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SAMIZDAT

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10
novembro
2008

ficina

EMILY
DICKINSON
uma vida e obra repleta
de lirismo e melancolia
SAMIZDAT 10
novembro de 2008

Edição, Capa e Diagramação: Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada


Henry Alfred Bugalho a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Todas as imagens publicadas são de domínio público ou
Autores royalty free.
Carlos Alberto Barros As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira res-
Dênis Moura ponsabilidades de seus autores ou tradutores.
Giselle Natsu Sato
Guilherme Rodrigues
Henry Alfred Bugalho
Editorial
Joaquim Bispo
José Espírito Santo
Após uma edição especial de Terror, na qual os autores
Marcia Szajnbok
puderam explorar o bizarro e o macabro, esta décima edição
Maria de Fátima Santos
da SAMIZDAT é bem mais lírica.: com um número recor-
Maristela Scheuer Deves
de de poemas, com as traduções de dois grandes autores da
Pedro Faria Nova Inglaterra — Emily Dickinson e Robert Frost — e al-
Volmar Camargo Junior guns poemas do mestre da Literatura Brasileira, Machado de
Zulmar Lopes Assis, cujo centenário da morte se celebra neste ano.

Também a partir desta edição contamos com a partici-


Textos de:
pação de dois novos integrantes: Dênis Moura e Maristela
Emily Dickinson Scheuer Deves, que prometem enriquecer ainda mais a diver-
Machado de Assis sidade deste grupo.
Robert Frost

Henry Alfred Bugalho


Imagem da capa:
http://www.flickr.com/photos/
totemik/2376276117/sizes/l/

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Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Rui Zink 8

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 12
Denis da Cruz 13
Volmar Camargo Junior 14

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Esmagado pelo Sistema 16
Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


Machado de Assis, Poeta 18

CONTOS
Companhia Limitada 22
Volmar Camargo Junior
O Paradoxo da Morte 24
Henry Alfred Bugalho
Toque de Saída 28
Joaquim Bispo
O Gato Jeremias 32
Maria de Fátima Santos

Reencontro 34
Guilherme Rodrigues
Pastel de Vento 36
Zulmar Lopes
Encontro com Joaquim Maria 38
Giselle Natsu Sato
As Noivas de Preto 42
Maristela Scheuer Deves

TRADUÇÃO
A Estrada não Percorrida 46
Robert Frost
Poemas de Emily Dickinson 48

TEORIA LITERÁRIA
Você conhece o indriso? 52
Volmar Camargo Junior
A Atualidade do Conto 54
Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
Angústias Urbanas 56
Giselle Natsu Sato
Novas Tendências 57
Joaquim Bispo

POESIA
Náufrago 58
Marcia Szajnbok
Lua-Sol-Eu 59
Guilherme Rodrigues

Poemas 60
Maria de Fátima Santos

Laboratório Póetico 62
Volmar Camargo Junior
Esquecimento 63
Volmar Camargo Junior
Três Poesias 64
José Espírito Santo
Poemas 65
Pedro Faria
Ninfa 66
Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 67

SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista.
Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários.
Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Rese-
nha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convi-
dado.
Escreva-nos para:
revistasamizdat@hotmail.com
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiram,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprirmir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exenplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6 SAMIZDAT agosto de 2008


6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substitua
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido Ao serem obrigados a bur-
pelo mercado. larem a indústria cultural, os Enfim, “Samizdat” porque a
autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- o ­diálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Entrevista

RUI ZINK
Assisti a um vídeo seu favor. Só peca por tímida.
num programa (creio Quero que os meus filhos
que seja de televisão), possam viajar pelo mundo
chamado Sempre em Pé, em português e ganhem
no qual você compara a dinheiro falando português.
atuação do professor com Isso só é possível graças ao
o fazer stand up comedy. Brasil, desde há mais de um
No Brasil há muito dis- século o nosso maior em-
so, de o professor “atuar” baixador.
em escolas particulares e
nos chamados “cursinhos
pré-vestibular”. A minha Um aluno ou um escritor
pergunta é a seguinte: em início de carreira de-
o professor, o bom pro- vem ser penalizados por
fessor, é o que dá mais escrever com pontuação
prioridade ao “o que” incorrecta, mas a mesma
ensina, ou o que prioriza que é usada por escrito-
o “como” ensina? Há um res aclamados como Lobo
meio-termo para isso? Antunes?
Rui Zink (Lisboa, 1961) é um R. Z.: Sim, um aluno deve
Rui Zink: Há uma infini-
escritor português com extensa ser penalizado. Primeiro
dade de meios-termos. O
e variada obra publicada de bom professor começa dominar as regras, depois
que salienta os romances Hotel por compreender quem é quebrá-las. Lobo Antunes,
Lusitano (1987), Apocalipse e adaptar a panóplia de tal como antes dele Joyce,
Nau (1996), O Suplente (1999) métodos disponíveis – mui- Faulkner, Guimarães Rosa,
e Os Surfistas (2001), e os livros tos deles contraditórios – à Raymond Queneau, etc.,
de contos A Realidade Agora a sua personalidade. A regra domina-as com mestria. O
Cores (1988) e Homens-Aranhas é parecida com a escrita: eu caso dum escritor é dife-
(1994). Lança o seu último ro- faço o que posso, não o que rente do de um aluno, mas
mance, O Destino Turístico, em quero ou gostava de fazer. qual o interesse de escrever
finais deste Outubro. Recebeu o Sem comunicação eficaz “tal e qual” outro escritor?
Prémio do P.E.N. Clube Portu- não há aprendizagem, sem Escritor, para mim, é aque-
guês pelo romance Dávida Divi- nada para dizer também le que cumpre o ditado:
na (2004), e tem representado o não. Mas uma antecede a “Quem conta um conto
outra. Preciso de saber se os acrescenta um ponto.” Tudo
país em eventos como a Bienal
interlocutores entendem o o mais é redundante. E, sim,
de São Paulo, a Feira do Livro
que digo antes de começar a maioria dos nossos tele-
de Tóquio ou o Edimburgh Book escritores são nesse sentido
Festival. Professor universitário, a dizer, né?
redundantes. Porque se
é dado como o introdutor dos limitam a pisar caminho
cursos de escrita criativa em Você é professor, escritor trilhado, a pôr os pés nas
Portugal. e leitor em Língua Portu- marcas alheias, tanto no
guesa. Qual é a sua opi- que dizem como no modo
nião sobre a nova reforma como dizem.
Mais informações no seu site: ortográfica?
http://ruizink.com/
R. Z.: Sou inteiramente a

8 SAMIZDAT agosto
julho de
de2008
2008
8
O que o fez iniciar os lixos calhamaços. Mas a bons e quem achar o con-
cursos de escrita criativa? busca da palavra exacta trário (a começar pelos pró-
R. Z.: A poetisa Ana Ha- parece-me tão aconselhável prios) está lamentavelmente
therly, minha mentora, sabia como a busca da nota certa. equivocado. Mas eu próprio
que eu tinha estado nos Senão somos como aquele gosto de ler maus livros, tal
EUA e me interessava pelo aluno a quem o professor como há bons autores que
assunto. E desafiou-me a pediu quanto eram 2+2 e não me convenço a ler.
fazer isso com alunos da que responde 3, 4, 5, 6, 7,
[Universidade] Nova, em 8, 9, e fica espantado por
chumbar, já que deu a res- Uma história construída
1991. Acredito que o jogo com o objectivo de trans-
com as palavras e as ideias posta certa.
mitir uma ideia política,
pode ajudar as pessoas a filosófica ou científica
tornarem-se melhores escri- Um escritor principiante pode ser boa literatura?
tores do que eram e, sobre- deve ousar experimentar Como?
tudo, melhores leitores. novas estruturas narra- R. Z.: Pode. É o caso de
tivas ou deve ater-se às Gonçalo M. Tavares, Musil,
É possível aprender a ser consagradas pela literatu- Brecht, Soeiro Pereira Go-
escritor, ou seja, é possí- ra? mes. Mas é raro.
vel estudar para sê-lo? Há R. Z.: E porque não ambas?
“técnicas” para isso? Com peso e medida umas
vezes, sem peso nem medi- Quando acha que al-
R. Z.: É possível aprender guém escreve muito bem,
e apreender técnicas, tal da outras.
aconselha-o a continuar
como é possível aprender a a escrever, ou a publicar?
tocar piano ou a pintar ou Ter um “estilo próprio” Ou seja, para si, é a escri-
a dançar. Naturalmente que é coisa a acalentar como ta que deve ser incentiva-
dar o passo extra depende virtude ou é um vício de da ou a publicação?
de algo que não se pode escrita a combater?
ensinar e que a pessoa tem R. Z.: A escrita é íntima,
ou não em bruto dentro R. Z.: É um objectivo a a publicação não. Se acho
dela. Mas o treino, a técnica acarinhar. Mas não ser- que uma pessoa tem talen-
e a teimosia ajudam, e não ve de nada pensar muito to para cantar, aconselho-a
há artista digno desse nome nisso. Ou se chega ou não tentar gravar um disco, pois
sem nenhuma destas três se chega. Só é escritor, para é simpático partilhar. Além
coisas. mim, quem alcança uma de que, publicando e tendo
voz própria. eco (aplausos, bombons,
dinheiro), a pessoa tem in-
Qual é o seu primeiro centivo para trabalhar mais
conselho a um aspirante a Existe má literatura? Que e crescer.
escritor? critério tem para dizer
que um texto é boa ou
R. Z.: Ler e copiar, copiar má literatura? Prosperar na carreira de
muito. E, já agora, viver. escritor é uma questão de
R. Z.: Sim, existe. Aquela
que maltrata a linguagem talento, sorte ou persis-
Concorda com o apelo à ou se limita a reproduzir tência?
concisão de Saul Bellow? ideias e frases gastas de tan- R. Z.: Depende do que se
Onde termina uma nar- to uso. Margarida ­Rebelo entende por “prosperar”. De
rativa literária concisa Pinto, José Rodrigues dos qualquer modo, uma conju-
e começa uma listagem Santos e Miguel Sousa Ta- gação das três ajuda sem-
de frases ligadas por um vares não são (até à data) pre. Não há receitas.
mesmo tema? bons escritores, o que não
R. Z.: Boa questão. Obvia- significa que os seus li-
vros não entretenham nem Ao escrever, o que o
mente o apelo de Bellow decide a optar por um
tem uma batota: ele fê-lo desmereçam de ser lidos ou
comprados. Mas não são conto ou por um roman-
depois de ter escrito pro- ce: o tamanho da história

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a contar; a intensidade ção de que o escritor não e tem a dentição completa,
pretendida; ou o quê? fazia ideia do que estava a só comê papinha c’a mamã
R. Z.: O tempo que eu acho falar e nos soaram a falso, dá.
que a história pede. O não é?
Bicho da Escrita não aguen- Ultimamente têm proli-
tava mais de oito páginas,
Após o sucesso de O Có- ferado nas livrarias, pelo
embora pudesse ser estica-
digo Da Vinci, multipli- menos do Brasil, os ro-
do por duzentas. O Destino
caram-se as obras sobre mances ambientados em
Turístico exige uma leitura
“mistérios” ligados a sei- culturas bem distintas da
prolongada – sobretudo umtas, escondidos pela Igreja nossa, com destaque para
longo primeiro capítulo ou por antigas irmanda- as histórias que se pas-
(que vai até metade do livro
des. Esse filão não acaba sam em países de maioria
e dura tanto como os dozepor tornar-se repetitivo? muçulmana. Isso se deve
seguintes). Os escritores estão escre- à natural curiosidade
vendo sobre para com o que é diferen-
isso ape- te do que conhecemos? É
A leitura é um prolongamento, por nas porque um modismo? Ou faltam
letras, de um acto que fazemos viram que bons livros ambientados
desde o nascimento até à morte: tem leitura no Brasil/Portugal?
ou porque R. Z.: Nihil obstat, desde
ler o mundo, ler os sinais, unir os temas que o autor tenha dado o
os pontos no desenho, não para atuais estão seu melhor. Um autor é
esgotados?
atingir o desenho que o autor livre de escrever sobre o
R. Z.: Quem que quiser com o seu tem-
imaginou, mas um outro, sempre não quer ser po livre. E uma pessoa não
um outro. papagaio não escreve sobre o que quer,
lhe vista a escreve sobre o que pode.
pele. Há assuntos sobre os quais
eu gostava de versejar, mas
Na sinopse que você mes- sinto/sei que não consigo.
mo dá (foi você mesmo?) Existe mesmo uma indús- Felizmente, com sorte, apa-
ao livro Homens-Aranha, tria cultural que controla rece sempre alguém que o
você menciona o fato de os destinos do mundo ca- faz melhor.
que “as melhores histó- pitalista, ou isso é intriga
rias” são as que ao autor da oposição? Independen-
não é necessário inven- te de existir ou não, em Em mais de 100 anos de
tar nada. Há quem diga, um cenário de poucos lei- Prêmio Nobel, apenas um
embora não recorde quem tores (como o Brasil), é vá- único autor de língua
o diga, que a literatura lido que se leia porcarias portuguesa foi laureado.
não deve ser autobiográfi- desde que se esteja lendo? A que você atribui esta
ca. Até onde a “vida real” Ou é isso que “eles” que- indiferença global em re-
deve ser a massa da fic- rem que pensemos? lação aos autores lusófo-
ção? R. Z.: Comer um hambúr- nos? É uma questão quali-
guer é melhor que não co- tativa, lingüística, política
R. Z.: Tal como eu não pos- ou o quê?
so pintar a cor verde com mer, ou mesmo que comer
tinta vermelha, também não caviar podre. Mas obvia- R. Z.: Os suecos são um
posso imaginar sem ser a mente que a leitura que me povo maravilhoso, mas não
partir da pessoa que sou e ajuda a crescer como leitor encontrei nenhuma passa-
fui. O que somos é a ma- pode, um dia, já só servir gem da Bíblia onde diga:
téria-prima a utilizar, mas para me impedir de crescer. “E a Academia Sueca dirá
obviamente que é apenas Isto tanto funciona para os qual é o melhor escritor
o trampolim, não o salto. livros de entretenimento do mundo.” Obviamente a
E todos nós já lemos livros como para a papa Nestlé. limitação é deles, que lêem
em que tivemos a percep- É triste se um adulto pleno, poucas línguas, e a vergo-
que já não vive com a mãe nha é para eles, não para

10 SAMIZDAT agosto
julho de
de2008
2008
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Guimarães Rosa, Clarisse R. Z.: Prefiro sinergias a
Lispector, Jorge Amado, Lígia adaptações. Mas tenho o
Fagundes Telles, João Cabral maior respeito por todas
de Melo Neto, Drummond essas formas, de que sou
de Andrade, Moacyr Scliar, consumidor – e, de muitos
Rubem Fonseca… autores, admirador.

