20/01/25
Processo Penal
Princípios Fundamentais
PRINCÍPIO DA JURISDIÇÃO
• O princípio da jurisdição significa que o processo penal é uma forma de realização
da jurisdição penal, pois a aplicação de uma pena ou sanção penal é da
competência exclusiva da função jurisdicional, isto é, dos tribunais (artigos 32.º e
202.º da Constituição da República Portuguesa - CRP).
• No âmbito do princípio da jurisdição, assume especial relevância o princípio do juiz
natural ou legal, segundo o qual “nenhuma causa pode ser subtraída ao tribunal
cuja competência esteja fixada em lei anterior” (artigo 32.º, n.º 9 da CRP).
• Através do princípio do JUIZ NATURAL ou legal, proíbe-se a escolha arbitrária de
um juiz ou tribunal para resolver um processo (caso determinado) ou determinado
tipo de crimes, garantindo-se, assim, a imparcialidade e independência dos juízes
que têm a competência para apreciar as causas penais, os quais devem ser
escolhidos de acordo com critérios objetivos. Este princípio, visa, assim, garantir
uma justiça penal independente e imparcial.
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PRINCÍPIO DA LEGALIDADE DA
INICIATIVA
O princípio da legalidade da iniciativa, relativo à promoção processual penal, significa que o Ministério
Público (MP), para além de deter (em regra) o monopólio de abertura do processo penal (princípio da
oficialidade), está vinculado a agir processualmente sempre que adquire notícia do crime.
Isto é, o MP sempre que adquire conhecimento da prática de um crime (por conhecimento próprio, por
intermédio dos órgãos de polícia criminal ou mediante denúncia) é obrigado, em regra, a proceder à
abertura de inquérito, como decorre dos arts. 219.º, n.º 1 da Constituição da República Portuguesa e
262.º, n.º 2 do Código de Processo Penal (CPP), sendo de rejeitar juízos de oportunidade ou
conveniência neste domínio.
Este princípio não é absoluto, mas comporta limites, seja quanto à condução do processo penal, seja
quanto ao controlo das decisões proferidas pelo MP.
Por um lado, o princípio da legalidade da iniciativa não significa que todos os arguidos que sejam
indiciados pela prática de um crime tenham de ser necessariamente acusados e sujeitos a julgamento,
podendo o MP, findo o inquérito, arquivar o processo (arts. 277.º e 279.º do CPP).
Por outro lado, o controlo das decisões proferidas pelo MP pode ser realizado através de uma via
“interna” (hierárquica) ou judicial, como ocorre no fim do inquérito, com a intervenção hierárquica ou a
abertura de instrução, respetivamente (arts. 278.º e 286.º e segs. do CPP).
PRINCÍPIO DA OFICIALIDADE
O princípio da oficialidade, relativo à promoção processual penal, significa que a iniciativa e
prossecução processuais incumbem ao Ministério Público (MP), enquanto entidade independente e
autónoma - artigo 219.º da Constituição da República Portuguesa e artigo 48.º do Código de Processo
Penal (CPP).
Essa iniciativa e prossecução processuais do MP são desencadeadas pela notícia do crime, através da
qual o MP, por conhecimento próprio, por intermédio dos órgãos de polícia criminal ou mediante
denúncia, toma conhecimento da eventual prática de um crime e procede à abertura de inquérito, para
averiguar da prática desse crime e do respetivo agente.
O princípio da oficialidade, que se reporta à abertura do processo penal, não é absoluto, mas comporta
limites, como nos casos dos crime semipúblicos e particulares, em que a atuação do MP está
dependente ou condicionada por terceiros.
No caso dos crimes semipúblicos é necessário que o titular do direito de queixa apresente a referida
queixa perante o MP, para que este promova a abertura do processo (artigo 49.º do CPP), e nos crimes
particulares é necessário que o respetivo titular se queixe, se constitua assistente e deduza acusação
particular (artigo 50.º do CPP).
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PRINCÍPIO ACUSATÓRIO
• De acordo com o artigo 32.º, n.º 5 da Constituição da República Portuguesa, “o processo criminal
tem estrutura acusatória, estando a audiência de julgamento e os atos instrutórios que a lei
determinar subordinados ao princípio do contraditório.”
• O processo penal, do ponto de vista estrutural, caracteriza-se por ser uma disputa entre duas partes
(acusação e defesa, isto é, entre o Ministério Público e o arguido) que é pautado por um terceiro (o
juiz ou tribunal), a quem, numa posição de independência ou “super partes”, incumbe apreciar o
caso que lhe é submetido pela acusação, não podendo condenar para além da acusação.
• O princípio do acusatório opõe-se ao princípio do inquisitório (que não foi liminarmente rejeitado
no processo penal português), no qual o juiz controla ativamente o processo, pois intervém
autonomamente (sem necessidade de acusação, proferida por um órgão estatal próprio), coordena
a investigação e procede à recolha de prova, bem como pronuncia e julga o arguido com base na
prova recolhida.
