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9- O Pitagorismo.pdf

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TERCEIRA SEÇÃO O PITAGORISMO “... pa0’t ‘ot oqoí cz oi ccA v Kc4 5 Ç K dV ‘t KOLV(OV(aV O1YV jçcCi (pt?

K Ko cA YÚXppom i’za1 SLcL X tb ÔXOV toflto &à tcx Kóø KuXo Os sábios dizem... que céu, terra, Deuses e homens são mantidos juntos pela ordem, pela sabedoria e pela retidão: e é por esta razão que eles chamam tudo isso de ‘cosmo’...” P1at Górgias, 507e-508a. 1. POR QUE FALAMOS DE PrFAGÓRICOS EM GERAL E NÃO DE PITAGÓRICOS INDIVIDUAIS — CARACTERÍSTICAS DA ESCOLA PITAGÓ1UCA Com os pitagóricos passamos da Jônia à Itália meridional. E, aqui, a filosofia cria uma nova têmpera, aperfeiçoa-se, afina-se, e chega a tocar os limites extremos do horizonte da physis aberto pelos jônicos. Esta operação de afinamento — veremos — será conduzida, além dos pitagóricos, pelos eleatas; mas, certamente, os pitagóricos tiveram o mérito de criar por primeiro a nova têmpera, da qual se beneficiaram os próprios eleatas (antigas fontes referem-nos que Parmênides, fundador do eleatismo, foi introduzido à filosofia por um pitagórico) Mas, em primeiro lugar, devemos explicar por que falamos de pitagóricos em geral e não de pitagóricos individuais. a) Não nos é possível distinguir Pitágoras dos pitagóricos, isto é, o mestre dos discípulos, porque Pitágoras não escreveu nada e dele pouquíssimo é atestado com precisão, e o muito que as tardias Vidas de Pitágoras nos dizem é fruto de fantasia: pouco tempo depois da sua morte (e talvez já nos últimos anos da sua vida) Pitágoras perdera, na representação dos discípulos, as características humanas, e era conside rado e venerado como um nume 1. Cf. Diógenes Laércio, IX, 21 (= Diels-Kranz, 28 A 1). 2. Afirma-se concordemente que Pitágoras nasceu em Samos. Com base nos tes temunhos que possuímos, parece que se deve situar o apogeu da sua vida em tomo a 532/531 a.C., e a sua morte nos primeiros anos do século V. Das tardias Vidas de Pitágoras não é possível extrair quase nada de historicamente seguro. Parece que de Samos Pitágoras passou à Itália, onde, na cidade de Crotona, fundou uma Escola, que logo alcançou grande sucesso, dado que, como amplamente veremos, a mensagem pitagórica continha uma nova visão da vida de tipo místico e ascético. Parece que a j Escola adquiriu bem cedo também um notável poder político, o que deve ter provocado 4 uma violenta revolta da oposição, que, ao que parece, assaltou o edifício no qual a Escola tinha sede e matou à traição quase todos os mais importantes membros do

i O primeiro dos pitagóricos a ter obras publicadas foi Filolau que viveu no tempo de Sócrates. III. de fato. Timpanaro Cardini). 199): “E admirável também o rigor do segredo. Que tenha sido o primeiro pitagórico a tornar pública a doutrina através de um escrito parece indubitável. 38 ( Diels-Kranz. o meio. Pitágoras teria sido salvo miraculosamente e fugido para Locri. Todos os critérios até agora propostos demonstraram-se arbitrários ou. 1. Os Três livros e os Versos áureos. a doutrina já tinha cer tamente evoluído. diferentemente das doutrinas das outras escolas. falsificações que se situam no final da era antiga ou nos primeiros séculos da era cristã: é. pesquisando e indagando juntos. como conse qüência necessária. de onde ter -se-ia depois transferido para Tarento e depois para Metaponto. divulgou aqueles célebres três livros. onde a morte o teria colhido. 44 A 2) o põe em relação com Demócrito. que se diz terem sido comprados por cem minas por Díon de Siracusa. c) As doutrinas da escola. não tinha como principal escopo a pesquisa científica. Diógenes Laércio. vindo à Itália. multo cedo. ademais. 44 A 8) nos ao . Faz ensinamento oral. Zeller-Mondolfu. 14 A 17. melhor. 44 A la). 3. A veneração que OS discípulos tiveram por Pitágoras levou à parte do acervo do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. 76 OS PROBLEMAS DA PH}’SIS. pelo menos. atitude que impediu a divulga ção e o conhecimento das mesmas. mas é muito difícil estabelecer o que pertence ao primeiro pitagorismo e o que pertence ao segundo. Nessa época. como veremos melhor adiante. (Para os documentos e fontes relativas á vida de Pitágoras e à filosofia pitagórica cf. (A Ordem teve. antes.Diels-Kranz. E também Diógenes Laércio. depois. ela era um bem comum. 2 e as atualizações de Mondolfo. 61 e ( Diels-Kranz. Que Filolau fosse contemporâneo de Sócrates se depreende claramente do Fédon. que. parece que ninguém encontrou um escrito dos pitagóricos antes de Filolau. com relação ao qual a pesquisa científica não era o fim. or ganizada segundo regras bem precisas de convivência. A escola pitagórica nasceu como confraria ou.). um bem ao qual todos os adeptos aspiravam e que todos buscavam incrementar. atribuídos a Pitágoras. 288ss.sodalício. tradução de M. puracriação de tantas e tamanhas lendas sobre ele. E foi esse caráter de bem comum da ciência que comportou. ci pp. Este por primeiro. não há nenhuma prova sólida. ao invés. 9 (. o anonimato das contribuições individuais. provável que o filósofo se tenha limitado Este belo busto representa Pitágoras e provém da Villa dci Papiri de Herculano. os Contornos históricos da sua figura se dissolveram.. Das numerosas viagens ao Oriente e ao Ocidente que a tradição atribui a Pitágoras. a pedido de Platão [ ( Diels-Kranz. quase certamente. mas a realização de determinado tipo de vida. como seita ou ordem religiosa.) E dado que a ciência era meio para alcançar o fim. são. eram consideradas um segredo do qual deviam participar só os adeptos. IX. encontrando-se em grande e dura pobreza. DO SER E DO COSMO CARACTERISTICAS DA ESCOLA PITAGÓRICA 77 b) A escola que Pitágoras fundou. no curso de tantos anos. influências também políticas e envolveu-se em turbulentos acon tecimentos. Diz-nos Jâmblico (Vida de Pitágoras. mas.