O que falta e o que sobra Qual a resposta à pergun-


na ficção contemporâ- ta que uma comunidade
nea, em geral, e na ficção de escritores principian-
contemporânea em língua tes ou/e pouco conheci-
portuguesa, em particu- dos devia ter feito, mas
lar? não fez?
R. Z.: Sobra truque barato R. Z.: A resposta à pergun-
para agarrar o leitor, sobre- ta só pode, obviamente, ser
tudo a leitora, falta algum uma pergunta: “Qual o sen-
trabalho crítico sobre a lin- tido do dito ‘ler é escrever,
guagem. Os escritores não escrever é ler’?” A leitura
podem cair na armadilha é um prolongamento, por
de dizer o que acham que letras, de um acto que faze-
o leitor quer ouvir – isso é mos desde o nascimento até
tarefa de político. à morte: ler o mundo, ler
os sinais, unir os pontos no
desenho, não para atingir o
O que reserva o futuro ao desenho que o autor imagi-
mercado editorial? O li- nou, mas um outro, sempre
vro impresso está “conde- um outro.
nado” a desaparecer? Des-
membrando a pergunta:
qual é a sua visão sobre o
fenômeno da publicação
on-line?
R. Z.: Nada contra o online,
excepto o facto de não re-
ceber a minha percentagem,
à qual eu tenho direito,
pois não roubei ninguém
e filhos tenho só dois. Há Coordenador da entrevista:
espaço para ambos, mas as Joaquim Bispo
gerações futuras não vão
ter o “amor ao papel” que
quem nasceu no meio do Perguntas feitas por:
século passado tem. Nada
de grave. Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo
Que pensa de adaptações Maria de Fátima Santos
para outras mídias – coi-
sa que parece ter ficado Maristela Scheuer Deves
tão comum ultimamente:
literatura para o cinema, Volmar Camargo Junior
quadrinhos (aqui) ou ban-
da desenhada (aí) para o
cinema, true stories para
o cinema?

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Microcontos

Presente de Natal
Henry Alfred Bugalho

O menino desembrulhou o presente.


— E aí, filhão, gostou?
— Eu queria o azul! — e foi brincar com as bolas
coloridas da árvore.

Neurótica
Henry Alfred Bugalho

Matou o marido com uma escova-de-dentes.

Autoconhecimento
Henry Alfred Bugalho

Partiu para a Índia em busca de si mesmo, mas só


encontrou uma intoxicação alimentar.

12 SAMIZDAT agosto de 2008


12
Vontade de Mandar
Denis da Cruz

Rui não conseguia que a esposa obedecesse suas


ordens.
Então, teve dois filhos, pois assim poderia mandar
neles.
Hoje, sua prole tem 14 e 16 anos e nunca foram
­obedientes.

Quero te dizer que te amo


Denis da Cruz

Minha querida esposa, eu queria dizer que... ah? Aca-


bou o gás? Claro, claro, vou pedir outro. Eu queria...
O quê? A pia tá entupida? Certo, eu já arrumo, mas
antes queria dizer que... Meus sapatos? Eu não podia
entrar no quarto com os sapatos? Ah sim, perdão,
mas saiba que... Hoje cedo? Uma toalha molhada
sobre a cama? Sim, era minha, perdão... Mas, por
favor, deixe eu dizer que eu te... Eu esqueci de novo
de abaixar a tampa da privada? Que coisa importan-
te, né? Sempre me esqueço dessas coisas importantes,
nao é? ... Ah, claro, igual quando deixo camisa pen-
durada pela casa, cueca tirada toda do avesso, esque-
ço de tirar o chinelo de andar dentro de casa para
andar fora e de o de andar fora para entrar dentro
de casa. Perdão... Mas eu queria dizer... queria dizer...
Bem... Querida esposa, VÁ À MERDA...

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Microcontos

Colóquios entre Roedores,


ou não Volmar Camargo Junior

Coelho — E aí, rato! Como andam os


processos contra as empresas?
Rato — Contra a dos computadores eu
ganhei ano passado. Mas difícil mesmo
está contra a dos desenhos animados.
Os advogados deles são umas cobras. E
tu, coelhinho, conseguiu alguma coisa
da revista?
Coelho — Nada. Quer dizer, consegui o
telefone de umas gatas...

Rato — Mas e então, coelhinho... como


é a experiência de pôr ovos de páscoa?
Coelho — EU NÃO PONHO OVOS!!!

Coelho — Vem cá. Eu rôo as coisas


muito mais que você, e não sou roedor.
Como é que pode?
Rato — A mídia pode acabar com a re-
putação das pessoas. Não vê o caso dos
morcegos? Viveram séculos alegando
que eram ratos com asas.

14 SAMIZDAT agosto de 2008


14
Rato — Tá vendo aquele pombo? Odeio pombos.
Coelho — Por quê? São tão bonitinhos.
Rato — São uns porcos, isso sim! Imagina que trans-
mitem muito mais doenças que nós, e as pessoas
jogam milho pra eles na praça.

Coelho — To me sentindo tão estranho... Tipo um


vazio, sabe?
Rato — Coitado. Se alimentou direito?
http://www.flickr.com/photos/53366513@N00/67046506/sizes/l/

Coelho — Sim.
Rato — Tá com problemas no trabalho?
Coelho — Não.
Rato — Doença na família?
Coelho — Nada.
Rato — Grana?
Coelho — Nem.
Rato — O que é então? Coelho? Coelho? Por que tá
me olhando assim?
Coelho — É que você tem umas orelhinhas tão sexy...
http://www.flickr.com/photos/seandreilinger/446822124/sizes/o/

Rato — Er... O que que há, velhinho?


Coelho — Odeio essa piada.

Rato — Sabia que o melhor amigo do Bambi era um


coelho?
Coelho — E você, sabia que os ratos são os animais
geneticamente mais parecidos com os seres humanos?
Rato — Tá. Já chega. Você não sabe brincar.

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Recomendações de Leitura

Esmagado
pelo Sistema
Henry Alfred Bugalho

16 SAMIZDAT agosto de 2008


16
O segundo romance de da Alemanha. No seminário, — a última é de 1974. Mas a
Hermann Hesse, Debaixo das ele conhece Hermann Heilner, escola continua e continuará
Rodas, é conhecido como o Outro de Hans, um poeta exercendo sua função discipli-
sendo a biografia intelectual indomável. Juntos eles desa- natória, e permanecerá como
do autor. fiam a instituição e se tornam uma das instâncias de estrati-
objeto das reprimendas dos ficação social.
Hermann Hesse foi um superiores.
iconoclasta. Ainda jovem, ele
fugiu do seminário no qual No entanto, Hans Gieben-
estudava, pondo um fim a rath não possui a fibra neces-
uma promissora carreira na sária para suportar a rígida
área acadêmica. Tornou-se disciplina, ele é esmagado pelo
livreiro e passou a investir em sistema, é atropelado pelas
sua carreira literária. Publicou rodas da instituição.
o primeiro romance, Peter
Camenzind, aos vinte e seis Hermann Hesse parece
anos e se tornou uma celebri- prenunciar a grande tema que
dade instantânea. Fortemente ocuparia os intelectuais estru-
influenciado pelo budismo, turalistas da geração de 68:
Hesse viajou pela Ásia, visi- o espaço da escola enquanto
tou o Sri Lanka e a Indonésia. forma de dominação. Foucault
Relacionou-se com C. G. Jung e Althusser estão de acordo
e Thomas Mann. Recebeu quando afirmam que a escola
funciona como uma instância Debaixo das Rodas
em 1946 o prêmio Nobel de
Literatura e se converteu num disciplinar, e que no interior Autor: Hermann Hesse
dos grandes autores alemães da estrutura educacional se
de todos os tempos. Esta breve reproduz um esquema que Editora: Civilização
fortalece a sistema de classes
­Brasileira
biografia é apenas a súmula
duma vida de luta contra os — educação melhor para quem Publicação: 1971
ideais burgueses ocidentais. possui maior poder aquisitivo,
e uma educação pior para o
Este segundo romance, proletariado. Hans Giebenrath
Debaixo das Rodas (Unterm tem a oportunidade de estu-
Rad), está longe da maturi- dar numa escola de elite, mas,
dade obtida em Sidarta, O mesmo assim, a instituição é
Lobo da Estepe ou O Jogo das representada como castradora.
Contas de Vidro. Hermann Os alunos são estimulados a
Hesse ainda busca sua voz, sua seguirem as regras, enquanto
identidade, e o faz ao refletir que a criatividade e esponta-
sobre seu passado e sobre sua neidade são tolhidas.
primeira grande ruptura com
a sociedade. Para Hans Giebenrath, a
solução é a morte; para Hesse,
O protagonista do romance, a solução foi a fuga.
Hans Giebenrath, é um espe-
lho do jovem Hesse, um rapaz Estranhamente, este é dos
promissor aceito por uma das poucos romances de Hesse
melhores escolas secundaristas que não possui edição recente

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Autor em Língua Portuguesa

Machado de Assis
POETA
Marcia Szajnbok
Machado de Assis dispensa apresentação.
Neste ano, centenário de sua morte, muito se
tem comentado na imprensa, tanto sobre o
homem, quanto sobre sua extensa obra. Dela
fazem parte alguns dos melhores textos em
prosa já produzidos em língua portuguesa.
Seus contos e romances são leitura obrigató-
ria, quer nas lições do colégio, quer por gosto
da literatura. Escritor completo, entretanto,
Machado de Assis não escreveu apenas pro-
sa. Há também teatro e poesia, gêneros aos
quais não se dedicou tanto, o que nem por
isso lhe diminui a qualidade de suas produ-
ções.
Classificam-se, em geral, os textos macha-
dianos num primeiro momento, romântico,
que inclui Helena, Ressureição, Iaiá Garcia, e
num segundo, por vezes considerado realista,
por vezes inclassificável, onde estão as obras
que se lhe consideram primas, como Dom
Casmurro e Memórias Póstumas de Brás
Cubas, entre tantas outras. Se classificar os
textos em prosa já suscita discussões, no que
que, em síntese, toda poesia carrega em si:
tange à sua poesia as classificações são ainda
a possibilidade de produzir no leitor, por
menos precisas. Que os primeiros poemas
uma combinação mágica de forma e conte-
enquadram-se bem nos cânones do romantis-
údo, um frêmito, uma emoção, um estado de
mo, não há dúvida. Mas seus temas passam
alma. Eis aqui uma pequena amostra desse
pelo indianismo, e sua forma, mais tardia,
aspecto menos popularizado, do texto de
se aproxima dos parnasianos. Independente
Machado de Assis:
dessas questões acadêmicas, o que Machado
de Assis nos traz com seus versos é aquilo

18 SAMIZDAT agosto de 2008


18
MUSA CONSOLATRIX

Que a mão do tempo e o hálito dos homens


Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,


Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,


E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
(Crisálidas, 1864)

www.samizdat-pt.blogspot.com 19
LUA NOVA E um ancião, que a saudara já muitos,
Muitos dias: “Jaci, doce amada,
Dá que seja mais longa a jornada,
Mãe dos frutos, Jaci, no alto espaço
Dá que eu possa saudar-te o nascer,
Ei-la assoma serena e indecisa:
Quando o filho do filho, que hei visto
Sopro é dela esta lânguida brisa
Triunfar de inimigo execrando,
Que sussurra na terra e no mar.
Possa as pontas de um arco dobrando
Não se mira nas águas do rio,
Contra os arcos contrários vencer.”
Nem as ervas do campo branqueia;
Vaga e incerta ela vem, como a idéia
E eles riam os fortes guerreiros,
Que inda apenas começa a espontar.
E as donzelas e esposas cantavam,
E eram risos que d’alma brotavam,
E iam todos; guerreiros, donzelas,
E eram cantos de paz e de amor.
Velhos, moços, as redes deixavam;
Rude peito criado nas brenhas,
Rudes gritos na aldeia soavam,
— Rude embora, — terreno é propício;
Vivos olhos fugiam p’ra o céu:
Que onde o gérmen lançou benefício
Iam vê-la, Jaci, mãe dos frutos,
Brota, enfolha, verdeja, abre em flor.
Que, entre um grupo de brancas estrelas,
(Americanas, 1875)
Mal cintila: nem pôde vencê-las,
Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.

E um guerreiro: “Jaci, doce amada,


Retempera-me as forças; não veja
Olho adverso, na dura peleja,
Este braço já frouxo cair.
Vibre a seta, que ao longe derruba
MUNDO INTERIOR
Tajaçu, que roncando caminha;
Nem lhe escape serpente daninha,
Nem lhe fuja pesado tapir.” Ouço que a Natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
E uma virgem: “Jaci, doce amada, Uma escala de luz, uma escala de vida
Dobra os galhos, carrega esses ramos De sol à ínfima luzerna.
Do arvoredo coas frutas que damos
Aos valentes guerreiros, que eu vou Ouço que a natureza, — a natureza externa,

A buscá-los na mata sombria,
Tem o olhar que namora, e o gesto que
Por trazê-los ao moço prudente,
intimida
Que venceu tanta guerra valente,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
E estes olhos consigo levou.”
Entre as flores da bela Armida.

