XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Direito Processual Penal
Prof. Nuno Brandão
Aula de 1/10/2019
15 de Outubro - não há aula de penal e de processo penal
19 de Novembro – não há aula de processo penal
Materiais de estudo: textos doutrinais e acórdãos dos tribunais superiores, sobretudo TC.
Fontes normativas do processo penal português:
A CRP contém importantes normas, sobretudo no âmbito de direitos fundamentais
e garantias. O art. 32.º da CRP é um artigo de referência no processo penal português. Mas
também o são os arts 27.º, 28.º, 31.º, 34.º, 175.º.
A CRP contem um conjunto considerável de normas que incidem sobre o direito
processual penal, ao ponto de até se falar de uma constituição processual penal.
Em termos de legislação ordinária: temos o CPP, preparado essencialmente por
Jorge de Figueiredo Dias, com as alterações mais importantes em 1998 e em 2007.
No site da PGDL encontramos versões consolidadas e atualizadas da generalidade
dos códigos.
Leis importantes: Lei do júri, Lei do cibercrime, Lei 5/2001 que diz respeito à
aquisição de prova no âmbito da criminalidade económico-financeira, entre outras.
ESTRUTURA ACUSATÓRIA DO PROCESSO PENAL
No art. 32.º, n.º 5 CRP diz-nos que o processo criminal tem estrutura acusatória. É a
norma mais importante da constituição processual penal, pois determina qual a organização
que um processo criminal deve constituir. É imprescindível para compreender como deve
ser a tramitação processual penal. Todas as vertentes do processo vão ao encontro deste
artigo.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 1
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Esta terminologia “estrutura acusatória” opõe-se à estrutura inquisitória. Nos países
democráticos segue-se o modelo acusatório.
Esta expressão “acusatória”, num contexto europeu é dado àquilo que se designa, no
processo anglo-saxónico, por processo adversarial. O processo adversarial (acusatório) é
um processo entre adversários, uma espécie de duelo. Este duelo processa-se perante um
terceiro imparcial (tribunal). O tribunal é a entidade com competência para decidir o caso,
não está alinhado com nenhuma das partes, ele está supra-partes. Para que o duelo seja
justo as partes têm que estar numa situação de relativo equilíbrio. As partes têm que ser
autênticos sujeitos.
Na CRP está a consagração do arguido como um verdadeiro sujeito processual, este
é titular de direitos, garantias e deveres processuais. O arguido pode atuar para ajudar a
constituir a decisão do tribunal, ele tem uma palavra a dizer, podendo contribuir para a
formação das bases da decisão da entidade decisora. Esta é uma característica basilar de
uma estrutura acusatória. Esta característica deve ser assumida pelos diversos órgãos do
estado, além do legislador.
Uma segunda característica fundamental da estrutura acusatória é o princípio da
acusação. Não há estrutura acusatória onde não valha o principio da acusação. Aqui há uma
separação de funções entre quem investiga e acusa e, do outro lado, quem julga.
É um princípio que proíbe uma concentração de funções numa mesma pessoa. O juiz
deve ser poupado e afastado de funções de investigação e acusação, pois só assim é que pode
atuar como imparcial na decisão, caso contrário decide com base numa certa convicção que
construiu anteriormente. Isto também decorre do art. 32.º, n.º5 CRP.
Este afastamento do tribunal de funções de investigação criminal e acusação
manifesta-se não só no julgamento mas também para as fases preliminares, nomeadamente,
fase de inquérito. O julgador não pode investigar para acusar, apenas julga os factos que lhe
foram trazidos ao processo. Os factos têm que ser materialmente jurisdicionais, não podem
ser pura e simplesmente investigatórios.
O principio do acusatório manifesta-se em outros princípios, por exemplo, a
investigação e promoção do processo não pode estar nas mãos do juiz de julgamento.
Num processo de estrutura acusatória a promoção do processo cabe ao MP (o art.
359.º proíbe a alteração substancial dos factos, impede o tribunal de, implicitamente,
introduzir novos factos no processo e assim assumir uma função de acusador). O tribunal
não pode, explicita e implicitamente, exercer a função de acusador.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 2
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Esta separação de funções que resulta do acusatório implica um grande relevo a
outro órgão do estado: Ministério Público.
Art. 119.º CRP – é ao MP que cabe o exercício da acusação penal. Este princípio
também se orienta pelo principio da legalidade. Implica neutralidade, isenção e
imparcialidade por parte do MP.
O MP não é uma simples parte num processo – art. 53.º CPP – há uma exigência de
atuação pautada por critérios de objetividade e neutralidade e isto leva a que não se possa
ver o MP como uma parte no processo, pois o MP não atua no processo como uma parte que
espera por um certo desfecho. O MP atua em busca da verdade. O processo penal não é um
processo de partes, o MP não é uma parte, no processo penal há sujeitos processuais.
Outra característica do MP é a autonomia (art. 2.º, n.º2 do EMP). A autonomia do MP
é muito importante porque o tribunal só julga aquilo que lhe é apresentado, mas o tribunal
não tem poderes de acusação oficiosa do processo, nessa medida, como a competência para
a promoção do processo é do MP, é estritamente necessário que esta seja feita com base na
legalidade, daí a importância da sua autonomia, pois caso contrário seria influenciado por
terceiros e deturpava a descoberta da verdade. Esta autonomia do MP é uma característica
essencial de um Estado do Direito.
TRAMITAÇÃO DO PROCESSO
O processo penal conhece 4 formas processuais:
1 processo comum
3 processos especiais:
o processo sumário (art. 381.º - flagrante delito e pena de prisão até 5 anos
ou pena não privativa de liberdade);
o processo abreviado (existência de provas simples e evidentes);
o processo sumaríssimo (ideia de consenso e acordo entre os sujeitos
processuais).
Tramitação base do processo comum:
1ª Fase: Inquérito
Arts. 262.º a 285.º
Compete ao MP.
A fase de inquérito é fundamentalmente uma fase de aquisição de prova.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 3
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Quando há notícia de um crime abre-se um processo. Naturalmente que o processo
penal está, em regra, voltado para o passado. O processo penal abre-se porque um crime foi
cometido, anteriormente foram praticados factos que constituem um crime. Existem
elementos e meios de prova que procuram descrever o que se sucedeu.
O processo tem uma natureza dinâmica e visa constituir a realidade que aconteceu
no passado. Anda tudo fundamentalmente à volta da prova. Essa tarefa repete-se ao longo
do processo (instrução, julgamento, recurso).
Cada uma das fases tem finalidades diferentes.
Nas fases preliminares do processo (inquérito e instrução) está em causa saber que
crime foi cometido, por quem foi cometido e se se justifica o julgamento.
No final do inquérito o MP confronta-se com a acusação ou o arquivamento. Aqui
vale um principio fundamental que é o da legalidade da promoção processual (art. 283.º
CPP), estabelecendo ao MP uma obrigatoriedade de acusação quando hajam indícios
suficientes da prática do crime e de quem o praticou. Havendo indícios suficientes da prática
de um crime o MP é obrigado a acusar. Se, pelo contrário, o MP concluir que não há indícios
suficientes de que certa pessoa cometeu um crime arquiva (art. 277.º). Em alternativa à
acusação a lei admite uma certa flexibilização do principio da promoção processual: ou um
arquivamento em caso de dispensa de pena (art. 280.º) ou a suspensão do processo (art.
281.º).
2ª fase: Instrução
Arts. 286.º a 310.º.
Compete ao juiz de instrução.
Quando o MP arquiva o processo termina. Quando o MP acusa o que se segue é o
julgamento.
Se houver um arquivamento poderá existir quem tenha interesse em agir para pôr
em causa esse arquivamento. A lei prevê mecanismos de controlo da decisão com o que o
MP encerra o inquérito: instrução. Num processo penal só é possível recorrer de decisões
judiciais (tomadas por um juiz), de modo que as decisões do MP não são suscetíveis de
recurso. A instrução pode impugnar o que foi decidido pelo MP.
Esta fase é dirigida por um juiz de instrução e é facultativa.
O que está aqui em causa é saber se vale a pena ou não levar o arguido a julgamento.
Quem pode requerer a instrução? Arguido (quando foi acusado) e assistente
(quando é arquivado).
Em caso de acusação pode haver um requerimento de abertura da instrução por
parte do arguido e também por parte do assistente (quando o MP acusa mas acusa por
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 4
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
pouco, o assistente quer acrescentar ao processo mais factos do que o MP constatou, por
exemplo).
Em caso de arquivamento há um requerimento para a abertura da instrução por
parte do assistente.
No final da fase de instrução o juiz profere um despacho (despacho de pronuncia ou
despacho de não pronúncia).
3ª fase: Julgamento
Arts. 311.º a 398.º
Compete ao Tribunal, juiz de julgamento.
Chegamos aqui quando há uma acusação ou quando há um despacho de pronuncia.
É obrigatório haver uma fase de inquérito e de julgamento. Dependendo se alguém requer
a fase de instrução ou não essa fase, quando requerida, também é obrigatória.
A audiência de julgamento é composta fundamentalmente por análise de meios de
prova.
Na fase de julgamento a produção de prova faz-se para saber se foi realmente
cometido um crime.
O desfecho na fase de julgamento é a sentença.
Do julgamento resulta a condenação ou absolvição do arguido.
Do prisma do arguido, do julgamento a consequência pode ser ir para a prisão, é uma
consequência muito mais gravosa e aflitiva daquela que pode resultar do inquérito. Nesta
medida, fala-se de uma lógica de compensação processual, os direitos e garantias que devem
ser assegurados dependerão, em larga medida, do desfecho da fase processual em que nos
encontremos. Há uma lógica de compensação e equilíbrio que tem muito em conta a fase do
processo em que estamos.
Na sentença o tribunal descreve a causa e fundamenta a sua decisão dizendo que
factos considerou provados, não provados e o porquê.
Se entender pela prática dos factos provados que não há crime, absolve. Se concluir
pelos factos provados que há crime, condena.
Da sentença pode interpor-se recurso.
4ª fase: Recurso
Arts. 399.º a 436.º.
Compete ao tribunal. Compete ao tribunal da Relação e em certos casos para o STJ.
Pode recorrer o arguido ou o assistente e o tribunal, se achar que foi condenado por
pouco, pode aumentar a pena.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 5
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
SUJEITOS PROCESSUAIS
Categoria em que integram aqueles intervenientes no processo, aqueles que atuam
de forma ativa no processo.
A doutrina e a jurisprudência portuguesa aponta 5 sujeitos processuais: tribunal,
MP, assistente, arguido e defensor. De acordo com a lei, no art. 62.º e ss do CPP, o nome
técnico que se dá ao advogado do arguido é defensor e deve ser esse o termo a utilizar, não
advogado. Estes são os atores principais do processo.
Os atores secundários são os chamados participantes processuais: órgãos de policia
criminal, ofendido, vítima, testemunhas, peritos, funcionários judiciais, etc.
I. TRIBUNAL
Texto de Figueiredo Dias e Nuno Brandão: Sujeitos processuais penais: o tribunal, FDUC, 2015.
O tribunal tem funções jurisdicionais. Aqui há o monopólio da primeira palavra e da
última palavra, o que não acontece, por exemplo, no direito das contraordenações (que
permite que seja conduzido, em primeira linha, pela administração e não pelo tribunal).
Princípio da reserva do juiz – principio da jurisdicionalidade. Da CRP resulta que, no
julgamento da causa, há uma competência exclusiva dos tribunais judiciais; só os tribunais
judiciais são competentes para julgar. Art. 8.º do CPP + arts. 202.º, n.º2 e 27.º, n.º7 CRP. Esta
reserva de juiz vale não só para a avaliação da prática de um crime, mas também para a
competência de atribuir uma sanção.
Problema que foi ao TC sobre suspensão provisória do processo.
A intervenção do tribunal é competente quer na fase de julgamento quer na fase de
recurso. Mas o tribunal também intervém em fases anteriores, nomeadamente na fase de
inquérito e instrução.
Art. 268.º e 269.º – atos na fase de inquérito que competem ao juiz de instrução. Há
um conjunto de atos cuja pratica deve ser decidida pelo juiz.
Art. 32.º, n.º4 CRP – norma muito importante para a fase de inquérito. Está aqui
estabelecida uma reserva de juiz em relação a atos que afetem direitos fundamentais das
pessoas. Os artigos 268.º e 269.º do CPP visam concretizar este art. 32.º, n.º4 CRP.
Ac. TC 7/87 “Declara não se pronunciar pela inconstitucionalidade dos artigos 108.º, n.º 2, alínea b);
135.º, [Link] 2 e 3; 174.º, [Link] 3 e 4; 177.º, n.º 2, com referência ao artigo 174.º, n.º 4, alíneas a) e b); 178.º, n.º 3; 187.º,
n.º 1; 190.º; 200.º; 250.º, n.º 3; 251.º, n.º 1; 252.º, n.º 3; 263.º; 270.º, n.º 1; 281.º, [Link] 3 e 5, salvo, quanto a este último
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 6
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
número, consequencialmente, na parte em que ele remete para o n.º 4; 286.º, e 337.º [Link] 1, alínea a), e 3, e
pronunciar-se pela inconstitucionalidade dos artigos 134.º, n.º 4, na parte em que abrange o defensor - por violação
do artigo 32.º, n.º 3, da Constituição; 177.º, n.º 2, com referência ao artigo 174.º, n.º 4, alínea c) - por violação do
artigo 34.º, n.º 2, da Constituição; 199.º, [Link] 1, na parte em que essa norma é aplicável a casos em que, nos termos
do artigo 27.º, n.º 3, da Constituição, não é permitida a privação da liberdade, e 2 - por violação do artigo 32.º, n.º
4, da Constituição; 281.º, [Link] 1 e 2, na medida em que neles se não prevê qualquer intervenção de um juiz - por
violação dos artigos 32.º, n.º 4, e 206.º da Constituição, e n.º 4 - por violação do direito à segurança, consignado no
n.º 1 do artigo 27.º da Constituição, e 337.º, n.º 1, alínea b), na medida em que a proibição decorre automaticamente
da declaração da contumácia, e apenas na parte em que essa alínea é aplicável a documentos, certidões ou registos
necessários ao exercício de direitos civis, profissionais ou políticos - por violação do artigo 30.º, n.º 4, da
Constituição, todos do Código de Processo Penal”.
Esta intervenção do juiz tem lugar na fase de inquérito por exigência constitucional.
Se um certo ato que afete direitos fundamentais for levado a cabo sem intervenção de juiz
temos uma violação do principio da reserva do juiz do art. 32.º, n.º 4. Esta intervenção do
juiz no inquérito é uma intervenção pontual, quando é pedida, normalmente pelo MP. O juiz
aqui é um juiz das liberdades e, como juiz de instrução, tem que ser um juiz independente,
nessa medida o juiz vai ser um terceiro independente e imparcial.
Muitas vezes o juiz intervém na fase de inquérito a pedido do MP sem que se saiba,
por exemplo, nas escutas telefónicas – a pessoa escutada não pode saber que está a ser
escutada. São atos decididos sem contraditório. O juiz aqui deve pensar nas objeções que o
visado poderia fazer quanto a essa restrição dos seus direitos fundamentais, deve
contrabalançar a ausência de contraditório prévio com aquelas que poderiam ser,
objetivamente, as críticas do visado.
Quando o código foi aprovado, em 1987, as coisas eram muito claras, com o tempo
o legislador procurou flexibilizar este monopólio da primeira palavra do tribunal e começou
a prever casos de intervenção de juiz, não de primeira palavra, mas de última palavra. O
problema aqui é que se por um lado o juiz tem que intervir quando estão em causa direitos
fundamentais, por outro lado o juiz não pode intervir quando não estão em causa direitos
fundamentais. Caso contrário viola a Constituição porque interfere na competência do MP.
Acontece que o legislador tem atribuído ao juiz de instrução certos atos e tirado ao juiz de
instrução outros atos, por exemplo, o art. 86.º, n.º3 levantou a questão da
constitucionalidade quanto ao facto do juiz poder intervir nesta matéria, o TC entendeu que
não, pois considera que ainda estão em causa direitos fundamentais , o juiz de instrução
intervém em 2ª linha controlando decisões prévias.
Ac. TC 110/2009 - “Tendo em vista tal finalidade, sem pôr em causa a investigação (e o papel do
Ministério Público enquanto titular da acção penal), a sujeição de processo ao segredo de justiça deve ser abordada
casuisticamente (como a lei processual penal exige) e no caso de se afirmar a necessidade processual de aplicação
de tal regime, a compreensibilidade da intervenção do juiz de direitos, liberdades e garantias alcança-se da noção
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 7
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
de que o segredo de justiça não pode eliminar as garantias de defesa do arguido. Trata-se de questão que contende
com direitos fundamentais, que, como tal, legitima a intervenção do Juiz de Instrução, funcionando, também nesta
sede, a regra de controlo os direitos, liberdades e garantias individuais, própria de todo o sistema processual penal
português.
Por conseguinte, em nosso entender e sem prejuízo de melhor opinião, a norma do artigo 86.°, n° 3, do Código de
Processo Penal, admite ainda uma interpretação conforme à Constituição da República Portuguesa,
designadamente ao princípio da estrutura acusatória do processo penal, quando exige a validação judicial de uma
decisão do Ministério Público de determinação do segredo de justiça ao processo com base nos interesses da
investigação, servindo a indicação e fundamentação destes, não para o juiz elaborar um qualquer juízo de
oportunidade ou de relevância, mas para alcançar o grau de lesão que para eles implicará a publicidade dos autos,
de tal modo legitimador da aplicação do regime excepcional do segredo de justiça e constrangedor dos direitos de
defesa do arguido, sem perder de vista, porém, que o tempo do contraditório no processo penal é diferido, vigorando
de pleno apenas em fases processuais subsequentes.
Nesta perspectiva, não há sobreposição de decisões de duas autoridades judiciárias distintas.”
Ac. TC 234/2011 – “Não julga inconstitucional a norma constante do artigo 86.º, n.º 3, do Código de
Processo Penal, na redacção da Lei n.º 48/2007, de 29 de Agosto, no segmento em que exige que o juiz de instrução
valide a decisão do Ministério Público de sujeição de processo crime, durante a fase de inquérito, a segredo de
justiça”.
Outro exemplo: levantamento de segredo bancário, contende com direitos
fundamentais (art. 135.º), o legislador alterou o regime passando a admitir que o
levantamento do segredo bancário seja determinado pela autoridade competente no caso,
ou seja, o MP, isto tem que ser contrabalançado com a possibilidade da intervenção do juiz
a posteriori, critério adotado pelo TC (Ac. TC 155/2007) é o da intensidade da restrição dos
direitos fundamentais – “Julga inconstitucional, por violação do disposto nos artigos 25.º, 26.º e 32.º, n.º 4,
da Constituição, a norma constante do artigo 172.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, quando interpretada no
sentido de possibilitar, sem autorização do juiz, a colheita coactiva de vestígios biológicos de um arguido para
determinação do seu perfil genético, quando este último tenha manifestado a sua expressa recusa em colaborar ou
permitir tal colheita e, consequencialmente, julga inconstitucional, por violação do disposto no artigo 32.º, n.º 4, da
Constituição, a norma constante do artigo 126.º, [Link] 1, 2, alíneas a) e c), e 3, do Código de Processo Penal, quando
interpretada em termos de considerar válida e, por conseguinte, susceptível de ulterior utilização e valoração a
prova obtida através da colheita realizada nos moldes descritos”.
Este princípio da reserva do juiz também é flexibilizado nos casos de perigo da
demora, por exemplo, busca domiciliária.
Caso paradigmático do Ac. TC 155/2007, muito importante porque condensa as
linhas de força de interpretação dos princípios da reserva do juiz. Foi um caso de
investigação de homicídio onde se queria recolher saliva. Aqui tratam-se de dados
pessoalíssimos e intromissões na vida privada. Estão aqui direitos fundamentais em causa:
direito à reserva da vida privada e direito de autodeterminação informacional (art. 26.º, n.º1
CRP), este último nasce do direito à reserva da vida privada. O titular dos dados deve poder
determinar quem tem acesso aos seus dados pessoais. Fala-se também aqui do problema da
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 8
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
autoincriminação, sendo essa a fundamentação do arguido. Mas o tribunal diz que o direito
à não autoincriminação não se enquadra neste contexto. O art. 18.º CRP define quais as
condições necessárias para a restrição de direitos liberdades e garantias. Em primeiro lugar,
tem que haver uma lei que autorize, o arguido disse não havia lei que autorizasse a recolha
do material biológico, mas desde 2008 que existe lei para esse efeito (Lei 5/2008). Outra
exigência é o principio da proibição do excesso/proporcionalidade em sentido amplo, que
é concretizado por vários subprincípios (necessidade, adequação e proporcionalidade em
sentido estrito). Outra exigência constitucional de legitimação da ingerência estadual
coerciva em sede de direitos fundamentais do arguido é a reserva do juiz (art. 32.º, n.º4). A
ordem dada para esta recolha coerciva foi pelo MP e não pelo juiz, e o TC considerou que
dada a restrição de direitos fundamentais não podia ter sido dada ordem pelo MP mas sim
pelo juiz, violando o art. 32.º, n.º4 da CRP. Em suma, o TC censurou a decisão recorrida em
virtude da ordem para amostra biológica ter partido não do juiz mas sim do MP, se não fosse
isto o TC não declarava como inconstitucional, nestes moldes foi declarado inconstitucional
por violação do 32.º, n.º4 CRP.
Aula de 8/10/2019
Ac. STJ 14/2014 – recolha coerciva de autógrafos – “Os arguidos que se recusarem à
prestação de autógrafos, para posterior exame e perícia, ordenados pelo Exm.º Magistrado do M.º P.º, em sede de
inquérito, incorrem na prática de um crime desobediência, previsto e punível pelo artigo 348.º, n.º 1 b), do Código
Penal, depois de expressamente advertidos, nesse sentido, por aquela autoridade judiciária”.
Incorre na prática de desobediência o arguido que não acatar a ordem do MP em
redigir um texto para avaliar a sua caligrafia.
Falamos do princípio da não autoincriminação do arguido e de uma decisão emitida
pelo MP e não pelo juiz.
Art. 154, n.º3 do CPP – regime especifico influenciado pelo acórdão TC 155/2007
e art. 172.º, n.º2 que remete para o art. 154.º, n.º3.
Se a pessoa visada não der consentimento então terá de ser coercitivamente e terá
que ser o juiz a dar essa ordem.
A Lei 5/2008 exige sempre a intervenção do juiz.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 9
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Competência do juiz de instrução ou do MP na fase de inquérito quanto à
competência para a apreciação e decisão das invalidades processuais e a violação de
proibição de prova?
Caso em que houve uma denuncia anónima chegou à PJ quanto à pratica de crimes
de corrupção por uma empresa farmacêutica “X”. O MP abriu inquérito e pediu a realização
de escutas telefónicas a um individuo e o juiz de instrução autorizou. Atualmente estão 100
pessoas constituídas arguidas e estas, passado algum tempo, vieram dizer que as escutas
originárias foram ordenadas sem a observância das regras processuais que regem a escuta,
por isso são inválidas e as provas são proibidas. A invalidade deve ser suscitada perante um
juiz de instrução.
Quando um ato é praticado por um juiz de instrução naturalmente que é com o juiz
de instrução que se vai verificar o ato e as invalidades. Mas há casos em que o ato não é
praticado pelo juiz de instrução. Por exemplo, um caso em que o MP investigou um esquema
de burla entre “A” e “B” contra “C”. “A” e “B” foram constituídos arguidos e “C” foi levado a
processo como testemunha. No decurso do inquérito, o MP fica convencido que “C” também
estava envolvido e diz a “C” que se colaborar com o MP o deixa fora do processo. Essa prova
é uma prova proibida, há aqui uma colaboração premial ilegal. No processo penal é a
autoridade judiciaria/MP que tem legitimidade, por exemplo para levantar o sigilo bancário,
mas neste há uma ilegalidade.
Em atos de inquérito praticados pelo MP ou pelos OPC quem tem competência
para decidir uma eventual questão suscitada sobre a legalidade do ato e sobre
eventuais violações de proibições de prova que estejam em causa?
Aqui temos alguma divergência jurisprudencial e doutrinal.
Na Relação de Lisboa, sobretudo, cresceu uma corrente jurisprudencial influenciada
por Paulo Pinto Albuquerque que defende a exclusiva competência do MP para apreciar,
durante o inquérito, a avaliação de questões de invalidade e produção de prova. Este autor
diz que sendo o inquérito dirigido pelo MP é da sua competência. Arts. 268.º e 269.º – fora
deste catalogo não pode o juiz de instrução exercer funções no inquérito. Arts. 118.º e 119.º,
al. e), se os assuntos não constarem dos arts. 268.º e 269.º então o juiz de instrução não tem
competência.
Ver Ac. TRL 21/02/2017 – o juiz de instrução não tem competência.
Outra corrente: Ac. TRL 24/09/2015 - corrente mais seguida pelos tribunais, admite
que o juiz de instrução possa intervir sempre que estejam em causa direitos, liberdades e
garantias das pessoas. Seguido por João Conde Correia.
Posição que nós defendemos: se na fase de inquérito estiverem em causa atos
processuais inválidos que contendam com DLG das pessoas e provas proibidas, o juiz de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 10
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
instrução tem competência para intervir de imediato e apreciar e decidir a questão de
imediato. Ao contrario do primeiro Ac. da Relação de Lisboa, não há impedimentos. Este ato
é um ato de controlo de terceiros e não tem nada a ver com o tipo de atos do art. 268.º e
269.º, pois falamos de duas tipologias de atos e aqui falamos de uma tipologia diferente. O
juiz de instrução intervém de varias maneiras diferentes: casos do art. 268.º em que pratica
atos e, no caso o art. 269.º em que autoriza e ordena atos e, depois, há uma terceira categoria
de atos, sendo nesta terceira categoria que os atos se inserem: atos de controlo e validação
processual. A razão pela qual se deve admitir a intervenção do juiz de instrução tem a ver
com o facto de estar em causa direitos fundamentais de pessoas e de acordo com o art. 34.º,
n.º2 da CRP, estes atos entram na esfera do juiz. Além desta exigência decorrente da reserva
do juiz há uma exigência que decorre do principio da tutela jurisdicional efetiva (art. 20.º,
n.º1 e 5 CRP).
As proibições de prova começam por se manifestar numa violação de aquisição de
prova, que depois impliquem uma previsão de valoração. Frequentemente a violação dos
direitos fundamentais não é só no momento em que a prova é adquirida, mas também se
verifica no momento em que a prova é valorada. Por exemplo, a escuta telefónica, onde há
uma primeira intromissão na esfera do individuo que é no momento em que é gravada a
conversa, através de um computador/máquina, mas não se esgota neste momento,
verificando-se também no momento em que a gravação é valorada, quando se carrega no
“play” e as pessoas que estão no processo ouvem o que é dito também ocorre violação de
direitos fundamentais, neste caso, no momento de valoração da prova. Por isso é que a
intervenção do juiz de instrução pode ser fundamental para estancar a violação continuada
do direito fundamental em causa, há uma necessidade imediata de proteção do direito
fundamental que justifica a intervenção do juiz. Mas também há uma necessidade mediata,
já que muitas vezes, durante o inquérito, é necessário tomar decisões de carácter processual
que vão restringir direitos fundamentais das pessoas e, estas medidas e decisões, têm que
ser decididas com base em perigos e suspeitas, que se fundamentam com provas e se não
for admitida a intervenção do juiz corre-se o risco da prova, porventura inválida, restringir
os direitos fundamentais das pessoas (como no caso das buscas e da prisão preventiva). É
em virtude destas razões que se permite a intervenção do juiz de instrução na fase de
inquérito sempre que estão em causa atos suscetíveis de afetar direitos fundamentais das
pessoas (mesmo que seja para dizer que não houve violação de prova ou existiu qualquer
ato inválido).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 11
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Características essenciais dos tribunais
Princípio da independência judicial (art. 203.º CRP) – elemento fulcral que se liga ao
principio da separação de poderes. Há uma conexão umbilical entre o principio da
independência dos tribunais com a lei, são independentes para aplicar a lei. Neste
contexto fala-se numa independência externa e interna, quer no plano do
relacionamento dos tribunais com os outros órgãos do Estado, quer no plano do
relacionamento dos tribunais e dos juízes entre si. Mas este principio é muito mais
vasto que isto, relaciona-se também com a magistratura e o poder executivo não
pode interferir.
Caso recente que envolveu a Polónia Ac. TJUE 25/07/2018- capacidade de recusar
cooperação com a Polónia, onde os juízes podem ser marionetas do poder executivo,
o que leva os outros países a não se identificarem com essas práticas – acórdão
muito importante. A Comissão Europeia considera que a legislação polaca relativa
ao Supremo Tribunal é incompatível com o direito da UE, pois viola o princípio da
independência do poder judicial, incluindo a inamovibilidade dos juízes. A Polónia,
por conseguinte, não cumpre as obrigações que lhe incumbem por força do
artigo 19.º, n.º 1, do Tratado da União Europeia, em conjugação com o artigo 47.º da
Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
No relacionamento entre tribunais e juízes não há dependência entre uns e outros e
não há, em regra, um dever de acatamento ou de seguir decisões dos outros
tribunais tomadas fora do concreto processo, mesmo quando se trate de
jurisprudência fixada. Não vale o principio do precedente, vale sim o principio da
independência, neste caso, interna, contrariamente ao que acontece nos países de
common law. Art. 4.º da LOSJ. Em regra os juízes não podem ser responsabilizados
pelas decisões que proferiram, colocou-se em causa esta questão quanto ao juiz Neto
de Moura.
Art. 445.º, n.º3 – tem que fundamentar a decisão que tomou, não pode ser
responsabilizado por não acatar uma jurisprudência fixada de acordo com o
principio da independência judicial na vertente interna.
No plano da independência interna dos tribunais, há uma certa tensão quanto à
presidência da comarca onde o presidente tem funções de gestão e verificação do
funcionamento do tribunal. O juiz presidente da comarca não pode intrometer-se
naquilo que diz respeito às decisões tomadas pelos juízes dessa comarca. Por
exemplo, declaração de impedimento, não pode ser o presidente da comarca a ditar
esse impedimento, tem que ser o próprio juiz a declarar-se impedido.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 12
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Este principio da independência dos tribunais é diferente do principio da autonomia
do MP, pois no MP eles estão organizados hierarquicamente e devem obediência aos
seus superiores.
Principio da imparcialidade – principio basilar de um estado de direito democrático.
A ideia de imparcialidade declina-se em vários sentidos. Num sentido originário em
que o juiz não deve ser parte, o juiz não deve ser juiz de causa própria, sejam
interesses diretos ou indiretos. Esta exigência de imparcialidade manifesta-se
também noutros sentidos: o juiz no processo deve manter um distanciamento, uma
equidistância, com as partes e os sujeitos processuais. Além disto, este princípio
também implica que o juiz da causa vai nela participar sem quaisquer pré-
compreensões acerca do arguido, não pode haver condicionalismos, preconceitos e
juízos formados anteriormente. Aqui é fundamental a proteção da confiança na
credibilidade e na isenção do juiz penal para assegurar a credibilidade do sistema
judiciário. Se houver razões para duvidar da capacidade de isenção do juiz naquele
caso mais vale o juiz ficar de lado, pois afeta a confiança da comunidade em geral.
Art. 32.º5 e 203.º CRP.
No plano legal, a proteção da imparcialidade do juiz é garantida através de vários
institutos, desde logo, a própria estrutura acusatória do processo procura
maximizar as condições de imparcialidade do juiz, o facto da investigação pertencer
ao MP visa garantir essa imparcialidade.
Arts 39.º e ss CPP - impedimentos e suspeições (escusas e recusas) que determinam
o afastamento do juiz da causa de formas diferentes. Nos impedimentos temos a
previsão de circunstancias escritas pelo legislador que determinam direta e
necessariamente o afastamento do juiz da causa. As suspeições também são
circunstancias que implicam o afastamento do juiz da causa mas carecem de um
juízo casuístico de suspeição e avaliação da existência de um risco sério de duvida
do juiz no caso concreto, que implica uma lesão na sua imparcialidade. O legislador
presume que o juiz, naquelas circunstancias, não está imparcial ou corre o risco de
ser visto como não imparcial. A recusa é o pedido de algum sujeito processual para
o juiz se afastar do processo. A escusa é um pedido do próprio juiz para ser afastado
do próprio processo.
A intervenção destes institutos tem lugar a uma articulação com duas matérias que
devem ser bem entendidas: competência e imparcialidade.
A lei prevê 3 tipologias de impedimentos: os do art 39.º, os do art. 40.º e os casos em
que juiz deve intervir como testemunha num processo. Para haver impedimento tem
que ter base legal. O impedimento, se não tiver base legal, viola o principio do juiz
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 13
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
natural. Outro ponto, é saber se a lista de impedimentos do art 39.º e 40.º é taxativa
ou se se pode admitir outras hipóteses recorrendo subsidiariamente as normas do
art 115.º do CPC para declarar um impedimento de um juiz que não esteja
expressamente previsto no CPP. A doutrina divide-se, há quem entenda que a lista é
esgotante (Maria João Antunes e Paulo Pinto Albuquerque) e há quem entenda
que a lista não é esgotante (Figueiredo Dias e Nuno Brandão) podendo haver
recurso a outras normas fora do CPP (por exemplo, não há nenhuma norma que
impeça que o juiz ofendido seja o próprio juiz da causa, não faz sentido e por isso
podemos recorrer a outros diplomas para colmatar a lacuna).
Aula de 22/10/2019
(continuação)
Evolução do art.º 40:
Na versão originária do CPP o art. 40.º só previa o impedimento do juiz que antes
tivesse presidido ao debate instrutório ou à decisão recorrida na fase de julgamento ou
recurso. O juiz “A” intervém na fase de instrução e é distribuído outra vez ao juiz “A” na fase
de julgamento: isto não podia acontecer, tem que sair o juiz “A” e entrar o juiz “B” para
proferir a sentença. Entretanto ele passa para o tribunal da Relação por ter sido promovido.
Se o caso fosse a recurso, este não podia ser decidido pelo juiz “B”. Estes eram os
impedimentos previstos na versão originária.
Não se previa como impedimento a intervenção anterior no processo,
nomeadamente na fase de inquérito, que tivesse assistido a atos de aplicação de medidas de
coação. Na década de 90 discutiu-se saber se um juiz na fase de inquérito que tivesse
aplicado a prisão preventiva poderia ou não intervir na fase de julgamento. Por exemplo, o
juiz “A” aplica prisão preventiva, o caso vai a julgamento, e este caso é distribuído ao juiz
“A”. A lei não previa este impedimento. Na fase de inquérito o juiz pode intervir aos mais
variados propósitos, mas não tem nenhum conteúdo elevado, são decisões simples. Mas por
vezes são referidos atos que pressupõem a prática de atos que são considerados crimes,
medidas coercivas, por isso suscitou-se a questão de saber (em especial relativamente à
prisão preventiva) se o juiz que aplica a prisão preventiva na fase de inquérito podia ser juiz
de julgamento. Havia duas posições antagónicas. Figueiredo Dias dizia que não havia
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 14
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
inconstitucionalidade, não há que presumir que o juiz que aplica uma medida estará
moldado na sua imparcialidade, ate porque muitas vezes a prisão preventiva é aplicada
numa fase embrionária do processo e ainda existem poucos elementos de análise, sendo
certo que se há motivo para suspeitar da imparcialidade, temos a possibilidade de levantar
a suspeição, a recusa do juiz. Por outro lado, Germano Marques da Silva defende que se a
lei exige fortes indícios para aplicar a prisão preventiva, isso exige que o juiz se convença de
forma sólida que o arguido cometeu um crime e já fica condicionada na sua imparcialidade.
A questão foi levada a conhecimento do TC no Ac. TC 935/96 (decide o Tribunal
Constitucional declarar, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade da norma constante do artigo 40º do
Código de Processo Penal na parte em que permite a intervenção no julgamento do juiz que, na fase de inquérito,
decretou e posteriormente manteve a prisão preventiva do arguido, por violação do artigo 32º, nº 5, da Constituição
da República Portuguesa.) e Ac. TC 196/98, que declararam a inconstitucionalidade do art 40.º
numa certa interpretação com força obrigatória geral. O TC fundou-se na jurisprudência do
TEDH, sobre saber o que é um tribunal imparcial, e uma possibilidade de falta de
imparcialidade dos juízes é precisamente nos casos de intervenções reiteradas do juiz no
mesmo processo e apontava para uma avaliação casuística, caso a caso, não estava
obrigatoriamente comprometido, era necessário analisar as circunstâncias concretas do
caso em análise. Mas o TC português levou esta jurisprudência mais longe, apelando à ideia
de reiteração que o TEDH aludia, avançou com o critério de saber qual foi a intensidade e
frequência da intervenção do juiz no processo e decidiu que num caso em que o juiz, durante
um inquérito, aplica a prisão preventiva e mantem essa mesma prisão quando o inquérito
está para ser encerrado, isso revela um envolvimento do juiz de tal forma que suscitam-se
dúvidas quanto à imparcialidade do juiz. Assim o art. 40.º é inconstitucional na medida em
que, se permitisse que fosse juiz de julgamento um juiz que antes tivesse aplicado e mantido
a prisão preventiva no mesmo caso. Isto gerou muitas críticas, Maria João Antunes chegou
a caracterizar esta jurisprudência como caricata. Na consequência disto, o legislador aditou
ao art. 40.º o impedimento do juiz que tivesse aplicado e mantido a prisão preventiva na
fase de instrução do mesmo inquérito.
Mais tarde, em 2007, o art. 40.º foi modificado, alargando-se mais uma vez o leque
dos impedimentos (porventura de forma exagerada). Hoje temos os seguintes
impedimentos previstos no art. 40.º:
o O juiz que, na fase de inquérito, tenha aplicado medida de coação de
proibição e imposição de condutas, obrigação de permanência na habitação
e prisão preventiva – al. a). Vale apenas nos casos em que o juiz tenha
aplicado, não nos casos em que o juiz tenha apenas mantido as medidas de
coação. Há uma diferença entre aplicar e manter. O legislador presumiu que
o juízo no momento da manutenção é muito menos exigente que no
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 15
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
momento de aplicação. A escolha das medidas de coação que
consubstanciam o impedimento tem que ver com os pressupostos para a
aplicação das mesmas, com o grau de juízo que o juiz tem de formar quanto
à responsabilidade do arguido e, dada a forte convicção que o juiz tem de
formar nestas medidas, ele fica impedido de intervir nas fases seguintes.
Esta alínea tem uma abrangência muito lata e por isso muito questionável.
O legislador não circunscreveu esta anterior intervenção a um momento
temporal. Claramente isto foi pensado para o caso de um juiz que tem uma
intervenção na fase de inquérito, mas a norma, na sua letra, não afasta a
possibilidade de impedimento do juiz que, na própria fase de julgamento,
aplica uma destas medidas de coação. O juiz que aplica uma destas medidas
de coação na fase de julgamento teria de sair do processo, lendo a letra da
alínea, o que não parece muito correto, isto poderia trazer consequências
desastrosas, quer da economia processual e da tramitação processual.
