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  A   grande   revolução   não   será   feita   pelas   palavras   […]   mas   quando   o   silêncio   impregnar   as   palavras   para   que   nelas   transpareça  o  que  está  além  das  palavras.  

∗∗∗
O  poeta  apreende-­‐se  através  das  coisas     e  atinge-­‐as  através  de  si  mesmo.     António  Ramos  Rosa  

 

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ficha técnica
direcção
Paulo Borges

/.|  
impressão
Multitipo – Artes Gráficas, Lda.

comissão de honra
François Jullien Hans Küng Jean-Yves Leloup RaimonPanikkar(In Memoriam) MatthieuRicard Agostinho da Silva(In Memoriam)

propriedade
Paulo Borges

tiragem
1000 exemplares

conselho de direcção
Pe. Anselmo Borges Constança Marcondes César(Brasil) Carlos João Correia Frei Bento Domingues António Cândido Franco Markus Gabriel (Alemanha) Dirk-MichaelHennrich(Alemanha) Rui Lopo Amon Pinho(Brasil) Andrés Torres Queiruga(Galiza) Miguel Real José Eduardo Reis Luiz Pires dos Reys AdelSidarus Francisco Soares(Angola)

ISSN
1647-6697

depósito legal
309912/10

edição
Âncora Editora Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa tel+ 351 213 951 223 fax + 351 213 951 222 e-mail ancora.editora@ancora-editora.pt web http://www.ancora-editora.pt

conselho editorial
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direcção de arte
Luiz Pires dos Reys

design gráfico
Xénia Pereira Reys

comunicação e imagem
Isabel Metello

tradução, transcrição e revisão de texto
José Eduardo Reis Luiz Pires dos Reys Gisela Ramos Rosa

Todos os artigos são da inteira responsabilidade dos seus autores.

 

     

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nem  tanta    sophia

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nem  tanta    philia:     poesia    

e d i t o r i a l1

É o quatro o número da completude material na realização. Nele se consuma a unidade na diversidade, quer mediante a tripla adição sucessiva daquela, quer pela soma da dualidade à dualidade, quer pela adição da unidade à tríade. É pois o número da estabilização no âmbito e curso da acção, no variegado campo de activação das linhas de qualquer propósito: entre o projecto e o progredir da sua consecução. Conseguir, de que provém o haver consecução, é implicitamente com-seguir, seguir pois um intento com o propósito de algum fim ou fins em vista, ou além da vista que sejam. Chegados pois que somos ao número 4 da revista Cultura Entre Culturas, cabe dizer que, como sempre em tudo o que verdadeiramente importa, o realizado, ainda que imensa e enormemente além do previsível de lograr-se ao início, desafia-nos ainda e sempre ao prosseguir Entre. Mais do que nunca, para sempre. Isto é, como nunca, mais do que sempre. Dedica-se, neste número, uma especialíssima atenção a António Ramos Rosa, nome maior da nossa poesia, certamente o seu maior vulto vivo. É o poeta de Voz Inicial voz sapiente que almeja ao silêncio. Como ele mesmo o diz: “temos de destruir a linguagem, tudo o que na linguagem se interpõe entre nós e o real, para que só a visão nua do silêncio ilumine a realidade”2. A poesia de António Ramos Rosa é, na verdade, o grito claro de tal continuado, laborioso e persistente propósito, na demanda do que confere plenitude à “boca [sempre] incompleta”. Na verdade, só mediante o “incêndio dos aspectos” que nas coisas nos limitam e aprisionam, é possível a “construção do corpo” verdadeiro, do corpo “perfeitamente abandonado”, “aberto à divindade”, visto que, como o poeta há muito nos diz, “o divino é o absolutamente natural”.

 

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  Remanesce permanentemente a isto o poeta e o homem António Ramos Rosa, não n’ “as aparências, mas [no] aparecer da realidade”: ali onde precisamente nasce o poeta, o verdadeiro homem e o homem verdadeiro, qual Ramos Rosa os é, a um e a outro, um no outro, um do outro. Isto, na vacuidade que, como ele insistente garante, é a própria “condição inicial da [...] liberdade”, nesse “espaço vazio”, “esse não lugar”, que permite “que o sentido seja encontrado”, no “espaço em que todos os sentidos flutuam e em que o silêncio vibra na imanência de todos os nomes”. Tal silêncio, e a sua nomeação, como que muda e cega, e tão interminamente impossível de alcançar quanto o mais sublime dos horizontes, constituem a fonte, a voz e a foz da poesia de António Ramos Rosa. Deixa-se aqui expressa a mais profunda gratidão ao Poeta, por ter-nos permitido aceder ao seu espaço de intimidade, à sua obra (escrita e desenhada) mais recente e inédita, ao seu olhar de tão oceânica vastidão, ao toque especialíssimo de suas mãos de afecto, ao sorriso de sábio ancião-menino que desde logo desarma e desaba todo o cuidado espúrio e toda a insensata razão e seu pretenso enraizar de fundamentos. António Ramos Rosa é, para além de um poeta sábio, um sábio que é poeta. Nem sempre as duas coisas vão a par e, menos ainda, estão indestrinçáveis como nele estão. Mas quando o estão, a presença de um tal ser, indelével que se nos mostra, e silenciosamente inesquecível, é outrossim serena sementeira de fertilidade para a vida, para toda a vida: “marcas no deserto”, “sobre o rosto da terra”, de quem haja o privilégio de lê-lo, seja nas palavras da sua poesia, seja na poesia do seu silêncio. A ele, aqui, a gratidão sem nome. A Agripina Costa Marques, companheira de vida do Poeta – poeta da sombra das coisas e poeta porventura na sombra, e da abdicação de sê-lo –, o profundo agradecimento pela sábia disponibilidade e sempre tão cordial hospitalidade com que nos acolheu e acolhe, tanto quanto pelo denodado, persistente e tão difícil silêncio de veladora. Conviver com um ser da estatura de António Ramos Rosa é tudo menos tarefa fácil. É certamente um privilégio, mas porventura um privilégio ingrato, sobretudo quando quem com ele convive é um ser da dimensão e profundeza de Agripina. Disso sabia por certo René Char quando escreveu: “Dans nos ténèbres, il n’y a une place pour la Beauté. Toute la place est pour la Beauté.” Eis o retrato de Agripina. O nosso bem haja pois, por tudo sobretudo que nas palavras não cabe nunca, nem mora jamais3. Por fim, aos íntimos e amigos do Poeta, de sempre e de hoje ainda, que não quiseram faltar a este encontro “à mesa do vento”, o nosso bem hajam, por aqui estarem. A iluminação da palavra de Ramos Rosa brilha em cada uma das vossas palavras, como um eco do “inexprimível [que, como ele nos diz] não existiria sem a linguagem”. Precioso, pois, o olhar nos vossos “olhos de silêncio”, que aqui haveis trazido.

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  Mediadores da palavra de António Ramos Rosa somo-lo certamente nós todos que o lemos e amamos, mas sobremaneira são todos aqueles que, além da palavra, lhe têm escutado o cultivo daquele silêncio, de tão sublime cumplicidade, onde floresce o melhor da amizade e do amor. O Poeta está vivo e escreve sol: e nós, para sempre, vivos na sua palavra.  
Paulo Borges Luiz Pires dos Reys

 

                         
                                                                                                                         
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A Gisela Ramos Rosa, sobrinha do Poeta, também ela poeta, o agradecimento pelo entusiasmo com que desde logo abraçou, mediou e contribuiu para este projecto da Entre. Dela são (salvo explícita menção em contrário, e a óbvia exclusão das fotografias de família mais antigas), as fotografias do poeta, do ambiente em que vive, dos objectos que toca e usa. Para ela pois o nosso afecto, em gratidão por tal serviço ao poeta e à Cultura. São todas as citações deste editorial, ou extraídas da obra de António Ramos Rosa Prosas Seguidas de Diálogos (Faro, 4Águas Editora, 2011), ou são títulos de obras suas, que aqui se convocou como esteio das presentes palavras. N.B. Seja-nos permitido, em lateral rodapé, exprimir aqui pública ainda que desatempadamente, a Cláudia Souza e a Nuno Ribeiro, a gratidão imensa pelo acesso concedido a material muito específico dentre o espólio pessoano (cuja equipa de investigação de forma tão brilhante ambos integram), e que inestimavelmente enriqueceu o nº 3 da Entre, dedicado a Fernando Pessoa, como é sabido. O nosso bem hajam.

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philo

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  sophia  

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sophemas  

 

 
As  coisas  só  na  aparência  têm  limites   e  cada  uma  é  uma  rede  inextricável   e  silenciosamente  vertiginosa   António  Ramos  Rosa     *     A  linguagem,  se  presentifica  os  seres  e  os  objectos     do  sujeito  e  do  real,  torna-­‐os  presentes  na  sua  ausência.     *     O  que  não  pode  ser  dito  é  uma  sede  submersa     que  desejaria  beber  o  horizonte  do  mundo.     *     A  tua  virtualidade  pode  actualizar-­‐se     na  matéria  sensível  do  mundo  e  revelar     a  integridade  inexprimível  do  Instante.     António  Ramos  Rosa  

 

 

dirk-­‐michael  hennrich
alguns  aforismos  sobre  filosofia  e  poesia    
(em  homenagem  a  José  Marinho)  
 

A filosofia especulativa só pode ser poetomórfica, como escreve José Marinho. A sua Teoria do Ser e da Verdade é uma ascensão ao píncaro, de que fala Teixeira de Pascoais no primeiro aforismo do seu Verbo Escuro, para contar aos outros a paisagem contemplada. Esta paisagem não é fictícia nem real. É uma paisagem que se consolida através duma nova linguagem. O pensador e o poeta são visionários e os seus olhos estão nas pontas das suas línguas. Imagine-os como uma espécie de serpente. Anfíbios com uma linguagem bifurcada, poesia e filosofia, a procura do regresso ao Paraíso. Quando a filosofia enfrenta as festas nocturnas e dionisíacas onde a lua aparece como o verdadeiro sol e como uma sombra branca, nasce o pensamento poetomórfico. Aí todos já sabem o fim do herói – rasgado e devorado pelos Titãs. A filosofia que espanta toca o véu da verdade com dedos poéticos. Não é que os filósofos desprezem a poesia ou os poetas, como dizem de Platão e Wittgenstein, mas contestam um certo lirismo sentimental e nebuloso cujas imagens não atingem o sentido do enigma. O Eros vigia bem a sua amada. A fala sobre a verdade despida, a nuda veritas, só pode ser uma invenção de um chulo – ou de um positivista sem nenhum sentido poético. O aforismo é uma corda entre a poesia e a filosofia – e só um tolo ou um funâmbulo sabe manter a balança. A poesia apenas sussurra a verdade. Apenas sibila. Sibilina como ela é. A filosofia enquanto busca da verdade absoluta retoma o caminho da linguagem não meramente de forma poética, mas sobretudo meditativa. Toda a filosofia sistemática ou aparentemente não-sistemática, que pretende atingir uma verdade ou, o que é a mesma coisa, a demonstração da impossibilidade da verdade, parece uma Mantra: um poema repetitivo, uma insistência que alguns poderiam chamar estilo e que é nada menos do que uma profunda meditação.

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                                 paulo  borges            
grãos  de  areia  
 

Em português e castelhano “ser” vem do latino “sedere”, estar sentado, residir, ficar tranquilo, pousar. “Ser” vem de “sedere”, “estar” de “stare”: estar de pé, que também significa estar a favor de ou contra alguém. Intimamente sentados somos, repousando na sede, no centro, sem qualquer sede ou estado/levantamento mental de adesão ou rejeição. Assim nos contemplamos inseparáveis de tudo e de todos. E assim podemos erguer-nos, estar de pé, numa acção não dualista, para o bem de tudo e de todos, sem preferências nem exclusões. E entre o sentar e o levantar, o ser e o estar, não somos nem estamos: por isso podemos ser e estar, sentar e levantar, ser-estar, sentar-levantar. Não há entes, apenas entres. A filosofia pretende compreender o mundo ou mostrá-lo incompreensível, a poesia (re)cria-o e celebra-o, a meditação suspende-o. Exerce-as simultaneamente. Porque agarra tão tenazmente o recém-nascido o dedo que lhe estendem? Porque agarra o moribundo intensamente a mão que lhe dão? E porque, entre o nascimento e a morte, não cessamos de nos agarrar avidamente a tudo, desde a chucha a essas outras chuchas que são brinquedos, telemóveis, computadores, televisões, pessoas, casas, carros, carreiras, poder, prestígio, riqueza, dor, prazer, ideias, emoções, drogas, medicamentos, comida, tabaco, álcool, experiências sensoriais, intelectuais ou espirituais? Porque vivemos e morremos agarrados? Porque vivemos e morremos agarrados à própria ideia de viver e morrer? Há crise de identidade ou a identidade é (a) crise? A morte é o despertar do sonho de estar vivo. Mas dá-se quase sempre uma recaída. A ocupação com a identidade é uma preocupação com a diferença. O silêncio cala a palavra. Rara e preciosa a que o faz falar. Se a meta é o ponto de partida, todo o caminho é desvio e obstáculo, incluindo o conceber meta e ponto de partida.