é um termo técnico. Aristóteles capta esta característica. Timpanaro Cardini). 5. do final do século VI ao princípio do IV. Florença 1962. como muito bem explicou Timpanaro Cardini Aristóteles destaca particularmente a expressão os assim chamados “ . lI. é questão secundária. em equipe. DO SER E DO COSMO suas visões pessoais. o seu nome é um programa. 985 b 23 ( Diels 58 B 4). Política e Física). é igualmente verdade que os pressupostos e os fundamentos sobre os quais ela trabalhou foram substancialmente homogêneos e. mente conjeturaiS Portanto. denominando-os com a célebre fórmula “os assim chamados pitagóricos” Fórmula que. por cem minas”(tradução de M. fossem três livros ou um livro dividido em três partes (Etica. Mezafi’sica. ela pôde enriquecer muito o próprio patrimônio. E este seu desen volvimento ulterior será tratado à parte). J) Já Aristóteles nada sabe sobre Pitágoras e quase nada sobre os pitagóricos individuais e trata-Os globalmente. certa visão da realidade sobre a qual concordam homens e mulheres de pátria e condições diferentes. Que. entre eles também Sátiro. depois. M. mas sem particulares ligações de escola. [ infra nota 6]. O leitor poderá constatar pessoalmente. S4ss. Florença 1964). mas neces sária uma consideração global. florença 1958. para usar um termo moderno. Pitagorici. Cf. é claríssima no seu significado. mas indiferenciado quanto aos indivíduos que o compõem? Exatamente assim se chamam. Aristóteles. Timpanaro Cardini traduziu e comentou todos os testemunhos e fragmentos dos pitagóricos para a coleção bilíngüe “Biblioteca di Studi Superiori” de La Nuova Italia Editrice (Pitagorici. 78 OS PROBLEMAS DA PHYSIS. . uma sigla. os funda mentos sobre os quais trabalhará o pitagorismo quando ressurgir no início da era cristã. Philos. portanto. 6. § XXXVIIss. Florença 1962. Timpanaro Cardini. embo ra tendo sido objeto de diferentes interpretações. sente que. ao invés. II. não só é correta. 1. ao invés.refere: “Dizem alguns. constituem um fenômeno novo: estudam e trabalham. enfim. cada um com as 4. quanto de aleatório existe na tentativa de Burnet. cada um representava a si mesmo. Sobre o problema cf. na qual o leitor encontrará excelente instrumento para orien tar-se na selva de problemas suscitados pelo pensamento pitagórico. vol.. Uma das mais célebres tentativas de distinguir o antigo pitagorismo do mais recente é a de Bumet. que [ encarregou a Díon na Sicília de comprar-lhe três livros de doutrinas pitagóricas de Filolau. Early Gr. e LXXXVIIIss. e justamente. testimonianze e framnienii. Testirnonianze e frammcnti. a escola pitagórica deve ser vista como um todo. e) Se é verdade que. Os pitagóricos. lendo diretamente os parágrafos indicados. tinham certamente discípulos e seguidores. de “neopitagorismo”. 111. e agora aparece esse grupo. mas essa nova fase muda também de nome: costu ma-se chamá-la. com um nome de grupo. M. introduzindo os pitagóricos no discurso. pp.1 porque encontra-se diante de um fato singular: dos outros filósofos antes nomea dos. (Diferentes serão. exatamente por estas razões. indicando determinada orientação mental. deve em certo sentido prevenir certa admiração de quem ouve ou lê: como! até agora foram apresentadas figuras bem-individuadas de filósofos. A 5.