20 SAMIZDAT agosto de 2008


20
E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,


E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.
(Ocidentais, 1901)

TRAVESSA Em uma noite de amor;


Como no véu que se agita
De beleza adormecida
Ai; por Deus, por vida minha
A brisa mole e sentida!
Como és travessa e louquinha!
Gosto de ti — gosto tanto
Foi por ver-te assim — travessa
Dessa tua travessura
Que eu pus a minha esperança
Que não me dera o meu encanto,
No imaginar de criança
Que não dera o meu gostar,
Dessa formosa cabeça...
Nem por estrelas do céu.
Foi por ver-te assim — Que os sonhos
Nem por pérolas ao mar!
Eu sei como os tens eu sei.
Alma toda de quimeras
Puros, lindos e risonhos.
Que acordou no paraíso
Um coração novo e calmo
Vinda do leito de Deus;
Onde a lei do amor — é lei;
E que rivais de teus olhos
Foi por ver-te assim, que eu venho
Só tens dois olhos — os teus!
Pôr em ti as fantasias
Pareces mesmo criança
De meus peregrinos dias.
Que só vive e se alimenta
Como a esperança no céu:
De luz, amor e esperança.
Em ti só, que és tão louquinha,
Ave sem medo à tormenta
Em ti só pôr a minha vida!
Que salta e palpita e ri,
As travessas primaveras
(in Poesias Dispersas, pub. original O Espelho,
Assentam tão bem em ti! 18 dez. 1859)
Assentam sim, como as asas
Assentam no beija-flor, fonte dos textos: http://portal.mec.gov.br/in-
Como o delírio dos beijos dex.php?option=com_content&task=view&id=
11300&Itemid=1338&sistemas=1

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Contos

COMPANHIA LIMITADA
Volmar Camargo Junior
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22 SAMIZDAT agosto de 2008


22
João Barros, engenheiro arrebentado e a camisa en- qualquer coisa que pro-
civil, levou seu currículo a sopada de sangue deixou do porcionasse prazer. Certa
uma empreiteira. escritório batendo a porta. noite, guiando seu esportivo,
Ao pisar na rua, ligou para o embrenhou-se na zona de to-
No primeiro dia de tra- advogado da família. lerância. Distraído, pensando
balho, o chefe mandou-o se queria uma companheira
descarregar uma caçamba “Quero tirar até as meias ou duas, atropelou alguém.
de areia, carregar cinqüenta desse corno!”
sacos de cimento, empilhar Desceu.
dez milheiros de tijolos fura- Em todas as instâncias,
após todos os recursos, — Você está bem? – per-
dos e, antes do fim da tarde,
cumpriu-se a justiça. Venceu guntou sem obter resposta.
devia lavar as ferramentas.
Indignado, João Barros pediu João Barros.
Ligou para a emergência, e
demissão. no mesmo instante ouviu-se
a sirene à distância. Abai-
— Não estudei quinze O ex-chefe precisou xou-se para sentir a pulsação
anos para trabalhar de ser- vender a empreiteira para do indivíduo. Pondo-lhe os
vente de pedreiro. pagar a indenização. Vol- dedos no pescoço, olhou pela
— Entendo... mas os meus tou a ser pedreiro. Rodou a primeira vez para o rosto da
pedreiros trabalham aqui há cidade procurando trabalho. vítima. Não teve dúvidas. Era
mais tempo que isso. Em todos os edifícios em o ex-chefe.
andamento havia a placa de
— O azar é deles. Se puder uma nova construtora, “João- A ambulância chegou em
fazer o favor de devolver de-Barro Engenharia & Cia. poucos minutos. Os para-
meu currículo... Ltda”. E o ex-chefe foi recusa- médicos encontraram, esten-
do em todas as obras. dido no asfalto, um homem
— Assinou um contrato, morto, vítima de atropela-
rapaz. É meu funcionário, e João Barros fez a empresa mento. Estava completamente
não quero demiti-lo. Agora triplicar seu capital. Em pou- nu.
volte para a obra e só retor- co tempo, estava muito rico.
ne aqui quando tiver calos A cidade virou um canteiro
nas mãos. de obras. Prefeito, Governa-
dor, até Ministro contratou a A sensação de vazio
Então ignorou a presença “João-de-Barro Engenharia & nunca mais incomodou Dr.
de João Barros voltando para Cia. Ltda” para obras públi- Barros.
a planilha sobre a mesa. O cas. Pastores, padres e pais-
engenheiro vociferou. de-santo mandaram erguer
— Vou botar você na justi- novos templos. Veio para o
ça, filho-da-puta. local uma emissora de tele-
visão, um jornal de grande
O chefe levantou-se de- circulação, e um estúdio de
vagar. Serenamente, andou cinema. A cidade cresceu. E
até João com o currículo João virou Dr. Barros.
na destra, e, com a canhota,
desferiu-lhe um murro na Mesmo bem sucedido, Dr.
cara. Jogou o papel aos pés Barros não era feliz. Sofria
do rapaz. com um vazio inexplicável.
Como compensação, gra-
João Barros com o nariz tificava a si mesmo com

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Contos

O Paradoxo da Morte
Henry Alfred Bugalho
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24 SAMIZDAT agosto de 2008


24
— Lisa quer sair para fazer Maria no chão da cozinha, — É algo sério?
cocô, querido — era verdade, mergulhada em sangue.
a cachorrinha estava chei- — Bem sério, mas tudo vai
rando a coleira, dependurada Antônio se ajoelhou na ficar bem. Confie em mim.
perto do interfone. poça, segurando a cabeça da
esposa, murmurando frases Os paramédicos chegaram
Antônio coçou a barri- sem sentido como: e logo constataram que não
ga roliça e peluda, botou o podiam fazer nada. A polícia
controle remoto de lado e, — Tudo vai ficar bem, também apareceu, isolou o
sôfrego, se levantou. Maria amor. local e fez perguntas a Antô-
fazia as unhas na cozinha, pé nio. O rabecão do IML levou
— A polícia já está chegan- o corpo.
apoiado na cadeira, algodão do.
entre os dedos. Por ser uma cena de cri-
— Amanhã é aniversário me, Antônio foi autorizado a
— Estou indo — ele vestiu da Juliana, você não pode nos
uma camiseta e calçou as juntar apenas uma muda de
deixar. roupas e a cachorra. Passou
Havaianas. Engatou a guia na
vira-lata e saiu, Mas a mulher já estava pela casa de Rafaela, para
morta, a polícia ainda não conversar com Juliana.
— Vou deixar a porta aber- havia sido chamada e a festa
ta, ‘tá? Já voltamos. — Como a mãe está?
de aniversário da filha teria
— Só não deixe Lisa mijar de ser adiada indefinidamen- — Amanhã você vai vê-la,
em frente à pizzaria. O dono te. Lisa uivava, pranteando a Ju. Temos de ser fortes... —
me deu uma bronca ontem. dona falecida. ele abraçou a filha, beijou-lhe
a fronte — Durma aqui hoje
— Lisa vai mijar onde qui- Antônio consultou o à noite. Estarei na casa da tia
ser — Antônio riu, fechando relógio, em meia hora, Julia- Paula. Se precisar de alguma
a porta. na chegaria da aula de balé. coisa, ligue.
Ligou para a emergência,
Estava quente, um pouco chorando, repetia que mulher De fato, na casa da irmã,
nublado, mas um mormaço não estava respirando, deu Antônio só deixou a trau-
de matar. Por isso, Antônio endereço, telefone, sem muita matizada cadelinha e voltou
resolveu dar uma voltinha clareza, sem muita certeza para a cena do crime. Subiu
expressa, só ao redor do se estava passando os dados até seu andar e refez todos
quarteirão. Lisa fez xixi na corretamente. Em seguida, seus passos, do momento
frente da pizzaria, cocô num ligou para a polícia, relatou em que saiu da casa, deu a
canteiro perto da esquina. o assassinato, e conjeturou volta no quarteirão, e retor-
Iniciaram o caminho de que o criminoso talvez ainda nou ao apartamento. Tentou
volta. estivesse nas redondezas. Por rememorar qualquer imagem
fim, ligou para o celular da inusitada, ou pessoa estranha
Lisa tentou brigar com filha. entrando ou saindo do pré-
um buldogue no elevador, a dio. Mas nada.
vizinha gostosa ria, achando — O que aconteceu, pai?
graça na peleja, o buldogue O ideal seria aguardar a
babava, sem achar graça — Ju, um acidente. Sua perícia policial.
alguma. Ao sair do elevador, mãe não está nada bem. Vá
Antônio reparou que a porta para a casa da Rafaela e fique Mas a polícia também não
estava entreaberta. Lisa latia, lá até eu te ligar, mais tarde, tinha nenhuma conclusão
em desespero. Encontrou OK? satisfatória, sem digitais, sem
quaisquer indícios de arrom-

www.samizdat-pt.blogspot.com 25
bamento (é óbvio, a porta mas após se encontrar, possi- Antes, Antônio roncando,
estava aberta), sem testemu- velmente no plano astral, com Maria se masturbando em
nhas, sem suspeitos, ou seja, um demônio, abandonou to- silêncio.
de antemão, um crime inso- das as crenças na imortalida-
lúvel. de da alma, em reencarnação, Antônio abriu os olhos,
e todas estas bobajadas que donde lágrimas escorriam.
Este tipo de resposta ja- não passavam de devaneios O sol nascia pela persiana
mais satisfaria Antônio. Sua da mente. da janela da sala; olhou ao
mulher foi assassinada, porra! seu redor, e a cozinha esta-
O mínimo que ele queria Mas que não eram deva- va diferente de quando ele
era pôr as mãos no culpa- neios porcaria nenhuma. havia chegado; a mancha no
do, e que ele apodrecesse na chão havia desaparecido. Ele
cadeia! Ouvindo sua respiração, se levantou, caminhou até o
livrando-se dos pensamentos, quarto e gentilmente abriu a
Naquela manhã, Juliana aquietando a angústia de seu porta, ele e Maria dormiam.
viu o cadáver da mãe, chorou coração, Antônio começou
muito. Implorou ao pai que a voltar, mentalmente, no Não era sua mente que
descobrisse quem era o as- tempo. havia voltado no tempo
sassino, ele jurou que o faria, apenas, era ele, em pessoa,
abraçaram-se. Uma hora atrás, a poça no que havia voltado. O coração
chão. de Antônio saltou no peito.
Maria foi velada, vieram Estava aí uma oportunidade
parentes de longe, primos, Duas horas atrás, a poça
no chão. não somente para descobrir o
tios, pai, mãe; pãozinho assassino, como para também
francês com margarina sendo Um dia atrás, a poça no evitar o crime.
mastigado na copa da casa chão.
funerária, piadas sussurradas Ele tinha de descobrir um
pelos cantos, rezas sobre a Dois dias atrás, ele, ao lado lugar para se esconder naque-
morta. Maria foi sepultada, da esposa morta. le apartamento minúsculo.
os parentes voltaram para
Minutos antes, Maria, Lembrou-se que Juliana
suas cidades, Juliana pra casa
esvaindo-se em sangue, ago- sairia de casa antes que ele
da tia Paula, e Antônio para
nizando. e Maria deixassem o quarto.
seu apartamento, tentar cum-
prir com o que prometera à Por isto, sentou-se em silên-
Antes, um homem, mas-
filha. cio na sala, pegou um livro
carado, luvas, faca na mão,
com capa reluzente (nunca
degolando Maria.
Perto da mesa de jantar, sequer havia sido folheado
aquela mancha negra, sangue Antes, ele, pondo a guia antes) e fingiu ler.
coagulado; Antônio se deitou em Lisa e saindo.
sobre ela, na mesma posição A porta do quarto de
em que encontrou a esposa; Antes, ele, coçando o saco Juliana se abriu e a menina
cerrou as pálpebras, respirou diante da TV. saiu, pijamas e remelas:
fundo. Há vinte anos não fa- — Nossa, pai, você está len-
Antes, o casal almoçando.
zia isto, desde quando era um do? E nestas horas da manhã!
adolescente, crente em tudo Antes, Juliana saindo de
que era esotérico ou místico. casa para ir ao balé. — Sempre há hora para
Havia praticado meditação, se começar a criar o hábito.
ioga e aspirado ao nirvana. Antes, Maria e Antônio se Talvez você também devesse
Teve experiências estranhas, espreguiçando na cama. tentar.

26 SAMIZDAT agosto de 2008


26
— Sai fora, pai! — Juliana Antônio na sala de levan- sangue escorreu. Num malfa-
riu, e desapareceu no banhei- tou, preguiçoso; Antônio, es- dado golpe, Antônio atingiu
ro, xixizinho e escovar de condido no quarto, encostou o ombro do assassino, este
dentes. o ouvido na porta; Antônio respondeu metendo a faca no
pôs a guia na cadela, saía. bucho de Antônio. Ele caiu; o
A menina se trocou e saiu, assassino fugiu.
bolsa com vestido e sapati- — Vou deixar a porta
lhas a tiracolo. aberta, ‘tá? Já voltamos — dis- Antônio, agonizando,
se Antônio. abraçou Maria, agonizando.
— Tchau, pai, te amo! Morreram, juntos.
Maria pediu que Antônio
— Eu também, Ju, se cuida. não deixasse Lisa mijar em
Aproveitou e se atocaiou frente à pizzaria, Antônio
respondeu que ela mijaria Antônio volta do rápi-
no quarto da filha, ele e a do passeio com Lisa, abre a
esposa nunca entravam lá, onde quisesse. Saiu.
porta e encontra dois corpos,
então, seria um bom escon- Antônio, no quarto da um da sua esposa, o outro,
derijo para aguardar até o filha, abriu uma fresta na dele mesmo.
momento do crime. Conferiu porta. Agora, vinha a questão,
o relógio, faltava bastante o assassino estava armado, Desaba a chorar, mas não
tempo ainda. ele, mãos nuas. Percorreu o sabe se pela esposa morta, ou
quarto de Juliana à procura se por ver-se morto estando
Olhou pela janela, o mun- vivo.
do corria normalmente lá duma arma: o porquinho de
fora, o tempo em seu ritmo moedas? Não! Os patins rol-
normal, realmente não era ler? Não! A raquete de tênis?
devaneio, Antônio havia vol- Aí estávamos começando a
tado. Ele sorriu. conversar.

Ouviu ruídos na cozinha, Antônio se pôs à espreita,


Maria preparava o almoço. raquete na mão, aguardando
A televisão foi ligada, era ele o momento certo.
assistindo TV. Ruído de ta- Alguém entrou no aparta-
lheres, almoçavam. Arroto na mento.
sala, era Antônio coçando o
saco. Lisa acordou, raspava na — Amor, já voltou? — Ma-
porta do quarto de Juliana. ria perguntou da cozinha.

— Amor, o que a Lisa quer O bandido botou a faca no


ali? — Antônio perguntou. pescoço de Maria:

— Não sei. Dá um biscoi- — Não grita não, moça! É


to que ela esquece — dito e só abrir as pernas, é rapidi-
feito, Lisa não mais arranhou nho.
a porta.
Enfurecido, Antônio correu
Alguns minutos depois, para fora do quarto, raquete
Antônio ouviu a voz de Ma- pronta para atingir a cabeça
ria falando para Antônio: do bandido.

