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67786 Quilombos No Brasil

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Quilombos no Brasil e a singularidade de Palmares

Maria de Lourdes Siqueira

.

Quilombo é um movimento amplo e permanente que se caracteriza pelas seguintes dimensões: vivência de povos africanos que se recusavam à submissão. em diferentes momentos histórico-culturais do país. p. à escravidão. de regime de propriedade. os africanos escravizados se engajaram num combate firme contra a condição de escravizados em núcleos de resistência diversos. apontar para o significado dessa memória de nossos antepassados e sua continuidade afro-brasileira. denominadas Comunidades Remanescentes de Quilombos. entre tantos outros núcleos que continuam no pós-abolição em oposição às conseqüências da escravidão. O processo de colonização e escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. à dominação ocidental-européia e. liderança e orientação políticoideológica de africanos escravizados e de seus descendentes de africanos nascidos no Brasil. 3 .32) . entre os quais destaca-se a República de Palmares. a Revolta dos Alfaiates. ao mesmo tempo. na sociedade contemporânea. fica quem vier por amor à liberdade”. à exploração. Revolta dos Malês. justas/soberanas em busca de felicidade. e estrutura da produção agrícola organizada nos lugares onde se eram estruturados. 1980. sob a inspiração. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. tamanho das terras ocupadas. do ponto de vista da organização. proclamando a queda do sistema escravocrata. revoltas armadas.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . A dimensão dos quilombos variava de acordo com a proporção de habitantes. dominação. de valores. (NASCIMENTO. desrespeito a direitos. Eram sociedades político-militares.Maria de Lourdes Siqueira QUILOMBOS NO BRASIL E A SINGULARIDADE DE PA L M A R E S O objetivo deste texto é oferecer a profissionais da Educação formal e não-formal subsídios a respeito da contribuição dos Quilombos articulados a outros diferentes núcleos de resistência ao colonialismo. desigualdades e racismo. à violência do sistema colonial e do escravismo. através de uma lei que atirou os ex-escravizados numa sociedade na qual estes não tinham condições mínimas de sobrevivência. Os quilombos. que nasceram de movimentos de insurreições. 1980) . levantes. Desde o princípio da colonização no século XVI. acrescidas de preconceitos. Os Quilombos representam uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil. Os quilombos existiram em múltiplos pontos do país em decorrência das lutas ocorridas em diferentes lugares onde houvesse negação de liberdade. Os quilombos eram sociedades avançadas. continuam numa luta por uma liberdade que sempre lhes foi negada (NASCIMENTO. dos princípios. Essas organizações. sustentação da continuidade africana através de genuínos grupos de resistência política e cultural. de práticas de socialização. Freqüentemente aqueles movimentos tomavam a forma de quilombos à semelhança de Palmares. são hoje. igualitárias. Balaiada. atuando sobre questões estruturais. Os Quilombos continuam sendo sociedades livres. com defesa e organização sócio-econômicopolítica própria. em resistência ao sistema colonial-escravista. “O Quilombo é liberdade. formas associativas que se criavam em florestas de difícil acesso.