nutridos por elas. 1. Pitagorici. enfim. 111. Timpanaro Cardiní. da fé. e. o pitagorismo e as doutrinas que ele elaborou entre o final do século VI e o início do século IV a. porque todas as outras coisas. e ademais.986 a 3 ( Diels-Kranz. tal é a denomi nação oficial que eles têm como Escola. posto que viam que as notas e os acordes musicais consistiam em números. 1 2s. Eis a célebre passa gem aristotélica: Os pitagóricos por primeiro aplicaram-se às matemáticas e fizeram-nas progredir. na terra e na água. muitas semelhanças com as coisas que são e se geram E. 58 B 4). ao ar e ao fogo. mudando radical. representa a unidade e a continuidade da sua doutrina” Em conclusão. para os pitagóricos. e que todo o universo fosse harmonia e número’. DO SER E DO COSMO NOVA CONCEPÇÃO DO PRINCÍPIO 81 traduzíveis por relações numéricas e representáveis de modo matemá tico. 985 b 23 .. Assim. pareciam-lhes ter sido feitas à imagem dos números e que os números fossem o que é primeiro em toda a realidade. os primeiros princípios e justamente nos números eles afirmavam ver. Em primeiro lugar. pois a precedência hierárquica é. os pitagóricos. A passagem aristotélica nos diz muito claramente as razões que levaram os pitagóricos a ver no número o princípio. ao contrário. ao ápeiron. princípio de todas as coisas Já mencionamos o fato de que. A 5. E. pp. mais que no fogo. e.. os pitagóricos notaram como a música (que cultivavam como meio de purificação) . acreditaram que os princípios delas fossem os princípios de todos os seres.C.mente a perspectiva dos jônicos. Os pitagóricos foram os primeiros cultores sistemáticos das matemáticas. 80 OS PROBLEMAS DA J’HYSIS. por sua natureza. e compromete a possibilidade de compreender esse movimento espiritual nas suas mais íntimas motivações. O número. isso não deve induzir o leitor ao erro de crer que o primeiro lugar dado à ciência reflita a sua precedência hie rárquica com relação à fé. vale dizer. e como tal foram os primeiros a notar que toda uma série de realidades e fenômenos naturais são II. em toda a realidade. e que. posto que nas matemáticas os números são. no curso do tempo. a ciência foi. atribuíram ao número e aos elementos constitutivos do número. devem ser vistos na sua unidade de conjunto: quem rompe essa unidade rompe também o espírito que a criou. Metafísica. Do ponto de vista da ciência. pensaram que os ele mentos do número fossem elementos de todas as coisas. um meio que os levava a realizar um novo tipo de vida. 1. com nítida mudança de perspectiva. se por razões metodológicas exigidas pela exposição dos problemas que estamos desenvolvendo. falaremos primeiro da ciência e depois da fé dos pitagóricos. mais que um fim. Aristóteles estabelecera claramente que o princípio que os jônicos atribuíram à água.]. o espírito que fez do pitagorismo uma escola diferente de todas as demais. NOVA CONCEPÇÃO DO PRINCÍPIO 7.assegura Aristóteles. Aristóteles.

1. pp. como tal. ao contrário. eles descobriram as relações harmônicas de oitava. Perguntar se o número pitagórico é o princípio material ou o prin cípio formal das coisas. a diversidade dos sons de um instrumento de cordas depende da diferença do comprimento das cordas. sobre um espírito sensível a estas coisas. é fruto de abstração. que beiravam o fantás tico Em todo caso. significa introduzir categorias posteriores (matéria e forma) e. I65ss. em geral. como formal e eficiente). são precisas leis numéricas que regulam os tempos de incubação do feto. isto é. em geral. 986 b 4ss. mas especifica. é um ente de razão. os dias etc. para a ilustração deste ponto. Os elementos do número: a oposição fundamental e a harmonia A passagem aristotélica que lemos acima não diz só que os núme ros em geral são o princípio das coisas.. Meta/ísiea. o número é uma coisa real. os ciclos do desenvolvimento e os diferentes fenômenos da vida. Mas o leitor moderno muito dificilmente poderia compreender o sentido dessa afirmação dos pitagóricos. princípio integral (usando categorias posteriores deveremos dizer que é tanto 2. o número é fruto das operações da nossa mente. de quinta e de quarta e as leis matemáticas que as governam. que. portanto. E com preende-se que. os pitagóncos fossem em seguida levados a construir também correspondências inexistentes e. O que significa que os números enquanto . a mais real das coisas. então poderemos compreender que o número tenha sido venerado como causa de toda ordem e de toda determinação. Ver. caíssem em arbitrários e estéreis jogos de identificação de vários aspectos da realidade com o número. mas se refletimos sobre que impessão devia causar a primeira descoberta de uma regularidade matemática profunda e invariável nos fenômenos. e que. uma vez descobertas essas correspondências entre os fenômenos de diferentes gêneros e os números. como fundamento de todo conhecimen to. pode ser princípio constitutivo das demais.era traduzível por número e por determinações numéricas. para o antigo modo de pensar (e tal modo de pensar só será corrigido por Aristóteles). falsear a ainda arcaica perspectiva dos pitagóricos. Aristóteles. o nosso comentário à Metqftsjca aristotélica. 3. mas no das intuições sensíveis” 2. ele tenha sido hipostasiado na função de substância de todas as coisas. é bem claro o processo através do qual eles che garam a pôr o número como o princípio de todas as coisas. vo!. Por isso diz corretamente Zelier: “Este modo de conceber causa-nos uma impressão bastante es tranha. neste caminho. como potência divina dominadora do mundo. que “os elementos dos números são os elementos de todas as coisas”. e. E ao estudar os diferentes fenômenos do cosmo. a diversidade dos sons que produzem os martelos ao bater sobre a bigorna depende da diferença do seu peso. Para nós. muitos modernos com ele. mais particular. inevitavelmente. portanto. A 5. se não se desfizesse da própria mentalidade e não tentasse recuperar o sentido originário e a represen tação arcaica do número. como fez por primeiro Aristóteles e. e. antes. A verdade é que o número é princípio das coisas assim como o foram a água de Tales ou o ar de Anaxímenes. por um pensamento que. também neste âmbito notaram a incidência determinante do número: são precisas leis numéricas que determinam o ano. depois.mente. as estações. era habituado a mover-se não tanto no terreno dos conceitos abstratos. princípio material.