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fátima  valverde
ministério  da  estética:  para  uma  consciência  social  do  belo  
Intróito
Tentarei sintetizar neste abreviado artigo, algumas medidas pertinentes que preconizam melhorias abrangentes da qualidade de vida dos cidadãos, e não restritas e afuniladas, para uma convivência consciente com o Belo, uma das manifestações essenciais de harmonias e equilíbrios vários, a integrar em áreas só aparentemente distintas e distantes. Começo por apresentar alguns aspectos polémicos num apelo ao comentário e à exortação do Belo nas nossas vidas colectivas, o que se reflectirá beneficamente, em meu entender, nas vidas particulares. Numa sociedade em que politicamente se propaga e alastra o pânico da crise, abordada exclusivamente sob a vertente económica (real, claro, mas não independente de outros factores que deveriam ser também realçados), e se protagonizam corrupções, desfalques e gastos supérfluos distribuídos por vários ministérios, pode parecer inconsistente, inconsciente e mesmo incongruente, propor mais um ministério. Alerto, sobretudo para a facilidade que este encerra de congregar várias tarefas e medidas num mesmo objectivo, o que exige opções validadas previamente, quer nas decisões quer nas actuações como mais-valia para evitar despotismos. Num milénio avançado da história da humanidade é necessário, aceite e justo recorrer a bancos alimentares para salvaguardar a sobrevivência dos mais carentes, porque parecerá pedantismo e petulância criar um manifesto para reavivar o Belo? Se assim for, salve-se a utopia para reformar a democracia … Aliás, com a execução do feio degradado já existe quem se (pre)ocupe. Num tempo em que, nacional e mundialmente, se assiste a diferentes vertentes de crises, rupturas e dissoluções variegadas, pode parecer superficial, leviano até, falar-se de Estética e do que vulgarmente lhe está associado: categorias inerentes a aspectos físicos, a artificialidades concebidas para o prolongamento obcecado da juventude ou a materialidades vãs de quem não tem dificuldades económicas ou criou dívidas por isso mesmo. Em suma, o Belo reduzido ao excremento do Luxo. Como veremos, não é disso que se trata, mas sim de desfazer a associação automática da díade Belo-Luxo para desenvolver e aplicar o elemento luminoso que ambos intrinsecamente contêm.

 

A necessidade duma visão estética aplicada ao quotidiano
A palavra «estética» surge no séc. XVIII com Baumgarten para expressar uma teoria da sensibilidade de acordo com a sua etimologia do grego aisthesis, assumindo no século seguinte uma autonomia própria em termos de teorização, tendo sofrido alterações aos longos dos séculos acompanhando as mentalidades vigentes. Esta reflexão desvia-se, contudo, duma perspectiva cronológica para adoptar a via do reconhecimento da necessidade de Beleza como um aspecto relevante na evolução da consciência humana no quotidiano exterior e interior, uma vez que sentimentos de alegria e de bem-estar lhe estão intrinsecamente associados. Os exemplos que o confirmam atravessam a História de todas as culturas e civilizações. Não se trata, pois, de estabelecer a

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carlos  h.  do  c.  silva
Pessoa  pluralidade  possível  -­‐  encenação  de  uma  leitura  temporã  e  de  permeio
*

 

 

 

«Pas de connaissance, pas de métier, pas de science, pas d’art, pas d’action, pas d’ascèse, – qui ne soit visible dans ce Théâtre. (…) Toutes les natures individuelles du monde, avec leurs mélanges propres de bonheur et de malheur, avec leurs gestes particuliers et autres moyens d’expression, – c’est cela qu’on appelle Théâtre. Au Savoir sacré, à la science et aux mythes, il fournira un lieu d’audience, et au peuple un divertissement : tel sera le Théâtre. » (Nâtya-çâstra, 1re lecture : « Origine du Théâtre », apud René DAUMAL, «Traductions du sanskrit – Quelques textes sanskrits sur la poésie», in : Id., Le Contre-Ciel suivi de Les dernières paroles du poète, éd. définitive, Paris, Gallimard, 1990, p. 229)

§ 1. Leitura plural da pluralidade De Sul para Norte, de uma cultura inglesa colonial sedimentada na África do Sul, veio, para o espraiado Tejo de uma ‘Lisbon Revisited’ e ainda ‘medi-terrânico’ espelho mágico, um Pessoa.4 Máscara por autonomásia de tanta viagem assim infantil e contra o Céu5, este Fernando, não da Baviera6, nem tocado pelos restos da pristina civilização boreal, traz sim da clássica lembrança os vultos muitos de uma possível ‘multiplicação dos pães’7, porventura sem milagre de vontade.8 Tão só no ‘drama em gente’ da constatação plural de qual fome de sentir universal…9 Ler 10 poderá ser a “manducação” de um sentido também assim sensibilizado até à consonância11 que arrepia de vida as múmias12, ou dá voz aos espectros gráficos13, desse mais ou menos que universo, em diversidades infindas.14 Donde aquela afirmação do poeta de que ‘só aprendemos a ler o que já vivemos’ e por assim o havermos sentido.15 Não a metáfora elaborada do ‘teatro’ de sentimentos alheios16, mas o ‘sim, sim; não, não’, sem sequer o evangelho de uma virtude.17 Tudo no avulso de algum momento, no dito efémero de um encontro, como aquele em que um pensamento de Pessoa, aliás pelo interposto António Mora do «Regresso dos Deuses», um dia ‘nos vibrou de sentido’…18 Duas notas ainda deste pretexto: tanto essa consonância de alma, que é como quem diz de ‘corpo’ com tal sentir19; quanto essa inteligência também ‘desalmada’ de um perceber a exacta demora dos Deuses20, que será quase o inverso do que, em Heidegger se diz “tarde demais para os deuses e por demais cedo para o Ser”.21 De facto, neste último registo, mais teorético, ou até visionário, é a própria demora dos deuses que há-de contar uma história real como se não fosse22, outrossim, bem mais a virtualidade do que se sente sem tempo, mas no a tempo desse ser tangido…23 Sim, tocado por uma afirmação de Pessoa sobre a Natureza, como se esta fosse tão contrapolar das pessoas24 e da própria unidade conceptual que leva a divinizar a Natureza, como aliás a naturalizar assim, ainda que incompletamente, os Deuses, os tais Universais, as Ideias.25 A afirmação que aqui se lembra é a seguinte: “A religião pagã é politeísta. Ora a natureza é plural. A natureza, naturalmente, não nos surge como um conjunto, mas como “muitas coisas”, como pluralidade de cousas. Não podemos afirmar positivamente, sem o auxílio de um raciocínio interveniente, sem a intervenção da inteligência na experiência directa, que exista, deveras, um conjunto chamado Universo, que haja uma unidade, uma cousa que seja uma, designável por natureza. A realidade, para nós, surge-nos directamente plural. O facto de referirmos todas as nossas sensações à nossa consciência individual é que impõe uma unificação falsa (experimentalmente falsa) à pluralidade com que as cousas nos aparecem. Ora a religião aparece-nos,

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apresenta-se-nos como realidade exterior. Deve portanto corresponder ao característico fundamental da realidade exterior.” 26. Independentemente do contexto da religião, ou talvez não (pelo que também chamamos “tentação” mental ou assim luciferina…)27 o politeísmo das coisas-deuses, a pluralidade variada dos muitos nomes ‘cousados’ dessa maneira28 e por debaixo deles essa pulsação29 do que surge… como todas as sensações, vibrações que ritmam a consciência, há a experimentação falsa enquanto nível “zero” de uma tal mentira do mundo exterior como Universo, como unidade.30 § 2. O multíplice sensível e o uno possível: os limites heterónimos do pensar… O totum não será pensável senão como limite já num arrepio imaginário de sentir tudo ou pretender senti-lo de todos os modos.31 Porém, aquela pretensa ‘exterioridade’ do que se sente ‘surgir à consciência’ pode constituir apenas um refluxo inconsciente disso ‘que fica por pensar’32, disso que só ao ser sentido, como se exterior, se torna tal. E será mesmo tal ?33 A tentação (peirasmós, ou “delimitação” assim em provação…34) está em resumir como quem conta, não só somando mas totalizando, encaminhando de um viver que só sobrevive vário, e à solta35, para um pensamento que mede pela igualdade do seu mesmo nexo.36 E isto sem ‘balança’ ou sem a mercê sequer de uma dialéctica conciliação sonhada.37 Tentação que reflecte o lado mentale “mentiroso” que se situa na linguagem e na capacidade de simbolizar o alheio sem de facto se alienar, não podendo sair de si senão para mais reconhecer, em si mesmo, estar entrado.38 Donde a consciência perplexa aquém ou além desse percurso reflexivo perante um ontológico paradoxo de ‘haver entes e não o nada’39, de o próprio fundamento se complicar num Ser dos entes que não coincide com a onticidade vária de outras diferenciações possíveis.40 Como se o pensamento unitário se rasgasse e se abrissem abismos nem sequer da Origem41, do Uno42…, mas das muitas géneses que cada momento de conhecimento implica além da causalidade pensada de tudo.43 De facto, na totalidade da lógica mental não se esgota o possível de tudo mais44, pelo que se volta ao porquê?, além do como?45 Diríamos que em Fernando Pessoa não há a métrica estatuída da interrogação que sonda abismos, nem a pergunta meramente modal que explica banalidades.46 Antes um tal? Questionante, tão enigmático como um sorriso triste ou o limite misterioso do vulto heterónimo súbito aparecido no espelho…47 Os heterónimos não são sentidos (quando muito experimentados, como acima ficou dito pelo Autor); são, antes, pensados48; comportam-se como “categorias” lógicas de um universo absurdo ‘em que se espera o inesperado’, ou em que se faz tempo para coisa nenhuma…49 Por outro lado, todo o imenso caudal poético que ritma o sentir é sentido neste velado leito de muitos olhares e nomenclaturas que o tecem como se possível, quando em si ortonimamente, ou nunca tal, o viver é para se sentir e não para se pensar.50 § 3. Não a unidade da acção, mas a diversidade técnica do poder. Então, a lógica está toda no jogo das personalidades e na inter-subjectividade ausente desse ‘drama em gente’, enquanto as estesias poéticas ressaltam do tear de mundos no embaraço de haver cores e sabores, sentires e lembranças, e… sem que deva aí corresponder com alguém para sequer o reflectir.51 A questão não está na comunidade de um sentir que acerte valores de símbolo ou céu misticamente acessível a todos52, mas o drama de muitos como primitiva sociedade em que não há um nós de acção, uma intersubjectividade prática, na glosa fáustica de um absoluto ‘começo na Acção’.53 Outrossim, sócios vários da Natureza instintiva e solidária em ressentimentos e presenças de poder, antes de sequer consciencializado nosso. Algo pois de retintamente anti-fáustico nesse drama em fragmentos54 do ‘contágio’,55 sem um «Ao começo…» solene, nem um “afinal”, mas tão só no tremendo poder do que fica. Fica, como quem não quer a coisa, de permeio.56 É essa societas “avant la lettre” da polis e da nossa sociedade de conhecimento e interesse57 que está na base de uma outra viagem platónica pelos cumes dos possíveis, quais cariátides do Templo

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luiz  pires  dos  reys   nascer  do  dia  frag:  mentos  do  ermo  a  esmo    
A aparição das coisas, ao abolir-se no seu próprio aparecer, é um apelo silencioso que transparece nas palavras contíguas. * A minha pátria só a encontro na extrema redução da vigília, no abandono às potências elementares que povoam o sono e o tornam a receptividade pura da branca integridade das energias tranquilas da terra inicial. * O sagrado é o retorno ao corpo como dimensão total e plenamente erótica e, por conseguinte, o regresso ao princípio do mundo como nascimento no encontro entre a subjetividade e a ardente matéria da terra, entre o corpo e a totalidade do real. António Ramos Rosa

I. II. III. IV. V.

As palavras que faltam são sempre as primeiras e as derradeiras. Faz dos arcanos asas para o atravessar a floresta. Da alma sair-te-ão eles ecos dos Antigos que nela farão então ouvir a sua voz. Caminho válido é aquele descaminho que te valida o caos e com ele te faz crisol e cinzas de certa fénix inumana. É da sombra, desde a sua treva, que vês a luz com a mais inteira clareza: ofuscantemente! Do que se trata é de fazer pontes, do que se trata é da falta de pontes. Do que se trata é de haver ainda necessidade de pontes, do que se trata é de ter ainda de haver pontes sem se saber se haja sequer quem nelas entre: e não fique entre. Ainda que tudo o que dizes seja ressonância daquilo que jamais consegue ser dito inteiramente, mais valerá não sê-lo, do que sê-lo e nisso não estares inteiro. Realidade é aquilo que tu consegues ver, ou é aquilo que tu não consegues ou não queres ver? É aquilo que é não: de quanto consegues e segues.