Assim, a alínea deve ser interpretado de forma restrita, não se aplicando a
estes casos, já que o que se procura prosseguir nesta alínea é a
imparcialidade do juiz e, na fase de julgamento já se verificaram os fortes
indícios, pelo simples facto de haver julgamento e o juiz não tem de verificar
os fortes indícios.
o Presidido ao debate instrutório – al. b). Trata-se de um impedimento já de
1977 e compreende-se a necessidade de impedimento porque este juiz é o
juiz que toma a posição da responsabilidade penal do agente, é ele que tem
que fazer o prognóstico da probabilidade de condenação do arguido e este
tem de demonstrar já um impedimento;
o Participado em julgamento anterior – al. c). Esta situação cobre o caso dos
juízes que são promovidos entre o julgamento e o recurso e este é
distribuído ao mesmo juiz. Mas também os casos em que o caso está em
recurso e no recurso o juiz ordena o reenvio do caso para o tribunal inferior
outra vez. O art. 426.º, n.º1 ressalva estas situações. A norma deve ser
interpretada na sua teologia, na finalidade que visa cumprir. O que a al. c)
visa proteger é a imparcialidade do juiz. O que se tem de avaliar é se uma
nova intervenção do juiz comprometerá a sua imparcialidade. A
jurisprudência a este propósito tem tido decisões contraditórias: no Ac. TRP
de 26/11/2008 estão todos impedidos e no Ac. TRP de 8/05/2013 há uma
leitura minimalista e diz que o juiz tem de ser o mesmo. Tem de haver um
meio termo: se forem os vícios da sentença que impliquem a revisão da
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 16
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
sentença não ditam o impedimento do juiz - Ac. TRC de 4/12/2013. Nuno
Brandão acredita que o que se procura proteger é a imparcialidade e, por
isso, só fará sentido apelar ao impedimento quando no julgamento anterior
o juiz formou uma posição sobre o mérito da causa, proferiu sentença,
posição sobre a responsabilidade penal do arguido. Se o juiz não chegou a
tomar posição sobre o mérito da causa, não deu sentença de mérito, então
não há razão para que ele fique impedido caso o processo regresse à
primeira instância. Nota: sentença é a decisão que conhece a decisão final do
processo. Mas ainda que o juiz tenha dado uma sentença, pode haver casos
em que o reenvio é determinado por algum vício da própria sentença e, por
isso, impõem-se a sanação desse vício e então é obvio que tem de ser esse
mesmo juiz a sanar o vício. Mas também as anulações que imponham a
reabertura da audiência para a prática de ato específico não parece ser caso
em que há um impedimento do juiz, não faz sentido que fosse outro juiz a
intervir, porque implicava todo um novo julgamento. O efeito útil desta
norma são os casos em que o juiz deu a sentença e há uma anulação da
audiência de julgamento que obriga a uma repetição integral da audiência
de julgamento. Esta alínea só deverá valer nestes casos, ou seja, quando se
tem de repetir integralmente a audiência de julgamento. Foi o que aconteceu
Ac. TRC, no caso de Ana Saltão, que em sede de recurso no STJ reenviou-se o
processo para a audiência de julgamento e intervieram novos juízes.
o Participado em recurso anterior – al. d). Semelhante à al. c), mas vale para a
fase de recurso. A lógica é a mesma. Ac. TC 147/2011 – “decide o Tribunal
Constitucional declarar, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade da norma
constante do artigo 40º do Código de Processo Penal na parte em que permite a intervenção no
julgamento do juiz que, na fase de inquérito, decretou e posteriormente manteve a prisão
preventiva do arguido, por violação do artigo 32º, nº 5, da Constituição da República
Portuguesa”.
o Na al. e) Temos três situações: 1) hipótese: Recusado o arquivamento em
caso de dispensa de pena, 2) hipótese: suspensão provisória ou 3) hipótese:
a forma sumaríssima por discordar da sanção proposta. Parece que o
legislador considerou que o juiz, ao tomar estas decisões, fica impedido de
intervir posteriormente no processo. Mas há casos muitos similares a estes
que não implicam o impedimento, pelo que há uma certa falta de harmonia.
Tanto a 1) hipótese como a hipótese 2) referem-se a decisões tomadas no
âmbito da instrução. Na hipótese 1) a dispensa de pena está prevista no art.
280.º CPP e carece da concordância do juiz de instrução. Na hipótese 2), está
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 17
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
prevista no art. 281.º e só pode ser aplicada pelo MP na fase de inquérito,
mas carece da concordância do juiz de instrução. Quando o juiz recusa a
suspensão provisória do processo o juiz fica impedido de participar no
mesmo na fase de julgamento. Mas, se o juiz refere que concorda com a
suspensão provisória do processo, o processo fica suspenso. Mas a
suspensão pode ser revogada pelo MP. Revogando o processo e a acusação
por parte do MP, se o processo for para julgamento e for entregue ao mesmo
juiz, este não se encontra impedido. Porque a lei apenas se refere ao juiz que
recusa, o que pode haver é uma suspeição, art. 43.º. Trata-se de um caso de
contradição interna. Por fim, a hipótese 3) remete para o art 392.º e ss CPP,
trata-se de um processo especial que assenta num consenso, concordância,
nos crimes cuja moldura legal não seja superior a 5 anos, que não possa ser
condenado numa pena não privativa da liberdade e prescinde-se da
audiência de julgamento. Se o juiz pode concordar ou discordar da
condenação proposta pelo MP. Quando o MP propõe ao juiz a condenação
naqueles termos, o juiz pode decidir que não ou pode aceitar. Pode dizer que
não com fundamento nas condições do art 395.º. Nas situações das al. a) e
b) não há impedimento. Mas pode dizer que não porque a sanção é
manifestamente insuficiente, al. c) e, nestes casos, o juiz fica impedido. Mas
o juiz também pode concordar com a condenação proposta pelo MP. Assim,
notifica o arguido para se pronunciar sobre a proposta condenatória. Se o
arguido dizer sim ou nada, então o processo termina. Mas o arguido pode
dizer que não aceita e este passa para a forma comum ou abreviada. Aqui
não há impedimento, por estranho que pareça. Há uma clara contradição da
al. e), que não cobre esta situação, mais grave. O TC já se pronunciou sobre
esta situação no Ac. TC 444/2012 já se pronunciou e entendeu que não há
inconstitucionalidade e não há impedimento – “Não julga inconstitucionais as
normas dos artigos 40.º, 43.º, n.º 2, e 398.º, todos do Código de Processo Penal, quando
interpretados no sentido de que o juiz que concordou com a sanção proposta pelo Ministério
Público em processo sumaríssimo, a qual não foi aceite pelo arguido, não está impedido de
intervir no julgamento subsequente desse mesmo arguido”.
Temos ainda um outro tipo de impedimento: o art. 39.º, n.º 2. Casos em que o juiz
tenha sido ouvido como testemunha ou deva ser ouvido como testemunha.
O que se pretende evitar é que esta pessoa, que tem conhecimento direto dos factos,
venha a ser juiz da causa, ainda que esteja em boas condições de julgar. Isto também para
viabilizar a observância da finalidade da descoberta da verdade material. Esta é uma norma
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 18
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
vulnerável a abusos, alguém sujeito processual, percebendo que o caso vai ser apreciado
por um juiz, e não querendo a sua presença, indica-o como testemunha. A lei prevê que
nestes casos, o juiz tem de declarar se tem ou não conhecimento dos factos que possam
influenciar o conhecimento da causa.
Como é que se efetiva no processo os impedimentos?
Art. 41.º e ss CPP. O juiz competente para declarar o impedimento será o próprio
juiz impedido. O que significa que o juiz, num tribunal coletivo, não pode declarar o
impedimento de um seu colega do coletivo. Ou num caso em que na 2ª instância se decide
anular a decisão da 1º instância e reenviar, quem tem de determinar o impedimento é o juiz
de 1.º instância.
O juiz pode e deve declarar-se, por sua própria iniciativa, mas também pode ser
suscitado por um outro participante do processo, em qualquer estado do processo.
Há quem entenda, Paulo Pinto Albuquerque e no Ac. STJ de 28.09.2011, que se tem
10 dias para se suscitar o impedimento, que é o prazo supletivo previsto no art. 105.º, n.º 1.
Mas parece ser errado. Das duas uma: ou não existe, ou existe, e se existe não faz sentido
que o juiz intervenha no processo, independentemente do prazo e do momento em que se
requer.
Se o impedimento for declarado, o art. 46.º CPP determina que o juiz impedido
(também vale para as recusas) deva ser substituído, de harmonia com as regras de
organização judiciária, matéria que está regulada no art. 86.º na LOSJ. Não é o juiz impedido
que vai escolher qual o juiz que o vai substituir, tem as regras do juiz natural.
Também desta decisão não cabe recurso, art. 42.º, n.º 1, 1.º parte CPP. O que pode
suscitar problemas, como a possibilidade de escrutínio da decisão. Porque o juiz que se
declare impedido sem o ser está a violar o princípio do juiz natural. Eventualmente poderá
ser resolvido no quadro dos conflitos de competência, porque o processo acaba por ir para
um juiz que não é competente. Por seu turno, se o juiz que deveria ter sido declarado
impedido e ele não o fez já cabe recurso, 2.º parte, do n.º 1 do art. 42.º e este recurso tem
um efeito suspensivo. Se o impedimento vier a ser declarado, os atos praticados pelo juiz
impedido são nulos, salvo se não poderem ser repetidos ou se verificar que não resulta
prejuízo para a justiça do caso – art 41.º CPP.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 19
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Suspeições:
Enquanto que os impedimentos correspondem a circunstâncias explícitas por parte
do legislador, na suspeição é diferente, trata-se do caso concreto. Podemos ter recusas e
escusas. Estas baseiam-se no risco sério e grave de a intervenção do juiz ser percecionada
como não imparcial, critério individual e objetivo. O que esta em causa é a atualização das
circunstâncias do caso concreto. Em certos casos, a suspeição assume um certo extremo
para o juiz, quando lhe é apontado uma intervenção parcial, que é a sua característica
principal, é por pôr em causa o seu trabalho. Assim, tem de haver cautela na verificação do
risco de falta de imparcialidade.
A cautela que se deve ter, motivo sério e grave, tem ainda que ver com o princípio
do juiz natural, que impede que uma causa seja subtraída ao juiz competente se não houver
base legal para esse efeito. Se assim não fosse, estava aberto o caminho para se retirar o
processo ao juiz indesejado. O uso desta figura tem de ser cuidadoso.
A jurisprudência tem sido confrontada com vários tipos de casos, mas entram aqui,
até por força da lei da própria lei, saber o que é um motivo sério e grave. Por um lado, é
seguro que um juiz que dá mostras de parcialidade é um juiz que não reúne condições para
influir na causa e que deve ser afastado. Por exemplo, se o juiz trata de forma diferenciada,
sem que haja razão, ao MP e ao defensor, permitindo a um que faça todas as perguntas e ao
outro não deixa fazer nenhuma. O juiz também não deve manifestar, seja no processo ou
fora dele, o sentido da sua decisão. Se o processo está em curso, se está a ser produzida
prova ou se um dos sujeitos ainda não deu a sua palavra final, então o juiz deve abster-se de
dar a entender qual a sua posição. Por exemplo, nas entrevistas aos órgãos de comunicação
social.
Há também as situações em que objetivamente se pode recear que o juiz não ofereça
condições de imparcialidade, mesmo que ele ache possa ser imparcial. Por exemplo, um juiz
que é amigo do arguido. A proximidade pode comprometer a sua aparência de
imparcialidade.
Também, certos tipos de intervenções anteriores, que não estão previstas no art.
40.º, podem pôr em causa a aparência de imparcialidade do juiz. Haverá hipóteses em que
o juiz tenha intervindo no processo anteriormente e, embora essa não implique o seu
impedimento, pode ser suficiente para suspeitar da imparcialidade que virá a ter. Por
exemplo, o juiz de instrução que aplica uma medida de coação de caução, dizendo que há
fortes indícios da prática de crime mas os crimes não são de tal ordem que se aplique a
prisão preventiva, ou algo parecido. Isto pode gerar dúvidas quanto à imparcialidade. O art
43.º, n.º 2 também vale para uma dimensão que não esta no art. 40.º - a intervenção do juiz
na fase de instrução. Mas não estando impedido não significa que não possa ter a sua
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 20
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
convicção já de tal maneira formada que dificilmente será imparcial. Isto pode justificar a
recusa do juiz de instrução na fase de inquérito e instrução. Há certas decisões que são
tomadas ao longo do inquérito que mostram que o juiz já formou uma convicção, por
exemplo, se autorizou buscas, vigilâncias, etc., medidas que pressupõem fortes indícios da
prática de crimes.
A intervenção de um juiz noutro processo: um processo que visa sobre uma matéria
conexa (matéria de facto) a outro processo que ele já interveio. Exemplo: um assalto ao
banco, 3 arguidos. Vai a julgamento o arguido 1 e 2 e o juiz condena. Mais tarde vai a
julgamento o arguido 3 e é distribuído ao mesmo juiz. Este facto pode constituir fundamento
de recusa ou escusa. O art. 31.º, n.º1, al. b) vale para intervenções em outros processos
penais, mas também para processos de outra natureza, cíveis, contraordenacionais.
As suspeições são declaradas por um tribunal superior, art 44.º e 45.º CPP. Aquele
que pretende suscitar a recusa do juiz deverá fazer mediante requerimento dirigido ao
tribunal superior. O juiz que pretende recorrer a sua própria escusa também tem de
apresentar requerimento ao tribunal superior. O tribunal superior dispõe de um prazo de
30 dias para decidir da recusa ou escusa e a decisão é irrecorrível – os prazos são os
previstos no art 44.º.
O princípio do juiz natural:
Este princípio, também designado de juiz legal, está consagrado no art. 32.º, n.º 9 da
CRP e impõe que a determinação do tribunal e juiz competente se baseie na lei. A fixação da
competência tem de ser feita de acordo com a lei. A CRP aponta neste sentido quando afirma
que uma causa não pode ser subtraída a um tribunal cuja competência esteja fixada por lei
anterior – proibição de desaforamento. Este princípio visa assegurar que o tribunal e o juiz
não sejam escolhidos por um dos interessados, mas designados através de critérios gerais
e abstratos, de forma a que não haja receios sobre a escolha do tribunal ou do juiz, de modo
a assegurar a aparência da imparcialidade do tribunal. Ou seja, evitar manipulações nas
escolhas.
A designação do tribunal e do juiz deve basear-se na lei e esta é o fator decisivo.
Mesmo que o juiz seja designado de forma arbitral e abstratamente, se não cumprir a lei,
viola a Constituição.
Este princípio aplica-se quer à fixação da competência de tribunais, quer à
intervenção de um certo juiz. A referência a “tribunal”, é no sentido de um certo tribunal e
juízo, ou seja, um sentido orgânico, mas também num sentido pessoal, a pessoa do juiz.
Quem decide, em último termo, não é a instância tribunal, mas sim a pessoa.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 21
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Este princípio aplica-se independentemente da fase em que se atua - vale para o
julgamento, recurso, inquérito e instrução: estão em causa atos de natureza jurisdicional.
O princípio é visto numa dimensão positiva e dimensão negativa, avançado pelo TC
no Ac. TC 614/2003. Este acórdão analisa o princípio na dimensão positiva (aquilo que
funda a competência) e na dimensão negativa (aquilo que pode retirar à competência).
Pela dimensão positiva, o juiz natural implica que a atribuição da competência
decorra fundamentalmente da lei, quer a lei do processo penal (art. 10.º), quer a LOSJ (Lei
n.º 62/2013 e DL n.º 49/2014). Tratar-se-á de uma invalidade sanável segundo o art. 119.º,
al. e). Mas no fim da linha, a competência é exercida por uma pessoa concreta, o juiz de
direito. A conclusão que deve ser “X” a ser o juiz da causa também advém da fundamentação
da lei, não há margem para escolhas arbitrarias, ad hoc. Nos últimos anos é sobretudo
através de intervenções indevidas dentro do sistema judiciário que o princípio do juiz
natural se encontra mais exposto, ao contrário do tradicional, onde os perigos vinham de
fora do poder judicial.
Pela dimensão negativa, proíbe-se que se subtraia uma certa causa penal do tribunal
e juiz competente, sem que haja base legal para o efeito. Só pode uma certa causa ser
deslocada de um para outro tribunal, fora os casos previstos na lei - proibição de
desaforamento, que consta da LOSJ, no art. 39.º. Esta dimensão abrange ainda a previsão do
art. 109.º, n.º 4 da CRP, que afirma a proibição de tribunais especiais (excluindo os
militares), ou seja, um certo tribunal que tenha competência exclusiva para julgar
determinados tipos de crimes e apenas estes. Proibição que tem que ver com a experiência
dos tribunais plenários do Estado Novo, experiência da ditadura. O que resulta daqui é que
o tribunal seja competente para julgar só um tipo de crimes, por exemplo, só crimes de
corrupção, seria não constitucional. O regime não proíbe que haja mudança de competência
em função de alterações da lei, embora a lei se refira a “lei anterior”.
Deste princípio resulta ainda que a competência do tribunal é fixada a partir de
normas legais aplicadas e a lei prevê várias espécies de competência: art. 10.º CPP e art.º
19.º e 24.º, competência material, territorial e por conexão. São normas que regulam vários
aspetos para a determinação do tribunal competente. A competência material diz respeito
às espécies de tribunais que devem intervir na primeira instância e, grosso modo, podemos
ter três tipos de tribunais: júri, coletivo e singular. Competência funcional diz respeito aos
tribunais competentes antes do processo chegar a julgamento e aos diferentes graus. A
competência territorial tem que ver com o lugar. Por fim, a competência por conexão diz
respeito aos casos em há a existência de uma conexão entre processos, no facto de num
mesmo processo se juntar, processualmente, de dois ou mais crimes ou duas ou mais
pessoas, necessitando de redefinir a competência. Por exemplo, um individuo matou uma
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 22
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
pessoa com uma arma para a qual não tinha licença. Para o crime de homicídio seria
competente o tribunal coletivo e para o segundo crime o tribunal singular. Mas o sujeito terá
que ser julgado simultaneamente pelos dois crimes, o tribunal competente será o
competente para o crime mais grave, o coletivo. Esta redefinição da competência resulta em
virtude de uma conexão processual.
As normas que concretizam os termos da competência são as que devem ser
mobilizadas para designar o tribunal competente, mas as coisas não são assim tão lineares.
Existe a questão de saber qual é a base para aplicar as normas de competência. Na fase de
julgamento a questão é simples. Para saber se existe competência ou não, o tribunal tem de
ter em conta a acusação ou pronúncia, para que na fase de julgamento possa fixar a
competência. O elemento a ter em conta é aquele que fixa o objeto do processo, art. 19.º, n.º
2. Mas se ainda não estamos na fase de julgamento, no caso da instrução. Nesta fase, qual é
o tribunal de instrução competente? Aqui, mais uma vez, a resposta deve ser dada em função
do teor da acusação, é a peça que fixa o objeto do processo que deverá ser tida em conta
para determinar a competência.
Este aspeto foi muito discutido a propósito da atribuição de competência para a
instrução em virtude de o processo ter sido conduzido num certo departamento do MP. O
art. 38.º, n.º 1 LOSJ, pensado sobretudo para o processo civil, foi invocado no contexto penal,
a competência fixa-se no momento em que a ação se propõem. Houve tribunais que
entenderam que o tribunal competente para a instrução era o mesmo que tivesse intervindo
na fase de inquérito. A propósito do tribunal central de instrução criminal foi objeto de
acórdãos, quer to TC quer STJ:
Ac. TC 41/2016 (“Julga inconstitucional a norma dos artigos 22.º, n.º 1, 23.º e 80.º, n.º 1, todos da Lei
de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, na redação introduzida pela Lei n.º 46/2011,
de 24 de junho, interpretados no sentido de que «apenas porque, na fase de inquérito, é cometida ao
Tribunal Central de Instrução Criminal a competência para a prática dos atinentes atos jurisdicionais,
deve essa competência estender-se à fase de instrução, mesmo que não verificados quaisquer dos
pressupostos, cumulativos, aliás, ali mencionados - isto é, mesmo que no processo não haja sido deduzida
acusação por qualquer dos crimes do catálogo do n.º 1 do artigo 47.º da Lei Orgânica do Ministério
Público, nem se verifique qualquer dispersão territorial da atividade criminosa”) - conclui pela
inconstitucionalidade das normas relativas à competência quando interpretadas no
sentido que é necessariamente para a instrução o tribunal que foi competente na
fase de inquérito, independentemente do conteúdo da acusação. Durante o
inquérito, “X” foi investigado no DIAP e o tribunal central de instrução criminal
praticou determinados atos; “X” foi acusado apenas pelo crime de branqueamento
de capitais; requer a instrução e o tribunal central de instrução disse que era
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 23
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
competente independentemente da acusação. O TC veio dizer que isto não podia ser
assim, porque violava o princípio do juiz natural.
Ac. STJ 2/2017, de fixação de jurisprudência, que conclui que o que conta para fixar
competência é o conteúdo da acusação para a abertura de instrução. Este acórdão
assumiu o entendimento de que a base a tomar em consideração é a acusação,
independentemente do tribunal competente para a fase de inquérito. Nesta mesma
lógica (o que releva é o objeto do processo) deverá ser tida em conta também na
determinação da competência no tribunal de instrução criminal na fase de inquérito.
Frequentemente há necessidade de na fase de inquérito praticar atos jurisdicionais,
é em função das normas aplicáveis que deverá ser fixado o tribunal de instrução
competente. O juiz de instrução criminal não é parceiro do MP, pelo que o juiz de
instrução tem de ver se tem competência à parte do MP, em função do objeto do
processo. É em função dos factos que estão em investigação que se fixa a
competência do tribunal e, por isso, quando recebe um pedido para a prática de
determinados atos tem de ver se os atos que estão a ser investigados cabem na sua
competência, nomeadamente pelas normas do art 19.º e ss – Diz o AUJ «Competindo ao
Tribunal Central de Instrução Criminal proceder a actos jurisdicionais no inquérito instaurado no
Departamento Central de Investigação Criminal para investigação de crimes elencados no artigo 47.º, n.º
1, da Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro (Estatuto do Ministério Público), por força do artigo 80.º, n.º 1, da
Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, aprovada pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro,
essa competência não se mantem para proceder à fase de instrução no caso de, na acusação ali deduzida
ou no requerimento de abertura de instrução, não serem imputados ao arguido qualquer um daqueles
crimes ou não se verificar qualquer dispersão territorial da actividade criminosa.»
No caso “teia”, durante o inquérito foram praticados atos de instrução pelo tribunal de
instrução do Porto, por atos de corrupção, que tinham relação com vários territórios,
distritos. O competente seria o tribunal central de instrução. Não é pelo facto de o processo
estar a ser investigado no DIAP do Porto que o tribunal do Porto é o competente.
Ainda em matéria de competência, na competência territorial, prevista no art. 19.º,
é competente o tribunal onde o crime se tenha consumado, ou onde cessou a consumação.
O que conta, em regra, é o lugar onde o crime se consumou. Se se tratar de um crime de
execução instantânea temos de ver se é de resultado (aqueles que a consumação depende
não só da prática de uma conduta, mas também da verificação de um evento distinto da
conduta e só há consumação se e quando o resultado ocorrer) ou mera atividade (basta-se
com a mera atividade). Há crimes que se consumam por atos sucessivos ou reiterados e
nestes o lugar competente é onde se dá o último ato. Este critério vale também para os
crimes duradouros ou permanentes (consumam-se de um só ato suscetível de se prolongar
ao longo do tempo por vontade do tempo).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 24
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
O art. 19.º, n.º 2 prevê uma regra especial para os crimes contra a vida, homicídios:
lugar onde o agente atuou ou devia ter atuado. Não é competente o tribunal onde a morte
ocorreu, mas o tribunal do lugar onde a conduta se verificou.
Uma coisa é a conexão de crimes, o processamento conjunto de vários crimes no
mesmo processo, outra coisa é a competência por conexão. Em regra, cada crime deve ser
processado autonomamente, cada processo por cada crime. A conexão de crimes no mesmo
processo só pode acontecer nos casos legais previstos, art. 24.º e 25.º. Isto vale não só para
a fase de julgamento, mas também vale para as fases preliminares. Outra coisa, diferente da
conexão, é a competência por conexão, art. 27.º e 28.º, o que esta em causa é uma redefinição
da competência em virtude de uma conexão. Casos em que a competência material e
territorial para o processamento de certo crime é desviada daquele que seria o competente
e é atribuído a outro, em virtude da conexão.
A questão da competência deve ser apreciada pelo tribunal que é chamado a intervir
num certo processo. Antes de o tribunal decidir a questão a que foi chamado a intervir, tem
de avaliar se tem competência para intervir na causa. Pode suceder que o tribunal conclui
que não é o tribunal competente, seja a nível material, seja a nível territorial, e quando assim
o é, o tribunal deve declarar oficiosamente, no processo, art. 32.º, n.º 1 CPP. A declaração de
incompetência pode ser requerida oficiosamente ou a pedido do MP ou de um sujeito
processual. Tratando-se de incompetência material ou funcional esta suscitação de
incompetência pode ocorrer até ao trânsito em julgado da decisão final. Se se tratar de uma
competência territorial vale o disposto no n.º 2, até ao início do debate instrutório ou início
da audiência de julgamento.
A intervenção de um tribunal incompetente gera a nulidade insanável, porque está
em causa o princípio basilar do processo penal, princípio do juiz natural, art. 119.º, al. e).
nestes casos, deve aplicar-se o art 33.º, n.º 1, 2º parte, anulam-se os atos que o tribunal
competente não teria praticado.
Poderá suceder que dois ou mais tribunais se julguem competentes ou
incompetentes para o mesmo processo. Nestas situações temos um conflito negativo de
competência ou conflito positivo de competência, art. 34.º e ss. O conflito é resolvido pelo
tribunal superior se esse conflito é entre os mesmos tribunais de alçada da Relação – art.
12.º, n.º 5, al. a). Se o conflito se instala em diferentes tribunais da Relação então é o STJ -
art. 11.º, n.º 6.
O art. 117.º da LOSJ prevê: distrito judicial – área do tribunal da Relação.
O tribunal central de instrução criminal está previsto no art 83.º, n.º 2 al. e), art.
116.º e art. 120.º da LOSJ, de competência territorial alargada. Este tribunal decide as
mesmas questões que todos os outros de instrução. O que está em causa não é competência
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 25
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
material, mas sim competência territorial. Este intervém nos casos do art. 120.º, nº 1 LOSJ,
que é composto por dois juízos. A intervenção deste tribunal depende de 2 pressupostos: a
existência de um crime de catálogo + é exigido que a atividade criminosa ocorra em
comarcas que pertençam a diferentes tribunais da Relação. O que conta não é o lugar da
consumação, mas o lugar da atividade criminosa.
II. MINISTÉRIO PÚBLICO
Ver Revista Do Ministério Público (caderno 6), “MP, hierarquia e processo penal”
É uma magistratura, órgão do Estado. Encontra-se no art. 219.º CRP.
No art. 219.º CRP temos as menções fundamentais para o estatuto do MP e as suas
funções no processo penal. Trata-se de uma magistratura, que atua com autonomia e tem
uma intervenção hierarquicamente subordinada.
A autonomia é concretizada no estatuto do MP (Lei 47/86) que foi recentemente
alterado (pode ser alvo de questões no CEJ). O MP goza de autonomia é correspetivo da
independência dos tribunais, essencialmente na externa. Há uma ligação do MP ao poder
político, na medida em que o Procurador Geral da República é nomeado pelo Presidente da
República, de acordo com a indicação do governo, mas depois da nomeação este é
autónomo, o seu corpo é autónomo do poder executivo e este não pode intrometer-se na
ação do MP, dando instruções sobre quem ou o quê que deve ser investigado. Isto é
fundamental para garantir a efetividade do princípio da legalidade e independência judicial.
O MP está organizado por uma estrutura hierárquica e de uns para os outros existe,
ou pode existir, um comando da atividade, ordens, diretivas ou instruções e, aqui,
diferenciam-se os magistrados do MP dos magistrados do tribunal, que são completamente
autónomos. O MP tem vários órgãos (art. 7.º do EMP), tipos de procuradores (art. 8.º EMP –
ter em atenção que isto vai mudar!).
Há a questão em saber qual o grau de supremacia e comando que a hierarquia tem
sobre o subordinado, quando é que um superior hierárquico pode influenciar as decisões a
tomar do seu subordinado. Isto no caso do processo de Tancos, quando o diretor do DCIAP
condicionou um comportamento de um subordinado. A questão não é pacifica, e ia ser
discutida no conselho superior do MP. O CPP prevê no art. 278.º um tipo de intervenção
hierárquica e a questão é saber, não estando previsto no CPP outras formas de influência
hierárquica, em que medida se pode aceitar estas influências, sendo certo que o superior
pode avocar os casos se a lei o prevê.
O MP caracteriza-se pela vinculação a critérios de legalidade e objetividade. Mais, o
art. 53.º e 219.º CRP – é o MP que tem legitimidade para promover o processo penal. Isto é
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 26
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
próprio de um sistema acusatório, que se liga ao art 32.º, n.º 5 CRP. Tem havido uma
tendência constitucional nos Ac. TC 694/97 e Ac. TC 517/96 onde estes sustentam que
destes artigos resulta uma exigência para o MP de promover a ação penal, o inquérito,
investigar. O art. 53.º, n.º 1 prevê que o MP colabore com o tribunal na descoberta da
verdade material e realização da justiça e, esta coaduna-se com a característica da
autonomia, concebendo o MP como um sujeito no processo penal, com um interesse
próprio. Esta ideia que o MP não intervém como parte é patente na forma como a norma do
art 53.º, n.º 2, al. d) está redigida, pois “pode recorrer no interesse exclusivo interesse da
defesa”, ou seja num interesse de legalidade, atuação autónoma e em conformidade com a
legalidade de forma objetiva e neutral.
Cabe ao MP a abertura do inquérito e a sua direção, por caracterização da sua
autonomia. Também cabe exclusivamente ao MP decidir do encerramento do inquérito, se
acusa, arquiva, etc. Cumpre ao MP sustentar a sua acusação, seja na instrução seja no
julgamento. E este poder-dever de sustentação não implica uma procura da condenação sem
mais. Se o MP concluir que não há indícios da prática do crime na fase de instrução ou no
julgamento deve pedir a absolvição do arguido. Também não é o facto de o MP sustentar a
absolvição do arguido que não pode retirar a acusação e, nessa medida, o tribunal pode
eventualmente condenar se se provar.
Também compete ao MP interpor recursos, a favor ou contra o arguido, art. 53.º, n.º
2, al. d) e art. 401, n.º 1, al. a) e cabe também promover a execução das penas e medidas de
segurança, art. 53.º, n.º 2, al. e) e art. 469.º.
Aula de 29/10/2019
III. ASSISTENTE
Art. 68.º e ss.
O assistente é um verdadeiro sujeito processual na medida em que tem bastante
autonomia no processo. Está também ligado à figura do ofendido, tendencialmente o
assistente corresponde ao ofendido, estando do lado do MP para colaborar na prossecução
dos fins processuais.
Através desta figura concretiza-se um previsão constitucional que consta do art.
32.º, n.º7 da CRP, de acordo com a qual o ofendido tem o direito de intervir no processo nos
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 27
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
termos da lei. É através do assistente que o ofendido pode participar no processo e
colaborar na justiça penal.
Há de todo o modo uma certa resistência nos ordenamentos processuais penais
quanto à intervenção dos particulares no processo penal, ao qual o processo português tem
sido externo. Isto acontece porque a justiça pertence ao Estado, é uma justiça pública e, por
isso, a intervenção de um particular no processo pode entrar em fricção com o objetivo do
processo penal. Isto implica alguns cuidados sobre os assistentes que possam intervir no
processo, nomeadamente, quanto aos particulares que intervêm no processo penal para fins
alheios e não para que se faça justiça. Há um conceito restritivo de ofendido e tem que haver
uma regulamentação rigorosa dos poderes processuais do assistente, prevenindo que os
use de forma perversa.
Nesta matéria há, para se adquirir o estatuto de assistente, um pedido para a
constituição de assistente, não é automática. Mesmo nos crimes particulares há uma espécie
de ónus para o ofendido se constituir assistente, mas não há uma obrigação.
Os pressupostos para se constituir como assistente são vários:
o Legitimidade – art. 68.º, n.º1
o Tempestividade
o Representação judiciária
o Pagamento da taxa de justiça
Art. 68.º, n.º1 – Legitimidade
Tendencialmente a legitimidade pertencerá ao ofendido mas além do ofendido
haverá outros casos que porventura se poderá constituir como assistente. Este conceito de
ofendido distingue-se do conceito de assistente, existem ofendidos que não são assistentes
e assistentes que não são ofendidos. O ofendido (participante no processo) distingue-se do
lesado (parte civil do processo) e da vítima (art. 67.º-A).
Art. 68.º, n.º1, al. a) refere-se aos crimes públicos; A al. b) faz uma remissão para o
art. 113.º, n.º1. Em termos de dinâmica processual a questão só se põe quando a pessoa se
quer tornar assistente e assim o expressa.
O ofendido é o titular do interesse que aquela norma incriminadora visa proteger,
não é qualquer pessoa. Há um conceito estrito de ofendido. Tem que haver cautela na
definição do círculo das pessoas que podem intervir no processo. Este conceito escrito
condiciona-se com o próprio tipo incriminador que está em causa (art. 68.º, n.º1, al. a), há
uma conexão estreita entre o tipo legal de crime, o bem jurídico que se visa proteger e a
titularidade do bem jurídico.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 28
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Quando há uma pretensão para a constituição de assistente é preciso vermos que
factos estão no processo, por exemplo, “A” agrediu “B” e causou-lhe várias ofensas à
integridade física; a seguir vamos ver qual o artigo que se enquadra nos factos, neste caso é
o art. 143.º, n.º1; e depois vemos qual é o interesse aqui protegido, ou seja, o bem jurídico,
que é a integridade física; e, por fim, vê-se de quem é a titularidade do bem jurídico, neste
caso é o “B” que é portador do bem jurídico.
Mas há problemas que poderão surgir quanto à maior ou menor proteção dos bens
jurídicos: diferença entre bens jurídicos individuais (pessoais, não pessoais e patrimoniais)
e bens jurídicos coletivos. Nos bens jurídicos individuais patrimoniais as coisas são mais
complicadas para averiguar quem é o ofendido, por exemplo, quando há um furto o ofendido
é o proprietário da coisa furtada, pois é ele o titular do bem jurídico. Ac. De fixação de
jurisprudência (Ac. STJ 7/2011 – “No crime de dano, previsto e punido no artigo 212.º, n.º 1, do Código
Penal, é ofendido, tendo legitimidade para apresentar queixa nos termos do artigo 113.º, n.º 1, do mesmo diploma,
o proprietário da coisa «destruída no todo ou em parte, danificada, desfigurada ou inutilizada», e quem, estando
por título legítimo no gozo da coisa, for afectado no seu direito de uso e fruição”) veio dizer que aquele que
detém o uso da coisa legitimamente também pode ser ofendido, ou seja, casos em que em
vez de proprietário é usufrutuário – Nuno Brandão e Costa Andrade acham que esta
construção é demasiado ampla, alargando em demasia o conceito de ofendido.
Há uma conexão muito estreita entre esta consagração do ofendido e a parte especial
do CP, pois nos tipos legais identificamos quem pode ser ofendido. Caso paradigmático é o
da burla, onde às vezes o enganado não é o lesado; nestas situações o ofendido não é o
burlado mas sim quem sofreu o prejuízo patrimonial.
Neste contexto quem pode considerar-se ofendido, no âmbito dos bens jurídicos
individuais, os chamados crimes complexos, que são aqueles que tutelam vários bens
jurídicos onde podemos ter vários ofendidos. No crime de roubo protege-se a propriedade,
a integridade física e a liberdade de disposição dos bens.
A par dos bens jurídicos ditos individuais temos os chamados bens jurídicos
coletivos ou supraindividuais. Há grande controvérsia sobre o que é um bem jurídico
coletivo. Na perspetiva de Nuno Brandão não se deve considerar bem jurídico coletivo
aquele bem jurídico que possa ser fracionado, dividido ou distribuído. Saber se pode um
certo interesse ser faticamente ou normativamente divisível e adstrito a pessoas
individuais, se isso acontecer é um somatório de bens jurídicos supraindividuais, se isto não
for possível estamos perante um bem jurídico coletivo.
Mas havendo um crime que é protegido supraindividualmente pode uma pessoa
individual constituir-se assistente no processo? Tradicionalmente dizia-se que não, durante
muito tempo na jurisprudência entendeu que sendo um bem jurídico coletivo ninguém se
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 29
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
poderia constituir como assistente, porque o bem protegia todos. Ao longo do tempo houve
uma flexibilização, potenciada por Figueiredo Dias e Anabela Miranda Rodrigues, pois
embora seja uma interesse coletivo há uma pessoa individual onde o bem jurídico se
manifesta, não havendo obstáculo à constituição de assistente; esta flexibilização foi
acompanhada pela jurisprudência e atualmente vem sendo frequente a admissão da
constituição de assistente em crimes que visam interesses coletivos, por exemplo no Ac. STJ
1/2003 que versa sobre a falsificação de documentos – “No procedimento criminal pelo crime de
falsificação de documento, previsto e punido pela alínea a) do n.º 1 do artigo 256.º do Código Penal, a pessoa cujo
prejuízo seja visado pelo agente tem legitimidade para se constituir assistente.”; e no Ac. STJ 8/2006 sobre
um bem jurídico supraindividual que é a administração da justiça (o mesmo acontece nos
crimes de depoimento falso/falso testemunho) – “No crime de denúncia caluniosa, previsto e punido
pelo artigo 365.º do Código Penal, o caluniado tem legitimidade para se constituir assistente no procedimento
criminal instaurado contra o caluniador”. Também se entende que no crime de desobediência, em
certas formas de desobediência, podem haver pessoas individuais que tenham interesse em
participar no processo, pois o bem jurídico é a autonomia intencional do Estado.
Art. 68.º, n.º1, al. c) – caso em que ofendido morre. Aqui há uma espécie de sucessão,
com o requisito de ser maior de 16 anos, indo de acordo também a al. d).
Art. 68.º, n.º1, al. e) – qualquer pessoa singular ou coletiva poderá constituir-se
assistente relativamente a estes crimes que protegem bens jurídicos coletivos. Pode suceder
que num certo caso concreto não haja ninguém que possa constituir-se assistente, pois não
há ninguém em especial onde o interesse se exprima. Esta norma tem uma virtualidade, que
é viabilizar a intervenção externa no inquérito quando estão em causa crimes que atingem
bens jurídicos coletivos relativamente aos quais ninguém se pode qualificar como
assistente, abrindo a possibilidade de qualquer pessoa o fazer para abrir a instrução do
processo criminal. Por exemplo, se o MP arquivasse um processo beneficiando o arguido,
não havendo assistente ninguém poderia requerer a abertura da instrução, esta alínea vem
prevenir que isso aconteça, permitindo que qualquer pessoa intervenha nestes crimes que
são de interesse público. É através desta norma que cidadãos que são jornalistas têm
requerido a sua intervenção como assistentes, por exemplo, no caso Sócrates; mas tal como
todos os outros, os jornalistas que intervêm no processo e estando esse processo em
segredo de justiça eles têm que cumprir o segredo. Mas às vezes também se corre o risco de
pessoas intervirem como assistentes no processo, não para colaborar com o MP mas para
colaborar com o arguido. Os assistentes devem ter advogado, se existirem 10 assistentes
não é preciso um advogado para cada um, pode existir apenas um a representar os 10.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 30
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Normas legais avulsas podem admitir legitimidade para constituir assistente, por
exemplo o DL 28/84 no art. 43.º, Lei 20/2006, Lei 35/98, sindicatos em processos-crime
contra trabalhadores, etc.
