Os Lusíadas - Adamastor - resumo (por estrofe) e análise global

LÍNGUA PORTUGUESA, 9ºANO PROF.

ANTÓNIO ALVES

Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões - Análise do episódio do Gigante Adamastor ANÁLISE DO EPISÓDIO:
Inspirado em Homero e Ovídio, o episódio do Gigante Adamastor é o mais rico e complexo episódio do poema, de natureza simbólica, mitológica e lírica. Ele se compõe de vinte e quatro estrofes (canto V, 37 - 60), assim distribuídas: Estrofes 37-38: introdução (2) Estrofes 39-48: Adamastor 1 (10) Estrofe 49: transição (1) Estrofes 50-59: Adamastor 2 (10) Estrofe 60: epílogo (1) Como se vê, há uma distribuição muito equilibrada das partes: das vinte e quatro estrofes, quatro destinam-se à introdução, transição e epílogo; as vinte restantes, divididas ao meio, apresentam o herói da sequência. Tanto Vasco da Gama como o Adamastor aparecem como narradores e como personagens. No plano histórico, simboliza a superação pelos portugueses do medo do “Mar Tenebroso”, das superstições medievais que povoavam o Atlântico e o Índico de monstros e abismos. Adamastor é uma visão, um espectro, uma alucinação que existe só nas crendices dos portugueses. É contra seus próprios medos que os navegadores triunfam. No plano lírico é um dos pontos altos do poema, retomando dois temas constantes da lírica camoniana: o do amor impossível e o do amante rejeitado: Adamastor, um dos gigantes filhos da Terra, apaixonou-se pela nereida Tétis. Não correspondido, tenta tomá-la à força, provocando a cólera de Júpiter, que o transforma no Cabo das Tormentas, personificado numa figura monstruosa, lançada nos confins do Atlântico. Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopeia: 1. O real maravilhoso (dificuldade na passagem do cabo). 2. A existência de profecias (história de Portugal). 3. Lirismo (história de amor, que irá ligar-se mais tarde, à narração maravilhoso da Ilha dos Amores); 4. É também um episódio trágico, de amor e morte; 5. É um episódio épico, com a vitória do homem sobre os elementos (água, fogo, terra, ar);

ENREDO
37 - A viagem da esquadra é rápida e próspera até surgir uma nuvem que escurece os ares, sobre as cabeças dos navegantes. Porém já cinco sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca doutrem navegados, Prosperamente os ventos assoprando, Quando uma noite, estando descuidados Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem, que os ares escurece, Sobre nossas cabeças aparece. 38 - A nuvem escura que surgiu vinha tão carregada que encheu de medo os navegantes. O mar, ao longe, fazia grande ruído ao bater contra os rochedos. Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à tempestade perguntando o que era ela, que ela lhe parecia mais que uma simples tormenta marinha. Repare que o cenário aterrador fará a imagem do Gigante ainda mais terrível e assustadora. publicado em http://linguaportuguesa9ano.wordpress.com por António Alves Página 1

pois os navegantes foram surpreendidos. Os olhos encovados. Que pareceu sair do mar profundo. de olhos encovados. 40 . "Ó Potestade (disse) sublimada: Que ameaço divino ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta. Repare na ênfase que se dá ao fato de aquelas águas nunca terem sido navegadas por outros: o gigante diz que aquele mar que há tanto ele guarda nunca foi conhecido por outros.Vasco da Gama não havia terminado de falar quando surgiu uma figura enorme. Arrepiam-se as carnes e o cabelo. A boca negra. Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho. só de ouvi-lo e vê-lo! 41 . que por guerras cruas. E por trabalhos vãos nunca repousas. de postura má.wordpress. quando uma figura Se nos mostra no ar. A mi e a todos. Que mor cousa parece que tormenta?" 39 .com por António Alves Página 2 . cuja voz fazia arrepiar os cabelos e a carne dos navegantes. Como se desse em vão nalgum rochedo. E disse: "Ó gente ousada. que bem posso Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso. tais e tantas. Que pôs nos corações um grande medo. o gigante lhes ordena que ouçam os os sofrimentos futuros. 43 . Cum tom de voz nos fala. O rosto carregado. Ouve os danos de mi que apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento. mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas.A figura era tão enorme que poder-se-ia jurar ser ela o segundo Colosso de Rodes. Tu. de cabelos crespos e cheios de terra. o negro mar de longe brada. Esta passagem é meramente descritiva. De disforme e grandíssima estatura.o naufrágio – foi maior que o perigo. Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do úmido elemento. robusta e válida. Que um dos sete milagres foi do mundo. Não acabava.O gigante afirma que os navios que fizerem a viagem que Vasco da Gama está fazendo terão aquele cabo como inimigo. Pois os vedados términos quebrantas E navegar nos longos mares ousas. A primeira armada a que se refere Adamastor é a de Pedro Álvares Cabral. pois chegaram aos confins do mundo. de rosto fechado. consequências do atrevimento de cruzar os mares. Surge no quarto verso a introdução da fala do Gigante. Tão grande era de membros. e a postura Medonha e má e a cor terrena e pálida. horrendo e grosso. Por todo largo mar e pola terra Que inda hás de sojugar com dura guerra. publicado em http://linguaportuguesa9ano. de boca negra e de dentes amarelos.O gigante chama os portugueses de ousados e afirma que nunca repousam e que tem por meta a glória particular. a barba esquálida.Tão temerosa vinha e carregada. os dentes amarelos.Já que os portugueses descobriram os segredos do mar. Bramindo. Cheios de terra e crespos os cabelos. Nunca arados d’estranho ou próprio lenho: 42 . que perdeu ali quatro de suas naus: o dano . A nenhum grande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento.