— Lisa quer sair para fazer O criminoso deslizou a


cocô, querido. faca no pescoço de Maria,

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Contos

Toque de
Saída Joaquim Bispo

28 SAMIZDAT agosto de 2008


28
Quando o telemóvel emi- depois de quase três meses – De que escola terá
tiu o trinado de nova men- sem se encontrarem. Só os vindo? – perguntou Mariana,
sagem, Susana saltou para o diferentes planos dos pais as sem esperar resposta. «Que
agarrar e sentiu o coração separavam. As férias fami- idade terá?», pensou Susana.
acelerar-se. Se este não a liares levavam-nas sempre
para sítios díspares. Susana Mais nervosas ficaram
enganava, o toque festivo
começara por ir à terra do quando confirmaram que o
prenunciava que iria ser a
pai, lá para as Beiras e de- rapagão iria ficar na mesma
rapariga mais feliz da turma.
pois estivera em Armação turma.
Nessa manhã, regressara de Pêra quase um mês. Lá, Nas apresentações da aula
à escola para iniciar o 8º encontrou os amigos de ou- de Português B, ficaram a
ano. Longe de o sentir como tros anos e teve umas férias saber que se chamava Filipe
uma maçada, a perspectiva divertidas, mas estas duas e que tinha quinze anos. No
de rever as amigas fizera-a eram especiais. Já as tinha intervalo seguinte, ficaram a
saltar da cama cheia de por amigas desde o primeiro espiá-lo pelo canto do olho
entusiasmo. Não foi pre- ano. Se uma se atrasava, as e quando ele se aproximou
ciso a mãe insistir para se outras duas esperavam para puderam ver-lhe o dourado
levantar. Tomou duche de entrarem as três na sala de dos olhos cor de mel. Tro-
um jacto e vestiu-se a correr. aula ao mesmo tempo. Iam caram piadas e números de
Irritou-se por não encontrar juntas ao centro comercial, telemóvel. Filipe era muito
um soutien completamente ao cinema, e a um ou outro divertido, com um sentido de
confortável. Estavam todos a concerto, mas com o apoio humor estimulante. E já ti-
deixar de servir. Escolheu um logístico dos pais. nha mudado a voz, o que era
vestido rosa por sobre umas
Depois das primeiras tro- um progresso no timbre das
calças de ganga e os ténis
cas de novidades de viva voz, conversas do grupo. Parecia
azuis. Deu um pouco mais
que por telemóvel já tinham que tinham passado de nível
de tempo ao cabelo, sempre
feito o resumo, passaram ao neste jogo real.
solto sobre os ombros. A
mãe torceu o nariz à escolha encontro com outros cole- Quando, ao jantar, o tele-
da roupa, enquanto ela engo- gas. Cada nova entrada era móvel retiniu em tom festivo,
lia uma tigela de flocos. Pôs uma festa. Beijos, abraços e Susana agarrou-o com nervo-
três cadernos e uma caixa gritos. O que mais surpre- sismo e tão atabalhoadamen-
de esferográficas na mochila endeu Susana, neste regresso te que se lhe escapou da mão
e desceu as escadas rapida- à escola, foi o ar tão - como e caiu, separando-se a tampa
mente. Gostou de sentir no dizer? - infantil dos colegas e a bateria. Voltou a montá-
rosto, outra vez, o ar fresco rapazes. Parecia que, em vez lo e leu a nova mensagem:
da manhã. Vieram-lhe à me- de crescerem, ficavam mais
mória as recordações de sons pequenos. E continuavam kurti bue falar kntg kerx ir
e cheiros de outras manhãs com as conversas parvas oh xinema xabad?
de outros anos escolares. Era do costume. Felizmente que
Reparando na agitação da
bom voltar à escola. havia novos ingressos. Um
filha, a mãe perguntou-lhe:
deles era alto, cabelo preto e
http://www.flickr.com/photos/damonabnormal/2421745547/sizes/o/

Aos dez para as oito, uma postura de grande auto- – O que é que se passa,
estava a cruzar o portão confiança. Riram-se as três, Susana?
da escola. A Mariana já lá nervosamente, quando ele
estava. Quando chegou a olhou de longe para elas. Al- – Nada, mãe, foi a Catari-
Catarina, abraçaram-se as gumas perguntas percorriam na que nos arranjou bilhetes
três, pulando e gritando de o íntimo de cada uma. para ir ver o Harry Potter no
alegria. Era tão bom revê-las,

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sábado. Posso ir? ga. Virou-se de barriga para não digas nada as colegas.
baixo e deixou as lágrimas
Susana ficou sem saber se escorrer para a colcha. Sen- Com um convite destes,
o rubor que lhe queimava a tia-se a rapariga mais infeliz não duvidava que Filipe
face era por ter mentido à do mundo. Logo agora, que arranjaria uma desculpa para
mãe, se por perceber que este pensava que iria viver um cancelar a sessão de cinema
ano escolar iria ser muito romance bonito. E magoava-a com a Mariana. E quando
diferente dos anteriores. que tivesse sido a própria ele ali chegasse no sábado, a
amiga a trai-la, mesmo sem imaginar uma tarde de «mar-
Com o pretexto de orga- melada», havia de as encon-
nizar os cadernos, foi para o o saber.
trar às três, a rir da cara dele,
quarto logo a seguir ao jantar Revoltada, pegou no tele- pelo logro em que caíra, e
e deitou-se em cima da cama móvel, alterou a identidade tudo acabaria em galhofa.
a imaginar como seria o para «anónimo», e escreveu:
sábado: o que levaria vestido, Ou não... Mais uma vez,
se ele lhe pegaria na mão, se Veja por onde anda a sua hesitou antes de enviar a
trocariam algum beijinho. filha. Sabe aonde ela vai saba- mensagem. Voltou a cabeça
Ele seria atrevido ou tímido? do? e encarou-se no espelho do
Hesitava na resposta: dizer roupeiro. Viu uma miúda,
que sim, sem mais, ou dizer Seleccionou o número apenas, a querer brincar aos
que ainda não sabia se podia de telemóvel da mãe da crescidos. E, não estava a
ir, para ter tempo de o ava- Mariana, mas hesitou antes gostar de se ver nestes papéis
liar melhor. Até podia dizer de enviar. Não podia fazer mesquinhos de adultos en-
que no dia seguinte falariam esta maldade à amiga. Ela cornados. Uma coisa eram as
sobre a ida ao cinema. não tinha culpa nenhuma e, histórias das telenovelas, ou-
mesmo que tivesse, era uma tra, as situações com pessoas
O telemóvel retiniu de amiga de muitos anos. Apa- reais. Apagou a mensagem e
novo e Susana, de novo, gou a mensagem, pensativa. escreveu:
saltou a apanhá-lo. Tinha a
certeza que era o Filipe, já Passado um bocado e Sabado não posso desculpa
impaciente. Mas não. Era aceite o fracasso, começou
a sentir que, vistas bem as Enviou a mensagem para
a Mariana. Feliz da vida,
coisas, até tinha sido útil não o Filipe, desligou o som do
porque o Filipe lhe tinha
ter respondido logo ao Filipe telemóvel e foi-se deitar que
enviado uma mensagem a
e ter, assim, percebido que no dia seguinte era mais um
convidá-la para ir ao cinema.
tipo de rapaz ele era. Uma dia de escola e queria che-
– Que bom, Mariana! E o ideia começou a germinar gar cedo para estar com os
que lhe vais dizer? – interes- na sua cabeça. Para alguma amigos. Todos.
sou-se Susana, com o tom coisa haviam de servir as te-
mais natural do mundo. lenovelas. Pegou no telemóvel
e escreveu:
– O que já disse. Que sim,
claro! Achas que eu ia dizer Eu ate gostava Filipe mas te-
que não? Vamos ver o Harry nho que ficar em casa porque
Potter ao centro comercial. os meus pais vao para fora e
eu tenho que tomar conta dos
Susana desculpou-se di- caes. Não queres vir tu ca a
zendo que tinha que ajudar casa? Vamos para o meu quar-
a mãe e acabou rapidamente to e vemos o senhor dos anéis
a conversa radiosa da ami- que eu saquei da net. Sim? Mas

30 SAMIZDAT agosto de 2008


30
ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um não-


lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como umas
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão c­ ultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
http://oficinaeditora.org/ a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

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Contos

Maria de Fátima Santos

O Gato Jeremias
Queria escrever-lhe. va, segurando o gato, num Nada nunca mais foi. Des-
Colocar uma folha de pa- fim de tarde de Maio. Sorria de esse dia de Maio, nunca
pel branca, sem linhas nem na fotografia. Sorria-me. Fui nada mais foi.
quadrados, em cima da buscar uma caneta. Uma
secretária ou num canto da qualquer, desde que escreves-
mesa da cozinha. Ao lado da se em azul. Um azul de tinta, Era preciso que eu lhe
folha, a sua fotografia. Aquela muito azul. Um azul como escrevesse. Eu queria escre-
em que está, de mãos sujas, o azul do céu do começar a ver-lhe. Já tinha a folha de
segurando o Jeremias. noite naquele Maio em que a papel e a caneta que escrevia
fotografei segurando o gato naquele tom de azul.
Jeremias, o nosso gato cin- com as mãos sujas de fari-
zento, enorme. nha. O que eu escrevi foi uma
Queria, pois, escrever-lhe carta assim.
Porque desceu ela a escada
uma carta sob o seu olhar. em vez de entrar em casa?
O olhar com que me olha-

32 SAMIZDAT agosto de 2008


32
Minha querida que me expliques o que até Percorri cada palavra, agi-
hoje ninguém me soube, ou tado e incrédulo.
Tenho tantas saudades! sequer tentou, explicar. E eu
Nunca consegui perceber não entendo. Continuo sem
o que aconteceu naquela entender como é que tu fa- Depois de ler, sosseguei.
tarde. zias bolos, sorrias, pegavas no
Jeremias, pedias fotografias Dizes-me que naquele
Tu fazias bolos. Vi a e, um instante depois, coisa anoitecer, me vinhas oferecer
massa estendida sobre a larga de no mesmo instante de eu um scone acabado de sair
mesa da cozinha. registar o teu sorriso, tu já do forno, que o gato saltou
não sorrias, o Jeremias miava assustado com o flashe o que
O compartimento onde te fez desequilibrar. Dizes
atordoado e os bolos queima-
agora te escrevo e que nessa que, ainda deitada nos de-
vam-se na cozinha.
tarde atravessei em direcção graus da escada, me tentaste
ao jardim para fotografar as Foi muito depressa, sabes? falar, mas já só dizias as pala-
roseiras floridas. Eu nunca percebi. vras que eu não sabia ouvir.
Lembras-te? Entro na cozinha e... Pedes-me que fique des-
Já lá em baixo, entre os Desde esse dia de Maio, cansado, que estás bem. E no
cliques da máquina, ouvi o nunca nada mais foi. E eu final, antes de me enviares
teu zangar-te com o gato. tenho tantas saudades! beijos, escreves: toma conta
O Jeremias saltara sobre a do gato Jeremias.
mesa. Ouvi-te descrever o
que acontecia: Eu sei que a carta era uma
fantasia minha. Uma forma Guardei a carta numa
- Olha o que fizeste!A pasta.
massa toda salpicada com as de acalentar a saudade. Gri-
tuas patas, Jeremias! tar a precariedade deste estar Lá fora as rosas estão lin-
vivo que tanto desatentamos. das e o sol de Verão acaricia
Dizias,imitando um zanga- Deixei-a na mesa da cozinha o pêlo do Jeremias estirado
do que era um pobre imita- onde a escrevi, tal qual a no cimo da escada em frente
do. acabei. A folha escrita naque- da porta da cozinha.
le tom de azul aberta sobre a
Assomaste à porta que
mesa.
derramava vidrinhos sobre
o jardim. Trazias o Jeremias
abafado nos teus braços. Do
cimo da escada, gritaste ao Hoje, ainda nem há nada,
quase escuro do jardim: relancei o olhar sobre o
papel enquanto mordiscava
- Olha, amor, o Jeremias um scone.
anda a ajudar. Tiras uma
foto? A folha estava escrita
numa cor verde-água.
E sorrias. Este sorriso com
que estás na fotografia. Debrucei-me mais.

Depois, só tu o saberás A caligrafia não era a


contar. Por isso te escrevo. minha. Reconheci a letra e
Para que me contes. Para arrepiei-me.

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Contos

REENCONTRO
Guilherme Rodrigues

Aquele rapaz sentado conhecedor de muitas coisas. roupas simples deram-lhe


à mesa do bar tinha me Achei que poderia tomar o um toque a mais.
chamado à atenção. Prin- refrigerante por gosto. Uma
cipalmente por tomar um mente revolucionária, talvez. Seus braços fortes, suas
refrigerante de uva! Poderia Ir na contramão de todos ou mãos bonitas segurando o
tomar qualquer coisa, mas fazer algo que todos querem copo com a firmeza que se
refrigerante de uva era o fazer, mas ninguém faz. deve pegar uma mulher.
mais barato do mercado! Isso Discretamente, fiquei
já seria suficiente para mui- Usava óculos com lentes
redondinhas, projetando sua olhando e tomando meu
tas mulheres desistirem logo suco, lançando olhares sexy
de cara. Prova de que é um visão mais à frente. Vestia
roupas simples, nada de e quando olhasse faria um
pobretão falido. velado (mas não tanto) sinal.
marca, como pude perceber.
Tinha o olhar sereno de E assim mesmo não perdeu Ele olhou algumas vezes,
um sábio. Era calmo e trans- a elegância. Também nada mas, admito, tive vergonha
parecia ter lido vários livros, de moda. Personalidade. As

http://www.flickr.com/photos/nightwishes33/2413705488/sizes/o/

34 SAMIZDAT agosto de 2008


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e desviei o olhar. Situações com o cigarro. to que nem agradeceu pelo
assim me deixam toda sem convite. Pedi um isqueiro à
jeito. Agora tomo coragem – Até hoje não inventaram garçonete.
para o segundo plano. um maço fácil de abrir – eu
disse com uma risada força- – Coff... Coff... Coff...
Dei mais um tempo e da tentando disfarçar.
E com a cara vermelha,
pude refletir: ele me atraiu
– É... Você pode se sentar, cuspi a fumaça.
porque prestei atenção nos
detalhes, fui além do refri- se quiser.
– Engasguei – disse muito
gerante de uva. Uma mulher – Obrigada... Você... traba- sem graça.
se fizesse o que fiz logo se lha por aqui? É aviador?
interessaria. Ainda mais com Ele queria que eu fumasse
um topete jogado ao vento. – Hahaha... Que criativi- para ter a prova.
Bem poderia ser um aviador. dade!
– Por que você faz isso?
Olhando tudo de cima.
– Seu topete não deixa en-
ganar – disse e sendo espre- – Isso o quê? – tentei me
Tive a idéia de pedir um
mida por um muro. esquivar.
cigarro:

– Eu não sou aviador, não. – Você não fuma.


