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A Natureza da Razão e Seus Princípios

O documento discute a razão como capacidade intelectual e ética dos seres humanos. Apresenta diferentes perspectivas filosóficas sobre razão objetiva e subjetiva. Também aborda princípios racionais, modalidades da atividade racional como intuição e raciocínio, e formas de raciocínio como dedução, indução e abdução.
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A Natureza da Razão e Seus Princípios

O documento discute a razão como capacidade intelectual e ética dos seres humanos. Apresenta diferentes perspectivas filosóficas sobre razão objetiva e subjetiva. Também aborda princípios racionais, modalidades da atividade racional como intuição e raciocínio, e formas de raciocínio como dedução, indução e abdução.
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Razão

Razão e razões: os seres humanos como seres racionais

É muito célebre uma frase do filósofo Pascal (1623- -1662): “O coração tem razões que a
razão desconhece”.

Pascal afirma que o pensamento, ou conhecimento intelectual, é diferente das paixões e


dos sentimentos e que ela nem sempre pode explicá-los.

Para muitos filósofos, a razão não é apenas a capacidade intelectual e ética dos seres
humanos, mas também uma propriedade ou qualidade primordial das coisas. Para esses
filósofos, nossa razão pode conhecer a realidade porque esta é racional em si mesma.

Razão significa, neste sentido, a ordenação regulada e necessária das próprias coisas.
Fala-se, portanto, em razão objetiva (a realidade é racional em si mesma) e em razão
subjetiva (a razão é uma capacidade intelectual e ética dos seres humanos).

A razão objetiva é a afirmação de que o objeto do conhecimento ou a realidade é racional;


A razão subjetiva é a afirmação de que o sujeito do conhecimento e da ação é racional.

Para muitos filósofos, a filosofia é o momento do encontro, do acordo e da harmonia entre


as duas razões ou racionalidades.

Origem da palavra razão

Na cultura da chamada sociedade ocidental, a palavra razão origina-se de duas fontes: a


palavra latina ratio e a palavra grega lógos.

Ambas são substantivos derivados de dois verbos que têm um sentido muito parecido.
Lógos vem do verbo grego legein, que quer dizer ‘contar, reunir, juntar, calcular’. Ratio vem
do verbo latino reor, que quer dizer ‘contar, reunir, medir, juntar, separar, calcular’.

O que fazemos quando medimos, juntamos, separamos, contamos e calculamos?


Pensamos de modo ordenado. E que meios usamos para falar sobre essas ações? Usamos
palavras. Por isso, lógos, ratio ou razão significam pensar e falar ordenadamente, com
medida e proporção, de modo compreensível para outros.

Desde o começo da filosofia, a origem da palavra razão fez com que ela fosse considerada
oposta a quatro outras atitudes mentais:

1. ao conhecimento ilusório, isto é, ao conhecimento da mera aparência das coisas, que


não alcança a realidade ou a verdade delas;

2. às emoções, aos sentimentos, às paixões, que são cegos, caóticos, contrários uns aos
outros, ora dizendo “sim”, ora dizendo “não” a uma mesma coisa;

3. à crença religiosa, para a qual a verdade nos é dada pela fé numa revelação divina, não
dependendo do trabalho de conhecimento realizado pelo nosso intelecto;

4. ao êxtase místico (dos santos, dos profetas), no qual o espírito acredita entrar em relação
direta com o ser divino e participar dele, sem nenhuma intervenção nem do intelecto, nem
da vontade.
Os princípios racionais

Que princípios são esses?

1. Princípio da identidade, cujo enunciado pode parecer surpreendente: “A é A” ou “O que


é é”. Ele afirma que uma coisa só pode ser conhecida e pensada se for percebida e
conservada com sua identidade.

2. Princípio da não contradição (também conhecido como princípio da contradição), cujo


enunciado é “A é A e é impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação, não A”.

3. Princípio do terceiro excluído, cujo enunciado é: “Ou A é x ou não é x, e não há terceira


possibilidade”. Por exemplo: “Ou este homem é Sócrates ou não é Sócrates”; “Ou faremos
a guerra ou faremos a paz”. Esse princípio define a decisão de um dilema – “ou isto, ou
aquilo” –, no qual as duas alternativas são possíveis, e a solução exige que apenas uma
delas seja verdadeira.