Aqui espero tomar. cavaleiro. e sua vitória sobre os turcos. Serei eterna e nova sepultura. que. fizerem. Se é verdade o que meu juízo alcança. em vossas naus verei. E consigo trará a fermosa dama Que Amor por grão mercê lhe terá dado.wordpress. 47 . Com ventos e tormentas desmedidas! E da primeira armada. Triste ventura e negro fado os chama Neste terreno meu. Os cristalinos membros e preclaros À calma. publicado em http://linguaportuguesa9ano. que a ventura Com fama alta fizer tocar os céus. O gigante continua ameaçador: junto a ele continua a haver perigo. ao ar verão despidos.O gigante diz que os filhos queridos de Manuel de Sousa Sepúlveda morrerão de fome e sua esposa será violentada pelos habitantes da África. E do primeiro ilustre. enamorado. Outro também virá. Verão morrer com fome os filhos caros. como se verá: o menor mal será a morte. Por juízos incógnitos de Deus. Que o menor mal de todos seja a morte! 45 . duro e irado. Que seja mor o dano que o perigo! 44 .Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes. E não se acabará só nisto o dano De vossa pertinace confiança: Antes. Despois de ter pisada longamente Cos delicados pés a areia ardente. e que outras embarcações portuguesas serão destruídas por ele.com por António Alves Página 3 . Os deixará dum cru naufrágio vivos. Francisco de Almeida.O gigante afirma que se vingará ali mesmo de seu descobridor. ásperos e avaros. Bartolomeu Dias. Eu farei d’improviso tal castigo. perdições de toda sorte. Naufrágios. As afirmações são ameaçadoras. Liberal. cada ano. Em tanto amor gerados e nascidos. de atrevidas. Comigo de seus danos o ameaça A destruída Quíloa com Mombaça. de honrada fama. 46 . De quem me descobriu suma vingança. ao frio. que passagem Fizer por estas ondas insufridas. cujo destino será tenebroso: depois de um naufrágio. Inimiga terão esta paragem.Nesta estrofe o gigante cita a desgraça da família de Manuel de Sousa Sepúlveda. Tirar à linda dama seus vestidos. primeiro vice-rei da Índia. se não me engano. Aqui porá a turca armada dura Os soberbos e prósperos troféus. depois de caminhar pela areia do deserto. Verão os Cafres. sofrerão muito. Pera verem trabalhos excessivos.É citado D.

