Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS
Órgão 2ª Turma Criminal
Processo N. APELAÇÃO CRIMINAL 0700095-45.2022.8.07.0002
APELANTE(S) PEDRO RAFAEL ROCHA SANTOS
APELADO(S) MINISTERIO PUBLICO DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITORIOS
Relator Desembargador SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS
Acórdão Nº 1807200
EMENTA
APELAÇÃO CRIMINAL. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. AMEAÇA. ABSOLVIÇÃO. AUSÊNCIA DE
TIPICIDADE. POSSIBILIDADE. DOLO NÃO EVIDENCIADO. TEMOR NÃO COMPROVADO.
RECURSO PROVIDO.
1. Para configurar o crime de ameaça, é necessário que a promessa de um mal injusto e grave tenha
causado efetiva intimidação, temor ou abalo psíquico na vítima, ou seja, a ameaça deve ser capaz de
gerar um impacto real no estado emocional ou psicológico da pessoa ameaçada para que o crime seja
caracterizado.
2. O elemento subjetivo do delito de ameaça é o dolo, consistente na vontade livre e consciente de
intimidar alguém. Assim, a simples bravata e a mera incontinência escrita não caracterizam o crime de
ameaça.
3. No caso em apreço, a frase escrita pelo acusado na mensagem mais se assemelha a um ato de
desabafo de alguém irritado com o comportamento do outro do que uma promessa real de morte
propriamente dita. Pela análise das circunstâncias do caso concreto, conclui-se que as palavras do réu
não foram graves o suficiente para alcançar a tipicidade do delito, consubstanciando bravata e
incontinência escrita, incapaz de causar temor ou abalo psíquico à vítima e, consequentemente,
caracterizar o crime de ameaça.
4. Recurso provido.
ACÓRDÃO
Acordam os Senhores Desembargadores do(a) 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e dos Territórios, SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS - Relator, JAIR SOARES - 1º Vogal
e JOSAPHÁ FRANCISCO DOS SANTOS - 2º Vogal, sob a Presidência do Senhor Desembargador
ROBERVAL CASEMIRO BELINATI, em proferir a seguinte decisão: DAR PROVIMENTO.
UNÂNIME., de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
Brasília (DF), 01 de Fevereiro de 2024
Desembargador SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS
Relator
RELATÓRIO
Pela respeitável sentença (ID 53070974), cujo relatório se adota como complemento, proferida pela
ilustre autoridade judiciária do Juizado Especial Cível e Criminal e Juizado de Violência Doméstica e
Familiar Contra a Mulher de Brazlândia-DF, P. R. R. S. foi condenadocomo incurso no artigo 147,
“caput”, do Código Penal, na forma dos artigos 5º e 7º, ambos da Lei n. 11.340/2006 (ameaça em
contexto de violência doméstica),à pena de 1 (um) mês e 5 (cinco) dias de detenção, no regime inicial
aberto, suspensa pelo período de 2 (dois) anos.
Narrou a denúncia (ID 53070892):
No dia 05/12/2021, por volta das 17h50min, na (...), Brazlândia/DF, o denunciado, agindo de forma
voluntária e consciente, ameaçou sua ex-companheira A.L.M.A., por meio de palavras e escritos, de
causar-lhe mal injusto e grave.
Apurou-se que o denunciado, irritado porque a vítima pediu que ele ficasse com a filha alguns dias,
enviou várias mensagens via aplicativo para Ana Luiza, xingando e ameaçando a ofendida, dizendo
que a única maneira de se livrar do problema seria matando a vítima (ID: 112686150 - ID:
112686152).
O réu apelou (ID 53070984) e a Defesa Técnica (Defensoria Pública), nas razões recursais (ID
53070989), requereu a absolviçãodo acusado por atipicidade da conduta ou insuficiência probatória,
nos termos do artigo 386, incisos III ou VII, do Código de Processo Penal.
Em contrarrazões, o Ministério Público pugnou pelo conhecimento e desprovimento do recurso (ID
53070991).
Nesta instância, a douta Procuradoria de Justiça oficiou pelo conhecimento e pelo provimentodo apelo,
para que o réu seja absolvido(ID 53226371).
É o relatório.
VOTOS
O Senhor Desembargador SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS - Relator
Conheço do recurso.
ABSOLVIÇÃO:
A douta Defesa Técnica requereu a absolvição do acusado por atipicidade da conduta ou insuficiência
probatória, nos termos do artigo 386, incisos III e VII, do Código de Processo Penal.
