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Licenciatura em

Fundamentos Histórico-Filosóficos da
Educação
IMES
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FTC - EAD
Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância
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MATERIAL DIDÁTICO

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Ana Paula Amorim | Supervisão João Jacomel | Coordenação
Ana Paula Amorim | Autor(a) Márcio Serafim | Editoração
Márcio Serafim | Ilustrações

Revisão de Texto
Carlos Magno Brito Almeida Santos
Márcio Magno Ribeiro de Melo

Equipe
André Pimenta, Antonio França Filho, Angélica de Fátima Jorge, Alexandre Ribeiro, Amanda Rodrigues, Bruno Benn,
Cefas Gomes, Clauder Frederico, Francisco França Júnior, Hermínio Filho, Israel Dantas, Ives Araújo, John Casais,
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SUMÁRIO

BLOCO - 01| UMA VISÃO CRÍTICA DA EDUCAÇÃO DA ANTIGUIDADE A CONTEMPORANEIDADE................. 05.

TEMA 01 | A TRADIÇÃO GREGA.................................................................................................................................................05

TEMA 02 | O HUMANISMO CRISTÃO NO PROCESSO EDUCATIVO ..............................................................................33.

BLOCO - 02| FILOSOFIA E EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA CONSCIÊNCIA.......................................................................56.

TEMA0 3 | FILOSOFIA E EDUCAÇÃO.......................................................................................................................................56.

TEMA 04 | A FORMAÇÃO CRÍTICA E A NECESSIDADE DE UMA POSTURA ÉTICA E DO EDUCADOR...84.


BLOCO 1| UMA VISÃO CRÍTICA DA EDUCAÇÃO DA

ANTIGUIDADE A CONTEMPORANEIDADE

Convido você para um mergulho na História da Educação.


Para começar, vamos entender que tipo de homem a educação da Antigüidade e do
Mundo Medieval queriam formar. É bom lembrar que muito da nossa cultura da
atualidade é herança dessa época.
Comecemos pelas ilhas gregas e sua cultura que tanto influenciou a cultura ocidental.

TEMA 1 | A TRADIÇÃO GREGA

É impossível pensar no Ocidente sem as contribuições dos gregos. Vejamos abaixo o que
esse povo da região sul da Europa, habitante de uma região ensolarada e banhada pelo mar
Mediterrâneo, legou à sociedade ocidental.

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O ideal esportivo - O sistema de educação dos gregos interessava-se tanto pelo corpo quanto
pelo espírito. A beleza do corpo e a harmonia dos gestos eram procurados através de exercícios
diários.

O ideal cívico - Embora não tivessem chegado à idéia de uma pátria unificada, os gregos amaram
ardentemente as suas cidades e chegaram a morrer por elas.

O regime democrático - Os atenienses conheceram e transmitiram à posteridade um regime


político que chamaram de democracia e que se caracteriza pelo governo do povo pelo povo ou
através de representantes do povo;

O desenvolvimento das ciências - Os gregos desenvolveram as ciências puras, tais como a


matemática, fizeram progredir igualmente as ciências experimentais e aplicadas.

A influência literária - Os gregos criaram o teatro, a tragédia e a comédia. Criaram também uma
nova forma de ver a História, que até então não passava de uma lista de nomes e de datas
aproximadas.

A influência artística - A arte grega produziu monumentos cuja beleza nos emociona, mesmo
quando parcialmente em ruínas, como o Partenon da Acrópole de Atenas. O ideal de beleza dos
gregos ainda hoje é sinônimo de perfeição plástica.

http://greek.hp.vilabol.uol.com.br/

Também na educação a herança grega é inestimável, inclusive na origem da pedagogia. Tanto


no conceito quanto no significado de sua ação, a pedagogia nasce na Grécia Antiga com a
palavra paidagogos, que deu origem a pedagogia. Primeiramente, o termo significava
literalmente “aquele que conduz a criança” (agogôs, “que conduz”) e se aplicava ao escravo que
acompanhava a criança à escola. Com o tempo, o conceito passou a abranger toda teoria sobre a
educação.

Porém, antes analisarmos a educação na Grécia, vejamos um pouco de sua história que,
por razões didáticas, costuma ser dividida nos seguintes períodos:
Homérico (1150-800 a.C.): chegada dos aqueus, dórios, eólios e jônios; formação dos génos;
ausência da escrita.