– Com licença, você teria
um cigarro? Deve ser muito bom. Na – Sim, eu fumo.
verdade, trabalho na livraria
– Não fumo, moça. na outra quadra. Ele olhou sério e desapro-
vador.
– Ah... Queria tanto fu- Um palpite certo!
mar... – Eu só queria... Me apro-
– Hum... Vende livros. Eu ximar de você... E conversar,
Dito isto, o rapaz saiu da adoro ler. te conhecer... ¬– disse entris-
mesa. Em seguida voltou com
– Recomendarei bons li- tecida.
um maço de cigarros.
vros quando for. O que você Então, pegou na minha
– Que gentileza! Que fofu- faz? mão e afagou-a.
ra! Muito obrigado!
– Trabalho na loja de rou-
“Droga! Agora tenho que pas “Vestir-se”, uma quadra
fumar.” pra lá.
Eu não gostei. Gostaria... – Do lado oposto de mim.
Se eu fumasse, mas foi real- Qual seu nome?
mente muito gentil. Outras (NOTA: Este texto é o pri-
poderiam tê-lo chamado de – Mariana. E o seu? meiro de uma longa história
trouxa. que terá uma continuida-
– Fernando... de, se possível, a cada mês.
Para retribuir, tinha que Aguardem!!!)
– Quando precisar de
fumar. Abri o maço com
roupas, você sabe, lá tem de
dificuldade e até quebrei mi-
diversos tipos.
nha unha. Ele olhou, prestava
atenção nas minhas mãos de- Ele já estava impaciente
sajeitadas para abrir o maço. de me olhar gesticular com
Talvez percebera que eu não o cigarro para lá e para cá,
levava a menor afinidade falar e não acendê-lo, tan-

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Contos

PASTEL DE VENTO
Zulmar Lopes

http://www.flickr.com/photos/thomashobbs/347125201/sizes/l/

36 SAMIZDAT agosto de 2008


36
Os fenômenos emergentes Difícil compreender não?
da fronteira imaginária que Provavelmente pelo fato dos
dividem emoção e razão nos parágrafos acima não pas-
levam a considerar todas as sarem de um amontoado de
alternativas e subalternativas frases sem sentido, traves-
referentes a este paradigma. tidas em um discurso inte-
Segundo Paul Freeman, tais ligente. Trata-se apenas de
acontecimentos derivam de um exercício na arte de ser
fatores extra sensoriais e não verborrágico, de enfeitar o
corroborariam de um méto- pavão literário, com palavras
do altamente qualificado e bonitas e difíceis e, em con-
posterior a todos os estudos trapartida, muito pouco ou
intrisicamente desapegados nada dizer. Portanto cuidado
ao sistema de múltiplas va- com os discursos empolados.
riantes e constâncias. Seu conteúdo em geral é tão
encorpado quanto um pastel
de vento, daqueles com muita
Pesquisas comprovam que massa e quase nenhum re-
todo este maniqueísmo ultra- cheio.
reflexivo referente aos auspí-
cios osculados ao simulacro
em nada pavimentarão os Em tempo: Paul Freeman e
caminhos que levam a dis- Dr. Willian Lark são figuras
cernir a similaridade do que fictícias.
é verdadeiramente falacioso.
A dialética enfronhada em
casos semânticos nos levam
ainda a crer que, passadas vá-
rias gerações, a postura em-
blemática de nossos delatores
permanece inadvertidamente
alterada.

Para finalizar, desejo res-


saltar que o cruzamento de
dados horizontalmente cana-
lizados pelo método bifur-
cativo desenvolvido pelo Dr.
Willian Lark em nada afeta-
rão as pesquisas já publica-
das, pois Lark desconsiderou
o fator extra-primordial da
causa preludiana ao fenôme-
no associativo em questão.

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Contos

Encontro com
Joaquim Maria
Giselle Natsu Sato

http://zrak7.ifrance.com/ouvidor-1890.jpg

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Desci a rua do Ouvidor querer ofender, sou extrema- - Por sinal, o que posso
pensando em minhas maio- mente bem nascido, afortu- fazer para demonstrar minha
res paixões, as boas graças nado com a melhor educa- gratidão?
femininas e a literatura. Não ção que um jovem poderia
sonhar. Sou versado em cinco - O senhor já agradeceu, é
necessariamente nesta ordem:
idiomas. Inclusive o latim, o suficiente.
- O cavalheiro deixou cair falo fluentemente, melhor - Se algum dia preci-
este envelope, por muito que muito padre. sar, freqüento a livraria
pouco não se perde, precisei
- Percebi no instante em Garnier,quase diariamente.
correr para acompanhar seus
começamos o agradável coló- Fica logo adiante, no final
passos.
quio. Inclusive, só de ouvi- da Rua do Ouvidor.O único
- Meu manuscrito! Não lo falar, sinto a influência lugar decente desta cidade.
sei como agradecer, nem dei européia. - Quase uma pequena
conta, o senhor não imagina
- Meu caro, onde apren- Paris. Senhor?
a importância do que acabou
de salvar. deu a expressar tão bem suas - Que esquecimento!
idéias? Salvo pequenos desli- Oliveira Neves, mas pode me
- Ainda bem que percebi zes naturais, fala o português chamar por Joaquim Maria.
a tempo, há uma procissão quase perfeito. Meu nome de batismo.
e as ruas estão tomadas de
devotos. - Sou autodidata, aprendi - Machado, muito prazer.
com muito sacrifício. Tinha Que coincidência, homôni-
- Um verdadeiro absurdo, tudo para não dar certo. mos! Quase esqueci, tenho
em pleno século XIX! Retor- Graças aos livros, sou capaz uma reunião daqui a pouco
nei há bem pouco da Europa, de manter um diálogo com no Jornal do Commercio
as diferenças são alarmantes. um homem como o senhor. . Com licença, preciso ir
- Devia ter visto antes. - Compreendo, o senhor andando. Passar bem,senhor
Atualmente temos pavi- trabalha em uma oficina. Oliveira.
mentação, iluminação a gás, Maneja o maquinário ou Que homem estranho,
transporte coletivo, tudo algo equivalente? ofereci uma pequena ajuda e
seguindo os parâmetros das
- Sim, algo equivalente. partiu furioso . Homônimos,
capitais européias. Tempo de
Trabalho com livros, livros era só o que me faltava! Um
‘’galas novas’’...
o tempo inteiro. Sabe que o quase negro, um pouco mais
- Não quero parecer arro- senhor é uma inspiração? letrado, pensando que me
gante, no entanto, a sociedade Sempre encontro tipos inte- engana. O que esperava? Que
carioca carece de bom gosto. ressantes, dignos de atenção o convidasse para um café?
Os cafés e teatros nunca che- redobrada. Decerto imaginou que havia
garão aos pés dos Parisienses. algum dinheiro no envelope.
O povo mantém hábitos pro- - Como assim? Que tipo Devolveu esperando uma
vincianos, não sabem viver de influência, além de ser boa recompensa, depois fez
na capital. um exemplo, um ideal a ser ares de ofendido.
copiado...
- Infelizmente, somos uma Ah! As jovens senhoras,
nação predominantemente - O senhor é muito mo- fina flor da sociedade. Que
rural e analfabeta. desto. ‘’Haja à vista’’, a inspi- visão! La jeunesse dorée ,
ração preciosa, sou eterna- apreciando as modas , fazen-
- Certamente. Porque mente grato. do compras, tomando o ar
haveria de ser diferente? Sem

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fresco. Algumas são cortesãs lemos o melhor, eis que surge - Mas logo agora? Vai
disfarçadas em busca de ro- algo desconcertante. perder a leitura, Machado vai
mance. Se a sorte for benfa- nos dar a honra do primeiro
zeja, ofereço meus préstimos, Senti um pequeno des- capítulo.
carrego alguns pacotes e falo conforto ao ouvir aquele
nome, o segundo Machado - Então fique e aproveite,
um pouco de francês. Voilá!
em uma tarde. Para não ser não precisa me acompanhar.
Convido para um chá na
grosseiro, folheei o livro, um Insisto que fique, é seu autor
confeitaria, acompanho até a
pouco desatento. No primei- preferido.
residência...
ro parágrafo, senti que não
conseguiria descansar, até - Imagine, nunca aban-
Finalmente a livraria, um
completar toda leitura. donaria o amigo, faço com-
lugar com certa exclusivida-
panhia até que melhore e
de, longe dos pobretões que
Extraordinário estilo, per- retornamos.
embaçam as vitrines. Sinto
que estou no meu mundo, feito em todos os aspectos,
tão bom que senti vergonha - Pacheco, deixe-me em
escritores, intelectuais, polí- paz! Preciso respirar, estou
ticos: do meu manuscrito.
angustiado.
- Joaquim, Joaquim Maria. Fui para casa terminar
a leitura do romance. Não - Não precisa ser
Quanto tempo! Que bons grosseiro,não quer ser visto
ventos trouxeram meu me- pude controlar a inveja, o
rancor, o ódio pelo tal es- com um simples comercian-
lhor amigo de volta? te. Hoje está no meio dos
critor brasileiro. Seis anos
jogados no lixo, meus sonhos seus, não precisa da compa-
- Pacheco Leitão! Que pra-
desfeitos em uma tarde, nhia do velho amigo Pache-
zer, cheguei semana passada.
minha existência reduzida co. Não tenho seus estudos,
Mas já estou querendo voltar.
ao limbo. Por um Machado, meus pais não me mandaram
- Joaquim, não seja tão um machado destruidor de para Europa. Minha mãe
severo! Faz parte da nata da sonhos. achou um desperdício, meu
sociedade, freqüenta festas pai mal sabe assinar o nome,
maravilhosas, cassinos, usu- No dia seguinte, mais e agora esta desfeita...
frui do bom e do melhor. E calmo, soube que o escritor,
recém eleito meu favorito, Deixei meu amigo falando
nem mencionei os bordéis!
estaria na livraria. O espaço sozinho, nunca tive paciência
Não é suficiente?!
estava apinhado de gente para ouvir sermão, muito
- Sim, o suficiente para vinda de todos os pontos menos do Pacheco. Perdi a
quem se contenta com pou- da cidade. Muitos aplausos noção do tempo enquanto
co. Quero muito mais, hoje anunciaram a chegada. A caminhava, o peito transpas-
entrego meu primeiro ro- turba ruidosa, movimentava- sado de vergonha. Não havia
mance para impressão. se impedindo a visão de seu percebido a fina ironia no
semblante. Quando consegui breve diálogo com o mulato
- Um amigo escritor é ardiloso.
uma honra e tanto. Está com espaço suficiente, reconheci
sorte, hoje chegou o últi- o homem que havia salvo Enxerguei o romance
mo de Machado: Memórias meu envelope. Quis morrer por um novo ângulo. Agora
Póstumas de Brás Cubas. É naquele instante: eu via a desfaçatez mas-
uma obra-prima, todos estão - Pacheco, está abafado de- carada nos diálogos dos
comentando. Se bem que mais, preciso sair um pouco personagens,a personalidade
Machado sempre surpreende. e respirar. complicada dos protagonis-
Quando pensamos que já tas, a estratégia da redação

40 SAMIZDAT agosto de 2008


40
confusa e angustiante.

Senti que naquele instan-


te nascia minha verdadeira
vocação. A vida ganhava um
novo sentido, tecia planos de
publicar uma crítica devas-
tando cada obra. Planejava
vasculhar cada linha, sonha-
va de olhos abertos com o
reconhecimento público.

A aversão machadiana
crescia como um tumor pes-
tilento. Esquecido da vida, os
sentidos embotados pela vin-
gança, não percebi o veículo
descontrolado. Por ironia do
destino, um importado inglês,
mal conduzido por um jo-
vem inexperiente.

Morri.

Joaquim Maria morreu,


morreu atropelado em plena
Praça da Constituição. Há
poucos metros da famosa Ti-
pografia Dois de Dezembro.
Na hora do acidente, lotada
de escritores e intelectuais.

Meu último pensamen-


to... a existência inútil. Não
deixei qualquer legado. Nem
filhos, nem obras, nem sau-
dades, nem amigos... Fui um
farsante, pedante, esbanja-
dor e mentiroso. Expulso da
própria casa após a desco-
berta das vilanias praticadas
na Europa. Agora, uma alma
incompetente.

Contudo, carrego o con-


solo, um sonho questionável
e anônimo: Ter sido a inspi-
ração, ainda que fugidia, de
Joaquim Maria Machado de
Assis.

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Contos

As Noivas de
Preto
Maristela Scheuer Deves

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42 SAMIZDAT agosto de 2008


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Aquelas velhas fotografias pois então poderiam usar o de minha vida, que ficará
de noivas vestidas de preto branco tradicional. Também em exposição na entrada
sempre tinham me intrigado, achei estranho todas elas do salão de festas. Embai-
desde que eu as encontrara terem contraído núpcias na xo das dezenas de álbuns
em um velho baú no sótão mesma época, mas vovô me com registros feitos desde
da casa de meus avós. Eu disse para ir brincar, deixan- a minha infância, encontrei
tinha uns doze ou treze anos do que ele fizesse suas coisas. um envelope amarelado
na ocasião. Curiosa como pelo tempo. Curiosa, abri-o.
todos são nessa idade, corri Por alguns dias, ainda en- Lá, uma única foto, de um
perguntar à minha avó quem chi meu pai e minha mãe de casal cujo rosto risonho eu
eram aquelas mulheres e perguntas, mas como as res- reconheci: meus pais, muito
por que tinham se casado postas variavam de um “eu é mais jovens do que agora, no
assim. Sua reação, no entanto, que sei?” a “vai ver, era moda dia do seu casamento. Nesse
deixou-me intrigada. na época”, acabei desistindo momento, percebi que nunca
e esquecendo o assunto. Em antes havia visto imagens
Em vez de responder à outra ocasião, fui fuxicar nas daquela data, e compreendi
minha inocente pergunta, ela coisas guardadas no sótão, também o motivo: o vestido
ficou olhando demoradamen- mas não encontrei mais as que minha mãe envergava,
te as fotos, com uma expres- fotografias, até mesmo o baú de seda e com lindos borda-
são esquisita. Não consegui havia sumido de lá. Achei dos, era negro.
identificar exatamente o que estranho, mas não dei muita
via no seu rosto, mas parecia importância ao assunto. Minha mãe surpreendeu-
ser uma mistura de medo me com a foto nas mãos e,
e curiosidade. Depois de Nas últimas semanas, perante meu olhar indagador,
alguns minutos em silêncio, porém, a lembrança daquelas pôs-se novamente a derramar
quis saber onde eu encontra- noivas vestidas de preto vem lágrimas. Mesmo sem enten-
ra aquelas imagens. Contei- me atormentando. Sonho der o que estava acontecendo,
lhe do baú, e ela pediu que com elas todas as noites, e abracei-a e confortei-a, como
devolvesse as fotos ao seu penso nelas em cada minuto se a mãe fosse eu. Não pedi
lugar e não mais pensasse no do meu dia. Não sou mais explicações quando ela se
assunto. uma criança: estou com acalmou, mas ela as deu mes-
24 anos e vou casar-me em mo assim. Sabia que era hora,
Insisti, mas sem resultado. poucos dias. Até já comprei e que não podia adiar mais.
Como eu não era de desistir meu vestido, lindo, resplan-
facilmente, procurei o meu decente, branco como a neve. – Quando eu me casei
avô. Sua reação não foi mui- Minha mãe chorou quando com seu pai – começou ela –,
to melhor ao olhar o que eu o viu, e a princípio creditei ninguém me disse nada. Sofri
tinha em mãos, mas pelo me- seu choro à emoção de que muito com o que aconteceu,
nos ele deu-me uma explica- sua única filha iria se casar. e sei que você também vai
ção: aquelas eram sua avó, ou Mas agora sei que não era sofrer, minha filha, mas pelo
seja, minha tataravó, e suas isso. E sei, também, o porquê menos você vai estar prepa-
irmãs. Haviam se casado de daqueles vestidos negros que rada.
vestidos e véus pretos porque há tanto tempo despertaram
a minha curiosidade... Antes de prosseguir, ela
estavam de luto, o pai delas
levantou-se e foi até uma
havia morrido pouco tempo
Descobri por acaso, en- gaveta trancada. Tirou uma
antes. Fiquei a matutar co-
quanto procurava velhas chavezinha de uma corrente
migo mesma por que é que
fotos minhas para o painel pendurada no pescoço e a
elas não haviam esperado
de momentos marcantes abriu. Lá de dentro, pegou
um pouco mais para casar-se,

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uma caixa de madeira, que depois de tudo ter acontecido
colocou sobre a mesa, cha- que minha sogra, sua avó,
mando-me para ver o conte- contou-me que isso acontecia
údo. Ali estavam as antigas há quatro gerações. Desde
fotos que eu vira ainda crian- que uma tia-avó do seu avô
ça, num baú no sótão dos fora rejeitada pelo restan-
meus avós. E também outras, te da família por se casar
muitas outras, todas mostran- grávida, obrigada a casar de
do noivas vestidas de preto. véu negro, ela amaldiçoou a
Lá estavam minha avó, todas todos, dizendo que, dali por
as minhas tias por parte de diante, nunca mais uma mu-
pai... Aturdida, fiquei passan- lher da família se casaria de
do uma a uma, sem saber o branco. E, até hoje, isso vem
que dizer. se cumprindo...