VI.

VII.

39  

   
 

 

photo   graphia|rte   |poesia  
           
       

   

“coroemo-­‐nos

\\:|

 

de  poesia”    
josé     valle  de  figueiredo        
  Cada  palavra  é  uma  abertura  para  o  insondável   antes  de  ser  uma  relação  horizontal  com  as  outras  palavras.     *     A  urgente  vocação  do  poema  é  o  espaço.   *      Ser  dito  é  uma  sede  submersa     que  desejaria  beber  o  horizonte  do  mundo.     António  Ramos  Rosa  

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josé     valle  de  figueiredo  
       

 

        Com  poemas  tudo  se  acende      
Tudo  é  composto  de  poemas,                                                                                                                                                           do  que  muda  e  permanece,                                                                                                                 tudo  é  composto  de  verso  e  reverso,                                                                                       do  que  é  vivo  e  falece.   Mas  nem  tudo  o  que  é  mudança   muda  como  acontece   quanto  cresce  e  é  criança.   Todo  o  mundo  é  composto  de  poesia,   ora  se  esconde  e  falece,   ora  se  vê  e  nos  tece.   Com  tudo  se  acende:   a  palavra  acesa  no  poema   faz-­‐se  à  vida   -­‐  e  vai  além  da  vida.      

   

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antónio   cândido  franco  
    leonor  teles    
Eis  a  rola  real  no  esplendor  da  beleza!   Eis  a  rosa  encarnada  na  graça  da  realeza!   A  nora  de  Constança,  a  herdeira  de  Inês   a  espiral  do  fogo,  a  roseira,  o  fulgor  da  luz   cujo  rugido  de  Amor  é  tão  canoro  e  altivo   qu’inda  agora  no  imo  do  Sol  se  vê.     Foi  esta  leoa  de  cabelo  em  lume   que  preferiu  dar  sete  voltas  ao  mundo   e  morrer  de  fome  num  fojo  de  espinhos   os  ossos  dando  às  pedras  do  caminho   do  que  pôr  a  juba  na  mão  dos  domadores   do  Portugal  feito  jardim-­‐zoológico.   Eis  a  peregrina,  a  loba  do  fim,  a  rainha  maldita.   Eis  a  Senhora  que  nunca  perdeu  o  anel  da  vida.  

 

 

         
12  de  Julho  de  2011  

 
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joão  raposo  
hora  de  névoa      (1990)  

 

   
  Intenso  nevoeiro   onde  o  olhar  penetra   o  desejo  de  alcançar   estrelas.     No  limiar  da  aurora   um  silêncio  grita:   É  a  Hora!     Quatro  mãos  sobre  o  piano   deslizam  como  almas  encobertas   de  Saudade.     A  Arrábida  espreita   com  seu  oráculo   de  terra  húmida.     Um  Verbo  que  é  um  rochedo   de  cilícios  penitentes.     Da  brancura  nasce  o  Poema   que  nunca  completará  a  Obra.     Hora  de  Névoa   em  que  se  verte  o  Sôma   e  se  atravessa  a  tragédia   incólume  no  Dharma.  

 

 

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49  

   
 

 

 

 ethel     feldman  
        Esperei-­‐te  em  silêncio,   num  recanto  qualquer   da  minha  existência   Esperei  sem  descanso     Abriste  a  janela   Deixaste  entrar  o  vento   Tuas  mãos  pintaram  a  cor   no  meu  corpo  febril.   fosses  tu,  o  meu  desejo   eu  seria  o  compasso   em  que  respiras   vazio  que  se  completa   em  cada  beijo   um  sopro  suave   feito  da  vontade   de  outro  beijo   meu  corpo  suado   molhado,  em  ti   foz,  de  um  novo  rio.     Quando  o  nosso  olhar   vazio,  procurar  o  tempo   serei  tua  noite  quente     Deixa  que  o  rio  se  estreite   Conta-­‐me  tudo,  sem  pressa   Conta-­‐me  o  resto            

  

    Deixa-­‐me  agora  descansar   nesse  teu  estar.   Devagar,  estar  em  ti   No  cheiro  que  adormece   preguiçoso  em  teu  corpo   Deixa-­‐me  estar   entre  a  vontade  e  o  desejo   de  continuar  a  estar     Deixa-­‐me  agora   que  durmo  em  silêncio   enquanto  me  esqueço...   tantos  abraços  dei   enquanto  partias   beijos  vencidos   na  despedida   no  despertar,  entre  o  que  sou.   fosses  tu  de  pedra   inventava  o  amor  eterno   esse  que  o  tempo  gasta   sem  que  os  olhos  vejam     Divino  é  o  pó   em  que  tornas  ao  mundo   na  terra,  no  ar,  nos  oceanos   Multiplicas-­‐te  em  todos   em  cada  um     Esperei-­‐te  em  silêncio   num  recanto  qualquer   No  meu  corpo  salgado     Estás  em  tudo  e  em  todos   Eterno  é  o  nosso  descanso          

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fátima  vale    
    êxtase-­‐ganapatyas        

 

      aparece  desnuda  a  ilha  wali     na  magia  aquiescente  da  frágil  campina   liliputiana  folhagem     amarela  palha   fulgura-­‐se  nela     a  coroa  de  espuma  cósmica   sorriso  desdobrado   fios  de  ébano  no  peito  das  velas   dobam  o  descanso   rendilham  a  dádiva  ao  ouvido     oh  ganesha   ganesha   ganapati  om   vinayaka  om   vinayagar  om   pillayar  om   vinayakudu  om       entre  o  campo  da  tessitura   planam  as  aves       véu  livre  na  duna  do  silêncio     mimesis  da  memória   hermética  dissolvência  da  resenha  pura   palavra  erecta     brune  o  epicarpo  gogado     eira  de  sol  inflamada   plurificada   lavoura  fundente   que  abafa  de  caruma  a  brasura  da  soenga   olorante  incenso  venal   metamorfose  alotrópica  do  amor   gramática  híbrida  que  se  gera  
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brunus  brunus   magnanima  sapientis  criatura   fumo  da  terra   erva-­‐moleirinha     tratado  teínico  dos  milagres  
 

toda  a  mundanidade  se  pia  no     mergulho  nocturno   pelo  ósculo  tépido  das  águas   (circula  âmbar  cristalizado  dentro  do    olho)     a  arena  muda   afia  o  sorvo  embriagado  na  fonte   (carícia  que  desponta  da  língua   no  tablado  fértil  da  galeria  reservada)   vínica  vox   extensa  flammula    
 

brunus  brunus     brincam  dois  sóis  no  leito  terracota    que  o  vento  embala  
 

perfurando  as  luras  floridas   atinge-­‐se  a  dourada  cinza  do  sono     viagem  única     líquida  semente   dentro  do  nenúfar   que  alarga  pelo  calor  da  fricção   falo  sublime   fígulo  solar     pedestre  humildade     do  sonho  habitado  
 

nebulosa  vertebral  dos  dias  moços   dançarinos  com  paus  de  canela   no  jardim  festivo  do  algodão  

   
 

 

agripinacosta  marques  
 

   

 
          Voo  –vaivém  entre  diferentes  planos   rápido  e  leve.  De  um  incêndio  breve   nutre  os  espaços  os  espaços  de  passagem   entre  nuvem,  montanha   ou  a  rasa  planície  quase  opaca.   Viagem  iniciática  se  no  letargo   oráculos    vertem,  das  amplas  asas,   as  predições  num  sonho.   Facho  divinatório  se  no  silêncio   a  linguagem  ecoa  sob  plumas  em  cântico.    
                (in  “Ciclos,  Fragmentos,  Idades”)  

   

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donis  de  frol  guilhade  
||  dois  poemas  de   “Uroboros  ou  o  Vaticinador  de  Chirico”  *        
    seja  ou  a  não  ser  propício  o  enformar  da  linha  no  eco  evo  do  cânone,  dir-­‐se-­‐ia   ter-­‐lhe  a  limite  entrevisto  o  paradigma  adiado       por  lei  loado  a  cnossos   sê  sem  rota,     se  hás  atida  à  dor  a  acção   em  tal  inerme  vida:     o  elo  aumente  e  exorcisme  rente  o  que  do  selo   é  púrpura  ou  por  vício  doa  

 

*  (inédito,  1990)  

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dom    diniz   duas  cantigas  d’amor  de  meestria    
(nos  750  anos  do  seu  nascimento)    

 

“o plantador de naus a haver” Fernando Pessoa   Pero  muito  amo,  muito  des(ejo)   aver  da  que  amo  e  quero  gram  ben,   porque  eu  conheço  muyto  ben  e  vejo   que  de  aver  muito  a  min  non  m’en  ven   tam  grande  folgança  que  mayor  non  seja   o  seu  dano  d’  ela;  quen  tal  bem  deseja   o  bem  de  ssa  dama  en  muy  pouco  ten.     Mais  o  que  non  he  e  seer  poderia,     sse  fosse  assy  que  a  ela  vesse   bem  do  meu  bem,  eu  (muito)  desejaria   aver  o  mayor  (ben)  que  aver  podesse,   ca  pois  a  nós  ambos  hi  viinha  proveito;   tal  bem  desejando,  ffarya  dereyto   e  sandeu  seria  quen  o  nom  fezesse.     E  quem  d’outra  guisa  tall  bem  (desejar)   non  he  namorado,  ma(i)s  é  (um)  desfrom,   que  sempre  trabalha  por  cedo  cobrar   da  que  non  servio  o  mayor  galardom;   e  de  tal  amor  amo  (eu)  mays  de  cento   e  non  amo  hũa  de  que  me  contento   de  seer  servidor  de  boom  coraçon.     Pois  (d’ela)  m’eu  cham’e  sõo  servidor,   gram  treiçom  seria,  se  mia  senhor   por  meu  ben  ouvesse  mal  ou  senrazon.     E  quantos  bem  aman  assy  o  diram.  
(C.V. 208 / C.B.N. 605/606)

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                                                                        ©  bruno  miguel  resende  

 

quatro  degraus     aos  quais  falta  o  primeiro  

 

bruno     miguel  resende  
 
        pórtico  da  desnatalidade   trigésima  quarta    
©  bruno  miguel  resende  

 

 

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  Nada  pode  ser  levado  ao  extremo  

©  rui  miguel  félix

Barco  juncado,  vela  arrosta   Extremo  o  destino,  falsa  embarcação   Onde  embarco,  Canto   Leste  verbo  sem  canção    
 

 

 

 

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dossier:
antónio ramos rosa
 

|a voz inicial  
                         

“se  encontro  a  palavra

encontro  o  muro  antes  da  palavra”  
António  Ramos  Rosa       recolha   e  organização    |   Luiz  Pires  dos  Reys     Gisela  Ramos  Rosa  
 
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/”|:  

   
 

