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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE DIREITO

A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: O DIREITO DE REUNIÃO E SEUS LIMITES EXPRESSOS E IMPLÍCITOS

BELO HORIZONTE, OUTUBRO DE 2012

STEEVAN TADEU SOARES DE OLIVEIRA

A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: O DIREITO DE REUNIÃO E SEUS LIMITES EXPRESSOS E IMPLÍCITOS

Pesquisa monográfica para ser apresentada junto ao Colegiado da Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de graduado em Direito, realizada sob a orientação do Professor Doutor Marcio Luís de Oliveira.

BELO HORIZONTE, OUTUBRO DE 2012

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FICHA DE APROVAÇÃO

Monografia apresentada e aprovada em ________________________

Banca Examinadora:

__________________________________________ Professor Doutor Márcio Luís de Oliveira

__________________________________________ Professora Doutora Mônica Sette Lopes

__________________________________________ Professora Doutora Maria Fernanda Salcedo Repolês

mas sim o ponto de partida para o estudo desse e de outros temas jurídicos atinentes à atividade do Batalhão.4 DEDICATÓRIA Dedico esta monografia aos espartanos do Batalhão de Choque. espero que este trabalho não seja o ponto de chegada. também dedico este trabalho àqueles que derem continuidade a essa empreitada. Após ter introduzido as discussões jurídicas do direito de reunião no Batalhão de Choque. por juntos termos ombreado diversas batalhas e. em especial aos valorosos guerreiros do Vulcano II. por terem se mostrado incondicionalmente leais. . mesmo nas adversidades. Assim.

Por último. Sargento Santana. pela amizade. pelos conselhos e pelas correções quando necessário. aos meus pais. Ao Tenente-Coronel Roberto Lemos. que com todas as adversidades se sacrificaram para que eu pudesse levar a diante o sonho de simultaneamente cursar o CFO e o curso de Direito na UFMG. mas de vida. pela companhia. pela afetuosa recepção desde o primeiro contato e inestimável orientação. por compartilharem comigo o ideal de uma tropa mais qualificada e. pelas lições. que vale mais do que qualquer estudo acadêmico e por ter transformado cada dia de trabalho em verdadeiras lições não só de polícia. A todos os meus comandantes no Batalhão de Choque. Aluno Wellington. Ao Capitão Maximiliano Augusto Xavier. Cabo Campos e Cabo Marcelo. Tenente Lúcio. em especial ao Major Marcelo Campos Pinheiro e ao Cap Cinério Gonçalves Gomes. Tenente Antunes. profundos conhecedores da doutrina das Operações de Controle de Distúrbios.5 AGRADECIMENTOS Ao Coronel Antônio de Carvalho Pereira. é antes culpa do orientando que não conseguiu compreender as lições. Aos companheiros da equipe de instrução Tenente Russo. Tenente Bertocchi. e mais importante que todos os demais. os quais eu muito admiro. Tenente Hot e Tenente QOR Fábio Hebert. pela força do exemplo. Capitão Paulo Roberto. se privarem voluntariamente de horários de lazer e descanso. À Nathália Marteletto. por ter me recebido em um momento particularmente difícil de minha vida e ter estimulado as primeiras reflexões acerca do tema. com quem muito aprendi. Ao Professor Doutor Márcio Luís de Oliveira. apesar do pouco tempo que trabalhei sob o comando de ambos. Se o resultado final não for a contento. Sargento Tardim. por ter surgido de forma inesperada e ser veredas no sertão chamado vida. em nome desse ideal. Capitão QOR Nirlando. . em especial ao Capitão André Coli. A todos oficiais e praças do BPE.

” Montesquieu (O Espírito das Leis.6 “A liberdade política não consiste em fazer o que se quer. XI. 3) .

a história do direito de reunião no Brasil e o estudo do direito comparado também contribuíram com a pesquisa.7 RESUMO O Estado Democrático de Direito busca a efetiva participação dos indivíduos nas deliberações públicas. em normas infraconstitucionais e também limites implícitos. Além disso. o direito de locomoção. . Em virtude do conflito. Assim. marchas. a liberdade de reunião concorre com os direitos das demais pessoas. 5º da Constituição. Contudo. de leis infraconstitucionais. manifestações públicas e protestos no Brasil. que disponha sobre questões não mencionadas no preceito constitucional. art. o foco do estudo foi o sistema jurídico vigente. Palavras-chave: direitos humanos. relativização de direitos fundamentais. protestos. restrição de direitos. a imersão no tema ainda traz à tona a necessidade de uma lei regulamentadora. Ao se enveredar por essas trilhas. por exemplo. da doutrina e de jurisprudência. temos também contingências em outras partes da Constituição. Além dos limites previstos no inciso XVI. Nesse contexto. direito de reunião. passeatas. No presente trabalho. caminhadas entre outros atos semelhantes adquirem especial relevo. Outrossim. faz-se necessário estudar os contornos do direito de reunião no Brasil. por meio da Constituição. como. constata-se que as relativizações ao direito fundamental da Constituição da República não se restrigem às previstas literalmente na norma. o exercício dessa garantia fundamental causa transtornos aos demais cidadãos que não estão participando do ato.

walking and other similar public acts acquire special importance. the freedom of assembly together conflicts with rights of others. However. doctrine and jurisprudence. article 5º. for instance. the exercise of this fundamental right cause troubles to other citizens who are not participating in the gathering. right to assembly together. In this context. the immersion in the theme still brings up the necessity for a regulatory law. it displays that the fundamental right to gathering is not limited only by the text written in section XVI. through the Constitution. Also. the focus of the study was the legal system. laws under the Constitution and implied in law system. Because of the conflict. . Beyond this limits. Thus. Moreover. it is necessary to understand the outline of the right of assembly together in Brazil. In the present work. fundamental rights restrictions. When you go in on these pathway. protests. assemblies. the history of the right of assembly in Brazil and the study of comparative law also contributed to the research. conflict of laws. marches. clarifying issues not mentioned in the Constitution.8 ABSTRACT The Democratic State of law looks-for effective participation of individuals in public deliberations. gathering. demonstrations. we also have reserves in other parts of the constitution. laws under de Constitution. protests in Brazil. Key-words: human rights. demonstrations. the right of free motion and locomotion.

Distrito Federal .Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos .Supremo Tribunal Federal . LCP LGBT MS OEA PIDCP PMMG RJTJSP .Habeas Corpus .Belo Horizonte .Polícia Militar de Minas Gerais .Inciso . BH BPTran CIDH CP CPM CTB CRFB ou CRFB/88 DF DUDDHH HC Inc.Ação Direta de Inconstitucionalidade .Organização dos Estados Americanos .Código Penal Militar .Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça de São Paulo STF .Código de Trânsito Brasileiro .Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 .Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental . Gays.Declaração Universal dos Direitos Humanos .Lésbicas.9 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ADI ADPF Art.Artigo .Comissão Interamericana de Direitos Humanos . . Bissexuais e Transgêneros.Lei das Contravenções Penais .Código Penal .Mandado de Segurança .Batalhão de Polícia de Trânsito .

.... 49 Autoridade Competente............. 21 História Jurídica do Direito de Reunião no Constitucionalismo Moderno Ocidental.......................1 5.................................................................. 41 Reunião Pacífica........3 5 5........... 43 Locais Abertos ao Público.... 66 Código de Trânsito Brasileiro...................5 5............... 38 A DISCIPLINA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO BRASIL..................................................................................... XVI.2 5..............15 Para Além da Democracia Formal: o Estado Democrático de Direito..............1........3.......................................1 5.....4............ 37 Os Limites das Relativizações.................................6 PRÓLOGO.........................................................2 2. 48 Prévio Aviso................................1.........................................4........................................................2............................1.................................. 40 Restrições Insculpidas no inc......4 5....................................................................2 4............3 5.... 29 A Dogmática da Relativização dos Direitos Fundamentais..... 53 Relativizações na Constituição................................6 5........................ 68 Direito Criminal.................................1.................................................42 Reunião sem Armas...............................1 4........................................................................ 21 Ontologia e Concepções do Direito de Reunião..............................2 5.............................................................................. art.......32 Eficácia Horizontal dos Direitos Humanos................ 18 AS MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS PELO PRISMA JURÍDICO: O DIREITO DE REUNIÃO......................10 SUMÁRIO 1 2 2................. 5º.................................7 5.... da Constituição...............................3 3 3....................................4..........................4........ XVI................................................................... 29 A Existência dos Limites: o Conflito de Direitos e os Deveres Fundamentais.............................3 5................................................................................... 17 As Manifestações Populares e sua Importância nas Democracias........................................................................................................... 54 Limites Implícitos ao Direito de Reunião..2 5...........................................1.4............................................1...................................... 72 Limitações Quanto ao Conteúdo........................................................................................................................................................................... 5º....................... 58 Os Direitos das Demais Pessoas................................. 15 A Origem da Democracia e da Democracia Representativa..............1 2..5 5.....................................................1 5...............2 4...............................................2..... 26 A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS: O DIREITO DE REUNIÃO E AS POSSIBILIDADES DE LIMITES............................................................................................. art.............................1 5..........3 5...................... 59 Direito Eleitoral............................................................................ 46 Independente de Autorização...4 5..... 63 Direito Militar.................................................................................1..4 5............................8 5............... mas fora do inc....................................... 41 Todos Podem Reunir-se......................................................................1................................................................................................. 76 ..................................1 3.................................................................4..................................... 34 Bloco de Constitucionalidade...............1 4... 47 Não Frustrar Outra Reunião Anteriormente Convocada.......................57 Relativizações Infraconstitucionais ao Direito de Reunião........ 12 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E A PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS.................................................................................................................2 4 4.......... 56 Licitude dos Propósitos..........

................................3 6.......................................................................................................... 89 REFERÊNCIAS................83 Forma do Ato Regulamentador............. 80 Possibilidade de Regulamentação.. 93 .......4 7 8 REGULAMENTAÇÃO..................................................................................................................................................................81 Quem Pode Regulamentar?......................11 6 6.......................... 85 O Papel dos Precedentes na Regulamentação do Direito de Reunião................................................................................................................................1 6..........................................2 6..................................................................................................................................................................... 88 EPÍLOGO........

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1 PRÓLOGO

O Estado Democrático de Direito tem como uma de suas características a participação dos cidadãos na esfera de decisão política. Assim, nesse novo paradigma, não basta almejarmos apenas uma democracia formal, mas antes, perquirir a inclusão das opiniões pessoais nos processos de decisões governamentais. Alguns fatores, porém, dificultam a democracia substantiva, tais como o distanciamento das pessoas aos centros políticos, a extensão territorial do país, aspectos culturais, consciência política, educação e a própria democracia representativa que, de certa forma, estimula o afastamento do cidadão em relação aos debates políticos.

Como forma de suplantar esse déficit democrático, mecanismos indiretos de participação popular e até mesmo formas de pressionar o governo foram se desenvolvendo. Uma dessas maneiras de que o cidadão dispõe para demonstrar seus anseios e reivindicações são as manifestações populares em logradouros públicos. Exemplos típicos de tais atos são as passeatas, carreatas, marchas e comícios. Destaca-se, destarte, que as manifestações populares têm se tornado um autêntico mecanismo de demonstração da vontade dos indivíduos e de pressão sobre os governantes.

Por esse motivo, não é de se espantar que em regimes autocráticos torna-se comum a tentativa de restrição a esse direito. Foi precisamente o que ocorreu no Brasil em grande parte da nossa história. Desde a sua primeira previsão enquanto direito positivado nas Constituições, as manifestações foram disciplinadas de forma bastante limitada e contida. Restringindo ainda mais esse direito, foi editada uma lei regulamentadora na década de 1950 e, posteriormente, com a efetivação do regime militar, as manifestações públicas no Brasil ficaram ainda mais mitigadas.

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Com a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988 e, em decorrência dessa, a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB/88), a garantia constitucional a esse direito ganhou novos contornos. Depois de anos de intensa repressão política e de tolhimento à liberdade de expressão, as manifestações públicas foram previstas no inciso XVI, art. 5 da nova Constituição. A nova previsão ampliou a garantia fundamental e limitou as intervenções do Estado no exercício desse direito constitucional.

A efetivação dessas mudanças tem ocorrido, ainda que de forma gradativa. Contudo, ainda hoje o aparato repressor do Estado é utilizado para impedir o exercício legítimo de manifestações públicas que, em tese, seriam amparadas pela Constituição. Infelizmente, decisões judiciais e o arbítrio policial por vezes impedem a concretização desse direito, restringido-o de maneira não amparada pela Constituição.

Paradoxalmente, entretanto, o contrário também ocorre. Fruto de uma interpretação unilateral da Constituição, hermeneutas se arvoram na afirmação de um direito de reunião com limites muito mais extensos do que os juridicamente existentes em um Estado Democrático de Direito. Assim, os manifestantes acabam por impedir o direito de locomoção das demais pessoas ao fecharem por completo importantes logradouros públicos exatamente nos horários de maior fluxo. Tais ações refletem diretamente no acesso a escolas, hospitais, locais de trabalho e ao domicílio, o que resulta em considerável prejuízo ao pleno direito à educação, à saúde, ao trabalho, à residência, à propriedade privada, entre outros.

Percebe-se, portanto, que estamos diante de um típico caso de conflito horizontal de direitos, no qual a esfera juridicamente tutelada de uma pessoa (direito de reunião) concorre com o direito de outrem (ir e vir, educação, saúde, trabalho, domicílio, propriedade privada, etc.). Dessa forma, buscar os limites jurídicos ao exercício do direito de reunião se faz um tema atual e de extrema

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relevância. Somente assim será possível conciliar os interesses envolvidos e harmonizá-los.

alusão a povo. quer diretamente. esses homens considerados cidadãos viviam do trabalho 1 2 CHAUI. aos tempos pré-socráticos. 3 DAHL. sendo formada a partir dos radicais demos.1 A ORIGEM DA DEMOCRACIA E DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA A história da democracia remonta à Grécia clássica. p. 7. o autor ainda indica outras culturas além da helenística que influenciaram esse amálgama4 que denominamos democracia. p. significa o governo do povo ou o governo da maioria”. Entretanto. quer por meio de funcionários eleitos por ele para administrar os negócios públicos e fazer as leis de acordo com a opinião geral”. Ademais. mais especificamente. Assim. que designa poder ou quem está no poder1. por exemplo. em que pesem algumas distinções. 236-237. são constatadas por cientistas políticos. . 1989. ROSENFIELD. Diferenças entre a democracia grega e a democracia estruturada no fim do absolutismo europeu. p. no sentido etimológico da palavra. 1994. podemos sintetizar a democracia como “o regime em que o povo se governa a si mesmo. 13. “a democracia.5 A democracia antiga. 1989. e cracia (kratos).2 A democracia ganhou contornos próprios ao longo dos anos conforme os locais e as épocas em que surgia.15 2 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E A PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS 2. 1989. p. 5 AZAMBUJA. considerava cidadão um restrito número de pessoas. Robert Dahl3 aponta algumas transformações pelas quais passou a democracia ao longo da história. 4 DAHL. A etimologia do vocábulo nos indica que a palavra é oriunda do grego. Estima-se que nesse período de 240 mil pessoas. Do mesmo modo. assim reconhecida a vivenciada na Grécia clássica. 2005. 283. apenas 6 mil participavam efetivamente das decisões.

p. Evidentemente não seria possível reunir dezenas de milhões de homens para discutir e votar. destarte. a população passou a eleger representantes que.16 escravo. 1989. praticamente impossível. p. Como afirma Rosenfield “tem-se aqui um processo de diferenciação do governo com o povo sem que ambos se identifiquem atual e praticamente”. 2005. grande população e os negócios públicos são numerosos. não poderia dispor do tempo necessário para discutir e votar milhares de assuntos em dezenas de reuniões anuais. por exemplo. complexos. a democracia adquiriu novas feições. 9 DAHL. a expressão da vontade política do cidadão ocorre basicamente durante as eleições. um corpo de políticos apartado da população. 215-241. Percebe-se que a oportunidade de que o cidadão participe verdadeiramente das decisões coletivas tornou-se reduzida9. pois. 8 ROSENFIELD. em tese. p. tem profissão absorvente. surgiu o Estado Democrático de Direito. espalhados em perto de nove milhões de quilômetros quadrados. é de muitas dezenas de milhões de cidadãos. 222-223. quando se escolhem os representantes. muitas das vezes sem um compromisso com os anseios dos representados. O número de eleitores nos grandes Estados modernos. a realidade hoje é diversa: Os Estados têm geralmente um grande território. tendo tempo disponível para estudarem os assuntos a serem debatidos e para participarem das assembleias. Nesse modelo de democracia representativa ou indireta. o homem moderno vive entregue a seus afazeres.6 Entretanto.1989. defenderiam os interesses daqueles que os elegeram. 225.7 Em virtude dessas diferenças. de natureza técnica. O governo direto é. 2005.8 Cria-se. 68. p. como nos Estados Unidos. 6 7 AZAMBUJA. Dessa forma. o povo fica distante da efetiva decisão. só acessíveis a indivíduos mais ou menos cultos e especializados. Além disso. AZAMBUJA. . Com a dificuldade de tomar parte das deliberações. As efetivas decisões são feitas pelos eleitos. Assim. visando suplantar essas e outras dificuldades da democracia.

17 2. mas como um de seus elementos constitutivos. 2011. O caráter mais ou menos democrático do sistema político existente em um país fará com que sua população se transforme ou não em povo. Nesses termos. 1995. o povo pode ser considerado não como o objeto sobre o qual o Estado exerce seu poder. Nesses termos. 2007. tal circunstância não é aceita hodiernamente. Se no modelo clássico grande parte da população via-se alijada das deliberações públicas. bem como em qualquer outro sistema de classes. p. hoje o conceito de povo é essencial à própria ideia de democracia11. foi concebido o Estado Democrático de Direito. e não apenas de forma. Conforme pontua Bresser Pereira. 91. no conjunto de cidadãos com direitos políticos efetivos e teoricamente iguais. No capitalismo contemporâneo. o 12 poder político deriva da sociedade civil . SILVA. De forma diversa do modelo grego clássico. ou seja. 182-228. mas antes aquele no qual as pessoas participam ativamente das decisões por meio de um processo contínuo e dinâmico. uma democracia substancial. A semântica do vocábulo democracia não pretende indicar um país no qual os cidadãos depositam periodicamente os votos nas urnas. deve-se buscar a ampliação paulatina do número de pessoas consideradas povo. a ideia de representatividade também apresenta óbices à democracia substantiva.2 PARA ALÉM DA DEMOCRACIA FORMAL: O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO Pretendendo atualizar o Estado Democrático. 132. De igual maneira. Nesse sentido.10 Busca-se. 12 BRESSER PEREIRA. o governo se legitima na medida em que tem como elemento fundante a opinião e a participação efetivas da sociedade civil. p. o Estado Democrático de Direito supera o Estado Liberal e o Estado Social de Direito. p. Focado no pluralismo social. . José Afonso da Silva assevera sobre o tema: 10 11 OLIVEIRA. Em apertada síntese. agora.

políticos e sociais. a importância das manifestações populares por meio das quais os cidadãos demonstram seus interesses e suas vontades. não se espera a homogeneidade de pensamentos e opiniões. são significativas as distinções entre a democracia clássica e a experiência do Estado Democrático de Direito. como ilustrou o romance 1984. 3º.3 AS MANIFESTAÇÕES POPULARES E SUA IMPORTÂNCIA NAS DEMOCRACIAS Em face do discutido até o momento. entre outras formas. Não deve ser o objetivo do Estado a homogeneização do pensamento ou a criação de uma monolíngua. parágrafo único).18 A democracia que o Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo de convivência social numa sociedade livre. em que o poder emana do povo. BRESSER PEREIRA. é o que indica Luiz Carlos Bresser Pereira no excerto: 13 14 SILVA. p. culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e a possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da sociedade. Assim. 2007. p. de George Orwell. mas especialmente da vigência de condições econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício.119-120. . há de ser um processo de liberação da pessoa humana das formas de opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos individuais. diretamente ou por representantes eleitos (art. Nesse viés. revela-se. pluralista. participativa. 2. Nessa sociedade democrática. porque envolve a participação crescente do povo. 102. Nesse jogo de interesses em conflito. justa e solidária (art. O dissenso e a presença de antagonismos são elementos basilares da democracia efetiva. no processo decisório e na formação dos atos de governo.14 quanto maior a desigualdade social. foi demonstrado que o Estado Democrático de Direitos busca a efetiva participação de todos.13 Pelo exposto. mais díspares serão os interesses e as vontades. 1995. e deve ser exercido em proveito do povo. porque respeita a pluralidade de ideias. I). faz-se necessário valorizar todas as formas de participação do povo nas decisões governamentais. 1º.

