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A METÁFORA NAS CRÔNICAS JORNALÍSTICAS DE JOSÉ SIMÃO

A METÁFORA NAS CRÔNICAS JORNALÍSTICAS DE JOSÉ SIMÃO

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A METÁFORA NAS CRÔNICAS JORNALÍSTICAS DE JOSÉ SIMÃO Liliam de OLIVEIRA (PUC/SP)
liliam@gmail.com

Resumo A possibilidade que o enfoque da metáfora como ferramenta cognitiva trouxe para o campo teórico, ampliou os horizontes de estudos e possibilitou que as pesquisas sobre metáfora rompessem a barreira dos textos poéticos e aventurasse-se em outros gêneros textuais. Este trabalho é fruto da minha dissertação de mestrado, em andamento, que objetiva analisar a partir dos estudos de Lakoff e Johnson, o processo de construção da metáfora nas crônicas jornalísticas de José Simão e estabelecer quais são as relações que a metáfora cria entre o texto e o leitor e como este reflete sobre os temas apresentados. Abstract 1. Considerações iniciais Somente a partir da década 1970 a metáfora começou a ser estudada como um fenômeno cognitivo. A possibilidade que o enfoque da metáfora como ferramenta cognitiva trouxe para o campo teórico ampliou os horizontes de estudos e, com isso, possibilitou que as pesquisas sobre metáfora rompessem a barreira dos textos poéticos e se aventurassem em outros gêneros textuais. Este trabalho baseia-se na perspectiva da metáfora cognitiva embasada pelos estudos de Lakoff e Johnson – que por meio de investigações empíricas constatam as diversas maneiras de construir metáforas para representar a nossa visão da realidade. Por conseguinte, ela analisará o processo de construção da metáfora nas crônicas jornalísticas de José Simão pelo leitor proficiente e tem como objetivo a análise do pensar metafórico no discurso jornalístico, mais precisamente na Crônica, por meio da abordagem cognitiva no processo de leitura. Assim, seus objetivos específicos serão verificar e analisar o processo de construção da metáfora cognitiva nos sujeitos da pesquisa durante o ato de leitura dos textos propostos e verificar como o leitor proficiente constrói o sentido de metáforas lingüísticas que refletem, na linguagem, metáforas como processos cognitivos durante o ato de leitura dos textos propostos. Para tal, serão utilizados textos da coluna de José Simão, da Folha de São Paulo no caderno Ilustrada, referentes ao período que antecedeu a invasão americana ao Iraque, o período guerra, a queda da estátua de Saddan Hussein e a sua captura pelo exército americano. Com efeito, os sujeitos da pesquisa cujo número de participantes será estabelecido posteriormente, deverão ser leitores regulares da coluna de José Simão na Folha de S. Paulo, com nível superior, e, se possível, escolhidos dentre as mais variadas áreas de conhecimento. Este trabalho pretende divulgar e ampliar os estudos da metáfora como ferramenta cognitiva e somar-se aos trabalhos já publicados por alguns teóricos, e por grupos de estudo como o GEIM, que tanto contribuíram para o enriquecimento das questões teóricas sobre esse assunto. Para tanto, justificamos de que forma a análise metafórica fundamentada nos trabalhos de Lakoff & Johnson na produção de sentidos compreensão textual durante o processo de leitura efetuado por um leitor proficiente, é relevante. Ao buscar uma estruturação adequada do trabalho, procurou-se dividir a fundamentação teórica em três partes: a primeira deverá tratar da Metáfora como processo cognitivo em contraponto com a perspectiva tradicional; a segunda abordará a Crônica –gênero textual, sua trajetória histórica e características; a terceira tratará do estudo dos Aspectos cognitivos da leitura: Conhecimentos prévios, objetivos e expectativas, interação e estratégias de leitura, além de relacioná-las com o pensar metafórico. Antes de abordar o assunto em questão, é pertinente ressaltar que este artigo apresenta a primeira etapa da minha dissertação de mestrado e procura abordar os resultados da fase inicial da minha pesquisa e apresentar as indagações que permearão a fase posterior que será as entrevistas e análises dos dados coletados. 2. A perspectiva tradicional da metáfora Tradicionalmente, a metáfora é percebida como uma figura de linguagem, um recurso retórico, estilístico, ou ainda, uma simples questão de linguagem e não de pensamento.