Art. 70.º - Representação judiciária dos assistentes
Havendo vários assistentes são todos representados pelo mesmo advogado, exceto
se tiverem interesses diferentes, nesses casos cada um terá o seu conforme os seus
interesses.
Ac. STJ 15/2016 – «Nos termos do artigo 70.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, o ofendido que seja
advogado e pretenda constituir-se assistente, em processo penal, tem de estar representado nos autos por outro
advogado.»
Art. 68.º, n.º3 – Tempestividade
O requerimento para ser assistente tem que ser apresentado em tempo.
Estes prazos do n.º3 referem-se ao requerimento. Os intervalos temporais são os
seguintes: durante o inquérito, enquanto o inquérito está em curso pode fazê-lo a qualquer
momento; no fim do inquérito podemos ter uma acusação ou um arquivamento, no caso de
acusação o interessado tem 10 dias para se constituir assistente, no caso de arquivamento
tem 20 dias para requerer a instrução após o despacho de encerramento de inquérito; se o
processo seguir para a instrução enquanto a instrução estiver em curso pode constituir-se
assistente; quando é marcado o debate instrutório pode constituir-se assistente até 5 dias
antes do debate instrutório – a lei pretende assegurar com quem pode contar no debate
instrutório, principalmente ao arguido e, se o ofendido não se tiver constituído assistente
até agora ninguém vai perguntar ao ofendido se está ou não de acordo, não pode recorrer
dos despachos instrutórios; se for na fase de julgamento pode constituir-se assistente até 5
dias antes da audiência de julgamento; após a sentença tem até 30 dias até ao recurso.
Esgotado este tempo não há possibilidade para se constituir assistente.
Artigo. 68.º, n.4 – pagamento da taxa de justiça e procedimento para a constituição
como assistente
1 UC. Em regra, quem tiver apoio judiciário ou se a lei o prevê, impõe-se o pagamento
de uma taxa de justiça para a constituição de assistente em processo penal.
Quando o interessado requer a sua constituição como assistente, essa pretensão
deve ser dirigida ao juiz de instrução ou ao juiz de julgamento. O juiz deve ouvir o MP e o
arguido. Este direito de audição, para que seja devidamente exercido, pressupõe que as
pessoas tenham conhecimento do pedido, ou seja, a notificação deve ser acompanhada do
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 31
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
requerimento de constituição de assistente. Uma vez dado o contraditório, o juiz decide por
despacho. Seja qual for a decisão do despacho, esta é suscetível de recurso, quer do MP quer
do arguido, quer do requerente. É um recurso a conhecer pelo Tribunal da Relação. Se for
aceite, o requerente passa a ter um estatuto de assistente no processo, mas é um estatuto
precário durante o inquérito e a instrução, a sua subsistência existe se e enquanto se
mantiverem os pressupostos que estiveram na base da concessão do estatuto como
assistente. Se os factos deixarem de fazer parte do objeto do processo então ele perde o
estatuto de assistente no processo.
Por exemplo, um casal que se separou e começou a ter atitudes contra a senhora e,
numa ocasião, encontrou a senhora e insultou-a, agredindo o seu novo companheiro
também. No inquérito ambos se constituíram como assistentes. Depois houve acusação por
injúria e crime contra a integridade física. O arguido pediu a instrução e disse que não tinha
cometido nenhuma injúria. Foi-lhe dada razão e o crime de injúria foi retirado. Assim, a
senhora perdeu a sua qualidade como assistente no processo.
Art. 69.º - Posição processual e atribuições dos assistentes
Sendo o assistente admitido no processo ele passa a ter um conjunto de direitos
processuais em relação aos factos quanto aos quais detém legitimidade para ser assistente.
O art. 69.º, n.º2 diz quais os atos que competem ao assistente.
Na al. a):
Durante o inquérito o assistente pode requerer o segredo de justiça (art. 86.º, n.º2).
Pode ter acesso ao inquérito (art. 89.º, n.º1).
Se o MP decidir encerrar o inquérito com suspensão provisória do processo deve,
em regra, obter a concordância do assistente (art. 281.º, n.º1, al. a).
Se o processo transitar para a instrução pode requerer provas e assistir aos atos de
instrução que nela tenham lugar (art. 289.º, n.º2); durante estes atos processuais o
advogado do assistente pode reformular as perguntas que achar pertinentes (n.º2).
Durante a instrução tem o direito a participar e a intervir no debate instrutório (art.
302.º).
Na al. b):
Findo o inquérito, se houver arquivamento, o assistente pode requerer a
intervenção hierárquica (art. 278.º, n.º2) ou requerer a instrução (art. 287.º, n.º1, al.
d).
Se houver acusação pública o assistente pode acompanhar essa acusação (art.
284.º).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 32
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Quando é chamado a prestar declarações, o assistente não as presta na qualidade de
testemunha mas sim de assistente, não presta juramento (art. 145.º, n.º4), na
audiência de julgamento quem coloca as questões é o juiz (art. 346.º), é ouvido logo
depois do arguido.
Durante a audiência de julgamento, o assistente também pode intervir através de
um advogado, marcando presença. O advogado pode colocar questões a
testemunhas indicadas pelo MP e ao arguido. Podem ser ouvidos em questões que
seja necessário contraditório. O advogado também pode requerer a produção da
prova (art. 284.º).
No fim da audiência de julgamento o advogado pode proferir as alegações finais (art.
360.º, n.º1).
Na al. c):
Se a decisão instrutória for recorrível e se o assistente tiver interesse, pode recorrer
(decisão instrutória de não pronúncia).
No fim da audiência de julgamento o advogado do assistente pode proferir alegações
finais (art. 360.º, n.º1).
O advogado pode recorrer das decisões que não concorde.
No recurso, o assistente pode responder ao recurso interposto pelo arguido.
Se houver recurso também pode o assistente intervir no recurso.
Aula de 5/11/2019
IV. ARGUIDO
Autêntico sujeito processual.
Num sistema adversarial deve haver uma paridade de armas onde quem é atacado
deve poder defender-se em pé de igualdade relativamente a quem acusa. Por isso o arguido
tem um conjunto de direitos e garantias para se defender.
No processo penal português o arguido é o sujeito passivo do processo, pois é contra
quem o processo é desenvolvido, tendo-lhe sido atribuída essa qualidade. Ao contrário do
que acontece com o suspeito, não há nenhuma definição legal de arguido no código,
encontramos é normas que definem em que termos e circunstancias alguém adquirirá o
estatuto de arguido.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 33
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Há um interesse em destacar este sujeito em contraste com os demais. Em processo
penal temos um arguido, em processo civil temos um réu. Há necessidade da criação da
figura do arguido para prever um estatuto que contenha direitos e deveres processuais.
O legislador sentiu-se na obrigação de estatuir a figura do arguido muito devido ao
estigma que passava na sociedade, especialmente através dos meios de comunicação social.
Assim, a lei regula através dos arts. 57.º a 59.º como se estabelece a qualidade e
estatuto de arguido a determinada pessoa. Este regime pode ser visto por dois prismas, por
um lado há uma obrigatoriedade da constituição da pessoa como arguido quando se
verificam certas circunstâncias, sendo um ato legalmente obrigatório de forma a proteger a
pessoa que se confronta com um processo nessas circunstâncias; por outro lado, não
estando reunidas estas circunstancias no caso concreto não é legalmente admissível a
constituição como arguido. É um domínio legalmente vinculado, não se constitui alguém
como arguido sem motivos, estamos no domínio de atos legalmente obrigatórios, não
discricionários.
Outra coisa é o momento em que se obriga à constituição de arguido. Por exemplo,
detenção em flagrante delito, em que quando surge esta circunstância o momento para a
constituição como arguido é imediato. Art. 272.º CPP prevê que não pode ser deduzida
acusação antes do arguido ter conhecimento. O momento em que ele é informado é o
legislador que diz, verificada certa circunstância há constituição como arguido.
Quando alguém é chamado ao processo como testemunha num crime e, pelo que ela
diz, chega-se à conclusão que essa testemunha fez parte do crime estamos no âmbito do art.
126.º, na medida em que é uma prova proibida.
A lei prevê 3 tipos de situações para a constituição como arguido:
1. Obrigatoriedade – art. 58.º, n.º1 e 59.º, n.º1
2. Automática por via legal – art. 57.º, n.º1
3. A pedido do próprio visado – art. 59.º, n.º2
Constituição de arguido obrigatória:
Na elaboração originária do código não havia propriamente a previsão da
obrigatoriedade da constituição como arguido durante o inquérito. O arguido só era
obrigatoriamente constituído no final do inquérito, antes disso dependia, podia ser ou não.
Esta possibilidade de termos um inquérito completamente à margem da pessoa investigada
foi muito questionada na prática, pois tem que haver a possibilidade de, durante o inquérito,
a pessoa que está a ser investigada pelo menos saber que o está a ser. Neste sentido impôs-
se a possibilidade da abertura do processo àquele que é investigado ainda antes da
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 34
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
investigação. Mas as condições para o exercício da defesa na fase do inquérito são
substancialmente mais reduzidas de forma a também não perturbar o andamento da
investigação.
Hoje o corpo normativo central do estatuto do arguido é o art. 58.º, que tem que ser
lido em conjunto com o art. 272.º, n.º1. Se houver um inquérito contra uma pessoa, essa
pessoa deve ser interrogada na qualidade de arguido; daqui resulta que, se o MP se
convencer que essa pessoa, contra quem a investigação decorre, reúne indícios suficientes
que praticou um crime, não a poderá acusar (art. 283.º) sem que essa pessoa se constitua
arguido, é uma imposição legal obrigatória.
O STJ no Ac. STJ 1/2006 já foi confrontado com a consequência do art. 120.º, n.º2, al.
d) e entendeu que a omissão desse ato obrigatório determina a nulidade do inquérito – “A
falta de interrogatório como arguido, no inquérito, de pessoa determinada contra quem o mesmo corre, sendo
possível a notificação, constitui a nulidade prevista no artigo 120.º, n.º 2, alínea d), do Código de Processo Penal”.
Há um dever durante o inquérito de constituir a pessoa como arguido e interrogá-lo
nessa qualidade, isto liga-se ao 58.º, n.º1, al. a), que estabelece uma situação muito
importante, sendo que aqui fundamentalmente se pretende garantir que aquele que é
confrontado com o processo possa beneficiar dos direitos e garantias processuais que são
previstas para o arguido, daí haver uma obrigatoriedade da constituição dessa pessoa como
arguido, de forma a poder efetivar as suas garantias. Pretende evitar que o visado seja
induzido a prestar declarações contra ele mesmo, sem saber que ele é o alvo, não sabendo
que se pode remeter ao silêncio de forma a não se prejudicar. Quer-se efetivar um direito
fundamental que é o direito à não autoincriminação. Art. 58.º, n.º5 faz com que as provas
não possam ser utilizadas contra a pessoa que a prestou. O que preocupou o legislador foi
isto, foi a pessoa ser levada ao engano e produzir prova que pode ser prejudicial para o
próprio. No art. 58.º, n.º1 diz que é “obrigatório”, verificada esta situação é obrigatório que
imediatamente essa pessoa seja constituída arguido, para que possa, por exemplo,
constituir um defensor, remeter-se ao silêncio, etc.
No art. 58.º, n.º1. al. d) refere-se ao auto de notícia que está no art. 243.º, n.º3, na
medida em que o auto de notícia equivale a uma denúncia. Só depois do auto de notícia é
que há inquérito, o auto de notícia vale como denúncia, não como prova. Se nenhuma norma
legal atribuir valor probatório ao auto de notícia não vale como prova.
Quando alguém é chamado ao processo sem estar constituído arguido, as
declarações que essa pessoa proferir não podem ser usadas contra ela, pois se se chegar à
conclusão que essa pessoa praticou algum crime significa que ela devia ser constituída
arguido e não foi, por isso é um erro do MP e não podem valer as provas, pois seria uma
violação do princípio da proibição da autoincriminação. Não pode haver defraudação do
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 35
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
regime processual do art. 58.º. É necessário fazer uma avaliação da suspeita fundada ou
infundada, face aos elementos que existem, de forma a poder formar uma convicção de
forma a saber se a pessoa praticou ou não o crime. Isto vale para os casos formais em que
uma pessoa é chamada ao processo, como também nos casos informais em que a polícia é
chamada ao local. Se a polícia quer recolher informações relativamente ao suspeito só o
pode fazer se constituir essa pessoa como arguido. Se objetivamente a suspeita existir e não
for dado cumprimento a esse dever processual essas declarações não podem servir como
prova nem anteriormente nem posteriormente ao processo, sejam essas declarações
formais ou informais.
Ac. STJ de 22/04/2004 em que houve vários incêndios numa localidade e correu o
rumor que esses incêndios tinham sido ateados por “X”, o capitão da polícia foi indagar até
que ponto “X” teria ou não provocado os incêndios, concluindo que efetivamente tinha sido
ele. O polícia levou fotógrafos e chamou outras pessoas ao local. Em julgamento o agente da
GNR contou aquilo que lhe teria sido contado pelo arguido. O STJ entendeu que isto poderia
ser valorado como prova, visto que houve confissão do arguido. Esta perspetiva é muito
rígida porque nem foi informado nem constituído como arguido, isto permite uma
defraudação do regime legal. Art. 356.º, n.º7.
E nos casos em que a suspeita não é fundada? A lei não obriga à constituição do
visado como arguido, mesmo sendo chamado ao processo. Mas a lei não diz em que termos
essa pessoa deve ser ouvida, não há um estatuto processual claro. Na prática estas pessoas
são frequentemente ouvidas na qualidade de testemunha. Nuno Brandão não acha
apropriado tratar estas pessoas como testemunhas, mesmo que seja dada a oportunidade
de, se assim quiserem, serem constituídos como arguidos de acordo com o art. 59.º, é
forçado e não se coaduna com aquilo que é a ideia própria de testemunha, essa pessoa deve
ser ouvida na qualidade de suspeito (art. 1.º, al. e)). O suspeito também é titular do direito
à proibição da autoincriminação, sendo visto como um direito fundamental nos termos do
art. 18.º, n.º1 CRP.
O art. 58.º também prevê outros casos de constituição como arguido na al. b) e nos
termos do art. 192.º, n.º1 quanto às medidas de coação e garantias patrimoniais, com
ressalva nos n.º 3 a 5 do 192.º.
O art. 59.º, n.º1 estabelece o último caso de constituição obrigatória como arguido,
sempre que durante uma inquirição for formada a suspeita fundada que o depoente é
suspeito da prática do crime deverá ser suspensa imediatamente para se constituir arguido.
Se a pessoa não se constituir arguido, aquilo que ela tiver dito não vale como prova de
acordo com o n.º4 e 5 do art. 58.º.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 36
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Constituição como arguido a pedido do próprio:
Também há situações, no art. 59.º, n.º2, de constituição de arguido a pedido do
próprio, em que as diligências afetam pessoalmente uma pessoa, esta situação tem que
verificar 2 requisitos: (1) é necessário que a pessoa que está a ser alvo da diligencia seja
suspeito: pode acontecer que uma diligência que está a ser realizada interfira com alguém
que não é suspeito, por exemplo, uma testemunha; (2) se houver uma suspeita, o direito a
ser constituído como arguido pressupõe que esteja a ser visada uma diligencia que
pessoalmente a afete. Quem atribui o estatuto de arguido é o MP ou os OPC, há necessidade
de ser efetivado de imediato o ato para que a pessoa em causa possa de imediato beneficiar
do estatuto processual de arguido. Esta constituição opera através dos termos do n.º2 do
art. 58.º e, com esta constituição, deve ser informado dos seus direitos e deveres, incluindo
o direito ao silêncio.
No art. 58.º, n.º3 quando um OPC constitui alguém como arguido deve logo informar
ao MP que o fez, no prazo máximo de 10 dias. E o MP também no prazo de 10 dias deve
avaliar essa constituição no sentido de validar ou não a constituição como arguido. Esta
validação só vale para os casos em que a polícia constituiu alguém como arguido. Não é
muito clara a consequência da inércia do MP quanto a esta validação.
Constituição de arguido automática por via legal:
Art. 57.º é o ultimo caso que prevê a constituição como arguido, que é automática,
constituição ope legis; art. 253.º. São casos residuais, dizem respeito a situações em que não
é possível convocar o visado para ser ouvido como arguido, casos em que a pessoa está em
parte incerta. Se não lograr a notificação da acusação, vale o disposto no art. 283.º, n.º5. A
data da audiência do julgamento deve ser informada ao acusado, se ele continuar ausente o
tribunal tem que declarar a contumácia do arguido, se existirem vários arguidos tem que se
separar os processos (art. 30.º).
O art. 57.º também cobre a hipótese onde é requerida a instrução contra
determinada pessoa, mas onde não tenha sido atribuída a essa pessoa a qualidade de
arguido, justamente porque houve uma suspeita infundada. Uma vez aberta a instrução essa
pessoa passa a ser arguido no processo. Mas é pressuposto para a admissibilidade da
instrução que tenha corrido um inquérito anteriormente.
O art. 60.º prevê a posição processual do arguido. Enquanto não houver uma decisão
sobre a responsabilidade penal do arguido ele mantem-se arguido. A qualidade de arguido
implica para a pessoa em questão deveres e direitos. Está associada à necessidade de prever
um estatuto de deveres, nomeadamente, cumprimento de medidas de coação.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 37
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Os direitos e deveres processuais do arguido estão no art. 61.º.
No n.º 6 do art. 61.º especifica vários deveres processuais do arguido:
Al. a) o arguido está obrigado a apresentar-se no processo sempre que for
convocado. Se o individuo faltar ao cumprimento deste dever poderá ser detido (art.
116.º, n.º2). A falta injustificada poderá constituir a quebra de uma caução,
perdendo o dinheiro (art. 208.º, n.º1).
Al. b) prevê que nas situações em que o arguido é chamado ao processo e é sujeito a
interrogatório durante o processo - aplica-se o disposto no 141.º, n.º3. Na audiência
de julgamento também prevê essa identificação no 342.º, n.º1. Se não responder
quanto à sua identidade o tribunal pode condenar num crime de desobediência (art.
348.º CP). Se fizer declarações falsas, comete um crime contra a realização da justiça
do art. 359, n.º2.º CP.
Al. c) o tribunal tem interesse quanto aos antecedentes criminais do arguido, através
do acesso ao registo criminal. O TC, nos anos 90, entendeu que violava o direito
fundamental à não autoincriminação (ao obrigar o arguido a prestar declarações
sobre o seu registo criminal) mas, persistiu na fase de inquérito a possibilidade de
perguntar ao arguido sobre os seus antecedentes criminais, onde a lei poderia
prever situações onde fosse possível perguntar ao arguido sobre os seus
antecedentes criminais; essa previsão legal foi entendida pelo STJ como valendo
para o primeiro interrogatório, como para os interrogatórios da polícia, sendo
também entendido como não inconstitucional pelo TC. Em 2013 a lei foi alterada e
foi suprimido do art. 61.º a possibilidade do arguido ser questionado sobre os seus
antecedentes criminais, por isso os OPC não devem questionar arguidos sobre
antecedentes criminais, se for colocada essa pergunta pelos OPC o arguido não está
obrigado a responder e, se porventura responder falsamente o arguido não incorre
na pratica de nenhum crime.
Al. d) – o arguido tem o dever de cumprir as medidas que lhe são impostas. Não é
uma faculdade, é uma imposição. O arguido também pode ser sujeito a diligências
de prova, por exemplo, exame corporal, alcoolímetro, etc. Em regra o arguido não é
só sujeito, pode ser objeto de prova, o que pode levantar problemas quanto ao
princípio da proibição da autoincriminação.
O arguido também é titular de direitos e garantias processuais – art. 32.º, n.º1 CRP
(direito fundamental do arguido à plenitude da defesa, que depois é concretizado em
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 38
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
diversas fases do processo). No art. 32.º CRP encontramos a enunciação de vários direitos
fundamentais do arguido, do cidadão perante o Estado + art. 61.º CPP.
1) Direito fundamental à presunção de inocência
É um direito do cidadão face ao Estado, são os órgãos do Estado que têm que
presumir o arguido inocente. Este direito, no processo penal, tem uma extensão
bastante ampla e permanece até ao trânsito em julgado da sentença condenatória. É
o Estado que tem que provar que o arguido é culpado, precisamente por ele se
presumir inocente.
Esta interpretação da inocência tem várias implicações, como é o caso de enquanto
ele for presumido inocente não pode haver pena, a pena é uma sanção criminal que
pressupõe a culpa do agente, por isso, enquanto a sentença não for transitada em
julgado não há culpa. Isto significa que vale para qualquer pena, desde a pena de
prisão até à admoestação, qualquer pena só pode ser executada depois do trânsito
em julgado. Toda a privação da liberdade antes do trânsito em julgado será
descontada na execução da pena em que é condenado.
Este princípio implica também, porque ele se presume inocente, que as liberdades
fundamentais do arguido não devem ser restringidas no decurso do processo, a
menos que haja necessidades processuais que o justifiquem (medidas de coação).
Também tem implicações no plano da prova, no sentido que não há um ónus da
prova contrário ao arguido, a condenação deve fundamentar-se numa decisão
razoável e, em caso de dúvida, essa duvida será valorada a favor do arguido (in dubio
pro reu).
2) Direito fundamental a uma decisão razoável
O arguido tem direito a uma decisão justa e razoável.
3) Direito fundamental à defesa
Art. 61.º, n.º1, al. a) relativamente ao direito de assistência está intimamente
ligada com a al. b) que diz respeito ao direito à audiência.
Art. 61.º, n.º1, al. c) está ligado ao art. 141.º, n.º4 al. d).
Com o direito à audiência está relacionado o princípio do contraditório (art. 32.º,
n.º5, parte final CRP), este direito ao contraditório é um direito fundamental do
arguido, que lhe permite contraditar os factos que lhe forem imputados. Nas
fases iniciais do processo este direito está muito comprimido, sobretudo na fase
do inquérito; na instrução também é um contraditório especialmente curto (art.
289.º); na fase do julgamento o contraditório deve ser pleno, isto mesmo está
previsto no art. 327.º que vale para a fase do julgamento.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 39
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Direito à prova (art. 61.º, n.º1, al. g) - na audiência de julgamento e sempre que
estejam em causa atos suscetíveis de afetar as suas liberdades fundamentais o
arguido pode produzir prova.
Direito a um defensor (art. 32.º, n.º3 CRP)
Direito a um juiz (art. 32.º, n.º4 CRP) e juiz legal/natural (art. 32.º., n.º9 CRP)
4) Princípio da não autoincriminação (nemo tenetur se ipsum accusare) também é um
princípio fundamental.
Não há nenhuma norma expressa na CRP que confira ao arguido o direito a não se
autoincriminar mas é visto pela generalidade da doutrina e jurisprudência como um
direito fundamental e com estatuto constitucional.
Não podem obrigar o arguido, fraudulentamente, a prestar uma prova que o
autoincrimine. O principio proíbe que o arguido seja forçado a autoincriminar-se,
deste principio resulta que a existência de qualquer contributo probatório do
arguido para a descoberta da verdade no processo seja livre da sua informada
vontade (tem que ser uma vontade livre e informada, como forma de
autodeterminação pessoal e não como forma de uma imposição externa de
colaboração).
Este principio abrange certos tipos de intervenções do arguido:
Cobre claramente a prestação de declarações (“o declarar no processo”), é
um elemento nuclear relativo a este princípio do direito ao silêncio.
Cobre outras eventuais formas de colaboração: entrega de documentos;
assinatura de autógrafos; recolha de saliva; soprar para o aparelho de forma
a medir o álcool; recolha de sangue; substâncias corporais; submeter o
arguido ao p300 ligado ao cérebro através de ondas (usado em Espanha,
EUA).
A razão de ser do princípio da não autoincriminação radica em formas que
alicerçam o principio em correntes objetivas ou subjetivas, com fundamentos
materiais ou formais. Isto importa para saber se é uma garantia absoluta ou
relativa, pois assim vemos se poderá ser restringida em certos casos. Temos que
saber qual é o fundamento do princípio e qual a sua razão de ser: duas grandes
correntes de fundamentação:
Corrente substantiva (predomina na Alemanha e é minoritária em Portugal,
defendida por Costa Andrade e Sandra Oliveira e Silva): impor à pessoa
de que incrimine a si mesma é atentar contra a pessoa, violando o principio
da dignidade da pessoa humana, tem a ver com o instinto de auto-
preservação humana. É um princípio absoluto porque a dignidade da pessoa
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 40
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
humana é intocável. Também se apela ao direito fundamental da livre
autodeterminação da vontade/livre desenvolvimento da personalidade (art.
26.º, n.º1 CRP). Não é suscetível de compressões.
Corrente processual: é uma fundamentação processual com várias
propostas de fundamentação do principio: Maria João Antunes diz que
radica do direito à presunção de inocência e, assim sendo, não tem que fazer
prova contra si mesmo. Fernanda Palma, Silva Dias, Costa Ramos
defendem que assenta em várias dimensões, como o direito de defesa,
estrutura acusatória (fair trial). Há todo um conjunto de explicações de
natureza processual que são avançadas pela maioria da doutrina portuguesa
e o TC tem justificado o principio da proibição da autoincriminação, sendo
para o TC um princípio com natureza processual.
O núcleo do princípio da não autoincriminação é constituído pelo direito ao
silêncio, o arguido tem direito a falar e a calar-se. Via de regra, o direito ao
silencio radica do direito à não autoincriminação, mas pode acontecer que o
arguido tenha direito ao silencio quando não esteja em causa o risco de
autoincriminação, nomeadamente, onde no mesmo processo se agregam vários
tipos de factos e o arguido só responde por um facto, não por todos (ex: processo
Marquês).
Consagração legal do direito ao silêncio: art. 61.º, n.º1, al. d) – critério geral; arts.
343.º, n.º1 e 345.º, n.º1 (fase de julgamento). O silêncio a que o arguido se
remeta não pode ser valorado (345.º, n.º1 - consagra-se o direito ao silêncio
parcial).
O silêncio parcial do arguido pode ser valorado? O arguido fala de algumas coisas
mas não responde a outras, a lei toma posição ao dizer que este silêncio parcial
não pode ser valorado. Não pode o silêncio servir de fundamentação para
agravar a pena do arguido, apesar da lei dar ao arrependimento um efeito de
atenuação especial da pena, a ausência de arrependimento não pode ser
valorado, o processo penal não é uma instância moralizadora, o que pode valorar
é se o arguido manifestar perigosidade de voltar a cometer crimes, mas o
silêncio não pode ser valorado.
No que diz respeito a intervenções formais do arguido no processo quanto aos
factos que lhe são imputados, o direito não impõe restrições ao direito ao
silêncio; pode em todo o caso estar já em curso o processo, o arguido estar já a
ser investigado sem saber que o está, e certas coisas que ele diz são contra o
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 41
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
próprio arguido (p. ex. ações encobertas) – aqui há uma indução em erro e
poderá haver uma restrição ao direito ao silêncio.
Outro tipo de contributos probatórios poderão estar abrangidos no princípio da
proibição da autoincriminação: atos de entrega de documentos impostos ao
arguido; redigir um texto pelo próprio cunho (autógrafos); soprar o balão num
teste de álcool.
Não está incluído no princípio: a extração de saliva para teste de ADN, a
participação numa prova de reconhecimento, a administração de substância
eméticas (produtos que sendo ingeridos por uma pessoa provocam certas
reações corporais que leva as pessoas a expelir coisas que tem dentro do corpo).
Casos do TEDH Bogumil vs. Portugal e Jalloh vs. Alemanha.
Ac. TC 155/2007 – “Julga inconstitucional, por violação do disposto nos artigos 25.º, 26.º e 32.º,
n.º 4, da Constituição, a norma constante do artigo 172.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, quando
interpretada no sentido de possibilitar, sem autorização do juiz, a colheita coactiva de vestígios
biológicos de um arguido para determinação do seu perfil genético, quando este último tenha
manifestado a sua expressa recusa em colaborar ou permitir tal colheita e, consequencialmente,
julga inconstitucional, por violação do disposto no artigo 32.º, n.º 4, da Constituição, a norma
constante do artigo 126.º, [Link] 1, 2, alíneas a) e c), e 3, do Código de Processo Penal, quando
interpretada em termos de considerar válida e, por conseguinte, susceptível de ulterior utilização e
valoração a prova obtida através da colheita realizada nos moldes descrito”.
Critérios para saber se certa exigência de prova está ou não protegida pelo
princípio da proibição da autoincriminação:
critério da atividade – questão de saber se aquele contributo probatório
exige do arguido uma conduta ativa de fazer alguma coisa ou se exige apenas
o dever de tolerar/suportar passivamente que o Estado lhe faça qualquer
coisa – TEDH diz que é critério da existência da prova independentemente
da vontade.
Exemplo: não há nenhuma norma legal que obriga o arguido a entregar
documentos, o arguido tem uma atividade ativa nessa entrega - documentos
entregues por entidade sob coação num processo laboral ou administrativo
pode responsabilizar penalmente o sujeito – Ac. TC 298/2019 “Julga
inconstitucional a interpretação normativa dos artigos 61.º, n.º 1, alínea d), 125.º e 126.º, n.º 2,
alínea a), todos do Código de Processo Penal, segundo a qual os documentos fiscalmente
relevantes obtidos ao abrigo do dever de cooperação previsto no artigo 9.º, n.º 1, do Regime
Complementar do Procedimento de Inspeção Tributária e Aduaneira e no artigo 59.º, n.º 4, da
lei geral tributária por uma inspeção tributária realizada a um contribuinte, durante a fase de
inquérito de um processo criminal pela prática de crime fiscal movido contra o contribuinte
inspecionado e sem o prévio conhecimento ou decisão da autoridade judiciária competente,
podem ser utilizados como prova no mesmo processo”. Diferentemente, nos casos em
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 42
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
que a prova é recolhida nos momentos em que aquela entidade não é
arguida, por exemplo, inspeção das finanças à empresa, aqui a empresa tem
que colaborar e não pode alegar a presunção da inocência, pois ainda não é
arguida; o problema não está no momento de fiscalização, o problema está
na possibilidade de depois transferir essa prova para o processo penal – o
TC em vários acórdãos, nomeadamente o Ac. TC 340/2013 que entendeu
que pode haver essa transferência no âmbito de crimes de tributários (“não
julgar inconstitucional a norma resultante da interpretação do disposto nos artigos 61.º, n.º 1,
d), e 125.º, do Código de Processo Penal, com o sentido de que os documentos obtidos por uma
inspeção tributária, ao abrigo do dever de cooperação imposto nos artigos 9.º, n.º 1, 28.º, n.º 1
e 2, 29.º e 30.º do Decreto-Lei n.º 413/98, de 31 de dezembro, e nos artigos 31.º, n.º 2, e 59.º, n.º
4, da LGT, podem posteriormente vir a ser usados como prova em processo criminal pela prática
do crime de fraude fiscal movido contra o contribuinte”); entendeu o mesmo no Ac. TC
360/2016 no âmbito de valores de mercado (“Não julga inconstitucional
interpretação normativa retirada dos artigos 383.º a 386.º do Código dos Valores Mobiliários
(processo de averiguações promovido pela CMVM) e interpretação normativa retirada dos
artigos 116.º e 120.º do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, 361.º
do Código dos Valores Mobiliários, 41.º e 54.º do Regime Geral das Contraordenações, e 126.º e
261.º do Código de Processo Penal (supervisão dos Reguladores, dever de colaboração e prova
em processo sancionatório)”). Costa Andrade, na conceção absoluta quanto a este
propósito, diz que pode haver a recolha destes elementos mas que não se
podem transferir para o processo. O TC tem uma posição muito diferente,
dizendo que é relativo e por isso é suscetível de restrições, é preciso verificar
se há decisão legal, se é decidida por um juiz, se é consentânea com o
princípio da proibição do excesso, e tem que se verificar se a restrição não é
de tal ordem que atente contra o núcleo essencial do princípio da proibição
da autoincriminação. Nestes casos tem-se entendido que a entrega de
documentos em entidades administrativas está abrangida pelo principio da
proibição da autoincriminação o que não implica que elas possam ser
transferidas, desde que estejam verificados os pressupostos referidos
anteriormente.
Proibição do engano: saber se uma colaboração obtida através de um engano
poderá ou não ser valorada. Aqui há controvérsia em saber se o principio da
não autoincriminação abrange o engano. A tendência maioritária vai sendo
no sentido positivo, sobretudo na tendência do TEDH. Abrangido pelo 58.º,
n.º5 CPP e 126.º, n.º2, al. a) CPP.
Caso das ações encobertas: se se admitir que o princípio abrange condutas
enganosas então não será de excluir a possibilidade de este também cobrir
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 43
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
as ações encobertas. A questão é que aqui há uma restrição legal, tem base
legal.
Caso das escutas: a questão é saber se estão abrangidas pelo princípio da
proibição da autoincriminação e entende-se que não estão.
O princípio da proibição da autoincriminação vale para o suspeito também.
Ac. Fixação de jurisprudência STJ 14/2014 onde o STJ fixou jurisprudência
no sentido de que os arguidos que se recusarem à prestação de autógrafos
incorrem na prática de um crime de desobediência (“Os arguidos que se recusarem
à prestação de autógrafos, para posterior exame e perícia, ordenados pelo Exm.º Magistrado do
M.º P.º, em sede de inquérito, incorrem na prática de um crime desobediência, previsto e punível
pelo artigo 348.º, n.º 1 b), do Código Penal, depois de expressamente advertidos, nesse sentido,
por aquela autoridade judiciária”). Saber se pode ser imposto o dever de redigir
um texto para ser comparado com outro, no sentido de saber se há ou não
falsificação. Nuno Brandão diz que está abrangido aqui o princípio da
proibição da autoincriminação e que o acórdão andou mal. Aqui a questão
era saber se poderia ou não ser condenado pela prática de um crime por não
ter redigido o texto, temos que saber se a ordem é legítima e, até poderíamos
admitir que existia essa legitimação, nomeadamente através de uma lei, mas
tem que haver uma base legal (art. 172.º CPP); também é estranho que seja
o MP a ordenar, pois devia ser o juiz a ordenar a colaboração; a legitimidade
da ordem tem que ser aferida em concreto, não em abstrato, pode
efetivamente acontecer que existam papeis redigidos à mão pelo arguido e
que possam ser recolhidos e não seja necessário obrigar o arguido a
escrever.
Aula de 12/11/2019
V. DEFENSOR
Sujeito processual que é o advogado do arguido. O nome técnico do advogado do
arguido é o defensor, não é necessário fazer a distinção entre advogado por procuração.
Tem um estatuto autónomo com direitos e deveres próprios, por isso é que é
qualificado como sujeito processual.
O direito ao defensor é um direito fundamental do arguido no processo penal (art.
32.º, n.º3 CRP). Num Estado de Direito aquele que é alvo de um processo penal deve poder
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 44
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
ter um defensor. A CRP contempla que em certos casos a lei preveja a obrigatoriedade da
assistência por advogado. Este direito é depois concretizado no CPP: arts. 61.º, n.º1, als. e)
e f); e art. 62.º e ss.
Para a defesa ser efetiva tem que ser uma defesa técnica, ou seja um jurista que
conhece as normas penais e esteja em pé de igualdade com quem acusa o arguido. A lei
permite que só os advogados ou advogados estagiários possam ser defensores (art. 1.º,
n.º10 da Lei 49/2004), podendo o arguido escolher aquele que quiser. Este direito à escolha
pode sofrer algumas limitações, nomeadamente, para certos atos processuais onde seja
obrigatória a assistência por advogado, por exemplo ser chamado pelo MP para fazer
declarações, se o arguido neste ato não for acompanhado por defensor ele tem que nomear
um defensor, o chamado defensor oficioso (art. 64.º); nestes casos não é o arguido que
escolhe. Diferentemente, pode dar-se o caso do arguido requerer um defensor oficioso por
não ter meios económicos (apoio judiciário) e aqui também não tem possibilidade de
escolher qual é o advogado oficioso que o vai defender. Também está limitado o direito à
escolha do defensor nos casos em que o próprio arguido é advogado.
A defesa por advogado é imprescindível para viabilizar o direito ao silêncio e à
defesa, tendo um advogado que possa falar por ele, senão para se defender tinha que falar.
São exigências e dimensões que justificam a razão de ser do direito ao defensor. Há também
razões que relevam na necessidade à realização da boa justiça, pois é interesse do Estado
que a defesa do arguido seja alguém que domine a defesa no processo. O interesse público
na previsão do defensor é invocado e justifica-se para proibir a autodefesa. O advogado não
se pode autodefender e também não se pode tornar assistente.
Ac. TC 578/2001 que considerou não inconstitucional a proibição do advogado-
arguido ser defensor de si mesmo – “O argumento essencial do acórdão assenta na ideia de que o "agir
desapaixonado" de um advogado torna-se "uma garantia mais acrescida no processo criminal", mas isto é falacioso.
Exactamente ao arguido pode interessar mais um "agir apaixonado" na condução do seu processo e ninguém
melhor do que ele sabe e pode controlar essa "paixão" (e no presente caso, sendo o arguido advogado de profissão,
mal se compreende, independentemente dos seus direitos estatutários, que seja impedido de assinar um
requerimento de interposição de recurso jurisdicional para tribunal superior, só o podendo fazer um mandatário
por ele constituído para tal fim).”. Ac. STJ 1-07-2009; Ac. TRP 5-12-2018. Todos no sentido de que
não é admissível defesa em causa própria. Isto está na base de que a acumulação de papeis
se tornaria disfuncional no processo, sobretudo na audiência de julgamento (por exemplo,
ouvir uma testemunha sem a presença do arguido onde tem que estar o defensor, sendo o
arguido defensor dele próprio seria tudo isto disfuncional).
O direito à assistência por defensor (art. 61.º, n.º1, al. f) e art. 144.º, n.º4) é um direito
que assiste ao arguido e não uma obrigatoriedade, em certos atos processuais. Para que a
assistência seja efetiva o arguido e o defensor devem poder comunicar entre si, mesmo que
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 45
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
o arguido se encontre privado da liberdade. Isto só é assegurado se ambos puderem ter a
expectativa sobre o que disserem um ao outro não ser escutado por outras entidades,
nomeadamente entidades judiciárias. O Estado deve abster-se de procurar intrometer-se
no fluxo comunicacional entre o advogado e o arguido, quer ele esteja em liberdade quer
esteja preso. Art. 187.º, n.º5 e art. 180.º. A intromissão do Estado nesta comunicação entre
arguido e advogado é extremamente gravosa.
Distinta da assistência por defensor é a representação por defensor. Há inúmeros
atos em que o advogado representa o arguido, nomeadamente porque certos atos são
enviados para o advogado e não para o arguido, como é o caso das peças processuais. Há
certos atos que não admitem representação, deve ser o arguido a praticá-los (art. 63.º, n.º1),
por exemplo, o requerimento para que seja julgado na ausência (art. 334.º), concordância
para a suspensão provisória do processo, concordância com uma condenação em processo
sumaríssimo, concordância para uma alteração substancial dos factos, etc.