Arcaico (800-500 a.C.): formação da pólis; colonização grega; aparecimento do alfabeto fonético,
da arte e da literatura além de progresso econômico com a expanção da divisão do trabalho do
comércio, da indústria e proscesso de urbanização.

Clássico (500-338 a.C.): o período de esplendor da civilização grega, ainda que discutível. As duas
cidades consideradas mais importantes desse período foram Esparta e Atenas, além disso outras
cidades muito importantes foram, Tebas, Corinto e Siracusa.

Helenístico (338-146 a.C.): crise da pólis grega, invasão macedônica, expansão militar e cultural
helenística, a civilização grega se espalha pelo mediterraneo e substituí e se funde a outras
culturas.

Vejamos a seguir os períodos da educação grega:

Todo o sistema da legislação dos lacedemônios visa uma parte das qualidades do homem - o
valor militar, por este ser útil nas conquistas; consequentemente a força dos lacedemônios foi
preservada enquanto eles tiveram em guerra , mas começou a declinar quando eles construíram
um império, porque não sabiam como viver em paz, e não foram preparados para qualquer
forma de atividade mais importante para eles do que a militar."
Aristóteles “Política”, 1271 b

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/antiga/2002/05/27/002.htm

A educação em Esparta era responsabilidade do Estado e uma palavra define bem o espírito da
educação em Esparta: agogê (agoge), “adestramento”, “treinamento”.

Dentro dessa mentalidade, os meninos espartanos eram preparados para defender o Estado e
morrer pela sua cidade. Seus valores mais importantes eram a disciplina, a obediência aos
superiores, o ódio à covardia, o antiindividualismo e a coragem extremada. Vejamos a seguir
algumas etapas da educação espartana:

Até os sete anos, os meninos eram educados em casa, com a família, aprendendo os valores de
sua classe e a história de seus antepassados;

A partir dos sete anos, os meninos começavam a ser educados pelo Estado nos ideais de civismo,
bravura, patriotismo, sacrifício. Também aprendiam cálculo e as primeiras letras.

A partir dos 12 anos começava a educação militar propriamente dita em grandes acampamentos
onde aprendiam a ser duros, resistentes, frios e corajosos. Começavam a participar de operações
militares, cultivando a força física e a coragem.

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Após 17 anos nos acampamentos, os meninos passavam pelo ritual da kriptia onde teriam que
provar sua coragem e habilidade caçando escravos pelas terras espartanas.

Aos 30 anos os espartanos adquiriam o direito a cidadania e podiam participar da assembléia.

Finalmente aos 60 anos, os espartanos podiam entrar para a reserva. Era o fim do serviço militar
e o início da participação na Gerúsia, a assembléia dos anciãos.
Esparta admitia e fazia pleno uso dos castigos físicos quando seus meninos não cumpriam com
o que se esperava deles, sendo tristemente célebres os espetáculos de auto-flagelação pública.
Ao contrário de Atenas, a educação em Esparta estava voltada para a conservação da tradição.
Nesse sentido, podemos comparar Esparta com todos os regimes totalitários que lhe sucederam
e que buscaram utilizar a educação para incutir idéias refratárias a mudanças e ao novo, algo
bem distante do verdadeiro espírito da educação, não é?

Não encontrávamos em Esparta o valor dado ao indivíduo em Atenas. Ao contrário: em Esparta o


importante era o grupo e a extrema obediência ao seu líder que, por sua vez, cumpria
cegamente as ordens dadas pelo governo de sua cidade. Para muitos, a inflexibilidade de
Esparta era sua principal fraqueza, pois, ao educar homens apenas para obedecer e lutar, seus
cidadãos não conseguiam viver em tempos de paz nem administrar cidades diferentes, já que só
conseguiam ver o mundo através de um único prisma: sua cidade e seu modo de pensar.

E a educação das mulheres em Esparta? Bem, elas aprendiam a ler e escrever, ao contrário das
mulheres em Atenas. As tarefas domésticas, como tecer, costurar e cozinhar ficavam a cargo dos
hilotas, enquanto elas recebiam uma educação muitas vezes tão brutal quanto dos homens.
Afinal, as mulheres em Esparta tinham que saber se defender sozinhas. Para isso recebiam
treinamento militar e educação física. Participavam de eventos esportivos nos quais corriam,
atiravam peso e arco e praticavam luta livre.