 

ana  paula  coutinho  mendes  

António  Ramos  Rosa  ou  a  respiração  poética  do  mundo  
Com quase uma centena de livros publicados, António Ramos Rosa não é apenas o poeta português mais prolífico da segunda metade do século XX, é também aquele que, de modo singular, se tem mantido fiel a uma entrega absoluta à Poesia, entendida esta como trabalho concentrado sobre algumas palavras que se erguem com a solenidade de uma revelação ontológica. Nascido no Algarve (Faro, 1924), mas radicado há quase cinquenta anos em Lisboa, António Ramos Rosa cedo se resgatou a si mesmo do quotidiano de um simples “funcionário”, sujeito a rotinas e superficialidades, que muito facilmente poderiam tê-lo afastado da criação de um imaginário poético à altura da mais plena e radical liberdade e dignidade humanas. Embora o seu primeiro livro de poemas (O Grito Claro)tenha vindo a lume apenas em1958, para trás tinham já ficado muitos anos de dedicação intensa à poesia, quer como autor esparso em publicações periódicas, quer como leitor, crítico e co-editor daquelas que viriam a impor-se como as mais fecundas revistas literárias no Portugal dos anos 50e dos inícios de 60 (Árvore, Cassiopeia, Cadernos de Poesia). A Poesia como “diálogo com o universo”, propósito que reuniu alguns dos principais colaboradores da Árvore, e cuja formulação ficara a cargo do próprio António Ramos Rosa que se destacava, já então, pela sua informada consciência crítica sobre o fenómeno poético, viria a tornar-se o centro irradiador do seu próprio “caminho das palavras”. Entretanto, como intenso leitor que sempre foi, António Ramos Rosa acabaria por impregnar esse dialogismo cósmico de uma profunda cumplicidade intersubjectiva, que se foi transformando em múltiplas “afinidades electivas” com outros criadores. Com efeito, no panorama da cultura portuguesa germinadora nas décadas de 50 e 60, ninguém como o autor de Versões/ Inversões viria a revelar uma abertura tão descentralizada, espontânea e continuada a diferentes propostas de poesia (e pintura) modernas, tanto portuguesas como estrangeiras, levando essa permeabilidade ao ponto da mais estreita e declarada cumplicidade de escrita a quatro (ou mais mãos). Esse processo seria sempre assumido sem excesso de ludismos provocatórios, como aconteceu nalgumas experiências vanguardistas, mas antes com a solenidade de um dialogismo poético a partir das fontes comuns (vd. por exemplo, Rotações (1991), em interacção com Agripina Costa Marques e Carlos Poças Falcão ou Meditações Metapoéticas/ Méditations Métapoétiques (2003), escrito a meias com o poeta e ensaísta francês, Robert Bréchon). Entretanto, António Ramos Rosa foi acompanhando o seu trabalho poético com uma também intensa actividade crítica, ora reunida em livros de ensaios (Poesia, Liberdade Livre; A Poesia Moderna e a Interrogação Real I e II ; Incisões Oblíquas, A Parede Azul), ora dispersa por numerosas recensões na imprensa literária e por colaborações nos mais diversos projectos editorais. Por isso mesmo, ficaram a dever-se à sua curiosidade voraz e generosa muitas das revelações ou das primeiras análises da poesia de diversos autores portugueses, bem assim como a divulgação em Portugal de poetas estrangeiros, sobretudo francófonos (Paul Éluard, Henri Michaux, René Char, Jean Tortel, Yves Bonnefoy, Roger Munier, Fernand Verhesen…), mas também espanhóis (Juan Ramón Jimenez, Vicente Aleixandre, Pedro Salinas, Jorge Guillén, Carlos Edmundo d’Ory) e
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hispano-americanos (Vicente Huidobro; Roberto Juarroz, Eugénio Montejo, Octavio Paz, Olga Orozco, Ulalume González de León). Se nos seus primeiros poemas, prevaleciam as inquietações existenciais de quem não pode “adiar o coração”, o poeta passaria depois, nos anos 60 e 70, por uma fase bastante centrada num universo tendencialmente descarnado de auto-reflexão textual. Já a partir de meados dos anos 80, a poesia de Ramos Rosa tornar-se-ia cada vez mais receptiva a uma mística da imanência, à adesão sensorial e sensual ao mundo, radicada em alegorias particularmente luxuriantes que, por sua vez, traduzem toda uma dinâmica genesíaca de amorosa integração do sujeito poético no cosmos. Mas, antes mesmo desse mais declarado sensualismo efabulatório, já se encontrava na sua poesia vários sinais da entrada na “secreta idade da ignorância”, que nos faz lembrar a “quietude perfeita” da sabedoria oriental. Embora o poeta, ao contrário da filosofia zen, nunca chegue a prescindir das palavras, e prolongue até com “Três adágios” a “Investigação do Silêncio em Forma de Koans”, que lhe apresenta outro poeta (Casimiro de Brito, no livro também conjunto Duas Águas, Um Rio), existe em António Ramos Rosa uma contínua demanda de plenitude e de coincidência com o âmago do real. Estas, por sua vez, vão ao encontro da “redondez profunda do intacto”, da “fulguração tranquila” que acaba por unir todos aqueles que, tanto a Oriente como a Ocidente, anseiam por (con)fundir-se com a respiração do mundo ou com a “facilidade do ar”. Desde sempre entusiasmado por um conhecimento errante que atravessa as imagens da poesia, da filosofia e da pintura, o poeta de Estou vivo e escrevo sol construiu e divulgou uma “biblioteca viva” de poesia e poética modernas, de raiz fraterna e transfronteiriça, isto é, cujas demarcações imaginárias apontam não para limites estritamente linguísticos, nacionais ou disciplinares, mas para uma comunhão de cosmovisões demiúrgicas que desencadeiam visões outras, transfiguradas, do mundo. O universo poético de António Ramos Rosa traduz, por conseguinte, uma existência que é também uma forma de resistência à uniformização paralisante dos tempos modernos, na exacta medida em que o poeta acaba por envolver os seus leitores num compromisso partilhado de construção de uma sempre nova, liberta e libertadora, realidade sígnica, naturalmente integrada numa mais vasta ordem cósmica: “Escrevemos ainda palavras para que cintile o muro da separação para que respire ainda a sede que em nós se levanta numa coluna quase exausta e quer abrir-se extensa sobre o verde harmónio do mar” (in Génese, 2005) ______________________________
* Salvo explícita indicação em contrário, todo o material fotográfico constante deste dossier dedicado a António Ramos Rosa é da autoria de Gisela Ramos Rosa., a quem aqui se agradece a generosidade de disponibilizálo. (Nota da Direcção)

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Poemas  inéditos     (ou  quase  éditos)
  A  José  Machado  Pais    

O  poema  é  a  nascente  de  uma  nascente   todo  o  poema  é  a  estrela  de  uma  nascente   iluminada  como  uma  lágrima   O  poema  é  mulher  e  ilha  de  um  jardim   na  sua  violência  de  abstracção  inviolável   Abstracto  como  um  pássaro  árabe  na  sua  lenta  harmonia   No  seu  jardim  há  o  perfume  de  um  paraíso  remoto   e  em  toda  ela  a  adolescência  de  uma  pedra  incalculável   a  virgindade  fremente  de  um  desejo  sem  dimensão     o  lugar  de  um  deus  sem  altar  na  sua  identidade   imaginária  e  verdadeira  na  sua  respiração  de  terra   o  poema  é  a  mulher  na  sua  linguagem  de  dádiva   oriental  sempre  e  estranha  mediterrânica   O  poema  é  um  puro  gesto  de  música   intraduzível  como  um  fruto  na  língua  que  se  dissolve   com  o  sabor  límpido  do  seu  ser  como  um  rio   fruto  da  música  da  essência  materna  da  mulher   O  que  é  ainda  sagrado  é  esse  aroma  de  janela   que  dá  para  um  deserto  ou  para  um  jardim  do  mar   o  que  é  ainda  sagrado  é  o  arco  originário   para  o  qual  não  há  caminho   na  música  nua  do  poema   É  o  pássaro  que  canta  as  coisas  mesmas   Pelo  ritmo  de  uma  nascente     que  tem  a  forma  de  uma  estrela   E  é  a  mulher  no  seu  jardim  de  Outono   Na  inocência  do  seu  saber  silencioso  

     
4  de  Setembro  de  2005  
 

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  Para Agripina

Amanheceu  a  minha  vida  no  teu  rosto   de  uma  doçura  intensa  e  tão  suave     como  se  um  divino  fundo  nele  brilhasse     Eu  era  o  que  nascia  soberanamente  leve     e  encontrava  na  limpidezo  centro  do  equilíbrio   Só  em  ti  cheguei  amanhecendo  na  minha  madurez     Entrei  no  templo  em  que  a  luz  latente  era  a  secreta  sombra     Foste  sonhada  por  meus  olhos  e  minhas  mãos     por  minha  pele  e  por  meu  sangue     Se  o  dia  tem  este  fulgor  inteiro  é  porque  existes     E  é  porque  existes  que  se  levanta  o  mundo     em  quotidianos  prodígios     em  que  ao  fundo  brilha  o  horizonte  certo    

 

(in “O Teu Rosto”)      

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“Dizem  que  a  morte  se  engana   Quem  se  engana  somos  nós”     António  Ramos  Rosa

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casimiro  de  brito  
eros  &  thanatos      
(para  o  António  Ramos  Rosa,   lembrando  os  nossos  55  anos  de  amizade)  

 

  1 Os mestres antigos ensinaram-me a cantar — soubesse eu amar 2 O sol no corpo nu lembra-me que sou um bicho da terra 3 Talvez ela exista, a suprema serenidade — bebendo-te, amando-te 4 Eu gostava de morrer na casa da minha amada: lagoa sagrada 5 Não grites, amor — deixa-me escutar os teus rios subterrâneos 6 O meu corpo afoga-se nas águas do teu corpo — morte amorosa

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maria  joão  fernandes  
O amoroso virá numa cascata de silêncios iluminando a brancura, jóias maduras, frutos do olhar enamorado. Bálsamo indiviso, vapor acidulado de amores-perfeitos, oferta das palavras que não digo, e das horas de âmbar que não vivi contigo. Palavras aflorando os cumes da doçura, celebração adormecida, véspera da alegria do corpo, alma benfazeja que perfuma as abelhas e lhes rouba o seu mel, para deleite dos amantes. Pássaros fulgurantes, traços da aurora, pássaros amorosos de um esplendor maior, azuis, de vulcão extinto, com a sua dança perfumada de espirais e de absinto. O amoroso virá no seu corcel de espuma e solar delírio, semeando rosas e lírios nas alamedas do amor ferido e da calma e do repouso nascerão flores vermelhas, gritos felizes, a voluptuosidade do ar. O amoroso virá resplandecente de furor amanhecido e libertará da noite a lua para amar o sol.

lettera  amorosa
A António Ramos Rosa, René Char e Georges Braque

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Sentir-me-ei tua, a fome terá o seu fim e os rios e os mares, o seu fogo, tudo correrá para mim. Esse calor eu o bendigo, essa perfeição absoluta que ninguém esperava, essa benção da noite à alvorada, prodigiosa ovação. O reino das metáforas abriu-se e delas nasceu uma laranja, sol do coração a irradiar a madura celebração do infinito. A amorosa despirá o seu manto de trevas e coberta de estrelas subirá ao lado do amoroso a crista de todas as vagas, uma após outra rebentando em luz e nessa claridade pousará o espaço e pousarão os olhos e os beijos e as carícias e o abraço, lenta, saborosa, confissão de amor. Alquimia dos pássaros, das flores de todas as cores, das maçãs ardendo com chamas redondas, ah, o tempo bem pode ir-se e o espaço recolher as suas redes cheias de prodígios e de lágrimas. Doces sílabas voam, casal de pássaros escrevendo nas nuvens a sua liberdade. Doce migração do sentido, dos seus traços, da sua breve, agreste cintilação, na obscuridade maravilhosa do jogo das maravilhas e das palavras. O amoroso virá com a palavra.
  *Do  livro  a  publicar:  Lettera  Amorosa,  Iluminações  e  Sombras.    

