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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE DIREITO

A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: O DIREITO DE REUNIÃO E SEUS LIMITES EXPRESSOS E IMPLÍCITOS

BELO HORIZONTE, OUTUBRO DE 2012

STEEVAN TADEU SOARES DE OLIVEIRA

A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CONTEXTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: O DIREITO DE REUNIÃO E SEUS LIMITES EXPRESSOS E IMPLÍCITOS

Pesquisa monográfica para ser apresentada junto ao Colegiado da Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de graduado em Direito, realizada sob a orientação do Professor Doutor Marcio Luís de Oliveira.

BELO HORIZONTE, OUTUBRO DE 2012

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FICHA DE APROVAÇÃO

Monografia apresentada e aprovada em ________________________

Banca Examinadora:

__________________________________________ Professor Doutor Márcio Luís de Oliveira

__________________________________________ Professora Doutora Mônica Sette Lopes

__________________________________________ Professora Doutora Maria Fernanda Salcedo Repolês

por juntos termos ombreado diversas batalhas e. Assim. por terem se mostrado incondicionalmente leais. Após ter introduzido as discussões jurídicas do direito de reunião no Batalhão de Choque. mas sim o ponto de partida para o estudo desse e de outros temas jurídicos atinentes à atividade do Batalhão. em especial aos valorosos guerreiros do Vulcano II. também dedico este trabalho àqueles que derem continuidade a essa empreitada. espero que este trabalho não seja o ponto de chegada.4 DEDICATÓRIA Dedico esta monografia aos espartanos do Batalhão de Choque. . mesmo nas adversidades.

em especial ao Major Marcelo Campos Pinheiro e ao Cap Cinério Gonçalves Gomes. por ter surgido de forma inesperada e ser veredas no sertão chamado vida. em especial ao Capitão André Coli. Aluno Wellington. . Sargento Tardim. que vale mais do que qualquer estudo acadêmico e por ter transformado cada dia de trabalho em verdadeiras lições não só de polícia. A todos oficiais e praças do BPE. Ao Capitão Maximiliano Augusto Xavier. aos meus pais. pelas lições. Sargento Santana. Capitão Paulo Roberto. pela força do exemplo. pelos conselhos e pelas correções quando necessário. Por último.5 AGRADECIMENTOS Ao Coronel Antônio de Carvalho Pereira. se privarem voluntariamente de horários de lazer e descanso. pela amizade. Aos companheiros da equipe de instrução Tenente Russo. Tenente Bertocchi. mas de vida. apesar do pouco tempo que trabalhei sob o comando de ambos. que com todas as adversidades se sacrificaram para que eu pudesse levar a diante o sonho de simultaneamente cursar o CFO e o curso de Direito na UFMG. A todos os meus comandantes no Batalhão de Choque. Cabo Campos e Cabo Marcelo. À Nathália Marteletto. é antes culpa do orientando que não conseguiu compreender as lições. pela afetuosa recepção desde o primeiro contato e inestimável orientação. Ao Professor Doutor Márcio Luís de Oliveira. por compartilharem comigo o ideal de uma tropa mais qualificada e. por ter me recebido em um momento particularmente difícil de minha vida e ter estimulado as primeiras reflexões acerca do tema. Tenente Lúcio. profundos conhecedores da doutrina das Operações de Controle de Distúrbios. Tenente Antunes. com quem muito aprendi. Ao Tenente-Coronel Roberto Lemos. em nome desse ideal. e mais importante que todos os demais. Tenente Hot e Tenente QOR Fábio Hebert. os quais eu muito admiro. Se o resultado final não for a contento. Capitão QOR Nirlando. pela companhia.

XI.6 “A liberdade política não consiste em fazer o que se quer.” Montesquieu (O Espírito das Leis. 3) .

por exemplo. o foco do estudo foi o sistema jurídico vigente. caminhadas entre outros atos semelhantes adquirem especial relevo. Além disso. restrição de direitos. o exercício dessa garantia fundamental causa transtornos aos demais cidadãos que não estão participando do ato. a imersão no tema ainda traz à tona a necessidade de uma lei regulamentadora. passeatas. relativização de direitos fundamentais. a história do direito de reunião no Brasil e o estudo do direito comparado também contribuíram com a pesquisa. manifestações públicas e protestos no Brasil. Assim. Ao se enveredar por essas trilhas. em normas infraconstitucionais e também limites implícitos. Além dos limites previstos no inciso XVI. marchas. constata-se que as relativizações ao direito fundamental da Constituição da República não se restrigem às previstas literalmente na norma. 5º da Constituição. faz-se necessário estudar os contornos do direito de reunião no Brasil. de leis infraconstitucionais. Contudo. temos também contingências em outras partes da Constituição. . como. por meio da Constituição. que disponha sobre questões não mencionadas no preceito constitucional. protestos. direito de reunião. da doutrina e de jurisprudência. No presente trabalho. a liberdade de reunião concorre com os direitos das demais pessoas. Nesse contexto. art. Outrossim.7 RESUMO O Estado Democrático de Direito busca a efetiva participação dos indivíduos nas deliberações públicas. Palavras-chave: direitos humanos. o direito de locomoção. Em virtude do conflito.

conflict of laws. In the present work. assemblies. the exercise of this fundamental right cause troubles to other citizens who are not participating in the gathering. demonstrations. it displays that the fundamental right to gathering is not limited only by the text written in section XVI. Because of the conflict. When you go in on these pathway. marches. protests. article 5º. the freedom of assembly together conflicts with rights of others. right to assembly together. Thus. clarifying issues not mentioned in the Constitution. for instance. In this context. doctrine and jurisprudence. fundamental rights restrictions. Moreover. the right of free motion and locomotion. the immersion in the theme still brings up the necessity for a regulatory law. However. the history of the right of assembly in Brazil and the study of comparative law also contributed to the research. we also have reserves in other parts of the constitution. through the Constitution. it is necessary to understand the outline of the right of assembly together in Brazil. laws under the Constitution and implied in law system.8 ABSTRACT The Democratic State of law looks-for effective participation of individuals in public deliberations. walking and other similar public acts acquire special importance. laws under de Constitution. Beyond this limits. demonstrations. Key-words: human rights. Also. . gathering. protests in Brazil. the focus of the study was the legal system.

Código de Trânsito Brasileiro .Supremo Tribunal Federal .Mandado de Segurança . Gays. Bissexuais e Transgêneros. LCP LGBT MS OEA PIDCP PMMG RJTJSP .Inciso .Comissão Interamericana de Direitos Humanos .Lei das Contravenções Penais .9 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ADI ADPF Art.Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental .Habeas Corpus .Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 .Organização dos Estados Americanos .Ação Direta de Inconstitucionalidade .Código Penal Militar .Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça de São Paulo STF .Belo Horizonte .Código Penal .Distrito Federal .Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos .Polícia Militar de Minas Gerais .Batalhão de Polícia de Trânsito .Artigo . BH BPTran CIDH CP CPM CTB CRFB ou CRFB/88 DF DUDDHH HC Inc.Declaração Universal dos Direitos Humanos .Lésbicas. .

34 Bloco de Constitucionalidade.................4 5.................. XVI....................1.................................................................................................57 Relativizações Infraconstitucionais ao Direito de Reunião.....3.............2 5..........................................................1.. 41 Reunião Pacífica....................................................... da Constituição........... 15 A Origem da Democracia e da Democracia Representativa..1.......................................................6 5......................... 66 Código de Trânsito Brasileiro................................................................. 12 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E A PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS..................................................................................................................... 21 Ontologia e Concepções do Direito de Reunião...2............................8 5............................................................. 56 Licitude dos Propósitos....................................................... 21 História Jurídica do Direito de Reunião no Constitucionalismo Moderno Ocidental......................................................... 41 Todos Podem Reunir-se.............1.....................................2 4...........4.......................................................... 26 A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS: O DIREITO DE REUNIÃO E AS POSSIBILIDADES DE LIMITES.....4........................5 5..............................................6 PRÓLOGO..................... mas fora do inc............... 5º..............................2.........2 5...3 3 3...............................................................................................4..... 47 Não Frustrar Outra Reunião Anteriormente Convocada.................................................................. 17 As Manifestações Populares e sua Importância nas Democracias..........................2 5...........................1..... 76 .............. 37 Os Limites das Relativizações.................................................................................................................................4............................................................................................................ 29 A Existência dos Limites: o Conflito de Direitos e os Deveres Fundamentais..........3 5... XVI...................... 48 Prévio Aviso....1 5.........4 5..... 5º.................................................. art..........................................1............................................................................................................................. 40 Restrições Insculpidas no inc...... 18 AS MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS PELO PRISMA JURÍDICO: O DIREITO DE REUNIÃO..........1 2...................2 2........................................................................... 38 A DISCIPLINA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO BRASIL................................................................. 59 Direito Eleitoral..............................1 5.........................4 5...................... 53 Relativizações na Constituição.....7 5........ 46 Independente de Autorização.................................... 58 Os Direitos das Demais Pessoas...........................1 5............ 29 A Dogmática da Relativização dos Direitos Fundamentais.................4............................2 4..............................................................................................3 5 5..................................15 Para Além da Democracia Formal: o Estado Democrático de Direito...........5 5.......................................42 Reunião sem Armas.......................................... 43 Locais Abertos ao Público......32 Eficácia Horizontal dos Direitos Humanos...... art...................................................................1..2 4 4....................................................................................1.....................3 5...........4..1 3.......3 5... 72 Limitações Quanto ao Conteúdo......1 5............................................................................ 63 Direito Militar.................. 49 Autoridade Competente.......1 4...... 68 Direito Criminal.................1 4................. 54 Limites Implícitos ao Direito de Reunião.......................................................................................................10 SUMÁRIO 1 2 2.......................................................................................

..................11 6 6...............................................81 Quem Pode Regulamentar?............................................. 80 Possibilidade de Regulamentação.......................................3 6......................................................................................2 6............................................................................................83 Forma do Ato Regulamentador..............................................................................................4 7 8 REGULAMENTAÇÃO................................................................................................................ 89 REFERÊNCIAS................... 93 ..........1 6........................................................................ 85 O Papel dos Precedentes na Regulamentação do Direito de Reunião.......................................................................................... 88 EPÍLOGO.....

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1 PRÓLOGO

O Estado Democrático de Direito tem como uma de suas características a participação dos cidadãos na esfera de decisão política. Assim, nesse novo paradigma, não basta almejarmos apenas uma democracia formal, mas antes, perquirir a inclusão das opiniões pessoais nos processos de decisões governamentais. Alguns fatores, porém, dificultam a democracia substantiva, tais como o distanciamento das pessoas aos centros políticos, a extensão territorial do país, aspectos culturais, consciência política, educação e a própria democracia representativa que, de certa forma, estimula o afastamento do cidadão em relação aos debates políticos.

Como forma de suplantar esse déficit democrático, mecanismos indiretos de participação popular e até mesmo formas de pressionar o governo foram se desenvolvendo. Uma dessas maneiras de que o cidadão dispõe para demonstrar seus anseios e reivindicações são as manifestações populares em logradouros públicos. Exemplos típicos de tais atos são as passeatas, carreatas, marchas e comícios. Destaca-se, destarte, que as manifestações populares têm se tornado um autêntico mecanismo de demonstração da vontade dos indivíduos e de pressão sobre os governantes.

Por esse motivo, não é de se espantar que em regimes autocráticos torna-se comum a tentativa de restrição a esse direito. Foi precisamente o que ocorreu no Brasil em grande parte da nossa história. Desde a sua primeira previsão enquanto direito positivado nas Constituições, as manifestações foram disciplinadas de forma bastante limitada e contida. Restringindo ainda mais esse direito, foi editada uma lei regulamentadora na década de 1950 e, posteriormente, com a efetivação do regime militar, as manifestações públicas no Brasil ficaram ainda mais mitigadas.

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Com a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988 e, em decorrência dessa, a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB/88), a garantia constitucional a esse direito ganhou novos contornos. Depois de anos de intensa repressão política e de tolhimento à liberdade de expressão, as manifestações públicas foram previstas no inciso XVI, art. 5 da nova Constituição. A nova previsão ampliou a garantia fundamental e limitou as intervenções do Estado no exercício desse direito constitucional.

A efetivação dessas mudanças tem ocorrido, ainda que de forma gradativa. Contudo, ainda hoje o aparato repressor do Estado é utilizado para impedir o exercício legítimo de manifestações públicas que, em tese, seriam amparadas pela Constituição. Infelizmente, decisões judiciais e o arbítrio policial por vezes impedem a concretização desse direito, restringido-o de maneira não amparada pela Constituição.

Paradoxalmente, entretanto, o contrário também ocorre. Fruto de uma interpretação unilateral da Constituição, hermeneutas se arvoram na afirmação de um direito de reunião com limites muito mais extensos do que os juridicamente existentes em um Estado Democrático de Direito. Assim, os manifestantes acabam por impedir o direito de locomoção das demais pessoas ao fecharem por completo importantes logradouros públicos exatamente nos horários de maior fluxo. Tais ações refletem diretamente no acesso a escolas, hospitais, locais de trabalho e ao domicílio, o que resulta em considerável prejuízo ao pleno direito à educação, à saúde, ao trabalho, à residência, à propriedade privada, entre outros.

Percebe-se, portanto, que estamos diante de um típico caso de conflito horizontal de direitos, no qual a esfera juridicamente tutelada de uma pessoa (direito de reunião) concorre com o direito de outrem (ir e vir, educação, saúde, trabalho, domicílio, propriedade privada, etc.). Dessa forma, buscar os limites jurídicos ao exercício do direito de reunião se faz um tema atual e de extrema

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relevância. Somente assim será possível conciliar os interesses envolvidos e harmonizá-los.

236-237. 1989. Diferenças entre a democracia grega e a democracia estruturada no fim do absolutismo europeu. ROSENFIELD. e cracia (kratos). significa o governo do povo ou o governo da maioria”. Robert Dahl3 aponta algumas transformações pelas quais passou a democracia ao longo da história.15 2 O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E A PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS 2. 283. quer diretamente. Estima-se que nesse período de 240 mil pessoas. o autor ainda indica outras culturas além da helenística que influenciaram esse amálgama4 que denominamos democracia. . 4 DAHL. 1989. 2005. alusão a povo. quer por meio de funcionários eleitos por ele para administrar os negócios públicos e fazer as leis de acordo com a opinião geral”. 7.5 A democracia antiga. considerava cidadão um restrito número de pessoas. no sentido etimológico da palavra. “a democracia. 5 AZAMBUJA. 1994. que designa poder ou quem está no poder1. Entretanto. em que pesem algumas distinções. podemos sintetizar a democracia como “o regime em que o povo se governa a si mesmo. aos tempos pré-socráticos. 3 DAHL. assim reconhecida a vivenciada na Grécia clássica. 1989. sendo formada a partir dos radicais demos.1 A ORIGEM DA DEMOCRACIA E DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA A história da democracia remonta à Grécia clássica. p. p. esses homens considerados cidadãos viviam do trabalho 1 2 CHAUI.2 A democracia ganhou contornos próprios ao longo dos anos conforme os locais e as épocas em que surgia. p. Ademais. p. apenas 6 mil participavam efetivamente das decisões. Do mesmo modo. mais especificamente. 13. A etimologia do vocábulo nos indica que a palavra é oriunda do grego. Assim. são constatadas por cientistas políticos. por exemplo.

visando suplantar essas e outras dificuldades da democracia. Além disso. a população passou a eleger representantes que. por exemplo. p. Evidentemente não seria possível reunir dezenas de milhões de homens para discutir e votar. quando se escolhem os representantes. p. 215-241. é de muitas dezenas de milhões de cidadãos. As efetivas decisões são feitas pelos eleitos. um corpo de políticos apartado da população. Como afirma Rosenfield “tem-se aqui um processo de diferenciação do governo com o povo sem que ambos se identifiquem atual e praticamente”. 2005. complexos. 1989. a democracia adquiriu novas feições. defenderiam os interesses daqueles que os elegeram. destarte.1989. 222-223. O número de eleitores nos grandes Estados modernos.7 Em virtude dessas diferenças. o homem moderno vive entregue a seus afazeres. grande população e os negócios públicos são numerosos. Dessa forma. não poderia dispor do tempo necessário para discutir e votar milhares de assuntos em dezenas de reuniões anuais. em tese. tendo tempo disponível para estudarem os assuntos a serem debatidos e para participarem das assembleias. p. 68. só acessíveis a indivíduos mais ou menos cultos e especializados. muitas das vezes sem um compromisso com os anseios dos representados. 225. 6 7 AZAMBUJA. . praticamente impossível.8 Cria-se. 9 DAHL. como nos Estados Unidos.6 Entretanto. Com a dificuldade de tomar parte das deliberações. o povo fica distante da efetiva decisão. 2005. surgiu o Estado Democrático de Direito. 8 ROSENFIELD. Percebe-se que a oportunidade de que o cidadão participe verdadeiramente das decisões coletivas tornou-se reduzida9. Nesse modelo de democracia representativa ou indireta. espalhados em perto de nove milhões de quilômetros quadrados. pois. a expressão da vontade política do cidadão ocorre basicamente durante as eleições. O governo direto é. tem profissão absorvente. de natureza técnica. AZAMBUJA. a realidade hoje é diversa: Os Estados têm geralmente um grande território. p.16 escravo. Assim.

o 12 poder político deriva da sociedade civil . hoje o conceito de povo é essencial à própria ideia de democracia11. a ideia de representatividade também apresenta óbices à democracia substantiva. SILVA. mas como um de seus elementos constitutivos. Conforme pontua Bresser Pereira. De forma diversa do modelo grego clássico.10 Busca-se. No capitalismo contemporâneo. deve-se buscar a ampliação paulatina do número de pessoas consideradas povo. no conjunto de cidadãos com direitos políticos efetivos e teoricamente iguais. o governo se legitima na medida em que tem como elemento fundante a opinião e a participação efetivas da sociedade civil. 12 BRESSER PEREIRA. ou seja. foi concebido o Estado Democrático de Direito. o Estado Democrático de Direito supera o Estado Liberal e o Estado Social de Direito. 91. O caráter mais ou menos democrático do sistema político existente em um país fará com que sua população se transforme ou não em povo. Nesses termos. Nesses termos. Em apertada síntese. 182-228. o povo pode ser considerado não como o objeto sobre o qual o Estado exerce seu poder. mas antes aquele no qual as pessoas participam ativamente das decisões por meio de um processo contínuo e dinâmico. Nesse sentido.2 PARA ALÉM DA DEMOCRACIA FORMAL: O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO Pretendendo atualizar o Estado Democrático. p. e não apenas de forma. p. agora. 2007. . Focado no pluralismo social. tal circunstância não é aceita hodiernamente. bem como em qualquer outro sistema de classes. p. 1995. uma democracia substancial.17 2. José Afonso da Silva assevera sobre o tema: 10 11 OLIVEIRA. 2011. De igual maneira. 132. Se no modelo clássico grande parte da população via-se alijada das deliberações públicas. A semântica do vocábulo democracia não pretende indicar um país no qual os cidadãos depositam periodicamente os votos nas urnas.