Abraçados. Aqui toda a africana costa acabo Neste meu nunca visto promontório. de mágoa pura.48 . Eu sou aquele oculto e grande Cabo A quem chamais vós outros Tormentório.Adamastor cometeu a loucura de lutar contra neptuno por amor a Tétis. Qual Encélado. Que pera o Pólo Antártico se estende. A quem vossa ousadia tanto ofende. nunca conhecido pelos geógrafos da Antigüidade.O gigante se apresenta: ele é o Cabo Tormentoso. as almas soltarão Da fermosa e misérrima prisão. Plínio e quantos passaram fui notório. Como quem da pergunta lhe pesara: 50 . que morrerão juntos. publicado em http://linguaportuguesa9ano. Chamei-me Adamastor e fui na guerra Contra o que vibra os raios de Vulcano. Mas conquistando as ondas do Oceano. Pompônio. nos mares. Que inda não sinto cousa que mais queira. Fui dos filhos aspérrimos da Terra. Todas as Deusas desprezei do Céu. por quem desprezou todas as Deusas. ficarem no mato quente e inóspito E verão mais os olhos que escaparem De tanto mal. que eu buscava. Um dia a viu nua na praia e apaixonou-se por ela. que se alonga para o Pólo Sul. Lhe disse eu: . Fui capitão do mar.com por António Alves Página 4 . Egeu e Centimano. coas filhas de Nereu. extremamente ofendido com a ousadia dos portugueses. e ainda não há algo que deseje mais do que ela. no entanto.O gigante continuaria fazendo as previsões se Vasco da Gama não o interrompesse perguntando quem era aquela figura maravilhosa. por onde andava A armada de Neptuno. buscava a armada de Neptuno.Que és tu? Que esse estupendo Corpo certo me tem maravilhado! A boca e os olhos negros retorcendo E dando um espantoso e grande brado. Amores da alta esposa de Peleu Me fizeram tomar tamanha empresa. Que nunca a Ptolomeu. Ele. Sair nua na praia e logo presa A vontade senti de tal maneira. de tanta desventura. alçado. Um dia a vi. Mais ia por diante o monstro horrendo Dizendo nossos fados. quando.Adamastor diz que era um dos Titãs. 49 . Ali. Não que pusesse serra sobre serra. com voz pesada e amara. Estrabo. O monstro responderá com voz pesada porque relembraria seu triste passado.wordpress. Só por amar das águas a princesa. Os dous amantes míseros ficarem Na férvida e implacábil espessura. 52 . última porção de terra do continente africano. gigantes que lutavam contra Júpiter e que sobrepunham montes para alcançar o Olimpo. despois que as pedras abrandarem Com lágrimas de dor.Os sobreviventes do naufrágio verão Manuel de Sousa Sepúlveda e sua esposa. 51 . Me respondeu.

Continua a resposta de Tétis: ela. O peito de desejos e esperanças.Uma noite. Adamastor resolveu conquistá-la por meio da guerra e manifestou sua intenção a Dóris. não o manteve com a ilusão de abraçá-la. Me aparece de longe o gesto lindo Da branca Tétis. Como doudo corri de longe. sonho ou nada? Daqui me parto. de Dóris prometida. com minha honra. 56 . onde não visse Quem de meu pranto e de meu mal se risse. Oh! Que não sei de nojo como o conte! Que.com por António Alves Página 5 . mas mudo e quedo E junto dum penedo outro penedo! 57 . Mas ela. Já néscio. Uma noite. única. despida. Como louco. mãe de Tétis. De medo a Deusa então por mi lhe fala. para livrar o Oceano da guerra. sentiu-se como uma rocha diante de outra rocha. irado e quase insano Da mágoa e da desonra ali passada. que ouviu da filha a seguinte resposta: como poderia o amor de uma ninfa agüentar o amor de um gigante? Como fosse impossíbel alcançá-la Pola grandeza feia de meu gesto. perguntando porque. louco de amor e desistindo da guerra. Sem palavras e imóvel. única e nua. cum fermoso riso honesto. que cair não pude neste engano (Que é grande dos amantes a cegueira). se ela não amava.Como jamais conquistaria Tétis porque era muito feio. Ou fosse monte. a mais fermosa do Oceano. Ó Ninfa. O gigante afirma que. Dali ele partiu quase louco pela mágoa e pela desonra procurando outro lugar em que não houvesse quem risse de sua tristeza. eu buscarei maneira Com que. já que estava cego de amor. Tal resposta me torna a mensageira. Não fiquei homem. Já que minha presença não te agrada. publicado em http://linguaportuguesa9ano. as faces e os cabelos. achando que beijava e abraçava Tétis. encontrou-se abraçado a um duro monte. o gigante correu abrindo os braços para aquela que era a vida de seu corpo e começou a beijá-la. Estando cum penedo fronte a fronte. Respondeu: .wordpress.Qual será o amor bastante De ninfa. Que eu polo rosto angélico apertava. não percebeu que as promessas que Dóris e Tétis lhe faziam eram mentirosas.Adamastor não consegue expressar a mágoa que sentiu. escuse o dano. com grandes abondanças. A buscar outro mundo. crendo ter nos braços quem amava. abrindo Os braços pera aquela que era a vida Deste corpo e começo os olhos belos A lhe beijar. Abraçado me achei cum duro monte De áspero mato e de espessura brava. por livrarmos o Oceano De tanta guerra.Adamastor invoca Tétis. que sustente o dum Gigante? 54 . Determinei por armas de tomá-la E a Dóris meu caso manifesto. nuvem. Encheram-me. Que te custava ter-me neste engano. aparece-lhe o lindo rosto de Tétis. tentará solucionar o problema com dignidade. já da guerra desistindo. 55 . porque. não. Eu. Contudo.53 .