A terceira parte do art. 32.º, n.º3 da CRP determina que a lei especifique as fases e
os casos em que a assistência por advogado é obrigatória (art. 64.º). Esta exigência
constitucional é cumprida pelo art. 64.º CPP que estabelece um conjunto de casos em que é
obrigatória a assistência por defensor. Se o ato processual for realizado sem a assistência
do defensor, sendo esta obrigatória, gera uma nulidade insanável.
Tem-se considerado não inconstitucional a não obrigatoriedade de defensor no caso
de prova por reconhecimento - Ac. TC 532/2006 “Decide não julgar inconstitucional a norma do artigo
147.º do Código de Processo Penal enquanto interpretada no sentido de que não impõe a presença obrigatória de
defensor no reconhecimento nele disciplinado, realizado perante os órgãos de polícia criminal e com observância
de todas as formalidades legais previstas no mesmo preceito.”. Não inconstitucional a falta de assistência
do defensor para concordância de suspensão provisória do processo no Ac. TC 67/2006
(“Tanto basta para que se conclua que a norma do artigo 281.º em conjunto com o artigo 64.º do mesmo Código,
interpretada no sentido de ser dispensada a assistência de defensor ao arguido no acto em que este é chamado a
dar a sua concordância à suspensão provisória do processo, não viola o n.º 3 do artigo 32.º da Constituição”).
Aula de 26/11/2019
SOBRE O PAPEL DA VÍTIMA EM PROCESSO PENAL
Ver tese de Filipa Pereira, “o papel da vítima no processo penal português”.
Ver tese de Magda Cerqueira, “o estatuto da vítima e as suas implicações no processo penal português”
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 46
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Art. 67.º-A – “Estatuto de todas as vítimas”, quis-se “recentrar a vítima no processo”
através da Lei 130/2015.
Algumas notas:
A vítima que não se constitui assistente tem agora o direito a oferecer provas.
A vítima pode constituir-se assistente após a leitura da sentença.
O conceito de vítima inclui não apenas a pessoa diretamente atingida pela prática do
crime mas também os que a cercam e sofrem consequências com isso (familiares da vítima
e familiares da vítima especialmente vulnerável).
É garantida à vítima o acesso a informação muito alargada, que vai desde o tipo de
serviços ou organizações a que pode dirigir-se para pedir apoio, como informação relativa
às condições em que tem direito à notificação das decisões proferidas no processo penal.
No momento da denúncia é assegurado à vítima o direito de assistência gratuita e à
tradução da confirmação escrita da denúncia, numa língua que compreenda, sempre que
não entenda português.
O órgão de polícia criminal deve ouvir as vítimas em gabinetes adequados
(privacidade).
As vítimas especialmente vulneráveis têm um estatuto próprio.
As inquirições da vítima especialmente vulnerável devem ser realizadas pela mesma
pessoa, se a vítima assim o desejar e desde que a tramitação do processo penal não seja
prejudicada.
As inquirições de vítima especialmente vulnerável (que simultaneamente sejam
vítimas por violência sexual, baseada no género ou em relações de intimidade) deve ser
realizada por pessoa do mesmo sexo, se assim o desejar e desde que a tramitação do
processo penal não seja prejudicada.
Determina-se que ouça a vítima mesmo quando há alteração da medida de coação.
PRINCÍPIOS RELATIVOS À PROMOÇÃO PROCESSUAL
Tem a ver com o impulsionamento dos atos que promovem o andamento do
processo. Neste âmbito há 3 princípios muito importantes: princípio da oficialidade,
princípio da legalidade da promoção processual e princípio da acusação.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 47
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
I. PRINCÍPIO DA OFICIALIDADE
Responde a uma questão de legitimidade: quem tem legitimidade para promover o
processo penal. A legitimidade pertence a uma entidade pública/oficial, o MP.
Art. 219.º, n.º1 da CRP + art. 48.º do CPP – legitimidade. Se nada for dito em contrário é
ao MP que cabe promover o processo, isto tem a ver com os bens jurídicos que tratamos
neste tipo de processo. Não é preciso justificar a legitimidade do MP para promover o
processo, esta é a regra; só deve ser justificada quando não se cumprir a regra e a
legitimidade pertencer a outra entidade, por exemplo, nos casos de violência doméstica.
Neste contexto do principio da oficialidade faz-se a distinção entre 3 tipos de crimes:
crimes públicos (art. 48.º CPP), semipúblicos (49.º CPP, 113.º e ss. CP) e particulares (art.
50.º CPP, 117.º CP e 285.º CPP).
1) Crimes públicos:
O MP tem plena legitimidade para abrir o inquérito e para decidir da acusação
no processo, valendo este princípio de forma plena. Nestes casos o processo é
indisponível. Nestes crimes, que são públicos, o processo pode iniciar-se e
avançar independentemente e contra a vontade do ofendido.
Os dois momentos mais importantes são: a abertura do inquérito (art. 241.º) e
o encerramento do inquérito e, a questão é saber se o MP, no momento em que
toma conhecimento da notícia da prática do crime, tem legitimidade para abrir
inquérito - aqui, depende da natureza do crime, se o crime for público o MP pode
abrir o inquérito e, esta legitimidade persiste no momento do encerramento do
processo, onde o MP tem legitimidade para decidir se remete ou não para o
julgamento (despacho de acusação ou arquivamento); a aquisição da notícia do
crime pode ser adquirida por várias vias: conhecimento próprio, OPC ou
denúncia (art. 241.º). Mesmo que o ofendido manifeste a sua oposição ao
processo, o MP pode continuar a investigação do processo.
Os crimes públicos não têm a ver com o bem jurídico ser individual ou
supraindividual, mas é natural que o MP tenha legitimidade nos bens jurídicos
coletivos, mas há bens jurídicos pessoalíssimos que também são públicos, por
exemplo, o homicídio, ofensas à integridade física agravadas.
2) Crimes semipúblicos:
Aqui o princípio da oficialidade não funciona de maneira plena como nos crimes
públicos, há uma limitação. O MP aqui não dispõe, por si só, de liberdade para
autonomamente determinar a abertura do inquérito, essa legitimidade só
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 48
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
existirá se o ofendido exercer o seu direito de queixa. Os crimes semipúblicos
são crimes cujo procedimento criminal depende de queixa (art. 49.º).
Esta limitação da legitimidade do MP pode decorrer de várias razões: estar em
causa uma ofensa ligeira a um bem jurídico que não tem uma gravidade tal que
reclame uma reação penal sempre que aconteça, podendo não acontecer se o
ofendido não apresentar queixa (crimes de pequena ou média gravidade); alívio
do sistema judiciário quanto a crimes menos graves; facto de por vezes só
através do próprio ofendido é que é possível adquirir a perceção da natureza
criminal do facto, onde para algumas pessoas estamos perante um crime e para
outras não, por exemplo, certas práticas sexuais, certas ofensas verbais entre
amigos, etc.; necessidade de prevenir a dupla vitimização, pois há certos crimes
que apesar de serem graves estão sujeitos ao regime dos crimes semipúblicos,
dependendo de queixa, porque há receio que o processo agonize o trauma do
crime, por exemplo, nos crimes sexuais (o processo em si mesmo, a averiguação
dos factos, naturalmente implicará uma devassa da vida da vítima, do exame ao
seu corpo, etc. o que poderá ser traumático para a vítima e agonizar o trauma
que já existe com o crime), o processo criminal depende da vontade da vítima
(por exemplo, art. 178.º CP).
Os crimes semipúblicos são caracterizados pela dependência de queixa para o
processo criminal. É o legislador que determina a natureza dos crimes, sendo a
regra o princípio da oficialidade, ou seja os crimes públicos, é o legislador que
diz quais são as exceções. No 143.º, n.º2 CP por exemplo, relativo às ofensas à
integridade física que remete para o CPP no art. 49.º, quando nada diz no artigo
é um crime público. Nos crimes sexuais e nos crimes contra a honra, a natureza
do processo criminal é geral porque aparece no final do capítulo (art. 178.º e
188.º).
O MP não tem legitimidade para abrir o inquérito nos crimes semipúblicos, só
quando é exercido o direito de queixa (validamente apresentada). A partir da
queixa, sendo válida, tudo se passa como se fosse um crime público e o MP
exerce a promoção do processo e tem o poder-dever de abrir o inquérito e, no
final do inquérito, é o MP que detém legitimidade para decidir do encerramento
do inquérito, nomeadamente para acusar. A partir da queixa tudo é muito
idêntico aos crimes públicos, a única coisa que muda é que nos crimes
semipúblicos o ofendido pode pôr termo ao processo através da desistência da
queixa, contrariamente aos crimes públicos que não fazem depender da vontade
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 49
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
do ofendido o andamento do processo. Se o arguido já tiver sido constituído, a
desistência da queixa faz depender da não oposição do arguido.
Direito de queixa:
Natureza hibrida (matéria penal e processual) destes institutos faz com que
derive do CP e não do CPP – art. 113.º CP. Este artigo 113.º CP prevê que a
legitimidade para o exercício do direito de queixa, que só releva nos crimes
semipúblicos, por parte do ofendido. O STJ, a propósito do crime de dano e o
conceito de ofendido, entendeu no Ac. De fixação de jurisprudência STJ 7/2011
que o ofendido era o proprietário e aquele que legitimamente detenha a coisa,
esta lógica vale também para o furto e abuso de confiança (“No crime de dano, previsto
e punido no artigo 212.º, n.º 1, do Código Penal, é ofendido, tendo legitimidade para apresentar
queixa nos termos do artigo 113.º, n.º 1, do mesmo diploma, o proprietário da coisa «destruída no
todo ou em parte, danificada, desfigurada ou inutilizada», e quem, estando por título legítimo no
gozo da coisa, for afectado no seu direito de uso e fruição”). Às vezes acontece que o terceiro
que não é ofendido apresenta uma queixa e o MP avança para a investigação na
convicção de que é um crime público e depois vê que afinal é um crime
semipúblico (por exemplo um furto em que um terceiro que não é ofendido
apresenta queixa e pensando ser um furto qualificado o MP segue com a
investigação e vê que afinal é um furto simples), nestas circunstâncias o MP deve
arquivar o inquérito porque o procedimento criminal é legalmente inadmissível
(art. 277.º, n.º1, parte final CPP).
Art. 113.º, n.º2 refere-se ao caso em que o ofendido morreu sem ter apresentado
queixa, prevê-se uma sucessão no direito de queixa. Se o ofendido não exerceu
direito de queixa e morre (1) ou estando ainda vivo estava em tempo de
apresentar a queixa (por exemplo o crime foi cometido há um mês e ele morreu
hoje, ainda estava em tempo de apresentar queixa, por isso as pessoas indicadas
no artigo podem exercer o direito de queixa do ofendido falecido), (2) ou já
passou algum tempo e não exerceu a tempo o direito de queixa, tendo agora
falecido, essas pessoas indicadas no artigo não podem apresentar queixa por ele
(por exemplo crime aconteceu há um ano e ele ainda não tinha apresentado
queixa).
Art. 113.º, n.º4 determina que o ofendido menor de 16 anos deve ser o
representante legal a exercer o direito de queixa, pois este direito pressupõe a
capacidade do ofendido. Também pode acontecer que o ofendido seja maior de
16 anos mas se encontre num estado de incapacidade, também aqui há direito
de queixa pelo representante legal.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 50
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Art. 113.º, n.º5 – grande polémica nos crimes sexuais contra menores levou à
existência do n.º5 e do n.º6 do art. 113.º.
Prazos para extinção do direito de queixa:
Art. 115.º: aqui é um prazo de extinção e não um prazo para o exercício do direito
de queixa, pois mal o crime é cometido pode ser exercido o direito de queixa. Em
regra, o prazo para a extinção do direito de queixa só se inicia apos verificadas
2 condições: conhecimento do crime e conhecimento do autor. Enquanto não
houver o conhecimento destas duas condições (facto e autor) a contagem do
prazo não se inicia. O ofendido pode apresentar queixa mesmo não sabendo
quem foi o autor (queixa contra incertos) mas o prazo conta a partir do momento
em que sabe qual o facto e qual o autor, extinguindo-se passados 6 meses desse
conhecimento.
Contudo, há sempre o limite prescricional do procedimento criminal.
Indivisibilidade da queixa:
Art. 114.º: Há um princípio neste contexto, que é o princípio da indivisibilidade
da queixa, em que o ofendido não pode escolher as pessoas que vão ser objeto
do procedimento criminal, por exemplo, em caso de comparticipação vale para
todos os que cometeram o crime, o ofendido não pode escolher só um ou alguns.
Daqui resulta que há lugar a uma extensão da queixa quando ela seja
apresentada apenas contra alguns dos autores. Por exemplo, o ofendido
desconhece a identidade do agente (queixa contra incertos) e o MP a partir daqui
está legitimado a perseguir criminalmente todas as pessoas que estiveram na
prática do crime; ou quando o ofendido sabe que “A” foi agente da prática do
crime, é claro que o MP tem legitimidade para perseguir “A”, mas vamos
imaginar que “B” instigou “A” e aqui aplicamos o art. 114.º e estendemos a
queixa a “B”; ou quando o ofendido sabe que “A” e “B” foram agentes do crime e
apresenta queixa apenas contra “A”, aqui vale o art. 114.º mais uma vez. O facto
de apresentar queixa apenas contra um não impede que o MP alargue o
inquérito aos demais ofendidos – Ac. TRC de 12/10/2005 (bem decidido) e em
sentido contrário o Ac. TRG de 20/02/2009, basta que o ofendido se queixe de
um para o MP poder perseguir todos os agentes.
Art. 115.º, n.3 – por exemplo, “A” sabe que “B” foi agente do crime e não exerce
o direito de queixa: sendo o crime cometido em janeiro de 2019 e sabendo que
“A” foi agente do crime, também desde essa data, mas não exerce o direito de
queixa contra “A”, suponhamos que em outubro de 2019 o ofendido descobre
que houve comparticipação de “B” nesse crime, mas já não pode exercer o direito
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 51
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
de queixa contra “B” porque em junho (passados 6 meses) extinguiu o direito de
queixa contra “A” e não se pode selecionar agentes de acordo com o dito
princípio, por isso não pode também apresentar queixa contra “B”.
Renúncia à queixa:
Art. 116.º: tendo o ofendido renunciado o direito à queixa não pode depois vir
dizer que o quer exercer (venire contra factum proprium), o ofendido pode
declarar expressamente que abdica da queixa, mas também pode resultar de
forma tácita/implícita, por exemplo, quando o ofendido e o suspeito chegam a
acordo, que pode ser percetível através de atos concludentes. Na renuncia
expressa temos, no art. 72.º, n.º2 CPP, o legislador a dizer-nos: se decide ir pela
via cível automaticamente renuncia ao direito de queixa e não pode enveredar
pelo direito penal.
Exercício do direito de queixa:
A queixa deve ser apresentada pelo próprio ofendido ou pelo mandatário
munido de uma procuração forense; se for um terceiro a exercer o direito de
queixa deve ter um mandato a especificar que é para a dedução de uma queixa.
Desistência da queixa: No art. 116.º do CP também se prevê a desistência da
queixa. Durante o processo até à publicação da sentença em 1ª instancia, em
qualquer momento, o queixoso pode manifestar a sua oposição através da
desistência da queixa – esta é a forma privilegiada de pôr termo aos processos
penais e deve ser um ato de livre vontade. O arguido deve ser avisado que houve
desistência de queixa para se opor ou não à desistência pois pode ter interesse
em “limpar o seu nome” e não ande a “pairar” uma suspeita sobre ele. Com a
homologação de desistência de queixa o processo cessa e, neste caso, o processo
é inadmissível e deve ser arquivado. Se o arguido demonstrar oposição à
desistência o processo prossegue.
O art. 116, n.º3 representa a concretização do principio da indivisibilidade da
queixa.
3) Crimes particulares:
Aqui o princípio da oficialidade não funciona de maneira plena como nos crimes
públicos.
Art. 50.º CPP prevê a dependência do procedimento criminal à acusação
particular, aqui é o assistente que tem o protagonismo na promoção processual,
há uma exceção ao princípio da oficialidade que aqui é largamente afastado.
O MP não tem legitimidade para abrir o processo sem que haja queixa e
constituição de assistente. Só depois do ofendido fazer a queixa e constituir-se
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 52
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
assistente é que o MP tem legitimidade para abrir o inquérito e, no final do
inquérito, observamos um novo desvio ao princípio da oficialidade pois quem
decide a acusação é o assistente. Exemplos: arts. 207.º, 188.º do CP.
II. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE DA PROMOÇÃO PROCESSUAL
Está em questão o problema da obrigatoriedade da ação penal. Segundo este princípio
existe um dever de promover o processo, no sentido de investigar desde o momento da
aquisição da notícia do crime e, o dever de acusar quando se reúnam indícios suficientes de
que o arguido cometeu um crime.
Princípio que se opõe ao principio da oportunidade. O MP tem o dever de promover o
processo, não é uma opção.
III. PRINCÍPIO DA ACUSAÇÃO
Exigência de separação funcional entre a entidade que investiga e acusa (MP) e a
entidade que julga (tribunal) para garantia da imparcialidade do julgador.
Maria João Antunes: a acusação (ou pronúncia) delimite e fixa os poderes de cognição
do tribunal e a extensão do caso julgado. A este efeito de vinculação temática do tribunal
ligam-se o princípio da unidade, de acordo com o qual o objeto do processo deve manter-se
o mesmo desde que é fixado até ao trânsito em julgado da decisão; o princípio da unidade,
de acordo com o qual o objeto do processo deve ser conhecido e julgado na sua totalidade;
e o princípio da consunção do qual decorre que mesmo quando não tenha sido conhecido e
julgado na sua totalidade deve considerar-se irrepetivelmente decidido.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 53
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
PRINCÍPIOS GERAIS DA PROSSECUÇÃO PROCESSUAL
I. PRINCÍPIO DA INVESTIGAÇÃO
Fase de julgamento.
II. PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
Art. 32.º, n.º1 CRP.
Integra o estatuto processual do arguido (art. 61.º).
Não obstante a CRP subordinar apenas a audiência de julgamento ao princípio do
contraditório, não tendo por isso de valer da mesma forma em todas as fases do processo, o
que é facto é que encontra expressão logo na de inquérito nomeadamente por via do
estatuto processual do arguido e do assistente.
III. PRINCÍPIO DA SUFICIÊNCIA
O processo penal é promovido independentemente de qualquer outro e nele se
resolvem todas as questões (por exemplo, de natureza administrativa ou civil), que
interessarem à decisão da causa.
Art. 7.º, n.º1 CPP.
IV. PRINCÍPIO DA CONCENTRAÇÃO
Fase de julgamento.
Aula de 3/12/2019
Nota sobre os CRIMES ATÍPICOS
Art. 113.º, n.º5 CP e 178.º, n.º2 CP: está previsto um regime específico quando ao
procedimento criminal dos crimes atípicos (Maria João Antunes), ou seja, não são crimes
públicos, nem semipúblicos, nem particulares. Estes crimes à partida seriam semipúblicos
(178.º, n.º2 que remete para a coação sexual e violação contra maiores) mas no art. 178.º
abre a possibilidade do MP abrir o processo independentemente de queixa de forma a
maximizar a forma de perseguição criminal destes crimes. Aquilo que o MP deverá avaliar
é o interesse da vítima, no momento da abertura do inquérito deve tentar saber se o
processo é do interesse da vítima.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 54
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Esta possibilidade do MP avançar para o processo mesmo sem queixa, ao abrigo do
interesse da vítima, foi essencialmente prevista para os crimes sexuais contra menores, pois
estes antes eram semipúblicos e não públicos, ou seja, o MP só poderia prosseguir com o
processo se os representantes legais apresentassem queixa; mas, muitas vezes os
representantes legais não apresentavam queixa para proteger o agressor sexual e não as
crianças, nomeadamente nos casos em que o próprio representante legal era o agressor.
Em 2007 estes crimes sexuais contra menores tornaram-se públicos, passando a ser
acautelado o risco da dupla vitimização com a suspensão provisória do processo (art. 281.º,
n.º8 CPP).
Antes de 2007, em relação aos crimes sexuais contra menores, punha-se o problema
de saber como reagir a consequências que podiam advir se o representante legal se
opusesse ao processo. A jurisprudência, depois de algumas hesitações e na sequência de
uma interpretação crítica de Maria João Antunes, passou a entender-se que essas
oposições seriam irrelevantes pois muitas vezes protegia-se o arguido e não o menor.
O entendimento que hoje deverá sufragar-se quanto aos crimes sexuais contra
menores é que se o MP abrir processo no interesse da vítima e o representante legal disser
que não quer o processo isso não levará o MP a perder a legitimidade, apenas deve
abandonar o processo se vir que esse mesmo processo está a fazer pior à vítima.
Diferentes são os casos em que o MP abre o inquérito enquanto a vítima é menor e
depois a vítima faz 16 anos e diz que não quer que o processo continue: aplica-se o art. 116.º,
n.º4 CP.
No 178.º, n.º1 CP diz que o procedimento criminal para crimes de coação sexual e
violação contra maiores depende de queixa, mas faz uma ressalva no art. 178.º, n.º2. Ao
contrário do que acontece com os menores não temos uma disposição similar ao art. 116.º,
n.º4 para estes crimes. Parece-nos que a simples oposição da vítima ao processo não será
suficiente para pôr termo ao processo, o MP repondera a manutenção do processo e se
realmente entender que essa manutenção é nefasta para a vítima abandona o processo, caso
contrário ele pode avançar com o processo, mesmo a vítima tendo manifestado a sua
oposição.
Princípio da legalidade da promoção processual/obrigatoriedade da
promoção processual
Consagração constitucional no art. 219.º, n.º1 da CPP.
Manifesta-se essencialmente em duas vertentes: dever de investigar e dever de
acusar (Pedro Caeiro) – implica estes dois deveres porque se manifesta essencialmente em
dois momentos chave do processo, o da abertura do inquérito (havendo notícia de um crime
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 55
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
há o dever de investigar) e o do encerramento do inquérito (tendo sido recolhidos indícios
suficientes há o dever de acusar).
O dever de investigar está no art. 262.º, n.º2 CPP e o dever de acusar está previsto
no art. 283.º, n.º1 e 2 do CPP.
Este princípio da legalidade da promoção processual opõe-se ao principio da
oportunidade (no princípio da oportunidade a decisão sobre a abertura do processo está na
esfera de vontade do Estado/MP).
Nos sistemas de direito continental, ao contrário dos EUA, vale uma máxima de
obrigatoriedade de promoção processual, sobretudo em virtude do principio da igualdade
na medida em que não há favorecidos e assente também no Estado de Direito onde o Estado
tem o dever de proteger os direitos fundamentais e os princípios constitucionais (tem a ver
com o facto do Estado concentrar em si o poder punitivo).
O dever de abrir o inquérito só existe quando a notícia se refira a factos que tenham
ou possa ter relevância criminal , há um dever de investigação.
O art. 241.º - notícia do crime. Se for um crime público é uma denúncia, se for um
crime semipúblico ou particular é uma queixa.
Art. 242.º - há um dever de denúncia por parte de certas entidades, nomeadamente
as entidades policiais e funcionários. Para as entidades policiais (al a) do n.º1) a denúncia é
sempre obrigatória em relação a todos os crimes que tomem conhecimento, estando ou não
no exercício das funções. A al. B) do n.º1 do 242 estabelece que a denúncia obrigatória por
parte de funcionários, no exercício das suas funções e por causa desse exercício.
Há outras entidades a quem a lei impõe a denuncia de crimes, por exemplo, os
oficiais de contas.
A Lei 83/2017 também impõe deveres de denúncia de indícios de branqueamentos
de capitais e terrorismo. Por força das funções que exercem são obrigados a colaborar com
a justiça penal.
No 242.º, n.º3 entendemos que esta denúncia obrigatória vale independentemente
da natureza do crime (públicos, semipúblicos ou particulares). Se não denunciarem, tendo
esse dever, poderá haver um procedimento disciplinar ou, se for o caso, um crime de
favorecimento pessoal.
Para os outros cidadãos vale o disposto no art. 244.º (denúncia facultativa).
A denúncia anónima (246, n.º6) só determina a abertura do inquérito se existir um
crime ou existirem indícios da prática do crime. Regra geral, se alguém denuncia
anonimamente outrem não há abertura do inquérito. Poderá abrir-se inquérito para saber
quem foi o denunciante e abrir inquérito por difamação ou denuncia caluniosa, por isso é
que se deve informar o titular do direito de queixa (n.º7).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 56
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Quando o MP adquire noticia do crime por alguma destas vias está obrigado a abrir
o inquérito (art. 262.º), exigência que decorre do princípio da legalidade. Esta exigência
pode ser interpretada em 2 sentidos: abrir o inquérito (n.º2 do 262); se a noticia do crime
for adquirida no âmbito de um inquérito que já está em curso há um dever de alargar e
investigar esses novos factos, esses factos dependem da existência de uma relação conexa
com o processo já em curso, se não houver conexão processual não se alarga o objeto do
processo já existente. Se no decurso do inquérito se descobre que além da pessoa que está
a ser investigada outras pessoas participaram no crime, alarga-se o inquérito a essas
pessoas.
Este dever de investigar quando não é cumprido pelo MP implica procedimento
disciplinar, mas pode também implicar responsabilidade criminal pelo crime de denegação
de justiça e prevaricação. Não há, porém, nenhum mecanismo legal que obrigue o MP a abrir
inquérito, não há nada que se possa fazer, caso o MP não abra inquérito, para o obrigar a
abrir.
Em regra é o MP que tem competência para abrir o inquérito (53.º, n.º2, al. a + 245.º),
contudo, não é de excluir a possibilidade, apesar de ser controvertido, de entidades distintas
do MP procederem à abertura do inquérito, por exemplo, no RGIT no art. 40.º, n.º3; Lei
Orgânica da Polícia Judiciária tem acontecido que a PJ com base em delegação de
competências do MP ser a própria PJ abrir o inquérito e só depois comunicar ao MP.
Aberto o inquérito, deve cumprir-se o disposto no art. 262.º, n.º1. É uma fase de
investigação processual onde se procura abrir prova e fazer prova para apurar quem esteve
envolvido no crime e assim decidir se deve ou não haver julgamento. Se uma certa matéria
não tiver relevância criminal nem relevância acessória, não há interesse em manter o
inquérito. O inquérito também não deve ser um instrumento de devassa da vida alheia das
pessoas e satisfação de curiosidades. A função do inquérito é investigar crimes, um
inquérito que não se investigue é um inquérito nulo, por inexistência e falta de promoção
processual (art. 119.º, al. d).
Ac. TRL de 14/05/2008 (Proc. 1544/2007.3) sobre o art. 119.º, al. d) CPP.
“I-O despacho de arquivamento nos termos do artº 277º, do CPP, não sendo precedido da realização das necessárias
diligências de investigação é legalmente inadmissível.
II- Não resultando a inexistência do crime denunciada do simples confronto dos factos descritos na participação
com a lei, impunha-se ao Ministério Público que investigasse a existência do ilícito que vinha denunciado.
III- Neste caso, a prolação de despacho de Arquivamento, sem a realização de qualquer diligência de investigação,
é legalmente inadmissível, por registar a nulidade insanável, por falta de inquérito, a que alude a alínea a) do artº
119º do C.P.P., e que é de conhecimento oficioso.”
Art. 267.º refere-se aos atos do MP.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 57
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Tratando-se de atos que contendem essencialmente com os direitos fundamentais
das pessoas precisamos da autorização de um juiz (art. 268.º). O juiz intervém a pedido do
MP.
Por variadas razões, seja de ordem prática por insuficiência de meios, ou de ordem
substancial por meio de competências técnicas e táticas, os OPC podem substituir-se ao MP
e abrir o inquérito. O art. 270.º, n.º4 diz que essa delegação pode ser efetuada por despacho
de natureza genérica, o MP não precisa de proferir um despacho de delegação de
competências caso a caso, pois há já um despacho mais geral emitido pela PGR para estes
casos. Quando a policia é chamada a colaborar com o MP há uma dependência funcional
entre eles e, em regra, a polícia tem um dever de obediência para com o MP.
Existem diversos órgãos de polícia criminal que estão referenciados na LOIC (Lei
49/2008) – esta lei define órgãos criminais de competência genérica (PJ, GNR e PSP), além
destes existem outros previstos em leis avulsas que estão vocacionados para certo tipo de
criminalidade (Autoridade Tributária e Aduaneira, Segurança Social, SEF, ASAE, ACP, etc.).
O art. 7.º da LOIC refere-se à competência da PJ em matéria de investigação criminal.
Qual a relevância do incumprimento das regras da LOIC? Por exemplo, delegar
competências noutro órgão que não era competente para o caso? Não se retiram
consequências de invalidade dos atos praticados pelo órgão incompetente. Nuno Brandão
diz que está em causa do art. 270, n.º4 e, por isso, os atos praticados pelo órgão
incompetente deveriam considerar-se inválidos, o Ac. TRL de 9/06/2016 decidiu de outra
forma (I- Os OPCs exercem uma função de ajuda ao Mº.Pº. e Autoridades judiciárias, mas os actos determinados
são sempre da Autoridade Coadjuvada, actuando os OPCs na sua dependência funcional (legislação acima citada),
o que, naturalmente não significa uma dependência hierárquica. II- Embora a PJ tenha competência exclusiva para
a investigação criminal relativamente aos crimes de catálogo, nos termos da Lei especial LOIC, na verdade, nada
proíbe que o Mº.Pº. enquanto detentor originário da investigação, entenda e ordene a realização de diligências de
investigação desses crimes de área reservada, a OPCs diferentes, uma vez que a própria Lei Penal não faz qualquer
distinção entre os OPCs.). Na prática vem decorrendo a inobservância desta lei.
O inquérito pode ser público ou secreto. Esta matéria está regulada no art. 86.º e ss
CPP.
No art. 86.º, n.º6 está prevista a publicidade do processo. A primeira questão é saber
se é possível aceder ao conteúdo do processo e a segunda questão é saber se é ou não
admissível a assistência a atos processuais.
Na fase de julgamento o processo é público e, em regra, toda a gente pode assistir à
audiência e consultar o processo. Mesmo quando o processo é público, o direito de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 58
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
assistência aos atos processuais só nasce a partir do quadro instrutório, os atos de instrução
devem ser à porta fechada (inquirição de testemunhas, arguidos, etc.).
A publicidade do inquérito não implica a publicidade da assistência das audiências
de inquérito. Sendo o inquérito público, relativamente à segunda questão, há a possibilidade
de consulta do processo (insiders e outsiders, aqueles que participam no processo e
terceiros) – art. 89.º, n.º1.
O inquérito também pode ser secreto e é aplicado o segredo de justiça – art. 86.º,
n.º2 e 3. Há duas entidades que podem aplicar o segredo de justiça, o juiz (n.º2) e o MP
(n.º3), sendo mais frequente os casos do n.º3. Os motivos podem ser vários: proteger a
vítima, proteger o bom nome do arguido, etc. Nos termos do art. 86.º, n.º3, parte final, o juiz
deve validar o segredo de justiça.
Parte da doutrina defendia que o n.º3 do art. 89.º, parte final, violava o princípio do
acusatório, característico do processo penal. Ac. TC 110/2009 e Ac. TC. 234/2011 – nestes
acórdãos o TC decidiu pela não inconstitucionalidade do art. 89.º, n.º3, parte final.
Se o processo for secreto valem as proibições do art. 86.º, n.º8. Sendo o inquérito
secreto não deriva a impossibilidade dos participantes processuais consultarem o processo
(arguido, assistente, etc.) por força do art. 89.º, n.º1. Contudo, a exigência do segredo
permite que o MP se oponha à consulta (art. 89.º, n.º1, parte final). Se o MP se opuser ao
pedido de consulta, este deve ser presente ao juiz, nos termos do art. 89.º, n.º2, para apreciar
se a oposição é fundada ou não. Se o inquérito for secreto os terceiros não podem consultar
o processo (outsiders).
A lei prevê no art. 89.º, n.º6 que a faculdade de oposição à consulta do processo
reconhecida ao MP não é ilimitada no tempo, o MP pode opor-se à consulta durante um certo
período (quando se atinge o prazo máximo de duração do inquérito, o arguido, o assistente
e o ofendido podem consultar o processo mesmo que ele esteja em segredo de justiça, o
segredo não cessa pois o processo continua em segredo justiça + art. 371.º).
A lei permite, em todo o caso, que esta faculdade de oposição à consulta reconhecida
ao MP seja alargada no tempo por decisão do juiz de instrução, em geral, o MP pode pedir
ao juiz de instrução que adie o acesso ao processo até 3 meses; existem certos crimes –
terrorismo, criminalidade violenta criminalidade especialmente violenta e criminalidade
altamente organizada – art. 1.º al. i) a m) – em que se pede um prazo objetivamente
indispensável à realização da instrução, o Ac. STJ de 5/2010 decidiu que poderia ser
superior a 3 meses: “O prazo de prorrogação do adiamento do acesso aos autos a que se refere a segunda
parte do artigo 89.º, n.º 6, do Código de Processo Penal, é fixado pelo juiz de instrução pelo período de tempo que
se mostrar objectivamente indispensável à conclusão da investigação, sem estar limitado pelo prazo máximo de
três meses, referido na mesma norma”. Mas esta faculdade de acesso não é indiscriminada, o TC no
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 59
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Ac. 428/2008 veio implicitamente afirmar que essa possibilidade de acesso ao conteúdo do
processo pode ser limitada quando o conteúdo do processo contenha dados privados da
pessoa investigada pelo processo, no caso era uma entidade bancária: “Julga inconstitucional, por
violação do artigo 20.º, n.º 3, da Constituição da República Portuguesa, a interpretação do artigo 89.º, n.º 6, do
Código de Processo Penal, na redacção dada pela Lei n.º 48/2007, de 29 de Agosto, segundo a qual é permitida e
não pode ser recusada ao arguido, antes do encerramento do inquérito a que foi aplicado o segredo de justiça, a
consulta irrestrita de todos os elementos do processo, neles incluindo dados relativos à reserva da vida privada de
outras pessoas, abrangendo elementos bancários e fiscais sujeitos a segredo profissional, sem que tenha sido
concluída a sua análise em termos de poder ser apreciado o seu relevo e utilização como prova, ou, pelo contrário,
a sua destruição ou devolução, nos termos do n.º 7 do artigo 86.º do Código de Processo Penal”.
Art. 272.º, n.º1 CPP – o incumprimento desta exigência acarreta a nulidade do
inquérito. Art. 120.º, n.º2, al. d) e Ac. STJ 1/2006 (“A falta de interrogatório como arguido, no inquérito,
de pessoa determinada contra quem o mesmo corre, sendo possível a notificação, constitui a nulidade prevista no
artigo 120.º, n.º 2, alínea d), do Código de Processo Penal”). É uma nulidade sanável, é obrigatório ouvir
na qualidade de arguido para que a pessoa saiba que está a ser investigada. Este art. 272.º,
n.º1 dá expressão ao direito de defesa do arguido. Ligado a isto, vamos supor que o MP
chama como suspeito ao inquérito, comunica esse suspeito como arguido imputando-lhe
certos factos e, mais à frente, o MP descobre novos factos que não foram anteriormente
comunicados ao arguido – aqui o arguido tem que ser chamado novamente para ser
confrontado com esses novos factos e poder exercer defesa durante o inquérito quanto a
eles.
Ac. TRC 30/1/2008 e TRL 29/10/2014 não entendeu ser necessário.
Importante o Ac. Do TC 72/2012 que declarou não inconstitucional o art.
272.º, n.º1 no sentido que não há obrigatoriedade de chamar novamente o
arguido para lhe comunicar factos com os quais ele não foi confrontado
anteriormente, que foram levados à acusação mas que são mera
concretização ou densificação dos factos que lhe foram anteriormente
comunicados – “Não julga inconstitucionais as normas constantes da al. d) do nº 2 do art.
120º, al. c) do nº 4 do art. 141º, art. 144º e nº 1 do art. 272º do Código de Processo Penal, quando
interpretadas no sentido de que não constitui nulidade, por insuficiência de inquérito, o não
confronto do arguido, em interrogatório, com todos os factos concretos que venham a ser
inseridos na acusação contra ele deduzida.”. Se a divergência for apenas de pormenor
e estivermos a falar da mesma matéria, não há inconstitucionalidade. Na
fundamentação do acórdão o tribunal sinalizou que devem ser distinguidos
os casos de mero pormenor de outros casos em que se apura outra matéria,
apurando-se matéria nova tem que se chamar o arguido para que este possa
conhecê-la e defender-se. Nesta linha o Ac. TRE de 10/10/2017 concluiu
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 60
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
pela violação do art. 272.º, n.º1 num caso em que ao arguido não foram
comunicados factos essenciais que foram levados a acusação, citando este
acórdão do TC. Esta exigência de chamar o arguido só vale para o processo
comum, não vale para os processos especiais.
Finda a investigação, o MP encerra o inquérito através de um despacho de acusação
ou de arquivamento (276.º, n.º1). A competência exclusiva do MP para encerrar o inquérito
está prevista no art. 53, n.º2, al. C) e no art. 276.º, n.º1. Como é o MP, por força da CRP, que
dirige o inquérito também tem que ser ele a acusar ou a arquivar. O MP não pode delegar
em qualquer outra entidade, nomeadamente nos OPC, a competência para o encerramento
do inquérito.
Segundo o art. 128.º do CPP a testemunha é inquirida sob factos de conhecimento
direto. É o tribunal que aprecia a prova.
A decisão de encerramento do inquérito pode ser uma de duas, nos crimes públicos
ou semipúblicos: ou o arquivamento ou a acusação. Art. 276.º, n.º1.
No despacho de arquivamento (art. 277.º) quando o MP se convence que não houve
crime ou, embora exista crime, não foi aquele arguido que o praticou; ou então que o
prosseguimento do processo é legalmente inadmissível. Art. 277.º, n.º1 + art. 277.º, n.º2.
No art. 283.º é quando o MP se decide que há indícios suficientes da prática do crime
e de quem foi o seu agente, proferindo um despacho de acusação. Em alternativa, pode
existir a dispensa de pena (art. 280.º) ou a suspensão provisória do processo (art. 281.º)
mas tem que haver base para acusar, caso contrário seria um despacho de arquivamento.
O despacho de encerramento do inquérito (arquivamento ou acusação, mas
sobretudo arquivamento) tem que ser muito bem feito, tomando posição sobre todos os
factos que foram objeto da investigação e sobre todas as pessoas contra quem o inquérito
correu, há um dever de promoção processual que cabe ao MP e no despacho de
arquivamento do inquérito não pode deixar de fora nenhuma factualidade que tenha
investigado nem nenhuma pessoa que tenha investigado. Se não acusou uma certa pessoa
isso tem que ficar expresso. Um despacho de arquivamento deve ser completo, deve
debruçar-se sobre todos os factos que foram objeto da investigação e que possam ter relevo
criminal autónomo e sobre as pessoas que investigou, tenham elas sido ou não constituídas
arguidas. Se assim não o fizer haverá uma insuficiência de inquérito, uma omissão de
pronúncia que levará à nulidade do inquérito – art. 119.º, al. b).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 61
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Despacho de Arquivamento
Art. 277.º CPP.
Casos em que o MP se convence positivamente que não houve crime, ou que mesmo
existindo crime tomou a convicção que certa pessoa investigada não cometeu o crime.