3 AS MANIFESTAÇÕES POPULARES E SUA IMPORTÂNCIA NAS DEMOCRACIAS Em face do discutido até o momento. entre outras formas. a importância das manifestações populares por meio das quais os cidadãos demonstram seus interesses e suas vontades.14 quanto maior a desigualdade social. é o que indica Luiz Carlos Bresser Pereira no excerto: 13 14 SILVA. 2007. 1º. parágrafo único). não se espera a homogeneidade de pensamentos e opiniões. foi demonstrado que o Estado Democrático de Direitos busca a efetiva participação de todos. 2. p. BRESSER PEREIRA.13 Pelo exposto. mais díspares serão os interesses e as vontades. como ilustrou o romance 1984. Assim. políticos e sociais. revela-se. diretamente ou por representantes eleitos (art. . Nessa sociedade democrática. justa e solidária (art.18 A democracia que o Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo de convivência social numa sociedade livre. em que o poder emana do povo. mas especialmente da vigência de condições econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício. O dissenso e a presença de antagonismos são elementos basilares da democracia efetiva. são significativas as distinções entre a democracia clássica e a experiência do Estado Democrático de Direito. 102. e deve ser exercido em proveito do povo. I). há de ser um processo de liberação da pessoa humana das formas de opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos individuais. Nesse jogo de interesses em conflito.119-120. pluralista. culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e a possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da sociedade. Não deve ser o objetivo do Estado a homogeneização do pensamento ou a criação de uma monolíngua. 3º. participativa. faz-se necessário valorizar todas as formas de participação do povo nas decisões governamentais. Nesse viés. porque envolve a participação crescente do povo. p. 1995. porque respeita a pluralidade de ideias. de George Orwell. no processo decisório e na formação dos atos de governo.

o cidadão pode expressar efetivamente suas 15 16 BRESSER PEREIRA. Conforme o que foi discutido. 1995. pois ao contribuir para o consenso. a integração social desenvolve-se a partir dos procedimentos de formação democrática da opinião e da vontade política16. os protestos e as reivindicações populares são extremamente relevantes para a formação da opinião política. as manifestações contrárias ao pensamento dominante são as que mais caracterizam o Estado Democrático de Direito. que dão origem a formas distintas de participação direta e indireta junto aos governos em todos os níveis. a partir das manifestações populares.19 Todavia. por meio dos quais a população demonstra seus interesses e opiniões. são capazes de reduzir o conflito potencial entre liberdades individuais. Dessa maneira. construindo-se. por outro lado. fortalecendo a coesão. Ainda segundo Bresser Pereira. no germe da liberdade da expressão enquanto 17 comportamento juridicamente garantido. verifica-se que os atos políticos nas ruas. é exatamente a inclusão da diferença e a pluralidade de opiniões que propiciam a unidade. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 2007. em um ingrediente a mais no complexo ambiente democrático. Ademais. p. ganham grande relevo e destaque em nossa sociedade. Ao contrário: a contraposição ao discurso majoritário situa-se. historicamente. mediante manifestação que veicule uma ideia contrária à política de governo. 48. as manifestações públicas propiciam a visibilidade de alguns movimentos sociais. BRESSER PEREIRA. 17 BRASIL. A diversidade e o dissenso são precondições para a unidade.15 Por outro lado. Nesse diapasão. . tornando públicos debates que poderiam ficar restritos a um limitado grupo de pessoas. pois. não elide sua juridicidade. 27. ao mesmo tempo em que introduzem conflitos de interesses e lutas pelo poder para o atendimento das demandas específicas. em que pesem os limites impostos pela extrema desigualdade e desintegração social ocorre o surgimento de uma multiplicidade de atores e de movimentos sociais. Foi o que demonstrou o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais em sede de Amicus Curiae no Supremo Tribunal Federal (STF) quando da apreciação da legalidade da marcha da maconha por aquele tribunal: A reivindicação por mudança. p. 1995.

Após ser garantida juridicamente. Dessa forma. pressionar os governantes e parlamentares acerca dos rumos a serem seguidos. A previsão de determinados direitos. Logo. sem que os agentes e as instituições estatais.20 opiniões e. todos os cidadãos devem exercer essa liberdade consoante o Direito. Em virtude de sua elevada importância em ambientes verdadeiramente democráticos. pois. . conforme leciona Márcio Luís de Oliveira. para se compreender juridicamente as manifestações públicas no Brasil. Entretanto. ainda. submeter-se a esse Direito constituído é uma exigência. 18 OLIVEIRA. garantias e deveres individuais e coletivos compõem a base jurídico-institucional da democracia. p. Conforme pontua o autor. impossível fazê-lo sem se conhecer seus contornos e delimitações. 2011. surgiu a necessidade de se tutelar juridicamente as manifestações e os protestos públicos. é preciso estudar a previsão do direito de reunião em nosso sistema jurídico. e sem que os indivíduos e os segmentos sociais se submetam ao Direito dialogicamente constituído e aplicado não há possibilidade de efetiva 18 democracia. 207.

de reunir as partes divididas.21 3 AS MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS PELO PRISMA JURÍDICO: O DIREITO DE REUNIÃO 3. Essa relevância é demonstrada por autores que indicam ser o direito que assegura esses atos. que define 19 20 MENDES. Para que seja tida como reunião. filosófico. religioso. BRANCO. FERREIRA. 142. as manifestações são historicamente denominadas direito de reunião. O elemento espacial é fundamental para que a reunião seja 20 realizada. Não se confundir com a simples agregação física acidental de pessoas. a base estruturante da democracia19. José Afonso da Silva apregoa que reunião é “qualquer agrupamento formado em certos momentos com o objetivo comum de trocar ideias ou de receber manifestação de pensamento político.21 Semelhante é a proposta de Cretella Júnior. pois isto seria multidão. 1989. desunidas ou dispersas de um todo (Caldas Aullete). 21 SILVA. . O interesse comum. há que se encontrar o motivo comum e também que a organização exista. Na tentativa de definir o vocábulo. COELHO. no contexto das democracias indiretas ou representativas. p. 487. p. p. Permite a Constituição que as pessoas se agrupem para intercâmbio de ideias. Na perspectiva do direito constitucional pátrio. Wolgran Junqueira Ferreira define: Reunião é a ação de aproximar. científico ou artístico”. 264. 2010. 2007. Por sua vez. em sua obra sobre a Constituição de 1988. estabelece o que a Constituição denomina de reunião. juntamente com a liberdade de expressão e o direito ao voto. acrescido da interação pessoal e mais a presença física. as manifestações públicas assumem um importante papel.1 ONTOLOGIA E CONCEPÇÕES DO DIREITO DE REUNIÃO Conforme já mencionado.

as caminhadas. pois. as aglomerações de grevistas.27 Verifica-se. organizar e liderá-lo. Abuso de autoridade. as marchas populares. entre outras possibilidades. Sobre essa divergência. as assembleias em lugares abertos ao público. por isso mesmo. RJTJSP. asseverou que “a liberdade de reunião traduz meio vocacionado ao exercício do direito à livre expressão das ideias. mas também os direitos de convocar. com objetivos comuns”22. nela incluído o insuprimível direito de se manifestar”. p. 108. p. 392. o ministro Celso de Mello escreveu: “Passeatas: Não se compreendem no conceito do direito de reunião. Assim.22 reunião como “agrupamento voluntário de diversas pessoas que. 24 Acerca das passeatas. Contra JOSÉ CELSO DE MELLO FILHO. 1984. . em voto no STF. em consequência. 1974.24 Verifica-se. SILVA. 25 MAGALHÃES. 27 BRASIL. fl. 2009. o autor denota o caráter instrumental do direito de reunião. GILBERTO PASSOS DE FREITAS e VLADIMIR PASSOS DE FREITAS. Revista dos Tribunais. que podem ser tanto reuniões estáticas quanto dinâmicas. os desfiles e as passeatas aspectos particulares da liberdade de reunião”. 617. 27. 264. No cotidiano as pessoas se deparam com inúmeras condutas humanas que estão inseridas na definição do direito de reunião. p. podendo. os protestos. 366). o ministro Celso de Mello. configurando. 2000. convém mencionar que até a Constituição de 1988 havia a discussão se o direito de reunião tutelaria ou não as passeatas. 22 23 CRETELLA JUNIOR. por considerar os comícios. previamente convocadas.23 bem como as carreatas.26 Estudando o tema. uma íntima relação das manifestações públicas com a liberdade de expressão. p. 2007. p. 54:19. os comícios. portanto. p. 227. “incluem-se no conceito de reunião as passeatas e as manifestações em logradouros públicos”. 2007. 1979. 177:279. os desfiles. (MELLO FILHO. um precioso instrumento de concretização da liberdade de manifestação do pensamento. os cortejos. O direito constitucional de reunião.25 André Ramos Tavares ainda lembra que inserida na liberdade de reunião não está apenas a possibilidade de participar do ato público. na opinião do jurista e magistrado. ser proibidas com base no interesse público (RF. acorrem ao mesmo lugar. sendo ele uma possibilidade de se exercer a liberdade de expressão. 26 TAVARES. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

MELLO FILHO. não se identificam argumentos para excluir os estrangeiros não residentes no país no que tange ao elemento pessoal por ele apontado. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Celso Ribeiro Bastos28 diz ser: a) pluralidade de participantes. quando estiverem no Brasil. A reunião conforme o lugar que se realiza. 187.30 Em que pese o prestígio do autor. b) caráter temporal. Acredita-se que o autor tenha repetido a previsão do caput do art. g. v. 28 29 BASTOS. . Não há motivos jurídicos plausíveis para se excluir tal direito dos que se encontram em solo brasileiro e aqui não residem. b) elemento temporal: a reunião é necessariamente transitória. e) elemento formal: a reunião pressupõe a organização e direção. 187. finalisticamente orientado. estruturam juridicamente o direito de reunião: a) elemento pessoal: pluralidade de participantes (possuem legitimação ativa ao exercício do direito de reunião os brasileiros e os estrangeiros aqui residentes). podendo efetuar-se de dia ou de noite. 5º da CRFB. embora precárias. 5º da Constituição. 30 BRASIL. 1994. ao menos na obra analisada. d) elemento espacial: o direito de reunião se projeta sobre uma área territorialmente delimitada. pode ser pública (vias.23 Acerca dos elementos que compõem uma reunião. p. 1978. sendo. Objetiva um fim. Deve-se destacar que para esse autor o direito de manifestação é diferente do direito de reunião. descontínua e não permanente. c) elemento intencional: a reunião tem um sentido teleológico.). contudo. Em 1978 José Celso de Mello publicou parecer jurídico acerca do tema29. Já quando relator da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n. o ministro citou os cinco componentes que. mesmo não fazendo menção expressa aos estrangeiros não residentes no Brasil como titulares dos direitos e garantias previstos no art. a interpretação sistemática dessa não autoriza furtar dos viajantes estrangeiros garantias e direitos. Contudo. portanto. c) finalidade. ruas e logradouros públicos) ou interna (residências particulares. 2011. para ele. o autor não explica o motivo da distinção. que é comum aos que dela participam.

finalidade e lugar. veículos que casualmente se encontrem e buzinem simultaneamente para comemorar um resultado esportivo. BRANCO. 2010. pode ser chamado a mudar de conduta sem poder usar em seu favor o direito constitucional de reunião. 35 MENDES. Esse autor indica quatro elementos: pluralidade de participantes. . Isso. p. p. o agrupamento de pessoas. 487. 107.24 Muito semelhante à proposta de Celso de Mello é a sugestão apresentada por Alexandre de Moraes. p. COLEHO. Logo. ser pacífica e sem armas. tempo limitado e a emissão do prévio aviso à autoridade competente. 487-489. a definição dos elementos da reunião tem importância prática.36 31 32 MORAES. a coordenação. tempo. Gilmar Mendes33 aponta que o direito de reunião pressupõe: a) como elemento subjetivo.32 Por sua vez. 68. o fim comum. local. COLEHO. ou o cidadão que porta um cartaz com palavras de ordem à frente de uma multidão que sai do metrô não têm suas condutas respaldadas pelo direito de reunião. quais sejam: pluralidade de participantes. 618. Para Gilmar Mendes. d) como elemento temporal. p. a doutrina comumente indica tratar-se de um direito individual que é exercido de forma coletiva35. Para o autor são cinco os elementos que definem o direito de reunião. um local delimitado. COELHO. BRANCO. 2006. BRANCO. b) como elemento formal. p. 2010. f) como elemento espacial. 487. Apesar de parecer questão puramente teórica. 2009. p. protege-se principalmente a liberdade individual de tomar parte ou não na reunião.34 se não estiverem presentes tais elementos. e) como elemento objetivo. 2000. pois. pessoas na fila do banco. determinado agrupamento de pessoas não pode alegar em sua defesa estar amparado pelo direito constitucional de reunião. 33 MENDES. Dessa maneira. 2010. finalidade lícita.31 André Ramos Tavares também propõe condições para se caracterizar o exercício do direito de reunião. 36 MAGALHÃES. o caráter transitório. Quanto à titularidade. 34 MENDES. c) como elemento teleológico. TAVARES.

617. 2009. há um ramo das ciências denominado policiologia que mantém estreitas relações com a Sociologia. contudo. 41 MINAS GERAIS.25 Todavia. Antropologia. 25). Nesse sentido. pela ruptura da lei e da ordem.39 Em uma perspectiva policiológica. p. apenas de forma reflexa será a liberdade de locomoção atingida. diversos tratados e convenções asseguram o direito de reunião. qual seja: aglomeração. 365. não cabe impetrar habeas corpus enquanto garantia constitucional. Assim. 1989. 39 Ministro Carlos Brito. fls. encontramos autores que afirmam ser direito coletivo por tutelar a manifestação coletiva da liberdade de expressão. tumulto. p. entre outros elementos. Tal campo do saber humano estuda “o fenômeno chamado polícia” (MEIRELES. denominada multidão. 69 e TAVARES. ver MELLO FILHO. o artigo 21º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) afiança: 37 38 TAVARES. trata-se de norma de eficácia plena. 2009. o exercício do direito de reunião é caracterizado apenas na segunda hipótese.37 Por sua vez. A primeira não é propriamente o exercício do direito de reunião. sem. 619. pois prescinde de norma regulamentadora para que possa ser usufruído esse direito constitucional. ESPÍRITO SANTO. por se tratar de agrupamento casual. 1984.1 garante que “toda pessoa tem direito à liberdade de reunião pacífica”. p. p. 42 BRASIL.41 No direito internacional. 2006. a tutela jurisdicional desse direito é feita por meio do mandado de segurança. Já as duas últimas categorias são caracterizadas. turba.40 a coletividade de pessoas recebe uma classificação da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) com base em fatores psíquico-jurídicos.38 No pertinente à sua eficácia. p. . MORAES. 1948. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDDHH) no artigo XX. deixar de ser também um direito individual a cada um que pretenda participar da reunião. 304 40 Apesar de pouco conhecida nas faculdades de Direito. fl. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. multidão.42 Por sua vez. assim. Polícia Militar. 18-19. Por certo. Psicologia e com o Direito. 2007.

. 1966.47 que possuía a seguinte redação: 43 44 BRASIL. 46 MORAES. no bojo das lutas empreendidas pela humanidade contra o absolutismo monárquico. Extremamente semelhante ao PIDCP é a previsão do Pacto de San José da Costa Rica. também conhecido como Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. além de pacífica. 2007.45 A previsão legal mais remota desse direito de que se tem notícia é a que surgiu no contexto da independência dos Estados Unidos da América. como disposto no PIDCP. no interesse da segurança nacional. 1969. A doutrina46 aponta como a primeira norma a tutelar tal direito a Declaração de Direito da Pensilvânia. 372. segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandoski. a liberdade de reunião e de associação para fins lícitos constitui uma das mais importantes conquistas da civilização. 45 BRASIL. a reunião deve ser também sem armas.2 HISTÓRIA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO CONSTITUCIONALISMO MODERNO OCIDENTAL A gênese desse direito. no contexto da formação dos Estados-Nacionais europeus: Ora. BRASIL. em uma sociedade democrática. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. a partir do século XVIII. Declaration of Rights. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. como se sabe. da segurança ou da ordem pública. fl. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. no plano jurídico. 2006. 3.26 O direito de reunião pacífica será reconhecido. de 1776. 47 Pennsylvania Constitution of 1776.44 A única diferença é que o artigo 15º dessa norma estabeleceu que. O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das 43 pessoas. encontrando expressão. enquanto fundamento das modernas democracias políticas. remonta ao século 18.

não tivemos grandes alterações. o direito de reunião esteve presente em todas. não carecendo. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934 no art. petition. 5º. teve a oportunidade de receber uma proteção mais ampla no próprio texto constitucional.27 Todos têm o direito de reunirem-se. para deliberar sobre o bem comum. § 11. 2012. Constituição da República Federativa do Brasil de 1967 no art. to instruct their representatives. para o presente trabalho. XVI. o direito de reunião foi inserido o inciso XVI do art. petição. 141. com perigo para pessoas ou bens. Outrossim. Analisando esse direito na história das constituições brasileiras. Assim. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1937 no art. que foi reprimido durante anos.49 Desde a Constituição de 1891. A ideia de que a reunião seja sem armas perpassou todos os textos constitucionais. chegando até a Constituição de 1967. § 27. by address. sempre havia a previsão expressa nas constituições da possibilidade da intervenção da polícia ou de outra autoridade. Contudo. que passou a ser a nova disciplina das manifestações públicas no Brasil. ou representação.51 Após o fim do regime autocrático pelo qual passou o Brasil durante os anos de 1964 e 1985. 5º. to consult for their commom good. nas constituições republicanas. 150. p. uma análise histórica pormenorizada das alterações no texto do direito de reunião. . 113. Tradução livre do autor) 49 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891 no art. para instruir seus representantes. LERNER. 110-111. § 8. a Assembleia Nacional Constituinte foi convocada. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946 no art. 2000. (KURLAND. or remonstrance. § 11. 51 MAGALHÃES. constatamos que a Constituição do Império do Brasil não o assegurava. e requerer à legislatura 48 para reparar injustiças. inc. para manter a ordem ou em nome da segurança pública. § 10. apontamentos e comparações acerca dos sistemas constitucionais anteriores serão feitos. and to apply to the legislature for redress of grievances.50 Ainda hoje as constituições de Espanha e Itália restringem a liberdade de reunião por razões de ordem pública. Constituição da República Federativa no art. 50 Conforme se avançar no estudo da previsão constitucional vigente. 72. Os anseios sociais relativos à liberdade de expressão nas manifestações públicas. O direito de reunião ora vigente está previsto na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 da seguinte forma: 48 That the people have a right to assemble together. via discurso. 122.

28

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, e à propriedade, nos termos seguintes:[...] XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independente de autorização, desde que não frustrem outra reunião convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente.52

Em uma leitura inicial podemos ver que se trata de um direito bastante amplo, que parece tentar afastar as arbitrariedades estatais que tanto marcaram esse direito ao longo de nossa história jurídica. Como mencionado anteriormente, a intervenção estatal nesse direito sempre foi um aspecto trivial. Com maior ênfase isso ocorreu após a regulamentação desse direito ainda no sistema constitucional de 1946, quando foi editada lei especificamente para esse fim.53

Em que pese a amplitude proporcionada pela Constituição de 1988, o direito de reunião tem alguns contornos que relativizam esse direito fundamental, carecendo, portanto, de uma análise mais detalhada acerca de cada uma dessas balizas para o exercício desse direito dentro do contexto do Estado Democrático de Direito vigente no Brasil.

52 53

BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1988. BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1950.

29

4 A RELATIVIZAÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS: O DIREITO DE REUNIÃO E AS POSSIBILIDADES DE LIMITES

4.1 A EXISTÊNCIA DOS LIMITES: O CONFLITO DE DIREITOS E OS DEVERES FUNDAMENTAIS

Em que pese seu status de direito fundamental, a garantia disposta no inciso XVI do artigo 5º da CRFB/88 não é um direito absoluto, conforme preleciona o ministro do STF, Ricardo Lewandowski:
Não se ignora, é verdade, que liberdade de reunião não é um direito absoluto. Nenhum direito, aliás, o é. Até mesmo os direitos havidos como fundamentais encontram limites explícitos e implícitos no texto das constituições.54

No mesmo julgado, no qual estava em pauta a regulamentação do direito de reunião elaborada pelo Distrito Federal, os ministros Gilmar Mendes55 e Cezar Peluso56 concordaram, juntamente com Lewandowski, acerca da possibilidade de se impor certos tipos de regramentos ao direito de reunião. Sepúlveda Pertence, por sua vez, afirmou não querer assumir compromisso sobre o assunto.57 Entretanto, em caminho oposto, o ministro Marco Aurélio asseverou que “ao povo é assegurado ampla e irrestritamente o direito de manifestação”.58 A divergência no precedente do STF evidencia ser necessário estudar mais detalhadamente a possibilidade de se estabelecerem limites ao exercício do direito de reunião. Mesmo para aqueles que reconhecem existir tais restrições, o tema adquire relevância. Para esses, já que existem tais limites, é importante buscar compreender, então, quais seriam essas restrições ao direito de reunião.