é exatamente a inclusão da diferença e a pluralidade de opiniões que propiciam a unidade. são capazes de reduzir o conflito potencial entre liberdades individuais.15 Por outro lado. 17 BRASIL. que dão origem a formas distintas de participação direta e indireta junto aos governos em todos os níveis. p. tornando públicos debates que poderiam ficar restritos a um limitado grupo de pessoas. historicamente. BRESSER PEREIRA. Foi o que demonstrou o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais em sede de Amicus Curiae no Supremo Tribunal Federal (STF) quando da apreciação da legalidade da marcha da maconha por aquele tribunal: A reivindicação por mudança. as manifestações públicas propiciam a visibilidade de alguns movimentos sociais. Dessa maneira. 48. no germe da liberdade da expressão enquanto 17 comportamento juridicamente garantido. pois ao contribuir para o consenso. Ainda segundo Bresser Pereira. não elide sua juridicidade. 1995. em um ingrediente a mais no complexo ambiente democrático. em que pesem os limites impostos pela extrema desigualdade e desintegração social ocorre o surgimento de uma multiplicidade de atores e de movimentos sociais.19 Todavia. A diversidade e o dissenso são precondições para a unidade. p. Conforme o que foi discutido. mediante manifestação que veicule uma ideia contrária à política de governo. pois. por outro lado. fortalecendo a coesão. as manifestações contrárias ao pensamento dominante são as que mais caracterizam o Estado Democrático de Direito. Nesse diapasão. . Ao contrário: a contraposição ao discurso majoritário situa-se. 27. ganham grande relevo e destaque em nossa sociedade. o cidadão pode expressar efetivamente suas 15 16 BRESSER PEREIRA. verifica-se que os atos políticos nas ruas. ao mesmo tempo em que introduzem conflitos de interesses e lutas pelo poder para o atendimento das demandas específicas. Ademais. os protestos e as reivindicações populares são extremamente relevantes para a formação da opinião política. 2007. construindo-se. por meio dos quais a população demonstra seus interesses e opiniões. a integração social desenvolve-se a partir dos procedimentos de formação democrática da opinião e da vontade política16. a partir das manifestações populares. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 1995.

18 OLIVEIRA. ainda.20 opiniões e. pressionar os governantes e parlamentares acerca dos rumos a serem seguidos. . para se compreender juridicamente as manifestações públicas no Brasil. 2011. surgiu a necessidade de se tutelar juridicamente as manifestações e os protestos públicos. A previsão de determinados direitos. Conforme pontua o autor. garantias e deveres individuais e coletivos compõem a base jurídico-institucional da democracia. submeter-se a esse Direito constituído é uma exigência. Dessa forma. 207. Entretanto. conforme leciona Márcio Luís de Oliveira. e sem que os indivíduos e os segmentos sociais se submetam ao Direito dialogicamente constituído e aplicado não há possibilidade de efetiva 18 democracia. pois. Em virtude de sua elevada importância em ambientes verdadeiramente democráticos. sem que os agentes e as instituições estatais. Logo. impossível fazê-lo sem se conhecer seus contornos e delimitações. é preciso estudar a previsão do direito de reunião em nosso sistema jurídico. todos os cidadãos devem exercer essa liberdade consoante o Direito. p. Após ser garantida juridicamente.

há que se encontrar o motivo comum e também que a organização exista. 264. que define 19 20 MENDES. Na perspectiva do direito constitucional pátrio.21 3 AS MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS PELO PRISMA JURÍDICO: O DIREITO DE REUNIÃO 3. de reunir as partes divididas. Wolgran Junqueira Ferreira define: Reunião é a ação de aproximar. Não se confundir com a simples agregação física acidental de pessoas. COELHO. filosófico. juntamente com a liberdade de expressão e o direito ao voto. a base estruturante da democracia19. Essa relevância é demonstrada por autores que indicam ser o direito que assegura esses atos. FERREIRA. 487. Permite a Constituição que as pessoas se agrupem para intercâmbio de ideias. Para que seja tida como reunião. no contexto das democracias indiretas ou representativas. 1989. religioso. Na tentativa de definir o vocábulo. 2007. BRANCO. acrescido da interação pessoal e mais a presença física. p. p. as manifestações públicas assumem um importante papel. p. . as manifestações são historicamente denominadas direito de reunião. 2010. pois isto seria multidão.21 Semelhante é a proposta de Cretella Júnior. desunidas ou dispersas de um todo (Caldas Aullete). O elemento espacial é fundamental para que a reunião seja 20 realizada. José Afonso da Silva apregoa que reunião é “qualquer agrupamento formado em certos momentos com o objetivo comum de trocar ideias ou de receber manifestação de pensamento político. 21 SILVA. Por sua vez. em sua obra sobre a Constituição de 1988. estabelece o que a Constituição denomina de reunião.1 ONTOLOGIA E CONCEPÇÕES DO DIREITO DE REUNIÃO Conforme já mencionado. O interesse comum. científico ou artístico”. 142.

sendo ele uma possibilidade de se exercer a liberdade de expressão. Sobre essa divergência. pois. por considerar os comícios. O direito constitucional de reunião. (MELLO FILHO. p. os protestos. 25 MAGALHÃES. 24 Acerca das passeatas. Assim. o ministro Celso de Mello escreveu: “Passeatas: Não se compreendem no conceito do direito de reunião. p. convém mencionar que até a Constituição de 1988 havia a discussão se o direito de reunião tutelaria ou não as passeatas. p. 27 BRASIL.27 Verifica-se. GILBERTO PASSOS DE FREITAS e VLADIMIR PASSOS DE FREITAS.23 bem como as carreatas. “incluem-se no conceito de reunião as passeatas e as manifestações em logradouros públicos”. 2009. que podem ser tanto reuniões estáticas quanto dinâmicas. ser proibidas com base no interesse público (RF. os cortejos. os desfiles e as passeatas aspectos particulares da liberdade de reunião”. os desfiles. nela incluído o insuprimível direito de se manifestar”. organizar e liderá-lo. p. entre outras possibilidades. 264. as marchas populares. Revista dos Tribunais. por isso mesmo. 366). portanto. podendo. o autor denota o caráter instrumental do direito de reunião. acorrem ao mesmo lugar. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 22 23 CRETELLA JUNIOR. 2007.24 Verifica-se. asseverou que “a liberdade de reunião traduz meio vocacionado ao exercício do direito à livre expressão das ideias. RJTJSP. 108. 1979.22 reunião como “agrupamento voluntário de diversas pessoas que. Contra JOSÉ CELSO DE MELLO FILHO. 26 TAVARES. . 392. na opinião do jurista e magistrado. 1974.26 Estudando o tema. No cotidiano as pessoas se deparam com inúmeras condutas humanas que estão inseridas na definição do direito de reunião. com objetivos comuns”22. p. Abuso de autoridade. o ministro Celso de Mello. um precioso instrumento de concretização da liberdade de manifestação do pensamento. 1984. fl. 2007. p. 54:19. previamente convocadas. mas também os direitos de convocar. em consequência. 177:279. os comícios. uma íntima relação das manifestações públicas com a liberdade de expressão. as assembleias em lugares abertos ao público. 2000. as caminhadas. 227. 27. SILVA. configurando. em voto no STF. as aglomerações de grevistas. 617.25 André Ramos Tavares ainda lembra que inserida na liberdade de reunião não está apenas a possibilidade de participar do ato público.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 1994. Celso Ribeiro Bastos28 diz ser: a) pluralidade de participantes.30 Em que pese o prestígio do autor. d) elemento espacial: o direito de reunião se projeta sobre uma área territorialmente delimitada. g. Não há motivos jurídicos plausíveis para se excluir tal direito dos que se encontram em solo brasileiro e aqui não residem. o ministro citou os cinco componentes que. 187. Em 1978 José Celso de Mello publicou parecer jurídico acerca do tema29. 5º da CRFB. finalisticamente orientado. . Acredita-se que o autor tenha repetido a previsão do caput do art. estruturam juridicamente o direito de reunião: a) elemento pessoal: pluralidade de participantes (possuem legitimação ativa ao exercício do direito de reunião os brasileiros e os estrangeiros aqui residentes). não se identificam argumentos para excluir os estrangeiros não residentes no país no que tange ao elemento pessoal por ele apontado. c) finalidade.23 Acerca dos elementos que compõem uma reunião. 187. embora precárias. ao menos na obra analisada. portanto. contudo. 28 29 BASTOS. sendo. 30 BRASIL. 2011. que é comum aos que dela participam. A reunião conforme o lugar que se realiza. v. a interpretação sistemática dessa não autoriza furtar dos viajantes estrangeiros garantias e direitos. MELLO FILHO. e) elemento formal: a reunião pressupõe a organização e direção. Já quando relator da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n. o autor não explica o motivo da distinção. podendo efetuar-se de dia ou de noite. mesmo não fazendo menção expressa aos estrangeiros não residentes no Brasil como titulares dos direitos e garantias previstos no art. Contudo. Deve-se destacar que para esse autor o direito de manifestação é diferente do direito de reunião. p. descontínua e não permanente. 5º da Constituição. ruas e logradouros públicos) ou interna (residências particulares. quando estiverem no Brasil. b) elemento temporal: a reunião é necessariamente transitória.). 1978. b) caráter temporal. para ele. Objetiva um fim. pode ser pública (vias. c) elemento intencional: a reunião tem um sentido teleológico.

Dessa maneira.31 André Ramos Tavares também propõe condições para se caracterizar o exercício do direito de reunião. 487. COLEHO. Quanto à titularidade. Logo. d) como elemento temporal. tempo. 2000. COLEHO. c) como elemento teleológico. e) como elemento objetivo. 34 MENDES. pessoas na fila do banco.32 Por sua vez. p. local. tempo limitado e a emissão do prévio aviso à autoridade competente. p. Gilmar Mendes33 aponta que o direito de reunião pressupõe: a) como elemento subjetivo. p. p. um local delimitado. 2010. f) como elemento espacial. 35 MENDES. TAVARES.36 31 32 MORAES. finalidade lícita. Esse autor indica quatro elementos: pluralidade de participantes. a definição dos elementos da reunião tem importância prática. pode ser chamado a mudar de conduta sem poder usar em seu favor o direito constitucional de reunião. 36 MAGALHÃES. 2010.34 se não estiverem presentes tais elementos. pois. 2010. p. BRANCO. Para Gilmar Mendes.24 Muito semelhante à proposta de Celso de Mello é a sugestão apresentada por Alexandre de Moraes. 487-489. 33 MENDES. quais sejam: pluralidade de participantes. protege-se principalmente a liberdade individual de tomar parte ou não na reunião. a doutrina comumente indica tratar-se de um direito individual que é exercido de forma coletiva35. veículos que casualmente se encontrem e buzinem simultaneamente para comemorar um resultado esportivo. determinado agrupamento de pessoas não pode alegar em sua defesa estar amparado pelo direito constitucional de reunião. a coordenação. ser pacífica e sem armas. 2006. ou o cidadão que porta um cartaz com palavras de ordem à frente de uma multidão que sai do metrô não têm suas condutas respaldadas pelo direito de reunião. 107. Apesar de parecer questão puramente teórica. finalidade e lugar. o fim comum. 68. Para o autor são cinco os elementos que definem o direito de reunião. p. . 618. COELHO. 487. BRANCO. o caráter transitório. b) como elemento formal. Isso. o agrupamento de pessoas. BRANCO. 2009.

Antropologia. A primeira não é propriamente o exercício do direito de reunião.38 No pertinente à sua eficácia. Polícia Militar. a tutela jurisdicional desse direito é feita por meio do mandado de segurança.37 Por sua vez. 42 BRASIL. não cabe impetrar habeas corpus enquanto garantia constitucional. 365. o exercício do direito de reunião é caracterizado apenas na segunda hipótese. 2007. pois prescinde de norma regulamentadora para que possa ser usufruído esse direito constitucional. denominada multidão. 2009. fls. 2009. turba. multidão.39 Em uma perspectiva policiológica. 1984. Já as duas últimas categorias são caracterizadas. p. por se tratar de agrupamento casual. sem. . 304 40 Apesar de pouco conhecida nas faculdades de Direito. p. entre outros elementos. contudo. apenas de forma reflexa será a liberdade de locomoção atingida. Tal campo do saber humano estuda “o fenômeno chamado polícia” (MEIRELES.25 Todavia. assim. encontramos autores que afirmam ser direito coletivo por tutelar a manifestação coletiva da liberdade de expressão. p. pela ruptura da lei e da ordem. Nesse sentido.41 No direito internacional. há um ramo das ciências denominado policiologia que mantém estreitas relações com a Sociologia. 1948. ESPÍRITO SANTO. p. p. 25). MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Assim. 617. 69 e TAVARES. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDDHH) no artigo XX. fl.42 Por sua vez. MORAES. diversos tratados e convenções asseguram o direito de reunião. tumulto. qual seja: aglomeração. 41 MINAS GERAIS. ver MELLO FILHO. 619. 18-19.40 a coletividade de pessoas recebe uma classificação da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) com base em fatores psíquico-jurídicos.1 garante que “toda pessoa tem direito à liberdade de reunião pacífica”. Psicologia e com o Direito. o artigo 21º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) afiança: 37 38 TAVARES. deixar de ser também um direito individual a cada um que pretenda participar da reunião. 1989. 39 Ministro Carlos Brito. Por certo. trata-se de norma de eficácia plena. 2006.

a reunião deve ser também sem armas. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. além de pacífica. também conhecido como Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. encontrando expressão. 45 BRASIL. no bojo das lutas empreendidas pela humanidade contra o absolutismo monárquico.26 O direito de reunião pacífica será reconhecido. no plano jurídico. Declaration of Rights. enquanto fundamento das modernas democracias políticas. a partir do século XVIII.2 HISTÓRIA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO CONSTITUCIONALISMO MODERNO OCIDENTAL A gênese desse direito. . O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. 47 Pennsylvania Constitution of 1776. da segurança ou da ordem pública.47 que possuía a seguinte redação: 43 44 BRASIL. como disposto no PIDCP. em uma sociedade democrática.45 A previsão legal mais remota desse direito de que se tem notícia é a que surgiu no contexto da independência dos Estados Unidos da América. fl. Extremamente semelhante ao PIDCP é a previsão do Pacto de San José da Costa Rica. remonta ao século 18. no interesse da segurança nacional. 372. BRASIL. 1966. 2007.44 A única diferença é que o artigo 15º dessa norma estabeleceu que. como se sabe. 46 MORAES. ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das 43 pessoas. de 1776. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 3. segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandoski. 2006. no contexto da formação dos Estados-Nacionais europeus: Ora. 1969. a liberdade de reunião e de associação para fins lícitos constitui uma das mais importantes conquistas da civilização. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. A doutrina46 aponta como a primeira norma a tutelar tal direito a Declaração de Direito da Pensilvânia.

2000. 122. para instruir seus representantes. Outrossim. apontamentos e comparações acerca dos sistemas constitucionais anteriores serão feitos. chegando até a Constituição de 1967. Constituição da República Federativa no art. and to apply to the legislature for redress of grievances. 150. nas constituições republicanas. Constituição da República Federativa do Brasil de 1967 no art. constatamos que a Constituição do Império do Brasil não o assegurava. (KURLAND. com perigo para pessoas ou bens.49 Desde a Constituição de 1891. by address. ou representação. 5º. via discurso.27 Todos têm o direito de reunirem-se. XVI. § 11. 113. que passou a ser a nova disciplina das manifestações públicas no Brasil. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946 no art. que foi reprimido durante anos.51 Após o fim do regime autocrático pelo qual passou o Brasil durante os anos de 1964 e 1985. petição. 110-111. O direito de reunião ora vigente está previsto na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 da seguinte forma: 48 That the people have a right to assemble together. uma análise histórica pormenorizada das alterações no texto do direito de reunião. e requerer à legislatura 48 para reparar injustiças. inc. não tivemos grandes alterações. não carecendo. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934 no art. a Assembleia Nacional Constituinte foi convocada. § 8. or remonstrance. sempre havia a previsão expressa nas constituições da possibilidade da intervenção da polícia ou de outra autoridade.50 Ainda hoje as constituições de Espanha e Itália restringem a liberdade de reunião por razões de ordem pública. Os anseios sociais relativos à liberdade de expressão nas manifestações públicas. 51 MAGALHÃES. para manter a ordem ou em nome da segurança pública. o direito de reunião foi inserido o inciso XVI do art. petition. 72. para o presente trabalho. § 10. to instruct their representatives. . § 27. Contudo. 2012. 141. § 11. p. 50 Conforme se avançar no estudo da previsão constitucional vigente. Analisando esse direito na história das constituições brasileiras. A ideia de que a reunião seja sem armas perpassou todos os textos constitucionais. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1937 no art. Assim. to consult for their commom good. 5º. para deliberar sobre o bem comum. o direito de reunião esteve presente em todas. teve a oportunidade de receber uma proteção mais ampla no próprio texto constitucional. Tradução livre do autor) 49 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891 no art. LERNER.

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Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, e à propriedade, nos termos seguintes:[...] XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independente de autorização, desde que não frustrem outra reunião convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente.52

Em uma leitura inicial podemos ver que se trata de um direito bastante amplo, que parece tentar afastar as arbitrariedades estatais que tanto marcaram esse direito ao longo de nossa história jurídica. Como mencionado anteriormente, a intervenção estatal nesse direito sempre foi um aspecto trivial. Com maior ênfase isso ocorreu após a regulamentação desse direito ainda no sistema constitucional de 1946, quando foi editada lei especificamente para esse fim.53

Em que pese a amplitude proporcionada pela Constituição de 1988, o direito de reunião tem alguns contornos que relativizam esse direito fundamental, carecendo, portanto, de uma análise mais detalhada acerca de cada uma dessas balizas para o exercício desse direito dentro do contexto do Estado Democrático de Direito vigente no Brasil.

52 53

BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1988. BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1950.

29

4 A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS: O DIREITO DE REUNIÃO E AS POSSIBILIDADES DE LIMITES

4.1 A EXISTÊNCIA DOS LIMITES: O CONFLITO DE DIREITOS E OS DEVERES FUNDAMENTAIS

Em que pese seu status de direito fundamental, a garantia disposta no inciso XVI do artigo 5º da CRFB/88 não é um direito absoluto, conforme preleciona o ministro do STF, Ricardo Lewandowski:
Não se ignora, é verdade, que liberdade de reunião não é um direito absoluto. Nenhum direito, aliás, o é. Até mesmo os direitos havidos como fundamentais encontram limites explícitos e implícitos no texto das constituições.54

No mesmo julgado, no qual estava em pauta a regulamentação do direito de reunião elaborada pelo Distrito Federal, os ministros Gilmar Mendes55 e Cezar Peluso56 concordaram, juntamente com Lewandowski, acerca da possibilidade de se impor certos tipos de regramentos ao direito de reunião. Sepúlveda Pertence, por sua vez, afirmou não querer assumir compromisso sobre o assunto.57 Entretanto, em caminho oposto, o ministro Marco Aurélio asseverou que “ao povo é assegurado ampla e irrestritamente o direito de manifestação”.58 A divergência no precedente do STF evidencia ser necessário estudar mais detalhadamente a possibilidade de se estabelecerem limites ao exercício do direito de reunião. Mesmo para aqueles que reconhecem existir tais restrições, o tema adquire relevância. Para esses, já que existem tais limites, é importante buscar compreender, então, quais seriam essas restrições ao direito de reunião.