p. “não por isso permanece estranho — observa bem Timpanaro Cardini — ao ãltELpov (isto é. ao mesmo tempo. Diz Filolau: O número tem duas espécies peculiares. o número. Há muitas formas de pares e de ímpares e cada coisa intrinsecamente o revela 4. que as coisas que são não podem ser constituídas nem só de elementos limitantes nem só de elementos ilimitados. E posto que. enquanto acrescentando-o a um ímpar gera-se o par. resul tante dessas duas misturadas. pares e ímpa res (sendo que o um é exceção. por uma “amarração” do ilimitado ou indeterminado nos confins do limite e da determinação. 1. como sabemos. 2. Que são esses elementos ou princípios? Os números são todos agrupáveis em duas espécies. mesmo atuando como elemento limitante. cada coisa é redutível a um número. 5. por sua vez. de modo que os elementos últimos dos quais resultam os números são o ihmitado e o limitante. Filolau (exprimindo ou levando a cabo uma concepção que já devia ser própria do primeiro pitagorismo. justamente. determinando-o progressivamente dentro dos esquemas das suas relações aritmético-geométricas” . ao ilimitado). o ímpar e o par: terceira. ele atua como princípio determinante e. 82 OS PROBLEMAS DA PHYSIS. limitante. esse acordo de elementos ilimitados e de elementos limitantes é. em certo sentido. antes. 44 B 5. Mas. DO SER E DO COSMO NOVA CONCEPÇÃO DO PRINCÍPIO 83 Mas o par e o ímpar não são ainda os elementos últimos. o número constitui cada uma das coisas que são. portanto. cada uma é expressão de números pares ou ímpares. é evidente que o universo e as coisas que nele existem são cons tituídas pelo acordo de elementos limitantes e elementos ilimitados Ora. Não poderiam existir coisas só ilimita das ou só limitantes. alimenta-se de ditcipov. mas eles mesmos derivam de ulteriores elementos ou princí pios. Disso fica daro. note-se: justamente enquanto o número é gerado por elemen tos indeterminados e por elementos determinantes. o que demonstra que ele traz em si a capacidade geradora tanto de pares como de ímpares e por isso participa de ambas as naturezas). senão do próprio Pitágoras) fala-nos expressamente do ilimitado (ou indeterminado ou infinito) e do limite ou limitante (ou determinante) como princípios supremos de to das as coisas: Todas as coisas são necessariamente ou limitantes ou ilimitadas ou. ZelIer-Mondolfo. portanto. é o parímpar.tais não são o primum absoluto. 443. é claro que ele. limitantes e ilimitadas. ou seja. enquanto capaz de gerar tanto o par como o ímpar: acrescentando o um a um número par gera-se o ímpar. Diels-Kranz. E porque.