Uma terceira hipótese é aquela que o MP conclui que o prosseguimento é legalmente
inadmissível formulando que as condições necessárias à promoção do processo não estão
reunidas, arquivando-o, por exemplo, dizendo que já se verificou a prescrição do
procedimento criminal, ou que não há legitimidade para promover o processo por falta de
queixa válida e tempestiva, ou nos casos de crimes particulares em que o ofendido
apresentou queixa mas não se constituiu assistente, ou casos de crimes particulares onde o
MP notifica o assistente para deduzir acusação no prazo de 10 dias e o assistente não acusa.
Art. 277.º, n.º1.
Art. 277.º, n.º2 – quando o MP conclui que não há indícios suficientes da prática de
crime ou quem foi o seu agente, arquivando o processo.
Em geral, os magistrados do MP fundamentam as decisões de arquivamento,
justificando porquê que não acusam, sendo posteriormente submetidas a avaliação interna
e externa e deve respeitar o art. 277.º, n.º3.
Despacho de Acusação
Art. 283.º.
Quando existem indícios suficientes que um arguido pratica o crime, o MP está
obrigado a acusar. Há um dever de acusar que é um corolário do princípio da legalidade da
promoção processual, se não acusar viola o art. 283.º e pode haver lugar a responsabilidade.
Apesar desta obrigatoriedade, há uma certa margem de liberdade quanto a saber o que são
indícios suficientes (art. 283.º, n.º2). O MP deve fazer um juízo de prognose sobre o desfecho
do caso se for levado o processo a julgamento. Se for mais provável a condenação do que a
absolvição diz-se que há indícios suficientes e o MP tem que acusar. Se o MP concluir que
não é provável a condenação deve arquivar o processo.
O MP tem que tomar em consideração os meios de prova e submetê-los a uma
valoração conjugada nos termos gerais da livre apreciação da prova (art. 127.º). Se concluir
que as provas recolhidas levam à confirmação da prática do crime tem que fazer uma outra
ponderação, no sentido de ser provável ou não que essas provam façam com que o arguido
seja condenado em julgamento.
A finalidade da acusação é a de levar certa pessoa a julgamento e, essa acusação,
marca o antes e o depois do objeto, a acusação marca e cristaliza o objeto do processo, sendo
uma peça fundamental do processo, sendo crucial para o exercício do direito de defesa.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 62
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Com a acusação informa-se qual é o objeto do processo e informa-se o arguido de
quais são os factos e quais são as provas que poderão levar à sua incriminação, pois só assim
é que ele sabe como se deve defender.
A acusação tem uma função que garante, o direito de defesa do arguido, uma função
definidora do objeto de processo, salvo se o assistente reagir procurando através da
instrução alterar factos da acusação. Art. 113.º, n.º3 e art. 159.º proíbem a alteração
substancial dos factos.
A lei é cuidadosa no que toca à fixação do despacho de acusação (art. 283.º, n.º3). A
al. b) contém o cerne da acusação. As acusações genéricas e ambíguas são nulas porque não
são compatíveis com o direito de defesa. A acusação deve também ser completa, contendo
todos os factos suficientes que possam ser imputados ao arguido. Se faltar algum facto
necessário ao preenchimento do tipo legal a acusação não pode ser recebida, o tribunal deve
rejeitá-la. Ac. TRL 8/07/2006.
O princípio do in dubio pro reu deve atuar na insuficiência de indícios ou na dúvida
se deve acusar ou não – Ac. TRE de 1/03/2005 e Ac. TC 439/2002 (“ o Tribunal Constitucional
decide julgar inconstitucionais os artigos 286.º, n.º 1, 298.º e 308.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, por violação
do artigo 32.º, n.º 2, da Constituição, interpretados no sentido de que a valoração da prova indiciária que subjaz ao
despacho de pronúncia se bastar com a formulação de um juízo segundo o qual não deve haver pronúncia se da
submissão do arguido a julgamento resultar um acto manifestamente inútil.”).
Art. 284.º - o assistente pode acompanhar a acusação, acusando também o arguido
pelos mesmos factos ou alguns dos factos dos MP, ou até por outros, desde que não apliquem
a alteração substancial da acusação. É também neste momento que o assistente, querendo,
indica prova que não tenha sido indicada pelo MP (este é um dos motivos pelos quais o
ofendido pode ter interesse em constituir-se assistente, para poder apresentar prova que
não tenha sido apresentada pelo MP, é este o momento para o assistente poder apresentar
prova).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 63
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Aula de17/12/2019
Art. 280.º - arquivamento em caso de dispensa de pena ligado ao art. 74.º.
Art. 280.º, n.º1 - O MP, com a concordância do juiz de instrução, pode arquivar o
processo, quando se verificam os pressupostos do art. 74.º.
Temos aqui uma diversão processual, o processo diverge do seu rumo normal.
O n.º1 diz respeito ao inquérito e o n.º2 diz respeito à fase de instrução.
No n.º2 tem que haver a concordância do arguido.
No n.º3 – quem tem interesse em agir quando há arquivamento em caso de dispensa
de pena é o assistente, este pode reagir da decisão do juiz, pois as decisões do MP não são
suscetíveis de recurso. Mas no n.º2 diz que não é “suscetível de impugnação”, mas isto vale
para a vertente da decisão em que não se preenchem os requisitos da dispensa de pena, se
estiverem preenchidos não pode ser impugnado.
Art. 281.º - suspensão provisória do processo.
Existem aqui dois interesses:
o interesse do Estado (poupar a máquina judiciária ao julgamento daquele
caso, casos de pequena e média criminalidade, muitas vezes praticados em
massa, havendo um interesse público em aliviar os tribunais)
o interesse do arguido (porque não é exposto ao estigma do julgamento, em
casos de pequena e média criminalidade, mas implica ao arguido uma
injunção ou regra de conduta, para através do seu cumprimento se atender
às exigências preventivas).
É uma diversão com intervenção.
A suspensão provisória do processo consiste numa chance ao arguido de não ir a
julgamento. O MP conclui que há indícios suficientes do arguido ter cometido um crime, mas
enveredando pela suspensão provisória do processo essa suspensão fica subordinada a
prova, o arguido deve cumprir as injunções e as regras de conduta às quais deu a sua
concordância e deve abster-se de cometer crimes similares durante o período da suspensão.
Se o arguido cumprir aquilo a que se obrigou e não cometer nenhum crime o MP arquiva o
processo e o processo extingue-se, não indo a julgamento. Se o arguido não cumprir aquilo
com que se comprometeu o processo vai a julgamento.
Há um poder-dever do MP em adotar a suspensão provisória do processo quando os
requisitos se preenchem (n.º1) – Costa Andrade fala aqui de um principio da legalidade
aberto a uma intencionalidade político-criminal, não apenas de um princípio da
oportunidade; há uma preferência legal pela suspensão provisória do processo.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 64
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Para haver suspensão temos que estar perante crimes de pequena e média
criminalidade, os crimes superiores a 5 anos não admitem suspensão provisória do
processo. Tem sido a prática dos tribunais aplicar a suspensão do processo quando há um
concurso efetivo de crimes, desde que nenhum dos crimes seja punível com pena superior
a 5 anos. O limiar dos 5 anos deve ser aferido avulsamente para cada crime.
Não há nenhum crime com pena inferior a 5 anos que não admita a suspensão
provisória do processo, não há nenhuma restrição legal à tipologia de crimes.
O pressuposto material/decisivo está na al. f) do n.º1.
No n.º2 do art. 281.º especificam-se várias injunções e regras de conduta que podem
ser impostas ao arguido.
A lei não exige como condição para a suspensão provisória do processo qualquer
conduta probatória do arguido. O MP só poderá enveredar pela suspensão provisória do
processo se tiver indícios da prática de crime e não há nenhuma norma que faça depender
a suspensão provisória do processo de uma colaboração probatória do arguido (confissão
do arguido, admissão de culpa do arguido, incriminação de terceiras pessoas que tenham
praticado o crime). A suspensão provisória do processo não pode ser transformada numa
forma de prémio, num “toma lá, dá cá”.
Art. 51.º e 52.º são similares às regras de conduta do n.º2 do art. 281.º. Como
estamos um domínio processual, estas medidas do 281.º são processuais, e as do art. 51.º e
51.º são de natureza substantiva. Outra diferença é que na suspensão provisória do
processo o arguido dá o seu consentimento, por isso não é inconstitucional porque a
suspensão provisória do processo não é uma pena e pode ser adotada pelo MP.
Ver Ac. TC 7/87 muito importante (“centrando-se sobretudo no parâmetro específico do n.º 4 do
artigo 32.º da Constituição, não há obstáculo de ordem constitucional à direcção do inquérito pelo Ministério
Público, como ele vem desenhado no Código, e a que lhe compita encerrá-lo, arquivando-o ou deduzindo acusação.
Não pode também havê-lo quanto a algo que é um minus relativamente ao arquivamento, sempre que as exigências
de prevenção não justifiquem os custos do prosseguimento formal típico para os propósitos político-criminais da
intervenção mínima, da não-estigmatização do agente, do consenso e da economia processual. E também o não há
face ao artigo 202.º, porque a concretização da reserva para administrar justiça mediante a atribuição de
competência aos tribunais para reprimir a violação da legalidade democrática (artigo 202.º, n.º 2, da Constituição)
não é incompatível com soluções em que a actuação do tribunal, mesmo no processo penal, seja condicionada pelo
impulso processual inicial ou sucessivo de outros sujeitos processuais, nem impede que a intervenção do juiz de
instrução se limite, na fase de inquérito, a uma função de garantia, sempre que se torne necessária a prática de
actos que colidam com a esfera dos direitos, liberdades e garantias (juiz de garantias ou juiz das liberdades)”).
Esta não inconstitucionalidade da suspensão provisória do processo foi há alguns anos
reafirmada pelo TC no Ac. TC 67/2006 (“a norma do artigo 281.º em conjunto com o artigo 64.º do mesmo
Código, interpretada no sentido de ser dispensada a assistência de defensor ao arguido no acto em que este é
chamado a dar a sua concordância à suspensão provisória do processo, não viola o n.º 3 do artigo 32.º da
Constituição.”).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 65
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
O n.º2 do art. 281.º está relacionado com o art. 69.º do CP e a suspensão provisória
do processo nestes casos terá que estar obrigatoriamente subordinada a uma proibição de
conduzir – modificação introduzida em 2013. É um pouco paradoxal porque não há penas
acessórias obrigatórias – art. 30.º, n.º4 CRP – e pode acontecer que o tribunal não condene
nesta pena acessória, mesmo estando perante um crime rodoviário, mas na suspensão
provisória do processo sim porque não estamos perante uma pena – Ac. STJ 4/2017
entendeu que esta inibição de conduzir que porventura seja cumprida pelo arguido durante
o período da suspensão provisoria do processo não deverá ser descontada numa eventual
pena de proibição de conduzir veículos com motor que venha a ser aplicada mais tarde no
processo, isto porque a suspensão provisória do processo tem uma natureza processual e
esta proibição não assume a natureza de pena – «Tendo sido acordada a suspensão provisória do
processo, nos termos do art. 281.º do Código de Processo Penal, com a injunção da proibição da condução de veículo
automóvel, prevista no n.º 3 do preceito, caso aquela suspensão termine, prosseguindo o processo, ao abrigo do n.º
4, do art. 282.º, do mesmo Código, o tempo em que o arguido esteve privado da carta de condução não deve ser
descontado, no tempo da pena acessória de inibição da faculdade de conduzir, aplicada na sentença condenatória
que venha a ter lugar.».
Para que a suspensão provisória do processo possa ser aplicada é necessário que se
observe a concordância de vários sujeitos processuais:
(1) quem decide é o MP, mas para que o MP determine a suspensão tem que,
em regra, obter a concordância de vários sujeitos,
(2) primeiro é necessária a concordância do arguido e do assistente (al. a) –
a lei não define o modo como se chega à decisão, pode ser até o próprio
arguido a avançar com a ideia da suspensão provisória do processo, é uma
espécie de contrato de adesão para o arguido: o MP dá as condições da
suspensão do processo e o arguido diz que sim ou não; mas, o art. 281.º, n.º9
CPP está em consonância com o art. 207.º, n.º1, al. d) CP e aqui dispensa-se
a concordância do assistente, estão em causa os pequenos furtos em
estabelecimentos comerciais que não ultrapassam uma unidade de conta
(102 euros), o legislador tornou estes crimes em crimes particulares, pois
não pode haver detenção, nem processo sumário, o proprietário da coisa tem
que se constituir assistente e pagar 102 euros de taxa de justiça para reagir
a um furto de por exemplo 5 euros, e assim o MP pode suspender o processo
sem a opinião do assistente;
(3) o art. 281.º exige também que o MP recolha a concordância do juiz de
instrução além da concordância do assistente (quando este existe no
processo), o juiz de instrução deve verificar se os pressupostos legais da
suspensão provisória do processo estão verificados. Discute-se se o juiz
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 66
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
também poderá opinar e fundar a sua decisão em função da suficiência das
injunções e regras de conduta acordadas entre o MP, arguido e assistente
para satisfazer as necessidades preventivas (al. f do n.º1): a jurisprudência
maioritária inclina-se em sentido afirmativo, ou seja, o juiz pode manifestar
a sua discordância quando entenda que as injunções e as regras de conduta
impostas ao arguido ficam aquém do necessário para responder às
necessidades preventivas, apesar de haver acórdãos em sentido diverso (Ac.
TRP 9/9/2009), o STJ disse isto por outras palavras no Ac. Fixação de
Jurisprudência 16/2009 e também o Ac. TRP 27/05/2009; se o juiz der a
sua concordância o MP aplica a suspensão provisória do processo, se o juiz
discordar da decisão de suspensão provisória do processo o MP não pode
aplicar a suspensão provisória do processo e tem que acusar. Ac. Fixação de
jurisprudência 16/2009 no sentido da não condordância do recurso da
suspensão provisória do processo (“A discordância do juiz de instrução em relação à
determinação do Ministério Público, visando a suspensão provisória do processo, nos termos e
para os efeitos do n.º 1 do artigo 281.º do Código de Processo Penal, não é passível de recurso”).
Art. 282.º : Iniciando-se a suspensão deverá o arguido dar cumprimento ao que ficou
definido, finda a suspensão (que poderá ir até 2 anos e durante esse período não corre prazo
de prescrição – n.º1) o MP deverá averiguar se há algum motivo para revogar a suspensão
e, se o arguido cumpriu tudo direito deverá arquivar o processo. Se o arguido não cumpriu
aquilo a que ficou obrigado isso implicará a revogação da suspensão. Sendo revogada a
suspensão, o processo prossegue e o MP deve acusar o arguido.
Os crimes particulares seguem uma tramitação distinta dos crimes públicos e
semipúblicos que constitui uma exceção ao princípio da oficialidade.
Exemplo de crimes particulares: crimes contra a honra (art. 178.º), alguns crimes de
furto e abuso de confiança (art. 207.º).
Art. 50.º CPP.
Nos crimes particulares, para que o MP adquira legitimidade para a investigação
criminal é necessário 2 coisas: que o ofendido apresente queixa e que o ofendido se
constitua assistente. Só depois do ofendido ser constituído assistente é que o MP tem
legitimidade para promover o processo, até esse momento não tem.
Art. 246.º, n.º4 diz que deve ser comunicada ao queixoso a exigência da constituição
como assistente, com um prazo de 10 dias (art. 68.º, n.º2). Se passados 10 dias o queixoso
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 67
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
não requerer a sua constituição como assistente então não há condições para avançar com
o processo e o MP arquiva o processo nos termos do art. 277.º, n.º1, parte final. Nestes casos
depois o queixoso não pode voltar outra vez ao processo.
Ac. Fixação de jurisprudência STJ 1/2011 decidiu que em procedimento dependente
de acusação particular deve ser negada a repetição do processo quando o ofendido não se
quis constituir assistente – “Em procedimento dependente de acusação particular, o direito à constituição
como assistente fica precludido se não for apresentado requerimento para esse efeito, no prazo fixado no n.º 2 do
artigo 68.º do Código de Processo Penal”. Se dentro do prazo de 10 dias o queixoso apresentar
requerimento dirigido ao juiz de instrução para se constituir assistente, se o juiz de
instrução concluir que estão verificadas as condições para o queixoso se constituir
assistente, defere a sua constituição como assistente, caso contrário indefere a constituição
como assistente. Se o juiz de instrução indeferir o requerimento de constituição de
assistente o MP arquiva o processo, se deferir o requerimento de constituição de assistente
o MP prossegue e tem legitimidade para promover o processo (por exemplo, antes disto não
pode haver constituição de arguido, tem que ser verificado primeiro o requisito da
constituição como assistente, só assim há investigação, cabendo esta ao MP que é o titular
do inquérito – art. 50.º, n.º2).
Finda a investigação deve ser dado cumprimento ao disposto no art. 285.º CPP
notificando o assistente que dispõe de 10 dias para deduzir acusação particular (é o
assistente que decide se deve ou não transitar para julgamento), desde logo o MP deve dar
a entender ao assistente a existência ou não de indícios suficientes do crime, mas isso não é
vinculativo para o assistente, ele não está obrigado a acusar ou a não acusar.
A posição do assistente não deve ser de desconsideração do conteúdo do inquérito,
caso ele decida acusar poderá verificar se o inquérito reúne de facto provas que permitam
incriminar a pessoa que ele pretende acusar. Se no prazo de 10 dias o assistente decidir não
acusar, então o MP não poderá prosseguir com o processo, pois não tem legitimidade para
promover o processo contra a vontade do assistente. Art. 277.º, n.º1.
Se havia indícios suficientes da prática do crime pelo arguido mas o assistente não
acusou, então o assistente irá responder pelas custas nos termos do art. 515.º, n.º1, al. d).
Se o assistente acusar deve obedecer aos requisitos do art. 285, n.º3 que remete
para o art. 283.º sobre a acusação pública.
Se o assistente tiver deduzido acusação particular em tempo, o MP continua a ter
legitimidade para promover o processo e, nos termos do 285.º, n.º4 que prevê a
possibilidade de uma acusação pública subordinada à acusação particular, este “pode” deve
ser um poder-dever de acusar, não é uma faculdade e vale aqui mais uma vez o principio da
legalidade da promoção processual.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 68
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Art. 310.º, n.º1 faz depender a recorribilidade do despacho de pronuncia de um
crime particular da posição que o MP tenha adotado no fim do inquérito. Se o MP não
acompanhou a acusação particular, o arguido pode recorrer do despacho de pronuncia
porque só temos um despacho de pronuncia e não temos uma acusação pública. Se o MP
acompanhou a acusação particular o arguido não pode recorrer.
Art. 119.º, al. b) CPP prevê a nulidade se o MP deixar de promover o processo – Ac.
TRP de 10/01/2007 em sentido contrário o Ac. TRP de 6/12/2006.
Se o processo for arquivado e não houver reação interna nem externa, então o
arquivamento consolida-se e torna-se definitivo, não obstante, haverá possibilidade
excecional da reabertura do inquérito nos casos previstos no art. 279.º (reabertura do
inquérito). Se não existirem novas provas não se pode reabrir o inquérito. Para reabrir o
inquérito é necessário existir novos elementos de prova que invalidem o arquivamento do
inquérito. Se passar o prazo de prescrição do procedimento criminal e surgir uma nova
prova que até poderia invalidar o arquivamento, essa prova não releva, pois o procedimento
criminal não prescreveu.
Termos em que pode haver reação à forma como é encerrado o processo (acusação
ou arquivamento): intervenção hierárquica, como controlo a nível interno (art. 278.º) e a
instrução, como controlo a nível externo (art. 286.º).
Em caso de arquivamento há duas formas possíveis alternativas de controlo: a
instrução (art. 286.º e ss) ou a intervenção hierárquica que funciona dentro do MP (art.
278.º).
Intervenção Hierárquica
Art. 278.º - embora a lei não fale aqui em arquivamento esta norma está pensada
para os casos em que o MP arquivou. A própria forma como a lei está redigida dá a entender
que se trata de um mecanismo alternativo à instrução, ou seja, no caso da instrução não ter
sido requerida. Esta natureza alternativa é afirmada pela generalidade da doutrina e
também na jurisprudência – Ac. STJ 3/2015 («O prazo de 20 dias para o assistente requerer a abertura
de instrução, nos termos do artigo 287º, nº 1, alínea b), do Código de Processo Penal, conta-se sempre e só a partir
da notificação do despacho de arquivamento proferido pelo magistrado do Ministério Público titular do inquérito
ou por quem o substitua, ao abrigo do artigo 277º do mesmo código, não relevando para esse efeito a notificação
do despacho do imediato superior hierárquico que, intervindo a coberto do artigo 278º, mantenha aquele
arquivamento»).
O superior hierárquico, depois de esgotado o prazo para a abertura da instrução
pode, nos 20 dias seguintes, intervir. Temos o arquivamento, depois há notificação do
arquivamento ao assistente e depois existem 20 dias (art. 187.º/1/b) ou art. 278.º/1).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 69
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Nesses 20 dias, o superior hierárquico (1) pode ordenar a formulação da acusação, (2) ou
ordenar a continuação da investigação, cancelando-se o arquivamento, (3) ou confirma o
arquivamento, o prazo não se renova para pedir a instrução, o prazo para requerer a
instrução é perentório.
O assistente poderá optar pela instrução (art. 187.º, n.º1, al. b) ou pela intervenção
hierárquica (art. 278.º, n.º1) no prazo de 20 dias. A lei não especifica quando o assistente
deve optar pela intervenção hierárquica ou pela instrução.
Quando a investigação ficou aquém do devido sendo insuficiente e o assistente não
tem meios para levar ao processo, ele próprio, provas da prática do crime, será preferível
uma intervenção hierárquica.
Instrução
Art. 286.º e ss.
É uma fase processual que serve o propósito de permitir o controlo da decisão
tomada pelo MP de encerrar o inquérito. O n.º1 do art. 286.º é a norma mais importante, a
função da instrução é aprovar ou não a decisão do MP. É um meio de controlo da decisão
proferida pelo MP.
O legislador tinha ao seu dispor vários mecanismos possíveis de providenciar a
fiscalização dessa decisão e o meio que escolheu foi a instrução.
O controlo é feito numa fase processual: a instrução. Isto tem a ver com a CRP e com
receios de inconstitucionalidade, então o legislador criou a instrução para ser uma fase
própria de controlo, esta fase só pode ser aberta por iniciativa do arguido ou do assistente,
e será efetivada de acordo com a finalidade que se prevê no n.º1 do art. 286.º - não é uma
nova fase suplementar ou complementar de investigação criminal, o juiz de instrução está
proibido de acrescentar novos factos ao objeto do processo que alterem substancialmente
a acusação e o requerimento de abertura de instrução (art. 303.º, n.º3).
No inquérito o objeto está em aberto e aqui é uma fase de investigação, podendo
alargar-se o objeto de inquérito, que é elástico. Na instrução isto não acontece, não se pode
ultrapassar o objeto que já está definido no processo e ir à procura de novos factos
substanciais, aqui apenas se quer verificar se o que está a ser imputado tem razão de ser;
também não é um ensaio do julgamento ou um pré-julgamento, a instrução não serve para
julgar o arguido, por isso as garantias que o arguido dispõe na instrução são menores do
que as que ele dispõe no julgamento.
Art. 286.º, n.º2 – instrução tem caracter facultativo, se ninguém requerer a instrução
esta não existe.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 70
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Art. 286.º, n.º3 – não há lugar a instrução no processo abreviado, sumário ou
sumaríssimo, apenas há instrução no processo comum.
Art. 287.º define quem pode, quando pode e de que forma se pode requerer a
instrução. Tem 20 dias a contar da notificação, prazo que pode ser prorrogado em situações
de especial complexidade (art. 107.º. n.º6). O assistente ou arguido é que requerem a
instrução. Tecnicamente, as decisões do MP não são passíveis de recurso, estas só
acontecem nos crimes particulares porque estão dependentes da acusação do assistente,
quando o MP acusa sozinho não vai confirmar se a sua decisão está ou não correta.
Quando o agente é acusado por dois crimes, por exemplo, um crime de furto e de
abuso de confiança ele pode requerer a instrução só quanto a um deles, não precisa de ser
para os dois.
Sobre o art. 287.º, n.º1:
Al. a) - O arguido pode pôr em causa a qualificação jurídica dos factos que
lhe são imputados, por exemplo, dizer que não cometeu nenhum crime,
havendo abertura da instrução. Em principio não deverá ser admitida a
instrução se o arguido modificar a qualificação jurídica, por exemplo ser
acusado por um homicídio qualificado e ele dizer que é homicídio simples,
pois quer num, quer noutro ele vai a julgamento; mas se ele alterar a
qualificação jurídica, por exemplo, ser acusado de violência doméstica mas
dizer que é apenas uma ofensa à integridade física e não foi exercido o
direito de queixa, como isto torna o processo inadmissível já deve haver
instrução.
Esta discussão sobre os factos pode ser alcançada por outras vias: pode o
arguido dizer que há provas a produzir que refutam a imputação que lhe é
dirigida, ou o arguido quer produzir prova para a matéria de facto, por
exemplo, ser ouvida uma testemunha.
O arguido pode, na instrução, suscitar a validade de uma certa prova
produzida no inquérito contra ele, por exemplo, uma escuta telefónica feita
ilegalmente, e assim poderá deixar de ser acusado por factos baseados
nessa prova inadmissível.
O objeto da instrução é a decisão, só se pode escrutinar a atividade do MP
na medida em que está ligada à decisão que ele tomou, isto é, a acusação
contem um conjunto de factos que assentam em provas adquiridas ao longo
do processo, a atividade probatória do MP não é suscetível de controlo,
fazendo parte da autonomia do MP, mas há casos de ilegalidade, quando
uma das provas foi obtida ilegalmente.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 71
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Al. b) – o assistente pode requerer a abertura da instrução por “factos pelos
quais o MP não tiver deduzido acusação” abrange 2 casos: quando o MP
arquivou um inquérito quanto a certo arguido ou certa pessoa que não foi
constituída arguido; ou casos em que o MP deduziu acusação contra o
arguido e o assistente acha que não estão lá todos os factos que lhe devem
ser imputados, adicionando-os, conjugados com os factos do MP,
conduzindo a uma alteração substancial da acusação pública, quer-se um
alargamento do objeto do processo.
Nos casos em que o MP arquivou, esse arquivamento tem que ser referido à participação
de uma certa pessoa contra quem é requerida a instrução, o assistente só pode requerer a
instrução contra pessoas que tenham sido investigadas. Ac. TRP 30/01/2008, Relator
Francisco Marcelino – “O assistente não pode requerer a abertura de instrução em relação a pessoa contra a
qual o Ministério Público não deduziu acusação, se o inquérito não foi dirigido contra essa pessoa.”
Ver Texto “uma instrução inadmissível” de Nuno Brandão e Figueiredo Dias.
Se determinada pessoa for investigada deve o MP tomar posição sobre a sua
responsabilidade criminal. Se o MP concluiu pela inexistência de indícios suficientes já se
pode requerer a instrução, mesmo que essa pessoa não tenha sido constituída arguido.
Ac. TRP de 25/11/2009 (António Gama) – “I – A jurisprudência do Ac. Nº1/2006 do STJ tem de ser
actualizada e interpretada em conjugação com as alterações da Reforma de 2007, nomeadamente o acrescento
que introduziu no artigo 58º nº1 al. a) ao exigir para a constituição de arguido em inquérito a suspeita fundada da
prática de crime. II - A falta de constituição como arguido durante o inquérito não inviabiliza o requerimento de
abertura de instrução por parte do assistente contra pessoa denunciada.”
Nos casos em que o assistente reage ao arquivamento vale para ele o disposto no
n.º2 do art. 287.º, mas há uma exigência adicional para o assistente na parte final do n.º2 do
art. 287.º que remete para as als. b) e c) do art. 283.º, n.º 3 (conteúdo factual da acusação
pública), aqui o legislador impõe ao assistente, em caso de arquivamento, que não basta
dizer que discorda do arquivamento e por que discorda, tendo o assistente que deduzir uma
acusação, sob pena de nulidade.
Quando o MP arquiva não temos um objeto do processo assente e definido e o juiz
de instrução está limitado ao objeto do processo, por isso é que o assistente tem que deduzir
o objeto do processo, através desta acusação, acusação que o MP não fez. Quando o
assistente não cumpre esta exigência legal de imputar ao arguido os factos necessários para
que ele seja punido criminalmente a instrução é inadmissível e será rejeitada. O que se
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 72
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
discutiu na jurisprudência durante algum tempo foi se o juiz de instrução deveria convidar
o assistente a aperfeiçoar o pedido de instrução, o Ac. STJ 7/2005 concluiu que não deve
haver lugar ao convite para o aperfeiçoamento, sendo um requerimento inepto levando à
recusa da instrução, não convidando o assistente a deduzir acusação (“Não há lugar a convite ao
assistente para aperfeiçoar o requerimento de abertura de instrução, apresentado nos termos do artigo 28.º, n.º 2,
do Código de Processo Penal, quando for omisso relativamente à narração sintética dos factos que fundamentam a
aplicação de uma pena ao arguido”). Também entra neste domínio os casos em que o assistente,
apesar de imputar factos, esses factos são incompletos e insuficientes para preencher um
tipo legal de crime, nestas situações também deve haver lugar à rejeição do requerimento
de instrução.
Nas hipóteses em que o MP acusa mas o assistente não se revê na acusação,
entendendo o assistente que a acusação deveria ter outros factos imputados ao agente,
quando isto acontece, temos que distinguir e verificar se os factos que o assistente pretende
imputar importam ou não uma alteração substancial do objeto do processo. Há factos que o
assistente pode querer imputar ao arguido, mas não implicam uma alteração substancial
dos factos, aqui vale a acusação prevista no art. 284.º como meio próprio de acrescentar
esses factos.
Também pode acontecer que o assistente queira imputar ao arguido factos que
envolvem uma alteração substancial da acusação, aqui o assistente adicionará esses factos
através da abertura da instrução, não através do art. 284.º. Este é o único caso em que após
a acusação do MP existe a possibilidade de ampliar os factos imputados ao arguido, depois
desta fase acabou (art. 303.º, n.º3 e art. 359.º). Para serem admissíveis estes casos é
necessário que exista conexão entre os novos factos e os factos da acusação.
Feito o requerimento de abertura da instrução, pelo arguido ou o assistente, este é
entregue nos serviços do MP onde correu o inquérito, recebido o requerimento o MP remete
o processo para o tribunal de instrução competente. Estando o processo no tribunal de
instrução este deve ser levado à distribuição, o tribunal de instrução competente será
definido em função da acusação e do requerimento de abertura de instrução – Ac. STJ
2/2017 «Competindo ao Tribunal Central de Instrução Criminal proceder a actos jurisdicionais no inquérito
instaurado no Departamento Central de Investigação Criminal para investigação de crimes elencados no artigo
47.º, n.º 1, da Lei n.º 47/86, de 15 de Outubro (Estatuto do Ministério Público), por força do artigo 80.º, n.º 1, da Lei
de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, aprovada pela Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, essa
competência não se mantem para proceder à fase de instrução no caso de, na acusação ali deduzida ou no
requerimento de abertura de instrução, não serem imputados ao arguido qualquer um daqueles crimes ou não se
verificar qualquer dispersão territorial da actividade criminosa.».
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 73
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
O art. 40.º não se aplica à fase de instrução, poderá eventualmente haver motivo
para uma suspensão nos termos do art. 43.º, n.º2. Distribuído o processo ao juiz de
instrução, este deve decidir se a instrução é admissível nos termos do art. 287.º, n.º3 e 5. Se
entender que a instrução deve ter lugar profere o despacho de abertura de instrução,
declarando aberta a instrução (art. 287.º, n.º5). Se entender que a instrução é legalmente
inadmissível deve rejeitar a abertura da instrução (por exemplo, fora do prazo, por quem
não tem legitimidade para requerer, ineptidão do requerimento, inutilidade do
requerimento, etc.) nos termos do art. 287.º, n.º3, e pode ser interposto recurso nos termos
do art. 399.º quando o juiz rejeita a instrução.
A instrução é naturalmente dirigida por um juiz de instrução nos termos do art. 17.º
que se refere à competência do juiz de instrução e do art. 288.º, n.º1. O conteúdo da
instrução está previsto no art. 289.º, n.º1. O n.º2 do art. 288.º faz referência aos atos de
instrução e ao contraditório.
Os atos de instrução são atos de investigação, atos de prova. O debate instrutório
tem que existir sempre, os atos de instrução não são obrigatórios, depende se o juiz entende
que faz sentido ou não produzir prova, fazendo-o por sua própria iniciativa ou a pedido do
requerente da instrução. Aqui vale o princípio da investigação, embora a instrução não seja
uma fase de produção de prova complementar, isto é possível.
O juiz de instrução tem uma larguíssima latitude sobre a decisão de aceitação ou não
da prova que eventualmente tenha sido requerida. Mas há aqui o risco da instrução ser
usada, sobretudo pelo arguido, como forma de adiar o julgamento do processo. O juiz deve
avaliar se a prova é pertinente (art. 291.º), se o juiz entender que faz sentido para o
julgamento da causa defere, se entender que não indefere, dessa decisão de indeferimento
só cabe reclamação nos termos do art. 291.º, n.º2, se se confirmar o indeferimento é
irrecorrível. Ac. TC 371/2000 entendeu não haver inconstitucionalidade da
irrecorribilidade dos casos do 291.º, n.º2 – “Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo
291.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, na redacção que lhe foi dada pela Lei n.º 59/98, de 25 de Agosto, na parte
em que determina a irrecorribilidade do despacho do juiz que indefere o requerimento de realização de diligências
instrutórias”.
Há dois atos instrutórios que são obrigatórios para o juiz levar a cabo,
nomeadamente, interrogar o arguido e ouvir a vítima (art. 292.º). Em 2007 o art. 120.º, n.º2,
al. d) veio preceituar que só há nulidade por insuficiência de instrução nos casos em que não
foram praticados atos de instrução legalmente obrigatórios. No caso do arguido é diferente
do das testemunhas, se o arguido disser que quer ser ouvido o art. 292.º, n.º2 determina a
obrigatoriedade da sua instrução, se o juiz indeferir o ato solicitado haverá nulidade da
instrução por insuficiência (art. 120.º, n.º2, al. d). As declarações do arguido são meios de
prova, por esse motivo é que se ele pedir para ser ouvido é obrigatório ser ouvido.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 74
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Os atos de instrução estão sujeitos ao art. 289.º, n.º2 e deste artigo retiramos duas
coisas: assistência aos atos de instrução (ser expectador) e o contraditório durante os atos
de instrução. Só podem assistir os sujeitos ali indicados (art. 86.º, n.º6, al. a) e é por isso que
os jornalistas não podem assistir aos atos de instrução. Os atos de instrução conduzidos pelo
juiz de instrução observam o contraditório de forma diferente, é o juiz que faz as perguntas
no inquérito, mas não é um julgamento, é um contraditório mitigado.
Art. 297.º, n.º1.
No debate instrutório poderão estar presentes todos os sujeitos processuais e o
debate processa-se nos termos definidos no art. 302.º. Findo o debate instrutório será
proferida a decisão instrutória pelo juiz que presidiu ao debate instrutório que pode ser,
segundo os arts. 307.º e 308.º, um despacho de pronuncia submetendo o arguido a
julgamento, ou de não pronuncia onde decide que não deve ser submetido a julgamento.
Aula de 7/01/2020
Decisão instrutória – arts. 306.º e ss.
No final da instrução o juiz deverá tomar posição. Findo o debate instrutório o juiz
profere a decisão instrutória que é composta por 2 partes:
(1) O n.º3 do art. 308.º - é aqui que o juiz avalia as nulidades e irregularidades do
processo, podendo arquivar o processo quando se verifica, por exemplo, que
uma prova não é válida, quando há prescrição do procedimento criminal, etc.
O juiz deve avaliar se do processo constam provas, sejam elas recolhidas no
inquérito ou na instrução, que permitam a existência de indícios suficientes da
prática de um crime. Se existirem indícios suficientes há um despacho de
pronúncia, se não existirem indícios há um despacho de não pronúncia que
determina a extinção do processo. Em alternativa ao despacho de pronuncia o
juiz poderá aplicar uma suspensão provisória do processo no termos do art.
280.º, n.º2 ou até um arquivamento em caso de dispensa de pena nos termos do
art. 281.º.
O juiz pode fundamentar a sua decisão por remissão para acusação pública
quanto aos factos, de acordo com o art. 307.º, n.º1 (pode dizer, por exemplo,
“estão indiciados os factos que constam da acusação pública”), mas quanto à
fundamentação da prova tem que dar a conhecer as razões pelas quais considera
que estão indiciados os factos. Do mesmo modo, quando o juiz profere um
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 75
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
despacho de não pronúncia também deve fundamentar porque razão os factos
não estão indiciados.
Na decisão tomada o juiz está vinculado ao objeto do processo que resulta da
acusação, estando proibida a alteração substancial dos factos – art. 303.º, n.º3.
Tem a ver com a natureza acusatória do processo e com o facto da instrução não
ser uma fase de investigação suplementar. Se a alteração não for substancial e
respeitar o art. 303.º, n.º1 já é permitida, mas tem que se respeitar o direito de
defesa do arguido, comunicando esta intenção ao arguido, caso contrário há aqui
uma irregularidade e não uma nulidade (art. 123.º).
Na decisão instrutória o juiz não está vinculado à qualificação jurídica dos factos
dada pelo MP na acusação ou pelo assistente no seu requerimento de abertura
de instrução, podendo o juiz realizar uma alteração da qualificação jurídica dos
factos nos termos dos art. 303.º, n.º5 (que remete para o n.º1), devendo advertir
o arguido, caso contrário há uma irregularidade.
No caso do juiz alterar substancialmente os factos imputados ao arguidos, viola-
se a proibição do art. 303.º, n.º3 e há uma nulidade que está prevista no art.
309.º. No n.º2 do art. 309.º diz que tem que ser arguida no prazo de 8 dias, se
não o fizer a nulidade fica sanada.
Da decisão instrutória, em regra, poderá haver recurso nos termos gerais do art.
399.º (recorribilidade das decisões judiciais). O art. 310.º estabelece a
irrecorribilidade de certas decisões instrutórias, nomeadamente, da decisão
instrutória que pronunciar o arguido pelos factos pelos quais o MP o tiver
indiciado (n.º1), em todos os demais casos a decisão instrutória é recorrível.
Ac. TC 610/96 – entendeu não ser inconstitucional esta irrecorribilidade do art.
310.º, n.º1: “decide-se julgar não inconstitucional a norma do artigo 310º, nº 1, do Código de
Processo Penal, negar provimento ao recurso e confirmar a decisão recorrida, na parte respeitante
à questão de constitucionalidade suscitada.”.
(2) Em 2007 o legislador acrescentou ao art. 310.º, n.º1 uma parte em que diz que a
decisão é irrecorrível mesmo na parte em que aprecia a nulidade, questões
prévias e incidentais. Isto porque o STJ fixou jurisprudência no sentido de que
além da primeira parte ser irrecorrível, esta segunda parte também o é.