54 55

BRASIL. BRASIL. 56 BRASIL. 57 BRASIL. 58 BRASIL.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL,

2007, fl 377. 2007, fl 399-400. 2007, fl 398. 2007, fl 402. 2007, fl. 299.

30

Sobre o tema, ensinou José Afonso da Silva que não é “correta a definição de liberdade como ausência de coação. O que é válido afirmar é que a liberdade consiste na ausência de toda coação anormal, ilegal, ilegítima e imoral”.59 Assim, até mesmo direitos havidos como fundamentais comportam certa disciplina em seu exercício.

Detalhando melhor o assunto, Márcio Luís de Oliveira também discorre sobre a relativização dos direitos fundamentais, esclarecendo que:
Os direitos e garantias fundamentais não são absolutos, ou seja, eles são relativos, pois suas titularidades e exercícios são condicionáveis pelo sistema jurídico, no qual também são estabelecidos inúmeros deveres para os sujeitos do Direito, para a sociedade e para o Estado. Logo, os direitos e garantias fundamentais são passíveis de relativização em suas titularidades e exercícios; nesse sentido, eles podem sofrer “constrições” estatais ou mesmo particulares, além de, 60 eventualmente, conflitar ou concorrer uns com os outros .

Percebe-se que o autor trabalha com conceitos como titularidade e exercício e, ainda, a possibilidade de condicionar ambos. Outrossim, pelo excerto percebemos que Márcio Luís de Oliveira acrescenta à discussão a ideia de deveres fundamentais. Dessa forma, constata-se que os cidadãos possuem, além dos direitos e garantias fundamentais, deveres fundamentais. Como corolário, todo cidadão tem como dever fundamental a obrigação de respeitar os direitos das demais pessoas.

Aplicando a discussão dos deveres fundamentais ao tema em estudo, descortina-se uma perspectiva mais ampla acerca dos limites do direito de reunião. Com efeito, o exercício desse direito não pode vir desacompanhado do dever de respeitar o direito das demais pessoas, tais como a locomoção, o trabalho, a saúde, entre outros. Uma manifestação muito barulhenta pode obstar o direito ao trabalho de outrem; da mesma forma, uma interrupção total de uma via pública central, em horário de grande fluxo de veículos e pessoas, pode comprometer o direito de locomoção do restante da sociedade.
59 60

SILVA, 2007, p. 232. OLIVEIRA, 2011, p. 442.

da nossa Constituição é denominado “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. já que não faltaram exemplos concretos e de ampla 62 aceitação no direito comparado. durante os protestos devem ser respeitados os direitos dos demais cidadãos que não estão participando do ato público. faz-se necessário compreender a sistemática das constrições aos direitos e garantias fundamentais. verificamos que tanto os deveres fundamentais quanto a relativização dos direitos encontram respaldo na doutrina e jurisprudência. quando o direito de uma ou várias pessoas for violado pelo exercício impróprio daquela liberdade”. SARLET. nenhum dispositivo no capítulo mencionado faz alusão aos deveres fundamentais. 2011. Ante tais observações. o que na verdade. p. Nesse sentido é o parecer de José Luiz Quadros de Magalhães. do Título II. no atinente aos deveres fundamentais na CRFB/88. Tal fato é apontado por Ingo Wolgang Sarlet a partir do direito comparado. quando afirma que “só pode intervir o Estado nesse direito quando a reunião deixar de ser pacífica ou. 69. intencional ou não. na doutrina dos direitos individuais. 2000. . contudo. mesmo diante da omissão do legislador constituinte. O Capítulo I. a questão da possibilidade de constrições aos direitos fundamentais parece igualmente ter sido negligenciada pelos redatores da nossa Constituição. Para o autor gaúcho: Importante lacuna deixada pelo Constituinte diz com a ausência da previsão de normas genéricas expressas sobre as restrições aos direitos fundamentais. não encontra maior justificativa. Dessa forma. importante destacar que parece ter havido uma omissão.31 Assim.61 Ainda sobre a questão dos deveres fundamentais. 61 62 MAGALHÃES. Não obstante a omissão dos deveres fundamentais. 107-108. p.

Nessas o direito continua intacto. Márcio Luís de Oliveira64 afirma que essas podem ser de três naturezas gradativas. Ou seja. BRANCO. o condenado fica totalmente impedido de exercer seus direitos políticos tais 63 64 MIRANDA. p. Nessa hipótese. 374 e MENDES. . Exemplo típico de medidas restritivas são as penas de reclusão. OLIVEIRA. o direito e seus limites não existem separadamente. haveria um direito ilimitado e que. No intuito de compreender as possibilidades de impor relativizações aos direitos fundamentais. 2008. as relativizações restritivas incidiriam sobre o exercício do direito. p. uma das primeiras questões levantadas pela doutrina63 refere-se à distinção entre os direitos e suas restrições. b) medidas suspensivas. Por essa teoria. que restringem o direito à liberdade de locomoção. distinguíveis logicamente. 2010. ao se estabelecerem as restrições decorrentes da necessidade de compatibilização. c) medidas supressivas. Pelo prisma do autor. 2011. Isso porque. entretanto. em princípio. De igual modo. 2011. COELHO. 444. 446. por isso. nesses casos. estamos diante da teoria externa. tornar-se-ia limitado. mas sim. em relativização.2 A DOGMÁTICA DA RELATIVIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Ao se estudar a relativização dos direitos fundamentais. p. quais sejam: a) medidas restritivas. mas de forma limitada. a suspensão resulta no total impedimento do exercício do direito ou garantia sendo. Se se compreende que o direito e suas restrições são categorias autônomas. de acordo com a qual existe o direito individual com determinado conteúdo definido pelo próprio sistema jurídico. 379. as medidas suspensivas também incidem sobre o exercício do direito. necessariamente temporária. apresenta-se a teoria interna. podendo ser exercido. Em oposição à primeira. p.32 4. Cabe ressaltar que as medidas restritivas comportam gradações. Márcio Luís de Oliveira65 cita como exemplo dessa medida a suspensão dos direitos políticos em razão de condenação por improbidade administrativa. 65 OLIVEIRA. não se fala em restrição.

como demonstrado por Canotilho. o jurista português J. 446. “eliminando-o do acervo jurídico subjetivo do indivíduo”66 e são. por isso. a disciplina do direito de reunião na Constituição não faz referência à lei regulamentadora. Por sua vez.33 como o direito de votar e ser votado. 450. as medidas supressivas extinguem a própria titularidade do direito. Contudo. medidas excepcionais no Estado Democrático de Direito. podemos perceber que estão presentes na nossa Constituição (inciso XVI. Visando esquematizar as medidas restritivas aos direitos fundamentais. 2011. pois. mas sem autorização expressa da Constituição. e. também discute o tema. o direito de exercer função pública e o direito de contratar com a Administração Pública. 68 MIRANDA. 5º) duas das categorias apontadas: a) as restrições feitas pela Constituição. p. restritiva e aditiva. (2) restrições feitas por lei mas expressamente autorizadas pela Constituições. Isso. 2008. CANOTILHO. não temos em nosso sistema constitucional a segunda categoria apresentada pelo autor. conforme o texto lido. Outro constitucionalista português. 2003. Aplicando os ensinamentos de Canotilho ao direito de reunião previsto na CRFB/88. inconstitucionais.67 Verifica-se que Canotilho deixa claro que as limitações aos direitos comportam até mesmo restrições legais (infraconstitucionais) aos direitos fundamentais elencados na Constituição. protectiva. art. Para ele a intervenção do legislador nos direitos. concretizadora. . tal aspecto não faz com que leis infraconstitucionais que restrinjam o direto de reunião sejam. b) as operadas através de lei. Gomes Canotilho divide tais restrições em três classes: Há três “universos” de restrições de direitos recortados por actos normativos com valor de lei: (1) restrições feitas directamente pela Constituição. (3) restrições operadas através de lei mas sem autorização expressa da Constituição. por si só. nas liberdades e nas garantias pode ser de cinco espécies: declarativa regulamentadora. ou seja. Jorge Miranda. p.68 66 67 OLIVEIRA. p. J. 366.

Em virtude do elucidado até o momento. Nesses casos. históricos e 69 70 MIRANDA. verificou-se que é possível definir limites aos direitos fundamentais. para o autor. 373. Os aspectos sociológicos. 4. O autor indica a existência de limites implícitos aos direitos fundamentais.34 Jorge Miranda acrescenta uma espécie de restrição menos evidente. que seriam aqueles que existem mesmo não havendo previsão literal. MIRANDA.2.70 Ou seja. mas sim em princípios constitucionais paralelos 69 aos que alicerçam as restrições expressas .1 Eficácia Horizontal dos Direitos Humanos Os direitos humanos foram construídos como uma proteção para o cidadão comum ante a autoridade do rei. 2008. aceitar a existência de restrições implícitas derivadas outrossim da necessidade de salvaguardar outros interesses constitucionalmente protegidos. 2008. nos casos de limites implícitos. deve-se verificar apenas a constitucionalidade da medida restritiva. sobretudo quando as esferas juridicamente de duas ou mais pessoas ou grupos se conflitam. o que não aconteceria nas restrições expressas. deve-se também analisar a própria decisão de se restringir o direito fundamental em face do peso de outro interesse que se lhe opõe. e fundadas não em preceitos avulsos. Jorge Miranda indica que na hipótese de restrição expressa. Detalhando o assunto. é necessário fazer assentar cada restrição em certo e determinado interesse constitucionalmente protegido. p. é. é preciso ir além da verificação da constitucionalidade da medida. que não seria decorrente de norma positivada na Constituição nem de leis infraconstitucionais. nas restrições implícitas. Lado outro. 372. Para o jurista: Forçoso e natural. Em tais casos estamos diante do que se denomina eficácia ou conflito horizontal de direitos humanos. precisando ser conciliadas. . p. pois.

2005). 2007. a complexidade das sociedades atuais fez surgir um novo problema. Juristas costumam indicar a Magna Carta de 121572 como a primeira norma de direitos humanos elaborada. podendo ser o Monarca ou uma Assembleia. 73 COMPARATO. emergem conflitos da relação indivíduo-indivíduo. o diploma foi escrito em latim bárbaro. mas foi usado. os direitos fundamentais. mas sim do reconhecimento de que a soberania do monarca passava a ser substancialmente limitada [.. Entretanto.] Mais do que isso.35 jurídicos tornavam o cidadão comum extremamente vulnerável em relação ao monarca ou ao Estado. cabe ao Poder Público a não intervenção na esfera juridicamente tutelada do indivíduo. durante toda a Idade Média. 72 Magna Carta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannem et Barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni Angliae – Carta Magna das Liberdades ou Concórdia entre o rei João e os Barões para a outorga das liberdades da igreja e do reino inglês. Se antes os direitos humanos eram escudos protetivos na relação verticalizada Estado-cidadão. Com efeito. sobretudo os de primeira dimensão. havia uma série de possibilidades de intervenção do Leviatã71 na esfera privada do indivíduo. que o rei achava-se naturalmente vinculado pelas próprias leis que edita”. 71). na seara da eficácia horizontal desses direitos. porém. oriundo da língua grega. Fábio Konder Comparato assevera: “No caso. Hoje em dia. sem “h”. era grafado no latim clássico com “ch”. Acerca desse instrumento. a Magna Carta deixa implícito pela primeira vez. Assim. hoje também se prestam à tutelar direitos no confronto horizontal cidadão-cidadão. dotada de autoridade inquestionável (HOBBES.73 Contudo. (COMPARATO. e o vocábulo Magna Carta. vieram para impor restrições na intervenção do Estado na vida particular. Assim. . exige-se das autoridades que intervenham para que não se permitam agressões recíprocas entre os 71 Segundo Thomas Hobbes. não se tratou de delegações de poderes reais. na história política medieval. 2007. 79-80.. não se trata tão somente de proteger o cidadão de desmandos do rei ou do Estado. p. No viés da dimensão vertical dos direitos humanos. p. Segundo Fábio Konder Comparato. o Leviatã é o poder central e absoluto ao qual todos devem se submeter. Muito comum hoje é a interferência de indivíduos ou grupos nos direitos de outro cidadão ou grupo.

portanto. incidirá em detrimento do outro. p. CANÇADO TRINDADE. quando direitos fundamentais de cidadãos distintos se colidem. esse é o entendimento. defendida por autores como Cançado Trindade. p. portanto. em sua globalidade (inteireza). a aplicação da norma mais benéfica para um indivíduo. por certo. 2010 apud PIOVESAN. de Kildare Carvalho. para quem: A mudança de paradigma da eficácia apenas vertical dos direitos fundamentais decorreu. 2010. o bloco de constitucionalidade. também. p. a mesma situação jurídica. “dois ou mais princípios jurídicos afluem para regular. p. segundo Márcio Luís de Oliveira. avaliar os princípios constitucionais que estão em jogo e ponderá-los. XLI. sem a possibilidade de conflito entre esferas juridicamente tuteladas de pares. mas também outros cidadãos nas relações horizontais entre si. 348. p. como também garanti-lo contra 74 agressões propiciadas por terceiros. 105.36 cidadãos ou grupos. em face das investidas do poder público. Essa regra somente se aplica quando estamos analisando o direito de um único cidadão ou grupo. 2011. buscando a essência dos direitos por meio de uma interpretação sistemática e complexa da Constituição. se aplica a regra mais favorável e garantista na perspectiva do indivíduo. 78 OLIVEIRA. 74 75 CARVALHO. a simples regra da norma mais protetiva. na qual. O Estado. 721. podemos dizer que se trata da concorrência por divergência. entre outros autores. do reconhecimento de que não é somente o Estado que pode ameaçar esses direitos. se obriga não apenas a observar os direitos fundamentais. . 76 PIOVESAN. 2010. 221. Nesses casos. 2000. Consequentemente. torna-se relevante estudar. sobretudo. 77 MAZZUOLI.78 Dessa forma. Na dogmática jurídica da concorrência dos princípios jurídicos.75 Flavia Piovesan76 e Mazzouli77 não é suficiente. Necessário se faz. porém com possibilidades de resultados completamente distintos e até mesmo antagônicos”. Acerca da hermenêutica constitucional. Para esse fim. deve haver uma análise do caso. 2009.

que não integram expressamente a Constituição Formal. devem-se ponderar todos os valores em debate. costumes constitucionais. até mesmo implícitas ou por normas 79 OLIVEIRA. ainda que uma delas não seja expressa na Constituição. . jurisprudência constitucional e princípios constitucionais implícitos”. Em virtude de sua natureza jurídica de direito constitucional. restou demonstrado que os direitos fundamentais insculpidos na CRFB podem sofrer relativizações. determinados princípios surgirão como superiores em virtude de sua fundamentalidade. Assim.37 4.2 Bloco de Constitucionalidade Outro conceito muito importante quando se discutem os limites e contornos dos direitos fundamentais é o bloco de constitucionalidade. Sendo assim. Destarte. Nesses casos. O Supremo Tribunal Federal vem decidindo que ao se interpretar a Constituição deve se ter em mente muito mais do que as normas positivadas na Constituição Formal. portanto de natureza constitucional. pode-se afirmar que existem regras e princípios constitucionais que não estão positivados na Constituição Formal. tal análise não deve ser feita abstratamente.2. normas infraconstitucionais podem até mesmo vir a ser utilizadas como paradigma para efeitos de controle de constitucionalidade. o conteúdo dos direitos constitucionais deve ser buscado não apenas na literalidade da norma constitucional. “o Bloco de Constitucionalidade é integrado basicamente por legislação infraconstitucional. em face dos conceitos e institutos jurídicos apresentados no presente capítulo. Para tal desiderato. Assim. Contudo.79 Consequentemente. Por esse conceito. pode acontecer de existirem normas jurídicas de mesmo status (nível hierárquico) que sejam conflitantes. mas interpretado a partir dos valores e princípios constitucionais analisados conjuntamente. há preceitos de direitos fundamentais. 2012.

devendo ser impessoais e abstratas. é possível sintetizar em um total de dez. Jorge Miranda81 indica aspectos que devem ser observados quando do estabelecimento de limites aos direitos fundamentais. 7) as leis restritivas não podem diminuir o conteúdo essencial dos direitos. as restrições aos direitos fundamentais também são limitadas. . liberdade e garantias que regulam. o limite dos limites. 393. os direitos humanos comportam derrogações. 375-379. ou seja. Estudando o tema. p. BRANCO. ou seja. tais limites também possuem limites. 2) ao se elaborarem leis restritivas. 6) as leis não podem ter efeitos retroativos ou que se apliquem a situações vindas do passado e ainda não terminadas – retroatividade imprópria. ou seja. 4) a norma deve permitir conhecer precisamente os critérios legais. os limites às relativizações apontados pelo autor: 1) nenhuma restrição pode deixar de ter fundamento constitucional. ou ainda. Entretanto.3 OS LIMITES DAS RELATIVIZAÇÕES Consoante a dogmática da relativização dos direitos fundamentais apresentada.38 infraconstitucionais. 80 81 MENDES. 5) as leis não devem permitir arbítrio e discriminação infundada. Dessa forma. 3) as restrições não podem ser operadas por atos normativos da Administração. MIRANDA. essas restrições não são impostas ao acaso. estas devem deixar indicar explicitamente os direitos que visam tutelar bem como os princípios constitucionais que lhes fundamentam. só podem ser feitas por meio de lei. Contudo. 2010. sem conhecer limites. COELHO. p. De forma esquemática. 4. fazse necessário compreender os limites das restrições. o que a doutrina tem designado de limites imanentes80. 2008. denominados por ele de restrição da restrição.

não podendo extrapolar tal finalidade. Após analisarmos a possibilidade de impor limites aos direitos fundamentais.39 8) as restrições devem se ater ao fim proposto. deve se privilegiar este em detrimento daquela. . bem como reconhecer os limites dos limites. passa-se à análise das relativizações ao direito de reunião no sistema jurídico brasileiro. 10) na dúvida. só adotadas quando não houver outro meio de alcançar o fim pretendido. 9) as restrições devem limitar-se a salvaguardar outros interesses constitucionalmente protegidos. entre a restrição e o direito.

As relativizações ao direito de reunião não estão redigidas de uma forma sistematizada. fora do texto constitucional. Temos normas que disciplinam esse direito que são expressas dentro da própria Constituição e esparsamente. .40 5 A DISCIPLINA JURÍDICA DO DIREITO DE REUNIÃO NO BRASIL Apesar do demonstrado até o momento no concernente às possibilidades de se relativizarem os direitos fundamentais. 5º. art. que estatui o direito de reunião. Ademais. por último. bem como expressas em outros artigos e incisos da Constituição. ou seja. 5º da CRFB. as restrições previstas na Constituição podem estar no próprio inciso XVI. ainda encontramos entre os juristas aqueles que acreditam que “as restrições ao direito de reunião são unicamente as que estão previstas na Lei Magna. e não na lei ordinária”. e. c) limites implícitos ao direito de reunião. evidencia-se. 2011). Outrossim. temos ainda as relativizações implícitas que decorrem da análise sistemática do tema. art. Na tentativa de se criar uma proposta mais didática para o estudo dos limites do direito de reunião. outra vez mais. 5º. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. art.82 Assim. (BRASIL. a complexidade do tema e a necessidade de investigá-lo. mas fora do inciso XVI. 82 Petição Inicial da ADPF 187. Parte da dificuldade de se compreender tais restrições ocorre em decorrência da disciplina do direito de reunião previsto no Brasil. as insculpidas expressamente no inciso XVI. d) restrições constitucionais expressas em lei ordinária. b) relativizações expressas no texto da Constituição. passaremos a analisá-lo a partir de quatro categorias: a) relativizações operadas pelo próprio preceito que estatui o direito fundamental.