54 55

BRASIL. BRASIL. 56 BRASIL. 57 BRASIL. 58 BRASIL.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL,

2007, fl 377. 2007, fl 399-400. 2007, fl 398. 2007, fl 402. 2007, fl. 299.

30

Sobre o tema, ensinou José Afonso da Silva que não é “correta a definição de liberdade como ausência de coação. O que é válido afirmar é que a liberdade consiste na ausência de toda coação anormal, ilegal, ilegítima e imoral”.59 Assim, até mesmo direitos havidos como fundamentais comportam certa disciplina em seu exercício.

Detalhando melhor o assunto, Márcio Luís de Oliveira também discorre sobre a relativização dos direitos fundamentais, esclarecendo que:
Os direitos e garantias fundamentais não são absolutos, ou seja, eles são relativos, pois suas titularidades e exercícios são condicionáveis pelo sistema jurídico, no qual também são estabelecidos inúmeros deveres para os sujeitos do Direito, para a sociedade e para o Estado. Logo, os direitos e garantias fundamentais são passíveis de relativização em suas titularidades e exercícios; nesse sentido, eles podem sofrer “constrições” estatais ou mesmo particulares, além de, 60 eventualmente, conflitar ou concorrer uns com os outros .

Percebe-se que o autor trabalha com conceitos como titularidade e exercício e, ainda, a possibilidade de condicionar ambos. Outrossim, pelo excerto percebemos que Márcio Luís de Oliveira acrescenta à discussão a ideia de deveres fundamentais. Dessa forma, constata-se que os cidadãos possuem, além dos direitos e garantias fundamentais, deveres fundamentais. Como corolário, todo cidadão tem como dever fundamental a obrigação de respeitar os direitos das demais pessoas.

Aplicando a discussão dos deveres fundamentais ao tema em estudo, descortina-se uma perspectiva mais ampla acerca dos limites do direito de reunião. Com efeito, o exercício desse direito não pode vir desacompanhado do dever de respeitar o direito das demais pessoas, tais como a locomoção, o trabalho, a saúde, entre outros. Uma manifestação muito barulhenta pode obstar o direito ao trabalho de outrem; da mesma forma, uma interrupção total de uma via pública central, em horário de grande fluxo de veículos e pessoas, pode comprometer o direito de locomoção do restante da sociedade.
59 60

SILVA, 2007, p. 232. OLIVEIRA, 2011, p. 442.

mesmo diante da omissão do legislador constituinte. Não obstante a omissão dos deveres fundamentais. 2000.31 Assim. intencional ou não. do Título II. 107-108. a questão da possibilidade de constrições aos direitos fundamentais parece igualmente ter sido negligenciada pelos redatores da nossa Constituição. . durante os protestos devem ser respeitados os direitos dos demais cidadãos que não estão participando do ato público. verificamos que tanto os deveres fundamentais quanto a relativização dos direitos encontram respaldo na doutrina e jurisprudência. Nesse sentido é o parecer de José Luiz Quadros de Magalhães. Para o autor gaúcho: Importante lacuna deixada pelo Constituinte diz com a ausência da previsão de normas genéricas expressas sobre as restrições aos direitos fundamentais. SARLET. o que na verdade. no atinente aos deveres fundamentais na CRFB/88. Dessa forma. 69. quando o direito de uma ou várias pessoas for violado pelo exercício impróprio daquela liberdade”. contudo. Ante tais observações. na doutrina dos direitos individuais.61 Ainda sobre a questão dos deveres fundamentais. Tal fato é apontado por Ingo Wolgang Sarlet a partir do direito comparado. 2011. não encontra maior justificativa. importante destacar que parece ter havido uma omissão. nenhum dispositivo no capítulo mencionado faz alusão aos deveres fundamentais. p. já que não faltaram exemplos concretos e de ampla 62 aceitação no direito comparado. quando afirma que “só pode intervir o Estado nesse direito quando a reunião deixar de ser pacífica ou. faz-se necessário compreender a sistemática das constrições aos direitos e garantias fundamentais. p. 61 62 MAGALHÃES. da nossa Constituição é denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. O Capítulo I.

nesses casos. Pelo prisma do autor. 379. em princípio. mas sim. tornar-se-ia limitado. a suspensão resulta no total impedimento do exercício do direito ou garantia sendo. OLIVEIRA. . p. c) medidas supressivas. mas de forma limitada. Exemplo típico de medidas restritivas são as penas de reclusão. De igual modo. que restringem o direito à liberdade de locomoção. 2010. quais sejam: a) medidas restritivas. Ou seja. Por essa teoria. uma das primeiras questões levantadas pela doutrina63 refere-se à distinção entre os direitos e suas restrições. BRANCO. Isso porque. 444. entretanto. as relativizações restritivas incidiriam sobre o exercício do direito. b) medidas suspensivas. estamos diante da teoria externa. podendo ser exercido. Cabe ressaltar que as medidas restritivas comportam gradações. ao se estabelecerem as restrições decorrentes da necessidade de compatibilização. 65 OLIVEIRA. Márcio Luís de Oliveira64 afirma que essas podem ser de três naturezas gradativas. o direito e seus limites não existem separadamente. em relativização. não se fala em restrição. as medidas suspensivas também incidem sobre o exercício do direito. 2011. p. necessariamente temporária. Se se compreende que o direito e suas restrições são categorias autônomas. haveria um direito ilimitado e que. COELHO. o condenado fica totalmente impedido de exercer seus direitos políticos tais 63 64 MIRANDA. Nessa hipótese. Nessas o direito continua intacto. 374 e MENDES. Em oposição à primeira. 2011. p. Márcio Luís de Oliveira65 cita como exemplo dessa medida a suspensão dos direitos políticos em razão de condenação por improbidade administrativa.32 4. de acordo com a qual existe o direito individual com determinado conteúdo definido pelo próprio sistema jurídico.2 A DOGMÁTICA DA RELATIVIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Ao se estudar a relativização dos direitos fundamentais. p. No intuito de compreender as possibilidades de impor relativizações aos direitos fundamentais. distinguíveis logicamente. apresenta-se a teoria interna. 2008. 446. por isso.

o jurista português J. não temos em nosso sistema constitucional a segunda categoria apresentada pelo autor. nas liberdades e nas garantias pode ser de cinco espécies: declarativa regulamentadora. 68 MIRANDA. 2003. mas sem autorização expressa da Constituição. também discute o tema. como demonstrado por Canotilho. “eliminando-o do acervo jurídico subjetivo do indivíduo”66 e são. por si só. protectiva. e. as medidas supressivas extinguem a própria titularidade do direito. Isso. 2011. (3) restrições operadas através de lei mas sem autorização expressa da Constituição. inconstitucionais.67 Verifica-se que Canotilho deixa claro que as limitações aos direitos comportam até mesmo restrições legais (infraconstitucionais) aos direitos fundamentais elencados na Constituição. CANOTILHO. restritiva e aditiva. conforme o texto lido. 450. J. p. medidas excepcionais no Estado Democrático de Direito. 446. 5º) duas das categorias apontadas: a) as restrições feitas pela Constituição. Contudo. Por sua vez. a disciplina do direito de reunião na Constituição não faz referência à lei regulamentadora. p. .68 66 67 OLIVEIRA. ou seja. p. Visando esquematizar as medidas restritivas aos direitos fundamentais. podemos perceber que estão presentes na nossa Constituição (inciso XVI. Para ele a intervenção do legislador nos direitos. concretizadora.33 como o direito de votar e ser votado. por isso. art. tal aspecto não faz com que leis infraconstitucionais que restrinjam o direto de reunião sejam. 366. 2008. Aplicando os ensinamentos de Canotilho ao direito de reunião previsto na CRFB/88. (2) restrições feitas por lei mas expressamente autorizadas pela Constituições. pois. Outro constitucionalista português. b) as operadas através de lei. Gomes Canotilho divide tais restrições em três classes: Há três “universos” de restrições de direitos recortados por actos normativos com valor de lei: (1) restrições feitas directamente pela Constituição. o direito de exercer função pública e o direito de contratar com a Administração Pública. Jorge Miranda.

70 Ou seja. 373. o que não aconteceria nas restrições expressas. deve-se verificar apenas a constitucionalidade da medida restritiva. que seriam aqueles que existem mesmo não havendo previsão literal. pois. 2008. que não seria decorrente de norma positivada na Constituição nem de leis infraconstitucionais. Para o jurista: Forçoso e natural. aceitar a existência de restrições implícitas derivadas outrossim da necessidade de salvaguardar outros interesses constitucionalmente protegidos. O autor indica a existência de limites implícitos aos direitos fundamentais. 372. é preciso ir além da verificação da constitucionalidade da medida. MIRANDA. é. Em virtude do elucidado até o momento. Os aspectos sociológicos. verificou-se que é possível definir limites aos direitos fundamentais. 4. Nesses casos. . é necessário fazer assentar cada restrição em certo e determinado interesse constitucionalmente protegido. Em tais casos estamos diante do que se denomina eficácia ou conflito horizontal de direitos humanos. nos casos de limites implícitos.2. precisando ser conciliadas. Jorge Miranda indica que na hipótese de restrição expressa. nas restrições implícitas. para o autor.34 Jorge Miranda acrescenta uma espécie de restrição menos evidente. históricos e 69 70 MIRANDA. sobretudo quando as esferas juridicamente de duas ou mais pessoas ou grupos se conflitam. deve-se também analisar a própria decisão de se restringir o direito fundamental em face do peso de outro interesse que se lhe opõe. p. mas sim em princípios constitucionais paralelos 69 aos que alicerçam as restrições expressas . e fundadas não em preceitos avulsos. Lado outro. p. Detalhando o assunto.1 Eficácia Horizontal dos Direitos Humanos Os direitos humanos foram construídos como uma proteção para o cidadão comum ante a autoridade do rei. 2008.

Assim. . Muito comum hoje é a interferência de indivíduos ou grupos nos direitos de outro cidadão ou grupo. não se tratou de delegações de poderes reais. (COMPARATO. Juristas costumam indicar a Magna Carta de 121572 como a primeira norma de direitos humanos elaborada. No viés da dimensão vertical dos direitos humanos. Hoje em dia. Segundo Fábio Konder Comparato. 2007. sem “h”. durante toda a Idade Média. hoje também se prestam à tutelar direitos no confronto horizontal cidadão-cidadão. 2005). era grafado no latim clássico com “ch”.. na história política medieval. Acerca desse instrumento. Com efeito. emergem conflitos da relação indivíduo-indivíduo. oriundo da língua grega. Fábio Konder Comparato assevera: “No caso.] Mais do que isso. Assim. e o vocábulo Magna Carta. a Magna Carta deixa implícito pela primeira vez. Entretanto. p. a complexidade das sociedades atuais fez surgir um novo problema. porém. o diploma foi escrito em latim bárbaro. mas sim do reconhecimento de que a soberania do monarca passava a ser substancialmente limitada [.. que o rei achava-se naturalmente vinculado pelas próprias leis que edita”. o Leviatã é o poder central e absoluto ao qual todos devem se submeter. p.73 Contudo. 73 COMPARATO. dotada de autoridade inquestionável (HOBBES. havia uma série de possibilidades de intervenção do Leviatã71 na esfera privada do indivíduo. cabe ao Poder Público a não intervenção na esfera juridicamente tutelada do indivíduo. na seara da eficácia horizontal desses direitos. Se antes os direitos humanos eram escudos protetivos na relação verticalizada Estado-cidadão. os direitos fundamentais. podendo ser o Monarca ou uma Assembleia. não se trata tão somente de proteger o cidadão de desmandos do rei ou do Estado. 79-80. 72 Magna Carta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannem et Barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni Angliae – Carta Magna das Liberdades ou Concórdia entre o rei João e os Barões para a outorga das liberdades da igreja e do reino inglês. mas foi usado. 71).35 jurídicos tornavam o cidadão comum extremamente vulnerável em relação ao monarca ou ao Estado. 2007. exige-se das autoridades que intervenham para que não se permitam agressões recíprocas entre os 71 Segundo Thomas Hobbes. sobretudo os de primeira dimensão. vieram para impor restrições na intervenção do Estado na vida particular.

75 Flavia Piovesan76 e Mazzouli77 não é suficiente. 76 PIOVESAN. CANÇADO TRINDADE. 2011. mas também outros cidadãos nas relações horizontais entre si. XLI. em sua globalidade (inteireza). 2010. deve haver uma análise do caso. de Kildare Carvalho. 74 75 CARVALHO. quando direitos fundamentais de cidadãos distintos se colidem. Nesses casos. 721. esse é o entendimento. também. Na dogmática jurídica da concorrência dos princípios jurídicos.36 cidadãos ou grupos. se aplica a regra mais favorável e garantista na perspectiva do indivíduo. do reconhecimento de que não é somente o Estado que pode ameaçar esses direitos. p. por certo. “dois ou mais princípios jurídicos afluem para regular. entre outros autores. em face das investidas do poder público. Acerca da hermenêutica constitucional. defendida por autores como Cançado Trindade. O Estado. 2010 apud PIOVESAN. na qual. 2009. 2010. Necessário se faz. Essa regra somente se aplica quando estamos analisando o direito de um único cidadão ou grupo. torna-se relevante estudar. segundo Márcio Luís de Oliveira. portanto. a aplicação da norma mais benéfica para um indivíduo. incidirá em detrimento do outro.78 Dessa forma. p. p. buscando a essência dos direitos por meio de uma interpretação sistemática e complexa da Constituição. 105. 77 MAZZUOLI. 78 OLIVEIRA. o bloco de constitucionalidade. se obriga não apenas a observar os direitos fundamentais. podemos dizer que se trata da concorrência por divergência. 2000. como também garanti-lo contra 74 agressões propiciadas por terceiros. . portanto. a simples regra da norma mais protetiva. 221. Consequentemente. porém com possibilidades de resultados completamente distintos e até mesmo antagônicos”. sem a possibilidade de conflito entre esferas juridicamente tuteladas de pares. para quem: A mudança de paradigma da eficácia apenas vertical dos direitos fundamentais decorreu. a mesma situação jurídica. avaliar os princípios constitucionais que estão em jogo e ponderá-los. sobretudo. Para esse fim. p. 348. p.

jurisprudência constitucional e princípios constitucionais implícitos”.2. Assim. O Supremo Tribunal Federal vem decidindo que ao se interpretar a Constituição deve se ter em mente muito mais do que as normas positivadas na Constituição Formal. Sendo assim. Assim. Por esse conceito. . Para tal desiderato. devem-se ponderar todos os valores em debate. 2012. há preceitos de direitos fundamentais. restou demonstrado que os direitos fundamentais insculpidos na CRFB podem sofrer relativizações. em face dos conceitos e institutos jurídicos apresentados no presente capítulo. que não integram expressamente a Constituição Formal. o conteúdo dos direitos constitucionais deve ser buscado não apenas na literalidade da norma constitucional. Nesses casos.79 Consequentemente. Em virtude de sua natureza jurídica de direito constitucional. portanto de natureza constitucional. pode-se afirmar que existem regras e princípios constitucionais que não estão positivados na Constituição Formal. pode acontecer de existirem normas jurídicas de mesmo status (nível hierárquico) que sejam conflitantes. até mesmo implícitas ou por normas 79 OLIVEIRA. determinados princípios surgirão como superiores em virtude de sua fundamentalidade. mas interpretado a partir dos valores e princípios constitucionais analisados conjuntamente. Destarte. costumes constitucionais. tal análise não deve ser feita abstratamente. normas infraconstitucionais podem até mesmo vir a ser utilizadas como paradigma para efeitos de controle de constitucionalidade. “o Bloco de Constitucionalidade é integrado basicamente por legislação infraconstitucional.37 4. Contudo. ainda que uma delas não seja expressa na Constituição.2 Bloco de Constitucionalidade Outro conceito muito importante quando se discutem os limites e contornos dos direitos fundamentais é o bloco de constitucionalidade.

2010. 2008. 6) as leis não podem ter efeitos retroativos ou que se apliquem a situações vindas do passado e ainda não terminadas – retroatividade imprópria. Contudo. devendo ser impessoais e abstratas. o limite dos limites. estas devem deixar indicar explicitamente os direitos que visam tutelar bem como os princípios constitucionais que lhes fundamentam. ou seja. as restrições aos direitos fundamentais também são limitadas. 5) as leis não devem permitir arbítrio e discriminação infundada. 2) ao se elaborarem leis restritivas. os limites às relativizações apontados pelo autor: 1) nenhuma restrição pode deixar de ter fundamento constitucional. 80 81 MENDES. tais limites também possuem limites. só podem ser feitas por meio de lei. fazse necessário compreender os limites das restrições. 4. BRANCO. ou ainda. é possível sintetizar em um total de dez. essas restrições não são impostas ao acaso. ou seja.3 OS LIMITES DAS RELATIVIZAÇÕES Consoante a dogmática da relativização dos direitos fundamentais apresentada. . Estudando o tema. sem conhecer limites. 375-379. MIRANDA. p. 393. 3) as restrições não podem ser operadas por atos normativos da Administração. 4) a norma deve permitir conhecer precisamente os critérios legais. Entretanto. ou seja. p. liberdade e garantias que regulam. denominados por ele de restrição da restrição. os direitos humanos comportam derrogações. Jorge Miranda81 indica aspectos que devem ser observados quando do estabelecimento de limites aos direitos fundamentais. 7) as leis restritivas não podem diminuir o conteúdo essencial dos direitos. De forma esquemática.38 infraconstitucionais. o que a doutrina tem designado de limites imanentes80. COELHO. Dessa forma.

entre a restrição e o direito. .39 8) as restrições devem se ater ao fim proposto. bem como reconhecer os limites dos limites. 10) na dúvida. não podendo extrapolar tal finalidade. deve se privilegiar este em detrimento daquela. passa-se à análise das relativizações ao direito de reunião no sistema jurídico brasileiro. Após analisarmos a possibilidade de impor limites aos direitos fundamentais. 9) as restrições devem limitar-se a salvaguardar outros interesses constitucionalmente protegidos. só adotadas quando não houver outro meio de alcançar o fim pretendido.

as restrições previstas na Constituição podem estar no próprio inciso XVI. 5º. evidencia-se. Ademais. b) relativizações expressas no texto da Constituição. temos ainda as relativizações implícitas que decorrem da análise sistemática do tema. art.40 5 A DISCIPLINA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO BRASIL Apesar do demonstrado até o momento no concernente às possibilidades de se relativizarem os direitos fundamentais. art. por último. que estatui o direito de reunião.82 Assim. fora do texto constitucional. 2011). Parte da dificuldade de se compreender tais restrições ocorre em decorrência da disciplina do direito de reunião previsto no Brasil. Outrossim. a complexidade do tema e a necessidade de investigá-lo. 5º da CRFB. 5º. (BRASIL. ainda encontramos entre os juristas aqueles que acreditam que “as restrições ao direito de reunião são unicamente as que estão previstas na Lei Magna. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Na tentativa de se criar uma proposta mais didática para o estudo dos limites do direito de reunião. ou seja. mas fora do inciso XVI. art. e não na lei ordinária”. as insculpidas expressamente no inciso XVI. outra vez mais. e. 82 Petição Inicial da ADPF 187. Temos normas que disciplinam esse direito que são expressas dentro da própria Constituição e esparsamente. d) restrições constitucionais expressas em lei ordinária. passaremos a analisá-lo a partir de quatro categorias: a) relativizações operadas pelo próprio preceito que estatui o direito fundamental. . c) limites implícitos ao direito de reunião. As relativizações ao direito de reunião não estão redigidas de uma forma sistematizada. bem como expressas em outros artigos e incisos da Constituição.