]. quebrava ferramentas. mitologias. houve resistência. na reinvenção de políticas e estratégias de luta pela liberdade. rituais. Esses núcleos de resistência têm continuidade e interagem com os quilombos através de suas quilombolas tradições..Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . grand Marronage e p t t Marronage [. Onde houve escravidão.Maria de Lourdes Siqueira A ARTICULAÇÃO DOS QUILOMBOS COM OUTROS NÚCLEOS DE RESISTÊNCIA NEGRA Nessa perspectiva de articulação entre a luta dos quilombos e a densidade da resistência negra em outras iniciativas. Os quilombos viviam nas florestas. Tudo isso é retomado em todos os momentos da resistência quilombola. línguas. ao escravocrata. na inglesa. no Brasil. costumes. os africanos trouxeram consigo saberes a respeito das mais diversas áreas do conhecimento: culturas. de ideologias. É a partir desses indicadores que o conceito de Quilombo transcende. nem nos primórdios da escravização dos. as vigiava. incendiava plantações. africanos no século XV.] trata-se das fugas e formação de grupos de escravos fugidos [. 4 . sempre com postura crítica. religiões. Nascimento (1980) nos relembra que a memória dos afro-brasileiros não se inicia com o tráfico de africanos escravizados. Mesmo sob ameaça de chicote. Cumbes. costumes. nascidos no interior da própria estrutura. artes. experiência de socialização. origem africana. tradições. para formação de pessoas. formas organizativas. Quilombos e Mocambos e seus memei bros: Quilombolas. de interesses.. p. agredia senhores e feitores. para fortalecer a crença na riqueza das diferenças étnicas e culturais que constituem a sociedade brasileira entre indígenas originários da terra. Calhambolas ou Mocambeiros. como forma de resistir a uma determinação política anterior de separá-los de tudo o que significasse expressão identitárias de um povo: línguas. Houve um tipo de resistência que poderíamos considerar a mais típica da escravidão [. Maroons. controlava e perseguia. face ao colonizador. religiões. E de vários tipos. na dinâmica do combate à escravidão. em contato com a sociedade envolvente que as rodeava. ciências. (REIS. nas matas.. Africanos de diferentes grupos étnicos mesclam-se nos quilombos. famílias. com as suas contradições inerentes aos conflitos de grupos. DIFERENTES DENOMINAÇÕES DE QUILOMBOS Quilombo – Kilombo vem de Mbundu. ganha proporções de uma orientação para a EDUCAÇÃO. provavelmente significado de uma sociedade iniciativa de jovens africanos guerreiras Mbundu – dos Imbangala. valores... o que alguns autores denominam de comunalismo africano. Ao contrário..] essa fuga aconteceu nas Américas e tinha nomes diferentes: na América espanhola: Palenques. Nesses contatos construíam-se novos processos dentro da própria guerra. ao imperialista. fazia corpo mole no trabalho. ao mesmo tempo. rebelevase individual e coletivamente. o escravo negociava espaços de autonomia. nas montanhas e. 1996. tecnologias. na francesa.47). organização familiar. africanos e colonizadores europeus.

Outros quilombos de igual significação na Bahia foram: O Quilombo Buraco do Ta u t. O Quilombo de Trombetas chegou a reunir mais de dois mil quilombolas nas proximidades da região de Óbidos. 5 . o quilombo Rio Trombetas esteve situado nas proximidades das Cidades de Santarém e Óbidos. estudos realizados por diferentes profissionais educadores. em Itapuã. e Teodoro. Por exemplo. incluindo os quilombos urbanos engajados na luta pelo direito à terra e condições dignas de sobrevivência com auto-estima e cidadania. antropólogos. Uma das Comunidades Remanescentes é a de Rio das Rãs em Rio de Contas (ILÊ AIYÊ. A EXISTÊNCIA DE QUILOMBOS NO BRASIL NO ESTADO DO A M A Z O N A S Os quilombos mais representativos da Região do Amazonas são os da Bacia do Rio Trombetas e do Baixo Rio Amazonas. um capitão de guerra. situado nas proximidades de Salvador. 2000). mas também do econômico e social. para efeito de medidas legais. muitos adeptos deste combate organizam-se para criar o Quilombo do Urubu. no ano de 1826. ESTADO DA BAHIA No período de 1807 a 1809 diferentes grupos de africanos escravizados organizaram uma sociedade secreta denominada Og Boni. não só do ponto de vista político. à moradia. no Brasil. remanescentes de comunidades de quilombos. Os quilombos do Baixo Amazonas são relevantes.Maria de Lourdes Siqueira Hoje. com suas companheiras. pelo nível de desenvolvimento que alcançaram. No decurso de vários embates. o que lhes conferiu uma consideração especial entre os quilombos da Amazônia e em relação aos do Nordeste. entre avanços e repressões. Os debates em torno destas designações ganham sentido. sociólogos. jurídicas ou definição de direitos sociais. ao lazer (LINHARES. à educação. até que a comunidade foi exterminada pelo autoritarismo colonial. O Quilombo Buraco do Tatu durou 20 anos. 2002) . econômicos. hoje Comunidades Remanescentes de Quilombos compreendendo: descendentes dos primeiros habitantes da terra. 2002) . historiadores e juristas buscam determinados critérios para denominar a luta quilombola: comunidades negras rurais. terras de pretos. Os chefes desses quilombos eram Antonio de Sousa. trabalhadores rurais que ali mantém sua residência habitual ou permaneçam emocionalmente vinculados (LINHARES. à saúde. ao realizar intercâmbios. políticos para os quilombolas e seus descendentes. direito à legalização da terra. Outros quilombos da Região são Inferno e Cipotena nas cabeceiras do Rio Curuá. sobretudo. Durante o século XIX. que teve como principal líder uma mulher chamada Zeferina.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . que tinham o título de rainhas. A Bahia conta hoje com Quilombos Contemporâneos na categoria denominada Comunidades Remanescentes de Quilombos. com o objetivo de lutar contra a escravidão.