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Zanotto (1996:211) apud Canolla, atesta que a metáfora é considerada um simples ornamento. Desta forma, na visão do racionalismo aristotélico e cartesiano, a oposição literal/metafórico é muito forte. p.65 Entre essas visões tradicionais, temos a de Oswaldino Marques (1956:33) no livro A Teoria da Metáfora, que além de tratar a metáfora como “o mais complexo e plástico dos tropos”, apresenta a posição de alguns teóricos a respeito desse assunto, como Hedwig Konrad apud Marques (op. cit.:34-35) atribui uma quase que completa autonomia à metáfora estética em contraposição à metáfora lingüística, ou seja, há uma “dupla configuração da metáfora como fator constitucional da linguagem e como recurso superior de expressão poética”. Acrescente-se as perspectivas de Warren e Wellek apud Marques (op. cit.:35-36) que ressaltam como ingredientes básicos da metáfora, “a analogia, dupla visão, imagem sensorial e projeção animística”, categorizando as metáforas por critérios culturais, variando de nação para nação. De acordo com Michel LeGuern (1974:142), que define a metáfora como um recurso estilístico, a passagem dessa “ao símbolo é muitas vezes imperceptível; isso intervém no momento em que a analogia não é sentida pela intuição, mas percebida pela inteligência”. Portanto, de acordo com LeGuern, a metáfora, figura de linguagem tradicionalmente usada no discurso poético e no discurso oral, possui algumas características próprias, como o fato de não possuir regras e de, principalmente, ser percebida através do contexto em que se insere. A partir destas concepções, acabamos por considerar que não há um “molde” para a metáfora; ela não possui teoria específica e que sob essa perspectiva, seu estudo fica restrito ao campo poético e literário. Entretanto, a partir da década 1970, a metáfora começou a ser pesquisada como um fenômeno cognitivo, conforme abordaremos a seguir. 3. A metáfora como ferramenta cognitiva Em 1979, Michael Reddy apresenta um novo enfoque à metáfora. Surge com seus estudos, o conceito da metáfora do canal, onde a palavra carrega a idéia, ou seja, a linguagem funciona como um conduto que transfere pensamentos de forma corpórea de uma pessoa para outra. Com efeito, Reddy postula na sua teoria da metáfora do canal que as expressões lingüísticas são recipientes de significados, palavras e sentenças têm significados em si mesmas, independentemente de qualquer contexto ou falante. Por outro lado, os significados são objetos, têm uma existência independente de pessoas e contextos. Ademais, as expressões lingüísticas são recipientes de significados, palavras (e sentenças) têm significados também independentes de contextos e falantes. (Cf. Lakoff & Johnson, 2002:55). Aprofundando os estudos de Reddy, é publicado em 1980, a obra de Lakoff & Johnson, Metáforas da Vida Cotidiana, onde eles questionam as concepções levantadas por Reddy e redefinem os conceitos metafóricos, a partir da descoberta de que “a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação”, dividindo-os então, em estruturais, orientacionais e ontológicas. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.:45). Eles postulam que a metáfora possibilita aos indivíduos organizar certos conceitos através da analogia e transferência de características de um domínio mais estabilizado pela experiência para um domínio menos estável. Haveria então metáforas operando no nível conceptual e funcionando como base para compreensão de conceitos complexos e abstratos. Para eles "o conceito é metaforicamente estruturado, a atividade é metaforicamente estruturada e, conseqüentemente, a linguagem é metaforicamente estruturada”. (Cf. Canolla, op.cit.:68). Em vista disso, as metáforas originam-se de nossas experiências concretas e que permite-nos construir conceitos especialmente abstratos e elaborados. Porquanto, a metáfora passa a ser definida não apenas como um fenômeno conceptual que permite a organização de conceitos mais complexos, através de uma rede de analogias e correspondências. Passa, dessa maneira, a apresentar um valor cognitivo também associado à experiência sócio-cultural do falante que vai além de sua utilização apenas retórica, pois permite a operacionalização de conceitos complexos, a respeito dos quais é difícil falar. (Cf. Canolla, op.cit.: 70-75). Para Lakoff e Johnson, as teorias da abstração e da homonímia são inadequadas e em muitos aspectos já que elas não conseguem dar conta dos fatos que concerne aos tipos metafóricos (orientacional, físico estrutural) e às suas propriedades (sistematicidade interna e externa, embasamento é coerência). (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.:195). A perspectiva da abstração não consegue explicar a tendência para entender o concreto em termos do mais concreto e nem, pode explicar fatos ligados a se sistematicidade interna das metáforas.