Assim. será analisado cada constitucional do direito de reunião. 5º da CRFB. Dessa forma. art. torna evidente que os estrangeiros não residentes no país que estejam em trânsito 83 BRASIL.1. à igualdade. nos termos seguintes: [. 5º são garantidos apenas aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país. DA CONSTITUIÇÃO. o assunto não se esgota naquele preceito. art. 1988. 5º. 5. pode-se afirmar que a previsão constitucional do direito de reunião por si só já regulamenta esse direito. 5º da CRFB deixa claro que os titulares dos direitos e das garantias são mais numerosos do que o aparentemente previsto no caput do próprio art. sem distinção de qualquer natureza. inicialmente será feita a análise das restrições insculpidas no próprio inciso XVI. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. XVI.1 Todos Podem Reunir-se Acerca do termo “todos”. 5º. quando o inciso XVI estabelece que “todos podem reunir-se”. e outros carecem de uma análise mais detalhada. como partida para o detalhamento dos limites ao direito de reunião em nosso sistema jurídico.. 5º. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. normas segregadoras como ocorria no regime do Apartheid inquestionavelmente não são aceitas. elemento semântico da garantia 5. Pela regra do caput. Sobre esse ponto. apesar do detalhamento feito pela norma constitucional. à segurança e 83 à propriedade. ART. in verbis : Art. Em virtude do grau de detalhamento previsto no inciso XVI. interessante é que o inciso XVI. Assim. não restam dúvidas acerca de sua amplitude. art.. .41 Assim. temos que os direitos previstos no art. Todos são iguais perante a lei.] Assim.1 RESTRIÇÕES INSCULPIDAS NO INC. 5º. Entretanto. alguns pontos ficaram por se regulamentar.

está tutelada pelo direito de reunião a manifestação que “não se devota à conflagração física”. a priori. 488. p. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.. que almejem agredir gays. inconstitucional. também possuem o direito de reunião assegurado. COELHO. 86 PERALES. 2010. Dessa forma. temos também a que pode ocorrer reflexamente em virtude da reunião.g.84 diz o texto da Constituição. apesar de a literalidade do caput do art. não será o exercício de um direito. 87 MENDES.42 ou provisoriamente estabelecidos em solo brasileiro. índios. 2009. Se assim o for.. a manifestação não pode ter como desiderato ou como consequência a lesão à integridade física ou ao patrimônio. afirma-se que são titulares do direito de reunião todas as pessoas naturais.87 Além da violência operada pelos próprios manifestantes. estrangeiros. 1988. e sim o seu abuso86. Meios pacíficos referem-se à ausência de propósito de quebrar a atmosfera de paz.. a norma que regulamenta o direito de reunião detalha a situação. ou seja. negros ou brancos.2 Reunião Pacífica A primeira exigência que se faz ao exercício do direito de reunião no Brasil é que o evento seja pacífico: “Todos podem reunir-se pacificamente [. Portanto.1. Em suma. manifestações xenofóbicas ou de cunho nazifascista. estão eivadas de inconstitucionalidade. p. “por reunião pacífica entende-se aquela que não busca a conflagração física”. BRANCO. 5. e. 5º não os incluir. . 788. CARVALHO. 2003.85 Assim. a manifestação deve ser pacífica e também ser diligente para não gerar violência 84 85 BRASIL.]”. uma passeata organizada por ativistas mais radicais. Na África do Sul. contrários à globalização e que vise causar danos materiais a estabelecimentos comerciais como o Carrefour ou o McDonalds seria. De igual modo. Essa exigência já havia sido elencada nas constituições brasileiras de 1937 e de 1946. Naquele país.

ou por qualquer outro meio. 2010. p. sendo deflagrada por pessoas estranhas ao agrupamento”. BRANCO. 88 (5) No person present at or participating in a gathering or demonstration shall by way of a banner. poderá por banner. ou alguns estão armados. speech or singing or in any other manner incite hatred of other persons or any group of other persons on account of differences in culture. COELHO. a ação da polícia também deve ser específica. language or religion.89 Ainda acerca da violência. O direito de reunião não se descaracteriza se a violência que venha a ocorrer lhe é externa. . 89 MENDES. abrange arma de fogo e arma branca. 488. um. poderá praticar qualquer ato ou proferir quaisquer palavras calculadas ou que sejam suscetíveis de causar ou estimular 88 a violência contra qualquer pessoa ou grupo . em se tratando de incidência pontual. 488. Como já mencionado alhures. 2010. (6) No person present at or participating in a gathering or demonstration shall perform any act or utter any words which are calculated or likely to cause or encourage violence against any person or group of persons. nos seguintes termos: (5) Nenhuma pessoa. língua ou religião. segundo Gilmar Mendes. placard. race. “não é violenta a reunião que atraia a reação violenta de outrem. não basta ter um manifestante armado para que a autoridade pública possa restringir o direito de reunião. não estimular a violência em outras pessoas ou grupos. 90 MENDES. em razão de diferenças culturais. sexo. presente ou participando em uma reunião ou manifestação. É praticamente lugar comum na doutrina pátria que o termo é lato sensu.43 de forma indireta.90 5. sex . ou seja. p. o tribunal constitucional já decidiu serem proibidas manifestações com alcance intimidatório para terceiros. Na Espanha. essa relativização esteve presente em todas as previsões constitucionais do direito de reunião no Brasil. incitar o ódio de outras pessoas ou grupos. Para o direito brasileiro. temos também a questão da violência psíquica.3 Reunião sem Armas A previsão de não poder ter armas nas manifestações vem desde a Constituição francesa de 1791. BRANCO. COELHO. Além disso. (SOUTH AFRICA.1. (6) Nenhuma pessoa. “Se na reunião. presente ou participando de uma reunião ou manifestação. 1993. de raça. cartaz. fala ou canto. Tradução livre do autor). ou seja.

94 BRASIL. 93 BRASIL. Não faria sentido a Constituição vetar de comparecer armadas em uma reunião as pessoas que já não poderiam portálas em uma situação trivial. posto que este direito é individual”. 2004. Aliás. Assim. 2003. p.94 esta pessoa não poderá portá-la durante a realização do evento. 1984. afirma-se que. policiais ou demais classes que detenham o porte de arma. p. Sobre esse 91 92 FERREIRA. Há de se atentar para o fato de que essa limitação é também uma restrição constitucional momentânea ao porte de arma adquirido legítima e legalmente. a ação do poder público deve ser em desfavor do cidadão que estiver armado e não em prejuízo do evento como um todo. esses não poderão levar consigo o armamento durante a reunião.91 Ou seja.826/0393 e de seu Decreto regulamentador.826/03 e a norma que a regulamenta. respectivamente. Presidência da República. 1989. apesar de serem instrumentos de trabalho no campo ou em um açougue. então. Por isso. 365. desaparecer o direito de reunião. 5º da CRFB/88.123/04.44 não faz com isto. no atinente às armas de fogo. Ainda que o indivíduo que tome parte de uma reunião tenha o porte de arma nos termos da Lei 10. uma foice ou uma faca. art. que prosseguirá normalmente 92 com os demais participantes que não estejam armadas. a expressão “sem armas” se refere tanto a armas de fogo como a armas brancas. essa parece ser a mens legis do texto constitucional. pois. o objetivo seria proibir de comparecer armadas em reuniões exatamente as pessoas que possuem o porte da arma de fogo. 10. Como já mencionado. o Decreto n. bem como na proibição ao uso de armas de fogo em eventos com aglomerações de pessoas disciplinados pela Lei n. MELLO FILHO. Assim. 142. 95 Verifica-se que essa interpretação encontra fundamento na própria leitura lógico-literal do inciso XVI. . No mesmo sentido. em uma manifestação por certo não serão utilizadas para a finalidade para a qual foram criadas. podem ser consideradas armas brancas. nas manifestações de militares. Presidência da República. 5. afastá-la da reunião. o ministro Celso de Mello Filho afirma que: A polícia não pode dissolver a assembleia pelo fato de se encontrar portando arma alguém que dela participa. Cabe-lhe desarmar tal pessoa ou.95 nem mesmo de maneira velada.

2003. 489. Peculiar é a regulamentação do direito de reunião em Portugal. (PERALES.] entende-se que o termo deve ser compreendido não somente no sentido estrito. proteger da chuva). 8º . manifestações ou desfiles em lugares públicos ou abertos ao público incorrerão nas penalidades do crime de desobediência. Dessa forma. As pessoas que forem surpreendidas armadas em reuniões.. 2. . en buena medida unido a la primera exigencia. em que o artigo 8º do Decreto-Lei que regulamenta as reuniões em terras lusitanas determina: Art. Nesta também há a previsão de que a manifestação ocorra sem armas. também estão proibidos97. isto é. comícios. mas também qualquer instrumento que possa ser utilizado como tal (taco de beisebol ou guarda-chuvas quando não tenham como finalidade a 96 que lhe seja própria. tendo sido demonstrado apenas para efeitos comparativos. para a autora. Nesse caso. Tradução livre do autor). o argumento apontado por Perales. por ter uma redação idêntica ao direito brasileiro. 98 PORTUGAL. COELHO. 96 Con relación al término “sin armas”. Percebe-se. independente de outras sanções que caibam no caso. 1974. 97 MENDES. se desvirtuados de sua finalidade podem ser utilizados como meio de agressão. BRANCO. o termo não deve ser entendido em sentido estrito: Com relação ao termo “sem armas” [. podemos mencionar o que Ascención Perales discorre acerca da Constituição espanhola. relativo às armas brancas. se entiende que hay que comprender en él no sólo las armas en sentido estricto sino también cualquier instrumento que pueda ser utilizado como tal (bates de béisbol o paraguas cuando no tengan como finalidad la que les es propia. esto es proteger de la lluvia).1. objetos para a prática de esportes como bastões ou outros elementos como produtos químicos.. 2010. Os promotores deverão pedir as armas aos portadores delas e 98 entregá-las às autoridades. desse modo. e. que a norma atribui ao organizador do evento a responsabilidade de desarmar as pessoas armadas que compareçam às reuniões.45 ponto. tal situação não se aplica ao direito brasileiro. Assim. p. que. também encontra fundamento em nosso sistema jurídico.

BRASIL.. p. a história do direito de reunião no Brasil demonstra que as constituições de 1934. ocorre que as regras são diversas. O ministro Gilmar Mendes100 pontua que mesmo em locais fechados o direito de reunião pode exigir regulamentação. 489. XVI. 2010. 2010. tais como prédios. e. p. está revogado tacitamente101 o artigo 3º da Lei 1. De forma alguma pretendeu o legislador proibir os protestos em locais privados. O mesmo ocorre com qualquer outro bem público. No tocante aos locais para se realizarem as reuniões. Uma manifestação. BRANCO. Ocorre que a disciplina das reuniões em locais privados é diversa. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. COELHO. fl. ao designar o local. em edifício que funcione órgão estatal deve obedecer às regras de direito 99 MENDES. O exemplo citado pelo magistrado é o de igrejas que em virtude do volume do som podem prejudicar o direito ao descanso da comunidade vizinha ao templo. 101 MENDES. não é de livre acesso. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.46 5. da CRFB.99 não precisando sequer obedecer o previsto no inc. COELHO. edifícios e parques. Apesar de ser um bem público. não é aberto ao público. 100 . 1950.4 Locais Abertos ao Público A expressão “em locais abertos ao público” quer dizer que todo cidadão tem o direito de se reunir até mesmo em locais abertos ao público. não poderia a autoridade frustrar ou impossibilitar o direito de reunião. 1946 e 1967 permitiam ao poder público designar o local das manifestações. a residência oficial do presidente da República. 400.g. 5º. Devemos pontuar também a distinção entre “locais abertos ao público” e “lugares públicos”. BRANCO.207/50102 que permite que o poder público defina quais as praças poderiam ser destinadas ao exercício do direito de reunião. sendo que as duas primeiras faziam a ressalva de que. Por certo. Não é que as reuniões em locais fechados prescindam de limites ou regras. 2007. art.1. Ante o dispositivo constitucional vigente. 102 BRASIL. o Palácio da Alvorada. 490. que é um bem público.

618. mas justamente por se tratar da incidência de regime administrativo próprio para a espécie (uso de prédio público com destinação específica)”. art. Essa expressão se faz de extrema importância tendo em vista o histórico do direito de reunião no país No que tange aos limites de atuação da autoridade. propriamente uma relativização do direito de reunião. .é assegurado aos servidores públicos e às suas entidades representativas o direito de reunião nos locais de trabalho em comum acordo com a administração. além dos previstos na Constituição Federal: [. os parques municipais. por exemplo. 5º. Como exemplo de lei que assegura o direito de se manifestar dentro das repartições em que se trabalha. impedindo as interferências nas reuniões pacíficas e lícitas em que não haja lesão ou perturbação da ordem 103 104 TAVARES. Trata-se em verdade de uma garantia de que o Poder Público não pode analisar o mérito de se o evento deve acontecer ou não. logo. 2012). cita-se a norma soteropolitana. p. 5. São direitos dos servidores públicos.1.. Em Salvador. não seria ilegítima a exigência de uma autorização do responsável pelas instalações físicas ou de um permissivo legal. 2009. que são fechados em determinados horários.103 De forma idêntica. a Lei Orgânica104 do município garante ao funcionário público o direito de fazer reuniões nos próprios locais de trabalho.. as manifestações públicas em locais abertos ao público que possuem normas para a entrada ou permanência como. percebe-se no dispositivo constitucional que o texto “veda atribuição às autoridades públicas para análise da conveniência ou não de sua realização. 124. (SALVADOR.] XXXVIII . Art. Tavares afirma que “isso é assim não porque a liberdade de reunião em si dependa de autorização (ou licença). não é. também devem obedecer a tal regramento.5 Independente de Autorização O termo “independente de autorização” previsto no inciso XVI.47 administrativo.

Maria Fernanda Salcedo Repolês107 lembra um emblemático precedente brasileiro sobre o Direito de Reunião. p. No Habeas Corpus 936 de 1897. inviabilizá-la ou dificultá-la. ou seja. não há fundamentos jurídicos que proíbam sua não 105 106 MORAES. segundo a Lei n.105 Interessante atentar para o fato de que no ordenamento anterior à CRFB o quadro era um pouco distinto. 5. cabe salientar que a vedação normativa é pertinente quando a ocorrência de uma reunião frustrar a outra.106 que regulamentava o direito de reunião. bem como definia anualmente os lugares possíveis para o exercício desse direito em lugares públicos. 108 REPOLÊS. discutiuse a liberdade de reunião e expressão do Centro Monarquista de São Paulo que foi fechado pela polícia.48 pública”. a título de exemplo. os eventos poderão acontecer simultaneamente. a autoridade policial poderia de ofício suspender ou impedir em algumas circunstâncias o direito de reunião. logo. 2008.6 Não Frustrar Outra Reunião Anteriormente Convocada No que tange à interseção entre reuniões.207/50. p. 68. 1950. 89-91. pois tratava-se de associação foco de perigosas ações contra a existência e a segurança dos poderes instituídos. Se não houver motivos fáticos para que o ato político ocorra. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.”108 Dessa forma.1. 1. BRASIL. se uma praça comportar duas reuniões não conflitantes entre si. A discussão chegou ao Supremo Tribunal Federal que manteve a decisão do chefe de Polícia de São Paulo. . pois. 2006. 107 REPOLÊS. 90. Assim. 2008. impedindo a discricionariedade administrativa acerca da conveniência ou oportunidade da reunião. ao argumento de que “o Centro não poderia ser amparado pela liberdade de reunião. p. é notório que a Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988 preocupou-se em estatuir um direito com amplos limites para seu exercício.

Entretanto. Interessante ressaltar que. 5. trata-se de mera notificação.7 Prévio Aviso Diferentemente de autorização. Há que se ressaltar também. desde que os promotores de uma reunião avisem à autoridade de sua realização. por lisura e transparência. a Constituição determina que haja um prévio aviso. se marcada em um mesmo local e horário. sugere-se que seja levada em consideração a data do aviso ao poder público. a segunda reunião deve ser reagendada: Assim. 490. FERREIRA.49 realização. p. Entretanto.110 Entretanto. pois o impedimento constitucional é a frustração de outra reunião. só pode ser considerada inconstitucional a reunião que frustrar. no sistema constitucional 109 110 MENDES. A Constituição de 1967 inovou na história do direito de reunião brasileiro quando estabeleceu a possibilidade de em alguns casos se exigir uma comunicação prévia. ou seja. Se assim não ocorrer. cabe a autoridade impedir a sua realização para evitar possíveis confrontos. é claro. deverá ser priorizada a que tenha sido convocada109 ou marcada precedentemente. não parece ser essa a melhor leitura do texto constitucional. BRANCO. 5º. Indicará a autoridade outro local ou locais para que então seja realizada a reunião não ocorrendo destarte nenhuma frustração ao direito de reunião. 143. para se descobrir qual dos atos públicos foi agendado de forma precedente. impossibilitar a ocorrência de outra. p. a restrição de uma das reuniões poderá ensejar favorecimentos ilegítimos a um dos grupos por parte dos agentes do Estado. . 2009.1. Na hipótese de conflito. que a reunião no mesmo local implica também que seja no mesmo horário. 1989. se for inviável a ocorrência de duas ou mais reuniões de forma harmônica. existem doutrinadores que argumentam que. Pela literalidade do inciso XVI. Como se percebe pela leitura do texto constitucional. se outra entidade comunicar que pretende realizar uma reunião no mesmo local. art. COELHO. confirmado pelo protocolo fornecido pela Administração.