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maria  teresa  dias  furtado    
 

Não  foram  sombras  nem  enseadas  ou  fortes  em  baías  longas.   Não  foi  o  movimento  veloz  por  uma  ou  outra  estrada,  junto   De  casas  distraídas  na  sua  cal,  no  seu  salitre,  no  seu  silêncio,   Perfumado  pelas  flores  do  verão.   As  palavras  que  me  foram  dadas  têm  nome,  poesia  e  amizade,   Têm  cor  e  sabor,  intensidade,  vibram  nos  reflexos  e  nas  árvores.   O  poeta  ignora  e  sabe  o  que  vai  escrever,   É  o  branco  da  folha  que  acolhe   A  carga  de  sentido  e  de  sílabas,                                                                                                                  (Fotografia  de  Maria  José  Palla)   As  imagens  imprevistas  e  súbitas,   Os  barcos  que  surgem  no  horizonte  azul.   As  palavras  movem-­‐se  como  as  águas  de  uma  ria   Que  procura  o  mar  onde  se  mistura  e  funde,   As  palavras  tornaram-­‐se  um  caminho     Com  todas  as  suas  lâmpadas,  suas  lâminas,   Toda  a  terra  que  ainda  a  elas  se  agarra,   O  viço  de  uma  folha  vegetal,  a  evidência,   Os  dedos  que  incertos  traçam  os  traços  inapagáveis,   A  voz  precisa,  antes  e  depois  do  grito,  da  noite,  do  meio-­‐dia.   A  água  do  planeta  verde  escorre  entre  a  inocência  das  plantas   E  dos  seres,  tudo  se  perfila  e  esbate  entre  vento  e  monte.   É  tempo  de  dizer  o  que  não  foi  dito,  o  que  não  tem  contornos,   O  que  os  olhos  do  poeta  vêem  e  sem  saber  porquê  escrevem   Ondulando  todos  os  sentidos  como  numa  barca  oscilante,   Captando  a  mensagem  do  vento  e  da  terra,  sabendo  línguas  inexistentes,  inexoravelmente,   improvavelmente   Tornando  o  impossível  possível,  a  verdade  transparente.   Num  leque  de  luz  repousa  a  sua  vista,  o  coração  inquieto   Buscando  o  infinito,  o  invisível  escondido  nas  coisas  mais  visíveis.   O  poeta  nunca  escreve  o  poema  que  quer,  livro  a  livro  tenta  e  não   Consegue,  as  palavras  que  tacteia  parecem-­‐lhe  cegas  em  relação   Ao  que  vislumbrou  e  amou  sem  poder  deixar  de  amar,   A  Poesia  é  pobre,  ignorância  sábia  que  persistentemente  busca,   Insatisfação  crónica  e  incurável,  mas  não  doentia,  impulso   De  chegar  um  pouco  mais  perto  do  poema,  aquele  que  ele  sabe  impossível  mesmo  que  escrever   lhe  deixe  as  mãos  a  sangrar.   As  palavras  dadas  são  diamantes,  sementes,  inícios   Para  o  tempo  sem  tempo  em  que  a  poesia  se  torne  rosa  inteira.        
Lisboa,19  de  Julho  de  2011  

as  palavras  que  António  me  deu  

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paulo     borges  
Do  imediato,  da  palavra,  do  silêncio  e  do  vazio  em  António  Ramos  Rosa    

 

 

“O que procuramos será real? Ou será o impossível fruto do desejo sempre latente e indefinível? Ou não será imediata presença e só a nossa distracção a perde ou turva o seu cristal? Talvez tenhamos perdido o dom da simplicidade e da tranquila conivência com as coisas Se pudéssemos coincidir o movimento com a suspensão o vazio seria a plenitude e a palavra não trairia o silêncio nem a evidência solar de cada coisa Só esta presença nos daria o túmido equilíbrio de pertencer ao mundo como uma haste de trigo e de possuir um corpo com a turgência nova de uma primavera vagarosamente ingénua vagamente indolentemente luminosa” António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, Campo das Letras, 2001, p.68.

Talvez o que procuramos seja real, mas não a procura, nem o que julgamos procurar, nem quem procura, nem o que temos por “real”. Talvez tudo isto seja sim “o impossível fruto do desejo sempre latente e indefinível”, isso que sempre se distancia do que busca por imaginar carecer do que em si superabunda. “O que procuramos” é na verdade “imediata presença” e por isso toda a procura e seu projectado objecto é “distracção” que a “perde”, esquecendo e turvando o seu “cristal”. Mas essa transparência, esse “fulgor puro” 1 obscurecido pelo desejo que o pro-jecta e ob-jecta, transparece ainda no que a encobre. Basta que a busca e o desejo reconheçam habitar e ser afinal isso mesmo que distante de si concebem. Basta que vislumbrem ser a superficial agitação do claro fundo sem fundo que a demandá-lo turvam. Então a superfície se descobre fundo efundo e superfície se desvanecem. Então se renova o afinal nunca alienado “dom da simplicidade” e na serena “conivência” com cada coisa cedemos à múltipla presença do

                                                                                                                         
Cf. António Ramos Rosa, “Não queiras mais que a gratuita lucidez”, As Palavras, Porto, Campo das Letras, 2001, p.32.
1

Nesta página: fotografia de António Ramos Rosa por Danilo Pavone.

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Ao  lado:  Desenho  de  Gonçalo  Salvado                                                                                                                                                                                

 

maria  do  sameiro  barroso  
a  palavra  tributária  e  solar  

 

(a  António  Ramos  Rosa)  

 

Bebi da sua luz, como ave estonteada. Na sua ébria fonte, bebi os vestígios plenos, a palavra vazia, Com ele, regressei à coerência antiga, apoiada na janela nítida de um pórtico solar. Fui sacerdotisa do seu culto, aprendi nas salas brancas dos seus templos de sol e, submersa na noite do silêncio e do tempo, emergi na luz radiosa da sua palavra azul e pura. Atravessei, com os seus cavalos míticos, os ciclos da terra, as clareiras do vento. Regressei do mais recôndito ardil do mundo e tentei decifrar as suas árduas falésias de luminoso granito. O real nunca foi um reduto exacto. Quem disse que o verde é um lugar seguro? Quem inscreveu nas pedras a fluidez dos rios, o âmbar das profundezas, o espelho dos mares, e abriu às teias da criação, as lâmpadas marinhas dos insectos da volúpia? Quem disse que a palavra é silêncio, reflexo e reduto aberto, incêndio de névoa, sentiu também o fulgor, a sede e a exactidão com que se ascende à pulsação do infinito. Quem desafia o abismo das palavras, sabe que a transgressão é o lugar do poema, envolto em sombras frágeis. A boca, estridente ou suave, escava, nas páginas, o deserto da sua íntima sede, na sombra que escava, entre a linha e o verso, a inanição informulada da sua luminosidade última. Quem disse que o corpo é verbo, desenlace e substância, recolheu na profecia o sopro extremo e dedilha, na negra obsessão, o jorro de uma harpa, vinda da terra impura, absoluta, recolhida na ousadia suprema como ramagem circular, diáfana flor, rasto cintilante. Quem disse que a palavra é centro e segredo, lavra, na prata insolúvel, o pão e as ondas, consumadas na voracidade dos nomes. Artesão do fogo e do silêncio, mineiro obscuro, trabalha as pedras e o desejo, tornando o mundo habitável e próximo o universo. Apoiando-se nas estrias e nos muros, impele a lua e os séculos, ferindo-se nos rasgões da agonia surda, dando espaço à palavra extrema e libertária. Na sua figura em contra-luz, guarda a origem das palavras nulas, a consciência do negro que o abandono designa, no combate corpo a corpo a corpo entre o ser e o nada, expressando o nascimento primordial e nu dos novos lugares sagrados. Chamam-se árvores, aves, deuses, água, fogo, chamas, entre imagens de uma mitologia obscura, momentos de uma vivência poética total, marcas de uma estrela frágil, instantânea e quotidiana. O sol nunca sobra no dorso imortal dos torsos de água. Como intacta folha, regressa ao vocábulo esquecido, à recôndita voz, à face inteira. O sol nunca se esquece de acordar a noite. Dionísio a ele muitas vezes me conduziu, com suas ébrias quadrigas, nas verdes planícies onde também resfolegavam os prodigiosos cavalos de Apolo. Em Delfos, ou nos seus poemas, respirei o ritmo da sóbria proporção da beleza. Na solidão dos enigmas, com ele aprendi que as estrelas moram o interior dos relógios, que a liberdade habita a transgressão, que a alegria é uma pedra compacta, uma anca de música, uma vertigem de cinza. Na sua palavra, vi nascer os gérmenes da cal e do silêncio, os nomes despenhando-se num frémito de argila. Na exaltação do corpo, nasce a vertigem, a sombra, e o abandonado rumor das ervas ascende, pelos signos plenos, à melodia intacta das potências de luz.  
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fernando  esteves  pinto  
para  António  Ramos  Rosa      
1. Está agora em sua casa. Escreve para que o ouçam. O que nós sabemos dele não pode constituir uma ameaça ao modo como adaptou a sua vida. Tudo vai ficar assim: imperturbável e limpo. O seu jogo será sempre o mesmo. Todos os dias as suas palavras ecoando por todo o nosso corpo. Numa tentativa de criar um espaço estranho que nos possua, nos reserve ao nível do seu pensamento. 2. Há uma linha que divide a casa. É uma ideia que sempre o acompanhou. É um fio que corta os objectos, o separa na sua compreensão. Os objectos foram postos ali por ele. De um lado existe tudo o que é familiar, pessoal e permanente. Do outro lado está o que é suspenso, ilegível, completamente indecifrável. Ele olha à sua volta. Atravessa estas coisas, divide o seu pensamento. Há uma espécie de magia no outro lado daquilo que pensa. Há uma divisão em tudo o que escreve. Ele é um compartimento da própria casa. Ele divide a casa. 3. Nunca pensou ser possível pertencer tanto a uma coisa. Quase desaparecer na sua luz, na sua substância. É o que acontece quando ele escreve. Quando rodeia um qualquer objecto do seu pensamento. A atenção também divide, separa. É capaz de ignorar tudo o que não considera interessante. É mais a forma de uma magia do que certamente o conhecimento o que o leva a abrir portas nas coisas, subir degraus nas palavras, atravessar corredores na sua escrita. 4. Pegar numa coisa, fazê-la rodar, tentar descobrir-lhe uma abertura, entrar no seu interior. As palavras existem para provocar essa construção. É uma felicidade. É como caminhar pelo campo. Sente-se uma paisagem dentro da própria paisagem. Quando nos afastamos, temos o sentimento de dependência entre o que estava e o que continua a estar num sentido mais diluído. Como quando saímos de um poema, de uma pintura, e continuamos a fazer parte dos seus elementos. 5. Quando não escreve, o seu rosto é a expressão viva de quem procura impacientemente outro lugar. A sua fuga é sempre um regresso. Um início em si mesmo. A sua atitude em confronto com o resultado que desperta nessa solidão permite-nos sentir a opacidade que existe nas suas palavras. 6. Aceitamos a obscuridade do que ele nos diz. Ele escreve e as palavras testemunham a ausência de tudo o que ficou escrito. Aceitamos as suas palavras sempre de uma forma indefesa, não reconhecida, como quem está para partir. 7. Ele curva-se perante os materiais do seu trabalho. Procura nas palavras uma arte que o fará perdoar o vazio temporal desse instante. Toda a sua poesia é o resultado de uma masturbação a nível da linguagem. O comportamento que ele desenvolve durante a escrita cria uma situação de fechamento em relação à sua própria matéria humana. A fragilidade e o medo fazem o poeta.

 

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josé  machado  pais  
r  o  s  a  l  u  m  e  

 
 