Alegou que inexistem elementos mínimos suficientes para comprovar que o acusado tivesse a real
intenção de causar algum temor à vítima.
Sustentou que a promessa de mal injusto e grave não está expressa nas palavras do autor, e que não se
pode considerar a ameaça configurada em virtude de mera suposição da vítima.
Aduziu que, estando ausente o dolo de ameaçar, é atípica a conduta.
Argumentou que as palavras escritas na mensagem de texto aconteceram no dizer popular “da boca
para fora”, inexistindo a promessa de mal injusto e grave.
Ressaltou que a condenação exige certeza plena, inexistindo espaço para dúvida, de modo que
ninguém pode ser condenado pela possibilidade de que tenha realizado determinada conduta.
Ponderou que não se admite a presunção de culpabilidade.
O pleito absolutório da Defesa é referendado pelo parecer da douta Procuradoria de Justiça.
Vejamos.
Na fase investigativa, a vítima A. L. M. A. narrou que, no dia dos fatos, após enviar mensagem ao
autor pedindo que ele ficasse com a filha do casal por mais alguns dias, o réu respondeu com várias
mensagens, dentre elas algumas que considerou ofensivas, sendo que, em uma delas o autor escreveu
que a única maneira de resolver o problema seria “a matando”. Confira-se (ID 53070881):
[...] A ofendida explicou que na data de hoje, 05/12/2021, encaminhou mensagem ao autor solicitando
que ele ficasse com a filha do casal até quinta-feira, 09/12/2021. Que tal mensagem desencadeou
várias mensagens do autor xingando a ofendida de "vagabunda, e desgraçada". O autor alegou que já
havia saído de casa para devolver a criança quando recebeu a mensagem. A ofendida afirma que ligou
para o autor e ele desligou o telefone, e que ele ainda estava em sua residência. A ofendida relata que
em uma das mensagens o autor chegou a escrever que a única maneira de se livrar do problema com a
ofendida seria a matando. O autor também mandou a ofendida "tomar no cu" e outras agressões.
Perguntada a ofendida informou que o seu relacionamento com o autor sempre foi conturbado, com
muitas brigas e xingamentos. Que por duas ocasiões o autor a agrediu fisicamente, conforme
ocorrência policial nº 3824/20 - 18ª DP e outra ocorrência nos moldes da Lei Maria da Penha
registrada no Estado de Goiás.
O acusado não foi ouvido na fase inquisitorial.
Iniciada a fase judicial, a vítima ratificou em audiência que, na circunstância descritas na denúncia, o
acusado, em momento de conflito decorrente de questão relacionada à filha do casal, lhe enviou uma
mensagem afirmando que a única foram de resolver o problema seria a matando. Confira-se, por
oportuno, a transcrição realizada na sentença pelo eminente Magistrado de primeiro grau:
Na data houve uma discussão em razão da data de devolução da filha do ex-casal após o período de
visita paterna. Na ocasião, ele afirmou que “a única forma de resolver o problema era se me matasse”.
Ao lhe serem apresentadas, confirmou que as mensagens enviadas pelo acusado são as que estão
juntadas aos autos. Sempre houve muitas brigas entre o casal, mas não agressões. Ao ser questionada,
explicou que decidiu ir à Delegacia registrar os fatos pois o acusado já estava lhe tratando mal há
algum tempo e, na data em questão, ao ser ameaçada, decidiu adotar providências. Já xingou o
acusado em outras ocasiões também. Acredita que foi ameaçada “no calor do momento”, mas não quis
pagar para ver.
O acusado não foi ouvido em juízo, uma vez que, apesar de devidamente intimado, não compareceu à
audiência e nem apresentou justificativa para tal ausência, tendo sido declarada sua revelia, nos
termos do artigo 367, do Código de Processo Penal (ID 53070969).
Pois bem.
Quanto ao crime de ameaça, o Código Penal estabelece no seu artigo 147, “caput”, que:
Art. 147 - Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de
causar-lhe mal injusto e grave:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Parágrafo único - Somente se procede mediante representação. (Grifos nossos).
