos requer a libertação do


neurotransmissor pela célula pré-sináptica para a membrana plasmática
da célula pós-sináptica.

Na região sináptica, a membrana plasmática da célula pré-sináptica é


especializada em vesículas de exocitose; as vesículas sinápticas, que
contêm o neurotransmissor, encontram-se agrupadas nessas regiões.

A membrana oposta da célula pós-sináptica contém receptores para o


neurotransmissor.

ORGANIZAÇÃO DOS NEURÓNIOS EM CIRCUITOS


(não é necessário saber os circuitos)

Fig.7: Circuitos de neurónios

Os circuitos sinalizados são constituídos por dois ou mais neurónios,


que respondem a estímulos ambientais específicos.

Um exemplo deste tipo de circuitos é o arco reflexo, cujos


interneurónios conectam múltiplos neurónios sensoriais e motores,
permitindo que um neurónio sensorial afecte vários neurónios motores e
que um neurónio motor seja afectado por vários neurónios sensoriais.

Estes circuitos permitem ao organismo responder a um input sensorial


pela acção coordenada de um conjunto de músculos que juntos atingem
um único objectivo.

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O POTENCIAL DE ACÇÃO E A CONDUÇÃO DE IMPULSOS ELÉCTRICOS

Medida do potencial eléctrico ao longo da membrana axonal:

Um microeléctrodo,
construído por um tubo de vidro
de diâmetro extremamente
pequeno, preenchido com um
fluído condutor (como o KCl), é
inserido dentro de um axónio, de
modo a que a superfície da
membrana se sela a si própria
envolvendo o eléctrodo; um
eléctrodo de referência é
colocado na solução que
circunda o axónio.
Fig.8: Medição do potencial eléctrico ao longo da Um potenciómetro que
membrana axonal conecta os dois eléctrodos
regista o potencial. A diferença
de potencial mantida ao longo
da membrana celular na ausência de estímulo é designada de potencial
de repouso, e neste caso é de -60mV (ou, mais precisamente, -53 mV).

ORIGEM DO POTENCIAL DE REPOUSO


NUM NEURÓNIO TÍPICO DOS VERTEBRADOS

O potencial de
repouso é devido
principalmente aos canais
abertos de potássio (K+).

A composição iónica do
citosol é diferente da
composição iónica do fluído
extracelular envolvente.

A carga negativa das


proteínas neutraliza a
excessiva carga positiva
originada pelos iões Na+ e K+.

No neurónio em
repouso há cerca de dez
vezes mais canais abertos de
K+ do que de Na+ e Cl-; como
consequência, os iões K+
carregados mais
Fig.9: Canais iónicos e potencial de repouso

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positivamente, saem da célula enquanto os iões Na+ e Cl- entram. Assim o
exterior da membrana plasmática adquire uma carga positiva em relação
ao interior da mesma.

Nota: devido à grande quantidade de canais de potássio, há muitos mais


iões K+ a sair do que iões Na+ e Cl- a entrar, e assim se justifica que o
potencial de repouso seja -60 mV (próximo do potencial do potássio).

EFEITOS DA ALTERAÇÃO DA PERMEABILIDADE


NO POTENCIAL DA MEMBRANA

Fig.10: Alterações do potencial de membrana

A abertura e fecho dos canais (canais em repouso e canais voltagem-


dependentes) origina alterações específicas e previsíveis do potencial da
membrana.

• O potencial de repouso da membrana é de -53 mV.


• A abertura dos canais K+ causa a hiperpolarização (↑ Pk).
• A abertura dos canais Na+ causa despolarização (↑ Na).
• A abertura dos canais Cl- causa hiperpolarização (↑ PCl), embora
diferente da hiperpolarização causada por iões K+).

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PROPAGAÇÃO PASSIVA DA DESPOLARIZAÇÃO DA
MEMBRANA PLASMÁTICA NEURONAL

Fig. 11: Propagação da despolarização de


membrana
A propagação da despolarização da membrana ocorre unicamente a
curtas distâncias, se esta ocorrer sem a abertura dos canais de catiões
voltagem-dependentes.

À medida que nos afastamos do ponto inicial da despolarização, esta


vai diminuindo de intensidade.

CINÉTICA DAS ALTERAÇÕES DO POTENCIAL DE MEMBRANA


E DA PERMEABILIDADE DOS IÕES

Fig. 12: A abertura dos canais de Na+ voltagem-dependentes despolariza a membrana


do nervo durante a condução do potencial de acção, e ocorre antes da abertura dos
canais de K+ voltagem-dependentes, resultando num efluxo de iões de K+
(hiperpolarização).