– Sim, minha pequena. Tenho menos de uma


Todas as mulheres da nos- semana até o dia do meu
sa família, pelo lado do seu casamento. Tento afastar os
pai, carregam essa maldição meus pensamentos mórbidos,
– disse. Vendo que eu abria dizer a mim mesma que isso
a boca para perguntar algo, é fantasia, que deve haver
apressou-se em prosseguir alguma explicação lógica.
– Nós não escolhemos nos Talvez tenha sido mesmo
casar de preto. Na verdade, luto, talvez... Mas minha mãe
nós não nos casamos de não mentiria para mim. Não
preto. Meu vestido e meu faria com que eu me angus-
véu eram tão alvos quanto os tiasse sem necessidade.
seus. Mas, na hora da ceri-
mônia, quando eu coloquei a Não contei a meu noi-
aliança no dedo, ele começou vo, para ele não pensar que
a mudar... estou enlouquecendo. Mas
hoje pela manhã, acariciando
Ela trocara de roupa no o esvoaçante tecido de meu
meio da festa, contou, com a lindo vestido de sonho, vi
desculpa de usar algo mais uma pequena mancha mais
confortável. A verdade era escura em um canto, sob
que, para seu desespero, ele um babado. Outra apareceu
estava ficando a cada minu- na pontinha do véu. Pensei
to mais escuro. Pensou que em cancelar o serviço do
as primeiras fotos estariam fotógrafo, para garantir, mas
boas, pelo menos, mas, pou- achei melhor encomendar
cos dias depois de as receber com urgência um vestido de
do fotógrafo, nelas também o reserva, cor de champanhe,
vestido passara a ficar preto. para usar assim que sair da
igreja...
– Queimei quase todas
elas, junto com o vestido
que eu tinha gostado tanto.
Guardei apenas essa. Foi só

44 SAMIZDAT agosto de 2008


44
ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um não-


lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como umas
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão c­ ultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
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­Literatura e aos ­leitores.

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Tradução

A Estrada não
percorrida Robert Frost
tradução: Henry Alfred Bugalho

Estradas se bifurcavam num amarelado


bosque,
E me ressenti não poder ambas percorrer
Sendo um só viajante, por muito me detive
E observei uma até quão longe pude
Até onde na vegetação ela se encurvava.

Então segui pela outra, tão boa quanto,


E talvez por ter melhor reclame,
Por ser gramada e ansiar uso;
Mesmo que os que por ela passaram
Desgastaram-na do mesmo modo.

E, naquela manhã, em ambas igualmente


jaziam
Folhas que passo algum pisara.
Ó, deixei a primeira para outro dia!
Mesmo sabendo que caminho leva a
caminho,
Duvidei se um dia conseguiria voltar.

Com um suspiro isto direi


Em algum ponto, há muito tempo distante
Duas estradas num bosque se bifurcavam,
e eu
A menos percorrida trilhei,
E isto fez toda a diferença.

http://www.flickr.com/photos/24443965@N08/2389237724/sizes/l/

46 SAMIZDAT agosto de 2008


46
em duas ocasiões (1924, por New
Hampshire, e 1931, por Collected
Poems).
A morte da esposa em 1938 e o
suicídio da filha Carol em 1940 cau-
saram um impacto tremendo em sua
estabilidade emocional. Em 1941,
muda-se para Cambridge, onde
viveria pelo resto da vida, o tempo
todo assessorado por sua secretária
Kathleen Morrison (logo em seguida
à morte da esposa, Frost a pedira em
casamento, mas Kathleen recusou).
As viagens como conferencista in-
cluíram uma visita ao Brasil (Rio de
Janeiro e São Paulo) em agosto de
http://blog.syracuse.com/shelflife/2008/03/frost.jpg

1954. Em 1957 volta a visitar a Eu-


ropa, ocasião em que conhece gran-
des nomes da literatura da época: W.
H. Auden, E. M. Forster, Cecil Day
Lewis, Graham Greene. Plenamente
reconhecido como um dos maiores
poetas norte-americanos do século,
Robert Frost morre em 29 de janeiro
de 1963.

Obras
A produção literária de Frost é
variada e abundante. Sua poesia
inclui sonetos, poemas em forma
Robert Lee Frost (San Francisco, em sua vida: casa-se com Eli- de diálogo, poemas curtos, poemas
Califórnia, 26 de março de 1874 - nor White em 19 de dezembro; o longos. Escreveu três peças teatrais
29 de janeiro de 1963) foi um dos primeiro filho nasce no ano se- (A Way Out, In an Art Factory e The
mais importantes poetas dos Estados guinte (teria seis ao todo), e passa Guardeen). São numerosíssimos
Unidos do século XX. Frost recebeu a envolver-se cada vez mais com a os registros de suas conferências.
quatro prêmios Pulitzer. vida no campo: em 1901 já admi- A correspondência, os ensaios e as
nistra sua própria fazenda. Adquire histórias merecem o mesmo comen-
o hábito de escrever seus poemas à tário. Frost tem a capacidade de dar
Biografia
noite, na mesa da cozinha. A partir um tratamento simples e ao mesmo
O pai bebia, jogava e era excêntrico de 1906, quando começa a lecionar
e irascível. A mãe era o oposto: re- tempo profundo a temas elementa-
em tempo integral na Pinkerton res (fogo, gelo, natureza), tirando
ligiosa e culta, foi quem apresentou Academy, a vida profissional de
ao filho o mundo da literatura. Com verdadeiras “lições de moral” de
Frost não se dissociaria mais do suas observações do mundo natural
a morte do pai em 1885, a família ramo das letras. Começa a proferir
muda-se para a Nova Inglaterra, (lições nem sempre otimistas, como
palestras e conferências, atividade se pode notar em Nothing Gold Can
região à qual Frost e sua poesia que não abandonaria até a morte.
seriam permanentemente associados Stay). Tal traço, aliado à modernida-
Entre 1912 e 1915 viveu na In- de de sua linguagem (Frost era um
no futuro (embora o poeta também
glaterra, país onde publicou seus defensor do uso da linguagem ver-
tenha passado longas temporadas
dois primeiros livros de poemas, A nácula nas obras literárias), fez com
em Michigan e na Flórida).
Boy’s Will (1913) e North of Boston que Frost jamais deixasse de figurar
Em 1890, publica seu primeiro (1914). Os livros foram bem recebi- entre os escritores prediletos dos
poema, começa a dar aulas e realiza dos pela crítica européia, e Frost é norte-americanos, ao lado de nomes
pequenos serviços em fazendas e apresentado a poetas famosos, como como Whitman, Emerson e Thore-
moinhos. A vida que levava nesse Ezra Pound, Ford Madox Ford e W. au. Seu poema The Road Not Taken
período moldou sua personalidade B. Yeats. é peça obrigatória em qualquer
poética: Frost foi um dos poetas antologia poética de língua inglesa.
Em 1915 volta aos Estados Uni-
norte-americanos que melhor com- Prova adicional de sua popularidade
dos, e no mesmo ano publica em
binou em seus versos o popular e o são as várias referências em filmes
seu país natal seus dois primeiros
moderno, o local e o universal. como Sociedade dos Poetas Mortos
livros. Com a carreira literária cada
Em 1895, inicia-se uma nova fase vez mais sólida, recebe o Pulitzer e Daunbailó.

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Tradução

Poemas de Emily
Dickinson tradução: Henry Alfred Bugalho

Coração, nós o esqueceremos! Deus a cada pássaro deu um pão

Coração, nós o esqueceremos! Deus a cada pássaro deu um pão,


Eu e ti, hoje à noite. Mas apenas migalhas para mim;
Deves te esquecer do acalento que ele nos deu, Não ouso comê-las, mesmo esfaimada, -
Que eu me esquecerei do lume. Minha aguda luxúria
Possuí-las, tocá-las, constatar o feito
Quando o houveres feito, diga-me te suplico, Que fez meu este bocado, -
Que aos meus pensamentos toldarei; Feliz demais em minha sorte de pardal
Apressa-te! Que enquanto te tardas, Para almejar mais.
Dele ainda me lembrarei!
Pode haver fome por aí,
Eu não deixarei de ouvir,
Tantos largos sorrisos à minha mesa,
Uma Porta acabou de ser aberta numa rua Meu celeiro parece estar bem cheio.
Imagino como o rico deve se sentir, -
Uma porta acabou de ser aberta numa rua –
Um indiático – um barão?
Eu, perdida, estava passando –
Considero que eu, com apenas migalhas,
E um átimo de quentura foi liberado,
Sobre todos eles soberana sou.
E de riqueza e companhia.

A porta se fechou repentina, e eu,


Eu, perdida, estava passando –
Perdida em dobro, mais pelo contraste,
Esclarecedora miséria.

48 SAMIZDAT agosto de 2008


48
Porque eu não pude parar para a Morte

Porque eu não pude parar para a Morte –


Ela gentilmente parou para mim –
Na Carruagem, apenas nós –
E a Imortalidade.

Nós viajamos lentamente – Ela não tinha pressa


E eu tive de pôr de lado
Meu trabalho e meu lazer,
Por Delicadeza –

Passamos pela Escola, onde Crianças se exercitavam


No Recreio – no Pátio –
Passamos pelos Campos dos Grãos Maduros –
Passamos pelo Sol Poente –

Ou melhor – Ele passou por nós –


O Orvalho veio tremulante e cálido –
Apenas como Fina Trama, minhas Vestes –
Meu Xale – apenas Tule –

Estacamos diante duma Casa que parecia


Uma Elevação do Solo –
Do Telhado pouco se via –
A Cornija – a tocar o Chão –

Desde então – por Séculos – e ainda


Mais breve que o Dia
Constatei que as Cabeças dos Cavalos
Voltavam-se para a Eternidade –

Se eu puder evitar que um coração se parta,


Eu não terei vivido em vão;
Se eu puder evitar a agonia duma vida,
Ou acalentar uma dor,
Ou assistir um desfalecido melro
A voltar a seu ninho,
Eu não terei vivido em vão.

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http://farm4.static.flickr.com/3094/2598687689_474d0cd7a4_o.jpg
Não posso viver contigo

Não posso viver contigo,


Isto seria vida,
E vida está ali
Atrás da patreleira

O capelão guarda a chave,


Pondo acima
Nossa vida, sua porcelana,
Como uma taça

Descartada pela dona-de-casa,


Démodé ou esfacelada;
Um novo Sevres apraze,
Os velhos se quebram.

Eu não poderia morrer contigo,


Pois um deve esperar
Para cerrar os olhos do outro,
Tu não podes.

E eu, eu permanecerei
E ver-te-ei expirar,
Sem meu direito de expirar,
Privilégio da morte?

Nem eu poderei ressuscitar contigo,


Porque tua face
Poderia tirar de Jesus
A nova graça

Brilho nítido e estrangeiro


Em meus olhos nostálgicos,
Exceto que tu, ao invés d`ele,
Reluziu bem mais perto.
Julgar-nos-ão – como?
Pois tu serviste o Paraíso, tu sabes,
Ou tentaste;
Eu não consegui,

Porque tu concentraste a vista,


E eu não tenho mais olhos
Para uma excelência mórbida
Como o Paraíso.

E se tu decaísses, também,
Mesmo que meu nome
Tenha soado mais alto
Na fama celestial.

E se tu fosses salvo,
E eu condenada a estar
Onde tu não estás,
Isto seria o inferno para mim.

Então devemos nos manter apartados,


Tu aí, eu aqui,
Com a porta entreaberta apenas
Que são oceanos,
E orar,
E aquele pálido sustento,
Desespero!

50 SAMIZDAT agosto de 2008


50
vida de Emily Dickinson tem como
fonte as correspondências que ela
manteve com algumas pessoas.
Entre elas: Susan Dickinson, que
era sua cunhada e vizinha, colegas
de escola, familiares e alguns
intelectuais como Samuel Bowles,
o Dr. e a Mrs. J. G. Holland, T. W.
Higginson e Helen Hunt Jack-
son. Nestas cartas, além de tecer
comentários sobre o seu cotidiano,
havia também alguns poemas.
Foi somente em torno do ano
de 1858 que Emily deu início a
confecção dos «fascicles» (livros
manuscritos com suas composi-
ções) , produzidos e encadernados
à mão.
É intensa a sua produção de 1860
até 1870, quando compôs centenas
de poemas por ano. Em 1862, en-
via quatro poemas ao crítico Tho-
mas Higginson que, não compre-
endendo inteiramente sua poesia,
a desaconselha de publicá-los.
A partir de 1864, surpreendida por
problemas de visão, arrefece um
pouco o ritmo de sua escrita. Uma
Emily Dickinson (Amherst, Mas- Em torno de Emily, construiu-se o curiosidade na obra de Emily
sachusetts; Estados Unidos; 10 de mito acerca de sua personalidade Dickinson é que apesar de ter
Dezembro de 1830 - 15 de maio de solitária. Tanto que a denomina- escrito em torno de 1800 poemas e
1886) foi uma poetisa americana. vam de a “Grande Reclusa”. É quase 1000 cartas, ela não chegou
importante que se diga, que este a publicar nenhum livro de versos,
comportamento de Emily coadu- enquanto viveu. Os registros que
Biografia nava-se com o modelo de conduta se tem, é que apenas anonimamen-
feminina que era apregoado no te, publicou alguns poemas.
Nasceu numa casa cujo nome era
The Homestead, construída pelos Massachusetts de Oitocentos. Emi- Toda a sua obra foi editada pos-
avós Samuel Fowler Dickinson ly, em raros momentos, deixou sua tumamente, sendo reconhecida e
e Lucretia Gunn Dickinson, no vida reclusa, tanto que em toda aclamada pelos críticos.
ano de 1813. Samuel Fowler era sua vida, apenas fez viagens para Emily faleceu em 15 de maio de
advogado e foi um dos principais a Filadélfia para tratar de proble- 1886 em Amherst, Massachusetts.
fundadores do Amherst College. mas de visão, uma para Washing-
Era a segunda filha de Edward e ton e Boston. Foi numa destas A edição crítica completa, organi-
Emily Norcross Dickinson. viagens que Emily conheceu dois zada por Thomas H. Johnson, con-
homens que teriam marcada tando com 1775 poemas, ocorreu
Proveniente de uma família abas- influência em sua vida e inspira- apenas em 1955, após seu acervo
tada, Emily teve formação escolar ção poética: Charles Wadsworth e ter sido transferido para a Univer-
irrepreensível, chegando a cursar Thomas Wentworth Higginson. sidade de Harvard. Posteriormen-
durante um ano o South Hadley te acrescida de outros poemas, em
Female Seminary. Abandonou o Emily conheceu Charles Wadswor- 1999, surge outra edição, organi-
seminário após se recusar, publi- th, um clérigo de 41 anos, em zada por R. W. Franklin, com 1789
camente, a declarar sua fé. sua viagem à Filadélfia. Alguns poemas.
críticos creditam a Wadsworth,
Quando findou os estudos, Emily como sendo o alvo de grande Atualmente a casa, onde ela
retornou à casa dos pais para parte dos poemas de amor escritos nasceu e viveu, The Homestead é
deles cuidar, juntamente com a por Emily. aberta para visitação no período
irmã Lavínia que, como ela, nunca de Março a Dezembro.
se casou. Quase tudo que se sabe sobre a