A vida do povo Kalunga incorpora no seu cotidiano a consciência da liberdade e o respeito sagrado pela continuidade da vida. os escravizados Negro Cosme e Manuel Balaio enfrentaram o exército do Duque de Caxias.Maria de Lourdes Siqueira ESTADO DE GOIÁS . (ARAÚJO. Xavante. contadas pelo pai de seu avô. 2001. Pericumã. por sua vez.. espalhavam-se pelas matas: grupos mais ou menos numerosos percorriam armados as estradas.23) . No quilombo também chegavam brancos pobres.a força dos seus antepassados. cujos núcleos de resistência tinham os mesmos objetivos dos quilombos. Eles ocuparam um grande território que abrange três municípios do Estado de Goiás: Cavalcante. E isso era o que faltava nas terras de Goiás. 1994) . As terras eram dos próprios negros que acabavam sendo donos delas de várias maneiras. Kalunga quer dizer Camundongo ou pessoa ilustre. a principal cidade da província . e antes dele. importante.. de diversas nações: Acroá.. Kalunga poderia ser o ato de incorporar àqueles que passam à uma outra dimensão da vida . Fugir. A partir de outra inferência. Kaiapó. mas ir para onde? [. p. 2001) . p. O povo Kalunga foi se estendendo pelas terras. o trabalho era difícil e a vida era dura. entre os insurretos e a força legal.] A população de São Benedito variava entre 600 e 700 pessoas aproximadamente [. pelo avô de seu bisavô.O QUILOMBO DOS KALUNGA São histórias daqueles primeiros tempos. Martiniano. Karajá entre outros. Dizem que ali naquelas serras havia uma mina chamada Boa Vista. Tratavam-se por tapivas ou compadres. Monte Alegre e Teresina de Goiás (BRASIL. onde vive o povo Kalunga.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . . ESTADO DO MARANHÃO No Maranhão. Para os povos chamado Congo ou Angola. Outros Quilombos do Maranhão • • • 6 Mocambo Frechal – Mirinzal. Turiaçu e Maracassumé.era a guerra da Balaiada. Ali os escravos trabalhavam de sol a sol. foram aprisionados alguns quilombolas: Benedito. Muitos pretos retornaram aos quilombos já existentes e outros formaram novas povoações (ARAÚJO.] é provável que a formação do Quilombo tenha se iniciado na década de 50 do século. A revolta dos pretos de Viana . (BRASIL... Severino e Feliciano Costa Mato [. Assim nasceu o fenômeno que hoje existe na região da Chapada dos Veadeiros. na Cidade de Caxias. O Quilombo dos Kalunga começa com a aliança entre os indígenas que já viviam no lugar há centenas de anos.15) . XIX.] Para o lugar mais distante onde ninguém pudesse alcançar. Durante o jogo travado na fazenda Santa Bárbara. Vicente.. Assim iam se formando as terras de pretos. Capepuxi. 1994. Kalunga era uma palavra ligada às suas crenças religiosas.Os quilombos.