Na verdade, o que os legisladores espartanos queriam formar eram mulheres fisicamente fortes
capazes de gerar os bravos guerreiros que a cidade tanto prezava e de zelar pelas suas
propriedades quando seus maridos ficavam longe nas longas campanhas militares promovidas
pelos espartanos. A necessidade de contar com o apoio das mulheres em caso de insurgência
numa sociedade altamente repressiva e conservadora fazia com que os homens espartanos
dessem a elas treinamento militar, participação em atividades políticas e maior liberdade para
participar das atividades do cotidiano da pólis (inclusive dos esportes).

A valorização da mulher em Esparta existia em linha direta com sua capacidade de gerar a prole
saudável e expulsar os invasores que porventura se aventurassem por suas terras, além de
reprimir as revoltas dos escravos, os hilotas.

VOCÊ SABIA QUE: a palavra lacônico significa “breve”, “conciso”, “algo que é dito em poucas
palavras”? Saiba também que a origem do termo é grega e vem da Lacônia, região onde ficava a
cidade de Esparta. Segundo autores da Antiguidade, os espartanos eram lacônicos não apenas
por terem nascido na Lacônia, mas também pelo caráter fechado e pouco afeito a debates
intelectuais, resultado de uma educação que privilegiava a obediência e o militarismo.
EDUCAÇÃO ATENIENSE

Vimos que Esparta tinha como filosofia educacional formar guerreiros dispostos a matar e
morrer pela sua cidade. Para isso, educava tanto homens e mulheres nas artes da guerra e
dentro do mais rigoroso patriotismo e espírito de sacrifício e obediência.
No caso de Atenas, a própria organização social da cidade exigia de seus cidadãos algo mais que
apenas obedecer e lutar.

Como berço da democracia, Atenas exigia de seus cidadãos o mínimo preparo necessário para
dar conta das demandas que um regime democrático impõe aos seus cidadãos, que é o debate
e a tomada de decisões.

Para isso, os atenienses davam aos seus filhos uma educação bem mais flexível que a espartana
na qual buscavam desenvolver nos seus cidadãos as mais diversas habilidades num conjunto
afinado de conhecimentos artísticos, intelectuais e sensoriais.

Vejamos abaixo as etapas da educação em Atenas:

Até os sete anos, os meninos eram educados em casa na convivência dos seus. A partir daí,
começavam a receber educação elementar composta de música e alfabetização. Essa educação
era dada pelos tutores, mestres que transmitiam conhecimento aos filhos das famílias mais ricas.

A partir dos trezes anos, os mais rios começavam a ser educados em grandes ginásios, locais nos
quais os meninos eram reunidos para estudar, entre outras áreas, a matemática e a filosofia. Aí
também recebiam educação cívica e educação física. Para os menos abastados, a idade de treze
anos marca o início do aprendizado de uma profissão.

Dos dezesseis aos dezoito anos, os jovens atenienses recebiam treinamento militar.

Após o final do treinamento, a elite continuava seus estudos nas academias, como a de Platão, e
refinavam ainda mais seus conhecimentos em filosofia, oratória e política.

As mulheres de Atenas, quando comparadas com as espartanas, dispunham de pouquíssimo


prestígio, estando a apenas um degrau dos escravos na escala social. Por conta disso, ninguém
esperava que uma menina ateniense aprendesse a ler ou escrever, muito menos receber
educação como os meninos. Chegava-se a dizer em Atenas que ensinar uma mulher a ler e
escrever era como dar mais veneno a uma víbora!

Elas deveriam se doar ao máximo a seus maridos e filhos e, dessa forma, abdicar quase que
totalmente de seus interesses e vontades. Cuidar do lar, monitorar o crescimento de seus filhos e
devotar integral fidelidade ao marido passava a ser a vida de qualquer mulher grega.

Divididas em três classes, a elas restavam as tarefas de escravas, esposas dos cidadãos e cortesãs.
As escravas eram as responsáveis pelas tarefas da casa de sua dona e ajudavam a cuidar das
crianças da casa. As esposas dos cidadãos repetiam após o casamento a mesma submissão ao
marido que dedicaram aos pais e irmãos. Deviam ser dóceis e humildes, sempre a disposição dos
seus esposos. Eram responsabilidades dessas esposas, além da criação de seus filhos, que
cuidassem da casa com o auxílio dos criados (para isso tinham que averiguar o serviço

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doméstico e orientar os empregados quanto a forma como esse trabalho deveria ser feito), a
confecção de tecidos para a criação de peças de vestuário que seriam utilizadas pelos seus
próprios familiares, a produção de tapetes e cobertas e a manutenção e embelezamento da
casa.