Sobre o tema, CEZAR ROBERTO BITENCOURT, “in” Código Penal Comentado, 5ª ed., São Paulo:
Saraiva, 2009, pág. 479, leciona que, para a configuração do crime de ameaça, mister que as ofensas
proferidas pelo ofensor realmente incutam na vítima fundado temor de que venha a sofrer mal injusto
e grave. Confira-se:
(...) O crime de ameaça consiste na promessa feita pelo sujeito ativo de um mal injusto e grave feita à
alguém, violando sua liberdade psíquica. O mal ameaçado deve ser injusto e grave. Se o “mal” for
justo ou não for grave, não constituirá o crime. A ameaça é a violência moral (vis compulsiva), que
tem a finalidade de perturbar a liberdade psíquica e a tranquilidade do ofendido por meio da
intimidação. A ameaça, para constituir o crime, tem de ser idônea, séria e concreta, capaz de
efetivamente impingir medo à vítima; quando a vítima não lhe dá crédito, falta-lhe potencialidade
lesiva; não se configura o crime, consequentemente (...).
Interpretando-se o dispositivo acima transcrito e aplicando a presente lição ao caso em comento,
infere-se que é necessário que o mal seja considerado injusto e grave, causando intimidação e prejuízo
relevante na vítima, o que não ocorreu no presente caso.
O crime de ameaça pode ser praticado de variadas formas, seja por palavras, gestos, escritos ou
qualquer outro meio simbólico, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita e, ainda,
condicional, desde que a intimidação seja apta a causar temor na vítima.
A jurisprudência entende não ser necessário o ânimo calmo e refletido do autor para a caracterização
do crime de ameaça. No entanto, a sua configuração demanda necessariamente que a promessa de mal
injusto e grave tenha causado intimidação, temor ou abalo psíquico à vítima.
No tocante ao tema, vejam-se as lições de Guilherme Souza Nucci:
“É indispensável que o ofendido efetivamente se sinta ameaçado, acreditando que algo de mal lhe
pode acontecer; por pior que seja à intimidação, se ela não for levada a sério pelo destinatário, de
modo a abalar-lhe a tranquilidade de espírito e sensação de segurança e liberdade, não se pode ter
por configurada a infração [Link], o bem jurídico protegido não foi abalado. O fato de o crime
por configurada a infração penal. ser formal, necessitando somente de a ameaça ser proferida,
chegando ao conhecimento da vítima para se concretizar, não afasta a imprescindibilidade do
destinatário sentir-se, realmente, temeroso. O resultado naturalístico que pode ocorrer é a
consumação do mal injusto e grave, que seria somente o exaurimento do ilícito.” (NUCCI, Guilherme
de Souza. 11ª ed. rev. atual. e ampl. São Paulo:[1]. Código penal comentado Revista dos Tribunais,
2012, p. 730)
Assim, para configurar o crime de ameaça, é necessário que a promessa de um mal injusto e grave
tenha causado efetiva intimidação, temor ou abalo psíquico na vítima, ou seja, a ameaça deve ser
capaz de gerar um impacto real no estado emocional ou psicológico da pessoa ameaçada para que o
crime seja caracterizado.
Cumpre salientar, ademais, que o elemento subjetivo do delito de ameaça é o dolo, consistente na
vontade livre e consciente de intimidar alguém. Assim, a simples bravata e a mera incontinência
verbal ou escrita não caracterizam o crime de ameaça.
No caso em apreço, de acordo com os “prints” acostados aos IDs 53070887, 53070888 e 53070889,
durante uma conversa travada por mensagens telefônicas, dentre as mensagens trocadas, tem-se
algumas em que o réu escreveu palavras ofensivas para a vítima, nas quais a xingou de “vagabunda” e
“puta”. A ofendida então respondeu: “se vc acha q vc me xingando vai adiantar alguma coisa” “Siga
em frente”. Dito isso, o acusado então afirmou: “Xingando não resolve não” “Só matando msm”.
Em juízo, a vítima afirmou que decidiu ir à Delegacia registrar os fatos porquanto o acusado já estava
lhe tratando mal há algum tempo. Concluiu afirmando que acredita que foi ameaçada “no calor do
momento”.
Nota-se que não foi a suposta ameaça isoladamente que motivou a ofendida a procurar ajuda policial,
mas outros episódios em que o réu agiu de forma rude, grosseira e desrespeitosa em seu desfavor.