o de Jabuticatubas. Macuas. Cassanges. danças. uma ostensiva e explícita tentativa de aniquilamento das identidades culturais daqueles diferentes grupos étnicos. foi aclamado Rei. Em Minas Gerais. Dentre os mais importantes destacam-se o Quilombo dos Garimpeiros.45). No seu conjunto. ESTADO DO RIO DE JANEIRO No interior da província fluminense. que se tornou a fortaleza onde se concentrava elevado número de escravizados que abandonaram em massa as plantações de café no interior da província paulista (NASCIMENTO. que concorrem para reforçar a identidade e a coesão social nos povoados das chamadas Terras de Preto. No fim do século XVII. o do Paraibuna. não necessariamente religiosas. com uma população de 20 mil quilombolas apresentando uma organização parecida com a de Palmares.na qual os escravizados se levantaram em armas. 2002). ESTADO DE MINAS GERAIS Há uma tradição significativa de experiências de Quilombo no Estado de Minas Gerais. Em seguida. havia certo latifúndio chamado Fazenda Freguesia. o do Ambrósio. a partir da “chegada” dos povos africanos ao Brasil. (SIQUEIRA. 1980) . o escravo Manuel Congo. seres inferiores que têm a obrigação de aprender a língua. existiu um celeiro de quilombos. a região das Minas constituiu-se a base geográfica e econômica do escravismo colonial brasileiro. Desde então. CARDOSO. invadiram outras propriedades rurais e fugiram imediatamente para o seio das florestas. O mais importante é o de Campo Grande. 7 . o de Inficionado. 1995. há referências a 92 povoados e concernem a práticas religiosas. ESTADO DE SÃO PAULO O Quilombo Jabaquara. Iaranjal em São Bento. o de Misericórdia e o de Campo Grande. Fala-se da existência de 160 quilombos na área de Minas Gerais. a cultura e a religião de seus dominantes. no momento em que o Quilombo de Palmares estava sendo destruído. Haussas. até o fim do século XVII. Nagôs. descobriram-se em Minas Gerais as jazidas de ouro e diamante. bumba-meu-boi e tambor-de-crioula. Fulas.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . situado na região montanhosa de Santos. Benquelas. abarcam expressões ritualísticas.Maria de Lourdes Siqueira • • Itapecuru. Minas. festas de santo. são reduzidos culturalmente à condição de “NEGROS”. (CENTRO DE CULTURA NEGRA DO MARANHÃO. o do Sapucaí. Os colonizadores europeus começam. p. Seu líder. Não obstante tratarem-se de dados que carecem de investigações adicionais. Cabindas.

liderado por Malunguinho. 2004) . além de todos os gêneros de ligaduras e amarras. situado nas matas de Catucá. o de Aquatirene. por exemplo. a cinco léguas de distância. Zumbi e outros fixaram a Capital Cacus. os mocambos chamados das Tobocas.]. a mãe do Rei. negros. que deram ao terreno o nome de Palmares. 2004) . ESTRUTURA O Quilombo de Palmares: estende-se pela parte superior do Rio São Francisco uma corda de mata brava. atual Serra da Barriga. Aqualtune. azeite. 8 . tendo na figura de Zumbi dos Palmares a personalidade mais emblemática da história do negro.Maria de Lourdes Siqueira ESTADO DE PERNAMBUCO No final da década de 1820. Ganga-Zumba. para os esteios da cobertura da casa. do mesmo modo que corre a costa do mar. terra onde os organizadores e lideranças palmarinas. Foram as árvores. Ganga-Zumba e Zumbi. sal. já nas fronteiras da Paraíba (BENJAMIN. brancos e mestiços. Para Zumbi o ideal de liberdade e a capacidade de organização eram os princípios fundamentais para uma convivência com respeito às diferenças. (FREITAS. SITUAÇÃO FÍSICA E GEOGRÁFICA DE PALMARES. Estas palmeiras são tão fecundas para todos os usos da vida humana. nas áreas que. roupas.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . na vizinhança de Recife – O Quilombo de Catucá. os quilombos mais reconhecidos são: • • • Serra Geral Serra dos Tapes Camizão A REPÚBLICA DE PA L M A R E S A história da República de Palmares mostra-se especialmente peculiar. ao Norte. as folhas servem para cobrir casa. hoje. Em Alagoas. nenhuma fonte produzida pelos próprios palmarinos. que vem a fazer termo sobre o sertão do Cabo de Santo Agostinho correndo quase norte a sul. 2004) . principais palmeiras agrestes. A riqueza da obra está mais no projeto social que ela nos oferece e menos na capacidade bélica e militar de Palmares e seus líderes. os ramos. Palmares nasceu com o perfil africano e com gentes brasis: índios. um quilombo preocupa as autoridades. RIO GRANDE DO SUL No Rio Grande do Sul.. Na área Noroeste está o Mucambo de Zumbi a dezesseis léguas de Porto Calvo. (ARAÚJO. que delas se faz vinho. os frutos servem de sustento.. desde os anos oitenta se presta homenagem a Zumbi e celebram as conquistas de todos os quilombolas que foram assassinados pelo comandante do exército português Bernardo Vieira de Melo e Domingos Jorge Velho [. ESPAÇO. no Município de Goiana. ao Leste. estão entre os Bairros de Dois irmãos e Beberibe. Não se conhece. Palmares é entrecortada por outras matas de diversas árvores.