minha grandíssima estatura Neste remoto Cabo converteram Os Deuses. Comecei a sentir do fado imigo. Tétis costuma banhar-se nas águas próximas. sendo recebida com frieza (69). cum medonho choro. Estes membros que vês e esta figura Por estas longas águas se estenderam. E. seus membros e sua figura alongaramse pelo mar. que chorando andava meus desgostos. Portanto. Cabo Verde (9). por mais dobradas mágoas. Por meus atrevimentos. Em penedos os ossos se fizeram. então. São muitos e detalhados os fatos relatados pelo poeta.com por António Alves Página 6 . avistam o gigante Adamastor (38).O gigante desapareceu chorando e o mar soou longínquo. Eram já neste tempo meus Irmãos Vencidos e em miséria extrema postos. Vasco da Gama ergue os braços ao céu e pede aos anjos que os casos futuros contados por Adamastor não se realizem. publicado em http://linguaportuguesa9ano. 6. os navegantes desembarcam (26). levantando as mãos ao santo coro Dos Anjos. 8) até aportar na ilha Santiago. 60 . Os portugueses recolhem-se nas naus. O gigante conta suas desventuras.58 . Em terra entram em contacto com a negra gente (29). mas encontra dificuldade para seguir viagem (66). A armada segue viagem e aporta novamente. Zarpa. o castigo: 59 . ESTRUTURA DO CANTO V A estrutura do Canto V é complexa. E. os Deus fizeram dele um Cabo. O gigante é encontrado no Cabo das Tormentas (50). Eu. Converte-se-me a carne em terra dura. Eu. numa noite. é apanhada por uma tormenta (16).A carne do gigante se transformou em terra e os ossos em pedra. A armada deixa o porto (1).wordpress. Enfim. após fundear. Súbito d’ante os olhos se apartou. Desfez-se a nuvem negra e cum sonoro Bramido muito longe o mar soou. seu triste destino. A Deus pedi que removesse os duros Casos que Adamastor contou futuros. Assi contava. que convida Fernão Veloso para acompanhá-la até a aldeia (30). segue a costa da África (5. por mais segurar-se Deuses vãos. Segue-se uma breve escaramuça (33). Adamastor anuncia. contra quem não é possível lutar. Abastecida de provisões e água. Para que sofra em dobro. como contra o Céu não valem mãos. Me anda Tétis cercando destas águas. e. Cinco dias se passam até que. Novamente no mar. Aporta uma vez mais (68).Os Titãs já foram vencidos e soterrados para maior segurança dos deuses. "O GIGANTE ADAMASTOR" O episódio do Gigante Adamastor encontra-se no Canto V d’ Os Lusíadas. avista terra (24) e. 63). Alguns a vários montes sotopostos. que tão longe nos guiou. e. antes de abordá-lo mister fazer a análise do mesmo. entrando em contacto com nativos amistosos (62. descobrem que estão longe das Índias e partem (34 a 37). até suas carnes transformarem-se em terra dura (38 a 59). a armada dá velas ao vento até a ilha de São Tomé (12).