Até hoje o TC só julgou inconstitucional o art. 310, n.º1 num caso muito
específico, no Ac. TC 482/2014 (“Não julga inconstitucional a norma do artigo 310.º, n.º 1,
do Código de Processo Penal no sentido de ser irrecorrível a decisão do juiz de instrução, subsequente
à decisão instrutória, que aprecie a [arguição de] nulidade da mesma decorrente da omissão de
pronúncia sobre questões suscitadas pelo arguido no seu requerimento de abertura da instrução;
não julga inconstitucional a norma do artigo 310.º, n.º 1, do Código de Processo Penal no sentido de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 76
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
ser irrecorrível a decisão do juiz de instrução, subsequente à decisão instrutória, que aprecie a
[arguição de] nulidade da pronúncia decorrente da insuficiência da mesma relativamente aos
elementos exigidos no artigo 283.º, n.º 3, alínea b), aplicável ex vi do artigo 308.º, n.º 2, do Código de
Processo Penal; julga inconstitucional a norma do artigo 310.º, n.º 1, do Código de Processo Penal no
sentido de ser irrecorrível a decisão do juiz de instrução, subsequente à decisão instrutória, que
aprecie a [arguição de] nulidade insanável decorrente da violação das regras de competência
material do Tribunal de Instrução Criminal”) – inconstitucional por violação do principio
do juiz natural pois, neste caso, o arguido suscitou a incompetência do juiz de
instrução que não foi reconhecida pelo próprio juiz de instrução, o problema foi
que durante a instrução o arguido suscitou a incompetência do juiz e nestes
casos coloca-se a questão de saber se o arguido pode recorrer dessa
incompetência, da lei resulta que não pode recorrer mas o TC diz que se não
fosse admitido recurso haveria uma violação do princípio do juiz natural,
ficando o caso nas mãos do juiz incompetente, por isso, nestes casos em que está
em causa a competência, mesmo que o juiz de instrução confirme a acusação
pública o arguido poderá recorrer quanto à matéria da competência desse
tribunal. Neste Ac. o TC tomou posição sobre uma outra problemática
relacionada com o recurso ligado aos incidentes pós-decisórios, são aqueles
casos em que o arguido não dá “tréguas” e coloca nulidades e irregularidades
umas atrás das outras. Quando o juiz é confrontado com uma nova
irregularidade deve tomar uma nova decisão corrigindo essa irregularidade ou
dizendo que não há nenhuma irregularidade, essa nova decisão do juiz não é
recorrível. A decisão sobre a irregularidade suscitada na decisão de pronúncia
pelo arguido não pode ser sujeita a recurso senão contornava-se a proibição do
art. 310.º, n.º1, frustrando o interesse do legislador em que o processo avance o
quanto antes. Quando há uma dupla conforme de pronúncia, o arguido não deve
poder recorrer, salvaguardando a celeridade processual, é este o objetivo que
visa o art. 310.º, n.º1 sustentando a irrecorribilidade. Mas quando há uma não
pronúncia que faz dupla conforme, como o arguido não segue para julgamento
não há motivo para salvaguardar a celeridade do processo e, por isso, o arguido
pode recorrer (casos em que é o assistente a pedir a instrução após um
arquivamento e uma não pronúncia).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 77
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
JULGAMENTO
As fases anteriores ao julgamento são fases preliminares, que visam para avaliar se
vale a pena ou não submeter o arguido a julgamento. No julgamento o que está em causa é
saber se o arguido é ou não culpado pelos factos que lhe foram imputados na acusação e na
pronúncia.
O julgamento é organizado pelo tribunal (entidade competente para o julgamento)
– art. 202.º CRP.
O julgamento tem várias etapas. A audiência de julgamento é o cerne da fase de
julgamento, mas há atos prévios e posteriores à audiência. O julgamento está entre os arts.
311.º e 380.º e contrasta com a dimensão da fase de inquérito que é muito mais curta. O
essencial do processo está no julgamento, daí ser uma fase mais longa.
1ª parte: atos preliminares (arts. 311.º a 320.º)
2ª parte: audiência de julgamento (arts. 321.º a 364.º)
3ª parte: sentença (arts. 365.º a 380.º)
Chegando o processo ao tribunal de julgamento este é levado à distribuição que o
reencaminha a um determinado juiz (juiz 1 ou 2 ou 3, antigamente era juízo) com
competência para conhecer o julgamento, passando a ser tramitado por um determinado
juiz em específico.
O art. 311.º prevê o saneamento do processo que é o primeiro ato que o juiz deverá
praticar, nomeadamente o juiz presidente. O que se pede ao juiz presidente é que avalie se
aquela causa penal está em condições de ser submetida à audiência de julgamento ou se há
algum vício que impeça o processo de avançar, está relacionado com o princípio da
promoção processual que não permite o julgamento de atos inúteis.
O art. 311.º, n.º2 vale apenas para os casos em que o processo seguiu do inquérito
para o julgamento, ou seja, quando não houve instrução.
Na al. b) prevê-se a rejeição da parte subordinada que tenha alterado
substancialmente a acusação principal, por exemplo quando o assistente,
acompanhando o MP, integra factos que alteram substancialmente os do
processo nos casos em que há acusação particular, ou seja, nos casos em que
há uma acusação subordinada – o juiz pode rejeitar esses factos.
Na al. a) temos que saber o que é uma acusação manifestamente infundada,
que está no n.º3 - estas decisões são passíveis de recurso mas se essa
decisão vier a tornar-se definitiva não há motivo para que haja uma
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 78
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
correção, não sendo necessário devolver ao MP para que este faça a
correção, o processo termina aí.
Na al. d) do n.º3 do art. 311.º, no que se refere aos factos que não constituem crime,
temos que distinguir entre factos que efetivamente não são crime e factos em que há um
lapso, por exemplo, o MP imputa ao arguido um crime doloso mas esquece-se de descrever
factos que preenchem o dolo – qual é o enquadramento destas deficiências? A
jurisprudência tem enquadrado estas situações na al. b), mas Nuno Brandão acha que se
enquadram na al. d) – aqui pode encaminhar-se para o MP para que ele corrija,
reformulando a acusação para resolver a deficiência. O TC entendeu que essa possibilidade
existe e não atenta contra o principio ne bis in idem porque o tribunal ainda não julgou o
arguido, podendo haver reformulação da acusação – Ac. TC 246/2017: “Não julga
inconstitucional a norma extraída da conjugação dos artigos 311.º, [Link] 1, 2, alínea a), e 3, alínea d), e 283.º, todos
do Código de Processo Penal, na interpretação segundo a qual, tendo sido deduzida acusação contra um arguido,
imputando-lhe a prática de um crime, e tendo esta acusação sido liminarmente rejeitada por insuficiente descrição
de um elemento típico, poder vir a ser validamente deduzida nova acusação pela prática, nas mesmas
circunstâncias de tempo e lugar, do mesmo crime, suprindo a omissão da descrição do sobredito elemento típico,
sujeitando-se a julgamento e condenando-se o arguido pelos factos e qualificação jurídica dela constantes.”
Não pode justificar uma rejeição da acusação por manifestamente infundada devido
à falta de indícios suficientes recolhidos no inquérito. Durante algum tempo a
jurisprudência manifestava-se a favor dessa possibilidade, mas a lei foi alterada de forma a
afastá-la. Se isto fosse admito era fácil perceber qual seria a decisão que iria tomar, pois ao
imiscuir-se na esfera do MP já interferia com a sua imparcialidade e estaria a tomar uma
espécie de decisão antecipada. (ver Nuno Brandão – decisão manifestamente infundada no
site da FDUC)
É neste momento que releva o despacho instrutório, porque o momento próprio
para o juiz rejeitar uma acusação manifestamente infundada é neste saneamento. Se o juiz
não rejeitar e avançar para o conhecimento da causa com uma acusação que é
manifestamente infundada não pode voltar atrás, não podendo dar os factos como provados
na acusação, caso contrário há uma decisão ilegal que viola o princípio da acusação. É neste
sentido que vai o Ac. STJ 1/2015 de fixação de jurisprudência: «A falta de descrição, na acusação,
dos elementos subjectivos do crime, nomeadamente dos que se traduzem no conhecimento, representação ou
previsão de todas as circunstâncias da factualidade típica, na livre determinação do agente e na vontade de
praticar o facto com o sentido do correspondente desvalor, não pode ser integrada, em julgamento, por recurso ao
mecanismo previsto no artigo 358.º do Código de Processo Penal.».
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 79
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Alteração da qualificação jurídica: no saneamento do processo a questão é saber se
o juiz pode dizer que os factos consubstanciam o crime X e não o crime Y que é indicado pelo
MP.
Há quem entenda que não pode fazer isto (Ac. TRC 13/12/2006 e Paulo Pinto
Albuquerque) porque o juiz, se pudesse alterar a qualificação jurídica dos factos, violaria o
princípio da acusação e antecipava a decisão final, o que prejudicaria a posição e a defesa
do arguido, pois o juiz está a interferir numa função que não é sua, mas sim do MP. E há
quem entenda que pode fazê-lo (Ac. TRP 3/10/2007 e Ac. TRP 24/01/2018).
Nuno Brandão acha que o juiz deve poder fazê-lo pois, o juiz, limita-se a exprimir
qual é a sua posição sobre o enquadramento jurídico de uma certa situação, não está a dar
os factos como provados e, quanto mais cedo o arguido souber qual é a qualificação jurídica
dos factos melhor, porque fica logo ciente sobre qual é a qualificação do juiz sobre aquela
matéria. Alem disso, só permitindo ao juiz que conheça a qualificação jurídica de
determinados factos é que se previne os atos inúteis, atentando contra o princípio da
economia e celeridade processual.
O STJ no Ac. STJ 11/2013 fixou jurisprudência no sentido de que o tribunal não pode
alterar a qualificação jurídica dos factos na audiência de julgamento – “A alteração, em audiência
de discussão e julgamento, da qualificação jurídica dos factos constantes da acusação, ou da pronúncia, não pode
ocorrer sem que haja produção de prova, de harmonia com o disposto no artigo 358.º [Link] 1 e 3, do CPP”. Já
estamos num momento posterior ao saneamento, é um caso diferente porque a audiência
de julgamento já se iniciou.
Art. 312.º, n.º2 – o tribunal quando marca a audiência marca logo 2 datas. Essa
marcação deve ser feita com 30 dias de antecedência, no mínimo. Deve ser notificado a todos
os intervenientes no processo.
No art. 313.º, n.º3 diz em que termos deve ser feita a notificação do arguido e do
assistente. Está relacionado com a possibilidade de julgamento com ausência de arguido.
Art. 315.º, n.º1 – querendo, o arguido dispõe de 20 dias para apresentar contestação,
não contestando isso não releva para a prova dos factos. Art. 78.º, n.º3 – não implica a
confissão dos factos quando não apresenta contestação ao pedido cível. O art. 315.º também
diz que com a contestação o arguido pode arrolar testemunhas.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 80
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Competência material do tribunal
Arts. 10.º e 13.º a 16.º do CPP – tribunal do júri, tribunal coletivo e tribunal singular.
A fixação de competência faz-se em função do conteúdo da acusação ou do despacho
de pronúncia.
A lei recorre a dois métodos de determinação da competência material:
determinação abstrata (seguido na generalidade dos casos: arts. 13.º, 14.º e
16.º): a competência é definida tendo em conta o tipo de crime imputado ou
o limite máximo da pena abstrata aplicável).
determinação concreta (art. 16.º, n.º3): tem em conta a perspetiva da
acusação sendo a competência definida através da pena máxima
concretamente aplicada ao arguido na perspetiva da acuação indicada pelo
MP).
Tribunal do júri
Art. 207.º, n.º1 CRP e art. 13.º CPP – decorre do DL 387-A/87 que regula o tribunal
do júri.
Este tribunal é formado (art. 1.º do DL) por 3 juízes de direito, 4 jurados efetivos e 4
jurados suplentes.
Existem vários modelos de júri. Em Portugal temos o modelo escabinato que integra
uma composição mista entre juízes profissionais e leigos (jurados), diferente do júri
americano em que o júri é constituído apenas por leigos. Os jurados decidem não só a
questão da culpabilidade mas também a questão da sanção.
O art. 207.º da CRP prevê, no n.º1, que o júri intervém nos crimes graves, exceto nos
de terrorismo e criminalidade organizada quando assim o requeiram. O tribunal do júri tem
em vista um principio democrático, no sentido do povo participar ativamente na justiça.
A CRP impõe o funcionamento do tribunal do júri no julgamento dos crimes graves,
cabendo ao legislador concretizar quais são os crimes graves (pena superior a 8 anos). O
tribunal do júri funciona a pedido do MP, do assistente ou do arguido nos termos do art. 13.º
n.º 1, 2 e 3. Uma vez feito o pedido não se pode voltar atrás (n.º5 do art. 13.º).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 81
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Aula de 14/01/2020
Tribunal coletivo
Aquele que intervém nos casos mais graves. Há um intuito de minimização do risco
do erro, nesse sentido é que existem mais juízes a julgar a causa.
O tribunal coletivo é composto por 3 juízes de direito já avançados na carreira,
comparativamente aos que intervêm nos tribunais singulares.
Art. 14.º - a competência fixa-se de acordo com o modelo da determinação abstrata
da competência. Há certos crimes que integram a chamada competência própria do tribunal
coletivo (n.º1 – crimes contra a paz, identidade cultural e identidade pessoal, crimes contra
o Estado – arts. 308.º a 346.º; arts. 236.º a 246.º - crimes da lei 31/2004), mesmo que sejam
puníveis com uma pena de prisão que não exceda os 5 anos é o tribunal coletivo que julga.
Art. 14.º n.º2 atribui também competência ao tribunal coletivo nos crimes dolosos
ou agravados quando resulte a morte de uma pessoa, mesmo que não ultrapasse os 5 anos
(homicídio privilegiado, infanticídio, etc.).
O tribunal coletivo também tem competência para julgar crimes com pena de prisão
superior a 5 anos (al. b), n.º2 do art. 14.º). Só não será assim se existir alguma disposição
que atribua competência a outro tribunal, como é o caso dos crimes contra a autoridade
pública (art. 347.º e ss).
Para os casos em que a lei faz depender a competência de um tribunal temos que
aplicar o art. 15.º - tem que se ter em conta as circunstâncias modificativas agravantes e
atenuantes.
O art. 14.º, nº2, al. b) faz menção também ao chamado concurso de infrações –
decorre desta norma que o tribunal coletivo deverá intervir quando esteja em causa uma
pena única conjunta superior a 5 anos de prisão. Art. 77.º CP.
O tribunal do júri intervém em crimes cuja pena é superior a 8 anos (tem que haver
um crime pelo menos que preveja uma pena maior que 8 anos) e pode acontecer que o
tribunal julgue casos que caberiam ao tribunal coletivo, devido a uma conexão temporal.
Por exemplo, se cometer vários furtos que em conjunto dão uma pena de 15 anos o tribunal
do júri não pode intervir porque o crime de furto não é punido com mais de 8 anos.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 82
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Tribunal singular
Art. 16.º.
Crimes em que estão em causa funcionários públicos e entende-se que não é exigível
um tribunal coletivo devido à maior confiança e credibilidade acrescida, isto é muito
questionável – art. 16.º, n.º2, a).
Na al. b) do n.º2 diz que os tribunais singulares intervêm na pequena e média
gravidade, cuja pena abstratamente aplicável não ultrapasse os 5 anos.
No n.º3 prevê o modelo da determinação concreta da competência, em que a
competência é determinada não em função da pena abstratamente aplicável, mas antes em
função daquela que, do ponto de vista do Estado, será concretamente a pena que ao caso
deverá caber, ou seja, não é em função da pena abstrata mas sim da pena que o MP considere
como previsivelmente aplicável.
No n.º4 estabelece um mecanismo de desvio de casos do tribunal coletivo para o
tribunal singular por razões de celeridade processual, estão em causa situações em que o
MP acusa o arguido de um determinado crime que o faria incorrer numa pena superior a 5
anos só que o MP considera que, dadas as circunstâncias concretas do caso, provavelmente
não deverá ser aplicada uma pena superior a 5 anos, então o legislador entende que não fará
sentido ocorrer a intervenção do tribunal coletivo.
O art. 16.º n.º3 só valerá naqueles casos em que o tribunal coletivo deveria ser
competente por força do art. 14.º, n.º2, al. b). Se a competência do tribunal coletivo decorrer
do art. 14.º, n.º1 ou do art. 14.º, n.º2 al. a) então o MP não pode lançar mão do art. 16.º, n.º3.
Por exemplo, o art. 317.º, n.º1 CP estabelece uma pena de prisão de 3 a 10 anos, este crime
entra no catálogo do art. 14.º, n.º1 e o MP não pode fazer com que se aplique o art. 16.º, n.º3.
Nos casos em que o MP pretenda fazer uso do art. 16.º, n.º3 deverá argumentar a
sua pretensão, pois está aqui em causa o princípio do juiz natural, por isso, a pretensão do
MP poderá ser fundamentada mediante concretização dos factos indiciados no processo que
fazem antever que não deverá ser aplicada uma pena superior a 5 anos – art. 40.º e 71.º do
CP. Se o MP não fundamentar o tribunal singular quando recebe o processo deverá rejeitar
competência e encaminhar o processo para o tribunal coletivo, sob pena de violação do
princípio do juiz natural (art. 210.º, n.º1 CP).
Questão diferente é saber se o juiz pode recusar competência no caso em que o MP
fundamentou que não deverá ser aplicada pena de prisão superior a 5 anos, apesar de se
tratar de um crime em que o tribunal coletivo seria competente por força do art. 14.º, n.º2,
al. b). À primeira vista parece que não pode rejeitar mas a questão é controversa, o juiz é
sempre independente para aplicar a pena que ache correta. Ac. TC 393/89 e Ac. TC
614/2003.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 83
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
O tribunal tem que se pronunciar sobre se é competente ou não – art. 311.º.
O art. 32.º prevê que a dedução de incompetência pode ocorrer até ao trânsito em
julgado da decisão final.
Tratando-se de incompetência territorial diz o art. 32.º, n.º2 que o limite máximo é
o início da audiência de julgamento, depois disso já não pode declarar-se incompetente.
Feito o saneamento do processo, designa-se uma data para a audiência de
julgamento através de despacho, esse despacho é notificado aos vários sujeitos processuais.
O arguido, recebendo a notificação da data de julgamento dispõe de um prazo para
contestar e indicar prova.
Na data marcada, um funcionário judicial procede à chamada dos sujeitos que
devam intervir nessa audiência de julgamento – art. 321.º e ss.
Se o arguido não estiver presente aquando a chamada põe-se o problema da
realização da audiência na ausência do arguido, saber se o tribunal pode avançar para a
audiência de julgamento sem o arguido (art. 333.º). O arguido, em regra, tem o dever de
comparecer no julgamento (art. 332.º, n.º1) mesmo que tenha o direito ao silêncio.
O art. 333.º prevê o caso regra de todos os casos em que o arguido pode ser julgado
na ausência, o legislador estabelece uma preferência, só excecionalmente é que se adia a
audiência, nos casos em que a presença do arguido é fundamental para a descoberta da
verdade. O legislador adotou o mecanismo da contumácia para os dissuadir de faltar às
audiências de julgamento, contudo, isto não surtiu grande efeito e existem faltas em massa
de arguidos, havendo um descrédito deste mecanismo; em 97 a Constituição foi alterada
para abrir a porta do julgamento na ausência devido a esta situação insustentável,
prevendo-se atualmente no art. 32.º, n.º6 da CRP o julgamento na ausência; foi nesta
sequência que em 98 o CPP foi alterado, de forma a permitir o julgamento na ausência.
No regime atual há duas condições essenciais para que o arguido possa ser julgado
na ausência:
1. Regularização da notificação (o arguido tem que saber que vai ser julgado)
– arts. 333.º, n.º1 que remete para os arts. 313.º, n.º3 + 113.º, n.º1, als. a) e
b).
Segundo o art. 313.º, n.º3, a notificação pode ser através de contacto pessoal,
via postal registada e via postal simples com prova de depósito.
Se o arguido durante o inquérito ou instrução indicou a sua morada ele
deverá ser notificado do julgamento através de carta simples com prova de
depósito, o que acontece na maioria das vezes devido à constituição do
termo de identidade e residência. Se o arguido andou desaparecido durante
o inquérito e depois o tribunal o encontra e o notifica, mesmo que não
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 84
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
apareça no julgamento o tribunal pode julgá-lo na ausência, mesmo quando
a carta seja devolvida.
Em caso de contumácia o processo fica suspenso, pois não foi possível
notificar o arguido e nesse caso não se pode julgar o arguido sem ele ter
conhecimento que vai ser julgado (art. 335.º). Se o arguido tiver sido
regularmente notificado está dada a primeira condição para o arguido poder
ser julgado na ausência.
2. Se o tribunal constatar que o arguido não está presente o tribunal deverá
analisar se a presença do arguido é essencial para a descoberta da verdade.
Normalmente não é frequente a produção de prova incriminatória do
arguido, ou seja, normalmente o tribunal não carece e não conta com a
disponibilidade probatória do arguido (confissão) pois o arguido pode
remeter-se ao silêncio. Se não for absolutamente indispensável a presença
do arguido o julgamento pode ser feito na ausência deste.
Se estivermos perante um julgamento na ausência estrito, em que o arguido
não esteve presente em nenhuma fase do processo, vale o art. 333.º, n.º5.
Quando assim é, a lei obriga à notificação pessoal da sentença, tem que haver
a certeza absoluta que o arguido toma conhecimento da sentença. O prazo
para recorrer só se inicia depois dessa notificação pessoal. Não há trânsito
em julgado se passarem mais de 30 dias desde o depósito da sentença se o
arguido não tiver sido notificado. Enquanto o arguido não aparecer o prazo
não começa a correr. Mas corre o prazo de prescrição.
Problema da alteração da qualificação jurídica dos factos e alteração dos factos
Art. 1.º, al. f).
Instrução: arts. 303.º e 309.º.
Julgamento: arts. 311.º, n.º2.º, b) + 339.º, n.º4 e arts. 358.º, n.º1 + 3358.º, n.º3 + 359.º
+ 379.º, n.º1, al. b).
Na acusação o MP acusa pelo facto 1, 2, 3 e 4 que consubstanciam um homicídio (art.
131.º) e:
(a) o juiz prova o facto 1, 2, 3, 4 e também o facto 5 que prova que o arguido andou
a premeditar o crime de homicídio, passando a ser um homicídio qualificado (art.
132.º, al. j);
(b) quando o juiz prova os factos que o MP invocou (1, 2, 3 e 4) mas em vez de dizer
que é um homicídio simples diz que é um homicídio qualificado.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 85
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Nestas hipóteses há uma alteração, mas que tipo de alteração se trata? É permitida
ou proibida? Se for permitida qual é o procedimento?
Quanto ao tipo de alteração há 2 grandes casos:
alteração da qualificação jurídica dos factos: não temos factos novos, os
factos são os mesmos e apenas muda o enquadramento jurídico que o
tribunal se propõe dar àqueles factos. O tribunal dá como provados os factos
que já constavam da acusação e da pronúncia. Esta alteração é permitida. É
natural que haja divergência ao longo do processo e que uma mesma
realidade seja objeto de uma qualificação jurídica pelos diferentes sujeitos
processuais. Isto é possível mesmo que isso implique o agravamento da
responsabilidade criminal do arguido.
alteração dos factos: o tribunal introduz novos factos na imputação além dos
factos que já constavam da acusação ou pronúncia. Aqui importa saber se
essa alteração é substancial ou não substancial, através do critério do art.
1.º, al. f) – se implicar uma agravação do limite máximo da pena ou um crime
diverso do que lhe foi imputado, conjugando com os factos anteriores, essa
alteração é substancial e é proibida. Se não implicar a modificação do tipo de
crime nem agravar a moldura legal essa alteração não é substancial e por
isso não é proibida, sendo legalmente autorizada sob certas condições.
Alteração da qualificação jurídica dos factos
Este tipo de alterações, mesmo quando impliquem o enquadramento dos factos num
crime diferente, ou mesmo que impliquem uma agravação da moldura legal, não constituem
uma alteração substancial dos factos, pois a única coisa que muda é a interpretação jurídica
dos factos. Esta diferenciação está assente na jurisprudência já há várias décadas,
nomeadamente no Assento do STJ 2/93: “Para os fins dos artigos 1.º, alínea f), 120.º, 284.º, n.º 1, 303.º,
n.º 3, 309.º, n.º 2, 359.º, n.ºs 1 e 2, e 379.º, alínea b), do Código de Processo Penal, não constitui alteração substancial
dos factos descritos na acusação ou na pronúncia a simples alteração da respectiva qualificação jurídica (ou
convolação), ainda que se traduza na submissão de tais factos a uma figura criminal mais grave.”.
Art. 33.º, n.º4 e art. 358.º, n.º3 + 358.º, n.º1
A alteração da qualificação jurídica dos factos é possível desde que se assegure o
direito à defesa do arguido.
A alteração da qualificação jurídica dos factos não altera o objeto. O objeto é o
mesmo e o tribunal pode adequar ao que considerar adequado (art. 112.º CRP), o tribunal
tem liberdade para decidir o caso de acordo com as normas jurídicas que entender
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 86
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
adequadas, não está vinculado a condenar naquilo que consta do despacho de pronúncia ou
da acusação, apenas está vinculado ao objeto jurídico que lhe é dado.
A estratégia de defesa é muitas vezes condicionada pela qualificação que lhe é dada
e, quase sempre, mudar a qualificação jurídica dos factos pode prejudicar o direito de defesa
do arguido, daí que tenha que ser assegurado esse mesmo direito de defesa, o arguido pode
reorganizar a sua defesa – Ac. TC 279/95 “Julga inconstitucional - por violação do princípio constante
do artigo 32º, n.º 1, da Constituição - o disposto no artigo 1º, alínea f), do Código de Processo Penal, - Aprovado pelo
Dec-Lei n.º 78/87, de 17 de Fevereiro-, conjugado com os artigos 120º, 284º, nº 1, 303º, nº 3, 309º, nº 2, 359º, nºs 1
e 2 , e 379º, alínea b), e interpretado nos termos constantes do Assento n.º 2/93, - de 27 de Janeiro, publicado na 1ª
série do Diário da República de 10 de Março de 193 -, como não constituindo alteração substancial dos factos
descritos na acusação ou na pronúncia a simples alteração da respectiva qualificação jurídica (ou convolação),
mas tão-só na medida em que, conduzindo a diferente qualificação jurídico-penal, dos factos à condenação do
arguido em pena mais grave, não se prevê que o arguido seja prevenido da nova qualificação e se lhe dê, quanto a
ela, oportunidade de defesa.”.
A lei só prevê a comunicação ao arguido, porque tem em mente o direito de defesa
dele, mas também pode isto não ser irrelevante para o assistente. Quando a alteração possa
ser relevante para o assistente também se deve alertar o assistente e o MP dessa alteração
da qualificação jurídica (art. 327.º - princípio do contraditório).
A violação do disposto no art. 358.º, n.º3 não está qualificada como nulidade da
sentença no art. 379.º, n.º1, al. b) e, por isso, parece tratar-se de uma irregularidade.
Aula de 21/01/2020
Alterações dos factos
Diz respeito à imputação de factos na sentença que não constam da acusação e sem
que o arguido se tenha defendido. Muitas vezes ouvindo testemunhas, por exemplo, podem
aparecer factos que nunca se pensaram existir. Coloca-se a questão de saber se o tribunal,
convencendo-se desses factos, os pode dar como provados. Por exemplo, o arguido estava
acusado por ter subtraído 1000 euros e apura-se que foram antes 25000 euros, ou que em
vez de ser um furto sem violência foi uma subtração com violência sobre a vítima, ou
durante a subtração violou uma criança que estava a dormir nessa casa.
O juiz, convencendo-se destes novos factos. pode dar como provados e alterar os
factos imputados ao arguido?
A alteração dos factos pode ser não substancial ou substancial.
A alteração não substancial é permitida (art. 358.º, n.º1). A alteração substancial dos
factos é proibida (art. 359.º). Na alteração substancial dos factos existem factos
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 87
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
autonomizáveis (denúncia ao MP) e factos não autonomizáveis (proibição de extinção de
instância).
Para saber se a alteração é substancial ou não temos que recorrer ao art. 1.º, al. f).
A alteração é substancial quando o novo facto implica a imputação de um crime
diverso (por exemplo, de furto passa para roubo); também há alteração substancial dos
factos quando há uma agravação do limite máximo da moldura legal (passar de furto
simples para furto qualificado, por exemplo).
Onde há mais dificuldades é na vertente em que se imputa um crime diverso. Aqui
parece relevar uma ideia não tanto de o tipo legal mudar ou não, ou seja, não é só uma
questão jurídica mas também a perceção judicial sobre aquele facto. Releva não tanto o
nome do tipo legal de crime imputado, mas antes o desvalor no ponto de vista das
valorações sociais. Pode acontecer que o tipo legal de crime continue a ser o mesmo, mas
passa a haver alteração, por exemplo, o indivíduo em vez de matar A, mata B – isto também
é uma alteração substancial dos factos. Também pode ser um crime diverso a compreensão
da participação do arguido naquele facto, por exemplo, ser apenas coautor e não autor do
crime.
Quando a alteração não é substancial o problema enquadra-se nos arts. 358.º, n.º1 e
2 e essa alteração é autorizada. Por exemplo, o arguido acusado de subtrair 1000 euros e
subtraiu 2000, ou um arguido acusado de matar a vítima às 14h mas matou a vítima às 16h.
Mas mesmo estas alterações não substanciais podem prejudicar a defesa do arguido, por
isso deve dar-se na mesma ao arguido tempo para ajustar a sua defesa, comunicando ao
arguido essa alteração. Perante essa informação o arguido pode:
(1) não fazer nada sendo o tribunal livre para promover a alteração não
substancial dos factos ou;
(2) o arguido diz que precisa de reorganizar a defesa e requer ao tribunal um
prazo para o fazer (art. 358.º, n.º1) e o tribunal tem o dever de dar esse
prazo, garantindo ao arguido a sua preparação. O tribunal está autorizado a
realizar a alteração não substancial dos factos desde que informe o arguido
e lhe garanta a sua defesa. Se o tribunal alterar a qualificação dos factos sem
avisar o arguido e condenar o arguido com base nesses factos, sem lhe dar a
possibilidade de reorganizar a defesa, a decisão é nula, há uma nulidade da
sentença (art. 379.º, n.º1, al. b) e há recurso nos termos do art. 410.º, n.º3.
O STJ fixou jurisprudência no Ac. STJ 1/2015 («A falta de descrição, na acusação, dos
elementos subjectivos do crime, nomeadamente dos que se traduzem no conhecimento, representação ou previsão
de todas as circunstâncias da factualidade típica, na livre determinação do agente e na vontade de praticar o facto
com o sentido do correspondente desvalor, não pode ser integrada, em julgamento, por recurso ao mecanismo
previsto no artigo 358.º do Código de Processo Penal.») – concluiu-se que o aditamento à sentença de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 88
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
factos que preenchem o dolo não constituem uma alteração não substancial dos factos. Esse
aditamento não pode ser tomado como uma mera alteração não substancial dos factos, mas
também não é uma alteração substancial dos factos, é algo ainda mais “forte” pois passa a
ser considerado crime, dá-se um significado criminal a uma realidade que não era crime.
Se a alteração for substancial podemos ter casos em que o tribunal se convence de
factos que não estavam na acusação ou pronúncia e coloca-se o problema de saber se,
havendo esse convencimento de factos (que não eram imputados ao arguido) e apurando-
se o cometimento de um crime diverso, se podem ser tomados em conta pelo tribunal. O art.
359.º, n.º1 diz que não, não pode em julgamento realizar-se uma alteração substancial dos
factos, é proibido. E é proibido por 2 razões ligadas aos direitos fundamentais:
(1) em virtude do princípio da acusação – art. 32.º, n.º 5 CRP – que leva a
uma vinculação temática do tribunal, estando o tribunal limitado nos seus
poderes pelo objeto da acusação. Há um corolário da consunção onde o
tribunal não pode ir além do objeto do processo e deve conhecê-lo de forma
esgotante, pois caso deixe algo de lado já não pode depois voltar ao processo
(ne bis in idem);
(2) em virtude do direito de defesa do arguido – art. 32.º, n.º1 CRP – o
arguido deve poder contar com a estabilidade da imputação, pois só exerce
uma defesa efetiva se tiver a garantia de que a defesa que apresentar não vai
ser contornada ao longo do processo por novas imputações que modifiquem
o objeto do processo.
O tribunal só pode levar os factos novos à sentença se o arguido der a sua
concordância quanto a essa alteração (art. 359.º, n.º3). O tribunal dá conhecimento aos
sujeitos processuais da alteração e o arguido pode fazer 1 de 3 coisas:
1. pode opor-se à declaração,
2. pode declarar que concorda com a alteração (tem que ser o próprio
arguido e não o defensor),
3. pode não dizer nada.
Se o arguido nada disser, essa inércia não pode ser tomada como
concordância com a alteração – foi isto que entendeu o Ac. TC 463/2004
(“Julgar inconstitucional, por violação do artigo 32.º, [Link] 1 e 5, da Constituição da
República Portuguesa, a norma constante do artigo 359.º do Código de Processo Penal
quando interpretada no sentido de, em situação em que o tribunal de julgamento comunica
ao arguido estar-se perante uma alteração não substancial dos factos descritos na
acusação, quando a situação é de alteração substancial da acusação, poder o silêncio do
arguido ser havido como acordo com a continuação do julgamento”) onde o TC
contrariou um Ac. Do STJ de 20/02/2003. Se o arguido, o MP e o
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 89
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
assistente estiverem de acordo com a alteração, o tribunal pode incluir
os novos factos na decisão condenatória a menos que, esses novos factos,
importem uma alteração da competência do tribunal.
Quando o tribunal se propõe alterar substancialmente os factos e não tem acordo
dos vários sujeitos processuais o que faz o tribunal? Não pode incluir esses novos factos na
sentença, o tribunal está proibido. Aquilo que o tribunal pode fazer depende da natureza
dos novos factos:
Se os factos forem autonomizáveis (art. 359.º, n.º2), ou seja, apreciados
separadamente do objeto daquele processo, então essa alteração deve ser
comunicada (denunciada) ao MP para que este abra inquérito quanto a esses
novos factos – por exemplo, o arguido estava acusado de furto de uma
bicicleta, provando-se isso em julgamento, mas também se provou que uns
dias depois o arguido agrediu o ofendido quando o ofendido o viu com a sua
bicicleta e a tentava reaver através de ação direta; ou quando o arguido
durante um furto viola uma criança que estava na casa que furtou.
Se os factos não forem autonomizáveis (aqueles factos que estão
interligados com o objeto do processo mas que em si mesmo não têm
relevância criminal), como por exemplo, a premeditação do homicídio;
crime de violação em que se prova que a vítima engravidou - há agravação
da pena ao arguido aumentando limite máximo, mas não é autonomizável. O
novo facto até pode ter relevância criminal, mas está tão ligado ao outro que
não pode ser desligado do facto principal.
No art. 359.º, n.º1, parte final, prevê que quando o tribunal apura um facto
novo não autonomizável não pode levar à sentença esse novo facto, mas
também não pode tomar uma decisão de extinção da instância (devolvendo
o processo ao MP para reformular a acusação). O tribunal deve
desconsiderar o novo facto, é como se ele não existisse. O TC, por duas vezes,
foi chamado a pronunciar-se sobre este regime e entendeu que não era
inconstitucional – Ac. TC 226/2008 e Ac. TC 711/2019 (“Não julga
inconstitucional o artigo 359.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, na redação da Lei n.º
48/2007, de 29 de agosto, interpretado no sentido de que, perante uma alteração substancial
dos factos descritos na acusação, que não sejam autonomizáveis, o tribunal não pode proferir
decisão de extinção da instância em curso e determinar a comunicação ao Ministério Público
para que este proceda pela totalidade dos factos.”).
Este regime vale, com as devidas adaptações, na fase de instrução (art. 303.º, n.º3),
apenas no art. 309.º diz que é uma nulidade dependente de arguição.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 90
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Aula de 28/01/2020
PROVA
Art 124.º - objeto da prova. Vale aqui o princípio da investigação, determinando
que o juiz tem o poder-dever de tomar as iniciativas necessárias, mesmo oficiosamente, para
descobrir a verdade material. Art. 340.º “o tribunal ordena oficiosamente….” é a
consagração do princípio da investigação.
O juiz não é um juiz-árbitro como acontece nos EUA (onde o juiz não produz prova
nem faz perguntas). O juiz interventivo que se envolve na produção de prova pode causar
impacto na sua imagem de imparcialidade e, por isso, deve ser contido e só deve intervir
quando subsistam dúvidas quanto à prova (art. 348.º).
Quem procede à inquirição da testemunha é quem a apresenta, não o tribunal. Mas
o juiz, pode a todo o tempo, colocar questões à testemunha, mas deve fazê-lo
subsidiariamente, só assim se coaduna o princípio da investigação com a estrutura do
sistema acusatório (a par da alteração substancial dos factos).
É deste princípio da investigação que decorre também a ideia de que no processo
penal não vale o ónus da prova, ao contrário do que existe no processo civil.
Outro princípio fundamental é o princípio da livre apreciação da prova, com
consagração no art. 127.º CPP. De acordo com esta norma, salvo disposição legal em
contrário, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e de acordo com a livre
convicção da entidade competente.
A atividade do processo é essencialmente uma atividade probatória, quer-se
descobrir a verdade do caso.
O problema da valoração da prova é a sua passagem aos factos. Os meios de prova
(testemunhal, documental, pericial, declarações do arguido, etc.) entram no processo
através dos chamados meios de obtenção de prova, por exemplo, buscas, apreensões,
escutas, exames, etc. Temos os meios de obtenção de prova, depois temos os meios de prova
e só depois passamos para os factos (art. 127.º).
Entre nós vale o sistema da prova livre, contrariamente ao sistema da prova legal,
onde valor a dar a certa prova encontra-se pré-determinado legalmente. O nosso sistema da
prova livre tem a ver com o princípio da livre apreciação da prova, onde o valor a atribuir
às provas não se encontra pré-fixado na lei, cabe ao juiz fazer essa valoração.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 91
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
A decisão do juiz sobre a prova irá ser uma decisão orientada pela finalidade de
descoberta da verdade material e realização da justiça. Terá que ser uma decisão
objetivamente fundada, objetiva e objetivada. Tem que ser uma decisão racional, sustentada
em razões compreensíveis e de acordo com a experiência e ciência. Um elemento essencial
aqui é o dever de fundamentação, o qual o CPP impõe à sentença no art. 374.º, n.º2 – “exame
crítico das provas”. É evidente que este dever de fundamentação varia consoante a
dimensão da prova, a fundamentação adequa-se às particularidades de cada caso, é preciso
saber sempre porquê que o juiz decidiu assim, que factos foram ou não provados. Ac. TC
680/98 que entendeu que não basta o tribunal dizer que factos considera provados e não
provados, o tribunal tem, além disso, que explicitar porquê que decidiu assim. O tribunal só
poderá dar como provado um facto incriminatório quando se convença dele para além de
uma dúvida razoável.
O princípio da livre apreciação da prova vale para a generalidade dos meios de
prova. O art. 127.º não se refere apenas ao tribunal, fala em “entidade”, valendo para todas
as entidades, nomeadamente, MP, OPC, etc.