Dessa forma.] Assim. Assim. elemento semântico da garantia 5. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. 5º. 5º são garantidos apenas aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país. pode-se afirmar que a previsão constitucional do direito de reunião por si só já regulamenta esse direito. XVI. apesar do detalhamento feito pela norma constitucional. Entretanto. DA CONSTITUIÇÃO. torna evidente que os estrangeiros não residentes no país que estejam em trânsito 83 BRASIL. temos que os direitos previstos no art. será analisado cada constitucional do direito de reunião. e outros carecem de uma análise mais detalhada. quando o inciso XVI estabelece que “todos podem reunir-se”. . 5. 5º.1 RESTRIÇÕES INSCULPIDAS NO INC. 5º. art. 1988. Todos são iguais perante a lei.1 Todos Podem Reunir-se Acerca do termo “todos”. o assunto não se esgota naquele preceito. inicialmente será feita a análise das restrições insculpidas no próprio inciso XVI. Pela regra do caput. in verbis : Art. à segurança e 83 à propriedade. à igualdade. Assim. Em virtude do grau de detalhamento previsto no inciso XVI.41 Assim. normas segregadoras como ocorria no regime do Apartheid inquestionavelmente não são aceitas.1. não restam dúvidas acerca de sua amplitude. 5º da CRFB deixa claro que os titulares dos direitos e das garantias são mais numerosos do que o aparentemente previsto no caput do próprio art. art. 5º.. 5º da CRFB. alguns pontos ficaram por se regulamentar. art. interessante é que o inciso XVI. ART. nos termos seguintes: [. sem distinção de qualquer natureza. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. como partida para o detalhamento dos limites ao direito de reunião em nosso sistema jurídico. Sobre esse ponto..

a priori.42 ou provisoriamente estabelecidos em solo brasileiro. está tutelada pelo direito de reunião a manifestação que “não se devota à conflagração física”. ou seja. uma passeata organizada por ativistas mais radicais. “por reunião pacífica entende-se aquela que não busca a conflagração física”. manifestações xenofóbicas ou de cunho nazifascista. BRANCO. Se assim o for. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Dessa forma. também possuem o direito de reunião assegurado. e. inconstitucional. 5º não os incluir. Essa exigência já havia sido elencada nas constituições brasileiras de 1937 e de 1946. índios. negros ou brancos. 86 PERALES. afirma-se que são titulares do direito de reunião todas as pessoas naturais. 5. Em suma.85 Assim. a manifestação não pode ter como desiderato ou como consequência a lesão à integridade física ou ao patrimônio. . 488. 87 MENDES. temos também a que pode ocorrer reflexamente em virtude da reunião. estrangeiros. estão eivadas de inconstitucionalidade. 2003. a norma que regulamenta o direito de reunião detalha a situação. 2009. 2010.2 Reunião Pacífica A primeira exigência que se faz ao exercício do direito de reunião no Brasil é que o evento seja pacífico: “Todos podem reunir-se pacificamente [. De igual modo. CARVALHO.. não será o exercício de um direito.1. e sim o seu abuso86. COELHO. que almejem agredir gays. Naquele país.87 Além da violência operada pelos próprios manifestantes. p. contrários à globalização e que vise causar danos materiais a estabelecimentos comerciais como o Carrefour ou o McDonalds seria. a manifestação deve ser pacífica e também ser diligente para não gerar violência 84 85 BRASIL. p. Na África do Sul. 1988.84 diz o texto da Constituição. apesar de a literalidade do caput do art...g. 788. Meios pacíficos referem-se à ausência de propósito de quebrar a atmosfera de paz.]”. Portanto.

3 Reunião sem Armas A previsão de não poder ter armas nas manifestações vem desde a Constituição francesa de 1791. não estimular a violência em outras pessoas ou grupos. cartaz. ou alguns estão armados. sendo deflagrada por pessoas estranhas ao agrupamento”. 2010. presente ou participando em uma reunião ou manifestação.90 5. (6) No person present at or participating in a gathering or demonstration shall perform any act or utter any words which are calculated or likely to cause or encourage violence against any person or group of persons. sexo. não basta ter um manifestante armado para que a autoridade pública possa restringir o direito de reunião. p. poderá praticar qualquer ato ou proferir quaisquer palavras calculadas ou que sejam suscetíveis de causar ou estimular 88 a violência contra qualquer pessoa ou grupo . 88 (5) No person present at or participating in a gathering or demonstration shall by way of a banner. “Se na reunião. 89 MENDES. placard. nos seguintes termos: (5) Nenhuma pessoa. Na Espanha. O direito de reunião não se descaracteriza se a violência que venha a ocorrer lhe é externa.1. Como já mencionado alhures. sex . Para o direito brasileiro. temos também a questão da violência psíquica. 488. 488. em se tratando de incidência pontual. speech or singing or in any other manner incite hatred of other persons or any group of other persons on account of differences in culture. Além disso. COELHO. em razão de diferenças culturais. de raça. COELHO. “não é violenta a reunião que atraia a reação violenta de outrem.89 Ainda acerca da violência. 90 MENDES. 1993. 2010. o tribunal constitucional já decidiu serem proibidas manifestações com alcance intimidatório para terceiros. abrange arma de fogo e arma branca. fala ou canto. . ou por qualquer outro meio. BRANCO. language or religion. BRANCO. (SOUTH AFRICA.43 de forma indireta. É praticamente lugar comum na doutrina pátria que o termo é lato sensu. essa relativização esteve presente em todas as previsões constitucionais do direito de reunião no Brasil. p. segundo Gilmar Mendes. ou seja. presente ou participando de uma reunião ou manifestação. Tradução livre do autor). a ação da polícia também deve ser específica. língua ou religião. um. ou seja. incitar o ódio de outras pessoas ou grupos. race. poderá por banner. (6) Nenhuma pessoa.

5. No mesmo sentido. policiais ou demais classes que detenham o porte de arma. 2003. bem como na proibição ao uso de armas de fogo em eventos com aglomerações de pessoas disciplinados pela Lei n. Cabe-lhe desarmar tal pessoa ou. esses não poderão levar consigo o armamento durante a reunião. afirma-se que. 10. podem ser consideradas armas brancas. essa parece ser a mens legis do texto constitucional. Presidência da República. . apesar de serem instrumentos de trabalho no campo ou em um açougue.91 Ou seja. 94 BRASIL. então. 5º da CRFB/88. respectivamente. o ministro Celso de Mello Filho afirma que: A polícia não pode dissolver a assembleia pelo fato de se encontrar portando arma alguém que dela participa. MELLO FILHO.826/03 e a norma que a regulamenta. posto que este direito é individual”. p. no atinente às armas de fogo. Sobre esse 91 92 FERREIRA. art. Aliás. Como já mencionado.44 não faz com isto. 142.826/0393 e de seu Decreto regulamentador. nas manifestações de militares. o objetivo seria proibir de comparecer armadas em reuniões exatamente as pessoas que possuem o porte da arma de fogo. uma foice ou uma faca. 1989. Não faria sentido a Constituição vetar de comparecer armadas em uma reunião as pessoas que já não poderiam portálas em uma situação trivial. Por isso. que prosseguirá normalmente 92 com os demais participantes que não estejam armadas. a expressão “sem armas” se refere tanto a armas de fogo como a armas brancas. Assim. Há de se atentar para o fato de que essa limitação é também uma restrição constitucional momentânea ao porte de arma adquirido legítima e legalmente. a ação do poder público deve ser em desfavor do cidadão que estiver armado e não em prejuízo do evento como um todo.95 nem mesmo de maneira velada.123/04. o Decreto n.94 esta pessoa não poderá portá-la durante a realização do evento. 93 BRASIL. 1984. 2004. pois. em uma manifestação por certo não serão utilizadas para a finalidade para a qual foram criadas. 365. p. afastá-la da reunião. Assim. Presidência da República. 95 Verifica-se que essa interpretação encontra fundamento na própria leitura lógico-literal do inciso XVI. Ainda que o indivíduo que tome parte de uma reunião tenha o porte de arma nos termos da Lei 10. desaparecer o direito de reunião.

Peculiar é a regulamentação do direito de reunião em Portugal. 2003. (PERALES. o termo não deve ser entendido em sentido estrito: Com relação ao termo “sem armas” [. 2.. . Percebe-se. 96 Con relación al término “sin armas”. isto é. As pessoas que forem surpreendidas armadas em reuniões. também estão proibidos97. Nesse caso. 2010. BRANCO. Nesta também há a previsão de que a manifestação ocorra sem armas. manifestações ou desfiles em lugares públicos ou abertos ao público incorrerão nas penalidades do crime de desobediência. tal situação não se aplica ao direito brasileiro. se desvirtuados de sua finalidade podem ser utilizados como meio de agressão. em que o artigo 8º do Decreto-Lei que regulamenta as reuniões em terras lusitanas determina: Art. que a norma atribui ao organizador do evento a responsabilidade de desarmar as pessoas armadas que compareçam às reuniões. para a autora. Assim. e. p.1.] entende-se que o termo deve ser compreendido não somente no sentido estrito. 489. Dessa forma. se entiende que hay que comprender en él no sólo las armas en sentido estricto sino también cualquier instrumento que pueda ser utilizado como tal (bates de béisbol o paraguas cuando no tengan como finalidad la que les es propia.45 ponto.. também encontra fundamento em nosso sistema jurídico. que. 1974. desse modo. comícios. Tradução livre do autor). COELHO. relativo às armas brancas. 98 PORTUGAL. objetos para a prática de esportes como bastões ou outros elementos como produtos químicos. 97 MENDES. independente de outras sanções que caibam no caso. o argumento apontado por Perales. 8º . tendo sido demonstrado apenas para efeitos comparativos. esto es proteger de la lluvia). por ter uma redação idêntica ao direito brasileiro. en buena medida unido a la primera exigencia. proteger da chuva). mas também qualquer instrumento que possa ser utilizado como tal (taco de beisebol ou guarda-chuvas quando não tenham como finalidade a 96 que lhe seja própria. podemos mencionar o que Ascención Perales discorre acerca da Constituição espanhola. Os promotores deverão pedir as armas aos portadores delas e 98 entregá-las às autoridades.

Ante o dispositivo constitucional vigente. não é de livre acesso. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 102 BRASIL. 2010. 400. 2010.1. em edifício que funcione órgão estatal deve obedecer às regras de direito 99 MENDES. p. sendo que as duas primeiras faziam a ressalva de que. não é aberto ao público. XVI. o Palácio da Alvorada. BRANCO. O mesmo ocorre com qualquer outro bem público. 101 MENDES. 489. O ministro Gilmar Mendes100 pontua que mesmo em locais fechados o direito de reunião pode exigir regulamentação. fl. Apesar de ser um bem público. Uma manifestação. que é um bem público. tais como prédios. 2007.46 5. 1950. No tocante aos locais para se realizarem as reuniões. p. Não é que as reuniões em locais fechados prescindam de limites ou regras. está revogado tacitamente101 o artigo 3º da Lei 1. a história do direito de reunião no Brasil demonstra que as constituições de 1934. ocorre que as regras são diversas. Devemos pontuar também a distinção entre “locais abertos ao público” e “lugares públicos”.207/50102 que permite que o poder público defina quais as praças poderiam ser destinadas ao exercício do direito de reunião. Ocorre que a disciplina das reuniões em locais privados é diversa. art. 490. 1946 e 1967 permitiam ao poder público designar o local das manifestações. da CRFB.g. COELHO.4 Locais Abertos ao Público A expressão “em locais abertos ao público” quer dizer que todo cidadão tem o direito de se reunir até mesmo em locais abertos ao público.99 não precisando sequer obedecer o previsto no inc. 5º. não poderia a autoridade frustrar ou impossibilitar o direito de reunião. edifícios e parques. BRANCO. O exemplo citado pelo magistrado é o de igrejas que em virtude do volume do som podem prejudicar o direito ao descanso da comunidade vizinha ao templo. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ao designar o local. Por certo. e. BRASIL. De forma alguma pretendeu o legislador proibir os protestos em locais privados. COELHO. a residência oficial do presidente da República. 100 ..

não seria ilegítima a exigência de uma autorização do responsável pelas instalações físicas ou de um permissivo legal.. (SALVADOR. 5º. os parques municipais. Em Salvador. percebe-se no dispositivo constitucional que o texto “veda atribuição às autoridades públicas para análise da conveniência ou não de sua realização. propriamente uma relativização do direito de reunião. Como exemplo de lei que assegura o direito de se manifestar dentro das repartições em que se trabalha. por exemplo. 2009. não é.47 administrativo. 618. impedindo as interferências nas reuniões pacíficas e lícitas em que não haja lesão ou perturbação da ordem 103 104 TAVARES. Tavares afirma que “isso é assim não porque a liberdade de reunião em si dependa de autorização (ou licença).é assegurado aos servidores públicos e às suas entidades representativas o direito de reunião nos locais de trabalho em comum acordo com a administração. art. p. que são fechados em determinados horários. cita-se a norma soteropolitana. São direitos dos servidores públicos. logo. a Lei Orgânica104 do município garante ao funcionário público o direito de fazer reuniões nos próprios locais de trabalho.5 Independente de Autorização O termo “independente de autorização” previsto no inciso XVI. . as manifestações públicas em locais abertos ao público que possuem normas para a entrada ou permanência como. 124. Art. também devem obedecer a tal regramento. Trata-se em verdade de uma garantia de que o Poder Público não pode analisar o mérito de se o evento deve acontecer ou não. Essa expressão se faz de extrema importância tendo em vista o histórico do direito de reunião no país No que tange aos limites de atuação da autoridade. além dos previstos na Constituição Federal: [. mas justamente por se tratar da incidência de regime administrativo próprio para a espécie (uso de prédio público com destinação específica)”. 5.1.103 De forma idêntica.] XXXVIII . 2012)..

Assim. segundo a Lei n. os eventos poderão acontecer simultaneamente. 107 REPOLÊS. p. é notório que a Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988 preocupou-se em estatuir um direito com amplos limites para seu exercício.105 Interessante atentar para o fato de que no ordenamento anterior à CRFB o quadro era um pouco distinto. 2008. p. 108 REPOLÊS. a autoridade policial poderia de ofício suspender ou impedir em algumas circunstâncias o direito de reunião. logo.106 que regulamentava o direito de reunião. cabe salientar que a vedação normativa é pertinente quando a ocorrência de uma reunião frustrar a outra. se uma praça comportar duas reuniões não conflitantes entre si.6 Não Frustrar Outra Reunião Anteriormente Convocada No que tange à interseção entre reuniões. .48 pública”. Maria Fernanda Salcedo Repolês107 lembra um emblemático precedente brasileiro sobre o Direito de Reunião. discutiuse a liberdade de reunião e expressão do Centro Monarquista de São Paulo que foi fechado pela polícia. 1950. 1. 2008. pois.”108 Dessa forma. BRASIL. 90. bem como definia anualmente os lugares possíveis para o exercício desse direito em lugares públicos.1. não há fundamentos jurídicos que proíbam sua não 105 106 MORAES. 2006. inviabilizá-la ou dificultá-la. 5. p. 68. ao argumento de que “o Centro não poderia ser amparado pela liberdade de reunião.207/50. A discussão chegou ao Supremo Tribunal Federal que manteve a decisão do chefe de Polícia de São Paulo. pois tratava-se de associação foco de perigosas ações contra a existência e a segurança dos poderes instituídos. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Se não houver motivos fáticos para que o ato político ocorra. ou seja. No Habeas Corpus 936 de 1897. impedindo a discricionariedade administrativa acerca da conveniência ou oportunidade da reunião. a título de exemplo. 89-91.

COELHO. confirmado pelo protocolo fornecido pela Administração. 5. para se descobrir qual dos atos públicos foi agendado de forma precedente. impossibilitar a ocorrência de outra. cabe a autoridade impedir a sua realização para evitar possíveis confrontos. pois o impedimento constitucional é a frustração de outra reunião.49 realização. Entretanto. FERREIRA. . é claro. 143. Como se percebe pela leitura do texto constitucional. 2009.1. no sistema constitucional 109 110 MENDES. 490. a restrição de uma das reuniões poderá ensejar favorecimentos ilegítimos a um dos grupos por parte dos agentes do Estado. A Constituição de 1967 inovou na história do direito de reunião brasileiro quando estabeleceu a possibilidade de em alguns casos se exigir uma comunicação prévia. Interessante ressaltar que. Pela literalidade do inciso XVI. não parece ser essa a melhor leitura do texto constitucional. se marcada em um mesmo local e horário. BRANCO. trata-se de mera notificação. a Constituição determina que haja um prévio aviso. se outra entidade comunicar que pretende realizar uma reunião no mesmo local. Entretanto.110 Entretanto. a segunda reunião deve ser reagendada: Assim. por lisura e transparência. desde que os promotores de uma reunião avisem à autoridade de sua realização. Na hipótese de conflito. deverá ser priorizada a que tenha sido convocada109 ou marcada precedentemente. 1989. só pode ser considerada inconstitucional a reunião que frustrar. se for inviável a ocorrência de duas ou mais reuniões de forma harmônica. art. ou seja. que a reunião no mesmo local implica também que seja no mesmo horário. p. p. existem doutrinadores que argumentam que.7 Prévio Aviso Diferentemente de autorização. sugere-se que seja levada em consideração a data do aviso ao poder público. Há que se ressaltar também. 5º. Indicará a autoridade outro local ou locais para que então seja realizada a reunião não ocorrendo destarte nenhuma frustração ao direito de reunião. Se assim não ocorrer.

em caso de ajustes necessários para a realização do ato. o ministro do STF Gilmar Mendes assevera: É possível. mas o promotor do mesmo. independe da licença da polícia. cumpre também que se apontem quem são os organizadores do ato. há que se ter em mente que o lapso temporal entre o aviso e o início da reunião dever ser suficiente para que o poder público tome as medidas necessárias para que a reunião ocorra de forma segura para todos. Atualmente a Constituição estabelece apenas um “prévio aviso”. pretenda celebrar outro comício. do itinerário. pois. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. a lei regulamentadora111 do direito de reunião determinava que se fizesse a comunicação à autoridade policial pelo menos 24 horas antes de sua realização. 1950). é indispensável que o aviso indique o objetivo da reunião. sempre que cabível. Se analisada a literalidade do texto. e se informem os respectivos domicílios – não somente para que as autoridades públicas saibam com quem tratar. em tese. Art. o direito contra qualquer que no mesmo dia. da data e do horário de início e da duração prevista para o evento. não se pode deixar de pensar a norma dentro dos princípios do Direito. Como o direito de reunião é exercido a partir da convocação de líderes ou associações (e essa convocação já é exercício do direito). 1. 112 TAVARES. em casos devidamente justificados. bastaria um aviso que ocorresse antes da realização do evento.” (BRASIL. Acerca do conteúdo do aviso. de 25 de outubro de 1950. deverá fazer a devida comunicação à autoridade policial. Por isso. descobrir-lhe o conteúdo que deve apresentar. § 2º “A celebração do comício. hora e lugar. Assim. dentre eles o da razoabilidade. segundo a prioridade do aviso. a fim de que esta lhe garanta. ainda que segundos antes do evento se iniciar. p. pelo menos vinte e quatro horas antes da sua realização. não se caracteriza a reunião como livre. “sem a comprovação de que houve a devida comunicação às autoridades públicas. frustrar a ocorrência do evento ou comunicar o fato ao Ministério Público para adoção de medidas cabíveis em ralação à organização do evento. decorrentes de omissões dos organizadores da manifestação. o instrumento do prévio aviso deverá especificar as medidas de segurança que a organização do 111 Lei n. como também para que se fixem os responsáveis civis por danos causados a terceiros. A necessidade do aviso à autoridade não é de somenos importância.50 anterior à CRFB/88. Porém. em praça fixada para tal fim. podendo nela intervir a polícia”.112 consoante a lição de André Ramos Tavares. pelo exame das funções que exerce o aviso. Além do lugar. o poder público pode. também. .207. Caso contrário. 617. 2009. para se garantir a constitucionalidade das reuniões. 3º.