O Macaco. balas. a falta d´água. realizavam-se casamentos. mataram grande número e feriram outros tantos. com imagens de Menino Jesus. Nossa Senhora da Conceição e São Brás. onde foi descoberto que se encontrava o Rei. batizados. dominada pelo Rei. com mais de mil casas. GANGA-ZUMBA O significado da importância de Ganga-Zumba está relacionado à necessidade de compreensão da sociedade que se empenhava em destruir Palmares. um chamado Zumbi. O grande objetivo do poder oficial era que se destruíssem os Palmares. com mais de mil e quinhentas casas habitadas. Logo Palmares era a cidade principal. o Pacasã e o Daubi. e uma filha chamada Tavianena. e ao norte desta seis léguas. tudo concorria para que os soldados. farinha. e genro do Rei. e dos que chegam. principalmente os conflitos que determinaram as contradições essenciais entre escravizados e senhores de escravos. 9 . Dentre as levas de ataques a Palmares registram-se o de Acaiene (Acotirene). em documentos dos arquivos analisados por Freitas (2004). muitos precipícios. Algumas das razões por que as Entradas ao Quilombo de Palmares não conseguiam facilmente destruí-lo eram os caminhos. cercada de pau-a-pique. Aí travaram grande cerco para fechar a saída do sítio. Mestre de Campo da gente de Angola. a cerca real chamada o macaco. onde corre o rio Cachingi. capote. Consta. o desmantelamento de uma comunidade onde prenderam de uma só vez cinqüenta e seis negros juntos. além dos rigores do frio entre as montanhas. Cativaram mais o Anaguba com dois filhos do Rei. a nove léguas de Serinhaem. pólvora. pois assim teriam terras para a sua cultura. A segunda cidade chamava-se Subupira. que a região Palmarina tinha maior circunferência que todo o reino de Portugal. o desconforto dos soldados. Desse encontro levaram prisioneiro o Sangamuisa. ao norte deste oito léguas. carne e rede para dormir.Maria de Lourdes Siqueira quatorze léguas ao noroeste o de Dambrabanga. Isso tornava quase impossível o acesso ao local do quilombo. peixe. e as outras cidades ficavam a cargo de potentados e casos. Entre os habitantes há Ministros da Justiça que cuidavam da República. toda fortificada. que largou uma pistola dourada e a espada que usava “estes negros que se aglomeravam com o Amaro uma parte se salvou. negros para o seu serviço e honra para a sua estimação. muitos espinhos. elevadas serras. onde vivia o irmão do Rei. a cerca chamada Subupiraé. que levavam às costas a arma. é a metrópole entre outras cidades e povoações. porém sem a forma determinada pela Igreja. enfrentavam dificuldades. poderosos senhores da luta quilombola”. Notório também foi o Mucambo de Amaro.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . grande corsário. Pereceu também o Tuculo. filho do Rei. matas espessas. a maioria mulheres. A cidade real. água. A cidade tinha sua capela. a mãe do Rei. Esses eventos abalaram Palmares. O Rei conseguiu escapar “tão arrojadamente. O Lona. O Rei habita o Palácio com sua família e é assistido por guardas e oficiais que também têm suas casas reais. O Rei era Ganga-Zumba que quer dizer Senhor Grande – Rei e Senhor de todos os que são de Palmares.