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Teoria Literária

vOCÊ CONHECE O
INDRISO?
Volmar Camargo Junior
http://www.flickr.com/photos/star-dust/775368469/sizes/o/

Por mais que pareça, Indri- nasceu na Espanha em 73, é


so não é nome de gente. Quer escritor, professor de língua e El centauro se asoma por la
dizer... pode até ser, se você é literatura espanholas. Desde ventana
daquelas pessoas que coleciona 2005 vive aqui no Brasil, na
y la mujer dormida está
nomes curiosos para dar aos capital paulista. Segundo o
hablando en sueños.
filhos. Nesse caso, inclua aí em autor, o indriso nasceu quan-
sua lista os nomes Ode, Soneto, do ele refletia sobre a forma Llora y ríe, porque un cen-
Rondó, Quadrinha, Haicai ou, tradicional do soneto e, expe- tauro la rapta.
quem sabe, Poetrix. Indriso é, rimentando, num “processo de
na verdade, uma forma poé- condensação estrófica”, escre-
Cabalga en su sueño la
tica. veu este poema:
mujer dormida,
Isidro Iturat, o criador
cabalga en su sueño y es
desse inusitado tipo de poema, Luna Menguante cabalgada.

52 SAMIZDAT agosto de 2008


52
En la selva, nadie la oye do pessoal da Oficina e da
cuando chilla. Assim como o poetrix, o SAMIZDAT...), durante esse mês

indriso é uma criatura moder- vou arriscar alguns indrisos.

na, a releitura de uma forma Na próxima edição do “Labo-


Llora y ríe como nunca en
tradicional, que, a despeito do ratório Poético” já sei qual será
su vigilia.
grande valor que estas últimas o cardápio.

sempre tiveram e continuam


El centauro la mira... por la tendo, desenvolvem-se sozi-
ventana. nhas, percorrem outros cami-
nhos e atraem adeptos. Outra
semelhança entre estes dois
Pois, na definição teórica de
“entes” é que são precisamente
seu criador, o indriso
delimitados no espaço-tempo:
podemos, inclusive, encontrar
“...es un poema que consta com seus criadores – ambos
de dos tercetos y dos estrofas vivem em território tupini-
de verso único (3-3-1-1). To- quim. Para o poeta amador - Sobre os Indrisos e seu
lera cualquier tipo de medida medieval, discutir sobre o criador, Isidro Iturat, acesse:
en el cómputo silábico, lo sonetto com seus criadores http://www.indrisos.com. Aqui
que hace de él una forma a devia ser o máximo. Entretan- é possível encontrar a obra El
la vez fija y dinámica: en el to, a História e a Literatura, e, Manantial, a primeira cole-
eje vertical, la disposición no é claro, estes mesmos poetas, tânea do autor, inteiramente
variable de la estrofa; en el eje a este século legaram somente disponível on-line (http://www.
horizontal, las variaciones en as criaturas. Quem sabe, no indrisos.com/manantialarchi-
la cantidad. Admite además futuro, dirão de Isidro Iturat vos/portadamanantial.htm).
todos los grados y géneros de algo como na Wikipédia atual Além disso, na seção colabora-
rima.” dizem de um certo Jacopo da tors (http://www.indrisos.com/
Lentini, a quem alguns atri- colaboradores/indicecolabora-
buem a criação do soneto. doresother.htm), há exemplares
Em bom tupiniquês:
Em tempo, uma coisa que em outros idiomas além do
eu adorei foi a origem da espanhol. Inclusive tupiniquês.
O indriso é um poema nomenclatura: uma menininha
composto de dois tercetos e de três anos, tentando dizer
duas estrofes de verso único - O símbolo no topo do ar-
o nome do Isidro, insistia em
(3-3-1-1), que permite um uso tigo está na página inicial do
chamá-lo “Indriso”. Mais um
livre da rima e o número de indrisos.com. Achei tri bonito.
acaso curioso de um poema
sílabas nos seus versos. que nasceu, ao que parece, por
geração espontânea.

(http://www.indrisos.com/ Como eu não resisto a es-


ensayosyarticulos/definition. sas novidades (a última rendeu
htm#7) a primeira coletânea poética

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Teoria Literária

A ATUALIDADE DO
CONTO

Henry Alfred Bugalho


henrybugalho@gmail.com

O conto é provavelmente a Esta unidade temporal é a aventurado a escrever contos,


primeira forma narrativa da base do conto: uma história, necessitou duma obra longa
Humanidade. Sua origem se um evento, com brevidade. para legitimar seu talento.
confunde com a necessidade São raros os exemplos de
Mas os gêneros longos,
intrínseca do ser humano de autores meramente contistas,
como a epopéia e, posterior-
contar uma história a seus e podemos incluir Maupas-
mente, o romance, precipi-
pares. sant, Pushkin, Borges e Dalton
taram o conto a um poço Trevisan nesta lista, mas mes-
Tudo começa com uma his- de desprezo. A brevidade da mo estes também tiveram de
tória, o que há para ser conta- forma se tornou sinônimo de ceder às obrigações de gêneros
do, o enredo. O conto é curto frivolidade; a unidade serve mais longos.
o suficiente para entreter e para acusação de ser uma
não entediar quem o ouve ou forma simplória. E é a ilusão de facilidade
lê, mas longo o suficiente para que motiva vários escritores
Quase todo escritor canô-
ocupar o tempo dos ouvintes/ iniciantes a escreverem contos;
nico, por mais que tenha se
leitores. na verdade, basta produzir um

http://www.flickr.com/photos/j_d_l/2067406764/sizes/o/

54 SAMIZDAT agosto de 2008


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texto de duas ou três páginas o ponto crítico, o momento que não são fáceis, que mesmo
para poder batizá-lo de conto. único. O romance é um filme, consumindo alguns poucos
As reflexões teóricas de gran- precisa do tempo para contar minutos, acabam por reverbe-
des autores também não con- sua história; o conto é uma rar por dias ou anos na mente
tribuem para uma definição fotografia, apresenta toda sua do leitor.
consensual, por isto, chegou-se mensagem quase que instan-
Poucas formas são tão atu-
à conclusão de que conto é taneamente, agarra o leitor na
ais quanto o conto, e poucas
qualquer coisa de indefinível, primeira linha e o liberta na
possuem tanto potencial de
que apenas o autor é quem última, não tolera arestas, não
exploração criativa e tamanhas
possui o privilégio de afirmar pode ser cansativo.
exigências para o autor.
se um texto é conto ou não.
Durante milênios, o conto
O desafio do contista é
Os norte-americanos são possuiu um papel acessório.
falar muito em poucas linhas,
bastante pragmáticos, esti- Tratava-se dum exercício
o do leitor, compreender o
pulam o limite máximo do literário, no qual os autores
verdadeiro valor da narrativa
conto em vinte mil palavras; podiam testar suas habilidades
curta.
os latino-americanos são bem narrativas. Contudo, da meta-
mais românticos, apresentan- de do século XX em diante, o
do rebuscadas teorias sobre conto começou gradativamente
o conto, sempre lançando a a assumir um novo papel.
questão e a solução para o
O romance, enquanto diver-
nível subjetivo.
timento burguês, exige tempo
Mas todos parecem concor- e contemplação. O leitor se
dar em um ponto: o conto é recolhe a seu quarto, ou senta-
uma unidade, fala dum único se numa poltrona e por horas
assunto. Para termos uma mergulha naquele mundo.
idéia do que isto significa, bas-
Mas o conto está de acordo
ta vislumbrarmos a vida duma
com o ritmo do mundo indus-
pessoa — nascemos, crescemos,
trial, frenético, em constante
freqüentamos uma escola,
mudança. O leitor encontra
muitos se casam, têm filhos,
um conto que o agrade, lê-o
vão ao trabalho, envelhecem,
por alguns poucos minutos
morrem... —; se apanharmos a
e parte para o próximo tex-
totalidade desta vida, ou boa
to. O leitor contemporâneo
parte dela, podemos escrever
anseia por mais informações,
um romance, no entanto se
pela maior quantidade de
apanharmos apenas um destes
dados que possa adquirir no
aspectos, casar-se por exemplo,
menor tempo. O conto supre
ou parte deste aspecto, então
esta necessidade; é dinâmico,
poderemos escrever um conto.
rápido e facilmente assimilado.
O romance abrange uma Pode até causar grande trans-
totalidade, que pode ser a formação num leitor, mas a
soma das partes da vida dum sua pequena extensão promete
personagem, ou a soma de uma acessibilidade.
trechos das vidas de vários
Geralmente, os melhores
personagens; o conto, por sua
contos são justamente aqueles
vez, procura a singularidade,

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Crônica

Angústias urbanas
Giselle Natsu Sato
Foto: José Cordeiro/Agência O Globo

A violência atingiu um çadas transformaram-se em de marginalidade e descaso


grau absurdo, somos reféns campo minado. Não é exage- público. Turistas não encon-
dentro das nossas casas e ro, a guerrilha urbana é fato. tram a princesinha do mar,
cidades. O jornal estampa Adorava passear pelas tropeçam nos mendigos e
crimes covardes, vidas rouba- ruas do centro da cidade aos prostitutas. São assaltados e
das em finais infelizes. sábados. Percorria as ruelas prometem jamais retornar.
Ações policiais mal- fervilhando de gente anima- A memória é curta ou
sucedidas , tiros que não da, famílias fazendo com- copia os três macacos. Sur-
deveriam ter sido disparados. pras e provando delícias nos da, cega e Muda. Talvez seja
Falta de preparo, ansiedade, quiosques de comida árabe. hora de levantar o tapete e
desespero, não é hora de O burburinho soava como limpar a sujeira acumulada.
apontar culpados. Precisamos música, felicidade encontrada Definitivamente, não pode-
de soluções imediatas. na simplicidade de caminhar mos levar a vida no compas-
Vivo reclusa em uma vila no meio do povo. so de um samba.
no subúrbio, minha casa tem A última vez que ousei Pátria amada, mãe gentil,
grades imensas, muros que repetir o passeio, a magia seus filhos estão perdendo
deveriam me proteger. Mas havia sido substituída por a luta. Temem o próprio
não é isto que ocorre, recebo seguranças, avisos de cuida- irmão, clamam por justiça e
os jornais, ouço as notícias, do, vendedores desconfiados sonham com a paz.
vizinhos comentam os crimes e muitas lojas fechadas. Sinto
diários. Sigo apavorada, cer- que minha cidade não é mais
cada de favelas e fantasmas. tão bonita, perdeu o viço e a
Refém do medo. liberdade.
Cruzo avenidas sempre Bairros transformaram-
atenta aos estranhos, as cal- se em uma grande vitrine

56 SAMIZDAT agosto de 2008


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novaS tendências
http://www.flickr.com/photos/ekai/2421936996/sizes/l/

Joaquim Bispo Ultimamente, muitas são lábios vaginais receptivos.


as mulheres, das que apare-
cem nas televisões ou que Mas, o coito anal tem
aspiram a isso, que mandam vindo a ganhar adeptos e as-
encher os lábios com silicone pirantes a praticantes. Quem
ou os envenenam com Botox. de tal duvide, que faça uma
Algumas exageraram ou a revisão dos filmes pornográ-
coisa não correu bem - pen- ficos dos últimos vinte anos.
sei eu - porque ficaram com Neles se percebe que a per-
uma boca a fazer lembrar o centagem de sexo anal, em
ânus de um macaco. A com- tempo de filme, tem vindo
paração ouvi-a, há tempos, sempre a crescer.
ao observador e provocador
Et voilà. As novas tendên-
humorista Herman José, e
cias aconselham a mudar o
reflecte na perfeição o que
aspecto da boca, de vagina
está a acontecer.
para ânus.
A explicação é muito
Algumas mulheres têm-
psicanalítica mas credível.
no conseguido de maneira
Sempre a boca do rosto foi
magistral.
associada à boca do corpo;
os homens associam-nas, as
mulheres sabem dessa asso-
ciação. Daí, humedecerem a
do rosto e pintarem-na, para
mais se assemelhar as uns

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Poesia

náufrago
http://www.flickr.com/photos/r_catalano/2171631233/sizes/l/

Marcia Szajnbok
marciasz@hotmail.com

náufrago num momento sem importância


era preciso que se agarrasse sem marca, sem sentido
a qualquer pedra, ou planta, ou alga num instante comum
que alcançasse, com o pé, apoio - pudera ser outro -
um só ponto que fosse deixou-se, simplesmente, ir com as águas
ou que enchesse de ar o peito deixou-se...
até se tornar, ele próprio, bóia...
seu corpo-água se desfazendo
era preciso que houvesse algo os pensamentos-água desintegrando
era imperativo que achasse os sentimentos-água se diluindo
a pedra, a planta, o apoio naquele mar de corações
era ugente que se lembrasse salgados
ao menos, de respirar... afogados
retorcidos...
sem saber como ir para cima ou para baixo
sem saber onde o sul, onde o norte náufrago e mar
por momentos fechava os olhos, entorpecido, um só
imaginava-se em doces braços amorosos... para sempre

porque quando vinham as enormes vagas


e o escuro do céu sem luar e sem estrelas
se confundia com o escuro da profundeza
infinita
- do mar, de si mesmo, de tudo -
era preciso, antes, acreditar...

a água lhe congelava as entranhas


já não sentia dor, nem frio, nem medo
bastava deixar-se ir ao sabor das correntes
a alma presa ao corpo por fio tão tênue...

náufrago
num momento qualquer, se decidiu

58 SAMIZDAT agosto de 2008


58
lua-sol-eu

Guilherme Rodrigues

A Lua solitária
Que ama o Sol
Sempre tão bela no céu
Queria vestir véu
E se casar.

Sol, sozinho, ardente!

Lua e Sol se amam.


Se vêem em eclipses
Mas nunca ficam juntos.

A Lua sempre tão bela


Passa noites em claro
Pelo seu amor.