Este princípio da livre apreciação da prova vale, nomeadamente, em regra, para a
prova testemunhal, documental, declarações do assistente e partes civis, mas sofre algumas
limitações no âmbito das declarações do arguido, aqui a lei estabelece alguns limites e
distinguem-se vários tipos de situações:
Quando o arguido se remete ao silêncio (art. 343.º, n.º1 e art. 345.º,
n.º1) não pode esse silêncio ser valorado.
Casos em que o arguido presta declarações em geral, valerá o
principio da livre apreciação da prova, nomeadamente, quando
negue os factos que lhe são imputados. Quando o arguido relata
certos factos, não é pelo facto desses factos provirem da boca do
arguido que se devem presumir como duvidosos ou inverosímeis,
mas também não pode na valoração da prova considerar
circunstâncias que valem para outras pessoas e que não valem para
o arguido, nomeadamente com as testemunhas (estas prestam um
juramento e o arguido não, as testemunhas não podem mentir e o
arguido pode), é o interesse do arguido que está em causa.
Casos em que o arguido confesse os factos ao prestar declarações
que coincidem substancialmente com a imputação que lhe é dirigida,
aqui vale o art. 344.º (confissão). O regime da confissão não é quando
o arguido diz apenas “sim, sim é isso que está dito” ou “sim, sou
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 92
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
culpado no crime”, isso é aceitar a culpa, mais nada. Confissão é
quando o arguido declara os factos – art. 344.º.
No n.º2 do art. 344.º está prevista a confissão livre integral e sem
reservas e, o tribunal, se se tratar de um crime com pena não
superior a 5 anos, deverá o tribunal dar esses factos como provados
e passa logo para as alegações – é um desvio ao princípio da livre
apreciação da prova. Têm que ser factos que o arguido tenha
eventualmente conhecimento e que essa confissão possa ser
considerada fidedigna.
O n.º3 do art. 344.º introduz várias exceções a este desvio ao
princípio da livre apreciação da prova. A al. c) diz que isso não vale
se o crime for punível com pena de prisão superior a 5 anos, pois aqui
há o risco das confissões falsas.
Quando a confissão não é integral, confessando uns factos e negando
outros, para os factos confessados vale o princípio da livre
apreciação da prova. Se existir uma confissão com reservas também
vale o princípio da livre apreciação da prova.
Prova Pericial (art. 151.º a 163.º)
A prova pericial tem o valor que se prevê no art. 163.º- Em regra, o juiz na apreciação
do relatório pericial está vinculado ao juízo formulado pelo perito. Existe uma presunção a
favor do juízo pericial, o juiz em princípio irá seguir aquilo que o perito conclui, só poderá
ficar sujeito a esta valoração da prova pericial a prova que for produzida enquanto prova
pericial no sentido próprio do termo, seguindo o procedimento estipulado previsto nos arts.
151.º e ss.
Na fase de inquérito quem tem legitimidade para ordenar uma perícia no inquérito
é o MP, na fase da instrução é o juiz de instrução e na fase de julgamento é o tribunal (art.
154.º). O perito deve ser nomeado pela entidade competente e também estão sujeitos ao
regime de impedimentos e suspensões nos termos do art. 47.º.
Os sujeitos processuais podem acompanhar as perícias através dos seus consultores
técnicos (art. 155.º).
Poderá em todo o caso o juiz divergir, desde que fundamente e ele próprio seja
especialista na matéria, ou quando seja notório o erro do perito (erro crasso).
O facto de intervirem consultores técnicos também dá uma base especializada ao
tribunal para dar assentar a perícia.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 93
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Outro princípio é o in dubio pro reu onde em caso de dúvida depois da produção da
prova, essa dúvida deve ser valorada a favor do arguido.
Não podemos dizer que estamos perante uma violação do princípio do in dubio pro
reu quando o tribunal se depara com um conjunto de provas, todas elas plausíveis, e se
decide por aquela que é mais prejudicial ao arguido, se decide pela prova incriminadora do
arguido.
Este princípio também não impede a chamada prova indiciária ou indireta. Na prova
direta há uma prova imediata que demonstra um certo facto. Na prova indireta/indiciária
não se ilustra imediatamente uma certa realidade, mas permite que se presuma uma certa
realidade. Por vezes há factos que são dados como provados, não porque há ilustração
imediata dos factos, mas porque se presume a existência desses factos. Ac. TC 521/2018
(“Não é julgada inconstitucional, por violação dos princípios da presunção de inocência e da estrutura acusatória
do processo penal, a interpretação de que a prova indiciária e a prova por presunções judiciais são admissíveis em
direito penal e em direito processual penal”) - há uma exigência intensificada de justificação na prova
indireta.
Se um facto permanece obscuro e controvertido o tribunal tem que respeitar
também princípio da investigação e tentar descobrir, se permanecer a dúvida então deve
decidir de acordo com o princípio do in dubio pro reu. Ficando o tribunal na dúvida importa
ver qual é o facto, se for um facto prejudicial ao arguido o tribunal deve dá-lo como não
provado. Se, pelo contrário, o facto for favorável ao arguido (por exemplo, exclui ou atenua
a responsabilidade) o tribunal deve dá-lo como provado.
Há um desvio ao princípio do in dubio pro reu no CP quanto aos crimes contra a
honra, o legislador faz impender sobre o agente a prova da verdade da imputação – art.
180.º, n.º2, al. b) CP. Ac. TRP 10/12/2008 (Ernesto Nacimento) - Não se aplica o princípio in
dubio pro reo em relação à prova da verdade dos factos no âmbito da alínea b) do nº 2 do art. 180º do
Código Penal (…) Isto é a expressão “e” deve ser lida como sinónimo da expressão “desde que”. Assim, em resumo,
neste segmento do recurso, uma vez que os arguidos não lograram fazer a prova da verdade da imputação - não se
podendo recorrer aqui ao princípio in dubio pro reo – não se mostra preenchido o requisito da alínea b) do nº. 2 do
artigo 180º C Penal e, desde logo, não pode ter-se como verificada a causa de justificação do facto, ali prevista.”
Quando o tribunal permanece na dúvida sobre um certo facto e valora contra o
arguido então viola o princípio in dubio pro reu e, sendo uma questão de direito, pode ser
objeto de um recurso de revista.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 94
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Outro princípio muito importante em matéria de prova é o chamado princípio da
imediação, ligado ao princípio da oralidade (art. 96.º, n.º1). Em regra, as provas
declarativas produzem-se oralmente e não por escrito de forma a garantir a espontaneidade
e para uma maior avaliação da credibilidade.
O princípio da imediação tem consagração nos arts. 355.º e 328.º-A.
Em sentido objetivo, este princípio determina que as provas que poderão sustentar
a decisão devem ser produzidas e examinadas exclusivamente na audiência de julgamento
(art. 355.º). Esta imediação em sentido objetivo, quando violada, determina a proibição de
valoração de prova.
Em sentido subjetivo ou formal, este princípio determina que a decisão deve ser
proferida pelo juiz perante o qual foi produzida a prova (também conhecido como princípio
da plenitude da assistência dos juízes – art. 328.º-A).
Em qualquer uma destas vertentes o princípio da imediação sofre restrições.
Quanto aos desvios em sentido objetivo:
Os arts. 356.º e 357.º admitem a valoração de provas que não foram
produzidas durante a audiência de julgamento e sim em fase
anterior, ouvindo ou lendo essas provas, mas isto é uma exceção ao
princípio da imediação.
O art. 357.º no n.1, al. b) admite, desde 2013, que as declarações que
o arguido prestar na fase de inquérito ou na instrução podem vir a
ser reproduzidas na audiência de julgamento, mesmo contra a sua
vontade e quando ele se remeta ao silêncio. As condições são: terem
sido prestadas perante um magistrado do MP ou um juiz de
instrução; o arguido ter sido advertido de que tudo o disser pode ser
usado em julgamento; o arguido no interrogatório onde se prestou
essas declarações, que agora se querem reproduzir, estivesse
acompanhado de defensor.
A produção das declarações, sejam testemunhas ou arguido, não tem
que ocorrer em audiência, essa análise pode ser feita fora da sala de
audiência.
Quanto aos desvios em sentido subjetivo:
Há uma restrição quanto ao facto de que só o juiz que acompanhou a
prova é que profere a decisão, admitindo a intervenção na decisão de
um juiz que substitui outro juiz no decurso da audiência (só vale para
o tribunal coletivo – art. 328.º-A, n.º2). O tribunal, em casos contados,
passa a integrar um novo juiz e dispensa-se a renovação da prova já
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 95
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
produzida. Só vale quando o tribunal é um tribunal coletivo e quando
o juiz não é o juiz presidente, sendo que também só vale quanto a 1
juiz do coletivo, não pode haver substituições sucessivas. Se falecer
o juiz presidente tem que se constituir um novo tribunal e voltar ao
início, produzindo de novo toda a prova.
Ordem de produção da prova
Uma vez aberta a audiência de julgamento, procede-se à identificação do arguido e
passa-se para a produção da prova. O art. 341.º dá-nos a ordem de produção da prova.
Primeiro, em regra, ouvem-se as declarações do arguido, mas ele pode falar em
qualquer momento do processo (art. 343.º). Se o arguido quiser prestar declarações quem
lhe coloca as questões são os juízes, ao contrário das testemunhas (art. 345.º), pode dar
oportunidade ao MP ou assistente mas sempre por intermédio do tribunal (art. 345.º, n.º2).
Depois dos arguidos serem ouvidos (se assim o entenderem), prestará declarações
o assistente. Depois do assistente passa-se para a prova indicada pelo MP, assistente e
lesado.
Depois passa-se à prova apresentada pelo arguido e pelo responsável civil.
Pode acontecer, por vezes fruto daquilo que é dito e apurado no julgamento, que
haja necessidade de produzir prova que não tenha sido indiada por nenhum sujeito
processual, quando isso aconteça o art. 340.º prevê a possibilidade de requerer ao tribunal
a produção de prova suplementar não indicada se tal for necessária à descoberta da causa.
Vale neste domínio o princípio da concentração temporal. De acordo com este
princípio, a audiência de julgamento deve decorrer do principio ao fim sem interrupções,
deve ser contínua. Por isso o art. 328.º refere-se à continuidade da audiência.
A lei distingue as interrupções dos adiamentos.
As interrupções são as pausas para almoçar ou quando é muito longo o julgamento
e passa de um dia para o outro, por exemplo. O desejável é que seja tudo no mesmo dia por
causa da frescura da memória do juiz e da celeridade processual.
Muitas vezes não é possível terminar o julgamento no mesmo dia que começou,
prolongando-se. Não há nenhuma ilegalidade quanto ao facto de entre o inicio da audiência
e o final da mesma durar vários meses ou anos, mas a lei incentiva a celeridade processual
e escabele, no art. 328.º, n.º6, que o adiamento não pode ultrapassar os 30 dias. Mas se forem
ultrapassados os 30 dias? É uma ultrapassagem ilegal mas não acontece nada. Estes 30 dias
é o prazo dos intervalos entre cada sessão, pode haver responsabilidade disciplinar em
certos casos quanto ao juiz (ao ser fiscalizado).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 96
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Até 2015 a lei previa que caso fosse desrespeitado este prazo de 30 dias a prova toda
perdia eficácia, era uma sanção. Em 2015 o legislador eliminou a referência à perda de
eficácia da prova como consequência de ultrapassagem indevida do prazo de 30 dias,
passando este prazo a ser um prazo indicativo e não tem nenhuma indicação sobre a prova
produzida, mantendo-se esta válida e eficaz mesmo que seja ultrapassado o prazo dos 30
dias. Também é indicativo o prazo para a leitura da sentença (10 dias – art. 373.º, n.º1),
sendo ultrapassado também não traz nenhuma repercussão sobre a validade da prova ou
da sentença.
Aula de 4/02/2020
Meios de prova
Princípio muito importante – princípio da legalidade da prova. De acordo com este
princípio não há uma taxatividade dos meios de prova. Art. 125.º.
Há meios de prova que não estão no CPP mas que são permitidos, por exemplo, a
declaração do coarguido.
O princípio da legalidade implica também que se existir outro meio de prova que
demonstre a realidade é esse meio de prova que deve ser utilizado, não sendo admissível
recorrer a outros meios de prova para contornar as exigências com um meio de prova
próprio para esse efeito. Ou seja, não pode contornar a lei com outros meios de prova.
Isto tem muito a ver não só com a defesa do arguido mas também com a
credibilidade da forma de apurar os factos.
Art. 150.º - determina se um facto poderia ter ocorrido de certa forma, não para fazer
uma recriação teatral do que se passou.
Meios ou métodos de obtenção de prova
Procedimentos através dos quais se adquirem provas, por exemplo, através de uma
escuta telefónica (a conversa intercetada é que prova alguma coisa, sendo uma prova
documental).
Art. 171.º e ss – exames, revistas, buscas, apreensões, escutas telefónicas. Fora do
CPP encontramos outros meios de obtenção de prova, como por exemplo, as escutas
ambientais, registo de voz e imagem (art. 6.º da Lei 5/2002), ações encobertas (Lei
101/2001), na lei do cibercrime também há um conjunto de disposições processuais
relativas à prova digital (Lei 109/2009).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 97
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
A lei do cibercrime vale não só para a prova no âmbito dos crimes informáticos mas
também na generalidade dos crimes (art. 11.º da lei do cibercrime).
Em termos de obtenção de prova o que é que vale como prova? São os documentos
e aquilo que tem valor como prova. Estes documentos podem ser em papel ou em formato
digital. Fazem-se chegar ao processo documentos em papel, por exemplo através de buscas.
Uma vez encontrado um documento que serve como prova procede-se à sua apreensão.
Art. 15.º da Lei do cibercrime, quanto aos dados informáticos, diz que quem tem
competência para ordenar uma busca informática é a autoridade judiciária (no inquérito
será o MP). Vale para os casos de crimes informáticos, por exemplo, no âmbito empresarial
e no mandado de busca diz que se podem apreender os dados informáticos que forem
relevantes para o processo, sendo feita de várias maneiras – art. 16.º.
Tem havido grande controvérsia quanto à pesquisa e apreensão de correio
eletrónico e outras mensagens e comunicações de natureza semelhante, por exemplo,
whatsapp (art. 17.º).
Quem tem competência para ordenar a pesquisa e apreensão destas mensagens de
correio eletrónico e semelhantes? A doutrina e a jurisprudência dividem-se. Hoje é
irrelevante saber se o correio estava por abrir ou não, pois facilmente se põe como não lida
ou lida uma mensagem que foi lida ou não lida. Quando as mensagens ainda estão em
trânsito aplica-se a interceção de comunicações, é diferente o processo quando as
mensagens já chegaram ao destino ou ainda estão em trânsito. Há autores (Rui Cardoso)
que dizem que pode ser o MP a fazer a apreensão; há outros autores (Sónia Fidalgo) que
entendem que se a lei diz “o juiz” deve ser o juiz, pois estão em causa dados que contendem
com bens pessoais e comunicações.
Uma vez adquirida a apreensão deverá aplicar-se o regime do art. 159.º do CPP. Às
vezes são adquiridos muitos documentos e cabe ao juiz de instrução fazer a seleção do
correio eletrónico ou das mensagens que hajam sido apreendidas, sendo só as mensagens
escolhidas incorporadas no processo. Isto também leva a alguma controvérsia.
Aquilo que não for proibido é permitido. Se um determinado meio não for vedado
legalmente, à partida deverá considerar-se admissível. Só não será assim nas situações em
que o meio de obtenção de prova representa uma intromissão nos direitos fundamentais
das pessoas, a CRP comtempla um princípio de reserva de lei. Antes da lei 5/2002 não se
podiam fazer escutas ambientais (gravação de conversas entre presentes). O recurso à
analogia para viabilizar meios de obtenção de prova que contendam com direitos
fundamentais é proibido, há reserva de lei (Costa Andrade).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 98
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Proibições de prova
A proibição de prova pode desdobrar-se em vários sentidos e aceções, por exemplo,
em meios proibidos de obtenção de prova e proibição de valoração de prova.
Contrariamente, existem as regras de produção de prova, com um regime diferente
e autonomizado.
Art. 118.º, n.º3 no âmbito das nulidades. O legislador quis autonomizar a matéria
das proibições de prova da matéria das invalidades, incluindo as invalidades que se referem
à prova. Sendo importante destrinçar aquilo que são as patologias e desvios da obtenção de
prova, das patologias que podem ser qualificadas como verdadeiras proibições de prova.
Nas proibições de prova estão em causa obstáculos/limites que são colocados à
descoberta da verdade material, normas que representam barreiras à descoberta da
verdade que o Estado não pode utilizar. Quando derruba esses obstáculos está a quebrar a
lei e a sanção poderá ser a proibição de prova.
Tendencialmente, as proibições de prova estão essencialmente ligadas aos direitos,
liberdades e garantias das pessoas.
Regras de produção de prova
Aqui é diferente da proibição da prova. Está em causa a definição dos termos em que
uma certa prova poderá ser adquirida ou produzida, é mais uma questão procedimental.
Tendencialmente a questão tem uma natureza meramente intraprocessual, não se liga
diretamente aos direitos fundamentais das pessoas.
Quando se viola uma regra de produção de prova, havendo um desvio ao
procedimento legalmente prescrito para que uma prova seja adquirida, segue-se o regime
das invalidades previsto nos arts. 118.º e ss CPP.
Por exemplo, na prova testemunhal é proibido colocar perguntas sugestivas (“foi
assim, não foi?”) – art. 132.º, n.º2 – isto é uma irregularidade da produção da prova.
Estamos a falar de regras de natureza procedimental cuja inobservância será
sancionada nos termos do regime das invalidades.
Em regra, esta inobservância das regras relativas à produção da prova implicará
uma invalidade com a natureza de irregularidade, ou seja, em princípio não poderá ser
valorada.
Há casos em que a lei estabelece como sanção a nulidade, por exemplo, em matéria
de escutas telefónicas quanto às irregularidades previstas no art. 188.º + art. 190.º. A lei
sanciona o vício processual de desvio a uma regra de produção de prova com a nulidade, é
o regime mais forte. Há invalidades (art. 188.º) e nulidades (art. 187.º) – Lei das escutas
telefónicas.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 99
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Nas invalidades temos um desvio ao modelo legal, temos uma violação da lei. As
invalidades podem ter diversas formas: a inexistência (que é uma nulidade radical) e as
nulidades.
João Conde Correia: a nulidade é a destruição dos efeitos do ato inválido, seja uma
nulidade sanável ou insanável.
Mas quem e até quando pode suscitar a destruição de efeitos?
Nas irregularidades, tendencialmente, o prazo é curto e o
interessado é que tem um ónus de suscitação do vício, o tribunal não
conhece oficiosamente.
Na nulidade sanável o prazo é um pouco maior e também tem que
ser arguida, não há conhecimento oficioso.
Na nulidade insanável pode ser de conhecimento oficioso e podem
ser conhecidas até ao trânsito em julgado da decisão final.
Distinção entre proibições de obtenção de prova e proibições de valoração de prova
Proibição da valoração dependente
Há uma tendencial relação de congruência entre as proibições de obtenção de prova
e as proibições de valoração, ou seja, tendencialmente uma violação de uma proibição de
obtenção de prova implicará a proibição de valoração de provas adquiridas.
Por exemplo, arguido confessa o crime porque foi ameaçado que se não colaborasse
iriam atrás da mulher e dos filhos – temos aqui uma coerção ou a promessa de um benefício
indevido, ou seja, uma violação de prova que, por conseguinte, levará a uma proibição de
valoração de prova.
O legislador prevê muitas vezes o estabelecimento da proibição de valoração de
prova – por exemplo o art. 126.º, n.º 1 e 3 que prevê uma sanção atribuída pelo próprio
legislador.
Na proibição de prova é a prova propriamente dita que passa a ser imprestável. Esta
prova em si mesma, desconectando-se do método de obtenção, deixa de poder ser usada.
Este vício é uma coisa substancialmente distinta do regime das invalidades (segundo a
maioria da doutrina) e por isso não faz sentido falar aqui da sanação. Esta natureza
imprestável da prova poderá ser afirmada independentemente do interessado suscitar ou
não, pode ser conhecida pelo tribunal, nomeadamente naqueles casos em que a própria lei
determina de forma expressa que a consequência do uso de um método proibido de prova
é a não valoração dessa prova. Por exemplo, art. 58.º, nº5; art. 167.º, n.º2.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 100
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Isto é assim por diversas ordens de razão, desde logo porque só assim se protegem
devidamente os direitos fundamentais das pessoas, seja de uma forma mediata ou imediata.
A proibição de valoração é uma indicação dada aos profissionais de que o ilícito não
compensa e o Estado deve usar procedimentos leais.
Por vezes a valoração em si mesma comporta uma restrição ou ingerência na esfera
dos direitos fundamentais de tal modo que só proibindo a valoração é que se conseguirá
travar essa ingerência indevida na esfera jusfundamental do visado.
Por exemplo, quando há uma escuta telefónica temos uma intromissão nas
telecomunicações no momento em que a operadora procede à gravação da conversa e fica
registada num certo suporte informático. Mas esta ingerência fica por aqui? Não, porque a
partir do momento que a conversa fica no processo cada vez que é ouvida é uma nova
ingerência.
Fala-se de uma eficácia erga omnes das proibições de prova, ou seja, não são apenas
as pessoas direta e imediatamente afetadas que terão interesse em suscitar a proibição de
prova e pedir a não valoração, mas também os terceiros envolvidos no processo por conta
dessa violação, por exemplo, escutas telefónicas que gravam conversas com terceiros que
nada têm a ver com o processo.
Sendo este o tratamento normativo próprio das proibições de prova, fica claro que
este se distancia do regime das invalidades. Esse distanciamento ficou mais preciso e
confirmado no regime do recurso de revisão introduzido em 2007 - art. 449.º, n.º1, al. e) –
nem o trânsito em julgado sana as proibições de prova, ou seja, estas estão à margem das
invalidades. Há, não obstante, quem não assuma esta posição (Maia Gonçalves e Paulo
Pinto de Albuquerque), afirmando uma ligação entre o regime das proibições de prova e
os regimes das nulidades, sustentando, quanto ao art. 126.º, n.º2, que são nulidades
absolutas (insanáveis e de conhecimento oficioso), contrariamente às provas do art. 126.º,
n.º1, que são casos de nulidade relativa (cabe ao interessado arguir a nulidade e o prazo
consta do art. 120.º, n.º3, al. c) – doutrina minoritária.
Temos que distinguir prova lícita de ilícita, por exemplo, mulher que é vítima de
violência doméstica e grava o marido a bater-lhe. Aqui há um estado de necessidade
objetivo, a prova pode ser considerada lícita.
Art. 32.º, n.º8 CRP
Há situações em que há uma violação de obtenção de prova mas a lei nada diz quanto
à consequência. Aqui tem havido grande discussão quanto a saber se esses meios de
obtenção de prova são sempre proibidos. Figueiredo Dias diz que se deve usar um método
de ponderação e proporcionalidade entre os interesses em jogo, admitindo que se
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 101
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
aproveitem provas obtidas através de métodos proibidos se não for possível obtê-los de
outra maneira e tendo em conta o interesse da sociedade.
Proibição de valoração independentes
Casos em que não há propriamente uma congruência entre o momento da aquisição
e o momento da valoração. Aqui fala-se sobretudo nos casos em que a prova foi obtida de
forma legítima mas a própria valoração implica um dano para bens fundamentais das
pessoas envolvidas e, nessa medida, poderá eventualmente proibida.
Ac. TC 607/2003 – “Julgar inconstitucional, por violação das disposições conjugadas dos artigos 1.º,
26.º, n.º 1, e 32.º, n.º 8, da Constituição da República Portuguesa, a norma extraída do artigo 126.º, [Link] 1 e 3, do
Código de Processo Penal, na interpretação segundo a qual não é ilícita a valoração como meio de prova da
existência de indícios dos factos integrantes dos crimes de abuso sexual de crianças imputados ao arguido (previstos
e puníveis pelos artigos 172.º, n.º 1, e 172.º, [Link] 1 e 2, do Código Penal) e dos pressupostos estabelecidos nos artigos
202.º e 204.º, alínea c), do Código de Processo Penal, para a aplicação da medida de coacção de prisão preventiva,
dos "diários" apreendidos, em busca domiciliária judicialmente decretada, na ausência de uma ponderação,
efectuada à luz dos princípios da necessidade e da proporcionalidade, sobre o conteúdo, em concreto, desses
"diários"” – caso de um diário de um arguido acusado de abusos sexuais a crianças. O TC
entendeu que se deve autonomizar o plano da valoração e fazer-se uma ponderação sobre
se será necessária essa intromissão tão grave da esfera da intimidade para se provar o
crime.
Ac. TC 364/2006 – buscas numa casa de alterne. Saber se os quartos daquela casa
de alterne eram ou não domicílio: “Sustenta o recorrente que um espaço fechado, onde se travam relações
sexuais, não é susceptível de ser violado através de mandado de busca judicial, pois que a tal se oporiam as normas
dos artigos 26º, 32º e 34º da Constituição. Ora, não existe norma constitucional de que possa retirar-se a completa
imunidade de um espaço a buscas judiciais: basta, para o efeito, atentar no disposto no artigo 32º, n.º 8, da
Constituição, que proíbe a abusiva intromissão na vida privada e no domicílio, o que obviamente significa que
existem intromissões constitucionalmente permitidas. Entre estas situam-se, sem dúvida, as buscas judiciais que
tenham lugar nos casos e segundo as formas previstas na lei, que a Constituição admite quando se trata da entrada
no domicílio dos cidadãos (cfr. artigo 34º, n.º 2, da Constituição), nenhuma razão assim existindo para as proibir
quando se trata da entrada em outros espaços fechados não merecedores de idêntica tutela constitucional.”
Outra dimensão onde não existe relação de congruência é nos casos em que a prova
é obtida em meios que envolvem a prática de um facto ilícito e se questiona a
admissibilidade da sua valoração. Há casos em que isto se admite, o caso paradigmático é a
obtenção da prova através da violação do sigilo profissional, por exemplo, tribunal convoca
para testemunhar um médico, advogado ou padre e essa pessoa deve recusar-se a depor, se
o motivo da recusa for válido aciona-se o disposto no art. 135.º do CPP (incidente de
levantamento do segredo profissional), se o tribunal superior entender que deve prevalecer
a descoberta da verdade levanta o sigilo e essa pessoa deve responder. Agora se o médico
chega ao tribunal e responde logo, sem dizer que viola o sigilo profissional, pode esse
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 102
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
depoimento ser valorado? Pratica um crime de violação de segredo profissional (art. 195.º
CP). Para produzir prova, há quem entenda que o tribunal deve aproveitar o depoimento
(Costa Andrade e maior parte dos autores), outros autores dizem que não pode o Estado
perseguir o médico pelo crime de violação de segredo e aproveitar na mesma a prova.
Proibição do efeito à distância das provas proibidas
As provas obtidas na sequência ou em virtude de outras provas que foram
adquiridas no processo à custa de uma prova proibida. Temos que saber se essas provas
derivadas podem ou não ser valoradas.
Teoria dos frutos da árvore envenenada. Por exemplo, há um homicídio e suspeita-
se que “A” foi o autor e a polícia exerce violência sobre “A” para que este confesse o crime e
revele onde está o corpo – isto é um método proibido de prova, mas na sequência desta
revelação a polícia vai ao local, desenterra o corpo e encontra vestígios biológicos de “A”,
pode esta prova secundária ser utilizada como prova contra A? A generalidade da doutrina
e da jurisprudência é no sentido da proibição da valoração dessas provas derivadas (efeito
à distância das provas proibidas) porque só desta maneira é possível manter a eficácia das
proibições de prova, invocando-se o art. 32.º, n.º2 da CRP, e também há quem invoque o art.
122.º, n.º1 CPP (Costa Andrade).
Esse efeito à distância sofre limitações/exceções:
Fonte independente: quando existe uma relação de conexão entre a prova
primária e a prova secundária, tem que haver uma relação causal. Se se
concluir que a prova secundária não foi subsequente da prova primária não
se pode afirmar que é um efeito à distância da prova primária.
Comportamento lícito alternativo: tem a ver com a teoria da conexão do
risco. A segunda prova foi adquirida à custa da prova primária. Exemplo:
ameaça sobre o suspeito para que este revele onde está o cadáver, se no
local que o suspeito disse já se encontravam escavações para descobrir o
corpo, podemos dizer seguramente que nestes casos o corpo iria ser
encontrado com ou sem a informação do suspeito.
Purged taint limitation (“Limitação da nódoa dissipada”, “a limpeza da
nódoa”): quando os investigadores percebem que fizeram asneira e voltam
atrás, voltando a produzir a prova de forma legal. Quando isto acontece as
provas entretanto recolhidas com base na prova legal são admissíveis. Por
exemplo, obtém-se uma confissão do suspeito ou arguido sem o advertir do
seu direito ao silêncio e depois repetir tudo outra vez mas dizem que ele tem
direito ao silêncio.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 103
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Ac. TC 198/2004 – Caso de tráfico de droga onde foi colocada uma escuta,
ficando a polícia a saber que o transporte da droga ia fazer-se de Lisboa para o Porto;
pararam-nos na A1 e foram surpreendidos. A prova primária é a conversa telefónica
obtida através da escuta onde fazem alusão ao transporte da droga, e a prova
secundária que é a droga encontrada. A defesa dos arguidos alegou a invalidade da
escuta. Em julgamento o tribunal não começou por apreciar a invalidade de prova
colocada pela defesa e, durante a audiência de julgamento um dos arguidos assumiu
a autoria do tráfico (confissão) e o tribunal condenou-os pela prática do crime de
tráfico de estupefacientes. A defesa invocou ao TC a violação do art. 190.º CPP. O TC
não acompanhou esta argumentação e concluiu que é uma limitação ao efeito à
distância da prova proibida, pois a confissão foi autónoma àquela escuta; a prova em
tribunal baseou-se essencialmente na confissão do arguido e não da escuta: “Tudo se
prende, assim, com o entendimento do próprio artigo 122.º, n.º 1, do CPP e com o relacionamento de uma prova de
natureza confessória com anterior prova inválida, consubstanciada em intercepções telefónicas. Quanto ao
primeiro aspecto, como já se referiu, está em causa uma doutrina que entende o "efeito à distância" como uma
construção interpretativa que possibilita considerar em determinada circunstâncias, e recusá-lo noutras, que os
fundamentos jurídicos da invalidade de determinada prova se mantêm (e, por isso, se devem projectar) numa prova
que aparece depois. Quanto à confissão, o que foi considerado é que esta tem tal autonomia que possibilita um
acesso aos factos totalmente destacável de qualquer outra forma de acesso anteriormente surgida e afectada por
um valor negativo [este Tribunal, no Acórdão n.º 288/99 (Acórdãos do Tribunal Constitucional, 43.º vol., p. 529),
entendeu como constitucionalmente conforme a livre valoração, enquanto prova, de declarações confessórias
relativamente às quais não se verificou o condicionalismo estabelecido no n.º 1 do artigo 344.º do CPP].
Ora, e assim se alcança uma conclusão, o entendimento do artigo 122.º, n.º 1, do CPP, subjacente à decisão recorrida,
segundo o qual este abre a possibilidade de ponderação do sentido das provas subsequentes, não declarando a
invalidade destas, quando estiverem em causa declarações de natureza confessória, mostra-se constitucionalmente
conforme, não comportando qualquer sobreposição interpretativa a essa norma que comporte ofensa ao disposto
nos preceitos constitucionais invocados.
A recusa de depoimento (art. 134.º) – Ac. STJ 4/07/2018, proc. 1006/15 (Maia
Costa) considera que essa advertência é um mero desvio à regra de produção de prova e
não uma proibição de prova, logo não pode constituir fundamento de um recurso de revisão:
“I - A al. e) do nº 1 do art. 449º do CPP foi aditada pela Lei nº 48/2007, de 29-8. Permite ela a revisão da sentença
quando se descobrir que serviram de fundamento à condenação provas proibidas, tal como vêm definidas nos nºs
1 a 3 do art. 126º do CPP, ou seja, as provas obtidas mediante tortura, coação ou ofensa à integridade física ou
moral das pessoas e ainda as obtidas mediante intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou
nas telecomunicações, sem o consentimento do respetivo titular.
II - As provas devem ter efetivamente servido de fundamento, mesmo que em conjugação com outras, à condenação.
Se, portanto, ainda que tenham sido produzidas no processo, as provas proibidas não serviram de maneira
nenhuma de suporte à condenação, não haverá lugar à revisão.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 104
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
III - A lei não exige uma decisão anterior sobre a invalidade das provas (ao con-trário do que acontece com a
falsidade das provas, fundamento da al. a) do nº 1 do mesmo art. 449º), servindo pois o próprio recurso de revisão
como meio e lugar de averiguação e comprovação do caráter proibido das provas. Necessário é que a descoberta
da invalidade seja posterior ao trânsito da decisão condenatória. Parece ser esta a única interpretação possível da
expressão “se descobrir”, paralela aliás à da al. d), que significa a emergência de um facto novo, desconhecido até
ao termo da discussão da causa, e por isso insuscetível de ter sido invocado pelo interessado em sede de recurso
ordinário. Nessa hipótese, o recurso extraordinário de revisão apresenta-se como o único meio de defesa do
condenado, um meio que não pode considerar-se excessivamente penalizador do caso julgado, dado o especial
desvalor das provas proibidas.
IV - Assim, crê-se que, interpretada nestes termos a al. e), não há motivo para a arguição de inconstitucionalidade,
por violação do princípio constitucional do caso julgado.
V - Qual a argumentação do recorrente para invocar este fundamento de revisão? Considera ele que, não tendo a
ofendida/assistente, ao tempo sua mulher, sido advertida, em julgamento, de que poderia recusar-se a depor, nos
termos dos arts. 134º, nºs 1, a), e 2, e 145º, nº 3, ambos do CPP, essa omissão consubstancia uma proibição de prova
resultante de intromissão na vida privada sem o consentimento do titular (art. 126º, nº 3, do CPP), e também uma
perturbação da liberdade de vontade da assistente pela utilização de meios enganosos (art. 126º, nºs 1 e 2, a), do
CPP).
VI - A ofendida/assistente não foi efetivamente “advertida” de que poderia recu-sar o depoimento, como deveria tê-
lo sido, por força daquelas disposições legais, dado que era ainda ao tempo do julgamento mulher do arguido. E
também é certo que ela prestou depoimento na audiência de julgamento. Será que esse depoimento está inqui-nado
por proibição de prova?
VII - Há efetivamente quem considere que esta nulidade consubstancia, não uma mera nulidade, mas uma
verdadeira proibição de prova, por intromissão na vida privada. O direito de recusa de depoimento teria assim
também uma vertente de proteção da vida privada.
VIII - Mas esta posição é insustentável. Para haver “intromissão” na vida privada da testemunha teria que haver
uma qualquer ação do tribunal violadora desse bem jurídico. Ora, o que se passa afinal é da omissão de uma
formalidade, não resultando dela diretamente nenhuma violação da vida privada da testemunha.
IX - O incumprimento do dever de advertência previsto no nº 2 do art. 134º do CPP tem apenas como consequência
a nulidade do ato, como a própria lei indica (“sob pena de nulidade”), uma nulidade que é sanável, pois que não
consta do catálogo taxativo das nulidades insanáveis do art. 119º do CPP. Como nulidade sanável, ela fica sanada,
se o interessado não a arguir até ao final do ato, ou seja, da prestação do depoimento (art. 120º, nº 3, a), do CPP).
X - Quem é o “interessado” na situação em referência? Qual a razão de ser do direito à recusa da prestação de
depoimento? Esse direito visa essencialmente proteger a testemunha confrontada com o conflito de consciência
entre o dever de falar com verdade, enquanto testemunha, e o dever ético de fidelidade aos seus familiares mais
próximos, visa pois poupá-la a escolher entre mentir, para defender o familiar, e dizer a verdade, expondo esse
familiar.
XI - Assim, tem legitimidade para arguir a nulidade exclusivamente a própria testemunha, nunca o arguido do
processo. Assim sendo, só a ofendida/assistente, no caso dos autos, pode ser entendida como “interessada”.
Consequentemente, só ela poderia arguir a nulidade, até ao final do depoimento, o que não fez. Logo, a nulidade
derivada da omissão da advertência referida ficou sanada nesse ato.
XII - Por outro lado, é manifesto que também não houve perturbação da liberda-de da ofendida. Isso só poderia
acontecer se o tribunal a tivesse obrigado a prestar de-poimento contra a sua vontade. Ora, ela falou
espontaneamente e de livre vontade, em coerência com a atitude que assumiu desde o início do processo, que foi
desencadeado por sua iniciativa, tendo-se inclusivamente constituído como assistente nos autos, com isso
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 105
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
demonstrando inequivocamente o seu interesse em acompanhar e colaborar com o Ministério Público na
investigação, no exercício da ação penal e nas posteriores fases do processo, com vista ao sancionamento da
conduta do arguido.
XIII - Seria pois absurdo considerar que o seu depoimento foi “extorquido” ou sequer “estimulado” pelo tribunal,
pois isso estaria em frontal contradição com a atitude assumida desde o início do processo pela ofendida.”
As gravações entre particulares (art. 167.º, n.º1) é uma prova documental. Se a
gravação foi obtida ilicitamente nessa prova documental (vídeo, áudio, fotografia, etc.) não
pode valer como prova. Essa ilicitude é aferida em especial com recurso ao CP nos arts. 199.º
e 192.º. Pode ser utilizada, ou seja, não é prova ilícita, aquela gravação captada por um
sistema de vídeo segurança num local público com indicação que está sob vigilância (por
exemplo, bancos, supermercados, etc.). Também no caso de alguém deixar uma gravação no
voicemail ou uma mensagem falada no whatsapp, essa gravação pode ser utilizada pelo
destinatário. A prova também é válida nos casos em que alguém faz a gravação num
contexto em que vem sendo objeto de ofensas e ameaças para demonstrar à polícia que é
vítima de abuso, estas situações beneficiam do estado de necessidade objetiva. Quando um
particular que não está envolvido num crime filma uma agressão esta gravação é uma prova
ilícita.
Ac. TC 507/94 – sobre o consentimento.
MEDIDAS CAUTELARES E DE POLÍCIA
Detenção
Meio cautelar que consiste na privação da liberdade de alguém por um curto período
nos termos dos arts. 254.º e ss.
É uma medida privativa da liberdade e pode ser feita para um de dois fins
fundamentais previstos no art. 254.º, n.º1:
assegurar a presença de alguém num ato processual a que essa
pessoa tenha faltado injustificadamente (testemunha, por exemplo);
de acordo com o art. 27.º, n.º2 CRP quando seja para cumprir uma
pena privativa da liberdade ou uma medida criminal, o n.º3 contém
as exceções.
Também pode haver detenção para fins de identificação criminal (art. 250.º).
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 106
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
A al. a) do art. 254.º é para os casos em que há suspeitas de que uma certa pessoa
cometeu um determinado crime, essa suspeita tem que ser forte e a detenção é efetuada
para cumprir uma certa finalidade que está descrita nesta al. a).
O legislador distingue a detenção em flagrante delito (art. 255.º) da detenção sem
ser em flagrante delito (art. 257.º). As condições para que se autorize uma detenção fora de
flagrante delito são mais apertadas.
No n.º2 do art. 256.º prevê-se uma presunção de flagrante delito porque há uma
proximidade temporal estreita entre o momento em que o suspeito é surpreendido e detido.