por sua vez. a própria lei regulamentadora abre espaço para as situações extraordinárias que justifiquem a urgência na organização da reunião. Assim. Trata-se de medida derradeira. 1983. Não parece. COELHO. que se está diante de um dever positivo do Estado. o Decreto-Lei 406/74. A dissolução da reunião é medida apropriada aos casos extremos. em que a violência se torna iminente ou já instalada. Em Portugal. e não para inibir essa garantia jurídica. 2009. seja para fazer o devido fechamento de avenidas e desvios de fluxo de veículos nos horários estipulados. nesses casos o aviso pode ser feito em até 24 horas114 antes do início do ato. a norma estipula dois dias de antecedência. No Chile.115 que regulamenta o direito de reunião. para a defesa de outros valores constitucionais e a que não se deve recorrer pela só falta do cumprimento da formalidade do anúncio com 113 a antecedência razoável do exercício do direito de reunião .116 Importante frisar que esse tempo de antecedência deve servir para que o Poder Público adote todas as medidas necessárias para a ocorrência do evento117. 1983. Sobre esse ponto. sobretudo. Naquele país a lei regulamentadora do direito de reunião determina em seu artigo 8º que a comunicação deve ser feita entre 10 e 30 dias antes do evento. dessa forma. ESPAÑA. seja prevendo policiais e agentes de trânsito necessários para acompanhar e garantir o protesto. para garantir a segurança e o direito de reunião dos manifestantes em detrimento de outros populares que pretendam frustrá-la. sob a égide do Estado Democrático de Direito a presença de policiais serve. 116 CHILE. 117 MAGALHÃES. 108. 491. Ademais. porém. por isso. assumindo proporções incontroláveis. Observa-se. 1974. A falta do aviso prévio pode comprometer a proteção ideal dos direitos de outrem e da ordem pública. 2008. 115 PORTUGAL. . interessante é o sistema jurídico espanhol. BRANCO. p. seria importante uma norma regulamentadora que estipulasse todas as informações que devem conter o 113 114 MENDES. que o descuido na satisfação desse dever seja pressuposto suficiente para que as autoridades dissolvam a reunião. a omissão pode conduzir a que o legislador comine sanções administrativas e mesmo penais. p. Por esse motivo.51 evento pretende adotar e quais as que sugerem sejam assumidas pelos órgãos de segurança pública. exige que a comunicação seja por escrito e com no mínimo dois dias de antecedência.

essa postura deve ser devidamente fundamentada e ainda ser sujeita ao controle do ato administrativo. é possível sustentar que a Lei n. BRANCO. ainda está em vigor apesar de ter sido criada sob a égide da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946. p. a necessidade de se comunicar a realização de manifestações deve ser de vinte e quatro horas. cabe mencionar mais um parecer de Gilmar Mendes. 3º. or making it possible for the State to take necessary steps to adequately protect those participating in the demonstration (INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS. Se esse entendimento estiver correto.52 prévio aviso. 2010.207 de 1950. Assim. quando a Administração receber o aviso. 52. Portugal.119 Por certo. 119 MENDES. Até mesmo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). contanto que essa exigência tenha o objetivo de informar às autoridades e propiciar a elas que adotem medidas para assegurar o direito de reunião sem que este prejudique substancialmente as atividades normais do resto da comunidade ou para tornar possível que o Estado adote medidas necessárias para proteger 118 adequadamente os participantes do protesto. as long as this requirement has the purpose of informing the authorities and allowing them to take measures to facilitate the exercise of the right without significantly disturbing the normal activities of the rest of the community. África do Sul. . esta poderá até mesmo se opor à realização da reunião. entre outros países. 1. Para o autor e ministro. pois assim prevê o § 2º. em casos extremos e devidamente comprovados de perigo. da Lei. 491. órgão de proteção dos direitos humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Para a Comissão: A exigência estabelecida em algumas leis de que uma notificação prévia deve ser dada às autoridades antes de um protesto social realizado em espaços públicos é compatível com o direito de reunião. tal como ocorre em Espanha. já se posicionou afirmando que a exigência de um aviso prévio não é contrária ao direito de reunião. p. Chile. 2001. Encerrando a discussão sobre o prévio aviso. art. Cabe ainda ressaltar que no Brasil temos o fenômeno da recepção. COELHO. 118 The requirement established in some laws that advance notice be given to the authorities before a social protest may be held in public places is compatible with the right of assembly. Tradução livre do autor). no que não contraria a Constituição.

deve-se ter em mente que. in verbis: Seção II – Da Passeata e da Manifestação Popular . estatui que a Unidade de Choque da Polícia (Batalhão de Eventos da Polícia Militar) seja a autoridade a ser notificada. forçoso é compreender de forma ampla o termo autoridade. Não faria sentido se notificar uma autoridade do município A para uma reunião que ocorrerá no município B. Isso porque. Contudo. in casu.1. percebe-se uma abertura muito ampla do dispositivo constitucional. No município de Belo Horizonte a Lei Municipal n. Igualmente desprovido de razão seria o aviso que informasse a uma autoridade com a qual não se guarda nenhuma pertinência temática.845/10. desde que essa tenha certo grau de legitimidade para o caso. para uma manifestação dentro dos limites de um determinado município. por exemplo. Assim. o órgão municipal de trânsito. um aviso feito ao Superintendente de Relações Internacionais do Estado acerca de uma manifestação dos funcionários municipais da educação. avisar a Prefeitura Municipal. o Delegado de Polícia e até mesmo o Ministério Público seriam exemplos de autoridades que poderiam ser notificadas. Assim.53 5. não caberia restrição sem uma previsão legal de qual seria a autoridade a ser informada.8 Autoridade Competente Acerca do termo “autoridade competente”. em virtude da indefinição do vocábulo. A ausência de uma norma regulamentadora que defina quem seria o órgão responsável para receber o aviso causa certos transtornos. desde que tenha pertinência temática e territorial com o evento. 9. sugere-se que seja notificada uma autoridade qualquer. a unidade da Polícia Militar com responsabilidade territorial respectiva. na parte que regulamenta o uso dos logradouros públicos. o Comandante do Batalhão de Choque. Código de Posturas de Belo Horizonte.

com. o Decreto n. XVI. 24 (vinte quatros) horas de antecedência. informando dia.121 define que as comunicações para efeitos de passeatas e manifestações devem ser feitas às subprefeituras e à companhia de trânsito da cidade. independem de autorização formal de qualquer órgão público. 1993. As reuniões pacíficas. local e natureza do evento. bastando que sejam comunicadas. 51. determinando negociações prévias para discutir assuntos atinentes à manifestação. tais como horário. como passeatas ou manifestações. que “Consolida as Posturas da Cidade do Rio de Janeiro e dá outras providências”. Na África do Sul. No município do Rio de Janeiro. em seu artigo 51. 123 MIRANDA. às Subprefeituras e às Coordenadorias Regionais da Companhia de Engenharia de Tráfego CETRIO. Jorge Miranda123 lembra o exemplo do Riot Act inglês.881. dispensando a notificação à polícia. II – tenha sido feita a comunicação oficial ao Executivo e ao Batalhão de Eventos da Polícia Militar de Minas Gerais. pois. mas também todo o procedimento a ser adotado entre o agente estatal e um representante dos organizadores. III – não ofereça riscos à segurança pública120. quando não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local. no mínimo. segundo a própria norma. MAS FORA DO INC. desde que: I – não haja outro evento previsto para o mesmo local. ART.122 5. trajeto e data do evento.2 RELATIVIZAÇÕES NA CONSTITUIÇÃO. 381. O Ato foi editado no início do século 18 objetivando prevenir distúrbios. 58 – A realização de passeata ou manifestação popular em logradouro público é livre.54 Art. 2012). . Essa norma foi um ato do parlamento britânico que autorizava autoridades locais a declararem qualquer grupo de 12 ou mais pessoas ilegais. a norma regulamentadora estatui não só a autoridade. Nesses termos. 2008. 120 121 BELO HORIZONTE. com a antecedência necessária. 29. Art. de 18 de setembro de 2008. p. 5º Em virtude de circunstâncias excepcionais tornam-se aceitáveis as relativizações de determinados direitos havidos como fundamentais. 122 SOUTH AFRICA. (RIO DE JANEIRO. 2004.

136. O Presidente da República pode. em locais restritos e determinados.O decreto que instituir o estado de defesa determinará o tempo de sua duração. CARVALHO. 1988. apenas. até mesmo no seio de associações. ainda que exercida no seio de associações [.125 Dessa forma. que o decreto que instituir o período de crise. Assim. decretar estado de defesa para preservar ou para prontamente restabelecer. as profundas crises econômicas. “as medidas excepcionais devem ser necessárias. p. poderá conter a restrição ou suspensão de tal direito. . Para Kildare Carvalho. Destaca-se. de Sítio e a intervenção federativa. nos termos e limites da lei. § 1º . ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional. compreende os Estados de Defesa. 1374. ou Sistema Constitucional das Crises. a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza. as epidemias.. 126 BRASIL. as medidas coercitivas a vigorarem.].55 diversos tumultos assolavam a ilha naquele período perturbando a paz pública. 2012. é possível mencionar as guerras. Na CRFB/88 a disciplina dos períodos de crise. Nesses casos a própria Constituição estipula medidas destinadas à defesa do Estado. as medidas adotadas devem se vincular a uma necessidade e serem temporárias. 124 125 GUTENBERG PROJECT.. dentre as seguintes: I – restrição ao direito de: 126 a) reunião. essas situações anormais são caracterizadas pela ruptura do equilíbrio institucional. 2009. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. as inundações. especificará as áreas a serem abrangidas e indicará. A Constituição estatui que nas hipóteses de decretação de Estado de Defesa o direito de reunião pode sofrer constrições maiores do que em períodos de normalidade. entre outras. como exemplo dessa situação. adequadas e proporcionais para o restabelecimento da normalidade institucional”.124 Atualmente. in verbis: Art.

apesar de não legislada. Acerca do tema. 2011.56 Por sua vez. na própria Constituição já se depara com possíveis constrições ao direito de reunião que. relativiza-se o exercício do direito de reunião por completo. Nessa hipótese. Assim. Na vigência do Estado de Sítio decretado com fundamento no art. 444. OLIVEIRA.. Nesse sentido. 137. também está prevista a possibilidade de relativização do direito de reunião..] 127 IV – suspensão da liberdade de reunião. estudaremos as constrições ao direito de reunião estabelecidas pela licitude dos propósitos. só poderão ser tomadas contra as pessoas as seguintes medidas: [.3 LIMITES IMPLÍCITOS AO DIREITO DE REUNIÃO Já foi demonstrado nesta pesquisa monográfica o posicionamento da doutrina ao afirmar que os limites ao direito de reunião não se esgotam nas relativizações somente expressas. 139 da Constituição permite: Art. mas por período determinado. 127 128 BRASIL. I. 139. Na lição de Márcio Luís de Oliveira128 na primeira. de forma limitada. 5. suspensiva. não foram elencadas no preceito que estabelece o direito de reunião. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. a priori. p. Assim. há também a categoria que denominamos de limites implícitos. . contudo. Destaca-se que no Sistema de Crises pode ocorrer tanto a relativização suspensiva quanto a restritiva do direito de reunião. a disciplina do Estado de Sítio está prevista nos artigos 137 e seguintes. enquanto na medida restritiva o direito pode ser exercido. Tal classe é deduzida logicamente. 1988. o art.

. p. portanto formalmente ilegais. também é apontada pelos ministros José Celso de Mello Filho130 e Gilmar Mendes. essa medida seria decorrente de um pressuposto lógico. No Estado Democrático de Direito a antinomia entre a autoridade da lei e a razão. Quando se diz que o direito de reunião deve ter objetivo lícito. A liberdade de reunião pode contrariar uma lei e. 1984. 217. o paradigma de validade é o próprio homem. A legitimidade do sistema jurídico é arquitetada sobre pilares antropocêntricos. 2004. 131 MENDES. Entre os autores que entendem a licitude de propósito enquanto limite ao direito de reunião é possível citar o magistrado mineiro Kildare Carvalho129. 364.131 bem como por Wolgran Junqueira Ferreira132 e por Deborah Macedo Duprat de Brito Pereira quando atuou como Procuradora Geral da República na inicial da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 187. se ilícito o propósito. Nessas hipóteses caracteriza-se a Desobediência civil. 489. p. não pode ser resolvida pela simples submissão dessa àquela. 2009. MELLO FILHO. 1989. p. Assim. A finalidade lícita. a própria reunião seria contrária ao Direito. não se pretende restringir o Direito à lei.3. logo. ainda assim. 2010. 788. p. caso lastreadas em fundamentos constitucionais. 133 RIBEIRO. que são “aquelas desobediências realizadas em respeito à Constituição e aos princípios de justiça que nela são reconhecíveis e que a sustentam”. p. COELHO. condutas contrárias à lei. a professora Maria Fernanda Salcedo Repolês ensina: 129 130 CARVALHO. enquanto exigência para o direito de reunião. podem ser consideradas conforme o Direito vigente.57 5. ser legítima. 142.133 segundo o professor Fernando Armando Ribeiro. BRANCO. Em trabalho sobre a desobediência civil. Para esse autor.1 Licitude dos Propósitos Outro desses limites implícitos apontados pela doutrina é a licitude de propósitos. 132 FERREIRA. no caso conhecido como Marcha da Maconha. pois.

5. 2003.º (Direito de Reunião e de Manifestação) 1. 136 A citação feita por Canotilho refere-se ao texto da Constituição da República Portuguesa. 2003 p. eles também sejam levados a questionar a juridicidade de uma lei. verifica-se que. 2). na qual se lê: “Art.º. O crime pode assumir um caráter clandestino e é sempre um ilícito e um ato antijurídico.]. 19. . como por exemplo.: o direito de manifestação está sujeito aos limites da “não violência” e aos limites resultantes da necessidade de proteção do conteúdo juridicamente garantido dos direitos dos outros. e não somente pelo viés da lei positivada. embora ilegal. Aquele que pratica uma desobediência civil quer que o máximo possível de pessoas o vejam transgredindo a lei injusta e que.134 Assim. ou seja. a liberdade de 137 deslocação). p. Os cidadãos têm o direito de se reunir. pois. 2003. pacificamente e sem armas. mesmo em lugares aberto ao público. restrições 134 135 REPOLÊS. embora não preserve a legalidade do Direito. 45. 137 CANOTILHO. levanta uma pretensão de legitimidade do mesmo. assim. (ex. 450-451. essas restrições ocorrem “sem qualquer autorização constitucional expressa”135. também aqui podem existir mediações restritivas. que o direito de manifestação (art. embora consagrado no texto constitucional sem quaisquer restrições constitucionais directas e sem autorização de lei restritiva. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação”. (PORTUGAL. 450. não pudessem ser restringidos por lei [. ou seja. sem a necessidade de qualquer autorização. a licitude dos propósitos deve ser analisada em face do sistema jurídico como um todo. tal constrição encontra fundamento no sistema jurídico. Sobre tais Canotilho136 proporciona o seguinte exemplo: De qualquer modo. mesmo diante da omissão do legislador constituinte no que tange a possibilidade de estatuir limites infraconstitucionais ao exercício do direito de reunião. 2005). 2. 45. por exemplo. não é antijurídico.4 RELATIVIZAÇÕES INFRACONSTITUCIONAIS AO DIREITO DE REUNIÃO Pelo discutido no Capítulo 4. p.. CANOTILHO..58 A Desobediência Civil é um ato público lícito. o que o diferencia de um crime. Não se compreenderia.

É o que se pode constatar na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica): Art. De certa forma esse hiato dificulta a compreensão dos reais contornos do direito de reunião. a omissão não afeta o sistema jurídico como um todo. 32. com lastro nele. a outra. as demais pessoas têm o dever de respeitá-lo.1 Os Direitos das Demais Pessoas Nossa Constituição se omitiu duplamente no que tange ao assunto da presente pesquisa. utilizar as vias públicas. Se há de um lado o titular do direito à propriedade. se passará a analisar algumas restrições ao direito de reunião que existem em nosso sistema. Direito e dever são como as faces de uma mesma moeda. . Não obstante a falha. as demais pessoas têm o dever de respeitar esse direito. numa sociedade democrática. Impossível pensar no direito de uma pessoa sem o correlato dever do outro de respeitá-lo.59 Assim. 5. e. 138 BRASIL. Se alguém tem o direito ao trabalho ou à saúde e. pela segurança de todos e pelas justas exigências do bem 138 comum. em decorrência dessa obrigação. depende de transporte público para chegar ao local de serviço ou da ambulância para chegar ao hospital.(2) Os direitos de cada pessoa são limitados pelos direitos das demais. A primeira negligência é alusiva aos deveres fundamentais. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. as demais pessoas têm o dever de respeitar esse direito e. Destarte. mesmo tratados de direitos humanos já preveem como limites aos direitos humanos os direitos das demais pessoas. A esse respeito. é no pertinente às restrições dos direitos fundamentais. para exercê-lo plenamente. apesar das omissões da Constituição brasileira na matéria de deveres fundamentais e concorrência de direitos. se um cidadão tem o direito de locomoção. o direito inexiste sem o dever das demais pessoas de observá-lo.4. 1992. e este pode exercê-lo nos termos legais. não impedir o livre trânsito de veículos.

hipótese na qual o direito à saúde prevaleceria. Em seu voto na ADI n. “numa situação como essa. ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das pessoas. Exemplo já discutido em jurisprudência brasileira é o uso de aparelho de som perto de hospitais. 1966. os tratados que versem sobre direitos humanos. 5º da Constituição. 21 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos estabelece o direito de reunião como direito fundamental com a seguinte redação: Art.139 O direito das demais pessoas caracteriza uma relativização infraconstitucional ao direito de reunião em virtude de que o Brasil é signatário de ambas as normas convencionais mencionadas – Pacto de São José e Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. fl. no art. O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. 1. aparelhos e objetos sonoros mostrar-se-ia perfeitamente razoável”. 141 BRASIL.969. no RE 466. o ministro Ricardo Lewandowski exemplifica que nas hipóteses de manifestações públicas com carros de som próximos a hospitais seria aceitável a relativização do direito. bem como a limitação parcial de acesso a determinadas vias não ensejam restrições ao exercício de 139 140 BRASIL. .343-SP o STF reconheceu o valor supralegal dos tratados de Direitos Humanos não aprovados com quórum qualificado. disciplinando que os tratados aprovados com quorum qualificado têm natureza de Emenda Constitucional. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 21. têm valor supralegal no sistema jurídico brasileiro. 378. 2007. não aprovados com quórum qualificado.141 No mesmo sentido o Advogado-Geral da União se posicionou: “a utilização de aparelhos sonoros por certo período de tempo. O direito de reunião pacífica será reconhecido.60 No mesmo sentido o Art. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. a restrição do uso de carros. Por sua vez. E. Para o ministro. da segurança ou da ordem públicas. A Emenda Constitucional 45/2004 inseriu o § 3º. consoante jurisprudência do STF140. no interesse da segurança nacional. em uma sociedade democrática.