• No âmbito do princípio do acusatório, a acusação, proferida pelo MP, assume um papel
fundamental ou decisivo no processo penal, pois esta fixa o objeto do processo e repercute-se na
validade de atos processuais posteriores, sob pena de eventual nulidade desses atos (como ocorre
com o despacho de pronúncia e a sentença, atento o disposto nos artigos 309.º e 379.º do Código
do Processo Penal).
PRINCÍPIO DO INQUISITÓRIO
• Pese embora o atual processo penal português se norteie pelo princípio
acusatório, o princípio do inquisitório não foi liminar ou integralmente
rejeitado pelo legislador nacional.
• A fase de inquérito criminal (investigação criminal) apresenta natureza
inquisitória, pois é dominada por um órgão estatal próprio (o Ministério
Público), responsável pela direção do inquérito (artigo 263.º n.º 1 do
Código de Processo Penal - CPP), a quem compete praticar os atos e
diligências de investigação e de recolha de prova, bem como proferir (ou
não) acusação.
• No entanto, atente-se que o princípio do inquisitório, mesmo em sede de
inquérito, é objeto de limites, uma vez que alguns atos de inquérito
apenas podem ser praticados ou autorizados pelo juiz de instrução
(artigos 268.º e 269.º do CPP, respetivamente), como ocorre, por exemplo,
com o primeiro interrogatório judicial do arguido (praticado pelo juiz de
instrução) ou as escutas telefónicas (autorizado pelo juiz de instrução).
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PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
• O princípio do contraditório significa que o tribunal, antes de proferir as
suas decisões, deve ouvir a acusação e a defesa e que estas devem ter a
possibilidade de se pronunciarem sobre as atuações ou condutas
processuais realizadas pela contraparte (como, por exemplo, em matéria
de prova).
• O princípio do contraditório não funciona em todas as fases do processo,
porque, de acordo com o artigo 32.º, n.º 5 da Constituição da República
Portuguesa, apenas a audiência de julgamento e alguns atos instrutórios
(o debate instrutório e as declarações para memória futura) estão
subordinados ao princípio do contraditório.
• Daqui resulta que algumas fases do processo penal não estão
necessariamente sujeitas ao princípio do contraditório, como ocorre com
o inquérito (dirigida pelo MP) ou a fase de instrução (dirigida pelo juiz de
instrução).
PRINCÍPIO DA INVESTIGAÇÃO
• O princípio da investigação reporta-se, em especial, à matéria de
prova e também assume a designação de princípio da verdade
material.
• Este princípio significa que o tribunal tem o poder-dever de
investigar os factos sujeitos a julgamento, indo para além dos
contributos dados pelas partes (em especial, através da prova que
estas carrearem para o processo), de modo a encontrar a verdade
material dos factos e obter uma decisão mais justa no âmbito do
processo penal.
• São manifestações do princípio da investigação, entre outros, os
poderes atribuídos ao tribunal nos artigos 154.º, 164.º, n.º 2, 174.º,
n.º 3, 288.º, n.º 4, 290.º, 323.º, 327.º, 340.º e 354.º do Código de
Processo Penal.
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Princípio “in dubio pro reo”
• Este princípio deve ser entendido como princípio de ónus da prova material e não como ónus da
prova formal.
• Não é um mero princípio relativo à prova; é um princípio autónomo, é um princípio geral de direito,
o que tem consequências várias, desde logo, a nível de recursos (por ex.).
• Quando se invoca este princípio, significa que a prova foi feita; só que não foi suficiente, o Tribunal,
com os elementos de prova que consegui recolher, não ficou convencido de que o arguido tenha
praticado o crime. E sendo assim, na dúvida favorece-se o arguido, absolvendo-se.
• A aplicação do princípio in dubio pro reo: a sua relevância quanto à questão de facto e à ausência
de limites:
- É relevante desde logo quanto aos elementos em que se baseou e fundamentou a acusação;
- É relevante quanto às causas de exclusão da ilicitude (ex. legítima defesa);
- É relevante quanto às causas de exclusão de culpa (ex. estado de necessidade);
- Ainda quanto às causas de dispensa de pena.
PRINCÍPIO DA ORALIDADE
• O princípio da oralidade significa que os atos processuais do processo penal devem
ser praticados oralmente na presença dos participantes processuais (arts. 96.º, n.º
1, e 298.º, n.º 1 e arts. 348.º a 350.º do Código do Processo Penal - CPP), em
especial no que respeita à produção de prova em sede de audiência de discussão e
julgamento (art. 96.º, n.º 1 do CPP).