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Enfim, já que a teoria da abstração não possui nenhum sistema metafórico, ela não pode explicar porque metáforas podem se combinar como fazem e não podem dar conta das expressões metafóricas que estão na parte não usado na metáfora. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.: 196-198). Uma vez que a homonímia é o uso de uma mesma palavra com significados diferentes, ela não consegue dar conta da sistematicidade em interna das metáforas; apresenta os mesmos problemas em caso de se sistematicidade externa e, não tem condições de explicar extensões da porção usada (ou não usada) de uma metáfora. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.: 198-202). De acordo com Lakoff & Johnson (op.cit.:59-69), as metáforas orientacionais são aquelas ligadas à orientação espacial do tipo: para cima - para baixo, dentro-fora, frente-trás, em cima de - fora de (on-off), fundo - raso, central - periférico. Surgem do fato de que temos um corpo e que este funciona obedecendo a nossa relação com o nosso ambiente físico e cultural. Já nas metáforas ontológicas, os conceitos abstratos são transformados em entidades – coisas ou seres (animais ou pessoas).Usamos metáforas ontológicas para compreender os eventos, ações, atividades e estados. A personificação desempenha um papel importante nesse processo. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.:75-85). Por fim, as metáforas estruturais são as que definem a nossa forma de representar a realidade. Elas nos permitem fazer mais do que simplesmente orientarmos conceitos, nos referirmos a eles, quantificálos etc. Diante disso, podemos estruturar uma concepção em termos de outra. Nós a utilizamos para pensar certos conceitos abstratos. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.:133-139).

4. A compreensão do enunciado metafórico
As metáforas permeiam todo nosso sistema conceptual. Muitos desses conceitos são tão abstratos que necessitamos de algo concreto para defini-los. Criamos então, a necessidade de utilizarmos as definições metafóricas. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.: 205-207). Lakoff e Johnson propõem que os conceitos que ocorrem em definições metafóricas são aqueles correspondentes aos tipos naturais de experiência, que proporcionam a forma certa de estrutura que nos permite lidar com aqueles tipos naturais de experiência que são menos concretas ou menos claramente definidas em seus próprios termos. (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.: 208-209). De acordo com Lakoff e Johnson, "as metáforas e os delimitadores são instrumentos sistemáticos para definir melhor um conceito e para modificar seu âmbito de aplicabilidade". (Cf. Lakoff & Johnson, op.cit.:218). Embora o enunciado metafórico apresente-se com estruturas formais diferentes, sua estrutura profunda consiste na transferência do sentido de palavras, fenômeno esse que pode ocorrer nas mais diversas manifestações discursivas. (Cf. Canolla, op.cit.:53). É preciso deixar de lado o modo trivial de trabalhar com a metáfora como fenômeno lingüístico cujo estudo, em condições reais de interpretação, pode trazer insights significativos para a pesquisa sobre leitura de modo geral, desde que se leve em conta tanto sua estrutura, quanto seus contextos de ocorrência e suas funções. (Cf. Canolla, op.cit.:54). Com efeito, não há apenas um significado literal nem apenas um significado metafórico para um enunciado que contém metáfora, pois diferentes significados vão sendo estabilizados num processo dinâmico de interação, negociação e co-construção. (Cf. Canolla, op.cit.:56). Danon-Boileau (1987) apud Canolla propõe que na metáfora (e também na metonímia), há dois termos postos em relação. Um deles é o figurante (pertence ao enunciado) o outro, o figurado (poderia ocupar o lugar do primeiro no enunciado). (Cf. Canolla, op.cit.:57). Para Danon-Boileau (op.cit.) o figurado matriz é a matriz dos traços que representariam as restrições definidas pelo fragmento do enunciado que é completado pela metáfora, mas não corresponde a um figurado-palavra e não é possível reconstituir a relação que permitiu sua produção. (Cf. Canolla, op.cit.:59). O processo de compreensão da metáfora estabelece um programa de busca, mas é um programa contínuo, já que a palavra que se busca não é encontrada. Como conseqüência a metáfora não põe em jogo a referência, ela aponta para sentidos do tipo qualitativo, não constrói um indivíduo.Esta qualidade significada pelo figurante não é um conceito estável, é um projeto(Cf. Canolla, op.cit.:60). No entanto, se o enunciado metafórico não for significativo, não ficará retido na memória de curto prazo e o leitor pode, simplesmente não registrar o trecho, passando por ele sem se deter. Outrossim, a metáfora pode ser utilizada como um ponto de ancoragem da leitura para discussão do texto e, desse modo, possibilitará, mesmo aos leitores que não se detiveram no trecho, a oportunidade de refletir a respeito dele e de enriquecer sua compreensão do conjunto do texto. (Cf. Canolla, op.cit.: 26).