     
Querido amigo, queria dar-lhe conta da minha enorme satisfação pelo encontro de sábado passado [29-08-2011]. As mais de três horas de convívio – na boa companhia de Agripina e Gisela – sumiram como se fossem manualmente rodadas em ponteiros de um mostrador de relógio. Lamento que a sua hora de jantar quase tivesse sido atropelada por esse tempo desalmadamente em fuga. E, no entanto, como que por artes de magia, esse tempo evadido tornou-se terna e eternamente presente em sua ausência, assim a modos da presença- ausência que aparece no seu belo poema «A palavra é frágil» (Génese). Se bem se lembra – sim, também andámos à volta de lembranças de Vitorino Nemésio – levei-lhe, em fotocópia, uma carta que Henri Lefebvre escreveu a Octávio Paz, infelizmente nunca enviada, ainda que publicada como preâmbulo do seu livro La Présence et l’Absence. Nela, o sociólogo lançava interrogações à sensibilidade do poeta que muito o intrigavam. A dado passo, perguntava-lhe: «?Cómo nace para el poeta esa doble presencia, él con su verbo, y ante él el mundo?». Esta, querido poeta, é daquelas perguntas que não me atrevo a fazer-lhe, assim de repente. Por isso deixei-a, sorrateiramente, em cima da mesa redonda dos seus aposentos, na fotocópia da carta de Lefebvre, limpinha de sublinhados. No cume da pilha de livros que se alojam na mesa redonda da sua habitação vi, por mero acaso, um livrinho de Octavio Paz, Al Paso. Que surpreendente coincidência! Até aqueles outros livros que repousavam tranquilamente no sofá se agitaram, tombando alguns para o chão, al paso que o de Octavio Paz viajava pelas nossas mãos, ávidas de palavras e de tudo o que elas nos dão em seu trânsito. Depois surgiu a oportunidade de, a páginas tantas (não foi por acaso a página 185?), comungarmos do «brinde ao prémio Nobel». Não espanta que tivéssemos derivado a nossa conversa para os acasos do acaso, tendo vindo à baila Picasso («Yo no busco, encuentro»). Como sociólogo, frequentemente me questiono: que caminhos levam ao nascimento das descobertas científicas? Sem dúvida, caminhos árduos, de caminhadas disciplinadas, feitas por caminheiros cansados de buscas acumuladas. Eis senão quando, inesperadamente, ao virar de qualquer esquina da descrença ou da desmotivação, o deslumbramento da descoberta. Como por acaso. Em nossas divagações, vimos que o acaso é feito de trânsitos. Creio que é nesses trânsitos que as palavras adquirem vida. Por isso mesmo, Octavio Paz dizia que «les mots font l’amour». Como o meu querido amigo escreveu num sábio poema («As palavras juntam-se e juntando-se separam-se», Animal Olhar), «as palavras «atravessam o vazio do tempo e são formas do tempo que flui no exterior e no íntimo de nós». Teremos aqui o filão da matriz de pensamento que permitirá dar resposta às inquietações lefebvrianas? Entretanto, viajámos por um livrinho de poemas de Ulalume González de León, poetisa uruguaia, naturalizada mexicana que, bem reparei, deixou-lhe uma simpática dedicatória. Já não me lembro é do nome do livro (será que estou a ficar com aquela maleita do esquecimento de cujo nome não me quero lembrar?). Ao ler-nos alguns versos do livro, de viva voz, fazendo dançar as palavras com o silêncio, percebi melhor o sentido de um poema seu: «Não se pode viver sem», (Relâmpago de Nada): «A palavra deverá apagar as lâmpadas eloquentes e precisas e esperar a vaga do silêncio para que de si mesma possa partir como o navio branco da sua própria essência». A tertúlia em volta das palavras fez-me compreender que elas são boas não apenas para comunicar, mas também para pensar, sentir e até jogar. Viu como cantámos, em diferentes melopeias, Ulalume?
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  luís  filipe  pereira  
  Como  leitor  de  António  Ramos  Rosa,  esta  impressão  breve  não  será  mais  que  a  fantasia  de   um  pássaro/preso  na  ténue  rede  das  palavras  oblíquas    (Génese  seguido  de  Constelações,  2005)             Da obra ramos-rosiana elejo a centralidade do espaço como pórtico de uma poética que, infatigavelmente, assume como função primeira a abertura de um espaço e sua sucedânea inscrição no endoespaço - que não é o espaço convencional, antes o da invenção de uma cosmologia da visibilidade por onde zarpa o Navio da Matéria (1994) rumo à interrogação do Ser e à reabilitação das nuas e lídimas matrizes do mundo, por via de um caminho de palavras, quais escopros de sal - do poema. A criação de um espaço, que acolhe e transfigura os emblemas do ser, sincroniza-se com a instauração de uma arquitectónica criativa cuja geografia nómada oscila entre a disforia de um círculo de cal e a euforia de um espaço de festa, conjugando-se sob o signo solar, porquanto O Sol é Todo o Espaço (2002), a convocar-nos para uma lógica, eminentemente heliocêntrica, para uma dinâmica originária comandada pelo Volante Verde (1986) da língua e levando-nos ao cerne do mundo que, no seu alvor transmudado na habitação aberta do poema, exibe a infinidade de possíveis para que tudo possa ser reinventado no corpo oblíquo da palavra poética, mediadora de horizontes incomensuráveis. Eis como no corpo do poema irradia um novo espaço, aquém ou além de quaisquer sistemas de referência, através da ficção da sutura da Intacta Ferida (1991) – aquela de que brota o vaivém imóvel do perpétuo, e sempre principiante, questionamento ontológico: intrépido vagabundear em núpcias com o espaço. Assim, a viagem – princípio de desejo – da obra de Ramos Rosa acompanha, alusiva ou obliquamente, a eclosão, sem porquê nem finalidade, e irradiação do Ser, as suas solares incidências para que, no âmago do poema, o mundo repouse no seu próprio ser. Leio: A energia secreta do poema não chega a constituir o rosto do invisível mas a pulsação das suas sílabas identifica-se com o ritmo do inominado ser que é a origem e o horizonte da palavra e de que a palavra é o início e o motor que o instaura na sua trama obscura e incandescente (Relâmpago de Nada, 2004). Concêntrica com a invenção do espaço é a fundíssima exigência de um questionamento do Logos poético, já que a vertente metapoética é omnipresente na obra ramos-rosiana e torna este Poetafilósofo (também na acepção heideggeriana reportando-se aos filósofos pré-socráticos) constante construtor de um espaço em génese, constituinte e não constituído, de um espaço sempre em estado nascente, aberto e relacional, interpelando-nos para a criação de uma ocupação, para a ars inveniendi de uma habitação susceptível de cumular o anelo do ser por mais ser: reabilitação da fonte e reinstauração da sede. Na linha de Heidegger, a poesia pensante – sendo-a, eminentemente, a de Ramos Rosa, traço aliás que a torna ímpar, pois nenhuma outra a levou tão longe como esta aventura militante do autor de Ocupação do Espaço (1963) – é topologia do Ser, facultando-nos o poeta um espaço genésico, processual,  

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           Manuela  Justino   “orquestração”  
(aguarela  sobre  papel)  

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joão  rui  de  sousa  
o  relógio  da  amizade*   (réplica  a  um  poema  de  há  44  anos  que  me  era  dedicado)  
Para  um  amigo  tenho  sempre  um  relógio     esquecido  em  qualquer  fundo  de  algibeira.     Mas  esse  relógio  não  marca  o  tempo  inútil.     São  restos  de  tabaco  e  de  ternura  rápida.     É  um  arco-­‐íris  de  sombra,  quente  e  trémulo.     É  um  copo  de  vinho  com  o  meu  sangue  e  o  sol.     António  Ramos  Rosa,  in  "Viagem  Através  de  uma  Nebulosa"  

 

Em cada relógio há sempre um amigo   que nos acorda, que suavemente nos percorre os interstícios da alma, que nos assombra com sinais discretíssimos de fraterna luz ou que nos deixa, mesmo em minuto frágil, um arco triunfal com tâmaras de afecto. Nesse relógio há um lírio comestível ou uma plena árvore com seus braços de deslumbre, ou a mais ínfima erva que por ele sobrevive à estrondosa queda do granizo, à dissolução (inevitável) de casas e areias, e mesmo ao advento da loucura. É sempre tal relógio um rio profundo onde a cor dum sol cheio, tantas vezes reposto, tantas vezes presente em acenar de címbalos e de búzios, pode acordar em tons de uma aridez sombria, pode deixar-nos tristes, sós e desolados, numa gruta de horror frente ao deserto - num recanto de sono e desalento. Nesse amigo de sempre, um tal relógio - com seus ponteiros de murta ou de veludo, que saltam como lebres sobre as horas ou são nichos de abrigo e cestos de avelãs – é puro movimento e azul que estremece o fio de cada dia, o voo do coração. Mesmo em zonas de fogo e exaltação, nesses lugares de praia mais sensíveis (como o esplendor do corpo em combustão, como o fremir da vaga e do desejo), existe tal relógio, ó engrenagem mágica, ó tiquetaque nítido, tão cúmplice.
*Poema que integra o conjunto de dez incluído na caixa Sete Livros Sete Desenhos, editada em 2004, para comemorar os oitenta anos de António Ramos Rosa.

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donis  de  frol  guilhade  
Aqui  é  para  sempre  o  estar-­‐se  fixo  e  perdido   com  as  palabras  só  sem  palavras   porque  nada  dizem  não  dizem  o  nada   deste  lugar  ausente   onde  a  diferença  é  nula   de  palavra  a  palavra.   [António  Ramos  Rosa]  

 

cal: al qui mia es pir al do sol’ o a António Ramos Rosa, a gratidão por seu tão sublime silêncio \1| vertigem lazúli, o incêndio da aurora [oiro que sangra o sagrado] é céu vertical do mais rente à pele [a senciente raiz] \ flor de véu intáctil nas entranhas insuspeitas [princesas da perfeição em sua feliz incerteza] que o evo glauco dos clímaxes espirala [acorde em Si, qual pitagórica armadura] no tom sustenido: esta, a escada arturiana em demanda de suas notas, tons e degraus do grifo e graal do enigma que de nós triunfa. \2| eis – fausto ofício da mais exangue incalmia– os trabalhos e as noites: da alma dos mundos [acesa brancura] o fogo e a raiz são, da nervura que nos seiva, o mais fátuo de mefisto. \3| o coração [alvo carvão do cetim de sentir] arde nisso, qual lava de ínfima fulguração, incan’descendo ao rosto na raiz das achas insurrectas: quem há que as não perca entre os dedos do sentido, dédaloteclado da comoção bem temperada no odor dos cravos já indolores? \4| reclinado na quase impura cegueira dos nós que desentrançam, manuelinos de tamanha solidão, a sedosa aspereza [retorno, ai, a certo náutilus uterino] é de lava, é de larva fértil, é de íntima lavoura sarracena balança dos equilíbrios infiéis. \5| no infindor genesíaco, a cal do olhar devolve ao interstício [puro purpúreo fascínio] o seu céu inconfinado, confiando ao ventre recurvado quanto ao umbigo dos mundos reconduz - outra margem dos êxodos, outro mesmo desterro e terror: a saudade que nos tem saudada, sim... Até que [s]em fim nos percamos de ser vãos labirintos, claustros antros do ilimite virgulando viciosa a variegada fronteira das sebes da sapiência alfim inútil. \6| na lâmina do lábio, paramitado finiscéu – sepultada a alma-ourives de ouriques e de quibires– faz-se, das indescobertas índias, regresso: sem occidente que ouri’entre – geografa-se simples o estagnar extreme das margens, em pura detença de rilke rutilando os mais tácteis ecos.

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/;|.  
         
                           

|    vozes  d’outro  nenhures  *  

Nesta página: Tradução árabe do poema de António Ramos Rosa “Não posso adiar o amor para outro século”, in Ana Paula Coutinho Mendes (org.), “Poesia do século XX com António Ramos Rosa ao fundo”, 2005.

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stephen  batchelor  
“Mitologias  paralelas”e  “Tédio  e  violência”  

Este livro é para aqueles que, como eu, vivem nos intervalos de diferentes e por vezes incompatíveis mitologias – narrativas épicas que ajudam a conferir sentido à nossa breve vida na terra. Algumas destas mitologias tiveram a sua origem em lugares e tempos remotos, enquanto outras são uma criação do mundo moderno. Estes mitos que herdámos do passado, independentemente de terem tido a sua origem numa religião monoteísta, como o judaísmo ou o cristianismo, ou numa tradição não teísta, como o budismo, partilham a visão que a vida humana só é totalmente inteligível quando encarada como parte de um vasto drama cósmico que a transcende. Ambos comunicam uma crença fundada em poderes ocultos – o serem divinos ou kármicos é irrelevante –, responsável por nos terem lançado neste mundo para enfrentarmos a tarefa intimidadora de nos redimirmos para toda a eternidade. Os mitos da modernidade são de tal modo tangíveis que é difícil reconhecê-los como mitos. À semelhança das pessoas que vivendo em sociedades pré-modernas, cristãs ou budistas não encararam o seu mundo de forma mitológica, também nós somos incapazes de reconhecer as mitologias que sustentam o sentido da nossa existência e a natureza do universo em que vivemos. Um mito dominante da modernidade, que se impôs no Ocidente nos últimos dois séculos, é o que é fornecido pelo conhecimento científico do mundo. Tão completa é a sua explicação sobre as origens do universo e da vida, tão extraordinária é a sua capacidade de predição, tão espectacular é a tecnologia decorrente da compreensão física do mundo, que somos levados a rejeitar que haja algo de mítico nessa forma de conhecimento. Mesmo que aquilo em que acreditamos, com base no conhecimento científico, possa ser empiricamente verificável, tal não impede que não opere como mito. Por mais “verdade” que contenha a moderna visão do mundo, ela desempenha, presentemente, nas nossas vidas, uma função semelhante à visão dominante pré-científica das pessoas que viveram em culturas pré-modernas. Também a visão científica explica como é que a vida humana só se torna totalmente inteligível se a encararmos à luz da sua participação num vasto drama cósmico que a transcende. Também ela se fundamenta em crenças. Cremos que o universo explodiu a partir do nada há quinze biliões de anos; cremos que os humanos evoluíram a partir de formas primitivas de vida por efeito de uma selecção fortuita de mutações genéticas; cremos na existência de electrões e de quarks. Mas seremos capazes de demonstrar a verdade subjacente a qualquer uma destas proposições a alguém que não acredite nelas? O conhecimento humano é invariavelmente limitado e parcial. Por mais inteligente e melhor informada que uma pessoa seja, é muito pouco o que ela pode razoavelmente conhecer com total certeza. Tudo o que conhece é necessariamente mediado pelas suas faculdades, os seus sentidos, a sua razão, o seu cérebro. É-lhe impossível aceder a um estado não mediado, independentemente dos seus instrumentos de percepção e do seu organismo, a partir do qual possa verificar se o seu conhecimento não imediato corresponde à realidade em si. Por mais perfeita que seja a sua explanação, a realidade
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|)./  colaboradores      
    Maria do Sameiro BARROSO, nascida em Braga, licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Lisboa, é poeta, tradutora, ensaísta e investigadora. Integra os Corpos Sociais do P.E.N. Clube Português, desde 2009. Vencedora do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009, com o original Uma Ânfora no Horizonte, o seu último livro Poemas da Noite Incompleta foi publicado no Brasil, 2010.
Stephen BATCHELOR nasceu em Dundee, na Escócia, em 1953. Escritor budista, conhecido pela sua abordagem laica e agnóstica ao budismo. Através dos seus escritos, traduções e ensinamento, tem desenvolvido uma exploração crítica do papel do budismo no mundo moderno, o que lhe valeu tanto a condenação como herege, como os louvores enquanto reformador. Obras publicadas: The Jewel in the Lotus: A Guide to the Buddhist Traditions of Tibet, 1986; The Tibet Guide, 1987; The Faith to Doubt: Glimpses of Buddhist Uncertainty, 1990; Alone with Others: An Existential Approach to Buddhism, 1994; The Awakening of the West: The Encounter of Buddhism and Western Culture, 1994; Buddhism without Beliefs.,1998; Living with the Devil: A Meditation on Good and Evil. 2005; Confession of a Buddhist Atheist, 2010. http://www.stephenbatchelor.org José BIVAR. Presidente da APAAAssociação Portuguesa de Artistas Plásticos do Algarve. Paulo BORGES. Professor de Filosofia na Universidade de Lisboa. Últimas obras: O Budismo e a Natureza da Mente (com Matthieu Ricard e Carlos João Correia), 2005; Agostinho da Silva. Uma Antologia,
notasbio-­‐bibliográficas  