617. em casos devidamente justificados. e se informem os respectivos domicílios – não somente para que as autoridades públicas saibam com quem tratar. Caso contrário. p. ainda que segundos antes do evento se iniciar. bastaria um aviso que ocorresse antes da realização do evento. Porém. frustrar a ocorrência do evento ou comunicar o fato ao Ministério Público para adoção de medidas cabíveis em ralação à organização do evento. cumpre também que se apontem quem são os organizadores do ato. 2009.112 consoante a lição de André Ramos Tavares. o ministro do STF Gilmar Mendes assevera: É possível. não se pode deixar de pensar a norma dentro dos princípios do Direito. independe da licença da polícia. “sem a comprovação de que houve a devida comunicação às autoridades públicas.207. pretenda celebrar outro comício. Além do lugar. Atualmente a Constituição estabelece apenas um “prévio aviso”. como também para que se fixem os responsáveis civis por danos causados a terceiros. podendo nela intervir a polícia”. para se garantir a constitucionalidade das reuniões. sempre que cabível. em caso de ajustes necessários para a realização do ato.” (BRASIL. deverá fazer a devida comunicação à autoridade policial. Por isso. § 2º “A celebração do comício. o direito contra qualquer que no mesmo dia. o instrumento do prévio aviso deverá especificar as medidas de segurança que a organização do 111 Lei n. não se caracteriza a reunião como livre. decorrentes de omissões dos organizadores da manifestação. do itinerário. Como o direito de reunião é exercido a partir da convocação de líderes ou associações (e essa convocação já é exercício do direito). é indispensável que o aviso indique o objetivo da reunião. dentre eles o da razoabilidade. em tese. pois. 1. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. em praça fixada para tal fim. Acerca do conteúdo do aviso. Art. da data e do horário de início e da duração prevista para o evento. mas o promotor do mesmo. também. pelo menos vinte e quatro horas antes da sua realização. 112 TAVARES. pelo exame das funções que exerce o aviso. hora e lugar. a lei regulamentadora111 do direito de reunião determinava que se fizesse a comunicação à autoridade policial pelo menos 24 horas antes de sua realização. A necessidade do aviso à autoridade não é de somenos importância. há que se ter em mente que o lapso temporal entre o aviso e o início da reunião dever ser suficiente para que o poder público tome as medidas necessárias para que a reunião ocorra de forma segura para todos. Se analisada a literalidade do texto. descobrir-lhe o conteúdo que deve apresentar. a fim de que esta lhe garanta. 1950).50 anterior à CRFB/88. . Assim. segundo a prioridade do aviso. de 25 de outubro de 1950. 3º. o poder público pode.

sob a égide do Estado Democrático de Direito a presença de policiais serve. Assim.116 Importante frisar que esse tempo de antecedência deve servir para que o Poder Público adote todas as medidas necessárias para a ocorrência do evento117. A falta do aviso prévio pode comprometer a proteção ideal dos direitos de outrem e da ordem pública. p. e não para inibir essa garantia jurídica. 108. Trata-se de medida derradeira. por isso. Por esse motivo. 115 PORTUGAL. seria importante uma norma regulamentadora que estipulasse todas as informações que devem conter o 113 114 MENDES. 2008. porém. . 2009. exige que a comunicação seja por escrito e com no mínimo dois dias de antecedência. Não parece. a própria lei regulamentadora abre espaço para as situações extraordinárias que justifiquem a urgência na organização da reunião. o Decreto-Lei 406/74. assumindo proporções incontroláveis. interessante é o sistema jurídico espanhol. ESPAÑA. Sobre esse ponto. a omissão pode conduzir a que o legislador comine sanções administrativas e mesmo penais. dessa forma. 491. sobretudo. COELHO.115 que regulamenta o direito de reunião. 1974. para garantir a segurança e o direito de reunião dos manifestantes em detrimento de outros populares que pretendam frustrá-la. Em Portugal. para a defesa de outros valores constitucionais e a que não se deve recorrer pela só falta do cumprimento da formalidade do anúncio com 113 a antecedência razoável do exercício do direito de reunião . No Chile. BRANCO. 117 MAGALHÃES.51 evento pretende adotar e quais as que sugerem sejam assumidas pelos órgãos de segurança pública. a norma estipula dois dias de antecedência. seja para fazer o devido fechamento de avenidas e desvios de fluxo de veículos nos horários estipulados. por sua vez. em que a violência se torna iminente ou já instalada. Naquele país a lei regulamentadora do direito de reunião determina em seu artigo 8º que a comunicação deve ser feita entre 10 e 30 dias antes do evento. que se está diante de um dever positivo do Estado. 1983. Ademais. A dissolução da reunião é medida apropriada aos casos extremos. que o descuido na satisfação desse dever seja pressuposto suficiente para que as autoridades dissolvam a reunião. nesses casos o aviso pode ser feito em até 24 horas114 antes do início do ato. 116 CHILE. 1983. Observa-se. p. seja prevendo policiais e agentes de trânsito necessários para acompanhar e garantir o protesto.

pois assim prevê o § 2º. Para o autor e ministro. ainda está em vigor apesar de ter sido criada sob a égide da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946. cabe mencionar mais um parecer de Gilmar Mendes. 52. Se esse entendimento estiver correto. BRANCO. Tradução livre do autor). 2010. esta poderá até mesmo se opor à realização da reunião. Chile. essa postura deve ser devidamente fundamentada e ainda ser sujeita ao controle do ato administrativo.52 prévio aviso. 1. órgão de proteção dos direitos humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). 119 MENDES. Assim. tal como ocorre em Espanha.119 Por certo. p. COELHO. Cabe ainda ressaltar que no Brasil temos o fenômeno da recepção. 3º. no que não contraria a Constituição. 491. Até mesmo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). p. as long as this requirement has the purpose of informing the authorities and allowing them to take measures to facilitate the exercise of the right without significantly disturbing the normal activities of the rest of the community. 2001.207 de 1950. a necessidade de se comunicar a realização de manifestações deve ser de vinte e quatro horas. Portugal. quando a Administração receber o aviso. Para a Comissão: A exigência estabelecida em algumas leis de que uma notificação prévia deve ser dada às autoridades antes de um protesto social realizado em espaços públicos é compatível com o direito de reunião. já se posicionou afirmando que a exigência de um aviso prévio não é contrária ao direito de reunião. art. da Lei. contanto que essa exigência tenha o objetivo de informar às autoridades e propiciar a elas que adotem medidas para assegurar o direito de reunião sem que este prejudique substancialmente as atividades normais do resto da comunidade ou para tornar possível que o Estado adote medidas necessárias para proteger 118 adequadamente os participantes do protesto. é possível sustentar que a Lei n. . entre outros países. em casos extremos e devidamente comprovados de perigo. Encerrando a discussão sobre o prévio aviso. África do Sul. 118 The requirement established in some laws that advance notice be given to the authorities before a social protest may be held in public places is compatible with the right of assembly. or making it possible for the State to take necessary steps to adequately protect those participating in the demonstration (INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS.

desde que tenha pertinência temática e territorial com o evento. para uma manifestação dentro dos limites de um determinado município. percebe-se uma abertura muito ampla do dispositivo constitucional.53 5. Assim.845/10. desde que essa tenha certo grau de legitimidade para o caso. na parte que regulamenta o uso dos logradouros públicos. o órgão municipal de trânsito. um aviso feito ao Superintendente de Relações Internacionais do Estado acerca de uma manifestação dos funcionários municipais da educação. a unidade da Polícia Militar com responsabilidade territorial respectiva. o Comandante do Batalhão de Choque. Isso porque. 9. avisar a Prefeitura Municipal. sugere-se que seja notificada uma autoridade qualquer. A ausência de uma norma regulamentadora que defina quem seria o órgão responsável para receber o aviso causa certos transtornos. in verbis: Seção II – Da Passeata e da Manifestação Popular . o Delegado de Polícia e até mesmo o Ministério Público seriam exemplos de autoridades que poderiam ser notificadas. Não faria sentido se notificar uma autoridade do município A para uma reunião que ocorrerá no município B. por exemplo. Contudo. Igualmente desprovido de razão seria o aviso que informasse a uma autoridade com a qual não se guarda nenhuma pertinência temática. em virtude da indefinição do vocábulo. in casu. Código de Posturas de Belo Horizonte. Assim.8 Autoridade Competente Acerca do termo “autoridade competente”. deve-se ter em mente que. No município de Belo Horizonte a Lei Municipal n.1. forçoso é compreender de forma ampla o termo autoridade. estatui que a Unidade de Choque da Polícia (Batalhão de Eventos da Polícia Militar) seja a autoridade a ser notificada. não caberia restrição sem uma previsão legal de qual seria a autoridade a ser informada.

123 MIRANDA. 381.122 5. com a antecedência necessária.121 define que as comunicações para efeitos de passeatas e manifestações devem ser feitas às subprefeituras e à companhia de trânsito da cidade. 2004. p.2 RELATIVIZAÇÕES NA CONSTITUIÇÃO. quando não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local. que “Consolida as Posturas da Cidade do Rio de Janeiro e dá outras providências”. No município do Rio de Janeiro.881. de 18 de setembro de 2008. em seu artigo 51. 122 SOUTH AFRICA. 58 – A realização de passeata ou manifestação popular em logradouro público é livre. tais como horário. Art. II – tenha sido feita a comunicação oficial ao Executivo e ao Batalhão de Eventos da Polícia Militar de Minas Gerais. às Subprefeituras e às Coordenadorias Regionais da Companhia de Engenharia de Tráfego CETRIO. .54 Art. ART. XVI. 5º Em virtude de circunstâncias excepcionais tornam-se aceitáveis as relativizações de determinados direitos havidos como fundamentais. trajeto e data do evento. 24 (vinte quatros) horas de antecedência. informando dia. desde que: I – não haja outro evento previsto para o mesmo local. (RIO DE JANEIRO. Jorge Miranda123 lembra o exemplo do Riot Act inglês. MAS FORA DO INC. dispensando a notificação à polícia. 120 121 BELO HORIZONTE. a norma regulamentadora estatui não só a autoridade. local e natureza do evento. Essa norma foi um ato do parlamento britânico que autorizava autoridades locais a declararem qualquer grupo de 12 ou mais pessoas ilegais. bastando que sejam comunicadas. 29. determinando negociações prévias para discutir assuntos atinentes à manifestação. 2008. no mínimo. independem de autorização formal de qualquer órgão público. 2012). Na África do Sul. 1993. o Decreto n. O Ato foi editado no início do século 18 objetivando prevenir distúrbios. Nesses termos. III – não ofereça riscos à segurança pública120. como passeatas ou manifestações. 51. pois. mas também todo o procedimento a ser adotado entre o agente estatal e um representante dos organizadores. com. As reuniões pacíficas. segundo a própria norma.

dentre as seguintes: I – restrição ao direito de: 126 a) reunião. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.O decreto que instituir o estado de defesa determinará o tempo de sua duração. 1374. as profundas crises econômicas. 136. até mesmo no seio de associações. Na CRFB/88 a disciplina dos períodos de crise. 126 BRASIL. entre outras. 2012. ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional. ainda que exercida no seio de associações [. ou Sistema Constitucional das Crises. de Sítio e a intervenção federativa. 124 125 GUTENBERG PROJECT. como exemplo dessa situação. essas situações anormais são caracterizadas pela ruptura do equilíbrio institucional. p. a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza.125 Dessa forma.55 diversos tumultos assolavam a ilha naquele período perturbando a paz pública. Assim. as medidas adotadas devem se vincular a uma necessidade e serem temporárias.]. decretar estado de defesa para preservar ou para prontamente restabelecer.124 Atualmente.. poderá conter a restrição ou suspensão de tal direito. apenas. O Presidente da República pode. 1988. “as medidas excepcionais devem ser necessárias. Para Kildare Carvalho. Destaca-se. compreende os Estados de Defesa. . A Constituição estatui que nas hipóteses de decretação de Estado de Defesa o direito de reunião pode sofrer constrições maiores do que em períodos de normalidade. in verbis: Art. as inundações. que o decreto que instituir o período de crise. CARVALHO. é possível mencionar as guerras. em locais restritos e determinados. Nesses casos a própria Constituição estipula medidas destinadas à defesa do Estado.. nos termos e limites da lei. as medidas coercitivas a vigorarem. adequadas e proporcionais para o restabelecimento da normalidade institucional”. as epidemias. 2009. § 1º . especificará as áreas a serem abrangidas e indicará.

Na vigência do Estado de Sítio decretado com fundamento no art. também está prevista a possibilidade de relativização do direito de reunião. Nessa hipótese. Assim. p. só poderão ser tomadas contra as pessoas as seguintes medidas: [. Na lição de Márcio Luís de Oliveira128 na primeira. 137.56 Por sua vez. 139 da Constituição permite: Art. relativiza-se o exercício do direito de reunião por completo. o art. 127 128 BRASIL. não foram elencadas no preceito que estabelece o direito de reunião. 139. contudo. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. de forma limitada. I. na própria Constituição já se depara com possíveis constrições ao direito de reunião que.3 LIMITES IMPLÍCITOS AO DIREITO DE REUNIÃO Já foi demonstrado nesta pesquisa monográfica o posicionamento da doutrina ao afirmar que os limites ao direito de reunião não se esgotam nas relativizações somente expressas. Acerca do tema. . a priori. a disciplina do Estado de Sítio está prevista nos artigos 137 e seguintes. Assim. estudaremos as constrições ao direito de reunião estabelecidas pela licitude dos propósitos. OLIVEIRA... suspensiva.] 127 IV – suspensão da liberdade de reunião. há também a categoria que denominamos de limites implícitos. enquanto na medida restritiva o direito pode ser exercido. mas por período determinado. 1988. Destaca-se que no Sistema de Crises pode ocorrer tanto a relativização suspensiva quanto a restritiva do direito de reunião. apesar de não legislada. 5. 2011. Nesse sentido. Tal classe é deduzida logicamente. 444.

788. 131 MENDES. não se pretende restringir o Direito à lei. Entre os autores que entendem a licitude de propósito enquanto limite ao direito de reunião é possível citar o magistrado mineiro Kildare Carvalho129. o paradigma de validade é o próprio homem. 489. Quando se diz que o direito de reunião deve ter objetivo lícito. no caso conhecido como Marcha da Maconha. pois. . A finalidade lícita.3. condutas contrárias à lei. 142. Em trabalho sobre a desobediência civil. não pode ser resolvida pela simples submissão dessa àquela. a própria reunião seria contrária ao Direito. 132 FERREIRA. 364. 133 RIBEIRO. se ilícito o propósito. logo. p.1 Licitude dos Propósitos Outro desses limites implícitos apontados pela doutrina é a licitude de propósitos. p. p. essa medida seria decorrente de um pressuposto lógico. que são “aquelas desobediências realizadas em respeito à Constituição e aos princípios de justiça que nela são reconhecíveis e que a sustentam”. caso lastreadas em fundamentos constitucionais. Para esse autor. a professora Maria Fernanda Salcedo Repolês ensina: 129 130 CARVALHO.131 bem como por Wolgran Junqueira Ferreira132 e por Deborah Macedo Duprat de Brito Pereira quando atuou como Procuradora Geral da República na inicial da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 187. COELHO. 1984. 1989. A liberdade de reunião pode contrariar uma lei e. No Estado Democrático de Direito a antinomia entre a autoridade da lei e a razão.57 5. 2010. p. podem ser consideradas conforme o Direito vigente. 2004.133 segundo o professor Fernando Armando Ribeiro. ser legítima. portanto formalmente ilegais. Assim. ainda assim. 2009. A legitimidade do sistema jurídico é arquitetada sobre pilares antropocêntricos. p. MELLO FILHO. Nessas hipóteses caracteriza-se a Desobediência civil. 217. também é apontada pelos ministros José Celso de Mello Filho130 e Gilmar Mendes. BRANCO. enquanto exigência para o direito de reunião.

p. essas restrições ocorrem “sem qualquer autorização constitucional expressa”135.: o direito de manifestação está sujeito aos limites da “não violência” e aos limites resultantes da necessidade de proteção do conteúdo juridicamente garantido dos direitos dos outros. . 2003.4 RELATIVIZAÇÕES INFRACONSTITUCIONAIS AO DIREITO DE REUNIÃO Pelo discutido no Capítulo 4. e não somente pelo viés da lei positivada. 19. que o direito de manifestação (art. 45. na qual se lê: “Art. embora não preserve a legalidade do Direito. ou seja. não é antijurídico.58 A Desobediência Civil é um ato público lícito. (ex. 450-451. 2003 p. 2005). CANOTILHO. p. a licitude dos propósitos deve ser analisada em face do sistema jurídico como um todo. (PORTUGAL. Os cidadãos têm o direito de se reunir. levanta uma pretensão de legitimidade do mesmo.. mesmo em lugares aberto ao público. restrições 134 135 REPOLÊS. a liberdade de 137 deslocação). A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação”. mesmo diante da omissão do legislador constituinte no que tange a possibilidade de estatuir limites infraconstitucionais ao exercício do direito de reunião. 137 CANOTILHO. 2). ou seja. Sobre tais Canotilho136 proporciona o seguinte exemplo: De qualquer modo. também aqui podem existir mediações restritivas. 45.]. 2003. assim. o que o diferencia de um crime. não pudessem ser restringidos por lei [.º. como por exemplo. embora consagrado no texto constitucional sem quaisquer restrições constitucionais directas e sem autorização de lei restritiva. pois. tal constrição encontra fundamento no sistema jurídico. sem a necessidade de qualquer autorização. por exemplo. pacificamente e sem armas. eles também sejam levados a questionar a juridicidade de uma lei. 5. 136 A citação feita por Canotilho refere-se ao texto da Constituição da República Portuguesa. Aquele que pratica uma desobediência civil quer que o máximo possível de pessoas o vejam transgredindo a lei injusta e que.134 Assim. O crime pode assumir um caráter clandestino e é sempre um ilícito e um ato antijurídico.. verifica-se que.º (Direito de Reunião e de Manifestação) 1. embora ilegal. 450. Não se compreenderia. 2.

se passará a analisar algumas restrições ao direito de reunião que existem em nosso sistema. com lastro nele.1 Os Direitos das Demais Pessoas Nossa Constituição se omitiu duplamente no que tange ao assunto da presente pesquisa. 32. a omissão não afeta o sistema jurídico como um todo. as demais pessoas têm o dever de respeitar esse direito. Direito e dever são como as faces de uma mesma moeda. Impossível pensar no direito de uma pessoa sem o correlato dever do outro de respeitá-lo. 5. . as demais pessoas têm o dever de respeitar esse direito e. mesmo tratados de direitos humanos já preveem como limites aos direitos humanos os direitos das demais pessoas. apesar das omissões da Constituição brasileira na matéria de deveres fundamentais e concorrência de direitos. é no pertinente às restrições dos direitos fundamentais. Destarte. A esse respeito. 1992. depende de transporte público para chegar ao local de serviço ou da ambulância para chegar ao hospital. pela segurança de todos e pelas justas exigências do bem 138 comum. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. se um cidadão tem o direito de locomoção. o direito inexiste sem o dever das demais pessoas de observá-lo. É o que se pode constatar na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica): Art. utilizar as vias públicas. e este pode exercê-lo nos termos legais. e. De certa forma esse hiato dificulta a compreensão dos reais contornos do direito de reunião. para exercê-lo plenamente. a outra. as demais pessoas têm o dever de respeitá-lo. não impedir o livre trânsito de veículos.59 Assim. 138 BRASIL.4. em decorrência dessa obrigação. numa sociedade democrática. Se há de um lado o titular do direito à propriedade. A primeira negligência é alusiva aos deveres fundamentais. Não obstante a falha. Se alguém tem o direito ao trabalho ou à saúde e.(2) Os direitos de cada pessoa são limitados pelos direitos das demais.

consoante jurisprudência do STF140. 2007. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 5º da Constituição. disciplinando que os tratados aprovados com quorum qualificado têm natureza de Emenda Constitucional.60 No mesmo sentido o Art. Em seu voto na ADI n. no art. Para o ministro. A Emenda Constitucional 45/2004 inseriu o § 3º. “numa situação como essa. O direito de reunião pacífica será reconhecido.141 No mesmo sentido o Advogado-Geral da União se posicionou: “a utilização de aparelhos sonoros por certo período de tempo. O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. 1966. bem como a limitação parcial de acesso a determinadas vias não ensejam restrições ao exercício de 139 140 BRASIL. ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das pessoas. a restrição do uso de carros. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Exemplo já discutido em jurisprudência brasileira é o uso de aparelho de som perto de hospitais. da segurança ou da ordem públicas. 1. não aprovados com quórum qualificado. fl. aparelhos e objetos sonoros mostrar-se-ia perfeitamente razoável”.139 O direito das demais pessoas caracteriza uma relativização infraconstitucional ao direito de reunião em virtude de que o Brasil é signatário de ambas as normas convencionais mencionadas – Pacto de São José e Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Por sua vez. no interesse da segurança nacional. no RE 466. 141 BRASIL.343-SP o STF reconheceu o valor supralegal dos tratados de Direitos Humanos não aprovados com quórum qualificado. os tratados que versem sobre direitos humanos. 378. o ministro Ricardo Lewandowski exemplifica que nas hipóteses de manifestações públicas com carros de som próximos a hospitais seria aceitável a relativização do direito. 21. E. hipótese na qual o direito à saúde prevaleceria. .969. em uma sociedade democrática. têm valor supralegal no sistema jurídico brasileiro. 21 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos estabelece o direito de reunião como direito fundamental com a seguinte redação: Art.

cresce também o número de reivindicações políticas que obstam o trânsito de veículos nas regiões de acentuada urbanização. Aumenta-se a cada dia o número de veículos em circulação e. Essa preocupação também foi demonstrada pelos juristas Evandro Guerra e Hebert Lourdes: A questão preponderante é que a legitimidade do propósito dos movimentos não pode confrontar com o bem-estar dos componentes da comunidade [. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. fl. no que diz respeito ao local em que são realizadas as concentrações: no centro da cidade... são sempre as principais da área central. à saúde. eleva-se a importância de reconhecer o conflito ou eficácia horizontal dos direitos humanos apresentada neste trabalho. 2002..] O acesso as vias públicas. um dever fundamental. toda a sociedade deve respeitar a garantia de manifestação. nas principais vias de acesso. em verdade. ainda assim. entre outros. 141. paralelo a esse crescimento. em suma. SOARES.] As vias escolhidas para as passeatas. os demais cidadãos também possuem direitos como o de locomoção. precisam ser garantidos. Em contrapartida. ao trabalho. p.] Primeiramente. que ao direito fundamental de um cidadão corresponde um deve para toda a sociedade143.61 legítimos direitos públicos subjetivos”.. fica impedido. 381. à educação. que se encontram em uma relação conflitual – concorrência – constante com o direito de reunião e. Verifica-se. caso prejudiquem o livre gozo de direitos de terceiros. a 142 143 BRASIL. que são reuniões em movimento. conforme já debatido outrora. [. para o caso em epígrafe.142 A questão dos ruídos decorrentes da reunião comportam restrições mesmo em locais privados. interrompendo total ou parcialmente o trânsito em horários e dias que conhecidamente já trazem um maior volume de veículos [. 2007. também já discutida.. Precisamente na temática dos conflitos de direitos. .. por parte de pessoas que optam por não participar das manifestações. Assim. A questão atinente ao direito de reunião exercido em avenidas e ruas das grandes cidades ainda tem outra peculiaridade: o da mobilidade urbana. A discussão do conflito de direitos vem acompanhada da teoria acerca dos deveres fundamentais.