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Por conseguinte, a classificação de uma metáfora como nova ou convencional e mesmo o reconhecimento de um enunciado como metafórico não pode ser feito sem levar em consideração a situação de enunciação. (Cf. Canolla, op.cit.:61). Para tal, os teóricos do grupo u propuseram um procedimento empírico para a determinação do grau zero. E essa perspectiva do leitor é construída com base em seus conhecimentos em diferentes níveis: quanto ao código (vocabulário, gramática, sintaxe); quanto ao universo semântico geral (história, cultura, ciência); quanto ao universo semântico particular (outras obras do autor); quanto ao passado imediato da mensagem (classemas "iluminados", mas ainda não saturados por seu argumento). (Cf. Canolla, op.cit.:62). Por fim, o desvio metafórico é, de acordo com Kleiber, um delito de categorização, que é distintivo em relação a enunciados figurados diferentes, como a metonímia. (Cf. Canolla, op.cit.:64). Antes de abordarmos o gênero crônica, faz-se necessário apresentar alguns enfoques dados ao que Bakhtin denomina de gêneros discursivos. De acordo com Bakhtin, o gênero do discurso é “um tipo relativamente estável de enunciado”. A concepção de gênero postulada por Bakhtin contempla os aspectos concernentes à interação e às condições sócio-históricas de produção da linguagem. (Cf. Bonini, 2002: 14-15). Com efeito, Marcuschi (2001:219) postula a noção de que gênero textual é um fenômeno histórico, extremamente ligado à realidade social e cultural. Surge, por sua vez, junto com as necessidades e atividades sócio-culturais, além de estar presente na relação com o progresso tecnológico. A discussão em torno da noção de gênero, a partir da década de 1980, gerou conceitos importantes como os de seqüência textual de Adam (1987) e o de gênero textual de Swales (1990), que são relevantes instrumentos teóricos para se refletir a identidade textual sob o ponto de vista da cognição. (Cf. Bonini, op.cit.: 15-17). Em razão das diferentes terminologias utilizadas para definir gênero, neste trabalho, será empregada a noção de gênero textual apresentada por Marcuschi que percebe o texto como uma forma de linguagem estruturada sócio-historicamente ao se inserir num determinado ambiente social. 5. Caracterização do gênero crônica Se formos consultar a etimologia da palavra crônica, veremos que ela se origina de "Chronos", o Senhor do Tempo. O que é, de fato, bastante coerente se tomarmos o dia-a-dia como a ferramenta de trabalho dos cronistas. Talvez seja por essa relação com o tempo, com a atualidade, que as crônicas estejam tão associadas ao jornalismo, que, por sua vez (e não por acaso), vem de jour (dia). De acordo com Moisés (1987:245) o grego chronikós, relativo a tempo (chrónos), pelo latim chronica (m), o vocábulo “crônica” designava, no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo, isto é, em seqüência cronológica. Situada entre os anais e a História, limitava-se a registrar eventos sem aprofundar-lhes as causas ou tentar interpretá-los. Em tal acepção, a crônica atingiu o ápice depois do século XII. A partir da Renascença, o termo “crônica” cedeu a vez a “História”, finalizando, por conseguinte, o seu milenar sincretismo. Porém, o vocábulo ainda continuou a ser utilizado, no sentido histórico, ao longo do século XVI. Sob a perspectiva moderna, a partir do século XIX o vocábulo crônica, liberto de sua conotação historicista, começou a revestir sentido estritamente literário. Beneficiando-se da ampla difusão da imprensa, nessa época a crônica adere ao jornal. Surge em 1799 que o, mercê dos feuilletons dados à estampa por Julien-Louis Geoffroy no Journal de Débats, que se publicava em Paris. Fazendo uma crítica diária da atividade dramática, esse professor de Retórica cultivava uma forma ainda embrionária de crônica, evidente no fato de reunir os seus artigos em seis volumes, sob o título de Cours de Littérature Dramatique (1819 – 1820). No