diz a literatura colonial (FREITAS. 10 . A documentação assim se refere a Zumbi: este é o mentor de todos. combatente há 25. Zumbi dos Palmares. O acordo não foi cumprido o que foi considerado um equívoco político gravíssimo pelo qual Palmares pagou com a destruição do Quilombo oficial em CACAU e das estruturas da luta. a nós nos serve de embaraço e aos seus de incitamento. circunda as áreas centrais do Quilombo de Palmares. CARDOSO. É conhecido o fato de que Zumbi rebelou-se contra o pacto celebrado entre Ganga Zumba e o Estado colonial. e sua herança político-civilizatória. Zumbi foi aclamado Rei e conduziu com firmeza a luta mais embelmática dos Quilombos da América (PRICE. Dada a recusa de Zumbi. seus companheiros. depois de reorganizar o seu povo no Quilombo Real. sob o comando do bandeirante Domingos Jorge Velho. pela construção de uma nova sociedade. com o apoio dos Quilombolas. porque a sua “indústria”. grande ânimo. onde as diferenças tenham suas liberdades respeitadas e sua dignidade reconhecida (SIQUEIRA. e inimigo capital da dominação dos brancos.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . em aceitar negociações de paz entre Palmares e o Estado colonial. Este fato ocorreu no dia 20 de novembro de 1695. O corpo de Zumbi foi levado para a Cidade de Porto Calvo. “viço” e constância. mas foi finalmente capturado. Após várias expedições para destruição de Palmares o Governo de Pernambuco propõe um acordo que Ganga-Zumba assina em Recife. o dia 20 de novembro é o dia Nacional da Consciência Negra em homenagem à figura emblemática do herói nacional. Ganga-Zumba em 1678 tinha firmado um tratado de paz com as autoridades coloniais. negro de singular valor. as autoridades. lutando sem hesitação. destruindo o último reduto de Palmares. após um período de lutas entre conflitos. avanços. cujo nome significa DEUS DAS ARMAS. no Brasil. o sistema colonial e a escravidão.Maria de Lourdes Siqueira São múltiplas as interpretações da capitulação de Ganga-Zumba. Hoje. sobre a intensidade do combate e da convicção de Zumbi à frente da luta. ZUMBI DOS PA L M A R E S Zumbi. constância admirável. Zumbi aos 39 anos de idade. que vivia na fortaleza Quilombola do Macaco. o mais destemido. fundada em 1642. No período de 1670 a 1687 Palmares foi governada por Ganga-Zumba. o exercito colonial. 1995) . 2004) . O Rei de Portugal escreveu uma carta ao Comandante. Em decorrência. 1996) . o general das armas. conseguiu escapar com vida. recuos. capitão Zumbi dos Palmares. Na noite de 6 de fevereiro de 1694 os canhões de Domingos Jorge Velho atingiram a cerca Real de Macaco. exercícios de destreza militar. o estorvo de nossos bons sucessos. Zumbi assumiu o poder em Palmares e intensificou a luta contra os proprietários.