723 veículos (um milhão. 2007. local onde. . ainda.148 constata-se um grande número de protestos que se utilizam das pistas de rolamento. quatrocentos e trinta e oito mil. Enquanto isso. 2012. Na Defesa Social no Brasil as cifras negras costumam ser tão altas que para analisar a criminalidade. também aflora quando se analisa o 144 145 GUERRA. no primeiro semestre de 2009. DENATRAN. apenas no município de Belo Horizonte. podem ser analisados alguns dados.147 Desconsiderando-se feriados e finais de semana e. mas não foram registradas por militar do BPTran mas por militar de outra unidade ou. em dezembro de 2011. 145 o município de Belo Horizonte possuía em 2001. o número de homicídios registrados é mais próximo ao número de homicídios verdadeiramente ocorrido. p. Para melhor estudar a questão.146 aumentou-se o número de pessoas e linhas de ônibus. a quem não é dado o direito de escolher o que ouvir ou onde ir. 148 In casu. foram acompanhadas pelos militares. pode-se verificar em relatório de unidade de trânsito que. quatro centos e oitenta) veículos registrados. A relativização do direito de reunião e a concorrência desse direito com a liberdade de ir e vir das demais pessoas. entende-se por cifra negra as manifestações em logradouros públicos que não foram acompanhadas por militares do BPTran bem como as que ocorreram. Isso porque. BRASIL. Muitos circunstantes.30. Segundo o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN). via de regra. 146 BRASIL. LOURDES. a economia prejudicada. pessoais. sequer foram registradas pela Polícia Militar. 2009. sociólogos se valem apenas do evento homicídio para avaliar objetivamente a segurança de determinada região. 2012. as vias urbanas continuam praticamente as mesmas. Aumento semelhante aconteceu nas demais cidades da Região Metropolitana. DENATRAN. Polícia Militar.65% maior. 706. sobretudo no centro da cidade. o mesmo município chegou aos 1. levando em conta o que os estatísticos denominam cifra negra. Dez anos mais tarde. os militares do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) acompanharam 66 (sessenta e seis) manifestações em vias públicas. um número 103. Também à guisa de ilustração.62 liberdade de trabalho tolhida. acontecem as manifestações. ainda.438. 147 MINAS GERAIS. setecentos e vinte e três veículos). econômicos e financeiros ficam comprometidos em face desses 144 movimentos .480 (setecentos e seis mil. Não é difícil imaginar quantos compromissos profissionais. se sentem agredidos pela imposição dos manifestantes.

63 tema sobe o viés do Direito de Trânsito. 1997b.2 Direito Eleitoral A Lei 9. por isso. a ocorrência do ato político-eleitoral não passa pelo crivo decisório da Administração. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Na hipótese. quando forem analisados alguns preceitos do Código de Trânsito Brasileiro. No caput do art. no âmbito da discricionariedade. Contudo. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. vinte e quatro horas antes de sua realização. o § 1º do art. Assim. 5. Por ora.504/97 ao estabelecer normas para as eleições também relativiza a garantia fundamental de reunião. Desse modo. deixando claro que não compete ao poder público deliberar. no mínimo. se concederá ou não a autorização. . 149 150 BRASIL. Por sua vez. é preciso ter em mente que o direito de reunião também encontra limites em todo acervo jurídico de direitos e garantias dos cidadãos. verifica-se que nesse preceito legal há somente a reiteração do disposto na Constituição. 1997b. segundo a prioridade do aviso. a fim de que esta lhe garanta. precisam ser harmonizados. partido ou coligação promotora do ato fará a devida comunicação à autoridade policial em. em recinto aberto ou fechado.4. 39 estipula: O candidato. 39 da mencionada lei constata-se que: “A realização de qualquer ato de propaganda partidária ou eleitoral. tal confluência será analisada adiante. ou seja. BRASIL. verifica-se circunstância na qual os direitos fundamentais dos cidadãos se colidem e se interpenetram e. o direito contra quem tencione usar o 150 local no mesmo dia e horário. não depende de licença da polícia”149.

cria a obrigação positiva para a autoridade policial. posto que pela norma “a autoridade policial tomará as providências necessárias à garantia da realização do ato e ao funcionamento do tráfego e dos serviços públicos que o evento possa afetar”. Já o § 2º do mesmo artigo apenas estabelece deveres à autoridade policial. 39.dos hospitais e casas de saúde. ou seja. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Além disso. para as questões de pleitos eleitorais a Lei 9. ressalvada a hipótese contemplada no parágrafo seguinte. o que força compreender que a comunicação do § 1º. dos Estados. a lei também faz alusão à autoridade policial. no mínimo. 1997b. portanto. também apresenta algumas restrições. mantendo certa distância de alguns tipos de prédios. pode se entender também que a notificação tenha que ser feita a essa autoridade. do Distrito Federal e dos Municípios. deva ser feita à Polícia Militar.151 Assim. sem definir a antecedência da informação. Estipula o preceito que a utilização de certos equipamentos em manifestações deve estar restrita ao horário compreendido entre 8 e 22 horas e. apesar de a Constituição fazer menção ao mero “prévio aviso”. o mero dever de não intervenção. a polícia ostensiva. exigir da autoridade de polícia judiciária que adote as providências mencionadas. estabelecendo que ao menos uma autoridade policial deva ser avisada. extrapolando-se. Destaca-se que. . Não se pode. A literalidade da norma dispõe: § 3º O funcionamento de alto-falantes ou amplificadores de som. somente é permitido entre as oito e as vinte e duas horas.64 Destarte. de 24 horas antes da realização do ato. 39. Em decorrência disso. sendo vedados a instalação e o uso daqueles equipamentos em distância inferior a duzentos metros: I . verifica-se ser atividade para a qual é competente a força pública. do art.504/97 exige que a notificação à autoridade competente seja. das sedes dos Tribunais Judiciais. em virtude da atribuição exigida da autoridade policial. ainda. dessa forma. II . O § 3°. e dos quartéis e outros estabelecimentos militares. do art.das sedes dos Poderes Executivo e Legislativo da União. 151 BRASIL.

tais condutas. carreata. e multa no valor de cinco mil a quinze mil UFIR: I – o uso de alto-falantes e amplificadores de som ou a promoção de 154 comício ou carreata [. Dessa forma. bibliotecas públicas. pena acessória de prestação de serviço ou até mesmo pena privativa de liberdade. A sanção ao crime comporta multa. puníveis com detenção. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. no dia da eleição.504/97 estabelece: § 5º.. Constituem crimes. .das escolas. caminhada. passeata ou carro de som que transite pela cidade divulgando jingles ou mensagens de candidatos. 1997b. verifica-se que.. BRASIL. ou ainda. a utilização de alto-falante e amplificadores de som no dia da eleição.504/97 também apresenta restrições. caracterizam um tipo penal se ocorrerem em dia de eleição. além de serem proibidas. com a alternativa de prestação de serviço à comunidade pelo mesmo período. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. carreatas e passeatas são permitidas até as 22 horas do dia que antecede a eleição. 154 BRASIL. 1997b. O art. Para essas situações a Lei 9. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. quando em 152 funcionamento. consoante § 9° do mesmo artigo 39: “Até as vinte e duas horas do dia que antecede a eleição.153 Situação bem mais gravosa é a promoção de comício ou carreata. Por sua vez. No § 4o do art.]. 1997b.65 III . a Lei 9.” As manifestações coletivas e até mesmo as aglomerações de pessoas nos dias de pleito eleitoral também possuem outras restrições. de seis meses a um ano. No que tange à utilização de aparelhos fixos. 39 está expresso que “a realização de comícios e a utilização de aparelhagem de sonorização fixa são permitidas no horário compreendido entre as 8 (oito) e as 24 (vinte e quatro) horas“. igrejas e teatros. serão permitidos distribuição de material gráfico. 39-A em seu caput e § 1° define: 152 153 BRASIL.

revelada exclusivamente pelo uso de bandeiras. 369. dísticos e adesivos. Ante todo o exposto. no Direito Militar também encontramos relativizações a esse direito fundamental. 1997b. conforme preconiza a Lei 9. Reunirem-se os militares ou assemelhados: I – agindo contra a ordem recebida de superior. Nesse diploma criminal. bem como os instrumentos de propaganda referidos no caput. MIRANDA. no dia do pleito. 149.3 Direito Militar Ao estudar as relativizações dos direitos fundamentais. 1. . a aglomeração de pessoas portando vestuário padronizado. 2000. percebe que o direito de reunião previsto no inciso XVI art.156 Dentre essas restrições particulares ou específicas.001/69.504 de 30 setembro de 1997. 5. o constitucionalista Jorge Miranda faz alusão a um outro binômio de classificação das restrições: restrições comuns a todas as pessoas e restrições particulares. Mais especificamente. 39-A. 155 156 BRASIL. a constrição a essa liberdade pública está presente no Código Penal Militar (CPM). 157 Caserna é a habitação ou alojamento de militares dentro do quartel. a manifestação individual e silenciosa da preferência do eleitor por partido político. É permitida. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Embora muitas vezes negligenciado quando se discute o direito de reunião. no dia das eleições. restrições que só afetam direitos em relação a certas categorias de pessoas. de modo a caracterizar manifestação coletiva. verificam-se no sistema jurídico brasileiro as dispostas no “Direito da Caserna”157. p. encontra-se o tipo penal do Motim: Motim Art. Para efeitos do presente trabalho.4. Decreto-Lei n. ou negando a cumprila. broches. até o término do horário de votação. entenda-se Direito da Caserna como sinônimo de Direito Militar.66 Art. § 1º É vedada. 5° possui diversas relativizações no que tange às eleições. que só afetam determinadas categorias de pessoas. com ou sem utilização de 155 veículos. coligação ou candidato. ou seja.

arsenal. 149. Além do Motim (art. bem como definiu como crime militar condutas que já poderiam ser penalizadas segundo o Código Penal comum (e. CPM). e deixa de levar tal fato ao conhecimento do superior hierárquico. Enquanto no contexto da iniciativa privada os funcionários de determinada empresa podem se reunir 158 159 BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. aeródromo ou aeronave. a prática de violência durante a reunião pode ser tipificada como vias de fato. 1969. conforme o caso concreto). contudo..160 e. do CPM). 1969.g. III – assentindo em recusa conjunta de obediência. do CPM) que ocorre quando o motim é realizado por agentes armados. de quatro a oito anos. IV – Ocupando quartel. navio ou viatura militar. percebe-se que o legislador definiu alguns limites ao direito de reunião dos militares (e. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 151. 1969.67 II – recusando obediência a superior. Assim. parágrafo único. quando estejam agindo sem ordem ou praticando violência. praticando violência à pessoa ou à coisa pública ou particular em lugar sujeito ou não à administração militar”. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. com armamento ou material bélico. 161 BRASIL. ou dependência de qualquer deles. do CPM) se têm também a Revolta159 (art. o crime de Organização de Grupo para a Prática de Violência (art. com aumento de um terço 158 para os cabeças. mais especificamente motim ou revolta. Pelo exposto. entre outros. para ação militar. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. que ocorre quando “reunirem-se dois ou mais militares ou assemelhados. . que trata da situação na qual o militar tem conhecimento de reuniões ilegais. fortaleza. ou prática de violência. reunir agindo contra ordem recebida de superior) e os criminalizou. ou utilizando de qualquer daqueles locais ou meios de transporte. em desobediência a ordem superior ou em detrimento da ordem ou da disciplina militar: Pena – reclusão. BRASIL. de propriedade militar. fábrica ou estabelecimento militar.g. em comum. alguns dispositivos previstos no Código Penal Militar também configuram constrições ao direito fundamental de reunião. 160 BRASIL. destaca-se o crime de Omissão de Lealdade161 (art. contra superior. ou em resistência ou violência. 1969. 150. apenas limitam o exercício do direito de reunião dos militares. 149. lesão corporal ou outro tipo normativo. hangar.

A Lei 9.4 Código de Trânsito Brasileiro Uma das questões mais delicadas a se enfrentar quando se analisa o direito de reunião no Brasil é seu conflito aparente com as leis que regulam o trânsito no território brasileiro. para fins de circulação. 1º que “o trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional. .503 define em seu art. acredita-se que a interpretação sistêmica do direito de reunião previsto na Constituição com lastro nos princípios constitucionais das Instituições militares não impede a incidência do Código Penal castrense. verifica-se que o deslocamento de um grupo de pessoas nas vias de circulação também é regulado pelo próprio CTB. inclusive criminalizada. 140 elege a hierarquia e a disciplina como fundamentos das organizações militares. Contudo. isolados ou em grupos.4. Ademais. trata-se de autêntica relativização do direito fundamental de reunião. conduzidos ou não. o § 1º da mesma norma define que “considerase trânsito a utilização de vias por pessoas. Assim como acontece no Direito Eleitoral e no Direito Militar. Além disso. a própria Constituição no art. estacionamento e operação de carga e descarga”. os militares não possuem esse direito por expressa vedação legal.68 contra a ordem de um superior. conforme o caso. No âmbito civil ou administrativo comum poderia a ação até ter repercussões cíveis ou administrativas. veículos e animais. parada. Poderia ser aventada a possibilidade de esses dispositivos do CPM não terem sido recepcionados pela Constituição quando confrontados com o inciso XVI. art. 5º. o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) também apresenta reservas ao direito de reunião. Assim. abertas à circulação” é regulado pelo próprio Código de Trânsito. 5. ante o apresentado até o momento acerca da dogmática de relativização dos direitos fundamentais. Para os militares.

exceto em locais proibidos pela sinalização e nas situações em que a segurança ficar comprometida.69 No intuito de definir como deve ser feito o deslocamento de pedestre nas vias públicas. Trata-se. o CTB emana luzes sobre o tema. É proibido ao pedestre: 162 163 BRASIL. .162 Assim. de medida esporádica o trânsito de pedestre fora dos passeios. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. a circulação de pedestres. será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade 163 de trânsito com circunscrição sobre a via. que dispõe: Art. em sentido contrário ao deslocamento de veículos. 1997a. quando o faz.503 disciplina os eventos em via pública que possam perturbar a livre circulação de veículos e pedestres: Art. que aborda a engenharia de tráfego.] § 2º Nas áreas urbanas. Nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres. desde que não seja prejudicial ao fluxo de pedestre. 68. Também em seu Capítulo VIII. BRASIL. Além desse dispositivo. ainda assegura que terá prioridade sobre os veículos. temos o art. segundo as letras da lei. em fila única. verifica-se que somente em situações excepcionais o Código de Trânsito assegura ao pedestre a utilização das faixas de rolamento. 95 que qualquer evento que obste o livre fluxo de veículos e pedestres depende de autorização do órgão ou entidade com a circunscrição sobre a via. 254. E. [. quando não houver passeios ou quando não for possível a utilização dele. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. É assegurado ao pedestre a utilização dos passeios ou passagens apropriadas das vias urbanas e dos acostamentos das vias rurais para a circulação. Constata-se com o art. também é possível se deparar com o seguinte preceito: Art. 68. Nesta seara a Lei 9. entre os ilícitos administrativos definidos pelo mesmo Código. 1997a. na pista de rolamento. 95... ou colocar em risco sua segurança. será feita com prioridade sobre os veículos. operação. fiscalização e policiamento ostensivo de trânsito. podendo a autoridade competente permitir a utilização de parte da calçada para outros fins. pelos bordos da pista.

sobretudo a exigência de licença para utilizar as vias públicas. são possíveis três interpretações. as manifestações e os protestos públicos são garantidos. a autoridade competente será o Município. leis infraconstitucionais podem relativizar o direito de reunião. para realizar eventos que de alguma forma obstruam a livre circulação de veículos exige-se a devida licença do competente legal. salvo quando houver sinalização para esse fim.. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. ou túneis. . na medida em que colidirem com o direito de reunião. passagem aérea ou subterrânea. seja pela segurança dos transeuntes ou dos ocupantes dos veículos. passarela. sendo que. Assim. A primeira seria o reconhecimento de inconstitucionalidade de todos esses preceitos do CTB por afrontarem o direito fundamental de reunião. passeios e parques. salvo onde exista permissão.165 Ante os dispositivos do Código de Trânsito Brasileiro analisados. salvo em casos especiais e com a devida licença da autoridade competente. V – andar fora da faixa própria. desfiles e similares.. ou para a prática de qualquer folguedo. Logo.] . Via de regra. As passeatas e marchas nas vias de rolamento poderiam acontecer. esporte. III – atravessar a via dentro das áreas de cruzamento. II – cruzar pistas de rolamento nos viadutos. seja pelos prejuízos ao trânsito. percebe-se que o legislador definiu como ilícita a interferência no tráfego de veículos. apenas em locais não regulados pelo CTB. exceto para cruzálas onde for permitido. como já demonstrado. tais como praças. Pela literalidade da norma. IV – utilizar-se da via em agrupamentos capazes de perturbar o trânsito. mas não poderiam acontecer nas faixas de rolamento. O segundo entendimento seria o oposto. nos termos do artigo 24 do CTB. apesar da omissão do legislador constituinte. é que não se exigiria a autorização. 164 VI – desobedecer à sinalização de trânsito específica [. por certo.. pontes. Isso. 1997a.70 I – permanecer ou andar nas pistas de rolamento. desde que tivessem a licença do órgão ou 164 165 BRASIL. Ou seja.

o STF tem utilizado o princípio da proporcionalidade em sua jurisprudência relativa ao direito de reunião. NITRINI. 2002. no qual estava em pauta a reunião de professores que pretendiam acompanhar uma votação no Congresso e a Ação Direta de Inconstitucionalidade 1969-4/99.71 entidade com circunscrição sobre a via conforme exigido pelo art. e os protestos nas pistas de rolamento. a regra da proporcionalidade meramente formal tem dado lugar a uma ponderação proporcional que prestigia as normas de direito fundamental. 2002. 425. tanto o direito de ir e vir quanto o direito de reunião comportariam certa carga de restrição recíproca.. . 2008. O autor chega a tal conclusão ao analisar o Mandado de Segurança (MS) n. têm revelado a 166 importância do uso do princípio da proporcionalidade. Nessa terceira opção. Comparando dois julgados emblemáticos sobre o assunto. 20. ainda que mitigada. sendo que. igualmente habilitados a uma proteção do ordenamento jurídico se acham em antinomia. [. Aliás. mediana entre as outras duas. 95 do Código de Trânsito. tal mudança reflete “uma democracia institucional cada vez mais consolidada”. para a qual o princípio é indubitavelmente apropriado. sobre o prisma do princípio da proporcionalidade. 168 NITRINI. Uma terceira hipótese.168 166 167 BONAVIDES.] situações concretas onde bens jurídicos. a circulação de veículos e pedestres. Segundo Nitrini. p.. na qual se discutia a já mencionada regulamentação do direito de reunião feita no Distrito Federal. Demonstrando a aplicação do princípio em contextos de antinomia. seria a que tentasse conciliar ambos os preceitos.258/81. Paulo Bonavides afirma: Uma das aplicações mais proveitosas contidas potencialmente no princípio da proporcionalidade é aquela que o faz instrumento de interpretação toda vez que ocorrem antagonismos entre direitos fundamentais e se busca desde aí solução conciliatória. Rodrigo Nitrini167 afirma que o Supremo Tribunal Federal tem aplicado o princípio da proporcionalidade em uma perspectiva mais substancial.

também é possível encontrar no Direito 169 In a democratic society. (INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS. o horário do evento. p. 2011. 52). mas também é um espaço para a participação. Sobre essa concorrência de direitos a posição da Comissão Interamericana de Direitos Humanos é bastante ilustrativa. Assim. então. a utilidade das vias públicas vai além do ir e vir de pessoas e veículos. no qual os valores e princípios envolvidos podem ser analisados. o transtorno gerado pela manifestação. em sua essência. os Estados devem garantir.170 Assim. Segundo a CIDH: Em sociedades democráticas. o espaço urbano não se presta somente à circulação. Entretanto. vários elementos contribuiriam para a relativização proporcional do direito de reunião: a quantidade de pessoas presentes na passeata. . poderia se afirmar em que razão seriam os direitos relativizados. Demonstrado o problema. but also a space for participation. Assim. 2001. nessa última hipótese. the urban space is not only an area not only for circulation. surgiria uma outra discussão acerca de qual seria a autoridade competente para ponderar a proporcionalidade. Nesse sentido.72 Assim. 5. jurisprudência do STF que enfrente o conflito do CTB com o direito de reunião. States must guarantee and not obstruct the right of demonstrators to meet freely both in private and in public spaces and in workplaces. e não obstruir o direito de manifestantes de se reunirem em lugares públicos e privados e ainda 169 nos lugares de trabalho . normas que relativizam os direitos e garantias fundamentais.5 Direito Criminal Os tipos penais são. a avenida escolhida. p. esses e outros elementos demonstrariam a proporção da medida restritiva.4. 170 OLIVEIRA. 458. verifica-se que para esse órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA). apenas diante do contexto fático. evidencia-se outra vez mais a necessidade de se regulamentar a matéria ou.