 

2006; Tempos de Ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, 2006; Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, 2006; Folia. Mistério de Pentecostes em três actos, 2007; O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (com Duarte Braga), 2007; Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, 2 vols., 2008; A Cada Instante Estamos A Tempo De Nunca Haver Nascido, 2008; Da Saudade como Via de Libertação, 2008; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, 2008; O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, 2008; Uma Visão Armilar do Mundo. A vocação universal de Portugal em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, 2010. Descobrir Buda, 2010; Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa (org.), 2010; Agostinho da Silva: Penseur, écrivain, éducateur (org., com Idelette Muzart-Fonseca dos Santos e José Manuel Esteves), 2010. O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu. Estudos e ensaios pessoanos, 2011. Presidente da União Budista Portuguesa e da Associação Agostinho da Silva. www.pauloborges.net Casimiro de BRITO. Poeta, romancista, contista e ensaísta. Nasceu no Algarve, em 1938, onde estudou (depois em Londres) e viveu até 1968. Após uns anos na Alemanha, passou a viver em Lisboa. Teve várias profissões, mas actualmente dedica-se exclusivamente à literatura. Começou a publicar em 1957 (Poemas da Solidão Imperfeita) e, desde então, publicou mais de 40 títulos. Dirigiu várias revistas literárias, entre elas Cadernos do Meio-Dia (com António Ramos Rosa), os Cadernos Outubro/ Fevereiro/ Novembro (com Gastão

 
Cruz) e Loreto 13(órgão da Associação Portuguesa de Escritores). Actualmente é responsável pela colaboração portuguesa na revista internacional Serta. Esteve ligado ao movimento Poesia 61, um dos mais importantes da poesia portuguesa do século XX. Ganhou vários prémios literários, entre eles o Prémio Internacional Versilia, de Viareggio, para a "Melhor obra completa de poesia", pela sua Ode & Ceia (1985), obra em que reuniu os seus primeiros dez livros de poesia. Colaboração em revistas de poesia, tendo obras suas incluídas em mais de 190 antologias, publicadas em vários países. Foi director de festivais internacionais de poesia de Lisboa, Porto Santo (Madeira) e Faro. Foi vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores, presidente da Association Européenne pour la Promotion de la Poésie, de Lovaina e presidente do P.E.N. Clube Português. Tem obras suas gravadas para a Library of the Congress, de Washington. Agraciado pela Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, com a medalha Oskar Nobiling por serviços distintos no campo da literatura — entre outras distinções, nomeadamente, em Portugal, a Ordem do Infante. Conselheiro da Associação Mundial de Haiku, de Tóquio. Nomeado “Embaixador Mundial da Paz” (Genebra, 2006). A Académie Mondiale de Poésie (da Fundação Martin Luther King), galardoou-o em 2002 com o primeiro Prémio Internacional de Poesia Leopold Sédar Senghor, pela sua carreira literária. Ganhou o Prémio Europeu de Poesia Aleramo-Mario Luzi, para o “Melhor Livro de Poesia Estrangeiro publicado em Itália em 2004” e o “Poeteka” na Albânia. Tem traduzido poesia de várias línguas, sobretudo do japonês, e está traduzido em vinte e cinco língua. http://casimirodebrito.no.sapo.pt Maria João FERNANDES, Crítica de arte (A.I.C.A. Associação Internacional de Críticos de Arte), ensaísta e poeta tem desenvolvido, há já mais de vinte anos, um diálogo com a obra de arte. Como professora universitária, dedicou-se ao estudo da antropologia do imaginário, aplicada tanto à literatura, como às artes plásticas, duas expressões sempre presentes na sua reflexão e na sua escrita. O seu livro de poesia Dias de Seda - Jours de Soie, (2003), que inclui catorze originais de Júlio Resende, foi prefaciado por Robert Bréchon e Eugénio Lisboa. Prepara a publicação dos livros de poesia: Lettera Amorosa e Deusa da Transparência, ambos com prefácio de Robert Bréchon. Em 2010 foi proposta para o Prémio Pessoa, pela Presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes, Emília Nadal, representando esta associação, e por Eduardo Lourenço. António CÂNDIDO FRANCO editou no final do século XX obras de Francisco Palma Dias, Paulo (Alexandre Esteves) Borges, Paulo Brito e Abreu e João Carlos Raposo Nunes. Projectou com o poeta Fernando Botto Semedo uma antilogia da “Finistérrica Geração”, que não se concretizou. Retomava no agora a actividade, e com gosto redobrado, se para tanto houvesse atenção e meios, com vistas a dar à luz a poesia de Donis de Frol Guilhade. Quanto aos livros que escreveu e escreve, não atribui ao acto em si, de escrever, mais importância, mas também não menos, do que ao acto de respirar (ao qual se pode e deve acrescentar todos os outros que lhe são vitais). Reconhece a verdade da verdade do Velho da Palhavã: a única estrada de fortuna é a vagabundagem social, moral e política. Maria Teresa DIAS FURTADO é Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Concluiu a Licenciatura em Filologia Germânica com uma tese sobre Paul Celan e doutorou-se em Literatura Alemã com uma dissertação sobre Hölderlin. Lecciona Literatura Alemã e Tradução Literária do Alemão. Tem publicado artigos da sua especialidade, bem como sobre Poesia Portuguesa Contemporânea. Deu à estampa várias traduções de algumas obras de Hölderlin e Rilke, acompanhadas de prefácios de sua

 
autoria. Publicou em 2002 um diálogo poético com António Ramos Rosa intitulado O Alvor do Mundo e, em 2007, a colectânea de poesia Livro de Ritmos. Rui Miguel FÉLIX. Professor freelancer na área das Ciências da Terra e da Vida, Ajudante de Veterinária, Actor profissional de Teatro e Projeccionista, tem vindo a desenvolver uma abordagem de cariz experimental no campo das artes visuais. Autodidacta nesta área específica de criação, explora ambientes virtuais e desenho digital, fotografia de instinto, fotografia documental e, em apoio panorâmico, composições fotográficas de grande formato. Também a Poesia e a Escrita livre são o que considera ser os grandes parceiros para o seu projecto, à descoberta da 'forma misteriosa que se estabelece e se revela sob a pele das formas visíveis'. http://www.banhosdecinza.blogspot.com http://www.behance.net/rmfelix José VALLE DE FIGUEIREDO. Nasceu em Tondela (1942), licenciado em História, publicou: As Cinco Regras do Equilíbrio (1959); A Poesia Animada (1969); Poemavra (1970); Antologia da Poesia Brasileira (org.) (1970); Gradual (1974); Portuguesimentos (1977); O Provedor de Vivos (1988); As Três Perfeições (2002); O Seu a Seu Poema (2006). É director do Centro de Estudos Tomaz Ribeiro (Tondela) e dos Cadernos de Cultura "Dom Jaime", órgão do CETR. Donis de FROL GUILHADE não existe. Ainda não nascera, e já não era: alguém não é, que alguém conheça. Ele, ninguém - o coisa nenhuma que algo seja no que se chame ele - nada anuncia e despede-se de tudo: por um tudo nada. Dum nada de que ninguém sabe tudo, nem nada. Ninguém verá, e a ninguém verá, quem de si não viu o que ninguém lhe veja. Há um ausir como de aceno de que n’alguém, que pode ter sido ou não, esteja em alguma qualquer parte, apenas porque assim é o que não é: sem já nem ainda – quando muito, nunca. O que dele se leia, há-de tresler-se-lhe: para que, quando se nos lesse, tal qual se não leia. Quando pareça aparecer, tão-só se lhe vê uma brisa - que lhe afaga e esbofeteia quanto incontém - deixada antes de haver passado, e de passado haver fé assim. Não publica: força-se ao avesso – é disso que há rasto, onde haja havido anverso e um verso disso. É sempre des-terro do que não tem terra natal, nem afinal final. O futuro persegue-lhe a saudade, o passado há-de ser-lhe. O presente parece não ser-lhe, nem outra coisa qualquer. Quando nem se der alguém conta - que ninguém dará - será ido: que não veio. Sem agora que o haja ou que o valha. Para nunca: desde sempre. Qual nunca foi, jamais não será. Qual nunca veio, sempre nunca virá. Qual rocha, de vento e mar: por defeito e, outrossim, de feito. Qual de-functo: de frol será. Guilhade, guilha de: d’Onix, donis. O mais - que é (o) menos, se o haja - silêncio é. E mais não há d’O que seja. (H)ei-l’O: ali, ond’Eli, Uax’Allah. Om Iaô. Donis é tão-só nome de cego. De tanto (não) ver. E pede se lhe perdoe tão mudo falar. Dirk-Michael HENNRICH, nascido na Alemanha, é Mestre em Filosofia, tradutor e autor de artigos, ensaios, aforismos e poesia em alemão e português. Vive em Lisboa onde é doutorando em Filosofia na Universidade de Lisboa. Tem várias publicações em diários e revistas na Alemanha, Suíça, Portugal e Brasil. Manuela JUSTINO Nasceu em Castelo Novo/ Castelo Branco. Em 1975 licenciouse em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Desde 1970 que se dedicou à investigação e prática de tapeçaria. Executou peças de grandes dimensões, quer por encomenda, quer na prática lectiva, uma das quais serviu, em 1981, de tema para o cartaz de divulgação da XII Conferência Permanente dos Ministros Europeus de Educação. Em 1970, iniciou a sua carreira de docente. Em 19871988, esteve destacada no Ministério da Educação - Centro de Recursos do Ensino