No caso das famílias humildes, a diferença consistia na inexistência de criados para a execução
dos serviços domésticos, o que acarretava a necessidade de que esses trabalhos fossem
realizados pela própria esposa, inclusive cozinhar, lavar e limpar a casa.

Já as cortesãs aprendiam a ler e escrever e também podia freqüentar espaços públicos, algo
impensável para as esposas dos cidadãos, que viviam recolhidas em casa, no gineceu (parte da
casa destinada às mulheres), mas apenas porque tinham a função de entreter os poderosos.
“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas se perfumam, se banham com leite, se arrumam
Sua melenas
Quando fustigadas não choram,
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas,
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas”
Holanda, Chico Buarque. Mulheres de Atenas. CD Meus Caros Amigos, 1976.
TEXTO COMPLEMENTAR:

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/grecia/patrick.

EDUCAÇÃO HELENÍSTICA

Imaginem se no mundo atual, o Brasil fosse conquistado por uma grande potência mundial (EUA
ou França, por exemplo). Com certeza a nossa cultura sofreria mudanças. Isso foi o que
aconteceu com a Grécia no período helenístico.
Alexandre Magno (Rei da Macedônia), dominou a Grécia no século IV a.C e colocou sob seu
governo a Grécia e a Pérsia, a partir daí a cultura grega se universalizou, ampliou-se e tornou-se
multicultural, sobretudo pela larga influência dos orientais. É dessa fase o chamado despotismo
que séculos mais tarde foi aplicado na Europa de maneira generalizada.Crença na autoridade
inquestionável do governante.Nessa época a paidéia transformou-se em enciclopédia. A
educação passou a valorizar o aspecto intelectual ao invés dos aspectos físicos e estéticos. A
leitura, o cálculo e a escrita experimentaram grande desenvolvimento, mas o método era de
memorização.

Se a memorização ainda era valorizada, a disciplina era bastante rigorosa e os castigos corporais
eram considerados como algo natural. A escola dos grammátikos foi a que mais cresceu, nela
estudava-se: literatura clássica, poesia e história. No ensino superior (Universidade de Atenas e
no Museu de Alexandria), as matérias de ensino dividiam-se em:
humanistas (gramática, retórica e filosofia ou dialética)

realistas (aritmética, música, geometria e astronomia).

O ensino privado ainda existia, mas possuía uma dimensão bastante restrita, os pedagogos
passam a ser mais bem remunerados e ganham um certo prestígio social.No período helenistico
a Grécia teve a sua cultura tradicional modificada. No mundo atual, você considera isso um
aspecto positivo ou negativo?

Principais Educadores Gregos:

 SÓCRATES (469-399 a.C.)

Sócrates é o grande nome da filosofia grega na Antiguidade. Educado a partir da obra de


Homero, Sócrates viveu em Atenas quando a cidade era um centro cultural dos mais
importantes. Sócrates realizou uma tarefa de educador público e gratuito. Colocou os
homens em face da seguinte evidência oculta: as opiniões não são verdades, pois não
resistem ao diálogo crítico.

São contraditórias. Acreditamos saber, mas precisamos descobrir que não sabemos. É
conhecido seu famoso método, sua arte de interrogar, sua "maiêutica" (Platão criou a palavra
maieutiké para referir-se ao "parto das idéias" ou "parto das almas"), que consiste em forçar o
interlocutor a desenvolver seu pensamento sobre a questão que ele pensa conhecer, para
conduzi-lo, de conseqüência em conseqüência, a contradizer-se, e, portanto, a confessar que
nada sabe.

As etapas do saber são:

a) ignorar sua ignorância;


b) conhecer sua ignorância;
c) ignorar seu saber;
d) conhecer seu saber.

A verdade, escondida em cada um de nós, só é visível aos olhos da razão. Deriva daí, a
célebre frase: "Só sei que nada sei". Acusado de introduzir novos deuses em Atenas e de
corromper a juventude, foi condenado pela cidade. Irritou seus juízes com sua mordaz ironia.
Morreu tomando cicuta.