262 do Código Penal. a pena aumenta-se de metade.173 171 172 BRASIL. fluvial e aéreo. impedir-lhe ou dificultar-lhe o funcionamento. Art. No caso de culpa.g. 2007. a pena privativa de liberdade é aumentada de metade. impedindo ou dificultando o transporte público. 260 a 262. por certo. lotações. Parágrafo 2º. 173 Forma Qualificada. de três meses a um ano. tendo como conduta típica expor a perigo outro meio de transporte bem como impedir ou dificultar o funcionamento desse. se encontra o art. e sim abranger também o serviço prestado pelo particular no interesse da coletividade”. Deve-se ressaltar que o termo transporte público tem uma interpretação mais ampla do que os serviços prestados diretamente pelo Estado. Art. resulta lesão corporal ou morte. PIERANGELI. Isso porque. p. por exemplo. Se de qualquer dos crimes previstos nos art. 258. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 611. No caso de culpa. táxi. no caso de desastre ou sinistro. Expor a perigo outro meio de transporte público. Trata-se de tipo penal misto alternativo. Nesse sentido Pierangeli afirma que “a expressão transporte público não está a indicar um serviço prestado com exclusividade pelo poder público. Se o fato resulta desastre. marítimo. tem-se. o atropelamento de alguém. 263 do Código Penal. que estatui: Art. se resulta morte. se ocorre desastre: 171 Pena – detenção. é aplicada em dobro.73 Criminal comum regras que relativizam o direito de reunião. ainda que na modalidade eventual. a pena é de reclusão. em tese. 262. protestos e passeatas em logradouros públicos. o tipo incriminador em estudo exige o dolo. a figura qualificada desse delito constante no art. Cabe ainda ressaltar que em uma manifestação em via pública que. entre outros. passeatas podem impedir ou dificultar o funcionamento de transportes que sirvam ao interesse coletivo. Se do crime doloso de perigo comum resulta lesão corporal de natureza grave. se do fato resulta lesão corporal. de dois a cinco anos. (BRASIL. se resulta morte. 1940. o que mais interessa é a segunda possibilidade. Parágrafo 1º.. aplica-se a pena cominada de . 263. podem afetar a livre circulação de ônibus.172 Por certo. 258. 1940) Formas qualificadas de crime de perigo comum. resulte sinistro. Após a tipificação de crimes referentes aos meios de transportes ferroviário. aplica-se o disposto no art. Assim. Pena – detenção de um a dois anos. e. Para os fins do presente estudo. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.

com advertência de que a desobediência constitui crime. é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 175 dias. dada por autoridade competente. 2007. Há outras situações tipificadas pelo Código Penal que se caracterizam como autênticas relativizações às reuniões. 209 do CP) ou que perturbe ou impeça serviço de estradas de ferro (Art. 175 PORTUGAL. também na Lei de Contravenções Penais (LCP) há relativizações a essa liberdade pública. tem tido homicídio culposo.Quem não obedecer a ordem legítima de se retirar de ajuntamento ou reunião pública. 176 ROVER. 2002. 200. obstruíram a entrada e a saída de ônibus e pessoas de empresa de transporte coletivo (TJSP. 260 do CP).Se o desobediente for promotor da reunião ou ajuntamento. Sobre a dispersão das reuniões. cabe aludir a hipótese de acusados que. como um todo. aumentada de 1/3 (um terço). Importante destacar que a LCP. (BRASIL. forem também violentas. 1940). Em Portugal. p.176 Continuando no confronto aparente entre o Direito Criminal e o direito de reunião. 538. p. é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias. 174 DELMANTO et al.174 A relativização ao direito de reunião operada pelo Direito Criminal não se esgota na demonstrada anteriormente. a partir do estudo do Direito Internacional. 2 .74 Acerca desse crime. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. além de ilegais. in verbis: Artigo 304º Desobediência a ordem de dispersão de reunião pública 1 . 2006. . tomando parte em movimento grevista. RT 720/417). Como exemplo é possível citar as manifestações com carro de som que perturbem enterro ou cerimônia funerária (art. Cees de Rover aponta que o aparato estatal só pode se valer do uso da força para dispersar reuniões quando estas. há no Código Penal um crime no qual incide o cidadão que desobedecer ordem de dispersão de reunião.

180 Com efeito. 42. 179 Provocação de Tumulto. de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses. 42. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. CF) ou da liberdade de expressão (art. assembleias e espetáculos públicos possuem. podendo.75 sua validade questionada ante o princípio da intervenção mínima177 em virtude das condutas que tipifica. provoque tumulto ou se porte de modo inconveniente ou desrespeitoso. ou multa. IV. 2008. toma-se medida de caráter penal. atos oficiais. durante uma reunião (assembleia ou espetáculo público). não nos parece seja razoável a punição por algo pífio. representar o cerceamento de um direito constitucional. II – exercendo profissão incômoda ou ruidosa. em solenidade ou ato oficial. p. Sobre o tema Guilherme de Souza Nucci afirma: A simples provocação de tumulto ou a adoção de conduta inconveniente não precisa ser considerada conduta penalmente relevante. ainda que à força. Aliás. Outra restrição que também é tipificada como contravenção é a perturbação do trabalho ou do sossego alheios. Sem tal prisma. Conduta inconveniente. IX. 2004. 1941. GRECO. . em assembleia ou espetáculo público. tal conduta está prevista no art. Entretanto. inclusive. como regra. segurança particular. 5º. Pena – prisão simples. como a liberdade de manifestação do pensamento (art.178 Como exemplo de condutas tipificadas na LCP que relativizam as manifestações públicas. pode-se imaginar a situação na qual alguém. 182 Perturbação do trabalho ou do sossego alheios. 5º. 181 NUCCI. Provocar tumulto ou portar-se de modo inconveniente ou desrespeitoso. 40179 da Lei de Contravenções Penais. 180 BRASIL. Perturbar alguém. a doutrina majoritária entende que a tipificação criminal da conduta é desnecessária e viola o princípio da intervenção mínima. 2004. apta a retirar do recinto aquele que não souber 181 manter comportamento adequado . Durante uma reunião. mais especificamente as condutas previstas no art. solenidade. 185. se o fato não constitui infração penal mais grave. (BRASIL. p. 54. tem-se que o Estado deve interferir minimamente na sociedade. Art.182 incisos I e III. p. Se o agente desenvolver conduta mais grave (note-se que a própria contravenção se intitula subsidiária). PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 1941). 40. o trabalho ou o sossego alheios: I – com gritaria ou algazarra. Por esse princípio. como agredindo a honra ou a integridade física de alguém. somente o fazendo quando não possível por outros ramos do Direito. CF). passeata ou qualquer outra 177 178 GRECO. 52-53. levar o caso à esfera criminal fere o princípio da intervenção mínima. o causador do tumulto do local. Art. Basta a aplicação de uma multa – como tem sido aplicado em legislações estrangeiras – invocando-se o direito de retirar.

in verbis: Art. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos é um desses exemplos. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.183 5. . III – abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos. 187. Assim. racial ou em desacordo com as prescrições legais. p. radical. 183 NUCCI.provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem guarda: Pena – prisão simples. há de forma esparsa no Direito Brasileiro normas que restringem o conteúdo a ser veiculado nas manifestações. caracteriza-se. Será proibida por lei qualquer apologia do ódio nacional. a hostilidade. se perturbe o exercício do trabalho ou o sossego de outra pessoa. tais como quando discutidos os limites implícitos ao direito de reunião ou no item anterior. 20 1. quando analisada a convergência do Direito Penal e do direito de reunião. 40 da LCP. 184 BRASIL. Essas restrições poderiam estar em outros tópicos desta monografia. a contravenção acima.76 modalidade de exercício do direito de reunião que se valha de equipamentos sonoros. de 15 (quinze) dias a 3 (três) meses. podem chegar a incidir na figura típica descrita. manifestações em portas de escola. Cabe ressaltar que. Assim. Será proibida por lei qualquer propaganda em favor da guerra. 2008. à 184 hostilidade ou à violência . 1941). ou multa. fóruns. Exemplos de limitação ao conteúdo veiculado nos protestos são encontrados até mesmo no Direito Internacional. por meio de gritaria e algazarra. radical. 2. também é volumosa a doutrina que entender ferir o princípio da lesividade a tipificação penal dessa conduta. a violência ou o ódio nacional. racial ou religioso que se constitua incitamento à discriminação. 1966.4. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. ou ainda.6 Limitações Quanto ao Conteúdo Por mais despótico que possa parecer em um primeiro momento. em tese. assim como mencionado no comentário ao art. IV. entre outros locais. são proibidas as manifestações favoráveis à guerra ou que incitem a discriminação. (BRASIL. hospitais.

é meio de manifestação do pensamento e do exercício da liberdade de expressão. entretanto. A questão de impor limites ao conteúdo das reuniões é extremamente delicada. De igual maneira. punido 185 com pena de reclusão nos termos da lei . No mesmo sentido. ou ainda. imputem fato ofensivo à reputação de alguém. Assim. de outro existe a liberdade de expressão. como direito individual fundamental. Corrobora com esse entendimento o parecer de José Luiz Quadros de Magalhães. nos casos em que o crime exige a representação do ofendido. o Brasil é signatário dessa convenção. Perante esse argumento até mesmo a criminalização do desacato tem sido 185 MAGALHÃES. p. o crime de desacato gera mais debate. atentar para o fato de que. ainda que determinado cidadão queira se expressar. No crime de desacato esse debate tem tomado amplas proporções. a persecução penal depende da manifestação processual deste. as autoridades públicas. caracterizam-se restrições à liberdade de expressão do cidadão. que afirma: A reunião pública. 108. devem estar mais sujeitas às críticas do que o cidadão comum. em razão da função que exercem. Caracteriza-se. uma limitação quanto ao conteúdo expresso nas manifestações públicas. Enquanto nos crimes contra a honra há um limite claro ao direito de reunião. o ofendido pode provocar o Estado para que seja declarada a ilegalidade do ato e pleiteie a sua responsabilização. Nesses casos. pois os participantes de tal manifestação pública cometem crime previsto na Constituição. uma reunião pública que vise à divulgação de teses racistas é ilegal. 2000. quando o legislador cria tipos penais como a injúria e a difamação. ainda que dependente de uma manifestação do ofendido. Dessa forma. portanto.77 religioso. De fato. Se de um lado se tem a liberdade de reunião. . Deve-se. podem ser questionadas juridicamente. e não pode ser utilizada com finalidades contrárias aos Direitos Humanos. pois. restrições essas feitas de forma impessoal e abstrata. caso o exercício desse direito ofenda a dignidade ou o decoro. Isso. manifestações públicas que ofendam a dignidade ou o decoro de algum cidadão. não pode fazê-lo.

2000.188 Nos Estados Unidos as restrições que recaem sobre o conteúdo da mensagem são inadmissíveis. 2009. 192 BRASIL. publicamente.192 Não obstante a tautologia dos tipos penais. BRANCO. sendo admitidas apenas as que recaem sobre o modo de expressão. há interessantes estudos sobre o fenômeno da descriminalização do desacato que tem ocorrido na América Latina. BRANCO. Com efeito. . a criminalização das condutas gerou ainda muita divergência. 488. a prática de crime”. como é típico das autocracias. OLIVEIRA. p. p. 191 BRASIL. p. 188 MAGALHÃES. 2010. MAGALHÃES. eram comuns as relativizações no conteúdo. 189 MENDES. contanto que a proposição não incite. 2010. A incitação ao crime ocorre quando o agente “incitar.189 Assim. 110 e 113. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. publicamente. 1940. 186 187 OLIVER. a Constituição da antiga Alemanha Oriental (República Democrática Alemã) restringia essa liberdade à defesa dos objetivos e princípios da Constituição. nos Estados Unidos. A Constituição da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) dispunha que o direito de reunião estava limitado aos objetivos da construção do comunismo. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. COELHO. sobre o tempo ou sobre o lugar. não produza nem seja apta para gerar iminente ação ilegal”. respectivamente artigos 286 e 287 do Código Penal.191 enquanto a apologia é “fazer.187 Por sua vez. COELHO. apologia de fato criminoso ou de autor de crime”. 492.190 Outro exemplo de limitação quanto ao conteúdo que gerou grande discussão foi a presente nos crimes de incitação e apologia. 109.78 questionada. mesmo as “reuniões em que se advogam atividades ilícitas são toleradas.186 Nas Constituições de matriz comunista. a título de exemplo lembra-se o artigo “Abolitio Criminis do Desacato: um olhar sobre a relação entre a autoridade pública e o particular na América Latina”. 1940. 190 MENDES. p. 2000.

79 A celeuma resultou em diversas decisões até mesmo contraditórias no Judiciário. o entendimento de que as “Marchas da Maconha” consistiam discussão de política criminal. 193 G1. Na controvérsia havia. representavam uma opinião contrária à tipificação criminal da conduta do possuidor/dependente. Na Sérvia. 2010. a concepção segundo a qual o manifesto a favor da descriminalização do uso da maconha caracterizava os crimes de apologia e incitação. Com o julgamento da ADPF n. Essas discussões sobre o conteúdo da mensagem das manifestações públicas têm se tornado cada dia mais problemáticas. passa-se a discutir tal questão. E. a Procuradoria-Geral da República levou o tema ao STF. resultou em quase uma centena de feridos 193. Após diversos julgados nos Tribunais de Justiça estaduais. por outro. ainda assim. em 2010. ou seja. Situações como essas são encontrados rotineiramente. brigas entre evangélicos que protestaram na Parada Gay e a Parada do Orgulho LGBT que teve como foco o protesto contra os cristãos em 2011 são sintomáticas da falta de alteridade de algumas pessoas e grupos sociais. Consoante a decisão da Corte. . Assim. Por meio dos exemplos citados. por um lado. verifica-se que estabelecer balizas mais seguras acerca do direito de reunião se demonstra extremamente necessário. No Brasil. as tais marchas que aconteciam por todo o país caracterizam o uso legítimo e legal da liberdade de expressão e não configuram os crimes mencionados. 187. o Supremo Tribunal Federal criou nova jurisprudência sobre o tema. a Parada Gay teve que contar com a segurança feita pela Tropa de Choque para poder acontecer e.

196 Além do debate sobre a possibilidade jurídica de se regulamentar a matéria. 2007).194 Não obstante ser corriqueira na ciência jurídica.Todos podem reunir-se . os direitos e garantias fundamentais que as Constituições da República e do Estado conferem aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País [. “num dispositivo de eficácia plena. Art. o inciso XVI. 5º . A Câmara Municipal de Contagem. o conteúdo material deste quadro normativo sempre se apresentaram no centro das conjecturas em torno da vida humana”.] não só consagra o direito de reunião como também. Título II. 2008. ao editar a Lei Orgânica do Município..80 6 REGULAMENTAÇÃO A solução de conflitos por meio de lei – solução heterônoma – é uma tradição na ciência do direito. 1. por conta própria. 198 Lei Orgânica do Município de Contagem. p. 299. quanto ao seu teor de normatividade. especialmente. [.. (BRASIL. repete. 196 BRASIL..197 Mesmo ante esses apontamentos. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.195 deixando claro que. 1. fl. pois. 2007. 197 BRASIL.198 os preceitos da Constituição. Para o magistrado.946-9/DF.] § 8º . não 194 195 LOPES. para o magistrado. aspecto controverso do direito de reunião no Brasil é sua regulamentação por meio de lei.. a juíza e jurista Mônica Sette Lopes nos lembra que “a presença de uma norma reguladora de condutas e. existiria uma premissa segundo a qual "não cabe à autoridade local regulamentar preceito da Carta da República”. art 5º da CRFB/88. Na inicial da ADI n. alguns entes federados legislaram sobre a matéria. Sobre o tema. o disciplinamento da matéria realizado pela Constituição é suficiente. Dos Direitos e Garantias Fundamentais. no seu território e nos limites de sua competência. 15 Petição Inicial da ADI n. Também o ministro Aires Brito acredita que não caberia uma lei para regulamentar o assunto. em sua literalidade. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.O Município assegura. os peticionários afirmaram que "a tal questão [do direito de reunião] prescinde de regulamentação". SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. indica todas as condições para o exercício desse direito”. para esses advogados. 2007.969. o ministro Marco Aurélio ainda levanta outra questão.