 
Integrado, onde participou em projectos para crianças do ensino especial. Actualmente, é professora efectiva de Educação Visual, 3º Ciclo, na Escola Maria de Sá Carneiro. A sua carreira como artística plástica, no campo da tapeçaria, fotografia, desenho e pintura tem mais de 30 anos. http://manuelajustino.no.sapo.pt Agripina COSTA MARQUES (n. 1929), poetisa portuguesa, mulher do poeta António Ramos Rosa. Publicou: Rotações (em colaboração), 1991; O Centro Interno, idem, 1993; Ciclos, Instantes Permanência, 1993; Diário Intermitente, Fragmentos, 1996; Ciclos, Fragmentos, Idades, 1998, Sonhos, 2000; Participação na Antologia Os dias do Amor, 2009. Ana Paula COUTINHO MENDES. Nascida no Porto, em 1965, é Professora Associada no Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem publicados vários artigos em Portugal e no estrangeiro tanto sobre questões de literatura comparada como sobre poesia contemporânea. Sobre a Obra de António Ramos Rosa, além de estudos vários em revistas, publicou os seus livros: Antologia Poética de António Ramos Rosa, António Ramos Rosa – Mediação Crítica e Criação Poética; O Poeta na Rua – Antologia Portátil de António Ramos Rosa; Poesia do Século XX com António Ramos Rosa ao Fundo, FLUP-edita, 2005; António Ramos Rosa, Voz Consonante. Traduções de Poesia [Prefácio, organização e notas de Ana Paula Coutinho Mendes]. É também autora de uma Fotobiografia do poeta com título: António Ramos Rosa: Imagens do Caminho das Palavras e dos Afectos, 2005. Tiago NENÉ (Tavira, 1982) é um poeta e tradutor de poesia português. Publicou em 2007 o livro Versos Nus (Magna) e em 2010 lançou Polishop. Está representado em numerosos jornais, revistas e antologias literárias. Criou a associação Linguagem de Cálculo com o escritor Fernando Esteves Pinto, instituição que se dedica à produção cultural, nomeadamente a edição de livros. Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, exerce advocacia no Algarve. José MACHADO PAIS. Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Professor Convidado do ISCTE/IUL. Foi Professor Visitante em várias universidades europeias e sul-americanas. Tem dirigido projectos internacionais europeus em vários domínios das Ciências Sociais. Coordenou o Observatório Permanente da Juventude Portuguesa e o Observatório das Actividades Culturais. Foi Director da revista Análise Social e da editora Imprensa de Ciências Sociais. Página Pessoal: http://www.josemachado-pais.net Luís Filipe PEREIRA. Licenciado em Literatura Francesa; Licenciado e PósGraduado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; PósGraduado em Criações Literárias Contemporâneas; Mestre em Teoria da Literatura; em 2007 defendeu a dissertação de mestrado, na Universidade de Évora, com o título: A Invenção do Espaço em António Ramos Rosa. Para uma intra-ontologia poética da espacialidade em diálogo com Maurice Merleau-Ponty. Como escritor, tem colaborado (com poemas, contos, ensaios, recensões críticas) em variegadas publicações nacionais e estrangeiras; tem prefaciado e posfaciado obras literárias; em 2008, publicou o livro de poesia A Tela do Mundo. Fernando ESTEVES PINTO nasceu em Cascais em 1961. Colaborou no DN Jovem (Diário de Notícias) e no Jornal de Letras. Em 1990 recebeu o Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura. Em 1998 obteve uma bolsa de criação literária pelo Ministério da Cultura/Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Livros publicados: Na Escrita e

 
no Rosto(poesia). Siete Planos Coreográficos (poesia). Ensaio Entre Portas (poesia). Conversas Terminais (romance). Sexo Entre Mentiras (romance). Privado (novela). Área Afectada (poesia). Brutal (romance). O Tempo que Falta (poesia). Luiz PIRES DOS REYS está convencido que é por uma infelicidade do acaso, ou por uma felicíssima coincidência, que existe rosto e rasto que de si persistam. Mais provável é não havê-los. Mas já que os há, apresenta-se de cabeça descoberta, olhar encoberto e de braços não caídos em si. Para não se apresentar desmazelado, apresenta-se sem mazelas /*/ Diz que estudou filosofia, até onde a suportou universitária, o que nós fazemos por acreditar; mas porque mais a encontrou, diz insistente e i-reverente, fora da escola e de certo escol, acabou alhures(um tanto distraidamente diga-se) urdindo apofasias, teologuismos e teologomenas de mais orientais – presume-se que mais orientadas –ortodoxias, o que serve igualmente para nada, como é mais do que demasiado evidente, mas, ainda assim, parece, não faz mal à saúde. Ainda bem. Mais vale a pena coisas inofensivas que se faz sem saber (porque, alfim, nada se sabe), do que ingenuamente fazer coisas que não valem nem a pena – ainda que se pense imaginar sabê-las. /*/ Após (um tanto esquecido de si) esquecíveis anos por outras (outramente laboriosas) paragens onde logrou dirigir, com marketing e tudo, um indigesto departamento numa multinacional de sujar papel para lixo publicitário, vê-se metido no embrulho deste assado de dar desígnio e design a uma exdrúxula revista com um nome agudamente grave. Bem feito! Para inteiro (des)tempero do caso, vai daí, o temerato director intima-o, incorrigível e plácido (como se ele se tratasse de um ser senciente de/da verdade), a aceitar conferir marca de alguma arte a cada página da dita. Que desdita, valha-nos Deus (que sabemos que não existe, mas Há)! /*/ Porque tem a mania que tem tisna judaica no sangue nalguma das guelras, e porque tem a certeza de haver em si moura e moçárabe miscigenia, farta-se de chorar a rir com os desaguisos entre irmãos abraâmicos. /*/ Anda desconfiado de que, apesar de tudo, é cristão (se bem que ainda demande saber o que isso lá seja), mas também de que ainda há-de ser o budista que sempre se achou, para (como um que se preze) vir dizer-nos que sê-lo é o não de nãosê-lo. Fez o mesmo com aquilo da orto-doxia, e não se deu mal – nem bem, aliás. /*/ Como lhe pediram seis linhas, fez mais do quíntuplo – só para ser o maçador do costume. Por igual motivo, fez esta nota disparatada: quanto ele, estará boa, portanto! /*/ Querem fazê-lo acreditar que seja Donis de Frol Guilhade. Mas ele – que mais acredita no que se não pode sequer acreditar – mais crê que tal seja verdade por ser tão quase impossível. Vozes do sem-tempo dizem-no outrossim sacerdotado, mas sabe ele que isso é coisa de que não há antes e depois de sê-lo: é-se de sempre, para nunca – o que assim o retira de tal suspeita, posto sabe ele sê-lo de nunca, para sempre nunca chegar a tal ser. Está, por fim, convencido de que o melhor é convencer-se de que é um humilde pretensioso, ao escrever uma nota desta extensão e jaez. Bem nos parecia! António RAMOS ROSA (Faro, 1924) viveu a sua juventude em Faro e radicou-se em Lisboa em 1962. Auto-didacta, o poeta foi professor e tradutor até se consagrar a tempo inteiro à poesia. A sua intensa actividade poética e crítica foi-se disseminando em projectos editoriais como as revistas de poesia Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia (de que foi codirector), bem como em diversos Jornais e revistas destacando-se os suplementos do DN, de A Capital, do JL e da Colóquio Letras. Distinguido com vários prémios literários nacionais e internacionais, o seu percurso e rigor poético foram reconhecidos com a atribuição do Prémio Pessoa em 1988, tendo-lhe sido ainda atribuídas as condecorações de Grande – Oficial da Ordem de Sant´iago de Espada e da Grã-Cruz da Ordem do Infante D.

 
Henrique, em 1984 e 1997, respectivamente. Em 2003 foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve e em 2005 recebe o Prémio Sophia de Mello Breyner, pela Câmara Municipal de São João da Madeira. A partir de 1980, inicia uma nova expressão do traço, para lá da escrita, o desenho de rostos e outros desenhos não figurativos, contando já diversas exposições individuais em várias galerias do país. Gisela Maria Gracias RAMOS ROSA (Maputo, 1964). Licenciou-se em Relações Internacionais e é Mestre em Relações Interculturais. A sua tese com o título Olhar a Diferença - Percurso antropológico pelas margens sociais, centrou-se na análise dos discursos sociais presentes nas imagens de um filme português para grandes audiências. Tem um livro publicado em conjunto com António Ramos Rosa - Vasos Comunicantes (diálogo poético) de 2006, e tem colaborado com poemas em várias antologias e revistas de poesia. É Perita em Documentos no Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária, em Lisboa. João RAPOSO (João Carlos Raposo Nunes) nasceu em Lisboa em 1958. Livreiro e alfarrabista. Publicou: Todo o Voo (que termina) Neste Corpo,1976; É Esta a Nossa Onda Gigante, 1977; 30 Haiku, 1977; O Rolar da Pedra, 1980; Flores Dispersas, 1986; Enviado ao Abandono, 1988 e Bulbul − Cânticos Arrábidos, 1990. A sua livraria, a UniVerso, em Setúbal, foi palco de memoráveis tertúlias poéticas, nas tardes de sábado. Dirigiu a página “Arca do Verbo” no jornal O Setubalense, que foi uma nova lufada de ar fresco na cultura da cidade sadina, durante vários anos. Foi deixando de publicar: não se sabe (ele também não) se deixou de escrever. Bruno Miguel RESENDE. 1981, escritor, dramaturgo, desenhador gráfico, cofundador com Fátima Vale dos “Spabilados Teatro Hedonista”. Bibliografia: subterfúgios, khaos poeticum, esquilia divinorum, descravidades. Digiografia: transmorphosys, porticulares, abysmo humano, revolta das palavras, molduríade, entre vês, varzea divinorum. Dramaturgia: elogios da embriaguez. http://www.spabilados.net Gonçalo SALVADO nasceu em 1967, em Lisboa. Licenciado em Filosofia, tem vindo a afirmar-se como um poeta exclusivo do amor. Publicou os seguintes livros de poesia: Quando (1996), Embriaguez (2001), Iridescências (2002), Duplo Esplendor (2008), Entre a Vinha (2010) e Corpo Todo (2010). Como antologiador publicou a transcriação: Camões Amor Somente (1999) e foi co-autor, com Maria João Fernandes, de Cerejas - Poemas de Amor de Autores Portugueses Contemporâneos (2004) e de Tarde Azul - Poemas de Amor de Saúl Dias Desenhos de Julio (2008). Carlos H. do Carmo SILVA, formação em Filosofia, Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa - Lisboa, tendo dado colaboração em outras Universidades, autor de numerosos estudos em áreas de Ontologia e Filosofia da Linguagem, também da Filosofia da Cultura, da Religião e da Mística. João Pedro SILVA. Comissário da Exposição Rostos da Escrita, organizada no Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa (Junho 2011). Nasceu em Lisboa, em 1977. Desenvolve uma actividade profissional que passa pela Arquitectura, Escultura e Design. Licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Vive a trabalha em Lisboa.joao-pedro-silva.blogspot.com João Rui DE SOUSA. Nasceu em Lisboa em 1928 e licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Co-dirigiu a revista Cassiopeia (1955), onde fez a sua estreia literária. Com colaboração poética, ensaística ou de crítica de poesia dispersa por jornais, revistas e volumes colectivos, estreou-se em livro em 1960. Integrou

 
vários júris literários, tendo apresentado livros de poesia de diversos autores, por vezes sob forma prefacial, tendo tido também responsabilidade na organização e apresentação de alguns volumes, entre os quais Fotobiografia de Fernando Pessoa (Biblioteca Nacional e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988), com prefácio de Eduardo Lourenço, e, com colaboração de Luís Amaro, Poesias Completas de Adolfo Casais Monteiro (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1993). Publicou as seguintes obras: Poesia – Circulação, 1960; A Hipérbole na Cidade, 1960; A Habitação dos Dias, 1962; Meditação em Samos, 1970; Corpo Terrestre, 1972; O Fogo Repartido (poesia reunida, com o inédito Respirar pela Água); Palavra Azul e Quando, 1991; Enquanto a Noite, a Folhagem, 1991; Sonetos de Cogitação e Êxtase, 1994; Obstinação do Corpo, 1996; Ensaio – Fernando Pessoa – Empregado de Escritório, 1985; Este Rio de Quatro Afluentes, 1988; António Ramos Rosa ou o Diálogo com o Universo, 1998. Estando incluído em
       

inúmeras antologias, reuniu a sua Obra Poética em 2002, à qual foram atribuídos os prémios da Associação Portuguesa de Críticos Literários e do Pen Clube Português. A um seu livro de poesia posterior, Quarteto para as próximas Chuvas (2008) foram atribuídos os prémios Teixeira de Pascoaes (CMA) e António Ramos Rosa (CMF). Fátima VALE. 1975, escritora, encenadora, actriz, co-fundadora com Bruno Miguel Resende dos “Spabilados Teatro Hedonista”. Bibliografia: azimute. Encenações: elogios da embriaguez; sexo, sim obrigado, carmen, a pequena notável; auto do curandeiro, etc. Actriz: milena de praga, teatro cómico, bodas de sangue, burguês fidalgo, elogios da embriaguez, frei luís de sousa, pranto de maria parda, etc. http://www.spabilados.net
 
         

É urgente inventar a simplicidade extrema de uma palavra viva e nua, a palavra do silêncio. * Não sentia necessidade de escrever. A [...]preocupação essencial era manter na presença a esfera do silêncio. * Às vagas de silêncio sucediam-se as vagas de silêncio e o corpo abria-se a si mesmo abrindo-se ao mundo e abrindo o mundo. António Ramos Rosa
   

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