Brasil, encontrou numerosos imitadores, surgidos após 1836 que, a priori, traduziam o termo francês por “folhetim” e, a partir da metade do século passaram a utilizar o vocábulo crônica. Nomes como os de José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Raul Pompéia, Júlia Lopes de Almeida, João do Rio, Lima Barreto, entre outros, figuram na lista daqueles escritores que passaram a desenvolver o exercício da crônica cada vez mais preocupados em alcançar uma dimensão poética quanto ao registro jornalístico dos fatos que marcaram sua época. No entanto, a essa fase sucedeu a de esplendor na produção de crônicas, iniciada por João do Rio (entre 1900 e 1920) a nova etapa alcança difusão e aceitação com Rubem Braga, nos anos de 1930, e depois por escritores como Raquel de Queirós, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos e outros. Embora originada na França, a crônica assumiu um caráter sui generis entre nós. Hoje, para nós, a crônica é, na maioria dos casos, prosa poemática, humor lírico, fantasia etc., afastando-se do sentido de

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história, de documentário que lhe emprestam os franceses.(Cf. Moisés, op.cit.: 246). Por conseguinte, a crônica, se gaulesa na origem, aclimatou-se no Brasil, mais especificamente, no Rio de Janeiro. Tal naturalização não se concretizou sem profunda transformação que explica o entusiasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania brasileira da crônica, ao menos em relação à crônica tal como a conhecemos hoje que parece não haver igual em outras literaturas, salvo por influências de nossos escritores.(Cf. Moisés, op.cit.: 246). 6. Conceito e estrutura e características da crônica Dotada de uma ambigüidade ímpar, a crônica move-se entre ser no jornal e para o jornal, uma vez que se destina, inicialmente, a ser lida no jornal ou revista. Difere, porém da matéria substancialmente jornalística naquilo em que, apesar de fazer do cotidiano o seu húmus permanente, não visa à mera informação: o seu objetivo, confesso ou não, reside em transcender o dia-a-dia pela universalização de suas virtualidades latentes. “O cronista pretende-se não o repórter, mas o poeta ou o ficcionista do cotidiano, desentranhar do acontecimento sua porção imanente de fantasia”.(Moisés, op.cit.: 247). A crônica caminha, pois, entre a reportagem e a literatura, entre o relato impessoal, frio e descolorido de um acontecimento trivial, e a recriação do cotidiano por meio da fantasia. .(Cf. Moisés, op.cit.: 247). Brevidade é a primeira característica da crônica que, no geral, é um texto curto de meia coluna de jornal ou de página de revista. Por ser um texto publicado no jornal ou revista e ter a brevidade como característica fundamental, é a partir do fato de ser breve que se refletem as outras características.(Cf. Moisés, op.cit.: 255). Outra marca da crônica é a subjetividade. Nela, o foco narrativo situa-se invariavelmente na primeira pessoa do singular e a impessoalidade não só é desconhecida como rejeitada pelos cronistas: é sua perspectiva das coisas que lhes importa e ao leitor; a veracidade positiva dos acontecimentos dá lugar à veracidade emotiva com que os cronistas divisam o mundo.(Cf. Moisés, op.cit.: 255). Com efeito, ela faz com que o diálogo com o leitor seja seu processo natural e, por ser ao mesmo tempo voltado para o cotidiano e para a ressonância do “eu”, o cronista estabelece um diálogo virtual com seu interlocutor mudo, mas sem o qual, sua incursão se torna impossível. (Cf. Moisés, op.cit.: 256). Uma vez que a crônica nasce em volta de muito pouco ou quase nada, podemos dizer que é o estilo que a sustenta. Cronista sem estilo parece incongruência e é aqui que ele se distancia mais uma vez do repórter. Entendido estilo como a linguagem, o idioleto; estilo não como mero arranjo sintático, mas como instrumento de certa visão de mundo. (Cf. Moisés, op.cit.: 256-57). 