Fonte: http://www.pucsp.br/~filopuc/verbete/socrates.htm
O método socrático
Sócrates comparava sua função com a profissão de sua mãe, parteira – que não dá à luz a
criança, apenas auxilia a parturiente. “O diálogo socrático tinha dois momentos”, diz Carlos
Roberto Jamil Cury, professor aposentado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

O primeiro corresponderia às “dores do parto”, momento em que o filósofo, partindo da


premissa de que nada sabia,levava o interlocutor a apresentar suas opiniões. Em seguida,

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fazia-o perceber as próprias contradições ou ignorância para que procedesse a uma
depuração intelectual. Mas só a depuração não levava à verdade chegar a ela constituía a
segunda parte do processo. Aí, ocorria o
“parto das idéias”, momento de reconstrução do conceito, em que o próprio interlocutor ia
“polindo” as noções até chegar ao conceito verdadeiro por aproximações sucessivas.

O processo de formar o indivíduo para ser cidadão e sábio devia começar pela educação do
corpo, que permite controlar o físico. Já para a educação do espírito, Sócrates colocava em
segundo plano os estudos científicos, por considerar que se baseavam em princípios
mutáveis. Inspirado no aforismo “conhece-te a ti mesmo”, do templo de Delfos, julgava mais
importantes os princípios universais, porque seriam eles que conduziriam à investigação das
coisas humanas.

Fonte:
http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0179/aberto/pensadores.shtml

 ARISTÓTELES (384-322 a.C)

De todos os grandes pensadores da Grécia antiga, Aristóteles (384-322 a.C.) foi o que mais
influenciou a civilização ocidental. Até hoje o modo de pensar e produzir conhecimento
deve muito ao filósofo. Foi ele o fundador da ciência que ficaria conhecida como lógica e
suas conclusões nessa área não tiveram contestação alguma até o século 17.

As principais obras de onde se pode tirar informações pedagógicas são as que tratam de
política e ética. "Em ambos os casos o objetivo final era obter a virtude", diz Carlota Boto,
professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "Em suas reflexões
sobre ética, Aristóteles afirma que o propósito da vida humana é a obtenção do que ele
chama de vida boa. Isso significava ao mesmo tempo vida 'do bem' e vida harmoniosa."
"A educação, para Aristóteles, é um caminho para a vida pública", prossegue Carlota. Cabe à
educação a formação do caráter do aluno. Perseguir a virtude significaria, em todas as
atitudes, buscar o "justo meio". A prudência e a sensatez se encontrariam no meio-termo, ou
medida justa - "o que não é demais nem muito pouco", nas palavras do filósofo.

Imitação era o princípio do aprendizado

Aristóteles não era, como Platão, um crítico da sociedade e da democracia de Atenas.


Ao contrário, considerava a família, como se constituía na época, o núcleo inicial da
organização das cidades e a primeira instância da educação das crianças. Atribuía, no
entanto, aos governantes e aos legisladores o dever de regular e vigiar o funcionamento das
famílias para garantir que as crianças crescessem com saúde e obrigações cívicas. Por isso, o
Estado deveria também ser o único responsável pelo ensino. Na escola, o princípio do
aprendizado seria a imitação. Segundo ele, os bons hábitos se formavam nas crianças pelo
exemplo dos adultos.
Quanto ao conteúdo dos estudos, Aristóteles via com desconfiança o saber "útil", uma vez
que cabia aos escravos exercer a maioria dos ofícios, considerados indignos dos homens
livres.

Fonte: ARISTÓTELES

 PLATÃO (427-347 a.C.)

Platão foi o segundo da tríade dos grandes filósofos clássicos, sucedendo Sócrates (c. 470-
399 a.C.) e precedendo Aristóteles (384-332 a.C.), que foi seu discípulo. Como Sócrates,
Platão rejeitava a educação que se praticava na Grécia em sua época e que estava a cargo
dos sofistas, incumbidos de transmitir conhecimentos técnicos, sobretudo a oratória, aos
jovens da elite para torná-los aptos a ocupar as funções públicas. Baseado na idéia de que os
cidadãos que têm o espírito cultivado fortalecem o Estado e que os melhores entre eles
serão os governantes, o filósofo defendia que toda educação era de responsabilidade estatal
— um princípio que só se difundiria no Ocidente muitos séculos depois. Igualmente
avançada, quase visionária, era a defesa da mesma instrução para meninos e meninas e do
acesso universal à educação.
Para pensar:

Platão acreditava que, por meio do conhecimento, seria possível controlar os instintos,
a ganância e a violência. Hoje poucos concordam com isso; a causa principal foram as
atrocidades cometidas pelos regimes totalitários do século 20, que prosperaram até em
países cultos e desenvolvidos, como a Alemanha.