4. Princípio da razão suficiente, que afirma que tudo o que existe e tudo o que acontece
tem uma razão (causa ou motivo) para existir ou para acontecer, e que tal razão pode ser
conhecida pela nossa razão. Esse princípio também costuma ser formulado da seguinte
maneira: “Nada é sem causa” ou “Tudo tem causa”. Pode ser enunciado da seguinte
maneira: “Dado A, necessariamente se dará B”. E também: “Dado B, necessariamente
houve A”.

Pelo que foi exposto, podemos observar algumas características importantes dos quatro
grandes princípios da razão:

◆ não têm um conteúdo determinado, isto é, indicam como as coisas devem ser pensadas,
mas não quais coisas ou quais conteúdos devemos ou vamos pensar;

◆ têm validade universal, isto é, onde houver razão (nos seres humanos e nas coisas, nos
fatos e nos acontecimentos), em todo tempo e em todo lugar, tais princípios são
verdadeiros e empregados por todos (os humanos) e obedecidos por todos (humanos,
coisas, fatos, acontecimentos);
◆ são necessários, isto é, indispensáveis para o pensamento, as coisas, os fatos e os
acontecimentos, de maneira que não podemos pensar racionalmente sem segui-los

As modalidades da atividade racional

A filosofia distingue duas grandes modalidades da atividade racional, realizadas pelo


sujeito do conhecimento: a intuição (ou razão intuitiva) e o raciocínio (ou razão
discursiva).

A intuição é uma compreensão completa e imediata de um objeto ou de um fato. Nela, de


uma só vez, a razão capta todas as relações que constituem a realidade e a verdade da
coisa intuída. É um ato intelectual de discernimento e compreensão, sem necessidade de
provas ou demonstrações para saber o que conhece.

Um exemplo seria um médico que, graças ao conjunto de conhecimentos que possui, vê


de uma só vez a doença, sua causa e o modo de tratá-la. Os psicólogos se referem à
intuição usando o termo inglês insight, que corresponde em português ao momento em
que dizemos: “Entendi!” ou “É isso!”

Tipos de intuição

A intuição racional pode ser de dois tipos: intuição sensível ou empírica e intuição
intelectual.

A intuição sensível ou empírica é o conhecimento que temos a todo momento de nossa


vida. Assim, com um só olhar percebemos uma casa, um homem, uma mulher, uma flor,
uma mesa.

A intuição intelectual difere da sensível justamente por sua universalidade e necessidade.


Quando penso: “Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo”, sei, sem
necessidade de demonstrações, que isto é verdade e que é necessário que seja sempre
assim, ou que é impossível que não seja sempre assim. Em outras palavras, tenho
conhecimento intuitivo do princípio da contradição como algo válido em todos os tempos
e lugares (é universal) e que não pode ser suprimido ou ser de outra maneira (é necessário).
Na história da filosofia, os dois exemplos mais célebres de intuição intelectual encontram-
se em Platão (século IV a.C.) e em Descartes (século XVII).

Mito da caverna

A narrativa do Mito da Caverna conta o que se passa com o prisioneiro que, ao sair da
escuridão da caverna, vê a luz do Sol e, em lugar de sombras, vê as próprias coisas. Nessa
alegoria, Platão compara o prisioneiro ao filósofo que, ao fazer o percurso do conhecimento
verdadeiro, vê a luz do Bem e contempla as ideias verdadeiras.

O prisioneiro tem uma intuição empírica (tudo o que conhece, conhece por sensação ou
por percepção sensorial) e o filósofo tem uma intuição intelectual (é seu intelecto ou sua
inteligência que conhece as ideias verdadeiras). No entanto, o conhecimento de ambos é
intuitivo porque é direto, imediato, sem necessidade de demonstrações, argumentos e
provas.

O cogito cartesiano

No cogito, mencionamos um trecho de uma obra do filósofo francês Descartes (1596-


1650), intitulada Discurso do método. Nele se encontra a intuição intelectual que ficou
conhecida como cogito cartesiano ou, simplesmente, o cogito.

Descartes escreve, em latim: “Cogito, ergo sum”, isto é, “Penso, logo existo”. cogito: em
latim, o verbo cogitare significa ‘pensar’. Cogito é a primeira pessoa do singular do presente
do indicativo: ‘eu penso’.