46. A ação se desenrola de maneira contínua. Andam vendo já nossas armadas. Seguindo a tradição medieval. 47 e 48). Que tiveram por nome Fortunadas." (49) "Mais ia por diante o monstro horrendo Dizendo nosso fados. Terras por onde novas maravilhas. ESPAÇO A acção se processa nas embarcações da armada. Trava contacto com esta gente instruída nas artes da marinhagem. em virtude de seu amor. Entrámos navegando. RESUMO DO EPISÓDIO DO GIGANTE O episódio do Gigante Adamastor é relativamente curto. claramente visto. Lhe disse eu: . Finda o canto V. 85). nas ilhas Santiago e São Tomé." O tempo cronológico. que fazem que se atreva Fernào Veloso a ir ver da terra o trato E partir-se com ele pelo mato. desde a armada partir de Portugal até chegar a Moçambique (30) "Mas. Depois. 54." publicado em http://linguaportuguesa9ano. 93). 56. Ao citar os lugares-comuns partilhados. Cabo da Tormenta e Moçambique. Vasco da Gama fica apenas com a lembrança das ameaças feitas por ele e a esquadra segue viagem (60 e 61) FOCO NARRATIVO O Canto V do poema épico "Os Lusíadas" foi escrito em primeira pessoa: (17) "Vi. logo ao outro dia. muitos acabam mortos e são sepultados naquela terra nova (83). Domésticos já tanto e companheiros. o lume vivo" Até entrar em cena o gigante Adamastor.wordpress. o Adamastor desaparece. Perguntado acerca de sua identidade (49). o tempo é rigorosamente cronológico. 75). 55. 53. Assim como apareceu. 40). consiste de um diálogo indirecto livre. Boa parte do episódio é dialógico.Levanta âncora e cavalga as vagas encontrando batéis (73. (41) "E disse . Adamastor toma a palavra e ameaça os navegantes (41. o texto é narrativo. (8) "Passadas tendo já as Canárias ilhas. 45. 42. Hespéridas chamadas. Todos nus. Por tomarmos da terra mantimento. A armada parte novamente. 192 versos. 57. 52. é seguido pela descrição do gigante (39. costas da África. Camões não se preocupou muito em descrever minuciosamente o espaço. foi transformado em pedra dura (51.<<Quem és tu? que esse estupendo" TEMPO No canto V. portanto. alçado. a qual não conhece a língua árabe (77). pelas filhas Do velho Hespério. 44. Descendo pelos ásperos outeiros.com por António Alves Página 7 . 58 e 59). Uma epidemia espalha-se entre os marinheiros. O espanto do encontro (38). mas que quantas. o poeta activa os símbolos que constituirão a referência espacial do leitor. e da cor escura treva. Vasco da Gama exorta os marinheiros a readquirirem o ânimo (90. o Gigante revela que é o cabo das tormentas (50) e relata como. seus parceiros. quando.<<Ó gente ousada. Ali tomámos porto com bom vento. Se nos mostram. As peças vem buscar que est'outro leva. Abarca apenas 24 estrofes. O oceano ocupa uma posição de destaque na narrativa. alcança Moçambique e aporta (84. só encontra uma breve interrupção quando o gigante Adamastor entra em cena.

wordpress. Coelho. olhos encovados. o acento tônico é deslocado para atender aos ditames da versificação. o poeta emprega o verbo "consumir" no presente do indicativo com a grafia "consume" e não "consome". porque correspondem respectivamente a 4ª e 8ª sílabas de versos sáficos. Vasco da Gama. Em Camões. ressalta o antropocentrismo. dentes amarelos. Ao contrário do que defendem certos autores. até mesmo desafiar um semideus. através do confronto de personagens tão singulares. Fernão Veloso. Entretanto. o Poeta encontrou a seu favor certas praxes greco-romanas do género que lhe forneceram protótipos de uma intriga entre deuses apaixonados. procura descobrir onde está (26). um rei. negros.PERSONAGENS As personagens principais no Canto V são o narrador e o Gigante Adamastor. Adamastor diminui-se diante do Capitão da esquadra ao reconhecer-se prisioneiro de seu destino. Na resolução desta dificuldade de dar dinâmica e caracteres ao seu poema. A morforlogia camoniana é basicamente a mesma de nossos dias. Fernão Martins. não foi Camões que fixou o uso da língua portuguesa. a flexão verbal é vassilante. Que pareceu sair do mar profundo. Assim.com por António Alves Página 8 . um negro. que bem posso Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso." LINGUAGEM Em Camões a língua portuguesa assume seu perfil nacional. três reis do Oriente. etíopes.heróis de Camões raramente parecem de carne. falta-lhes carácter e paixões. pois através de sua obra o poeta transformou-se em paradigma indispensável àqueles que pretendem expressar-se através da língua portuguesa. rosto barbudo. razão pela qual não serão objecto de preocupação. Ao homem a tudo é permitido.. (2) "E o mundo que com o tempo se consume" publicado em http://linguaportuguesa9ano. um etíope.<<Quem és tu? que esse estupendo Corpo certo me tem maravilhado!>>" O Gigante Adamastor é robusto. solenes e impassíveis.. povos de Mombaça) não desempenham importância significativa no episódio do Gigante. É por isto que já se disse que os ". No Canto V a palavra "etiope" aparece duas vezes:(32) "Um etiope ousado se arremessa" (62) "Posto que todos os etiopes erram" Nos primeiro caso a sílaba tônica recai em "o". Vasco da Gama agiganta-se diante do semideus pelo seu destemor (não foge. de grande estatura. alçado. Assim. O processo de "desgalização" da língua que vinha ocorrendo no período anterior (1140-1350) se consolidará na época do poeta. À época de Camões a ortografia não era uniforme. só de ouvi-lo e vê-lo. Camões maneja com habilidade e harmonia um idioma bem definido. As demais (marinheiros . C'um tom de voz nos fala horrendo e grosso. Lhe disse eu:. (40) "Tão grande era de membros. Revela que foi aprisionado em virtude de seu amor por Thetis e lamenta seu destino chorando medonhamente (60). questiona-o). voz grossa e horrenda (39/40). Às vezes. É impossível deixar de notar como o poeta. O narrador do episódio. (49) "Mais ia por diante o mostro horrendo Dizendo nossos fados. membros grandes. Que um dos sete milagres foi do mundo. Arrepiam-se as carnes e o cabelo A mim e a todos. não se intimida diante do gigante Adamastor questionando-o (49). Roga protecção a Deus (60) e exorta os marinheiros (90/100). não há por que ater-se a este aspecto da obra. a prosódia submete-se ao império da construção poética . na segunda em "i" por necessidade métrica. mas o padrão culto da mesma tal qual era empregado no século XVI. cabelos crespos boca negra. Isto não retira seu mérito. quando." Camões coloca lado a lado uma personagem histórica e uma mitológica. pessoas que navegam em batéis. São em geral estátuas processionais. capaz de expressar emoções e pensamentos nobres e elevados.