Sozinha, sempre alegre, espalha amor.


http://www.flickr.com/photos/eppstein/70027187/sizes/o/

Olhando.
Eu, solitário,
Me convenço
Que assim devo ficar.

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Poesia

POEMAS Maria de Fátima Santos

poema II - maresias

Tinhas um ar descalço.
Odoravas salgado,
Nu.
poema I - requium Algas e sargaço.

Sobravam flores de ti.


Arrumas os sapatos
Papoilas,
Os olhos pardos
Malmequeres,
As mãos cismando
O salto muito alto
Crisantos,
Rosas vermelhas.
Arrumas um só par A flor do cravo,
Um depois do outro Orquídeas.
Sem cordões nem fivelas Colar de sombra.
Lisos, envernizados Desmedidas.

Sapatos encarnados E tu com ar descalço,


Cor do fogo E tu sabida a sal,
Papoilas esfusiantes A ondas de levante.
Sapatos cor do sangue Sobrada da paisagem,
Soltada de desnorte,
Vermelhos Caminhada de longe,
Arrumados Trazida sei lá de onde,
Sereia, mulher, menina
Teus olhos recordando. Sonhavas horizontes।

60 SAMIZDAT agosto de 2008


60
poema III - flache

Ela encostou-se.
Um cotovelo.
Tu mastigavas um rissol.
Viscoso.
Feio. Insaboroso.

Ela encostou de leve.


Um cotovelo sobre a madeira do balcão.
Um cotovelo vestido de vermelho.

Lá fora chovia em amarelo.


Lá fora chovia frio.
O sol esmaecia em fim de dia.
E ela quase nem encostada.
E ela com olhos cor da chuva.
Os olhos dela.
Amarelos.
E o cotovelo vestido de encarnado.
E tu a mastigar.
E tu a descobrir o traço.

O risco rosa a contornar-lhe o lábio.


A boca num sorriso tonto.
E tu olhando cores
O rosada da língua
o amarelo dos olhos
o negro das pestanas.

E o teu rissol a escorrer


mole.
E o cotovelo dela a roçar o balcão
E os olhos dela cor de mel
E o risco no contorno da boca,
cor-de-rosa.

Lá fora chove em muito cinzento.

Tu sabes que foi um roçar diverso.

Engoles o rissol engordurado e sais.

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http://www.flickr.com/photos/fotopakismo/2382910144/sizes/o/
Poesia

LABORATÓRIO POÉTICO
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

Distância

entre nós

um dois

espaço
O Sonho
Sonho que o sonho é o fim.

Cego, estranho, falho,

Esqueço o que sonho de mim.

O Verso e o Nada
Haveria canção no Universo

Se inverso fosse este nada,

E nada estivesse em verso.

O tempo, o verbo e o verso


Um ilude,

E o outro finge;

O terceiro acontece.
http://farm1.static.flickr.com/58/185742728_6608fc293f_o.jpg

62 SAMIZDAT agosto de 2008


62
Esquecimento
Volmar Camargo Junior

Não tenho paciência queira bem.


Para a contemplação. Eu ando, eu fujo, eu juro, eu tento
Cada quadro dessa galeria Mas tropeço e caio sempre no mesmo
Revela a justeza por que caminho, lugar.
As asperezas, as doloridas Então, vencido
Coisas, as jamais calejadas mãos, Pelas coisas mortas,
Os impossíveis desapegos, Pelas horas mortas,
As tantas outras impropriedades Pelas letras mortas,
Que esqueço. Esqueço.

Não tenho paciência Vencido, sou o nunca.


Para o sono. Sou o nada.
A perfídia do leito Sou o pó de uma rua velha,
Absorve cada hora perdida, Numa casa velha,
Cada fio de cabelo, Num mundo invisível e velho.
Os princípios e os fins, Querer é um eco, que ecoa, e ecoa
As cãibras e Nesse templo vazio e oco
Os tantos sonhos vãos Que as coisas, as pálpebras e as palavras
Que esqueço. sabem
Que esqueço.
Não tenho paciência
Para a poesia. Não, eu não tenho mais paciência.
A tortura, a morte, a dor, Urge a fome que há em mim
O rancor e a solidão E tudo será engolido
Não se enamoram de mim, E não terá gosto algum o que me nutre
E nem eu pretendo dizer Como sensaborões são o pó, o nada, o
“ouço estrelas”, ora, nunca,
Fujo desse destino tolo e dessa cruz A poesia, o sono e a vida.
Que esqueço. Sim, eu sonho com esse óbolo,
Todas as noites, por horas, e ao levantar
Não tenho paz. Esqueço.
Andam ao meu redor e imploram que eu as

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Poesia

Três
Poesias José Espírito Santo
Hoje sou...
Tronco oco pouco do nada,
flutuar ao abandono para lugar nenhum,
muitos diversos tantos e tanto não tanto um...

Sou início efémero de tarefa que acabei


e substâncias variadas de ser que já não sei,
Bichinho de Conta
um rasto gasto e vão em olhar do devir ausente
De feitos defeitos nicho bem apertado e fechado
De leite deleite por tantos portantos por conta Sou vida ocupada procurando de mim,
És diz que diz não diz, léxico, disléxico controlado forçar danado em rotina estática, retina de fim,
O mais são ignorados direitos, vida de outra ponta uma percepção terrena, plena perfeita ilusão de gente

Cor, de cor, acção, decoração de coração! Sou o Hoje, o eu e o tu, sou assim
Luz pálida de diferente dizer de adeus,
És entrada e saída de lixo e não te interessas Restos que voam de restos de mim...
Desaire, de Zaire, transmitido, exclusivo directo
Falta demorada de tecto, de morada, detecto
Sempre de ti partes e a ti enroscado regressas

Sentir
Cor, de cor, acção, decoração de coração!
Como leve tocar nas barbas do riso do vento
Bichinho de conta, em mundo “faz de conta” falcão Como um ter de corpo em escarnecer do tempo,
Nessa com posição decomposição de composição és vitória doce e ser outro ser como se de nós fosse
Jogando tudo e o todo e os outros todos pro vento
Quando mais conta na conta teu gordo provento Como observar nítido com o olhar fechado,
em mundo infinito, em dor e amor e grito calado,
és um ser de não mais ter, és tanto tão querer

Como nós, assim és tu: sentir de sentir imperfeito


solta argamassa, pedaço de raça, escura que é a
taça...

de que sou feito!

64 SAMIZDAT agosto de 2008


64
Poemas Pela floresta

Pedro Faria Em densa floresta, uma noite me encontrei


Saída nenhuma minha vista alcançava
Sozinho, com medo, caí e chorei.

Dantesca situação na qual me encontrava


Era tal, que nunca me esquecerei
Da solidão que sobre mim pairava.

Porém, no meio desse infernal perigo


O quarto escuro Maravilha minha vista alcança
E do medo me torno inimigo.

Num quarto escuro você está enclausurada Pois num vale próximo me chama
Porta alguma você vê ou deseja Para perto, uma flor em domo de vidro.
Dele, excelsa luz emana.
Satisfeita está, com sua morada.
Encantado, minutos passei encarando
Um dia, porém, em seu peito flameja A bela flor, que não vi ao lado
Calor tal, que a impele à retirada De cabelos longos, homem estranho.
De si mesma, onde sua alma é presa.
- “Da flor sou guardião” -, disse irritado
Muito tempo passa, mas chave certa encontra “Ela me escolheu, então vá andando”
Para abrir tal negríssima porta “De onde veio, para o outro lado”.
Que à sua vista cansada desponta.
Entristecido, segui a trilha lentamente
Imagem da flor, como que marcada
Tal tristeza, que em seu coração aporta A fogo assombrava minha mente.
Pois dum mundo novo visão a assombra
Que você deseja cair morta. Por horas andei, até minha cabeça cansada
Exigir-me descanso, então parei finalmente
Súbita coragem em seu coração nasce E deitei-me sobre a grama esverdeada.
Tal a Estrela da Manhã num lindo céu
Que leva a melancolia ao escape. Num sonho me veio profético aviso
O melro me disse: “Refaça o caminho”
“Em tomar a flor não há mais perigo”.
Por longo corredor você caminha, e véu
Negro, como batina de padre “Ela agora jaz em sua redoma, sozinha,
Ascende de sua visão, a um fogaréu. Livrou-se de seu guardião antigo
Mas procura outro para completar seu destino”
Vendo duas portas, uma delas aberta
E a outra, tão duramente cerrada Corri então pela trilha, com notável destreza
Escolhe a segunda, ignora o alerta. Até a luz brilhante que me cega
Só para encontrar horrível surpresa:
Pois a primeira, a todo bem lhe guiava
Guardião a flor já tinha, de mim se esquecera
Escolheu mal, e agora enxerga
Meu coração foi tomado de grande tristeza
O quarto escuro, a porta era a errada. E condenado fiquei à eterna espera.

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Poesia

Ninfa
Dênis Moura

“Sagueava” pelo Universo estrada


Arrastando comigo o lancinar
Da parte minha que faltava,
A buscar nas flores e nas melodias
O bálsamo à vida, o ópio à existência.

De uma brisa impacto, ao sabor dos meus tímpanos,


Se infiltra em mim a Música Monalisa de uma Ninfa Paisagem.

Ao querer do vento, vago a erigir altares à tão escultural voz.


Toco suas notas que nem Rodin poderia ter talhado.
Mas foge-me... Não! Afasta-se apenas...
Fujo-lhe por admiração. Nego-lhe meus sentidos
Por cuidá-los imerecidos de tão “ambroesia” contemplação.

Aqui estou, sitiado por sereias a lançarem-me em cantos,


Sugando à fonte da vida, suas moradas,
Aos pélagos profundos, à morte em seus líquidos.
Enlaço-me ao busto da mais bela (penso ser a Ninfa)
E sua cauda índia leva-nos a uma verdade: um Oceano em copo d’água...
Separamo-nos.

A Música chama-me cada vez mais viva.


Resvalo-me dela, reverente. Parece-me que eu é que
Chamo-me a ela, somente. Então me atrevo:
Minha romaria lhe seguirá a onisciência de sua divindade,
A felicidade em seu rosto e o prazer de seu corpo...

Penso ter Neruda desembarcado em minha alma,... não!


Foste unicamente Tu, querida, razão que faz um Vate fecundar metáforas!
66 SAMIZDAT agosto de 2008
66
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SAMIZDAT
SOBRE OS AUTORES DA

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Carlos Alb e nordestino
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, fi l h o d or m a d o ,
Paulistano plástico f
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escritor. t ã o , já deixo
, de s d e e n Culturais,
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a b a l h o s a rtísticos u ê n c i a
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para p u b l i
il.com
ador@hotma
carloseduc pot.com
nome.blogs
http://des

Dênis Moura é paulistano de pia, cearence de


mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto
o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com
telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a
igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É
Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a demo-
cracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos
e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um
Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas
apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que
não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

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67
Giselle Sato
Giselle se autodefine apenas como uma contadora de his-
tórias carioca. Estudou Belas Artes e foi comissária de bordo
— cargo em que não fez muita arte, esperamos. Adora viajar
(felizmente!) e fala alguns idiomas.
Atualmente se diverte com a literatura, participando de
concursos e escrevendo para diversos sites pela net. Gosta de
retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam
a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente pa-
norama da sociedade em que vivemos, principalmente daquilo que é
comumente jogado
para baixo do tapete pelos veículos de comunicação.
gisellesato@superig.com.br
http://www.trilhasdaimensidao.prosaeverso.net/

Guilherme Rodrigues
Estudante Letras na
Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde
sempre morou. Nutre
grande paixão por Línguas,
Literatura e Lingüística,
áreas em que se dedica
cada vez mais.

o
Henry Alfred Bugalh
a pela UFPR, com
É formado em Filosofi ra e
pecialista em Literatu
ênfase em Estética. Es as
atro romances e de du
História. Autor de qu
.
coletâneas de contos
Nova York, com sua
Mora, atualmente, em
sua cachorrinha.
esposa Denise e Bia,
.com
henrybugalho@gmail
www.maosdevaca.com

Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão,
xadrezista e pintor amador,
licenciado recente em His-
tória da Arte, experimenta
agora o prazer da escrita,
em Lisboa.

José Espírito Santo


ra e pós
http://bonfireblaze.files.wordpress.com/2007/12/grafiti_wall.jpg

Informático com licenciatu


de Ciências da
graduação na Faculdade
bo a, tra balha há largos
Universidade de Lis
sultoria, sendo
anos em formação e con
Dados, Sistemas
especialista em Bases de
e Middleware de
de Gestão Transaccional
la escrita surgiu
“Messaging ”. A paixão pe
ano de 2007
recentemente, tendo no
ços” (contos) e
produzido os livros “Esbo
praia” (poesia). Vive
e termina estaagosto um pouco a norte de
68 “Ond SAMIZDAT Po rtu gal deAlv
em 2008
erca, uma pequena cidade
em
68 com a família
Lisboa. jjsanto@gmail.com
.blogspot.com/
http://www.riodeescrita
Marcia Szajnbok
Médica formada pela Facul-
dade de Medicina da Univer-
sidade de São Paulo, trabalha
como psiquiatra e psicanalista.
Apaixonada por literatura e lín-
guas estrangeiras, lê sempre que
pode e brinca de escrever de vez
em quando. Paulistana convicta,
lo.
vive desde sempre em São Pau

marciasz@hotmail.com

Maria de Fátima Santos


Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde
viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licencia-
da em Física tem sido professora de Física e Química.
Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pe-
quenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama
“meus contos”. O blog Repensando (www.intervalos.
blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na
escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar
que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Maristela Scheuer Deves

Volmar Camargo Ju
nior é gaúcho. Form
em Letras pela Unive ado
rsidade de Cruz Alta,
leciona por sua próp nã o
ria vontade. Entrou na
em 2004, e desde en ECT
tão já morou em meia
de “Pereirópolis” pelo dúzia
Rio Grande. Atualm
vive com a esposa Na en te
tascha em Canela, na
Gaúcha. Dividem o ap Serra
artamento com Marie,
uma gata voluntario
sa e cínica.

v.camargo.junior@gm
http://recantodasletra ail.com
s.uol.com.br/autores/v
cj

Zulmar Lopes -
ca. Formado em jorna
Zulmar Lopes é cario , tra ba lh a
de Gama Filho
lismo pela Universida ciana e
prensa. Alma provin
como assessor de im en-
contra-se provisoriam
coração suburbano, en irro
olita Copacabana, ba
te exilado na cosmop e sit ua ções
personagens
fonte de inspiração de ra fu gir
ntos. Escreve pa
que compõem seus co
do marasmo.

www.samizdat-pt.blogspot.com 69
Também nesta edição,
textos de

Carlos Alberto Barros José Espírito Santo

Dênis Moura Marcia Szajnbok

Giselle Natsu Sato Maria de Fátima Santos

Guilherme Rodrigues Maristela Scheuer Deves

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo Zulmar Lopes

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