Por que essa afirmação é um conhecimento intuitivo? Porque, quando penso, sei que estou
pensando e não preciso provar ou demonstrar isso, mesmo porque provar e demonstrar é
pensar. Ora, para pensar é preciso que alguém realize o ato de pensamento; portanto,
aquele que pensa existe necessariamente como um ser pensante, pois, sem ele, não
haveria o próprio ato de pensar.

Por que essa intuição é intelectual? Porque é realizada exclusivamente pelo intelecto ou
pela inteligência, sem recorrer a nenhum conhecimento sensível ou sensorial. Quando
digo “Penso, logo existo”, afirmo racionalmente que sei que sou um ser pensante ou que
existo pensando, sem necessidade de provas e demonstrações. A intuição capta, num
único ato intelectual, a verdade do pensamento pensando em si mesmo

A razão discursiva: dedução, indução e abdução

Ao contrário da intuição, o raciocínio é o conhecimento que exige provas e demonstrações


e se realiza igualmente por meio de provas e demonstrações das verdades que estão sendo
conhecidas ou investigadas. Não é só um ato intelectual, mas são vários atos intelectuais
ligados ou conectados, formando um processo de conhecimento.

Quando, porém, um raciocínio se realiza em condições tais que a individualidade


psicológica do sujeito e a singularidade do objeto são substituídas por critérios de
generalidade e universalidade, temos a dedução, a indução e a abdução.

A dedução

A dedução consiste em partir de uma verdade já conhecida e que funciona como um


princípio geral ao qual se subordinam todos os casos que serão demonstrados a partir dela.
Na dedução demonstra-se que uma verdade já conhecida se aplica a todos os casos
particulares iguais. Por isso também se diz que a dedução vai do geral ao particular ou do
universal ao individual.

A indução

A indução realiza um caminho exatamente inverso ao da dedução. Com a indução,


partimos de casos particulares iguais ou semelhantes e procuramos a lei, definição ou
teoria geral que explica e subordina todos esses casos particulares. A definição ou a teoria
são obtidas no ponto final do percurso.

A abdução

O filósofo estadunidense Peirce (1839-1914) considera que a razão discursiva ou raciocínio


também se realiza numa terceira modalidade de inferência, embora esta não seja
propriamente demonstrativa. Essa terceira modalidade é a abdução.

A abdução é uma espécie de intuição, mas que não se dá de uma só vez, indo passo a passo
para chegar a uma conclusão. A abdução é a busca de uma conclusão pela interpretação
racional de sinais, de indícios, de signos. O exemplo mais simples oferecido por Peirce para
explicar o que é a abdução é o modo como os detetives, nos contos policiais, vão coletando
indícios e sinais e formando uma teoria para o caso que investigam.

Segundo Peirce, a abdução é a forma que a razão possui quando inicia o estudo de um novo
campo científico que ainda não havia sido abordado. Ela se assemelha à intuição do artista
e à adivinhação do detetive, que, antes de iniciarem seus trabalhos, só contam com pistas
a seguir. Os historiadores costumam usar a abdução.

Realismo x idealismo

Chama-se realismo a posição filosófica que afirma a existência da razão objetiva.

O idealismo afirma apenas a existência da razão subjetiva.

A ciência contemporânea tende a combinar a posição realista e a idealista.

Essas duas concepções estão presentes na Química orgânica, por exemplo. Por um lado,
essa ciência realiza experimentos e medições da massa das substâncias, procedimentos
que pressupõem a existência de coisas em si passíveis de conhecimento por meio da
experiência ou observação direta dos fenômenos.

Por outro, a Química orgânica desenvolve suas teorias por meio de hipóteses que lhe
permitem construir modelos puramente teóricos dos objetos, dado que as leis que regem
um fenômeno às vezes não podem ser diretamente observadas na própria realidade.

A razão na filosofia contemporânea: continuidade ou descontinuidade?

Continuidade

Nos anos 1950 e 1960, os filósofos da Escola de Frankfurt ou Teoria Crítica consideraram
que existem duas modalidades da razão.

Para Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973) e Herbert Marcuse (1898-
1979), os usos da técnica pelo regime nazista alemão e pelas Forças Armadas
estadunidenses no lançamento de bombas atômicas sobre o Japão seriam consequências
da razão instrumental ou razão técnico-científica, que está a serviço da exploração e da
dominação, da opressão e da violência.