Que se estende para o Polo Antártico. Aliás. o autor atribui o mar e às ondas atributos genuinamente humanos. robusta e válida. que pode referir-se indistintamente ao barulho da natureza e a voz humana. Ora. Pompónio. Toda a costa Africana aqui acabo.com por António Alves Página 9 ." Camões emprega largamente os superlativos ao longo do poema:(39) "De disforme e grandíssima estatura" (40) "De Rodes estranhíssimo Colosso" RECURSOS EXPRESSIVOS Ao longo do poema épico. Neste meu nunca visto Promotório. (45) "Serei eterna e nova sepultura" Através desta metáfora. Camões lança mão de diversos recursos expressivos. A quem vossa ousadia tanto ofende. ainda que grandes. não deveriam conhecer os segredos! (39) "Não acabava. quando uma figura (substantivo) Se nos mostra no ar. (42) "Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do húmido elemento A nenhum grande humano concedidos" Esta passagem é antitética. o gigante Adamastor comunica como pretende dar fim a vida dos navegantes. (38) "Bramindo o negro mar de longe brada" (43) "Fizer por estas ondas insofridas" Através destas prosopopeias. (6) "Onde as aves no ventre o ferro gastam" Através desta hipérbole. "bramir" é sinónimo de "bradar". (37) "Porém já cinco sóis eram passados" (42) "Da natureza e do húmido elemento" Através destas metonímias. foi usado pelo autor no segundo sentido (não teria sentido ele referir-se ao barulho das ondas duas vezes no mesmo verso). predomina a inversão:(8) "Eu sou aquele oculto e grande Cabo A quem chamais vós outros Tormentório Que nunca a Ptolomeu.Quanto à sintaxe. Estrabo Plínio e quantos passaram fui notório. A quem vossa ousadia tanto ofende. o poeta aumenta a capacidade natural das aves. se os navegantes são humanos.wordpress. Aqui toda a Africana costa acabo Neste meu nuca visto Promontório. Pompónio. Acima destacamos um exemplo de rima pobre e outro de rima rica . Que pera o Polo Antártico se estende. as oitavas do poema épico em questão apresentam rimas abababcc. mas este vocábulo. Estrabo. publicado em http://linguaportuguesa9ano. De disforme e grandíssima estatura (substantivo) (40) "Tão grande era de membros que bem posso (verbo) Certificar-se que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso (substantivo) Como vimos anteriormente. O gigante Adamastor pretende revelar aos navegantes segredos a nenhum grande humano revelados." Em ordem directa esta oitava ficaria mais ou menos assim:"Eu sou aquele grande Cabo oculto A quem vós outros chamais Tormentório Que nunca fui notório a Ptolomeu. o autor quer referir-se ao tempo de cinco dias e cinco noites e ao mar (definido pela sua qualidade). Plínio e quantos passaram.

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