5) A organização familiar – há existência do direito ao sistema matrilinear. culturais e políticos das civilizações africanas que fundamentalmente constituem a sociedade brasileira e a cultura nacional. hoje. tradições e religiões de um Estado africano. 11 . ele ordena as estratégias e táticas da guerra. inclusive o que fabricam em suas tendas.Quilombos no Brasil e a Singularidade de Palmares . de interpretes. 10) As Comunidades Remanescentes de Quilombos . celebravam-se casamentos e batizados. 1) O coletivismo econômico dos palmarinos – tudo é de todos. 2004. onde tudo é compartilhado. o Maioral principal é escolhido só pelos Maiorais. p. Todos os Maiorais são escolhidos em reunião pelos negros que vivem nos Mocambos.25) . Todos têm direito ao uso das terras e os frutos do que plantam e colhem é depositado nas mãos do Conselho de Maiorais. valores. costumes.Maria de Lourdes Siqueira A ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA DE PALMARES A organização social e política de Palmares refletia os princípios. mais ou menos “enroupados. 3) O Conselho de Justiça – recebe as queixas familiares e da Repúblicas que são analisadas “sem recurso”. Mas fala-se também de “línguas”. (FREITAS. hierarquia e socialização. tudo que plantam e colhem é depositado em mãos do Conselho. O Maioral principal (assim era chamado à época pela linguagem dos documentos. “O modo de vestir entre si é o mesmo que usam entre nós. mas eram guardadas as culturas e expressões religiosas africanas e/ou indígenas próprias. 8) A maneira de vestir-se em Palmares. que era portuguesa) resolve os negócios da guerra por vontade absoluta. 7) Conselho de Maiorais. conforme as possibilidades”. nada é de ninguém-. Os homens habitam juntos a casa da mesma esposa. O núcleo familiar era a unidade básica da organização social e formação individual e coletiva. significa que os palmarinos falavam suas próprias línguas e eram das mais diferentes procedências. 9 A língua falada em Palmares: em inúmeros documentos dá-se a entender que os ) negros palmarinos falavam português. e se o governador enviou “línguas” a Palmares. 2) A existência de instituições políticas. com estrutura. 6) A divisão e uso da terra. imagens. O Conselho reparte com cada um segundo as necessidades de sua sobrevivência. 4) A prática religiosa: nos quilombos havia capela. organização. Mas.Lutam. pela continuidade dos princípios que na dinâmica da sociedade contemporânea revivem valores sociais.

In: REIS. SIQUEIRA. Comunidade negra rural: um velho tema. Décio. 12 . 2004. Mundinha. João José. São Luís: SIOGE. v. Zumbi dos Palmares Belo Horizonte. Maria de Lourdes. CENTRO DE CULTURA NEGRA DO MARANHÃO (CCN/MA). Uma história da liberdade. Maceió: EDUFAL. 1996. República de Palmares: pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII.Maria de Lourdes Siqueira REFERÊNCIAS ARAÚJO. Uma história do povo Kalunga. 1. GOMES. v. In: REIS. Revista Palmares em Ação. Brasília. NASCIMENTO. São Luís. Luiz Fernando. Petrópolis: Vozes. Zezito. Flávio dos Santos (Orgs. Maceió: EDUFAL. ILÊ AIYÊ. Roberto A África está entre nós. BRASIL.3. São Paulo: Companhia das Letras. Secretaria de Educação Fundamental. Décio. In: FREITAS. 2001. João José.). BENJAMIN. ARAÚJO. REIS. Marcos. GOMES. n. FREITAS. PRICE. São Paulo: Grafiset. 2004. uma nova discussão. Liberdade por um fio: história do quilombo no Brasil. Caderno de educação terra de Quilombo.). O Quilombismo. Terras de preto no Maranhão: quebrando o mito do isolamento. 2002. IDEÁRIO. Flávio dos Santos (Orgs. 1996. João José. 1. Liberdade por um fio: história do quilombo no Brasil. Palmares como poderia ter sido. Insurreição de escravos em Viana.8. São Paulo: Companhia das Letras. Ministério da Educação. Belo Horizonte: Mazza Edições. 1980. Richard. LINHARES. Contribuição da obra de Décio Freitas ao entendimento da epopéia palmarina e sua importância na formação da sociedade brasileira. Abdias. 1994. 2002. IDEÁRIO. Projeto vida de negro. República de Palmares: pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. 1995. 2004. 2000. v. Salvador.Quilombos no Brasil e Singularidade de Palmares . CARDOSO. (Coleção Negro Cosme).

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