Quando há flagrante delito uma das questões que se coloca logo é saber se pode ou
não haver lugar à detenção da pessoa. Se o flagrante delito é presenciado por um OPC e for
admissível a realização da detenção, se for exequível, constitui um ato obrigatório, só se
consubstanciar um risco para o polícia, caso contrário é um dever legal deter o suspeito e
constitui-lo como arguido nos termos do art. 58.º, n.º1, al. c). Nestes casos, se a polícia
pretender fazer um interrogatório ao arguido é obrigatória a assistência por defensor (art.
64.º, n.º1, al. a).
Art. 255.º só admite a realização de detenção em flagrante delito quando o crime
seja punível com pena de prisão. Se o crime for público pode justificar uma detenção em
flagrante delito, se o crime for semipúblico também pode justificar uma detenção em
flagrante delito mas só se mantem essa detenção se for exercido o direito de queixa (n.º3),
se for um crime particular o n.º4 proíbe a detenção em flagrante delito.
Art. 257.º permite a detenção fora de flagrante delito em determinados casos,
nomeadamente aqueles que prevejam prisão preventiva e sejam crimes dolosos com pena
de prisão até 3 anos. Quem pode autorizar a detenção for de flagrante delito é o MP, o juiz
ou os OPC em certos casos (art. 1.º, al. d).
A detenção fora de flagrante delito deve ser fundamentada mediante indicação de
factos que preencham os pressupostos da detenção de fora de flagrante delito.
O art. 258.º regula do mandado de detenção. Essa ordem para a detenção tem uma
validade de 30 dias. Uma vez efetivada a detenção o suspeito deve entender os motivos
pelos quais foi efetuada a detenção. Quando a pessoa é detida, seja em flagrante delito ou
não, ainda numa fase embrionária do processo só se justificará, em principio, a submissão
do arguido ao primeiro interrogatório judicial se existir, da parte do MP, a intenção de
aplicar uma medida de coação. Nuno Brandão e Maria João Antunes: o ato de
apresentação do detido ao juiz, para o primeiro interrogatório judicial, não constitui uma
parte do procedimento destinado à aplicação de uma medida de coação quando o MP não
se fizer acompanhar, além do pedido de apresentação ao juiz para o interrogatório, de um
pedido específico e concretizado de aplicação de uma certa de determinada medida de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 107
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
coação – art. 194.º, n.º1. Esta posição não tem sido seguida pela jurisprudência, mas já há
tribunais a diferenciar o primeiro interrogatório judicial daquilo que é um interrogatório
para aplicação de uma medida de coação.
Esta distinção nestes dois planos tem várias implicações. Por força do art. 28.º, n.º1
da CRP entre o momento em que o suspeito é detido e o momento em que é apresentado ao
juiz de instrução não podem decorrer mais de 48h, caso contrário deve ser libertado - Art.
254.º, n.º1, al. a). Mas se o arguido é presente ao juiz dentro das 48h, o arguido pode ser
mantido em privação da liberdade a pedido do juiz. De todo o modo, ainda que se admita
que se trata de uma detenção válida, não deve perder-se de vista a proibição do excesso. O
juiz só deverá manter a pessoa detida se realmente considerar que é absolutamente
necessário.
Ac. TC 589/2006: “a) Não julgar inconstitucional a norma dos artigos 141.º e 254.º, n.º 1, alínea a),
do Código de Processo Penal, na interpretação de que é respeitado o prazo de 48 horas quando o arguido detido é
apresentado ao juiz de instrução, que o ouve sobre a identidade e os antecedentes criminais e valida a detenção
dentro desse prazo, mas a comunicação dos factos que motivaram detenção, bem como a decisão que aplica a
medida de coacção ocorrem mais de 48 horas após o início da detenção;
b) Julgar inconstitucional, por violação do n.º 1 do artigo 32.º da Constituição, a norma dos artigos 86.º,
n.º 5 e 89.º, n.º 2, do Código de Processo Penal, na interpretação segundo a qual, querendo o arguido impugnar a
decisão que lhe aplicou a medida de coacção de prisão preventiva, lhe pode ser recusado o acesso a elementos de
prova que foram determinantes para fundamentar a aplicação daquela medida, sem que haja apreciação, em
concreto, da existência de inconveniente grave na revelação do conteúdo desses elementos para os interesses que
justificam o segredo de justiça.”
Maria João Antunes refere que não há nenhuma norma que dê ao juiz a
possibilidade de ordenar a manutenção da detenção sem que lhe seja aplicada medida de
coação e, não havendo norma, é uma prática destituída de base legal.
Ac. TC 391/2015 – Caso Sócrates – “Não julga inconstitucionais as seguintes normas do Código
de Processo Penal: norma constante do artigo 194.º, n.º 4, na interpretação segundo a qual é dispensável a audição
pessoal do arguido relativamente à proposta de aplicação da medida de prisão preventiva, quando ele tenha sido
ouvido para os efeitos do artigo 141.º do mesmo diploma; norma constante do artigo 97.º, n.º 5, na interpretação
segundo a qual a fundamentação da decisão que decreta a medida de prisão preventiva pode ser feita por remissão
para a promoção do Ministério Público; norma constante do artigo 127.º, na interpretação de que a apreciação da
prova segundo as regras da experiência e a livre convicção do julgador permite o recurso a presunções judiciais em
processo penal; não conhece do recurso quanto às demais questões de inconstitucionalidade”
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 108
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
MEDIDAS DE COAÇÃO
São medidas de processuais de natureza coercitiva que implicam a restrição de
liberdades fundamentais do arguido e que são impostas independentemente da vontade do
arguido (art. 61.º, n.º6, al. d).
Estão previstas no CPP por ordem crescente de gravidade.
Justificam-se em função do interesse público que torna possível e aceitável que
alguém que ainda é só arguido tenha a sua esfera de direitos fundamentais restringida
durante o processo.
Art. 196.º - TIR que é uma medida de coação geral.
Arts. 197.º a 202.º - em geral só são aplicadas a arguidos e quando haja indícios
sobre a prática de um crime.
Para haver prisão preventiva não bastam simples indícios, é necessária a existência
de fortes indícios de um crime doloso com pena de prisão superior a 3 anos.
Só crimes dolosos podem justificar a aplicação das medidas de coação previstas nos
arts. 200.º, 201.º e 202.º.
A verificação dos indícios de certo crime pressupõe a verificação de um determinado
tipo incriminador. Se não for possível imputar um crime não se pode aplicar uma medida
de coação. Têm que existir factos concretos e não meros indícios.
Em termos de crimes a lei indicia 4 perigos no art. 204.º.
Tem que se ter em conta o principio da necessidade e proporcionalidade, devendo
aplicar-se, na dúvida, a medida cautelar menos grave. A prisão preventiva tem um carácter
excecional (art. 28.º, n.º1 CRP). Há um dever de fundamentação negativa, ou seja, o juiz para
aplicar a prisão preventiva tem que explicar porquê que nenhuma das outras medidas serve.
Art. 193.º, n.º1 – as medidas de coação devem ser adequadas entre o perigo que
justifica a medida de coação e específica medida de coação que vai ser aplicada. Deve
também ser proporcionada à gravidade do crime e às sanções que previsivelmente lhe
venham a ser aplicadas.
Art. 194.º - há aqui uma reserva de juiz, só o juiz pode aplicar uma medida de coação.
Durante o inquérito só o podem fazer a pedido do MP.
O juiz deve comunicar ao arguido detido os fundamentos da medida de coação,
interrogá-lo e dar-lhe oportunidade de defesa. Essa defesa encontra-se plasmada no art.
194.º, n.º4 que remete para o art. 141.º, n.º1.
No interrogatório o juiz deve comunicar ao arguido todos os factos, quer os que têm
a ver com o crime, quer os que tenham a ver com o perigo. Essa comunicação deve ser
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 109
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
circunstanciada nos termos do art. 141.º, n.º4, al. d). Nenhum facto relevante para a
aplicação de uma medida de coação deve ser ocultado ao arguido.
Nos termos do art. 194.º, n.º8 o arguido pode consultar os elementos de prova que
existem contra ele. O juiz pode negar ao arguido o conhecimento desses elementos ou o
acesso a esses elementos quando daí possa resultar um perigo para a investigação (art.
194.º, n.º6, al. b).
Feita a comunicação ao arguido dos factos que lhe são imputados o arguido poderá
prestar, se quiser, declarações onde será interrogado pelo juiz de instrução. Findo o
interrogatório o defensor pode exercer um contraditório em relação ao pedido do MP. O juiz
decidirá se aplica ou não a medida (casos em que o MP e o arguido podem recorrer), pode
aplicar a medida de coação que o MP pediu (casos em que o arguido pode recorrer) e pode
aplicar uma medida de coação diferente da pedida (tanto o arguido como o MP podem
recorrer). Da decisão que o juiz tomar, se se tratar de uma decisão de aplicação da medida,
essa decisão é suscetível de recurso, seja do MP seja do arguido. Se o recurso da medida for
interposto este não tem efeito suspensivo, a medida de coação é executada de imediato e
não se pode esperar pela decisão do recurso porque há um perigo.
Retirado do site do MP
O que são medidas de coação?
São medidas processuais que, condicionando a liberdade do arguido, visam garantir a contactabilidade do
mesmo, a não repetição da atividade criminosa e a produção de certos efeitos processuais (p. ex., eficácia de
comunicações, mesmo não pessoais).
As medidas de coação só podem ser impostas aos arguidos.
A aplicação de qualquer medida de coação deve ser proporcional e adequada à situação processual concreta.
As medidas de coação previstas na lei são: termo de identidade e residência; caução; obrigação de
apresentação periódica; suspensão do exercício de funções, de profissão e de direitos; proibição de
permanência, de ausência e contactos; obrigação de permanência na habitação e prisão preventiva.
Com exceção do termo de identidade e residência, as medidas de coação só podem ser aplicadas por um juiz.
O que é o “habeas corpus”?
É um meio processual excecional de reação contra uma detenção ou prisão ilegais, com carácter de urgência.
Em que consiste o termo de identidade e residência (TIR)?
É a menos grave das medidas de coação podendo ser aplicada pelo juiz, pelo Ministério Público e pelas polícias.
É de aplicação obrigatória sempre que alguém for constituído como arguido, e consiste, para além da
identificação e da indicação da residência (na qual o arguido se considera validamente notificado com o envio
de notificações postais simples), em o arguido ficar obrigado a comparecer perante as autoridades sempre que
a lei o obrigar ou para tal for notificado. Ao prestar o TIR, o arguido fica igualmente obrigado a não mudar de
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 110
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
residência nem dela se ausentar por mais de cinco dias sem previamente comunicar a nova residência ou o
lugar onde possa ser encontrado.
Em que consiste a caução?
É uma medida de coação que pode ser aplicada a um arguido a quem é imputado um crime punível com pena
de prisão. Consiste na obrigatoriedade de o arguido entregar determinado montante como garantia de
comparecimento aos futuros atos processuais e de cumprimento das obrigações que lhe forem fixadas com
outras medidas de coação. A caução pode ser prestada por depósito, penhor, hipoteca ou fiança, bancária ou
não.
O que é a obrigação de permanência na habitação?
É uma medida de coação que se traduz no dever de o arguido não se ausentar, ou de não se ausentar sem
autorização, da habitação própria ou de outra em que de momento resida.
Em que consiste a “vigilância eletrónica”?
Trata-se da utilização de meios técnicos de controlo à distância — as chamadas “pulseiras eletrónicas” — para
assegurar a fiscalização do cumprimento da medida de coação de obrigação de permanência na habitação, as
quais são instaladas pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.
O que é a prisão preventiva?
É a mais grave das medidas de coação aplicáveis ao suspeito da prática de crime, só sendo aplicável quando
forem inadequadas ou insuficientes todas as outras medidas de coação.
As medidas de coação têm prazos máximos?
Algumas medidas de coação — designadamente as que condicionam a liberdade pessoal, como a prisão
preventiva, a obrigação de permanência na habitação (vulgo, «prisão domiciliária»), a obrigação de
apresentação periódica e a suspensão do exercício de direitos — têm prazos máximos de duração, de acordo
com a fase do processo.
Entende-se que as demais podem durar o tempo de duração do processo.
Qual é o prazo máximo da prisão preventiva?
A prisão preventiva tem os seguintes prazos de duração máxima, extinguindo-se quando, desde o seu início,
tiverem decorrido: 4 meses sem que tenha sido deduzida acusação; 8 meses sem que, havendo lugar a
instrução, tenha sido proferida decisão instrutória; 1 ano e 2 meses sem que tenha havido condenação em 1.ª
instância; 1 ano e 6 meses sem que tenha havido condenação com trânsito em julgado.
Estes prazos podem, no entanto, ser prolongados em casos de certos tipos de crimes, bem como em casos de
excecional complexidade do processo.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 111
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 112
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
PRINCÍPIO DA ADESÃO
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça nº 1/2013 de 07-01-2013
----------
V - O princípio da adesão - o pedido de indemnização civil em processo penal
O pedido de indemnização civil fundado na prática de um crime é deduzido no processo penal
respectivo, só o podendo ser em separado, perante o tribunal civil, nos casos previstos na lei. 57
Refere MAIA GONÇALVES:
"A prática de uma infracção criminal é possível fundamento de duas pretensões dirigidas contra os
seus agentes, uma acção penal, para julgamento, e, em caso de condenação, aplicação das reacções criminais
adequadas, e uma acção cível, para ressarcimento dos danos patrimoniais e não patrimoniais a que a infracção
tenha dado causa.
A unidade de causa impõe entre as duas acções uma estreita conexão. Mas é certo que se não
confundem, e por isso mesmo se tem discutido se deverão ser objecto do mesmo processo, ou se deverão antes
ser decididas em processos autónomos, e mesmo em jurisdições diferentes.
Assim, apareceram os sistemas da identidade, o da absoluta independência e o da interdependência,
também designado por sistema da adesão.
a) O sistema da identidade só pode ter hoje um interesse histórico. Apelidando-o de sistema
da confusão total, Figueiredo Dias, Sobre a reparação de perdas e danos em processo penal, estudo
in memoriam do Prof. Beleza dos Santos, Bol. da Fac. de Dir. de Coimbra, 1966, pág. 88 e separata,
diz que corresponde a uma fase de evolução em que se confunde ainda o direito penal como o civil
e a uma concepção do processo penal onde não está ainda presente o interesse da sociedade na
punição do culpado, mas apenas o interesse da vítima em obter vingança e reparação, indicando
um estádio primitivo das legislações.
b) b) O sistema da absoluta interdependência arranca das diferentes finalidades que as acções penal
e cível se propõem realizar. É o sistema perfilhado pelas legislações inglesas, americana e
brasileira. Vejam-se, entre nós, sobre este sistema, Cavaleiro de Ferreira, Curso, I págs 16-17;
Castanheira Neves, Sumários, pág. 74 e Figueiredo Dias, loc. cit. pág. 89 e Direito Processual Penal,
I, 540 e segs.
c) O sistema da interdependência ou da adesão é perfilhado pela maioria das legislações e comporta
um sem número de cambiantes que têm como denominador comum a possibilidade ou,
obrigatoriedade de juntar a a acção cível à penal, permitindo que o juiz penal decida também a
acção cível."
A indemnização de perdas e danos emergentes de crime assumia-se, na tradição jurídica portuguesa,
como uma consequência jurídica de carácter penal, dimensão de política criminal ligada à reacção criminal.
É o que testemunhava o artº 75º § 3º do Código Penal de 1886.
O arbitramento oficioso da indemnização era uma consequência jurídica do crime que não se
identificava com a indemnização civil, quer nos fins, quer nos fundamentos, nem tinha que coincidir com o seu
montante.
Na verdade, embora fosse legalmente possível o exercício da acção cível em conjunto com a acção
penal, conforme artºs 29º a 34º do Código de Processo Penal de 1929, - referindo-se o artº 29º à indemnização
por perdas e danos - já o artº 34º referindo-se à reparação por perdas e danos determinava que o juiz, no caso
de condenação, arbitrará aos ofendidos uma quantia como reparação por perdas e danos, ainda que lhe não
tenha sido requerida.
O quantitativo da indemnização era determinado segundo o prudente arbítrio do julgador, que
atenderia à gravidade da infracção, ao dano material e moral por ela causado, à situação económica e à condição
social do ofendido e do infractor. § 2º
No domínio do direito anterior ao Código Penal de 1982, a reparação por perdas e danos arbitrada em
processo penal tinha natureza especificamente penal. Com efeito, na medida em que se postergava o princípio
da necessidade do pedido e se considerava a indemnização como um efeito necessário da condenação penal,
definiam-se critérios próprios da sua avaliação, distintos dos estabelecidos pela lei civil (arts. 34.º. e 450.º., n. 5,
do CPP de 1929) e não se previa a possibilidade de transacção ou de renúncia ao direito e, desistência do pedido.
Era esta a posição dominante da jurisprudência, bem como de vária doutrina da Escola de Coimbra -
Figueiredo Dias, Castanheira Neves e Eduardo Correia,
Porém, a doutrina dominante considerava a indemnização arbitrada como de natureza civil, - Vaz
Serra, Cavaleiro de Ferreira, Gomes da Silva e Pereira Coelho.
Passando a ser determinada de acordo com os pressupostos e critérios, substantivos, da lei civil, por
força da norma do art. 128.º do CP de 1982 (reproduzida posteriormente, no art. 129.º, do CP/95), a reparação
passou a considerar-se, como pura indemnização civil que, sem embargo de se lhe reconhecer uma certa função
adjuvante, não se confunde com a pena
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 113
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
No plano do direito adjectivo, o actual Código de Processo Penal (CPP), mantendo o sistema de adesão,
veio conferir àquela acção de indemnização pela prática de um crime, formalmente enxertada no processo penal,
a estrutura material de uma autêntica acção cível, acolhendo, inequivocamente, os princípios da disponibilidade
e da necessidade do pedido (arts. 71º, 74. a 77. e 377, do CPP) e prescrevendo que a decisão final, ainda que
absolutória, que conheça do pedido cível, constitui caso julgado nos termos em que a lei atribui eficácia de caso
julgado às sentenças civis (art. 84. do CPP).
Este efeito não penal da condenação ligada, porém, à prática de crime - a fonte ou causa de pedir era o
crime mas a indemnização assentava nos pressupostos de natureza cível - continuou a afirmar-se no universo
jurídico-criminal português, de forma que pelo acórdão do Plenário das Secções Criminais do Supremo Tribunal
de Justiça, de 16 de Outubro de 1997, in BMJ, 470º, 33, mesmo quando por aplicação da amnistia se extingue a
acção penal, e apesar de ainda não ter sido deduzida acusação, poderá o ofendido requerer o prosseguimento
da acção penal, para apreciação do pedido cível, nos termos do artº 12º nº 2 da Lei nº 23/91 de 4 de Julho.
Também o artigo 7º nº 1 da Lei 15/94 de 11 de Maio, veio explicitar que a amnistia não extingue a
responsabilidade civil emergente de factos amnistiados.
A amnistia não extinguia pois a responsabilidade civil emergente dos factos amnistiados, e sendo a
amnistia aplicável em processo penal pendente, o lesado que ainda não tivesse sido notificado para deduzir
pedido cível, tinha de ser notificado para, se quiser, e no prazo de dez dias, deduzir o pedido cível oferecendo
prova nos termos do processo declarativo sumário.
De igual modo, também nos casos de extinção do procedimento criminal por prescrição.
O acórdão de fixação de Jurisprudência n.º 3/2002 de 17.01.2002, Proc. 342/2001, D.R. 54 SÉRIE I-A,
de 2002-03-05, veio dispor que: - "Extinto o procedimento criminal, por prescrição, depois de proferido o
despacho a que se refere o artigo 311.º do Código de Processo Penal mas antes de realizado o julgamento, o
processo em que tiver sido deduzido pedido de indemnização civil prossegue para conhecimento deste. "
Como resulta claramente do disposto dos arts. 128º. e 129º. do actual CP, versões respectivamente de
1982 e 1995, a indemnização de perdas e danos, ainda que emergente de crime, deixou de constituir pois, um
efeito penal da condenação (como sucedia no CP/1886 -art. 76., § 3.) para passar a ser regulada pela lei civil,
assumindo, pois, a natureza de uma obrigação civil em sentido técnico, nos termos do art. 397º., do Código Civil,
com o seu regime específico.
Seria legalmente inadmissível no processo penal e ao tribunal criminal faleceria competência, em razão
da matéria, para dele conhecer, caso o pedido cível não se fundasse em indemnização por danos ocasionados
pelo crime ou não se fundamentasse na responsabilidade civil do agente pelos danos que, com a prática do crime
causou, pois que a acção cível que adere ao processo penal é a que tem por objecto a «indemnização por perdas
e danos emergentes do crime», e só essa (arts. 128º do CP/82 e 129.º do CP/95.).
Consequentemente, pelos danos causados por um facto que não é susceptível de integrar um tipo legal
de crime e que viola, exclusivamente, um crédito ou uma obrigação em sentido técnico, não pode pedir-se a
respectiva indemnização no processo penal.
O tribunal criminal, é incompetente, em razão da matéria, para conhecer da pura responsabilidade civil
contratual.
Na verdade, o artigo 129º do Código Penal (CP) (sob o epíteto de Responsabilidade civil emergente de
crime), dispõe expressamente: "A indemnização de perdas e danos emergentes de crime é regulada pela lei civil."
Isto significa, por outro lado, que a atribuição da indemnização em processo penal é regulada
quantitativamente nos seus pressupostos pela lei civil e não já por critérios da lei penal, como sucedia no velho
Código de 1886.
No Código Civil consagra-se basicamente a concepção clássica de que a responsabilidade civil tem a
função de reparar os danos causados e não fins sancionatórios.
Dada a sua função essencialmente reparadora ou reintegrativa, o instituto da responsabilidade civil está
sempre submetido aos limites da eliminação do dano, o que significa que, inexistindo este, inexiste obrigação de
indemnizar (art. 483. do CC). Portanto, nunca pode haver condenação cível, em processo penal, quando se não
provar a existência do dano invocado pelo autor do respectivo pedido.
A dedução do pedido cível em processo penal é a regra e a dedução em separado a excepção (v. artºs
71º, 72 e 75 do C.P.P.), sem prejuízo de quando as questões suscitadas pelo pedido de indemnização
inviabilizarem uma decisão rigorosa ou forem susceptíveis de gerar incidentes que retardem intoleravelmente
o processo penal, o tribunal pode, oficiosamente ou a requerimento, remeter as partes para os tribunais civis. -
nº 3 do artº 72º.
O princípio da adesão em processo penal é de tal forma abrangente, que, nos crimes de acusação
particular, a lei retira efeitos penais do comportamento assumido pelo lesado em matéria cível, quando afirma
no nº 2 do artº 72º que no caso de o procedimento depender de queixa ou de acusação particular, a dedução do
pedido perante o tribunal civil pelas pessoas com direito de queixa ou de acusação vale como renúncia a esse
direito.
Embora o processo civil defina vários aspectos do regime da acção enxertada, como da definição da
legitimidade das partes, é a acção penal que verdadeiramente suporta, orienta e conforma todo o rito processual,
marcando definitivamente a cadência de intervenção dos demandantes civis na causa e os principais aspectos
de forma a observar no seu desenrolar, sem esquecer a diligência para que conflui todo o processo: a audiência
de julgamento, como o indicam as circunstâncias: de ser a data da acusação o termo a quo da dedução do pedido
cível - arts, 77º, n. 1 e 75º; da intervenção processual do lesado se restringir à sustentação e à prova do pedido
de indemnização civil, competindo-lhe correspondentemente, os direitos que a lei confere aos assistentes - art.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 114
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
74., n. 2; dos demandados e os intervenientes terem posição processual idêntica à do arguido quanto à
sustentação e à prova das questões civis julgadas no processo - art. 74. n, 3; da falta de contestação não ter efeito
cominatório - art. 78.º, n, 3; do tribunal poder, oficiosamente ou a requerimento dos interessados, remeter as
partes para os tribunais civis quando as questões suscitadas pelo pedido de indemnização civil inviabilizarem
uma decisão rigorosa ou forem susceptíveis de gerar incidentes que retardem intoleravelmente o processo penal
- art. 82.º, n. 3; do art. 401.º, n, 1, c), conferir às partes civis legitimidade para recorrer "da parte das decisões
contra cada um proferidas"; do art. 402., n, 2, b), estatuir que, em geral, o responsável civil, ainda que não seja
recorrente, beneficia do recurso do arguido, sendo certo que a inversa também é verdadeira, como resulta da
alínea seguinte - c) do mesmo artigo; do art. 403º nº 2, a), estabelecer, em matéria de limitação do recurso, a
possibilidade de recurso autónomo da decisão penal relativamente à civil.
Sem prejuízo de que o artº 72º nº 1 do Código de Processo Penal, confere ao ofendido a faculdade de
deduzir em separado o pedido de indemnização civil, perante o tribunal civil, quando ocorram determinadas
situações processuais, indicadas nas suas alíneas, ou seja, quando:
a) O processo penal não tiver conduzido à acusação dentro de oito meses a contar da notícia do
crime, ou estiver sem andamento durante esse lapso de tempo;
b) O processo penal tiver sido arquivado ou suspenso provisoriamente, ou o procedimento se tiver
extinguido antes do julgamento;
c) O procedimento depender de queixa ou de acusação particular;
d) Não houver ainda danos ao tempo da acusação, estes não forem conhecidos ou não forem
conhecidos em toda a sua extensão;
e) A sentença penal não se tiver pronunciado sobre o pedido de indemnização civil, nos termos do
artigo 82º nº 3:
f) For deduzido contra o arguido e outras pessoas com responsabilidade meramente civil, ou
somente contra estas haja sido provocada, nessa acção, a intervenção principal do arguido;
g) O valor do pedido permitir a intervenção civil do tribunal colectivo, devendo o processo penal
correr perante o tribunal singular;
h) O processo penal correr sob a forma sumária ou sumaríssima;
i) O lesado não tiver sido informado da possibilidade de deduzir o pedido civil no processo penal ou
notificado para o fazer, nos termos dos artigos 75º nº 1, e 77º, nº 2.
São situações de concordância prática entre a normalidade do procedimento (incluindo-se a celeridade
processual) e, por vezes, a inevitável morosidade processual, ou existência de situações excepcionais, que
possibilitam a dedução do pedido de indemnização civil em separado.
A própria teleologia do citado artº 75º do C.P.P. ao impor o dever de informação ao lesado, pela
autoridade judiciária pretende acautelar desde logo o exercício do direito do lesado na dedução do referido
pedido de indemnização civil em processo penal.
O artº 75º do C.P.P. na redacção anterior à referida lei 59/98, impunha o dever de informação,
estabelecendo que no primeiro acto em que intervier no processo penal pessoa que se saiba ter legitimidade
para deduzir pedido de indemnização civil, deve ela ser informada pela autoridade judiciária da possibilidade
de o fazer valer no processo penal e das formalidades a observar, explicitando agora a actual redacção do
preceito que logo que, no decurso do inquérito, se tomar conhecimento da existência de eventuais lesados,
devem estes ser informados, pela autoridade judiciária ou pelos órgãos de polícia criminal, da possibilidade de
deduzirem pedido de indemnização civil em processo penal e das formalidades a observar, acrescentando por
sua vez o nº 2 do preceito que quem tiver legitimidade para deduzir pedido de indemnização civil deve
manifestar no processo, até ao encerramento do inquérito, o propósito de o fazer. 66
O acórdão de fixação de jurisprudência nº 1/2002 de 12 de Março de 2002, decidiu que não pode
recorrer-se da decisão da Relação sobre pedido de indemnização civil, se for irrecorrível a parte criminal.
Porém, esta jurisprudência veio a ser contrariada pela Lei nº 48/2007, de 29 de Agosto, que aditou ao
artº 400º do CPP, o actual nº 3 do seguinte teor: "Mesmo que não seja admissível recurso quanto à matéria
penal, pode ser interposto recurso da parte da sentença relativa à indemnização civil.
Porém, o recurso da parte da sentença relativas a indemnização civil só é admissível desde que o valor
do pedido seja superior à alçada do tribunal recorrido e a decisão impugnada seja desfavorável para o recorrente
em valor superior a metade dessa alçada."
O artigo 377º nº 1 do Código de Processo Penal, determina que a sentença, ainda que absolutória,
condena o arguido em indemnização civil sempre que o pedido respectivo vier a revelar-se fundado, sem
prejuízo do disposto no artigo 82º nº 3.
Não havia porém unanimidade quanto ao campo de aplicação deste artigo.
Escrevia Maia Gonçalves: "Este artigo exige que haja sentença, portanto decisão que conheça, a final,
do objecto (cfr. artº 97º, 1, al. a). É, portanto, necessário que tenha havido julgamento: se o processo não chegou
a julgamento, por extinção da responsabilidade criminal em momento anterior, não pode condenar-se na
indemnização aqui prevista" e, aduzia ainda que: "Este artigo tem campo de aplicação privilegiado nos casos em
que há responsabilidade civil objectiva mas a responsabilidade penal inexiste por falta de culpa (v.g. acidente de
viação, com morte, que se provou, em julgamento, ter sido causado por caso fortuito inerente ao funcionamento
do veículo) mas abrange outros casos, como o de sentença absolutória por amnistia da infracção".
Mas, já em 1996, o Supremo Tribunal de Justiça, dava uma interpretação restritiva à norma, no sentido
de que o nº 1 do artº 377º do CPP só pode funcionar quando esteja em causa uma situação de responsabilidade
civil extracontratual, mas já não quando se configura um caso de responsabilidade civil contratual.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 115
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
E, o denominado Assento nº 7/99 de 17 de Junho de 1999, veio a fixar, nos termos do artigo 445º do
Código de Processo Penal, a seguinte jurisprudência: "Se em processo penal for deduzido pedido cível, tendo o
mesmo por fundamento um facto ilícito criminal, verificando-se o caso previsto no artº 377º nº 1 do Código de
Processo Penal, ou seja, a absolvição do arguido, este só poderá ser condenado em indemnização civil se o pedido
se fundar em responsabilidade extra-contratual ou aquiliana, com exclusão da responsabilidade civil
contratual."
Escreveu-se a dado passo no referido Aresto, gerado pela oposição de julgados na Relação de Coimbra
sobre a mesma questão: " É que, aceitando-se, muito embora, que o nosso direito positivo impõe um regime de
adesão obrigatória, tal diz respeito ao pedido de indemnização por perdas e danos resultantes de um facto
punível, ou seja, de um ilícito criminal.
Por outro lado, e recorrendo ao ensinamento de Eduardo Correia (Processo Criminal, pp. 212 e segs.)
o acórdão vai encontrar a explicação da dependência da acção civil perante a acção penal. No fundo, de ambas
provirem da mesma causa material.
Outra ideia muito importante que aceitamos e que está bem patente no acórdão recorrido é que o
regime de adesão não implica uma acção cível qualquer, mas tão-somente um pedido de indemnização civil para
ressarcimento de danos causados por uma conduta considerada como crime".
E, mais adiante: "o nº 1 do artº 377º do Código de Processo Penal, quando manda condenar a
indemnização civil, tem como pressuposto que esta indemnização resulte de um facto ilícito criminal e, no fundo,
tendo como base o já citado artigo 483º do Código Civil. Daí a alusão a que o pedido seja fundado: não é qualquer
pedido, mas sim o fundado na responsabilidade aquiliana".
Só o pedido de indemnização civil «fundado na prática de um crime» pode ser «deduzido no processo
penal respectivo» (art . 71.º, do CPP), mas a sentença, ainda que haja absolvição criminal do arguido condena
este em indemnização civil «sempre que o pedido respectivo vier a revelar-se fundado».
Como se disse, em conclusão, no mesmo Aresto:
"1.ª No nosso direito positivo, a questão da indemnização a fixar pela prática de um crime consiste no
sistema da adesão obrigatória da acção civil à acção penal, com algumas excepções expressas na lei (artigos 71.º
e 72.º do Código Penal);
2.ª Em face do artigo 377.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, verifica-se a autonomia entre a
responsabilidade civil e a responsabilidade criminal, mas isso não impede que, mesmo no caso de absolvição da
responsabilidade criminal, o Tribunal conheça da responsabilidade civil, mas que tem necessariamente a mesma
causa de pedir, ou seja, os mesmos factos que são também pressuposto da responsabilidade criminal;
3.ª Não pode concluir-se do artigo 129.º do Código Penal que a reparação civil arbitrada em processo
penal é um efeito da condenação, mas sim que este normativo apenas remete para o artigo 483.º do Código Civil;
4.ª Esta responsabilidade civil, que poderá exclusivamente ser apreciada em processo penal (se o
pedido for aí deduzido), refere-se tão-somente àquela que emerge da violação do direito de outrem ou qualquer
disposição legal destinada a proteger interesses alheios, com dolo ou mera culpa e da qual resultem danos,
ficando, portanto, excluída a responsabilidade contratual (artigo 483.º do Código Civil)."
Assim, se o pedido tem de se fundar «na prática de um crime», mas a absolvição (do crime) não obsta
à condenação do arguido no pedido - se «fundado» - de indemnização, o fundamento da condenação não será
obviamente a «prática de um crime», mas, segundo o assento 7/99 de 17JUN (D.R. I-A 3AGO99), a
«responsabilidade extracontratual ou aquiliana», ainda que (eventualmente) não criminosa.
O pedido de indemnização civil é deduzido pelo lesado, entendendo-se como tal a pessoa que sofreu
danos ocasionados pelo crime, ainda que se não tenha constituído assistente, devendo manifestar no processo,
até ao encerramento do inquérito o propósito de deduzir o pedido de indemnização civil- artº 74º nº 1 e 75º nº
3 do CPP.
A causa de pedir no pedido de indemnização deduzido por força do art. 71 do CPP, é a prática de um
crime.
Assim, só os lesados directa ou indirectamente com a sua prática podem ser demandantes, e os
acusados ou terceiros que sejam responsáveis civilmente pela reparação dos respectivos danos, demandados.
"Lesado" é toda a pessoa (singular ou colectiva) que, de acordo com o direito civil, tenha sofrido, por
efeito do crime, prejuízos no seu património material ou moral.
Quando o legislador utiliza a expressão "danos ocasionados pelo crime", pressupõe que entre o delito
e os prejuízos indemnizáveis, exista um nexo de causalidade.
A responsabilidade civil do arguido, a apreciar em processo penal, se não é sempre consequência de
uma condenação por infracção penal, tem no entanto por suporte a imputação de um crime, com verificação dos
seus elementos constitutivos e de uma subsunção à fattispecie legal.
Como se assinalou no Acórdão nº 3/2002, de 17 de Janeiro de 2002: "Não obstante a lei e a doutrina
apontarem para que a ilicitude civil mesmo quando conexa com a ilicitude criminal não perde a sua natureza
fundamentalmente privada, o paralelismo não pode ir ao ponto de esquecer a intensidade da violação e o
consequente dano que normalmente anda associado à ilicitude penal, a exigir uma reacção que a tenha em conta,
ao menos em termos de tempo, na reposição que vem da indemnização.
O jurisconsulto do século XVI, Julius Clarus já dizia: «Maior enim et dignior est causa criminalis, quam
civilis, et ubi una causa est maior altera, non possunt duae actiones simul cumular».
Acentuam-se hoje as virtualidades da autonomia do processo penal, com mais poderes de investigação
e por isso com crescentes possibilidades de atingir a verdade material.
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 116
XXXI Curso de Preparação para Admissão ao CEJ (2019/2020)
Universidade Portucalense | Isabel Amorim
Sendo mais simples que o comum processo civil, contém uma ideia de preferência, dando, por essa
mesma razão, «uma especial protecção do lesado ofendido».
E «sem essa simplificação não há economia, não há benefício para o ofendido, não há incentivo para o
uso da adesão penal».
Isto não impede que o princípio dispositivo, pelo menos em parte, tenha lugar no processo de adesão,
pois que, «ao lesado é que cabe dizer, e sempre, se há ou não há processo de adesão».
Salienta Figueiredo Dias que a despeito de a adesão ser em princípio obrigatória (agora com mais
excepções no novo Código de Processo Penal) e ainda que as partes devam ser «consideradas sujeitos do
processo penal num sentido eminentemente formal, já de um ponto de vista material são sujeitos da acção civil
que adere ao processo penal e que como acção civil permanece até ao fim».
No direito italiano, onde o princípio da adesão consagrado no Código de Processo Penal de 1988 e
menos incisivo do que entre nós, reconhece-se que os poderes atribuídos à pessoa ofendida, de «adesão» à
actividade do Ministério Público ou de «controlo» da mesma, «uma espécie de contributo para o exercício ou
prosseguimento da acção penal», constituem pressuposto da escolha da sede onde quer fazer valer a pretensão
civil.
O Tribunal Constitucional, pronunciando-se sobre o disposto no artigo 400º, n.º 2, do Código de
Processo Penal, em termos de avaliar da constitucionalidade ou não do regime do processo penal comparado
com o do processo civil, ao suscitar-se a disparidade de recursos relativamente ao pedido cível formulado num
e noutro caso, afirmou a justificação da desigualdade, e salientou: «é a existência de uma profunda conexão entre
os dois ilícitos resultantes da unidade do facto gerador, tanto da responsabilidade civil como da criminal, que
justifica a apreciação no mesmo processo da questão criminal e da questão civil. Assim, o julgamento em
processo penal do pedido de indemnização civil tem de implicar que se apliquem a este pedido as regras do
processo penal quanto ao recurso, para que o sistema seja dotado de coerência e de racionalidade da questão
criminal e da questão civil».
Ac. STJ 25/05/2018 (Alexandre Reis)
“I - No caso em apreço, uma vez iniciado o procedimento criminal com a notícia do crime (de ofensa à integridade
física por negligência previsto no art. 148.º, n.º 1, do CP), o prazo de prescrição de 5 anos (aplicável por força das
disposições conjugadas dos arts. 498.º, n.º 3, do CC, e 118.º, n.º 1, al. c), do CP) apenas começou a correr, nos termos
do art. 306.º, n.º 1, do CC, com o desfecho do inquérito, portanto, com a dedução da acusação contra o arguido em
tais autos, momento a partir do qual o direito pôde ser exercido na acção civil.
II - Com efeito, curando da responsabilidade civil conexa com a criminal, o art. 71.º do CPP consagra o princípio da
adesão da acção civil à acção penal que, mais do que uma mera interdependência das acções, arrasta o pedido de
indemnização civil de perdas e danos para a jurisdição penal.
III - Não obstante as diversas salvaguardas à obrigatoriedade de o direito à indemnização ser exercido no
procedimento penal, plasmadas no art. 72.º do CPP, assiste ao lesado o direito de aguardar o termo do inquérito
criminal, com o seu arquivamento ou com a dedução da acusação, se, perante qualquer das situações abarcadas
em tais ressalvas, não quiser recorrer, logo, à acção cível em separado.
IV - Contudo, deduzida a acusação no inquérito, uma vez que o direito à indemnização tem de ser aí exercido nos
prazos peremptórios cominados no art. 77.º do CPP, sob pena de ficar definitivamente encerrada a possibilidade do
exercício da acção cível em conjunto com a penal, cessa o impedimento para o exercício do direito na instância cível
e passa a verificar-se a inércia do respectivo titular, em que se funda a extinção inerente à prescrição, iniciando-se
o cômputo do prazo desta a partir de então.”
Direito Processual Penal – Nuno Brandão (nbrandao76@[Link]) 117