Diz um antigo testemunho: ::: —. em cada número ímpar a divisibilidade encontra o ponto de parada na unidade que. resta um campo vazio sem determinação e sem número. i 9 (cf. Estobeu. Quando o número ímpar é dividido em duas partes permanece uma uni dade no meio. justamente. II. mas uma síntese tal que vê no seu próprio interior e. que era próprio dos pitagóricos. 200. Diels-Kranz. como tal. E essa identificação par = ilimitado e ímpar = limitado explica-se bem quando nos referimos ao modo primitivo de representar o número como conjunto de pontos geometricamente dispostos. vê-se como o processo de divisão. como mostra a figura. exa tamente como os correspectivos de indeterminado e determinante. demonstrando que é defeituoso e in completo Concluindo: o ilimitado e o limitante são os princípios primeiros. Timpanaro Cardini. preci samente. por sua vez. neles têm origem os números. 7. toma ímpar o número. a predominância do e’emento ilimitado e. 44 B 2. isso não constituía difi 8. DO SER E DO COSMO NOVA CONCEPÇÃO DO PRINCIPIO 85 :: ::. vissem nos números pares uma espécie de florescimento do elemento indeterminado. e nos números ímpares uma espécie de florescência do elemento deiterminado e deter minante. . no interior do número. Anihol. Pitagoríci. 1. —4. mas quando é dividido em duas partes o par. Como síntese. portanto. todavia. Passagem do número às coisas No que conceme ao problema da derivação das coisas dos núme ros. também Plutarco. e considerassem pares e ímpares. •— etc. na série dos ímpares. pode ser. Ora. 388 a-b). os quais são a síntese de um e de outro elemento. ao infinito: :: etc. é preciso dizer que. Ao contrário. 6. a predominância do elemento limitante. para os pitagóricos. p.Por isso não é de admirar que os pitagóricos. p. com base nalgumas observações que abaixo esclareceremos. simbolizado pela flecha. 84 OS PROBLEMAS DA PHYSIS. De E apud Delphos. na série dos pares. elemento delimitante e determinante das coisas. se representamos deste modo qualquer número par. 3. 22. não encontra de algum modo um limite. o número representa sempre uma “amarração” do ili mitado no limite e..

artitmético. 10. portanto era visto. E. o quatro o sólido. Fundação do conceito de “cosmo”: o universo é “ordem” Se temos presente as observações feitas. seguramente dos primeiros pitagóricos. 270ss. como figura. às coisas. Portanto. que os pitagóricos. é um universo constituído pelo número. ao mesmo tempo aritmética e geométrica. ou desenhado como conjunto de pontos. como justamente disse um ilustre historiador da ciência antiga O número era representado como um conjunto de pedrinhas. neste momento. o dois a linha. pode-se esclarecer também a tentativa (que parece ser de Filolau) de assimilar os quatro elementos aos sólidos geométricos: a terra ao cubo.culdade. A. vale dizer. sem abandonar essas bases. a água ao icosaedro (a solidez do cubo recorda analogicamente a da terra. mas também nas suas partes individuais e em cada uma das coisas nele contidas. sempre sobre estas bases. era totalmente natural. 213 b 22ss. De resto. e representavam-se o universo como brotando de uma espécie de “inspiração” desse vazio por parte de um uno (formado não se sabe como).. ao invés. ou seja.geométrica. La jeunesse d la science grecque. e porque os pontos eram concebidos como ocupando espaço. (Diels-Kranz. Eles concebiam o ilimitado como vazio circundando tudo. 58 B 30). § XLVIIss. Aristóteles. que vimos constituir o pensamento fundamental do pitagorismo.. compreende-se perfeita mente. concepção fortemente arcaica. um “cosmo”. o número era visto também como figura sólida. são postos no mesmo plano: os pitagóricos posteriores estabelecerão o sistema. o fogo à pirâmide. E assim fica claro que esse universo devia se tornar. Rey. Philos. o três a superfície. já desde as origens. é claro que isso só pode ser compreendido com base nas premissas que elucidamos. (Concepção fortemente influenciada pelo pensamento de Anaximandro e de Anaxímenes. 4. Física. tão logo se traga à mente o seguinte: a antítese de ilimitado e limitante. Constitui. Assim fica claro o modo como se dá a passagem dos elementos primigênios ao número (aritmético-geometricamente entendido) e do número a todas as coisas. a passagem do número às figuras. pensassem os números como espacialmente extensos fica comprovado. pp.) Números e coisas são. era concebido como causa da distinção das coisas e dos próprios números’°. com o número e segundo o número. Esse ilimitado vazio. forma piramidal as línguas de fogo. analogamente. para os pita góricos. inspirado no uno. pensados como espacialmente determinados. para aquele modo primitivo de pensar os números. é um universo inteiramente dominado pelo número. A 6. ao mesmo tempo. que o universo dos pitagóricos devia adquirir um novo sentido com relação ao dos milesianos. como massas. uma grande dificuldade para os intérpretes que não saibam remeter-se à concepção propriamente pitagórica do número. É um universo no qual os elementos contrastantes são pacificados em harmonia. . o ar ao octaedro. E quando os pitagóricos disserem que o um é o ponto. E não só na sua totalidade. etc. como já dissemos. Paris 1933. também Burnet. Early Gr. que é. que significa “ordem”. cf. e a analogia podia muito bem autorizar a dedução no âmbito daquela perspectiva)”. Cf. procede. portanto. a 9. seja embora na forma mais rude.. senão do próprio Pitágoras.