Já a razão crítica ou filosófica reflete sobre as contradições e os conflitos sociais e


políticos e se apresenta como uma força liberadora.

A Teoria Crítica afirma que existe a continuidade temporal ou histórica entre as formas da
racionalidade: cada expressão histórica da razão não surge de repente e do nada, mas
resulta de contradições teóricas e conflitos sociopolíticos anteriores que pedem uma nova
solução. Cada nova forma da racionalidade é a vitória sobre os conflitos das formas
anteriores, sem que haja ruptura histórica entre elas.

Mudanças sociais, políticas e culturais determinam mudanças teóricas no pensamento, e


tais mudanças são a solução realizada pelo tempo presente para seus conflitos e
contradições.

Descontinuidade

A partir dos anos 1960, desenvolveu-se, sobretudo na França, uma corrente científica
chamada estruturalismo. Para os estruturalistas, o mais importante não é a mudança ou a
transformação de uma realidade (de uma língua, de uma sociedade, de uma teoria
científica), mas a estrutura ou a forma que ela tem no presente.

A estrutura passada e a estrutura futura são consideradas diferentes entre si e diferentes


da estrutura presente, sem que se possa dizer que são a continuação modificada do
passado. Como as outras manifestações humanas, também a razão se realiza em formas
diferentes e descontínuas.

Ao estudarem a história da filosofia, das ciências, da sociedade, das artes e das técnicas,
filósofos franceses influenciados pelo estruturalismo, como Michel Foucault (1926-1984),
Jacques Derrida (1930- -2004) e Gilles Deleuze (1925-1995), afirmaram que sim, a razão é
histórica. No entanto, essa história não é progressiva e contínua. Pelo contrário, é
descontínua, realiza-se por saltos, e cada estrutura nova da razão possui um sentido
próprio, válido apenas para ela.

Não há como dizer que as ideias e as teorias passadas são falsas, erradas ou atrasadas:
elas simplesmente são diferentes das atuais porque se baseiam em princípios,
interpretações e conceitos novos.

O primeiro critério de avaliação da capacidade racional é o da coerência interna de um


pensamento ou de uma teoria. Ou seja, quando um pensamento ou uma teoria se propõem
a oferecer um conhecimento, simultaneamente oferecem os princípios, os conceitos e os
procedimentos que sustentam a explicação apresentada.

A razão é, assim, o critério de que dispomos para a avaliação ou o julgamento da validade


de um pensamento ou de uma teoria. Além disso, a razão nos permite saber se um
pensamento ou uma teoria contribuem ou não para que os seres humanos conheçam e
compreendam as circunstâncias em que vivem; se contribuem ou não para alterar
situações inaceitáveis ou intoleráveis; se contribuem ou não para melhorar as condições
em que os seres humanos vivem.

Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar os conhecimentos, é também um


instrumento crítico para compreendermos as circunstâncias em que vivemos, para mudá-
las ou melhorá-las. A razão tem um potencial ativo ou transformador e, por isso,
continuamos a falar nela e a desejá-la.

Questionário

1. Qual a diferença entre a razão intuitiva e a razão discursiva?

2. O que é a intuição? Caracterize cada tipo de intuição e dê um novo exemplo para cada
um deles.

3. Qual é a relação entre intuição intelectual e o pensar segundo a concepção de


Descartes? O que é o cogito cartesiano?

4. Dê um exemplo novo de raciocínio empírico e o distinga da intuição.

5. Como se realiza a indução? Dê um exemplo novo.

6. O que é inferência? Qual a diferença entre a inferência dedutiva e a inferência indutiva?

7. O que é abdução? Exemplifique com uma história de detetive que você conhece.

8. Qual é a relação entre o realismo e a ideia de razão objetiva?


9. Qual é a relação entre o idealismo e a ideia de razão subjetiva?

10. Dê um exemplo de uma ciência que opere combinando o realismo e o idealismo.


Justifique.

11. Qual é a diferença entre as concepções continuísta e descontinuísta da razão?


Encontre um exemplo que confirme cada uma delas. 12. Sintetize, em suas palavras, qual
é o valor da razão.

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