7. A Leitura e seus aspectos cognitivos A definição de ato letrado proposta por Flower (1994: 18) apud Canolla é que o ato individual que não invoca meramente ou participa de uma prática letrada, mas engloba tais práticas e convenções dentro de um uso do letramento pessoalmente significativo e dirigido a um objetivo. (Cf. Canolla, op.cit.: 24). Por conseguinte, deve-se contemplar a polaridade cognitivo/social e cuidar para não focalizar apenas um dos pólos quando se faz pesquisa empírica, já que o indivíduo é inseparável da sociedade; a cognição não existe no vácuo; estratégias individuais são aprendidas na interação com pais, professores e colegas; não é possível isolar um processo social das mentes que o executam. (Cf. Canolla, op.cit.: 24). O texto literário não exige do leitor uma competência específica, mas exige a mobilização de diferentes competências do leitor para levá-lo a ativar conhecimentos de diversas fontes. Para que isso aconteça, é necessário que o texto que contém metáforas seja trabalhado em um evento de leitura que permita a manifestação dos leitores, abrindo, dessa maneira, espaço para a intersubjetividade. (Cf. Canolla, op.cit.: 23). A metáfora não escapa ao enquadramento no senso comum e, sob esse ponto de vista, tem, às vezes, a mesma função dos estereótipos. Para construir uma metáfora, é preciso, antes, assinalar o sistema categorial que deve ser ativado para produzir a ruptura em relação a esse sistema. (Cf. Canolla, op.cit.: 23). Para Dufays (1994: 213-214) apud Canolla, a leitura que merece mais que se lhe confira o rótulo "literária" é a que mobiliza ao máximo as competências e a latitudes axiológicas do leitor. Os clichês, as idéias recebidas, os diferentes esquemas que estão presentes parcial ou globalmente nos textos literários (que podem ser rotulados, de modo geral, como a manifestação do senso comum) ativam uma rede de conexões que permite ao leitor ampliar ou reduzir suas hipóteses interpretativas. (Cf. Canolla, op.cit.: 21-22). Com efeito, o processo de ler é complexo e conhecer esse processo se faz necessário para trabalhar com leitura. Corroborando com Kleiman (1989:13-14), pode-se verificar que o leitor proficiente lê

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rapidamente; o movimento dos olhos durante a leitura não é contínuo, mas sacádico; ele lê sem subvocalização; e, na leitura em voz alta, pode-se perceber uma distância entre a velocidade da voz e do olho, sendo este mais rápido. Os mecanismos observáveis do leitor proficiente, que é o que está se estudando nesse trabalho, são um reflexo de estratégias de ordem superior e são essas estratégias as que caracterizam um bom leitor. Por conseguinte, é importante ressaltar a distinção entre ler com o objetivo geral de compreender o texto e ler com objetivos específicos de busca de informação: no primeiro caso, a consecução do objetivo geral pode encontrar-se no nível inconsciente, porém, no segundo, a dos objetivos específicos, é sempre consciente e é uma das características que se apresentam no comportamento do leitor proficiente, pois deriva do controle planejado e deliberado das atividades que levam à compreensão textual. (Cf. Kato, 1995:74-77). São relevantes, portanto, para uma leitura madura, a capacidade de estabelecer metas bem definidas e de monitorar a compreensão textual. Diante disso, a complexidade inerente ao processo de leitura tem provocado o desenvolvimento de múltiplos modelos teóricos destinados à sua explicação como será a seguir. 