• O princípio da oralidade não impede (e até aconselha) que os atos praticados
oralmente fiquem documentados ou registados (através do respetivo auto e
registo áudio ou audiovisual – art. 99.º do CPP), de modo a permitir um controlo
de prova, o que se revela importante para efeitos de uma eventual interposição de
recurso.
• O princípio da oralidade tem vantagens e inconvenientes. Quanto às vantagens,
para além da celeridade, aponta-se sobretudo a descoberta da verdade (a
inquirição, o diálogo e a perceção da reação dos depoentes permite ou ajuda na
realização de tal tarefa), embora se possam apontar como desvantagens a
subjetividade e perenidade decorrentes da oralidade e a eventual falta de registo
(mas esta desvantagem já não pode ser apresentada enquanto tal, devido à
documentação dos atos praticados oralmente, que anteriormente referimos).
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PRINCÍPIO DA IMEDIAÇÃO
• O princípio da imediação significa que a decisão jurisdicional só
pode ser proferida por quem tenha assistido à produção de prova e
à discussão da causa entre a acusação e a defesa e que esta seja
proferida o mais rápido possível após o término da audiência de
discussão e julgamento, bem como à necessidade de, na apreciação
da matéria probatória, ser dada preferência aos meios de prova que
estejam em relação mais direta com os factos carecidos de prova
(os meios imediatos).
• O princípio da imediação exige, assim, uma relação de proximidade
(física e temporal) entre os intervenientes processuais e o tribunal,
de modo a que este possa ter uma perceção própria (e autorizada)
dos elementos que servirão de base para a fundamentação da
decisão jurisdicional.
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PRINCÍPIO DA CONCENTRAÇÃO
• De acordo com o princípio da concentração, que assume especial relevância no domínio da audiência de
discussão e julgamento, os atos processuais devem ser praticados numa só audiência ou em audiências
temporalmente próximas, para que a perceção da matéria probatória realizada pelo juiz não se perca ou
desvaneça.
• Neste âmbito, fala-se, a este propósito, de “concentração espacial” (ou princípio de localização) e
“concentração temporal”. A concentração espacial corresponde à necessidade da audiência de discussão e
julgamento se desenrolar no mesmo local, onde deverão comparecer todos os participantes processuais (a
sala de audiência), enquanto que a concentração temporal significa que a audiência, uma vez iniciada,
deve decorrer de forma contínua (continuidade da audiência) até ao seu encerramento (artigo 328.º do
Código do Processo Penal).
• No entanto, e relativamente à concentração temporal, cumpre observar que a audiência de discussão e
julgamento pode ser, mediante despacho fundamentado, objeto de interrupções e adiamentos.
• As interrupções estão equacionadas para períodos mais curtos (como, por exemplo, situações de
alimentação e repouso dos participantes, necessidade de produção de prova superveniente, incapacidade
acidental dos sujeitos processuais, decisão de questões prévias ou prejudiciais e elaboração de relatório
social ou de informação dos serviços de reinserção social), enquanto que os adiamentos se reportam a
períodos mais longos (ainda assim, o adiamento não poderá exceder o prazo de 30 dias, sendo que a
contagem de tal prazo não inclui o período de férias judiciais, nem o período em que, por motivo estranho
ao tribunal, os autos aguardem a realização de diligências de prova, a prolação de sentença ou que, em via
de recurso, o julgamento seja anulado parcialmente, nomeadamente para repetição da prova ou produção
de prova suplementar).
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PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
• O processo penal é presentemente caracterizado pelo princípio da publicidade porque, de acordo com o
art. 86.º, n.º 1 do Código do Processo Penal (CPP), “o processo penal é, sob pena de nulidade, público,
ressalvadas as exceções previstas na lei”.
• Atualmente o princípio da publicidade é aplicável a qualquer fase do processo penal, inclusive a fase de
inquérito (até à reforma do CPP de 2007, a fase de inquérito era dominada pelo segredo de justiça).
• Do princípio da publicidade decorrem os direitos de:
a) Assistência, pelo público em geral, à realização do debate instrutório e dos atos processuais na fase de
julgamento;
b) Narração dos atos processuais, ou reprodução dos seus termos, pelos meios de comunicação social;
c) Consulta do auto e obtenção de cópias, extratos e certidões de quaisquer partes dele (art. 86.º, n.º 6 do
CPP).
• No entanto, atente-se que o princípio da publicidade não é absoluto, seja porque não abrange os dados
relativos à reserva da vida privada que não constituam meios de prova (art. 86.º, n.º 7 do CPP), seja
porque o tribunal pode decidir sujeitar o processo a segredo de justiça (nomeadamente para proteção dos
direitos de algum dos sujeitos ou participantes processuais - como os do arguido, do assistente ou do
ofendido -, ou, no decurso da fase de inquérito, para tutela dos interesses da investigação ou dos direitos
dos sujeitos processuais - art. 86.º, n.ºs 2 e 3 do CPP).
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