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CONDUÇÃO UNIDIRECCIONAL DO POTENCIAL DE ACÇÃO

No tempo zero, um potencial de acção


(roxo) está na posição 2mm do axónio. A
propagação da despolarização da membrana é
passiva em ambas as direcções ao longo do
axónio. Uma vez que os canais de Na+
(localizados na posição 1mm) ainda estão
inactivos (verde), eles ainda não podem
responder à pequena despolarização causada
pela propagação passiva.

Cada região da membrana do axónio é


refractária (inactiva) durante poucos minutos
após o potencial de acção ter passado. Deste
modo, a despolarização no local 2mm (tempo
zero) acciona o potencial de acção unicamente na
zona a jusante; a 1ms o potencial de acção passa
para o local 3mm; e a 2ms o potencial de acção é
passado para o local 4mm.
Conclusão: a condução de um P.A. é
unidireccional devido ao período refractário, no Fig.13: Canais voltagem-depensentes
qual os canais ainda estão fechados.

A MIELINIZAÇÃO AUMENTA A VELOCIDADE DE CONDUÇÃO


DO IMPULSO NERVOSO

Fig.14: Formação e estrutura da bainha de mielina no sistema nervoso periférico

Uma única célula de Schwann (célula glial do Sistema Nervoso Periférico)


pode formar uma bainha de mielina à volta de múltiplos axónios. A
mielina aumenta a velocidade do potencial de acção de 1m/s para
100m/s.
Como as células de Schwann se enrolam à volta do axónio, todo o
espaço entre as membranas plasmáticas, tanto as citosólicas como as
exocitoplasmáticas, é reduzido. Eventualmente, todo o citosol é forçado a

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sair e forma-se uma estrutura compacta de membranas plasmáticas
empilhadas.

A compactação destas membranas é principalmente gerada pela


proteína PO, que é unicamente sintetizada em células de Schwann
mielinizadas.

O domínio exoplasmático do aminoácido-124 da proteína PO


(dobrado como um domínio das imunoglobulinas) associa-se com domínios
similares, provenientes da superfície oposta da membrana. Estas
interacções zipper juntam a superfície das membranas, formando um
exoplama oposto fechado.

Nota: o potencial decai rapidamente num neurónio pequeno e/ou sem


bainha de mielina.

ESTRUTURA DE UM AXÓNIO PERIFÉRICO MIELINIZADO


PERTO DO NÓDULO DE RANVIER

Fig.15: Nódulo de Ranvier

Nódulo de Ranvier:

• Fenda que separa as porções da bainha de mielina, formada por


duas células de Schwann adjacentes.
• Estes nódulos são as únicas regiões ao longo de todo o axónio em
que a membrana axonal entra em contacto directo com os fluidos
extracelulares.
• A actividade eléctrica do axónio é confinada a estes nódulos, onde os
iões podem fluir através da membrana do axónio. É o único local
onde pode ocorrer condução e permuta de iões sódio, só havendo
nova permuta (e nova despolarização) no nódulo seguinte.

REGENERAÇÃO DO P.A. NOS NÓDULOS DE RANVIER

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Fig.16: Potencial de acção nos nódulos de Ranvier

(a) O influxo de Na+ associado ao potencial de acção no nódulo de Ranvier


resulta da despolarização de uma região da membrana axonal.

(b) Despolarização move-se rapidamente ao longo do axónio, porque o


excesso de iões positivos não pode fluir à volta da porção mielinizada da
membrana axonal. O acumulo destes catiões causa a despolarização do
nódulo seguinte.

(c) Esta despolarização induz o potencial de acção nesse nódulo. Este


mecanismo permite, então, que o potencial de acção salte de nódulo em
nódulo ao longo de todo o axónio – condução saltatória.

LIMIAR DE EXCITAÇÃO PARA GERAR UM POTENCIAL DE ACÇÃO

Fig.17 e 18: Limiar de excitação


A chegada de cada potencial de
acção à sinapse provoca uma
pequena alteração no potencial da
membrana do axónio da célula pós-
sináptica, provocando uma despolarização de ≈5 mV, neste caso.

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Quando múltiplos estímulos atingem a membrana da célula pós-
sináptica, o potencial da membrana vai aproximar-se do seu limiar (neste
caso, aproximadamente, -40 mV), induzindo um potencial de acção.
Logo, são necessários vários estímulos “somados” para que se atinja
o patamar de excitação, até ao qual não ocorre despolarização.

PROPRIEDADES MOLECULARES
DOS CANAIS IÓNICOS VOLTAGEM-DEPENDENTES

Os canais iónicos voltagem-dependesntes possuem três


propriedades importantes que permitem que as células nervosas possam
realizar um impulso eléctrico. São elas:

• Abertura do canal iónico em resposta às alterações do potencial da


membrana (dependentes da voltagem);
• Posterior fecho e inactivação do canal iónico;
• Especificidade dos canais, pois só são permeáveis a determinado ião.