8. Processamento textual Em 1983, van Dijk & Kintsch introduziram a noção de modelos mentais, ou seja, assume-se que, além da representação mental do texto, os usuários da língua constroem um modelo de situação sobre o qual o discurso versa. Diante disso, se os usuários da língua forem capazes de construir ou recuperar um modelo satisfatório de um discurso, pode-se concluir que eles entenderam o texto. (Cf. van Dijk, 2002:158160). As estruturas de modelos cognitivos, por sua vez, são definidas por van Dijk (op.cit.:168) “em termos de esquemas recursivos, hierárquicos, de categorias de situação que dominam seqüências de proposições que podem ser organizadas por macroproposições”. Ao conceber a linguagem como atividade interindividual, o processamento textual seja em termos de produção, seja de compreensão, deve ser visualidade também como uma atividade tanto de cunho lingüístico, quanto sociocognitivo. Nessa perspectiva, o texto é considerado uma manifestação verbal em que os parceiros da comunicação ativam diversos sistemas de conhecimentos que têm representados na memória, por meio de um conjunto de estratégias de processamento de cunho sociocognitivo e textual. (Cf. Koch, 2003:31) Durante o processamento de um texto é necessário acionar três diferentes tipos de memórias: a memória de curto prazo, com capacidade limitada; a memória de trabalho ou de médio prazo, que tem a função de manter informações num estado de ciência os conhecimentos pertinentes para a compreensão do texto em questão; por fim, a memória de longo prazo onde estão armazenados três grandes sistemas de conhecimento que são ativados no ato de leitura e que são chamados de conhecimentos prévios: o lingüístico, o enciclopédico e o interacional. (Cf. Kleiman, 2004:31-34). Deve-se ressaltar que esses conhecimentos, descritos por Maingueneau (2002:45) como competências, interagem para produzir a interpretação textual. O conhecimento lingüístico compreende o conhecimento gramatical e o lexical. Já o conhecimento enciclopédico, ou de mundo é o conhecimento que se encontra armazenado na memória de cada indivíduo, seja do tipo declarativo, seja do tipo episódico. Por sua vez, o conhecimento sociointeracional é aquele sobre as formas de inter-ação por meio da linguagem e abarca os conhecimentos dos tipos: ilocucional, comunicacional, metacomunicativo e superestrutural. (Cf. Koch, op.cit:32) Por meio do conhecimento ilocucional é possível perceber os objetivos ou propósito que um falante em determinada situação de interação, pretende atingir. É o conhecimento sobre tipos de atos de fala. (Cf. Koch, op.cit:32) Já o conhecimento comunicacional diz respeito às normas comunicativas gerais. É o que van Dijk (op.cit.:80-84) denomina de modelos cognitivos de contexto. Por outro lado, o conhecimento metacomunicativo abarca os vários “tipos de ações lingüísticas que permitem assegurar ao leitor a compreensão do texto e conseguir a aceitação, pelo parceiro, dos objetivos com que é produzido, monitorando com elas o fluxo verbal”. (Koch, op.cit.:33) O conhecimento superestrutural global permite reconhecer textos como exemplares de determinado gênero ou tipo. Ele abrange os conhecimentos sobre as macrocategorias ou unidades globais que distinguem os vários tipos de textos. (Cf. Koch, op.cit.:33) É fundamental que o leitor tenha um conjunto de conhecimentos prévios, sem os quais o leitor não poderia inferir o implícito no texto e este seria então ilegível. Entre os tipos de fontes de conhecimento que devem ser ativados durante o processo de leitura, distingue os seguintes: conhecimento lingüístico,

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elementos de coesão; conhecimento textual, estrutura de texto; conhecimento de mundo ou enciclopédico. (Cf. Canolla, op.cit.: 28-29). Com efeito, a ativação dos conhecimentos prévios do leitor é fundamental, visto que, é o conhecimento que ele tem sobre o assunto que lhe permite fazer as inferências necessárias para a compreensão do texto. (Cf. Kleiman, 2002:25) Em vista disso, um fator importante durante o processo de leitura é a formulação de hipóteses, que será determinada, de certa forma, pelos objetivos estabelecidos pelo leitor e por suas expectativas em relação ao texto. Quando o leitor formula hipóteses, está fazendo previsões que podem ser confirmadas, reformuladas ou rejeitadas posteriormente. (Cf. Canolla, op.cit.: 30). Para Eco (1990/1992) apud Canolla (op.cit.: 48), todo texto possui uma organização interna que permite validar ou