1990) 201 BRASIL. sem armas.] III . tornando-se letras mortas. Como demonstrado no Capítulo 4 do presente trabalho. alguns levantamentos sobre o tema mostram-se importantes. 1.81 acrescentando nada à disciplina do direito de reunião. sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente. 152 – São direitos constitutivos da cidadania: [...1 POSSIBILIDADE DE REGULAMENTAÇÃO Apesar de existir posicionamentos no sentido de não ser possível regulamentar o direito de reunião pela ausência de expressa autorização constitucional. 199 Art. 2007.] § 6º – O Estado garante o exercício do direito de reunião e de outras liberdades constitucionais e a defesa da ordem pública. na já mencionada ADI n. 2012). a ausência de autorização constitucional expressa para se restringir o direito de reunião não pacificamente. Constata-se. dessa forma. Desnecessária também parece ser a Lei Orgânica do Município de Porto Alegre200 por também conter preceitos análogos aos constitucionais. independentemente de autorização.969-4. em locais abertos ao público. (PORTO ALEGRE. .prerrogativa de tornar públicas reivindicações mediante organização de manifestações populares em logradouros públicos e afixação de cartazes e reprodução de "consignas" em locais previamente destinados pelo Poder Público. 6. 2012). SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Assembleia Legislativa. No Distrito Federal. Igualmente inócua é a previsão do direito de reunião na Constituição do Estado de Minas Gerais199 que simplesmente afirma estar garantido em Minas Gerais o exercício desse direito. 200 Art. [. no seu território e nos limites de sua competência.. o Decreto regulamentador foi declarado inconstitucional pelo STF201 gerando um dos mais importantes precedentes sobre a matéria no Brasil. desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local. os direitos e garantias fundamentais que a Constituição da República confere aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País. da segurança pessoal e dos patrimônios público e privado. não parece razoável tal entendimento. Assim. (CONTAGEM. Partindo da constatação de que tal direito já se encontra na CRFB. por sua vez. tais dispositivos ficam desprovidos de significado.(MINAS GERAIS.. que o tema tem refletido em diversos Municípios e Estados-membros da federação. 4º – O Estado assegura.

além do próprio interesse público. art. Constata-se na leitura do disposto no inciso XVI. que determinada matéria só possa ser tratada no âmbito constitucional. De resto. da União).. inevitavelmente. teriam âmbito de disciplina normativa exclusiva na própria Constituição [. não deve ser confundido com a ideia de que existem matérias reservadas à Constituição. assim. a indefinição também causa transtornos. pois os agentes públicos possuem um dever positivo no concernente ao direito de reunião. deixando certo que determinadas matérias não estariam ao alcance do legislador e. Isso porque. sem amparo no próprio texto escrito da Constituição.. do Distrito-Federal.82 afasta a possibilidade de fazê-lo. do Estado. . o comandante da Tropa de Choque da localidade (responsável pelo controle de distúrbios). No que tange à autoridade competente. a subprefeitura. uma norma regulamentadora.]. regulamentá-lo também o é. não há como sustentar. por certo. entre outros órgãos que podem ser sugeridos. ou com o conceito de Constituição em sentido substancial. o Ministério Público. que tal preceito requer. tais informações se prestam à viabilizar o pleno exercício do direito. a autoridade policial militar responsável pela área. Sobre a possibilidade de se regulamentar por meio de ato normativo infraconstitucional um direito fundamental previsto na Constituição. todos esses necessitam ser informados sobre o evento. Assim. por razões de lógica e hermenêutica verifica-se a necessidade de regulamentar o direito de reunião. a Constituição determina um prévio aviso à autoridade competente sem esclarecer o que se entende por prévio e nem mesmo designa qual seria a mencionada autoridade. 5º da CRFB. Apenas se poderia cogitar desse tipo de orientação quando a Constituição é expressa. se mesmo ante a omissão constitucional é possível restringir o exercício desse direito. Como já apontado. Outrossim. O órgão de trânsito com circunscrição sobre a via (departamento de trânsito do Município. Receber a comunicação da ocorrência do evento é importante para diversas instituições públicas. pois. André Ramos Tavares afirma: O postulado da constitucionalidade.

6. a ausência dessa disciplina tem trazido diversos prejuízos. o que não se admite sob pena de destruição da própria ideia de supremacia 202 constitucional. mas também sua premente necessidade. Nessa situação.83 Uma tal imposição só poderia ter caráter supraconstitucional. dessa forma.2 QUEM PODE REGULAMENTAR? Demonstrada a possibilidade de se regulamentar a matéria. que a Constituição não estabeleceu hierarquia entre os entes federados. um protesto na rodovia BR-155 terminou em morte de 21 pessoas e nas condenações em regime fechado a 228 anos o coronel que comandou a operação e a 158 anos o major. p. assim. Assim. no que tange à relação entre as leis internas dos entes federados. então.203 Afirma-se. o Distrito Federal e os Municípios. Há. somente reserva de 202 203 TAVARES. A omissão do legislador tem se desdobrado até mesmo em confrontos físicos com mortes. os Estados. passa-se ao segundo ponto da questão: qual seria a autoridade competente para regulamentar o direito de reunião? A CRFB em seu art. FOLHA DE SÃO PAULO. a necessidade e a possibilidade de se regulamentar a matéria. No Brasil ocorreu o caso que ficou conhecido como “Massacre do Eldorado de Carajás”. Por outro lado. .” Verifica-se. 2012. 18 estabelece: “A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União. Assim. policiais atuam sem ter leis expressas que lhes proporcionem segurança para trabalhar e por vezes os manifestantes sofrem constrições ilegítimas aos seus protestos. não só a validade jurídica da regulamentação do direito de reunião. não há hierarquia entre elas. Comumente a questão tem sido decidida na prática por autoridades locais. 631. 2009. Verifica-se. nos termos desta Constituição. todos autônomos. portanto.

A criação de regras distintas por cada ente pode gerar confusões. 2009.969. A inconstitucionalidade foi declarada em virtude do conteúdo da regulamentação e pela forma por meio da qual foi feita. Nas oportunidades nas quais o STF analisou o direito de reunião. no precedente. deve-se buscar qual entidade que integra a estrutura federativa é a competente para discorrer sobre a matéria.84 competência. pelos Municípios ou pelo Distrito Federal. acredita-se que a priori não violam os preceitos constitucionais as regulamentações editadas pelos Estados. o fato de a regulamentação ter sido feita pelo Distrito Federal não foi considerada inconstitucional. Assim. Contudo. posicionamento esse também desposado pelo ministro Marco Aurélio. 204 CARVALHO. Apesar do exposto. os demais ministros foram silentes no assunto. Ante o exposto. acredita-se que a regulamentação em âmbito nacional seja a mais adequada em virtude da segurança jurídica proporcionada. mas em virtude de um critério de competências para editá-las. O problema tende a aflorar de forma mais intensa em regiões conurbadas que podem acolher manifestações que perpassem mais de um município. 1. assinalese que as normas não são hierarquizadas em função da origem de sua emanação. A não ser que. 1001.204 Logo. o problema acerca da autoridade competente para regulamentar esse direito não foi enfrentado. No julgamento da ADI n. os peticionários sustentaram ser inconstitucional o fato de o Distrito Federal disciplinar a matéria. . e não em decorrência do sujeito político que editou o ato regulamentador. estabelecido pela Constituição Federal”. ao regulamentar a matéria. a forma escolhida ou o conteúdo da norma contrariem preceitos constitucionais. No magistério de Kildare Carvalho: “No Estado Federal. p.

fl. cita-se novamente André Ramos Tavares. Assim. As normas regulamentares se inserem na competência privativa dos Chefes do Executivo.. ou seja. 2009. Sua exteriorização dá-se por meio de decreto. não se cogitariam problemas caso fosse concretizada por meio de ato normativo do Poder Executivo. por imperativo 206 constitucional expresso. fornecendo meios materiais adequados a seu cumprimento efetivo. mas não pode decreto. É isso que distingue a competência legislativa da mera competência regulamentar. .. 639. em princípio. p. como visto. Assim. TAVARES.85 Não obstante. Entretanto.205 isso porque. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. regulamentar uma liberdade política por meio de ato normativo municipal pode deixar o regramento da matéria mais propenso às influências políticas locais. considerada nos aspectos materiais e formais. “o direito de reunião pode até ser regulamentado.3 FORMA DO ATO REGULAMENTADOR Para tal regulamentação. que assevera: Apenas o poder legislativo é que goza da faculdade de criar normas jurídicas que inovem originariamente o sistema jurídico nacional. entretanto. 383. a regulamentação ora em análise refere-se ao 205 206 BRASIL. acredita-se que a forma adequada seja por meio de lei. seria formalmente inconstitucional a regulamentação que não por lei. tendo como finalidade última a instrumentalização dos comandos legais. 6. 2007. mais propícia seria a definição em sede de lei nacional. matérias que. seriam da alçada do Executivo (por estarem compreendidas na noção ampla de “organização”). verifica-se que.] é preciso lembrar que há casos de reserva de lei. [. em se tratando apenas de detalhar uma lei. passam para o Legislativo. em decorrência da natureza de direito fundamental que está em voga. só por lei”. No que tange à forma de se externalizar a norma. não se nega a competência do Município para regulamentar o uso das próprias vias publicas e praças abertas ao publico. Consoante julgamento do ministro Eros Grau.

5º. O entendimento de que essa regulamentação deve ser feita por lei strictu sensu ainda encontra lastro na Constituição. no qual se discutiu a questão dos limites dos limites. o qual também contou com a adesão do Brasil. art. ainda. 378. MIRANDA. . 210 MIRANDA. A restrição deve ser feita por lei. 2008. o Direito Universal da Humanidade – Direito Internacional dos Direitos Humanos.208 Deve se. 399). 2008. sem termos vagos. 209 MIRANDA. em uma sociedade democrática. O exercício de tal direito só pode estar sujeito às restrições previstas pela lei e que sejam necessárias.86 conteúdo jurídico do direito de reunião. no novo jus gentium212 também se encontra respaldo para o entendimento aqui demonstrado. p. 379. p. seria o jus gentium do século 21.211 Não obstante os apontamentos da jurisprudência e doutrina pátrias. p. desdobrando-se em restrição a esse direito. 212 Segundo Cançado Trindade (2006. editados pela Administração. Sendo assim. consoante o parecer de Jorge Miranda. se ater aos fins em nome dos quais é estabelecida.209 na exata medida para salvaguardar os outros interesses constitucionalmente protegidos210 e todas as outras observações apontadas no Capítulo 4. PRESIDENCIA DA REPÚBLICA. ou para proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e liberdades das 213 demais pessoas. não pode haver norma regulamentadora que restrinja direitos. que no inciso II. temos o Pacto de San José da Costa Rica. 376. Direito de Reunião É reconhecido o direito de reunião pacífica e sem armas. deve ser precisa. 213 BRASIL.207 Ademais. 377. p. Na perspectiva do Direito Internacional. No mesmo sentido é o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Esse tratado exige 207 208 MIRANDA. no interesse da segurança nacional. assegura que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. 1992b. Essa norma convencional traz em seu bojo que: Artigo 15. da segurança ou da ordem públicas. 2008. 2008. do qual o Brasil é signatário. 1988. ou limites imanentes. que permita aos cidadãos conhecer os critérios legais. p. 211 BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. ou novo jus gentium.

220 Assim. 218 Polícia Nacional Chilena. (CHILE. a regulamentação depende da apreciação e deliberação do Poder Legislativo. acredita-se ser possível regulamentar a matéria. no interesse da segurança nacional. para ser positivada. a própria Constituição216 define que a regulamentação será operada por meio de ato administrativo. desde que operada a disciplina da matéria por meio de lei. responsável pela Ordem Pública e pela Segurança Pública. Em síntese.87 que as limitações ao direito de reunião sejam operadas por meio de lei. 450-451. naquele país o direito de reunião é regulamentado por um Decreto de 1983. 50. 219 ROKOV.217 editado pelo General Pinochet durante o período da ditadura militar. 214 215 BRASIL.215 pois. 21. 1980). 1992a. p. da segurança ou da ordem públicas. o resultado não poderia ser outro: tanto a forma de atuação dos Carabineiros218 nas manifestações quanto a regulamentação operada por meio de ato do Poder Executivo têm sido severamente criticados internamente pela doutrina do país219 e internacionalmente por organismos de proteção dos direitos humanos. até mesmo em nome da responsabilidade internacional. Assim. 2012. El derecho a reunirse pacíficamente sin permiso prévio y sin armas. No Chile. em uma sociedade democrática. nos seguintes termos: Art. na regulamentação do direito de reunião no Brasil incide o princípio da reserva legislativa. Com efeito. se regirán por las disposiciones generales de policía. jamais por ato normativo do Executivo. . 217 CHILE. 2011. no Direito Brasileiro. Las reuniones en las plazas. 19. material e formalmente considerada. 216 Art. La Constitución asegura a todas las personas: […] 13º. PRESIDENCIA DA REPÚBLICA. Direito de reunião pacífica será reconhecido. O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. Assim. verifica-se que no Direito Brasileiro a regulamentação do direito de reunião deve ser feita por lei. 2001. calles y demás lugares de uso público. 220 INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS. por qualquer dos entes federados. OLIVEIRA. 1983. ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das 214 pessoas. p.

art. não poderia ser o de esgotar toda a margem possível de interpretação. Eles exercem uma função apaziguadora do dissenso que é inquestionável e que incide ou se efetiva numa gama considerável dos elementos consolidados. As primeiras jurisprudências encontradas datam ainda de fins do século 19 e início do século 20. Portanto. não se encontrou no Direito Brasileiro algum julgado que enfrente as indefinições atinentes ao direito de reunião. 5º da Constituição vigente. 6. 221 LOPES. . o objetivo da edição de uma norma específica sobre o assunto.4 O PAPEL DOS PRECEDENTES NA REGULAMENTAÇÃO DO DIREITO DE REUNIÃO A sugestão de regulamentar o assunto por meio de lei não implica em desconsiderar a importância dos julgados.88 De certa forma. Porém. Há. p. a função dos precedentes seria: Os precedentes atuam como vetores de certeza do sistema e cumprem um papel importante ao sinalizar entendimentos uniformes e tornar visível o modo como a lei tende a ser entendida. a necessidade de se regulamentar o assunto também se faz em virtude da ausência de jurisprudência nacional que efetivamente confronte o assunto. com efeito. Na precisa lição de Mônica Sette Lopes. acredita-se que a segurança proporcionada por uma lei regulamentadora do direito de reunião tornaria a clássica solução heterônima de composição de conflitos mais adequada à matéria analisada. Além disso. uma antecipação mais clara dos riscos que as condutas e os conflitos potencialmente envolvem. assim. 221 Contudo. 242. 2008. alguns apontamentos sobre o papel dos precedentes brasileiros sobre o direito de reunião se fazem necessários. Além disso. não esclarecem muito acerca da hermenêutica do inciso XVI.

89 7 EPÍLOGO A implementação do governo eurocêntrico em terras brasileiras trouxe consigo o padrão de resposta despótico para os protestos populares. para manter a ordem ou a segurança públicas. 2008. Assim. Sublevação. foram traços marcantes em nossas previsões constitucionais desse direito. Essa tradição autoritária também é demonstrada por Maria Fernanda Salcedo Repolês. conjura e inconfidência sempre foram os adjetivos com que pejorativamente a historiografia oficial batizou os agrupamentos populares que pleiteavam por direitos e garantias. 25. a possibilidade da intervenção da polícia ou de outra autoridade. Diálogos com os manifestantes eram vistos apenas quando não se conseguia reunir tropas suficientes para sufocar os levantes. REPOLÊS. o reconhecimento tardio do direito de reunião no Brasil é apenas mais uma faceta desse fenômeno. as autoridades também pensaram em registrar negativamente esses feitos. para quem “as contradições presentes na história de formação de uma identidade constitucional brasileira apontam para uma linha de contínuos fracassos e frustrações. Assim. sedição. podemos afirmar que os desmandos do Poder Público na liberdade de manifestação coletiva do pensamento no país foram características marcantes na história desse direito. Não bastasse ter surgido apenas no final do século 19. bem como a possibilidade de designação do local do evento. p. gerados por uma forte tradição autoritária que impediu constituir espaços efetivos de democracia”. Assim. 2006. p. . o arquétipo utilizado pelos governantes para contrapor as reivindicações foi instrumentalizado por meio do braço armado do Estado.222 Além da repressão flagrante.223 222 223 COTTA. 48-49.

em nome de uma suposta coletividade ou do interesse público. passeatas reivindicativas e protestos públicos que. o abuso no exercício de qualquer direito também não deve ser permitido. Não se pode se esquecer de que todos os direitos e garantias dos não participantes das manifestações devem ser respeitados. XVI. o direito de reunião é a única ferramenta eficiente para que alguns excluídos possam mostrar aos que estão nos confortos de seus carros e casas. o direito de reunião assume um papel de destaque no Estado Democrático de Direito por dar efetividade ao pensamento divergente. Não se pode. às minorias. tentam justificar restrições ao direito de reunião para enfraquecer oposições e minorias. Assim. sobretudo em espaços verdadeiramente democráticos. mas não possuem compromisso com a sociedade. Com efeito. . conseguem visibilidade. mas antes. o de criar espaços de discussão que propiciem a divergência de opiniões. 5º.90 Ainda hoje presenciamos autoridades que. as mazelas nas quais se encontram. É preciso nos assegurar contra os arbítrios de pessoas que exercem funções públicas. somente em virtude dos transtornos que causam ao fluxo de veículos. Dessa maneira. Todavia. ao dissenso. destinados ao ostracismo da grande mídia. a simples garantia prevista no inc. Não poucas vezes pessoas confundem democracia com a ausência de limites. o pluralismo e a unidade na divergência. são desconhecidos da população e. Nesse sentido. ressalta-se a importância de movimentos populares. representa a voz desses excluídos. frustrá-lo. A fundamentação jurídica nesses institutos abstratos negligencia que o objetivo da democracia não é o de criar uma massa homogênea de pessoas. a pretexto de garantir o exercício democrático do direito de reunião. e por lhes garantir visibilidade. art. tão importante quanto o direito de participar de uma reunião é o direito de não participar de uma reunião. Para alguns grupos.

ilustrativo é o excerto abaixo de Márcio Luís de Oliveira: A democracia não é apenas forma ou modo de se decidir a vida pública com a participação mais ampla possível dos interessados. p. Para compreender tais limites. as interpretações e aplicabilidade. O que se pode variar são os olhares. portanto. Dessa forma. Percebe-se que o problema surge da falta de alteridade e da tolerância. pode ser derrogado por motivos triviais.91 De igual forma. sobretudo as dinâmicas em logradouros públicos. A democracia é. um certo transtorno à comunidade e ao trânsito. Como foi evidenciado ao longo do trabalho. antes de sua dimensão decisional. . Nestes termos. Para alguns. Faz-se premente analisá-lo dentro de uma perspectiva democrática. que podem comprometê-lo. o diferente. Ainda não há no Brasil – se é que exista em outros rincões – uma cultura de respeitar o outro. E. um modo de ser tolerante e disposto à aceitação do outro. um modo de ser coletivo. o locus público da igualdade nas diferenças. O texto constitucional está posto. Ademais. apesar de se poder discordar do outro. Para outros. de fato existem diversas relativizações ao direito de reunião no sistema jurídico brasileiro. trata-se de um direito absoluto. 224 OLIVEIRA. também é preciso garanti-lo de interferências de particulares mais poderosos econômica ou faticamente. A democracia é. mais ampla. O modo de ser coletivo de uma sociedade democrática é aquele em que cada pessoa ou cada grupo social são capazes de se reconhecerem e se respeitarem nas suas diferenças (conhecimento e consciência de si e conhecimento e consciência do outro). 2001. não se pode esquecer que é intrínseco à ideia de uma manifestação pública. 201. a relativização ao direito fundamental de reunião não pode ser de tal monta que esvazie de sentido o próprio direito de reunião. deve-se sempre buscar harmonizar o direito de reunião com os direitos das demais pessoas. mas também a vontade de participar desses atos. que inclua na noção de democracia a participação em manifestações e protestos. só se pode ser livremente genuíno (autonomia privada) quando e onde há vocação para a alteridade: 224 aceitação da diferença do outro.

então. as manifestações públicas. Assim. parâmetros para a ação da Administração Pública bem como marcos mais precisos para o controle de legalidade por parte do Ministério Público e do Poder Judiciário. 225 WHEREAS every person has the right to assemble with other persons and to express his views on any matter freely in public and to enjoy the protection of the State while doing so. prescindem ainda de uma lei regulamentadora. Como mote para a relativização do direito fundamental. AND WHEREAS the exercise of such right shall take place peacefully and with due regard to the rights of others. Tradução livre do autor) . segurança para os particulares. Gerando. surge a necessidade de se estabelecerem limites legais para tornar possível a vida em sociedade. (SOUTH AFRICA.92 Ante essa dificuldade de compreender o outro. De forma simples e objetiva. o Preâmbulo daquela norma sintetiza muito bem o espírito que deve nortear a questão da relativização do direito de reunião: CONSIDERANDO que cada pessoa tem o direito de se reunir com outras e expressarem seus pontos-de-vista sobre qualquer assunto livremente e em público. Dessa forma. e desfrutar da proteção do Estado ao fazêlo. ilustrativo é o Preâmbulo da lei sul-africana que regulamenta o exercício do direito de reunião. 1993. espera-se que por meio da adequada regulamentação do dispositivo constitucional estudado. que possuem sua garantia e seus primeiros limites na própria Constituição. E CONSIDERANDO que o exercício de tal direito deve ocorrer de 225 forma pacífica e respeitando os direitos das demais pessoas. o Poder Legislativo demonstre os reais contornos da relativização do direito de reunião em uma sociedade democrática.

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