Precisamente na temática dos conflitos de direitos. eleva-se a importância de reconhecer o conflito ou eficácia horizontal dos direitos humanos apresentada neste trabalho. que ao direito fundamental de um cidadão corresponde um deve para toda a sociedade143. precisam ser garantidos. ainda assim..142 A questão dos ruídos decorrentes da reunião comportam restrições mesmo em locais privados. para o caso em epígrafe. também já discutida. que se encontram em uma relação conflitual – concorrência – constante com o direito de reunião e. ao trabalho... que são reuniões em movimento.] As vias escolhidas para as passeatas. A discussão do conflito de direitos vem acompanhada da teoria acerca dos deveres fundamentais. .. em suma. um dever fundamental. Verifica-se. fica impedido. à educação. em verdade. conforme já debatido outrora. 141. 381. no que diz respeito ao local em que são realizadas as concentrações: no centro da cidade. são sempre as principais da área central. p.. toda a sociedade deve respeitar a garantia de manifestação. Aumenta-se a cada dia o número de veículos em circulação e.. [. fl. interrompendo total ou parcialmente o trânsito em horários e dias que conhecidamente já trazem um maior volume de veículos [. os demais cidadãos também possuem direitos como o de locomoção.61 legítimos direitos públicos subjetivos”. caso prejudiquem o livre gozo de direitos de terceiros. Essa preocupação também foi demonstrada pelos juristas Evandro Guerra e Hebert Lourdes: A questão preponderante é que a legitimidade do propósito dos movimentos não pode confrontar com o bem-estar dos componentes da comunidade [.] Primeiramente. cresce também o número de reivindicações políticas que obstam o trânsito de veículos nas regiões de acentuada urbanização. entre outros. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. SOARES.] O acesso as vias públicas. 2007. paralelo a esse crescimento. por parte de pessoas que optam por não participar das manifestações. 2002. Em contrapartida. Assim. nas principais vias de acesso. A questão atinente ao direito de reunião exercido em avenidas e ruas das grandes cidades ainda tem outra peculiaridade: o da mobilidade urbana. à saúde. a 142 143 BRASIL.

acontecem as manifestações. setecentos e vinte e três veículos). Muitos circunstantes. Aumento semelhante aconteceu nas demais cidades da Região Metropolitana. levando em conta o que os estatísticos denominam cifra negra.146 aumentou-se o número de pessoas e linhas de ônibus. 706. os militares do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) acompanharam 66 (sessenta e seis) manifestações em vias públicas. pessoais. quatro centos e oitenta) veículos registrados. um número 103. ainda. mas não foram registradas por militar do BPTran mas por militar de outra unidade ou. . Dez anos mais tarde. entende-se por cifra negra as manifestações em logradouros públicos que não foram acompanhadas por militares do BPTran bem como as que ocorreram. local onde. 147 MINAS GERAIS.65% maior. Enquanto isso.62 liberdade de trabalho tolhida. a quem não é dado o direito de escolher o que ouvir ou onde ir. 146 BRASIL.148 constata-se um grande número de protestos que se utilizam das pistas de rolamento.723 veículos (um milhão. sequer foram registradas pela Polícia Militar. Não é difícil imaginar quantos compromissos profissionais. DENATRAN. 2012. econômicos e financeiros ficam comprometidos em face desses 144 movimentos . no primeiro semestre de 2009. também aflora quando se analisa o 144 145 GUERRA. a economia prejudicada. 2009. 2012. p. podem ser analisados alguns dados. o número de homicídios registrados é mais próximo ao número de homicídios verdadeiramente ocorrido. Na Defesa Social no Brasil as cifras negras costumam ser tão altas que para analisar a criminalidade. Para melhor estudar a questão. foram acompanhadas pelos militares. 145 o município de Belo Horizonte possuía em 2001. se sentem agredidos pela imposição dos manifestantes. em dezembro de 2011. pode-se verificar em relatório de unidade de trânsito que.30.147 Desconsiderando-se feriados e finais de semana e. 148 In casu. BRASIL. Polícia Militar. apenas no município de Belo Horizonte. sociólogos se valem apenas do evento homicídio para avaliar objetivamente a segurança de determinada região. LOURDES. Segundo o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN). Também à guisa de ilustração. A relativização do direito de reunião e a concorrência desse direito com a liberdade de ir e vir das demais pessoas. ainda. o mesmo município chegou aos 1. via de regra. sobretudo no centro da cidade. 2007. DENATRAN.438.480 (setecentos e seis mil. quatrocentos e trinta e oito mil. as vias urbanas continuam praticamente as mesmas. Isso porque.

a fim de que esta lhe garanta. No caput do art. no âmbito da discricionariedade. BRASIL. segundo a prioridade do aviso.4. Contudo. em recinto aberto ou fechado. partido ou coligação promotora do ato fará a devida comunicação à autoridade policial em. deixando claro que não compete ao poder público deliberar. Na hipótese. vinte e quatro horas antes de sua realização. . PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 39 estipula: O candidato. não depende de licença da polícia”149.63 tema sobe o viés do Direito de Trânsito. por isso. 1997b. ou seja. Por ora. 149 150 BRASIL. 1997b. se concederá ou não a autorização. 5. o § 1º do art. verifica-se circunstância na qual os direitos fundamentais dos cidadãos se colidem e se interpenetram e.2 Direito Eleitoral A Lei 9. o direito contra quem tencione usar o 150 local no mesmo dia e horário. no mínimo. quando forem analisados alguns preceitos do Código de Trânsito Brasileiro. precisam ser harmonizados. tal confluência será analisada adiante. a ocorrência do ato político-eleitoral não passa pelo crivo decisório da Administração. 39 da mencionada lei constata-se que: “A realização de qualquer ato de propaganda partidária ou eleitoral. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Assim. é preciso ter em mente que o direito de reunião também encontra limites em todo acervo jurídico de direitos e garantias dos cidadãos. verifica-se que nesse preceito legal há somente a reiteração do disposto na Constituição.504/97 ao estabelecer normas para as eleições também relativiza a garantia fundamental de reunião. Por sua vez. Desse modo.

dos Estados. verifica-se ser atividade para a qual é competente a força pública. sem definir a antecedência da informação. sendo vedados a instalação e o uso daqueles equipamentos em distância inferior a duzentos metros: I . 1997b. Em decorrência disso. e dos quartéis e outros estabelecimentos militares. 39.das sedes dos Poderes Executivo e Legislativo da União. do art. ainda. A literalidade da norma dispõe: § 3º O funcionamento de alto-falantes ou amplificadores de som. mantendo certa distância de alguns tipos de prédios. a lei também faz alusão à autoridade policial. Estipula o preceito que a utilização de certos equipamentos em manifestações deve estar restrita ao horário compreendido entre 8 e 22 horas e. . também apresenta algumas restrições. do Distrito Federal e dos Municípios. no mínimo. somente é permitido entre as oito e as vinte e duas horas. exigir da autoridade de polícia judiciária que adote as providências mencionadas. apesar de a Constituição fazer menção ao mero “prévio aviso”. para as questões de pleitos eleitorais a Lei 9. a polícia ostensiva.151 Assim. de 24 horas antes da realização do ato. 39. o que força compreender que a comunicação do § 1º. ressalvada a hipótese contemplada no parágrafo seguinte.64 Destarte.dos hospitais e casas de saúde. das sedes dos Tribunais Judiciais. O § 3°. Já o § 2º do mesmo artigo apenas estabelece deveres à autoridade policial. portanto. o mero dever de não intervenção. deva ser feita à Polícia Militar. do art. extrapolando-se. posto que pela norma “a autoridade policial tomará as providências necessárias à garantia da realização do ato e ao funcionamento do tráfego e dos serviços públicos que o evento possa afetar”. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 151 BRASIL.504/97 exige que a notificação à autoridade competente seja. II . Não se pode. pode se entender também que a notificação tenha que ser feita a essa autoridade. Destaca-se que. cria a obrigação positiva para a autoridade policial. ou seja. dessa forma. Além disso. estabelecendo que ao menos uma autoridade policial deva ser avisada. em virtude da atribuição exigida da autoridade policial.

. 39-A em seu caput e § 1° define: 152 153 BRASIL. O art. puníveis com detenção. caracterizam um tipo penal se ocorrerem em dia de eleição. no dia da eleição. 39 está expresso que “a realização de comícios e a utilização de aparelhagem de sonorização fixa são permitidas no horário compreendido entre as 8 (oito) e as 24 (vinte e quatro) horas“.153 Situação bem mais gravosa é a promoção de comício ou carreata.das escolas. A sanção ao crime comporta multa. bibliotecas públicas. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. carreatas e passeatas são permitidas até as 22 horas do dia que antecede a eleição. BRASIL. tais condutas. 1997b.]. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.504/97 também apresenta restrições.” As manifestações coletivas e até mesmo as aglomerações de pessoas nos dias de pleito eleitoral também possuem outras restrições. pena acessória de prestação de serviço ou até mesmo pena privativa de liberdade.504/97 estabelece: § 5º. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 154 BRASIL. passeata ou carro de som que transite pela cidade divulgando jingles ou mensagens de candidatos.. Para essas situações a Lei 9.65 III . e multa no valor de cinco mil a quinze mil UFIR: I – o uso de alto-falantes e amplificadores de som ou a promoção de 154 comício ou carreata [.. Por sua vez. ou ainda. de seis meses a um ano. consoante § 9° do mesmo artigo 39: “Até as vinte e duas horas do dia que antecede a eleição. Dessa forma. No que tange à utilização de aparelhos fixos. verifica-se que. além de serem proibidas. com a alternativa de prestação de serviço à comunidade pelo mesmo período. Constituem crimes. a utilização de alto-falante e amplificadores de som no dia da eleição. quando em 152 funcionamento. 1997b. No § 4o do art. 1997b. serão permitidos distribuição de material gráfico. carreata. caminhada. igrejas e teatros. a Lei 9.

Embora muitas vezes negligenciado quando se discute o direito de reunião. a manifestação individual e silenciosa da preferência do eleitor por partido político. MIRANDA. conforme preconiza a Lei 9. no dia do pleito. coligação ou candidato. ou negando a cumprila. o constitucionalista Jorge Miranda faz alusão a um outro binômio de classificação das restrições: restrições comuns a todas as pessoas e restrições particulares. 1997b. revelada exclusivamente pelo uso de bandeiras. . com ou sem utilização de 155 veículos. 5. 157 Caserna é a habitação ou alojamento de militares dentro do quartel. Reunirem-se os militares ou assemelhados: I – agindo contra a ordem recebida de superior.504 de 30 setembro de 1997. Para efeitos do presente trabalho. § 1º É vedada. 2000. verificam-se no sistema jurídico brasileiro as dispostas no “Direito da Caserna”157. p. a constrição a essa liberdade pública está presente no Código Penal Militar (CPM). 155 156 BRASIL.4. 1.001/69. bem como os instrumentos de propaganda referidos no caput.3 Direito Militar Ao estudar as relativizações dos direitos fundamentais. Nesse diploma criminal. até o término do horário de votação. Ante todo o exposto. 149. 5° possui diversas relativizações no que tange às eleições. a aglomeração de pessoas portando vestuário padronizado.156 Dentre essas restrições particulares ou específicas. dísticos e adesivos. entenda-se Direito da Caserna como sinônimo de Direito Militar. de modo a caracterizar manifestação coletiva. 39-A. ou seja. percebe que o direito de reunião previsto no inciso XVI art. no dia das eleições.66 Art. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. broches. Decreto-Lei n. Mais especificamente. 369. que só afetam determinadas categorias de pessoas. encontra-se o tipo penal do Motim: Motim Art. restrições que só afetam direitos em relação a certas categorias de pessoas. no Direito Militar também encontramos relativizações a esse direito fundamental. É permitida.

g. com armamento ou material bélico. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Assim. navio ou viatura militar. reunir agindo contra ordem recebida de superior) e os criminalizou. o crime de Organização de Grupo para a Prática de Violência (art. Pelo exposto. percebe-se que o legislador definiu alguns limites ao direito de reunião dos militares (e. hangar. III – assentindo em recusa conjunta de obediência. quando estejam agindo sem ordem ou praticando violência. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.67 II – recusando obediência a superior. 1969. de propriedade militar. 1969.g. com aumento de um terço 158 para os cabeças.. conforme o caso concreto). contudo. BRASIL. em desobediência a ordem superior ou em detrimento da ordem ou da disciplina militar: Pena – reclusão. 150. . ou utilizando de qualquer daqueles locais ou meios de transporte. destaca-se o crime de Omissão de Lealdade161 (art. Enquanto no contexto da iniciativa privada os funcionários de determinada empresa podem se reunir 158 159 BRASIL. em comum. alguns dispositivos previstos no Código Penal Militar também configuram constrições ao direito fundamental de reunião. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 1969. do CPM). para ação militar. de quatro a oito anos. fortaleza. 151.160 e. ou dependência de qualquer deles. fábrica ou estabelecimento militar. praticando violência à pessoa ou à coisa pública ou particular em lugar sujeito ou não à administração militar”. do CPM) que ocorre quando o motim é realizado por agentes armados. arsenal. contra superior. aeródromo ou aeronave. do CPM) se têm também a Revolta159 (art. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. e deixa de levar tal fato ao conhecimento do superior hierárquico. apenas limitam o exercício do direito de reunião dos militares. entre outros. 149. lesão corporal ou outro tipo normativo. IV – Ocupando quartel. que ocorre quando “reunirem-se dois ou mais militares ou assemelhados. a prática de violência durante a reunião pode ser tipificada como vias de fato. parágrafo único. 161 BRASIL. que trata da situação na qual o militar tem conhecimento de reuniões ilegais. mais especificamente motim ou revolta. ou prática de violência. 149. bem como definiu como crime militar condutas que já poderiam ser penalizadas segundo o Código Penal comum (e. 160 BRASIL. Além do Motim (art. ou em resistência ou violência. 1969. CPM).

A Lei 9. os militares não possuem esse direito por expressa vedação legal. .68 contra a ordem de um superior. conduzidos ou não.4 Código de Trânsito Brasileiro Uma das questões mais delicadas a se enfrentar quando se analisa o direito de reunião no Brasil é seu conflito aparente com as leis que regulam o trânsito no território brasileiro. trata-se de autêntica relativização do direito fundamental de reunião. inclusive criminalizada. 5. Contudo. 5º. 1º que “o trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional. Assim como acontece no Direito Eleitoral e no Direito Militar. o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) também apresenta reservas ao direito de reunião. Poderia ser aventada a possibilidade de esses dispositivos do CPM não terem sido recepcionados pela Constituição quando confrontados com o inciso XVI. ante o apresentado até o momento acerca da dogmática de relativização dos direitos fundamentais. Além disso. a própria Constituição no art.503 define em seu art. verifica-se que o deslocamento de um grupo de pessoas nas vias de circulação também é regulado pelo próprio CTB. abertas à circulação” é regulado pelo próprio Código de Trânsito. para fins de circulação. veículos e animais. conforme o caso. acredita-se que a interpretação sistêmica do direito de reunião previsto na Constituição com lastro nos princípios constitucionais das Instituições militares não impede a incidência do Código Penal castrense. Assim. Para os militares. o § 1º da mesma norma define que “considerase trânsito a utilização de vias por pessoas. No âmbito civil ou administrativo comum poderia a ação até ter repercussões cíveis ou administrativas.4. art. 140 elege a hierarquia e a disciplina como fundamentos das organizações militares. Ademais. estacionamento e operação de carga e descarga”. isolados ou em grupos. parada.

em fila única. [.] § 2º Nas áreas urbanas. que dispõe: Art. na pista de rolamento. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 1997a.. 68. o CTB emana luzes sobre o tema. Constata-se com o art. temos o art. 95 que qualquer evento que obste o livre fluxo de veículos e pedestres depende de autorização do órgão ou entidade com a circunscrição sobre a via. desde que não seja prejudicial ao fluxo de pedestre. BRASIL. ainda assegura que terá prioridade sobre os veículos. Nenhuma obra ou evento que possa perturbar ou interromper a livre circulação de veículos e pedestres.69 No intuito de definir como deve ser feito o deslocamento de pedestre nas vias públicas. que aborda a engenharia de tráfego. verifica-se que somente em situações excepcionais o Código de Trânsito assegura ao pedestre a utilização das faixas de rolamento. fiscalização e policiamento ostensivo de trânsito. É assegurado ao pedestre a utilização dos passeios ou passagens apropriadas das vias urbanas e dos acostamentos das vias rurais para a circulação. também é possível se deparar com o seguinte preceito: Art. 254. Nesta seara a Lei 9. a circulação de pedestres. segundo as letras da lei. pelos bordos da pista.162 Assim. podendo a autoridade competente permitir a utilização de parte da calçada para outros fins. É proibido ao pedestre: 162 163 BRASIL. . 68. quando o faz. ou colocar em risco sua segurança. será feita com prioridade sobre os veículos. exceto em locais proibidos pela sinalização e nas situações em que a segurança ficar comprometida.. Trata-se. Também em seu Capítulo VIII. quando não houver passeios ou quando não for possível a utilização dele. será iniciada sem permissão prévia do órgão ou entidade 163 de trânsito com circunscrição sobre a via. 95. operação. Além desse dispositivo. 1997a. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. entre os ilícitos administrativos definidos pelo mesmo Código. em sentido contrário ao deslocamento de veículos.503 disciplina os eventos em via pública que possam perturbar a livre circulação de veículos e pedestres: Art. E. de medida esporádica o trânsito de pedestre fora dos passeios.

As passeatas e marchas nas vias de rolamento poderiam acontecer. a autoridade competente será o Município. desde que tivessem a licença do órgão ou 164 165 BRASIL. percebe-se que o legislador definiu como ilícita a interferência no tráfego de veículos. Logo. tais como praças. leis infraconstitucionais podem relativizar o direito de reunião. apenas em locais não regulados pelo CTB.165 Ante os dispositivos do Código de Trânsito Brasileiro analisados. passarela. é que não se exigiria a autorização. mas não poderiam acontecer nas faixas de rolamento. desfiles e similares. ou para a prática de qualquer folguedo.] . apesar da omissão do legislador constituinte. esporte. como já demonstrado. Isso.70 I – permanecer ou andar nas pistas de rolamento. nos termos do artigo 24 do CTB. . A primeira seria o reconhecimento de inconstitucionalidade de todos esses preceitos do CTB por afrontarem o direito fundamental de reunião. por certo. na medida em que colidirem com o direito de reunião. Pela literalidade da norma. III – atravessar a via dentro das áreas de cruzamento. seja pelos prejuízos ao trânsito. IV – utilizar-se da via em agrupamentos capazes de perturbar o trânsito. Assim. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. seja pela segurança dos transeuntes ou dos ocupantes dos veículos. 164 VI – desobedecer à sinalização de trânsito específica [. exceto para cruzálas onde for permitido. 1997a. para realizar eventos que de alguma forma obstruam a livre circulação de veículos exige-se a devida licença do competente legal. sobretudo a exigência de licença para utilizar as vias públicas.. salvo quando houver sinalização para esse fim. são possíveis três interpretações. salvo em casos especiais e com a devida licença da autoridade competente. Ou seja. O segundo entendimento seria o oposto. passeios e parques. ou túneis.. pontes. II – cruzar pistas de rolamento nos viadutos.. salvo onde exista permissão. Via de regra. as manifestações e os protestos públicos são garantidos. sendo que. passagem aérea ou subterrânea. V – andar fora da faixa própria.

2002. 2002.] situações concretas onde bens jurídicos. o STF tem utilizado o princípio da proporcionalidade em sua jurisprudência relativa ao direito de reunião. seria a que tentasse conciliar ambos os preceitos. Rodrigo Nitrini167 afirma que o Supremo Tribunal Federal tem aplicado o princípio da proporcionalidade em uma perspectiva mais substancial.. sobre o prisma do princípio da proporcionalidade. Uma terceira hipótese. Aliás. p. Demonstrando a aplicação do princípio em contextos de antinomia. Comparando dois julgados emblemáticos sobre o assunto. para a qual o princípio é indubitavelmente apropriado. Paulo Bonavides afirma: Uma das aplicações mais proveitosas contidas potencialmente no princípio da proporcionalidade é aquela que o faz instrumento de interpretação toda vez que ocorrem antagonismos entre direitos fundamentais e se busca desde aí solução conciliatória. igualmente habilitados a uma proteção do ordenamento jurídico se acham em antinomia. tal mudança reflete “uma democracia institucional cada vez mais consolidada”. 20. sendo que. O autor chega a tal conclusão ao analisar o Mandado de Segurança (MS) n..168 166 167 BONAVIDES. a regra da proporcionalidade meramente formal tem dado lugar a uma ponderação proporcional que prestigia as normas de direito fundamental. e os protestos nas pistas de rolamento. Nessa terceira opção.71 entidade com circunscrição sobre a via conforme exigido pelo art. [. a circulação de veículos e pedestres. mediana entre as outras duas. têm revelado a 166 importância do uso do princípio da proporcionalidade. tanto o direito de ir e vir quanto o direito de reunião comportariam certa carga de restrição recíproca. 168 NITRINI. na qual se discutia a já mencionada regulamentação do direito de reunião feita no Distrito Federal. no qual estava em pauta a reunião de professores que pretendiam acompanhar uma votação no Congresso e a Ação Direta de Inconstitucionalidade 1969-4/99. NITRINI. 2008. Segundo Nitrini. . 95 do Código de Trânsito.258/81. 425. ainda que mitigada.