é hostil e inimiga da mentira. doutrina segundo a qual a alma é constrangida a reencarnar-se muitas vezes em sucessivas existências corpóreas. Platão. O HOMEM. não a distinguimos mais. pela sabedoria e pela retidão: e é por esta razão [ que eles chamam esse todo de cosmo [ seja. do irracional. Cf. Se temos presente tudo isso: que todo o universo é harmonia e número e que a própria música é harmonia e número. Afir ma Filolau: Todas as coisas conhecidas possuem número. produzissem belíssimos concertos. não parecerá admirável que os pitagóricos pensassem que os céus.. não seria possível pensar nada. pp. o homem ganhou novos olhos para ver o seu mundo. mas como meio para um fim ulterior: é este fim que devemos agora explicar. A FÉ PITAGÓfflCA. 12. DO SER E DO COSMO A natureza do número não acolhe em si nenhuma mentira. III. domínio do número significa domínio da racionalidade e da verdade. para expiar uma culpa originária cometida. que é Xenófanes’ (quase contemporâneo de Pitágoras). que a ciência pitagórica não era cultivada como fim. a falsidade não tem nada em comum com eles. cognoscibilidade e permeabilidade ao pensamento. nem a harmo nia. tomou-se transparente ao espírito. 44 B 4. ou (como pensavam outros pitagóricos) por que os nossos ouvidos são inadequados para percebê-la.Os sábios dizem E.] que céu. A ordem diz número e número diz racionalidade. portanto. justamente. ou (como pensavam alguns pitagóricos) porque. campo de misteriosas e indecifráveis potências e tornou-se. até as mais recentes . o qual zombava dessa crença. A men tira nunca se insinua no número. Diels-Kranz.. 86 OS PROBLEMAS DA PHYSIS. uma celeste música de esferas: música que nós não ouvimos. Pitágoras foi certamente o primeiro filósofo a ensinar a doutrina da metempsicose. cuja natureza. Pitagorici. Do Caos hesiodiano passamos ao Cosmo: graças aos pitagóricos. mas também em diversas formas de animais. Timpanaro Cardini. O lógos cumpriu então um dos seus passos decisivos: o mundo deixou de ser domínio de forças obscuras. habituados a ouvi-la desde o nascimento. terra. como tal. 97ss. do ininteligível. e neste sentido se manterá como definitivamen te adquirido pelo pensamento ocidental. de fato. Deuses e homens são rnantidos juntos pela ordem. girando segundo o número e a harmonia. A SUA ALMA E O SEU DESTINO Dissemos. é termo que eles pela primeira vez usaram neste sentido específico.508 a. 507 e . enquanto a verdade é própria e conatural à espécie do número’ Portanto. Sobre este ponto concordam as nossas fontes. “a ordem” e. da mais antiga. não só em forma de homem. ordem]’ “Cosmo”. Górgias. Mentira e inadequação são próprias da natureza do indeterminado. nem conhecer’ II. nas páginas precedentes. II. sem este. 13.

que o próprio Pitágoras tenha sido o inventor de tal doutrina. Portanto. Cf. ou seja. o mais eficaz instrumento de purifica ção . 14. concordam em afirmar que Pitágoras a extraiu do orfismo. hoje. explica-se bem. Diels-Kranz. Apoio. mas a vida pitagórica diferenciou-se nitidamente da vida órfica. A natureza da alma é divina e. Von Wilamowitz Müllendorf. Darmstadt 1959’. 3. DO SER E DO COSMO A FÉ PITAGÓRICA 89 O homem deve viver não em função do corpo. daí a mudança do nume tutelar: em vez de Dionisio. U. atribuíam sobre tudo à ciência a via de purificação. Os pitagóricos. diferenciam-se em seguida nitida mente na escolha dos instrumentos e dos modos com os quais acreditam obter a purificação da alma. eterna. permaneciam ligados à mentalidade mágica. Cf. é uma punição de uma obscura culpa originária por ela cometida e é. a união da alma com um corpo. e. 14 A 1. a vida do homem deve ser entendida em bases totalmente novas com relação às que. Mas se orfismo e pitagorismo coincidem em remeter o sentido da vida a um ultraterreno fim escatológico e em atribuir às “purificações” o meio para libertar a alma do ciclo das reencarnações e levá-la a unir-se com o divino ao qual pertence. Os órficos sustentavam que os meios de purificação eram as celebrações e as práticas religiosas dos sagrados mistérios (que deviam elevar a alma gradativamente até sentir Deus em si e fazerse extaticamente uma com ele). como veremos. a alma é imortal. preexiste ao corpo e continua a subsistir depois do corpo. seguramente anterior. 1. A sua união com um corpo não só não é conforme à sua natureza. E viver em função da alma significa viver uma vida que seja capaz de “purificá-la”. uma vez que o pitagorismo reformará o orfismo nalguns pontos essenciais. portanto. pp. a grecidade assumiu como certas. A 8a. mas em função da alma. Nas prescrições pitagóricas que regulavam a vida cotidiana. isso. desatá-la dos laços que. portanto. 185ss. para quem a orgia entusiástica é sagrada. E se os órficos honravam Dionisio e os pitagóricos. ao mesmo tempo. como acreditou Wilamowitz é totalmente inverossímil: todos os estu diosos. ao invés. ditadas por superstições ou. portanto. Der Glaube der He//enen. como se disse. expiação de tal culpa. por culpa própria. ela contraiu com o corpo. II. que se tornou o mais ele vado dos “mistérios” e.Ora. justamente pelo culto à ciência. enquanto a natureza de todo corpo é mortal e cor ruptível. Por conseqüência. confiando-se quase inteiramente ao taumatúrgico poder dos ritos. 2. Diels-Kranz. 44 B II 88 OS PROBLEMAS DA PÍIVSIS. 21 B 7. vol. lugar no qual a ela paga sua culpa originária. Apoio. em todo caso. a quem são sagradas a razão e a ciência. de Homero em diante. exatamente naqueles que tomarão possível a sua conjunção com a filosofia e. Diels-Kianz. totalmente estranhas à ciência. que é “cárcere” e “prisão” da alma. mas é até mesmo contrária. permaneceram (e isso é natural) numerosas regras empíricas.