Importa observar também que a frase escrita pelo acusado mais se assemelha a um ato de desabafo de
alguém irritado com o comportamento do outro, do que uma promessa real de morte propriamente dita
. Com efeito, constata-se que a promessa de mal injusto e grave não está expressa nas palavras escritas
pelo apelante quando respondeu a vítima, até porque posteriormente a tal frase eles continuaram
conversando por mensagens normalmente, a demonstrar que a frase não foi capaz de causar temor e
intimar a ofendida.
Nesse contexto, pela análise das circunstâncias do caso concreto, conclui-se que as palavras do réu
não foram graves o suficiente para alcançar a tipicidade do delito, consubstanciando bravata e
incontinência escrita, incapaz de causar temor ou abalo psíquico à vítima e, consequentemente,
caracterizar o crime de ameaça.
Nesse sentido, confira-se o seguinte julgado deste colendo Tribunal de Justiça:
[...] 2. Para a configuração do crime de ameaça é imprescindível que a promessa de mal injusto e
grave tenha causado efetiva intimidação, temor ou abalo psíquico à vítima.[...] (Acórdão 1733637,
07221999620208070003, Relator: ASIEL HENRIQUE DE SOUSA, 1ª Turma Criminal, data de
julgamento: 20/7/2023, publicado no PJe: 2/8/2023. Pág.: Sem Página Cadastrada.)
Cumpre salientar que a douta Procuradoria de Justiça oficiou pela absolvição do recorrente,
destacando que a promessa não foi grave o suficiente para atingir a tipicidade do delito, devendo o
apelante ser absolvido, por não constituir o fato infração penal, com base no artigo 386, inciso III, do
Código de Processo Penal. Confira-se o teor da manifestação do douto Procurador (ID 53270508):
Os fatos ocorreram há quase 2 anos e, ao que consta, não houve maiores consequências, e cada um
seguiu sua vida.
Emoção não afasta a responsabilidade penal, mas serve para contextualizar a seriedade e gravidade da
ameaça.
No caso concreto, a ameaça proferida não passou de um gesto de descontrole, tanto quanto dizer que
se mataria ou proferir xingamentos e grosserias.
A sentença, seguindo a esteira de grande parte da jurisprudência, entende que o artigo 147 do Código
Penal é crime formal.
Mas há entendimento divergente, como o exposto pelo Egrégio, recentemente, no acórdão de autos
0722199-96.2020.8.07.000, em que a unanimidade da 1ª Turma entendeu que “2. Para a configuração
do crime de ameaça é imprescindível que a promessa de mal injusto e grave tenha causado efetiva
intimidação, temor ou abalo psíquico à vítima”.
Concordamos com essa posição, até para não banalizar o artigo 147 do Código Penal e tornar ilícita
qualquer coisa que se fale no calor de uma discussão, mesmo que da boca para fora.
Nem de longe aplaudimos grosserias mas estas não necessariamente caracterizam ilícitos criminais.
Aliás, o próprio medo da vítima não necessariamente caracteriza crime. É possível que uma pessoa
mais suscetível se sinta intimada com um simples olhar ou mesmo com perigos mais ou menos
imaginários.
No presente caso, pela análise das circunstâncias, temos que a promessa não foi grave o suficiente
para atingir a tipicidade do delito.
Sugerimos ao Egrégio que absolva o apelante, com base no artigo 386, inciso III, do Código de
Processo Penal.
DIANTE DO EXPOSTO, dou provimento ao recurso para absolvero acusado da imputação contida na
denúncia, por atipicidade da conduta, com fundamento no artigo 386, inciso III, do Código de
Processo Penal.
Intime-se a vítima, pessoalmente, acerca da presente decisão, em atenção à determinação constante no
artigo 2º, inciso IV, da Portaria Conjunta n. 50, de 1º de julho de 2016, que regulamenta, no âmbito
dos Juízos e dos órgãos colegiados do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, a
intimação pessoal da ofendida sobre os atos processuais relativos ao agressor, previstos na Lei n.
11.340/2006.
Nos termos do artigo 9º da Portaria Conjunta n. 50/2016, a intimação da ofendida não exclui a
intimação, por publicação no Diário de Justiça Eletrônico - DJe, do advogado constituído nem a
intimação, por vista pessoal, do defensor dativo e da Defensoria Pública, de acordo com a legislação
de regência.
É o voto.
O Senhor Desembargador JAIR SOARES - 1º Vogal
Com o relator
O Senhor Desembargador JOSAPHÁ FRANCISCO DOS SANTOS - 2º Vogal
Com o relator
DECISÃO
DAR PROVIMENTO. UNÂNIME.