52). 458. Segundo a CIDH: Em sociedades democráticas. no qual os valores e princípios envolvidos podem ser analisados. evidencia-se outra vez mais a necessidade de se regulamentar a matéria ou. o espaço urbano não se presta somente à circulação. 170 OLIVEIRA. apenas diante do contexto fático. também é possível encontrar no Direito 169 In a democratic society. (INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS.170 Assim. nessa última hipótese. a utilidade das vias públicas vai além do ir e vir de pessoas e veículos. esses e outros elementos demonstrariam a proporção da medida restritiva. but also a space for participation.4. então. . mas também é um espaço para a participação. Assim. e não obstruir o direito de manifestantes de se reunirem em lugares públicos e privados e ainda 169 nos lugares de trabalho . 2001. Nesse sentido.5 Direito Criminal Os tipos penais são. jurisprudência do STF que enfrente o conflito do CTB com o direito de reunião. poderia se afirmar em que razão seriam os direitos relativizados. a avenida escolhida. States must guarantee and not obstruct the right of demonstrators to meet freely both in private and in public spaces and in workplaces. Assim. the urban space is not only an area not only for circulation.72 Assim. p. Sobre essa concorrência de direitos a posição da Comissão Interamericana de Direitos Humanos é bastante ilustrativa. p. vários elementos contribuiriam para a relativização proporcional do direito de reunião: a quantidade de pessoas presentes na passeata. surgiria uma outra discussão acerca de qual seria a autoridade competente para ponderar a proporcionalidade. Entretanto. em sua essência. o transtorno gerado pela manifestação. os Estados devem garantir. Demonstrado o problema. o horário do evento. verifica-se que para esse órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA). 2011. normas que relativizam os direitos e garantias fundamentais. 5.

Expor a perigo outro meio de transporte público. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. (BRASIL.. impedindo ou dificultando o transporte público. aplica-se a pena cominada de . tendo como conduta típica expor a perigo outro meio de transporte bem como impedir ou dificultar o funcionamento desse. Trata-se de tipo penal misto alternativo.172 Por certo. fluvial e aéreo. por exemplo. PIERANGELI. 173 Forma Qualificada. lotações. táxi. Assim. o atropelamento de alguém. resulte sinistro. no caso de desastre ou sinistro. 263. se encontra o art. Isso porque. se do fato resulta lesão corporal. se ocorre desastre: 171 Pena – detenção. a pena é de reclusão. a pena privativa de liberdade é aumentada de metade. Se de qualquer dos crimes previstos nos art. Parágrafo 1º.g. aplica-se o disposto no art. ainda que na modalidade eventual. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. é aplicada em dobro. 2007. impedir-lhe ou dificultar-lhe o funcionamento. o que mais interessa é a segunda possibilidade. de três meses a um ano. resulta lesão corporal ou morte. a figura qualificada desse delito constante no art. 258.73 Criminal comum regras que relativizam o direito de reunião. protestos e passeatas em logradouros públicos. Art. Após a tipificação de crimes referentes aos meios de transportes ferroviário. Para os fins do presente estudo. 611. entre outros. 262 do Código Penal. 260 a 262. 263 do Código Penal. se resulta morte. passeatas podem impedir ou dificultar o funcionamento de transportes que sirvam ao interesse coletivo. p. Se do crime doloso de perigo comum resulta lesão corporal de natureza grave. Deve-se ressaltar que o termo transporte público tem uma interpretação mais ampla do que os serviços prestados diretamente pelo Estado. No caso de culpa. o tipo incriminador em estudo exige o dolo. 1940) Formas qualificadas de crime de perigo comum. Nesse sentido Pierangeli afirma que “a expressão transporte público não está a indicar um serviço prestado com exclusividade pelo poder público. tem-se. Pena – detenção de um a dois anos. marítimo. por certo. a pena aumenta-se de metade. 262. 258. Parágrafo 2º. 1940. podem afetar a livre circulação de ônibus. que estatui: Art. se resulta morte. Cabe ainda ressaltar que em uma manifestação em via pública que. e. No caso de culpa.173 171 172 BRASIL. e sim abranger também o serviço prestado pelo particular no interesse da coletividade”. de dois a cinco anos. em tese. Se o fato resulta desastre. Art.

como um todo. Cees de Rover aponta que o aparato estatal só pode se valer do uso da força para dispersar reuniões quando estas. também na Lei de Contravenções Penais (LCP) há relativizações a essa liberdade pública. dada por autoridade competente. 200. in verbis: Artigo 304º Desobediência a ordem de dispersão de reunião pública 1 . 1940). 209 do CP) ou que perturbe ou impeça serviço de estradas de ferro (Art. cabe aludir a hipótese de acusados que.174 A relativização ao direito de reunião operada pelo Direito Criminal não se esgota na demonstrada anteriormente. forem também violentas. p. a partir do estudo do Direito Internacional. com advertência de que a desobediência constitui crime. é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 175 dias. Sobre a dispersão das reuniões.74 Acerca desse crime. 538. Importante destacar que a LCP. p. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 2 . (BRASIL. 260 do CP). aumentada de 1/3 (um terço).Quem não obedecer a ordem legítima de se retirar de ajuntamento ou reunião pública. tomando parte em movimento grevista. 2002. além de ilegais. Em Portugal.176 Continuando no confronto aparente entre o Direito Criminal e o direito de reunião.Se o desobediente for promotor da reunião ou ajuntamento. 174 DELMANTO et al. . tem tido homicídio culposo. Como exemplo é possível citar as manifestações com carro de som que perturbem enterro ou cerimônia funerária (art. 2007. há no Código Penal um crime no qual incide o cidadão que desobedecer ordem de dispersão de reunião. obstruíram a entrada e a saída de ônibus e pessoas de empresa de transporte coletivo (TJSP. é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias. 2006. Há outras situações tipificadas pelo Código Penal que se caracterizam como autênticas relativizações às reuniões. RT 720/417). 176 ROVER. 175 PORTUGAL.

Basta a aplicação de uma multa – como tem sido aplicado em legislações estrangeiras – invocando-se o direito de retirar.182 incisos I e III. tal conduta está prevista no art. 182 Perturbação do trabalho ou do sossego alheios. 5º. apta a retirar do recinto aquele que não souber 181 manter comportamento adequado . Provocar tumulto ou portar-se de modo inconveniente ou desrespeitoso. 2004. Por esse princípio. Conduta inconveniente. 181 NUCCI. representar o cerceamento de um direito constitucional. 40. . 179 Provocação de Tumulto. IV. p. passeata ou qualquer outra 177 178 GRECO. 42. 42. 52-53. 54. a doutrina majoritária entende que a tipificação criminal da conduta é desnecessária e viola o princípio da intervenção mínima. 40179 da Lei de Contravenções Penais. se o fato não constitui infração penal mais grave. (BRASIL. o causador do tumulto do local. Sobre o tema Guilherme de Souza Nucci afirma: A simples provocação de tumulto ou a adoção de conduta inconveniente não precisa ser considerada conduta penalmente relevante.180 Com efeito. como regra. segurança particular. atos oficiais. em assembleia ou espetáculo público. 2004. Perturbar alguém. mais especificamente as condutas previstas no art. p. 1941. assembleias e espetáculos públicos possuem. 2008. Durante uma reunião. em solenidade ou ato oficial. ainda que à força. tem-se que o Estado deve interferir minimamente na sociedade. podendo.75 sua validade questionada ante o princípio da intervenção mínima177 em virtude das condutas que tipifica. 5º. CF). de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Art. somente o fazendo quando não possível por outros ramos do Direito. II – exercendo profissão incômoda ou ruidosa. 185. Sem tal prisma. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Pena – prisão simples. Aliás. pode-se imaginar a situação na qual alguém. como agredindo a honra ou a integridade física de alguém.178 Como exemplo de condutas tipificadas na LCP que relativizam as manifestações públicas. provoque tumulto ou se porte de modo inconveniente ou desrespeitoso. o trabalho ou o sossego alheios: I – com gritaria ou algazarra. GRECO. ou multa. Outra restrição que também é tipificada como contravenção é a perturbação do trabalho ou do sossego alheios. não nos parece seja razoável a punição por algo pífio. 180 BRASIL. solenidade. inclusive. Art. 1941). Se o agente desenvolver conduta mais grave (note-se que a própria contravenção se intitula subsidiária). toma-se medida de caráter penal. CF) ou da liberdade de expressão (art. p. durante uma reunião (assembleia ou espetáculo público). IX. como a liberdade de manifestação do pensamento (art. levar o caso à esfera criminal fere o princípio da intervenção mínima. Entretanto.

Será proibida por lei qualquer propaganda em favor da guerra. Cabe ressaltar que. in verbis: Art. em tese. manifestações em portas de escola. também é volumosa a doutrina que entender ferir o princípio da lesividade a tipificação penal dessa conduta. são proibidas as manifestações favoráveis à guerra ou que incitem a discriminação. 187. 1941). de 15 (quinze) dias a 3 (três) meses. Assim. . PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. podem chegar a incidir na figura típica descrita. 2008. p. 40 da LCP.provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de que tem guarda: Pena – prisão simples. racial ou religioso que se constitua incitamento à discriminação. IV. racial ou em desacordo com as prescrições legais. tais como quando discutidos os limites implícitos ao direito de reunião ou no item anterior. caracteriza-se.4. entre outros locais. à 184 hostilidade ou à violência . radical. 1966. por meio de gritaria e algazarra. 184 BRASIL. a violência ou o ódio nacional.76 modalidade de exercício do direito de reunião que se valha de equipamentos sonoros. se perturbe o exercício do trabalho ou o sossego de outra pessoa. assim como mencionado no comentário ao art. fóruns. (BRASIL. Essas restrições poderiam estar em outros tópicos desta monografia. ou ainda.183 5. Assim. Exemplos de limitação ao conteúdo veiculado nos protestos são encontrados até mesmo no Direito Internacional.6 Limitações Quanto ao Conteúdo Por mais despótico que possa parecer em um primeiro momento. Será proibida por lei qualquer apologia do ódio nacional. hospitais. há de forma esparsa no Direito Brasileiro normas que restringem o conteúdo a ser veiculado nas manifestações. quando analisada a convergência do Direito Penal e do direito de reunião. ou multa. a contravenção acima. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos é um desses exemplos. 183 NUCCI. III – abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos. a hostilidade. 2. radical. 20 1. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.

ou ainda.77 religioso. 108. manifestações públicas que ofendam a dignidade ou o decoro de algum cidadão. como direito individual fundamental. No mesmo sentido. atentar para o fato de que. portanto. o ofendido pode provocar o Estado para que seja declarada a ilegalidade do ato e pleiteie a sua responsabilização. ainda que determinado cidadão queira se expressar. Dessa forma. as autoridades públicas. em razão da função que exercem. caracterizam-se restrições à liberdade de expressão do cidadão. uma limitação quanto ao conteúdo expresso nas manifestações públicas. restrições essas feitas de forma impessoal e abstrata. punido 185 com pena de reclusão nos termos da lei . Nesses casos. é meio de manifestação do pensamento e do exercício da liberdade de expressão. No crime de desacato esse debate tem tomado amplas proporções. uma reunião pública que vise à divulgação de teses racistas é ilegal. e não pode ser utilizada com finalidades contrárias aos Direitos Humanos. o crime de desacato gera mais debate. Enquanto nos crimes contra a honra há um limite claro ao direito de reunião. ainda que dependente de uma manifestação do ofendido. entretanto. de outro existe a liberdade de expressão. Caracteriza-se. De igual maneira. o Brasil é signatário dessa convenção. que afirma: A reunião pública. pois. quando o legislador cria tipos penais como a injúria e a difamação. 2000. devem estar mais sujeitas às críticas do que o cidadão comum. . a persecução penal depende da manifestação processual deste. Perante esse argumento até mesmo a criminalização do desacato tem sido 185 MAGALHÃES. Assim. Deve-se. Se de um lado se tem a liberdade de reunião. A questão de impor limites ao conteúdo das reuniões é extremamente delicada. De fato. Isso. não pode fazê-lo. imputem fato ofensivo à reputação de alguém. caso o exercício desse direito ofenda a dignidade ou o decoro. podem ser questionadas juridicamente. nos casos em que o crime exige a representação do ofendido. Corrobora com esse entendimento o parecer de José Luiz Quadros de Magalhães. p. pois os participantes de tal manifestação pública cometem crime previsto na Constituição.

1940.186 Nas Constituições de matriz comunista. sobre o tempo ou sobre o lugar. p. mesmo as “reuniões em que se advogam atividades ilícitas são toleradas. 492. publicamente. a Constituição da antiga Alemanha Oriental (República Democrática Alemã) restringia essa liberdade à defesa dos objetivos e princípios da Constituição. p. p. sendo admitidas apenas as que recaem sobre o modo de expressão. a prática de crime”. BRANCO. 189 MENDES. COELHO. apologia de fato criminoso ou de autor de crime”. MAGALHÃES. A Constituição da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) dispunha que o direito de reunião estava limitado aos objetivos da construção do comunismo. Com efeito. 2010. 186 187 OLIVER.191 enquanto a apologia é “fazer. COELHO. 110 e 113.78 questionada. como é típico das autocracias. há interessantes estudos sobre o fenômeno da descriminalização do desacato que tem ocorrido na América Latina. 2000. 2000. p. . a criminalização das condutas gerou ainda muita divergência.190 Outro exemplo de limitação quanto ao conteúdo que gerou grande discussão foi a presente nos crimes de incitação e apologia. 1940. 188 MAGALHÃES. a título de exemplo lembra-se o artigo “Abolitio Criminis do Desacato: um olhar sobre a relação entre a autoridade pública e o particular na América Latina”. respectivamente artigos 286 e 287 do Código Penal. OLIVEIRA. A incitação ao crime ocorre quando o agente “incitar.187 Por sua vez. 191 BRASIL. eram comuns as relativizações no conteúdo.192 Não obstante a tautologia dos tipos penais. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 488. 190 MENDES.188 Nos Estados Unidos as restrições que recaem sobre o conteúdo da mensagem são inadmissíveis. publicamente. BRANCO. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 109. 192 BRASIL. contanto que a proposição não incite. nos Estados Unidos.189 Assim. não produza nem seja apta para gerar iminente ação ilegal”. 2010. 2009.

resultou em quase uma centena de feridos 193. Na Sérvia. Após diversos julgados nos Tribunais de Justiça estaduais. 2010. por outro. ou seja.79 A celeuma resultou em diversas decisões até mesmo contraditórias no Judiciário. Com o julgamento da ADPF n. a Parada Gay teve que contar com a segurança feita pela Tropa de Choque para poder acontecer e. ainda assim. passa-se a discutir tal questão. a Procuradoria-Geral da República levou o tema ao STF. brigas entre evangélicos que protestaram na Parada Gay e a Parada do Orgulho LGBT que teve como foco o protesto contra os cristãos em 2011 são sintomáticas da falta de alteridade de algumas pessoas e grupos sociais. por um lado. verifica-se que estabelecer balizas mais seguras acerca do direito de reunião se demonstra extremamente necessário. o Supremo Tribunal Federal criou nova jurisprudência sobre o tema. Situações como essas são encontrados rotineiramente. Assim. Na controvérsia havia. Por meio dos exemplos citados. a concepção segundo a qual o manifesto a favor da descriminalização do uso da maconha caracterizava os crimes de apologia e incitação. o entendimento de que as “Marchas da Maconha” consistiam discussão de política criminal. No Brasil. Essas discussões sobre o conteúdo da mensagem das manifestações públicas têm se tornado cada dia mais problemáticas. em 2010. 187. 193 G1. as tais marchas que aconteciam por todo o país caracterizam o uso legítimo e legal da liberdade de expressão e não configuram os crimes mencionados. representavam uma opinião contrária à tipificação criminal da conduta do possuidor/dependente. . E. Consoante a decisão da Corte.

198 Lei Orgânica do Município de Contagem. Título II.946-9/DF. no seu território e nos limites de sua competência. o disciplinamento da matéria realizado pela Constituição é suficiente. indica todas as condições para o exercício desse direito”. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 5º . 2007.194 Não obstante ser corriqueira na ciência jurídica. Dos Direitos e Garantias Fundamentais.Todos podem reunir-se .] § 8º . o ministro Marco Aurélio ainda levanta outra questão. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 2007.195 deixando claro que. os peticionários afirmaram que "a tal questão [do direito de reunião] prescinde de regulamentação". repete. Na inicial da ADI n. existiria uma premissa segundo a qual "não cabe à autoridade local regulamentar preceito da Carta da República”. 2007). 1. Também o ministro Aires Brito acredita que não caberia uma lei para regulamentar o assunto. especialmente. a juíza e jurista Mônica Sette Lopes nos lembra que “a presença de uma norma reguladora de condutas e. quanto ao seu teor de normatividade. por conta própria.. A Câmara Municipal de Contagem. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.. 15 Petição Inicial da ADI n. o inciso XVI. fl. [. não 194 195 LOPES. Sobre o tema. Art. pois.196 Além do debate sobre a possibilidade jurídica de se regulamentar a matéria.80 6 REGULAMENTAÇÃO A solução de conflitos por meio de lei – solução heterônoma – é uma tradição na ciência do direito. 196 BRASIL.O Município assegura.] não só consagra o direito de reunião como também. p. 299. em sua literalidade. aspecto controverso do direito de reunião no Brasil é sua regulamentação por meio de lei. ao editar a Lei Orgânica do Município. o conteúdo material deste quadro normativo sempre se apresentaram no centro das conjecturas em torno da vida humana”. os direitos e garantias fundamentais que as Constituições da República e do Estado conferem aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País [. 197 BRASIL.969. “num dispositivo de eficácia plena.198 os preceitos da Constituição. art 5º da CRFB/88.. 1. para esses advogados. Para o magistrado. (BRASIL. alguns entes federados legislaram sobre a matéria. 2008.197 Mesmo ante esses apontamentos. para o magistrado..