1. pp. sobretudo. Cf. e para dar um caráter hierático ao mesmo. O misticismo pitagórico . 1. Muitos estudio sos. pp. 404ss. Ver as indicações de Mondolfo em Zelier-Mondolfo. por maior consenso que esta tese tenha encontrado no passado. devia ser como a passagem à teoria dos números e ao sistema aritmético-geométrico dos pitagóricos. 645ss.Assim os pitagóricos realizaram um tipo de vida que para a grecidade era totalmente novo e respondia a exigências que as formas de religio sidade tradicionais não sabiam satisfazer. Por último. celebravam os sagrados mistérios. concentrar-se na música. segundo o que acima reportamos: o homem não se pode purificar senão pela ciência e. Zelier-Mondolfo. 2. e quem o infringia era punido Em suma: ao ensinar e ao estudar. 646ss. ao tratar dos pitagóricos. § XLV. chegando a sustentar que é errado atribuir à filosofia pitagórica tudo o que não depende da doutrina dos números. Early Gr. buscou não só separar a ciência pitagórica da fé pitagórica. uma vida que busca a purificação na contemplação da verdade. consentem atualmente na idéia de que a ciência pitagórica radica-se na fé pitagórica de maneira essencial. O silêncio sobre as doutrinas devia ser mantido pelos adeptos. Aporias relativas a Deus e ao Divino Zeller. passavam ao estudo de toda a natureza e do cosmo. portanto. O mestre. primeiro. 6. como se fosse a resposta de um oráculo. a fé pitagórica supõe estruturalmente a ciência. e que foi também chamada simplesmente de “vida pitagórica”. APORIAS ESTRUTURAIS DO PITAGORISMO 9’ IV. Aprendido isso. Os noviços. os pitagóricos oficiavam. pp.. da aritmética e da geometria (e escrever o que tinham aprendido). o nume Pitíigoras. ipse dixit. Os pitagóricos foram. e que a religião dos mistérios só imperfeitamente satisfazia: e assim compreende-se bem o entusiasmo que os pitagóricos suscitaram e os consensos e êxitos que alcançaram. hoje’está superada. Burnet. assim. ademais. os iniciadores do tipo de vida chama do (ou que. ou seja. Zeiler-Mondolfo. Platão dará a esse tipo de vida a sua expressão mais perfeita no Górgias e. E as práticas de purificação da alma deviam. 1. E com isso se esclarece também o sentido de todo o aparato extremamente complexo através do qual a ciência era compartilhada pelos novos adeptos. Phi/os. no primeiro período em que eram admitidos à ordem. 2. com efeito. 5. que. e a fór mula com a qual o docente comunicava o saber era “co pa”. no Fédon. falava escondido atrás de uma tenda. justamente porque a “vida pitagórica” só pode se realizar através da ciência. a autoridade máxima: fórmula que se tornou proverbial. os sagrados mistérios da ciência. 4. através do saber e do conhecimento. como sabemos. pôr questões acerca da música. 2. APORIAS ESTRUTURAIS DO PITAGORISMO 1. podiam fazer perguntas. mas contrapôs uma à outra. Cf. já eles o chamassem) de “bios theoretikós” vida contemplativa. como para separar o saber da pessoa que fisicamente o comunicava. Mas. As regras médicas de purgação e as regras ascéticas de abstinência visavam purificar o corpo para torná-lo dócil à alma. isto é. “disse ele”. deviam somente calar e escutar (atitudes consideradas as mais dificeis de aprender). talvez.