ESQUEMA DA TÉCNICA DE “PATCH-CLAMPING”

A Patch clamps
permite a medição dos
movimentos dos iões
através das bombas Na+ e
K+ existentes na
membrana plasmática de
uma célula viva.

O eléctrodo de
patch, preenchido com
uma solução salina, é
aplicado, com uma ligeira
sucção, à membrana
plasmática.

A ponta do Fig.19: Técnica de patch clamping


eléctrodo, com 0,5μm de diâmetro, abrange uma
região que contêm apenas um ou alguns canais iónicos.

O segundo eléctrodo é inserido no citosol. Só se registam as medidas


da corrente através dos canais patch existentes na membrana plasmática.
DIFERENTES CONFIGURAÇÕES PATCH-CLAMPING

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Os efeitos de diferentes concentrações de iões e outras substâncias
(dentro e fora das células) provocados pelo fluxo dos canais podem ser
medidos em células intactas ou patches isolados (a, b, d).

Em toda a configuração da célula (c), a porção da membrana no


patch é rebentada, permitindo a medição do fluxo corrente através de
todos os canais iónicos.

O efeito de diferentes solutos nos canais é mais fácil de estudar


isoladamente, patches isolados (b, d).

Fig.20: Configurações patch clamping

PATCH CLAMPING DE CÉLULAS MUSCULARES

(a) Dois patches da membarana são despolarizados aos 10 mV e


bloqueados nesse valor. Os pulsos transitórios da corrente eléctrica em
picoAmperes (pA), registados como grandes desvios descendentes (setas),
indicam a abertura dos canais de Na+ e o movimento de iões Na+ através
da membrana em direcção ao interior da célula.

(b) Patches da membrana são bloqueados a três potenciais


diferentes, +50, + 20 e -10 mV. Os desvios ascendentes da corrente

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indicam a abertura dos canais K+ e o movimento destes iões através da
membrana para o exterior da célula.
Aumentando o grau de despolarização da membrana de -10 mV para + 50
mV, aumenta a probabilidade de o canal ser aberto, aumenta o tempo de
abertura desses canais, e aumenta a quantidade de corrente eléctrica
(número de iões) que passa através dele.
Fig.21: Patch clamping de células musculares

ESTRUTURAS TRANSMEMBRANARES DE CANAIS IÓNICOS

(a) Canais
de K+ Fig.22.a): Canais iónicos (estrutura)

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voltagem-dependentes: é um canal tetrámero, com 4 subunidades, cada
uma com 6 hélices α transmembranares (algarismos). A Hélice 4 (a
castanho) actua como um sensor de voltagem e vai determinar se essa
voltagem é suficiente para que haja ou não resposta; o segmento P não-
helicoidal entre 5 e 6 (zona azul) actua como poro iónico, por onde
passam os iões.

(b) Canais iónicos dependentes do AMPc ou do GMPc: também


contêm 4 subunidades. Visto que nenhuma das hélices α
transmembranares funciona como sensor de voltagem, estes canais não
são voltagem-dependentes. Em vez disso, a abertura destes canais é
desencadeada pela ligação de AMPc ou GMPc a um segmento citosólico.
Estes canais são abundantes nas células sensitivas do sistema visual e
olfactivo.

(c, d) Canais de Na+ e Ca2+ voltagem-dependentes: são


polipeptídos monoméricos organizados em 4 domínios homólogos
transmembranares (numeração romanos), cada um com uma sequência e
estrutura semelhante à dos canais de K+. Estes canais possuem ainda
subunidades reguladoras essenciais, que não estão aqui representadas.

Fig.22.b): Canais iónicos (estrutura)

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POTENCIAIS DE ACÇÃO NOS AXÓNIOS DE
DROSOPHILA WILD-TYPE E MUTANTES SHAKER

Fig.23: Diferença de potenciais de acção em wild-type e mutante.

O shaker mutant apresenta um potencial de acção anormalmente


prolongado devido a um defeito nos canais de K+ sensíveis à voltagem, que
são necessários para a repolarização normal da membrana.

MODELO ESTRUTURAL PROPOSTO DAS SUBUNIDADES QUE


COMPÕEM O CANAL K+ VOLTAGEM-DEPENDENTE DA DROSOPHILA

Fig.24: Modelo das subunidades do canal de potássio

• Cada uma das 4 subunidades que constituem este canal está preparada
para conter 6 hélices α que envolvam a membrana, S1-S6.
• S4 contém vários aminoácidos positivamente carregados e a hélice α é
sensível à voltagem.
• O segmento P do canal iónico situa-se entre S5 e S6.
• O N-terminal do polipéptido, localizado no citosol, contém um domínio
globular essencial para a inactivação do canal aberto (ausente no
canal mutante).

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