Assembleia Legislativa. a ausência de autorização constitucional expressa para se restringir o direito de reunião não pacificamente. (CONTAGEM. alguns levantamentos sobre o tema mostram-se importantes.. sem armas. tais dispositivos ficam desprovidos de significado. na já mencionada ADI n. Como demonstrado no Capítulo 4 do presente trabalho. 152 – São direitos constitutivos da cidadania: [. não parece razoável tal entendimento. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. .prerrogativa de tornar públicas reivindicações mediante organização de manifestações populares em logradouros públicos e afixação de cartazes e reprodução de "consignas" em locais previamente destinados pelo Poder Público. tornando-se letras mortas. independentemente de autorização. 1. No Distrito Federal. Constata-se.] III . desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local. Assim. 2012). sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente. (PORTO ALEGRE. no seu território e nos limites de sua competência. da segurança pessoal e dos patrimônios público e privado. 4º – O Estado assegura. em locais abertos ao público. os direitos e garantias fundamentais que a Constituição da República confere aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País.] § 6º – O Estado garante o exercício do direito de reunião e de outras liberdades constitucionais e a defesa da ordem pública. 200 Art.. dessa forma. [. 2012).1 POSSIBILIDADE DE REGULAMENTAÇÃO Apesar de existir posicionamentos no sentido de não ser possível regulamentar o direito de reunião pela ausência de expressa autorização constitucional.(MINAS GERAIS.969-4.. 2007. Partindo da constatação de que tal direito já se encontra na CRFB.81 acrescentando nada à disciplina do direito de reunião. que o tema tem refletido em diversos Municípios e Estados-membros da federação. 6. Desnecessária também parece ser a Lei Orgânica do Município de Porto Alegre200 por também conter preceitos análogos aos constitucionais. Igualmente inócua é a previsão do direito de reunião na Constituição do Estado de Minas Gerais199 que simplesmente afirma estar garantido em Minas Gerais o exercício desse direito. o Decreto regulamentador foi declarado inconstitucional pelo STF201 gerando um dos mais importantes precedentes sobre a matéria no Brasil.. 1990) 201 BRASIL. por sua vez. 199 Art.

a Constituição determina um prévio aviso à autoridade competente sem esclarecer o que se entende por prévio e nem mesmo designa qual seria a mencionada autoridade. inevitavelmente. ou com o conceito de Constituição em sentido substancial. Apenas se poderia cogitar desse tipo de orientação quando a Constituição é expressa. além do próprio interesse público. No que tange à autoridade competente. se mesmo ante a omissão constitucional é possível restringir o exercício desse direito. todos esses necessitam ser informados sobre o evento. teriam âmbito de disciplina normativa exclusiva na própria Constituição [. não deve ser confundido com a ideia de que existem matérias reservadas à Constituição. Isso porque. Assim. o comandante da Tropa de Choque da localidade (responsável pelo controle de distúrbios). que tal preceito requer. Constata-se na leitura do disposto no inciso XVI. Receber a comunicação da ocorrência do evento é importante para diversas instituições públicas. . pois. sem amparo no próprio texto escrito da Constituição.. art. De resto. 5º da CRFB. do Estado. a indefinição também causa transtornos. pois os agentes públicos possuem um dever positivo no concernente ao direito de reunião. por razões de lógica e hermenêutica verifica-se a necessidade de regulamentar o direito de reunião. da União). Como já apontado. regulamentá-lo também o é. do Distrito-Federal. entre outros órgãos que podem ser sugeridos.]. O órgão de trânsito com circunscrição sobre a via (departamento de trânsito do Município. uma norma regulamentadora. Sobre a possibilidade de se regulamentar por meio de ato normativo infraconstitucional um direito fundamental previsto na Constituição. Outrossim. o Ministério Público. assim. a subprefeitura. não há como sustentar.82 afasta a possibilidade de fazê-lo. tais informações se prestam à viabilizar o pleno exercício do direito. a autoridade policial militar responsável pela área. deixando certo que determinadas matérias não estariam ao alcance do legislador e. que determinada matéria só possa ser tratada no âmbito constitucional.. por certo. André Ramos Tavares afirma: O postulado da constitucionalidade.

mas também sua premente necessidade. no que tange à relação entre as leis internas dos entes federados. Verifica-se. os Estados. Há. 631. portanto. A omissão do legislador tem se desdobrado até mesmo em confrontos físicos com mortes. Comumente a questão tem sido decidida na prática por autoridades locais. o que não se admite sob pena de destruição da própria ideia de supremacia 202 constitucional. a ausência dessa disciplina tem trazido diversos prejuízos. Assim. somente reserva de 202 203 TAVARES. 2012. 2009. dessa forma. um protesto na rodovia BR-155 terminou em morte de 21 pessoas e nas condenações em regime fechado a 228 anos o coronel que comandou a operação e a 158 anos o major. 6. que a Constituição não estabeleceu hierarquia entre os entes federados. todos autônomos. .2 QUEM PODE REGULAMENTAR? Demonstrada a possibilidade de se regulamentar a matéria. a necessidade e a possibilidade de se regulamentar a matéria. FOLHA DE SÃO PAULO. não há hierarquia entre elas. nos termos desta Constituição. 18 estabelece: “A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União. assim. policiais atuam sem ter leis expressas que lhes proporcionem segurança para trabalhar e por vezes os manifestantes sofrem constrições ilegítimas aos seus protestos. o Distrito Federal e os Municípios. No Brasil ocorreu o caso que ficou conhecido como “Massacre do Eldorado de Carajás”.203 Afirma-se. passa-se ao segundo ponto da questão: qual seria a autoridade competente para regulamentar o direito de reunião? A CRFB em seu art.83 Uma tal imposição só poderia ter caráter supraconstitucional. não só a validade jurídica da regulamentação do direito de reunião. Assim.” Verifica-se. p. Por outro lado. então. Nessa situação.

Contudo. posicionamento esse também desposado pelo ministro Marco Aurélio. Ante o exposto. pelos Municípios ou pelo Distrito Federal. assinalese que as normas não são hierarquizadas em função da origem de sua emanação. e não em decorrência do sujeito político que editou o ato regulamentador.969. 204 CARVALHO. 2009. . No julgamento da ADI n. No magistério de Kildare Carvalho: “No Estado Federal. deve-se buscar qual entidade que integra a estrutura federativa é a competente para discorrer sobre a matéria. ao regulamentar a matéria. 1. Nas oportunidades nas quais o STF analisou o direito de reunião. mas em virtude de um critério de competências para editá-las.84 competência. no precedente. 1001.204 Logo. a forma escolhida ou o conteúdo da norma contrariem preceitos constitucionais. acredita-se que a regulamentação em âmbito nacional seja a mais adequada em virtude da segurança jurídica proporcionada. O problema tende a aflorar de forma mais intensa em regiões conurbadas que podem acolher manifestações que perpassem mais de um município. A inconstitucionalidade foi declarada em virtude do conteúdo da regulamentação e pela forma por meio da qual foi feita. os demais ministros foram silentes no assunto. os peticionários sustentaram ser inconstitucional o fato de o Distrito Federal disciplinar a matéria. o fato de a regulamentação ter sido feita pelo Distrito Federal não foi considerada inconstitucional. o problema acerca da autoridade competente para regulamentar esse direito não foi enfrentado. Apesar do exposto. A criação de regras distintas por cada ente pode gerar confusões. A não ser que. p. estabelecido pela Constituição Federal”. acredita-se que a priori não violam os preceitos constitucionais as regulamentações editadas pelos Estados. Assim.

matérias que. por imperativo 206 constitucional expresso. É isso que distingue a competência legislativa da mera competência regulamentar.3 FORMA DO ATO REGULAMENTADOR Para tal regulamentação.205 isso porque. fl. 2009. . passam para o Legislativo. 2007.85 Não obstante. que assevera: Apenas o poder legislativo é que goza da faculdade de criar normas jurídicas que inovem originariamente o sistema jurídico nacional. Consoante julgamento do ministro Eros Grau. 6. acredita-se que a forma adequada seja por meio de lei. “o direito de reunião pode até ser regulamentado. em decorrência da natureza de direito fundamental que está em voga. fornecendo meios materiais adequados a seu cumprimento efetivo. Assim. 383. 639. não se nega a competência do Município para regulamentar o uso das próprias vias publicas e praças abertas ao publico. não se cogitariam problemas caso fosse concretizada por meio de ato normativo do Poder Executivo. seriam da alçada do Executivo (por estarem compreendidas na noção ampla de “organização”). SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. como visto. As normas regulamentares se inserem na competência privativa dos Chefes do Executivo. No que tange à forma de se externalizar a norma. entretanto. tendo como finalidade última a instrumentalização dos comandos legais. mas não pode decreto. regulamentar uma liberdade política por meio de ato normativo municipal pode deixar o regramento da matéria mais propenso às influências políticas locais. só por lei”. a regulamentação ora em análise refere-se ao 205 206 BRASIL. ou seja... mais propícia seria a definição em sede de lei nacional. [. em princípio. TAVARES. p. Entretanto. cita-se novamente André Ramos Tavares. considerada nos aspectos materiais e formais. Assim. seria formalmente inconstitucional a regulamentação que não por lei. em se tratando apenas de detalhar uma lei. verifica-se que. Sua exteriorização dá-se por meio de decreto.] é preciso lembrar que há casos de reserva de lei.

editados pela Administração. que permita aos cidadãos conhecer os critérios legais. . no qual se discutiu a questão dos limites dos limites. ou limites imanentes. o qual também contou com a adesão do Brasil.211 Não obstante os apontamentos da jurisprudência e doutrina pátrias. consoante o parecer de Jorge Miranda. 378. no novo jus gentium212 também se encontra respaldo para o entendimento aqui demonstrado.86 conteúdo jurídico do direito de reunião. MIRANDA. 2008. no interesse da segurança nacional. p. deve ser precisa. 210 MIRANDA.207 Ademais. 213 BRASIL. p. em uma sociedade democrática. Na perspectiva do Direito Internacional. 1992b. p. A restrição deve ser feita por lei. da segurança ou da ordem públicas. PRESIDENCIA DA REPÚBLICA. não pode haver norma regulamentadora que restrinja direitos. ou novo jus gentium. 379. que no inciso II. p. 376. ou para proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e liberdades das 213 demais pessoas.209 na exata medida para salvaguardar os outros interesses constitucionalmente protegidos210 e todas as outras observações apontadas no Capítulo 4. seria o jus gentium do século 21. do qual o Brasil é signatário. desdobrando-se em restrição a esse direito. 1988. 377. p. 211 BRASIL. o Direito Universal da Humanidade – Direito Internacional dos Direitos Humanos. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. 2008.208 Deve se. No mesmo sentido é o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Essa norma convencional traz em seu bojo que: Artigo 15. 2008. O exercício de tal direito só pode estar sujeito às restrições previstas pela lei e que sejam necessárias. assegura que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. 399). 209 MIRANDA. art. se ater aos fins em nome dos quais é estabelecida. ainda. 212 Segundo Cançado Trindade (2006. Sendo assim. 2008. 5º. sem termos vagos. Direito de Reunião É reconhecido o direito de reunião pacífica e sem armas. Esse tratado exige 207 208 MIRANDA. O entendimento de que essa regulamentação deve ser feita por lei strictu sensu ainda encontra lastro na Constituição. temos o Pacto de San José da Costa Rica.

ou para proteger a saúde pública ou os direitos e as liberdades das 214 pessoas.220 Assim. jamais por ato normativo do Executivo. Las reuniones en las plazas. 50. por qualquer dos entes federados. Assim. . 2012. 220 INTER-AMERICAN COMISSION ON HUMAN RIGHTS. (CHILE. em uma sociedade democrática.215 pois. material e formalmente considerada. se regirán por las disposiciones generales de policía. 21. 1992a. da segurança ou da ordem públicas. El derecho a reunirse pacíficamente sin permiso prévio y sin armas. no Direito Brasileiro. 450-451. 219 ROKOV. No Chile. naquele país o direito de reunião é regulamentado por um Decreto de 1983. para ser positivada. desde que operada a disciplina da matéria por meio de lei. 216 Art. Em síntese. Com efeito. acredita-se ser possível regulamentar a matéria. Assim. verifica-se que no Direito Brasileiro a regulamentação do direito de reunião deve ser feita por lei. Direito de reunião pacífica será reconhecido. 19. 2011. p. 218 Polícia Nacional Chilena. na regulamentação do direito de reunião no Brasil incide o princípio da reserva legislativa. a própria Constituição216 define que a regulamentação será operada por meio de ato administrativo. 217 CHILE. O exercício desse direito estará sujeito apenas às restrições previstas em lei e que se façam necessárias. 1980).87 que as limitações ao direito de reunião sejam operadas por meio de lei. p. a regulamentação depende da apreciação e deliberação do Poder Legislativo.217 editado pelo General Pinochet durante o período da ditadura militar. nos seguintes termos: Art. 214 215 BRASIL. 1983. até mesmo em nome da responsabilidade internacional. calles y demás lugares de uso público. 2001. o resultado não poderia ser outro: tanto a forma de atuação dos Carabineiros218 nas manifestações quanto a regulamentação operada por meio de ato do Poder Executivo têm sido severamente criticados internamente pela doutrina do país219 e internacionalmente por organismos de proteção dos direitos humanos. OLIVEIRA. La Constitución asegura a todas las personas: […] 13º. responsável pela Ordem Pública e pela Segurança Pública. PRESIDENCIA DA REPÚBLICA. no interesse da segurança nacional.

Portanto. o objetivo da edição de uma norma específica sobre o assunto. 221 LOPES. não poderia ser o de esgotar toda a margem possível de interpretação. alguns apontamentos sobre o papel dos precedentes brasileiros sobre o direito de reunião se fazem necessários. a necessidade de se regulamentar o assunto também se faz em virtude da ausência de jurisprudência nacional que efetivamente confronte o assunto. acredita-se que a segurança proporcionada por uma lei regulamentadora do direito de reunião tornaria a clássica solução heterônima de composição de conflitos mais adequada à matéria analisada. uma antecipação mais clara dos riscos que as condutas e os conflitos potencialmente envolvem. 2008. art.88 De certa forma. 5º da Constituição vigente. não se encontrou no Direito Brasileiro algum julgado que enfrente as indefinições atinentes ao direito de reunião. Há. 242. Eles exercem uma função apaziguadora do dissenso que é inquestionável e que incide ou se efetiva numa gama considerável dos elementos consolidados. p. 6. 221 Contudo. . com efeito. Além disso. assim. Além disso. Porém.4 O PAPEL DOS PRECEDENTES NA REGULAMENTAÇÃO DO DIREITO DE REUNIÃO A sugestão de regulamentar o assunto por meio de lei não implica em desconsiderar a importância dos julgados. a função dos precedentes seria: Os precedentes atuam como vetores de certeza do sistema e cumprem um papel importante ao sinalizar entendimentos uniformes e tornar visível o modo como a lei tende a ser entendida. Na precisa lição de Mônica Sette Lopes. não esclarecem muito acerca da hermenêutica do inciso XVI. As primeiras jurisprudências encontradas datam ainda de fins do século 19 e início do século 20.

Essa tradição autoritária também é demonstrada por Maria Fernanda Salcedo Repolês. bem como a possibilidade de designação do local do evento. Diálogos com os manifestantes eram vistos apenas quando não se conseguia reunir tropas suficientes para sufocar os levantes. Sublevação. Assim. conjura e inconfidência sempre foram os adjetivos com que pejorativamente a historiografia oficial batizou os agrupamentos populares que pleiteavam por direitos e garantias. p. o reconhecimento tardio do direito de reunião no Brasil é apenas mais uma faceta desse fenômeno. 2008. Assim. . 48-49. para manter a ordem ou a segurança públicas. Não bastasse ter surgido apenas no final do século 19.89 7 EPÍLOGO A implementação do governo eurocêntrico em terras brasileiras trouxe consigo o padrão de resposta despótico para os protestos populares. 25. foram traços marcantes em nossas previsões constitucionais desse direito.222 Além da repressão flagrante. para quem “as contradições presentes na história de formação de uma identidade constitucional brasileira apontam para uma linha de contínuos fracassos e frustrações. podemos afirmar que os desmandos do Poder Público na liberdade de manifestação coletiva do pensamento no país foram características marcantes na história desse direito.223 222 223 COTTA. as autoridades também pensaram em registrar negativamente esses feitos. gerados por uma forte tradição autoritária que impediu constituir espaços efetivos de democracia”. o arquétipo utilizado pelos governantes para contrapor as reivindicações foi instrumentalizado por meio do braço armado do Estado. p. Assim. sedição. 2006. REPOLÊS. a possibilidade da intervenção da polícia ou de outra autoridade.

o direito de reunião é a única ferramenta eficiente para que alguns excluídos possam mostrar aos que estão nos confortos de seus carros e casas. Não se pode. e por lhes garantir visibilidade. Dessa maneira. Não se pode se esquecer de que todos os direitos e garantias dos não participantes das manifestações devem ser respeitados. passeatas reivindicativas e protestos públicos que. sobretudo em espaços verdadeiramente democráticos. representa a voz desses excluídos. são desconhecidos da população e. o pluralismo e a unidade na divergência. ao dissenso. mas não possuem compromisso com a sociedade. a simples garantia prevista no inc. Nesse sentido. A fundamentação jurídica nesses institutos abstratos negligencia que o objetivo da democracia não é o de criar uma massa homogênea de pessoas. frustrá-lo.90 Ainda hoje presenciamos autoridades que. 5º. É preciso nos assegurar contra os arbítrios de pessoas que exercem funções públicas. XVI. tentam justificar restrições ao direito de reunião para enfraquecer oposições e minorias. Não poucas vezes pessoas confundem democracia com a ausência de limites. o de criar espaços de discussão que propiciem a divergência de opiniões. o direito de reunião assume um papel de destaque no Estado Democrático de Direito por dar efetividade ao pensamento divergente. somente em virtude dos transtornos que causam ao fluxo de veículos. Assim. Com efeito. às minorias. Todavia. o abuso no exercício de qualquer direito também não deve ser permitido. em nome de uma suposta coletividade ou do interesse público. tão importante quanto o direito de participar de uma reunião é o direito de não participar de uma reunião. . mas antes. destinados ao ostracismo da grande mídia. as mazelas nas quais se encontram. ressalta-se a importância de movimentos populares. conseguem visibilidade. a pretexto de garantir o exercício democrático do direito de reunião. Para alguns grupos. art.

Para alguns. um certo transtorno à comunidade e ao trânsito. a relativização ao direito fundamental de reunião não pode ser de tal monta que esvazie de sentido o próprio direito de reunião. Para outros. o locus público da igualdade nas diferenças. O que se pode variar são os olhares. Nestes termos. p. de fato existem diversas relativizações ao direito de reunião no sistema jurídico brasileiro. E. A democracia é. Percebe-se que o problema surge da falta de alteridade e da tolerância. O texto constitucional está posto. sobretudo as dinâmicas em logradouros públicos. . Dessa forma. um modo de ser tolerante e disposto à aceitação do outro. O modo de ser coletivo de uma sociedade democrática é aquele em que cada pessoa ou cada grupo social são capazes de se reconhecerem e se respeitarem nas suas diferenças (conhecimento e consciência de si e conhecimento e consciência do outro). mas também a vontade de participar desses atos. 201. trata-se de um direito absoluto. portanto. que inclua na noção de democracia a participação em manifestações e protestos. as interpretações e aplicabilidade. mais ampla. 2001. Para compreender tais limites. apesar de se poder discordar do outro. Faz-se premente analisá-lo dentro de uma perspectiva democrática. A democracia é.91 De igual forma. deve-se sempre buscar harmonizar o direito de reunião com os direitos das demais pessoas. pode ser derrogado por motivos triviais. não se pode esquecer que é intrínseco à ideia de uma manifestação pública. o diferente. só se pode ser livremente genuíno (autonomia privada) quando e onde há vocação para a alteridade: 224 aceitação da diferença do outro. que podem comprometê-lo. ilustrativo é o excerto abaixo de Márcio Luís de Oliveira: A democracia não é apenas forma ou modo de se decidir a vida pública com a participação mais ampla possível dos interessados. Ainda não há no Brasil – se é que exista em outros rincões – uma cultura de respeitar o outro. Como foi evidenciado ao longo do trabalho. também é preciso garanti-lo de interferências de particulares mais poderosos econômica ou faticamente. antes de sua dimensão decisional. Ademais. 224 OLIVEIRA. um modo de ser coletivo.

Dessa forma. o Poder Legislativo demonstre os reais contornos da relativização do direito de reunião em uma sociedade democrática. então. AND WHEREAS the exercise of such right shall take place peacefully and with due regard to the rights of others. ilustrativo é o Preâmbulo da lei sul-africana que regulamenta o exercício do direito de reunião. surge a necessidade de se estabelecerem limites legais para tornar possível a vida em sociedade. o Preâmbulo daquela norma sintetiza muito bem o espírito que deve nortear a questão da relativização do direito de reunião: CONSIDERANDO que cada pessoa tem o direito de se reunir com outras e expressarem seus pontos-de-vista sobre qualquer assunto livremente e em público. Como mote para a relativização do direito fundamental. as manifestações públicas. Tradução livre do autor) . que possuem sua garantia e seus primeiros limites na própria Constituição. parâmetros para a ação da Administração Pública bem como marcos mais precisos para o controle de legalidade por parte do Ministério Público e do Poder Judiciário.92 Ante essa dificuldade de compreender o outro. espera-se que por meio da adequada regulamentação do dispositivo constitucional estudado. prescindem ainda de uma lei regulamentadora. e desfrutar da proteção do Estado ao fazêlo. E CONSIDERANDO que o exercício de tal direito deve ocorrer de 225 forma pacífica e respeitando os direitos das demais pessoas. (SOUTH AFRICA. segurança para os particulares. Assim. Gerando. 225 WHEREAS every person has the right to assemble with other persons and to express his views on any matter freely in public and to enjoy the protection of the State while doing so. 1993. De forma simples e objetiva.

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