para a razão. estável. uno. . é verdade. Escreve. que agora esclareceremos. enquan to participa do poder da dezena. Deus é identifi cado com o número sete. e acrescenta: “Que para eles a idéia de Deus tivesse. outras vezes se repetirá no mundo ocidental. porque o que não gera nem é gerado permanece imóvel [ e aquilo que nem move nem é movido é o antigo senhor e regente. de mal e. de fato. e grande é. Ora. deus. o poder [ número] e tudo opera e cumpre. de irracional. coincidir com o perfeito e. mas também em todas. princípio e guia da vida divina e celeste e da humana. portanto. quer propria mente à música E no fragmento 20. o ilimitado ou o infinito era sinônimo de ininteligível. como vimos. com o que resultava da determinação do ilimitado.diferencia-se radicalmente das formas de misticismo oriental. eterno. quer digam respeito às atividades técnicas em geral. e de certos números em particular. e sempre. certamente. onde diz: “E regente e senhor de todas as coisas. apela para o lógos. verossimilmente. 3. isto é. Diels-Kranz. Contudo. O exemplo dos pitagóricos é o primeiro da união de misticismo e racionalismo que. ao invés. as obras e palavras humanas. Fílon: Os pitagóricos compararam (o número sete) ao regente de todas as coisas. uma vez que. Há acerto no que Zelier diz a propósito da doutrina dos deuses dos pitagóricos. com base no que dissemos a propósito da concepção do divino nos milesianos e em Heráclito. do qual muito propriamente se pode dizer que o número sete é a imagem. isso não acontece. não se pode duvidar. Confirma as minhas palavras também Filolau. Deus devia. não podia ser de modo algum identifica do com Deus. a ciência. E é certo que os pitagóricos ligaram o poder do número em geral. em lugar de apelar para forças alógicas e a-racionais. mas por uma razão bem determinada. com a harmo nia e com o número. não seguramente atribuível a Filolau. a consciência. e é em conseqüência deste fato que eles não puderam dizer nada de peculiar sobre os deuses. o ilimi tado ou indeterminado ou infinito como um dos dois primeiros princí pios. mas há muito pouco de caracteristicamente deles exatamente naquilo que nos foi transmitido com relação à teologia [ Mas que os pitagóricos não tenham posto a sua teologia em relação com a sua doutrina cien tífica não é exato. E não por acaso. mas não o conseguiram por motivos estruturais. tudo seria ilimitado. expressão de pensamentos pitagóricos. seria lícito pensar que também os pitagóricos tenham identificado Deus e o Divino com os princípios primeiros. com o divino. ulteriormente. Ibidem. incerto e obs curo E pouco adiante: Não só nos fatos demoníacos e divinos podes ver a natureza do número e o seu poder dominador. Ora. ademais. não puseram a sua teologia em conexão científica com os seus princí pios filosóficos”. portanto. 44 B II. diferente dos outros (números)” 2. Os pitagóricos admitiram. que eles tentaram fazê-lo. Escreve o estudioso que “os pitagóricos. imóvel igual a si mesmo. mas que é. para a anulação da consciência. enquanto idéia religiosa. ao invés. sem esta. No fragmento 11 diz Filolau: A essência e as obras do número devem ser julgadas em relação com o poder que existe na dezena. a maior importância.

ademais. Reportado sempre por Diels-Kranz. igual a si mesmo” Note-se. note-se: em primeiro lugar. no âmbito de uma filosofia da physis. se as divindades podem se diferenciar das outras coisas identificando-se com certos números privilegiados. como em geral to dos os pitagóricos. os neopitagóricos farão coincidir a Divindade com o uno. dever-se-ia identificar cada uma delas com números diferentes (o que é absurdo). empreender aquela que. sem relacioná-los com o número e a doutrina do número. p. que são numerosíssimas (todos os vivos. ademais. 2. como afirma o próprio mestre de Tarento. deverá esperar Platão e. Mas. também as almas deve riam ser número. este fato significativo: Filolau. 1. não só sem resolver o problema. estável. que são as almas sem corpo. para tal. Estas aporias são insuperáveis. Aporias relativas à alma Os pitagóricos. 92 OS PROBLEMAS DA PHYSIS. têm uma alma própria e. 1. sem distinção. exis tem ainda numerosas almas nãoencarnadas que esperam encarnar-se ou que terminaram o ciclo das encarnações). com belíssima imagem. mas ulteriormente complicando-o. Diels-Kranz. Mais ainda. deus. e se todas fossem um único número. eterno. mas. imóvel. com leve modificação). a filosofia deverá extrapolar o horizonte da physis. “E regente e senhor de todas as coisas. os pitagóricos nos falam tam bém de “demônios”. do qual todos os números de rivam. mas os antigos pitagóricos certamente não chegaram a este ponto de refinamento da doutrina. com ele. não nos dizem que relação têm as almas com os números: como todas as outras coisas. por sua natureza. não o podem as almas. pelo menos. acrescentando uma alma sensível a uma alma-demônio. . Timpariaro Cardini. ele mesmo chamará de “segunda navegação”: deverá descobrir o supra-sensível. uno. inevitavelmente. o que não gera nem é gerado é imóvel [ Ora. mas não nos dizem que relação eles têm com os deuses e o divino nem que relação eles têm com os números. então não se poderiam diferenciar umas das outras. o qual diz o seguinte. Se Filolau ou. continuou a falar de Deus e de Deuses no sentido tradicional dos termos. 573. Mais logicamente e de maneira mais coerente.4. certos pitagóricos identificaram a alma com a harmonia dos elementos corpóreos. DO SER E DO COSMO APORIAS ESTRUTURAIS DO PITAGORISMO 93 E outra fonte antiga nos informa: Com razão Filolau chamou o número sete de “sem mãe”: de fato só ele. enfim. nem gera nem é gerado: ora. se permanecermos no horizonte da filosofia pitagórica do número e. tal é deus. para resolver tais dificuldades. fizeram-no ou pondo-se em contraste com a doutrina da almademônio ou. 5. 44 B 20. 44 B 20 (da tradução de M. Zeiler-Mondolfo. para salvar a individualidade de cada uma das almas. 2. em geral.

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