rejeitar hipóteses interpretativas. Saliente-se que as hipóteses do leitor permitem que certos aspectos do processamento, fundamentais à compreensão, se tornem possíveis, a saber: o reconhecimento global e instantâneo de palavras e frases relacionadas ao tópico, bem como inferências sobre palavras não percebidas durante a leitura. Ao pensar em leitura, é preciso pensar em termos de que texto será lido, por quem, sob que condições, com base em que teoria da interpretação e com que objetivos, ou seja, o evento de leitura deve ser observado com as restrições que impõe aos leitores envolvidos na atividade de construir e reconstruir sentidos plausíveis para um determinado texto. (Cf. Canolla, op.cit.: 49). Conseqüentemente, a questão dos limites para a interpretação de textos e da plausibilidade dos sentidos construídos na leitura não pode ser fechada de modo absoluto, pois muitas são as variantes a serem consideradas. É possível estabelecer alguns parâmetros e definir algumas fronteiras, mas o mais importante é não limitar excessivamente a atividade dos leitores, principalmente quando se trata da leitura de textos que contém metáforas, material puramente rico para leituras plurais. (Cf. Canolla, op.cit.: 49). 9. Considerações finais Uma vez que o objetivo dessa pesquisa será construir, pelo leitor proficiente, o sentido de metáforas lingüísticas que refletem, na linguagem, metáforas como processos cognitivos durante o ato de leitura dos textos propostos, este artigo contribuiu para o levantamento de três questões centrais que serão abordadas na próxima fase na minha dissertação, que abrangerá as entrevistas com os sujeitos da pesquisa e análise do corpus coletado. Portanto, a primeira questão é levantar quais conhecimentos são ativados pelo leitor proficiente durante a leitura de metáforas. Já a segunda será determinar qual a relação que se estabelece entre o texto e o leitor durante o ato de leitura, por meio da metáfora cognitiva. E, finalmente, verificar por meio da linguagem de humor contida nas crônicas de José Simão, em que medida o leitor proficiente constrói perspectivas críticas a respeito do tema abordado, no caso, a guerra no Iraque. Referências bibliográficas BRAIT, B. (org). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: UNICAMP, 2001. BONINI, Adair. Gêneros textuais e cognição. Florianópolis: Insular, 2002. CANDIDO, Antônio. A vida ao rés do chão. CANDIDO, Antônio (org.). A crônica: O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: UNICAMP, 1992. CANOLLA, Clemira. A trama dos sentidos: uma abordagem sócio-cognitiva da leitura de metáforas poéticas. São Paulo: PUCSP, 2001. DIJK, Teun Adrianus van. Cognição, discurso e interação. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2002. Kleiman, Ângela. Texto e leitor: Aspectos cognitivos da leitura. 8. ed. Campinas: Pontes, 2002. ______________Leitura: Ensino e pesquisa. Campinas: Pontes, 1989. ______________Oficina de leitura: Teoria e prática. 10. ed. Campinas: Pontes, 2004. KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 2003. LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. Metáforas da Vida Cotidiana (Coordenação da tradução: Mara Sophia Zanotto). Campinas: Mercado das Letras. São Paulo: EDUC. PUCSP, 2002. MARCUSCHI, Luiz Antonio. Da fala para a escrita. –atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001. MOISÉS, Massaud. A criação literária – prosa. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1987. NARDI, Maria Isabel Asperti. As expressões metafóricas na compreensão de texto escrito em língua estrangeira. São Paulo: PUCSP, 1993.

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PALMA, Dieli Vesaro. A leitura do poético e as figuras de pensamento de oposição: caminhos e descaminhos de paradigmas na modernidade. São Paulo: PUCSP, 1998. SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. 6. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

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