Por outro lado, não há educação


consistente sem valores éticos. Você já refletiu sobre essas questões? Até que ponto
considera a educação um instrumento para a formação de homens sábios e virtuosos?

Fonte:
http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0180/aberto/pensadores.shtml

Abaixo acompanhe um quadro resumo sobre os principais educadores gregos:

EDUCADOR PRESSUPOSTO MÉTODO


Diálogo crítico, dividido em duas etapas: ironia e
SÓCRATES Autoconhecimento do educando.
maiêutica.
Dialético a partir de etapas precisas para o processo
PLATÃO Elevação do “espírito” do educando.
educacional.
Hábitos virtuosos e orientação Lógico, partindo da percepção do objeto, memorização
ARISTÓTELES
racional para os alunos. do percebido e inter-relação entre os mesmos.

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LEITURA COMPLEMENTAR

ACESSE O LINK
http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/monografias/Educacao_Grecia.pdf

E SAIBA MAIS SOBRE A EDUCAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA.

Na sua opinião, quais princípios educacionais da Grécia Antiga podem e devem ser
usados nos nossos dias?

A TRADIÇÃO ROMANA
Vamos refletir?

Nasce uma nova forma de educar: a educação prática dos romanos

A) Ideal formativo e organização da educação romana


Você já ouviu falar da Itália? Pois é, Roma ocupava a área que atualmente é conhecida
como Itália e muitas outras regiões da Europa. O mundo ocidental conserva atualmente muitos
traços da Roma Antiga:
-No direito (o direito romano é estudado até hoje nas faculdades de direito);

-Nas línguas latinas (o francês, o espanhol e o português são de origem latina e até o inglês tem
forte influencia do latim romano);

-Na organização da Igreja Católica (foi com a administração imperial que a nascente Igreja cristã
a prendeu a se organizar institucionalmente);

-Na política (o modo republicano de governar e suas instituições nasceram em Roma);

-Na economia (o sistema de cobrança de impostos romano serviu de base para a organização de
sistemas tributários ao longo da História).

Sobre o surgimento de Roma, temos duas versões: aquela do mito e aquela da História.
De acordo com a lenda, Roma teria sido fundada por Rômulo e Remo, gêmeos descendentes de
Enéias, herói da guerra de Tróia que, abandonados numa cesta no rio Tibre, foram encontrados e
criados por uma loba até serem resgatados por um casal de pastores. Já adultos, fundaram a
cidade por volta de 753 a.C. De acordo com as pesquisas históricas e arqueológicas, Roma foi
fundada na região do Lácio pelos latinos, povo que se estabeleceu às margens do rio Tibre numa
região já ocupada por diversos povos e governada pelos etruscos. Foram eles que governaram
os romanos no período monárquico, monarquia que corresponde ao primeiro período da
história romana e que termina justamente com a queda do último rei etrusco, Tarquínio, o
Soberbo.

Em 509 a.C., os patrícios, com o apoio da plebe, conseguiram destronar Tarquínio, o


Soberbo, implantando a República em Roma. A República é a grande resposta dos romanos à
centralização de poder dos monarcas. Ao invés de um só governante, os romanos criaram uma
forma de poder descentralizada e voltada para os interesses coletivos, a res publica, a coisa
pública. Os romanos passam a ser governados por dois cônsules eleitos pela Assembléia
Centuriata (formada pelas centúrias, grupos de cem homens do exército romano) e que
possuíam plenos poderes civis, militares e religiosos em tempos de paz. Em caso de guerra,
revoltas ou calamidades, os cônsules eram emergencialmente substituídos por um ditador, que
tinha no máximo seis meses para por ordem na casa.

De todas as transformações ocorridas na República, a que repercutiu de forma mais


profunda no futuro dos romanos foi a expansão territorial. De uma aldeia às margens do rio
Tibre, Roma se transformou num gigante territorial, com províncias que já alcançavam o norte
da África e a Palestina. Entretanto, as tensões resultantes dessa expansão acabaram por soterrar
de vez o regime consular e abrir caminho para a centralização de poder nas mãos dos
imperadores.

Após 180 d. C, Roma entrou num ciclo de violência que resultou do controle de Roma por
parte dos militares que deixaram de ser leais ao Estado e e perderam o perderam o respeito pela
população civil, promovendo saques, confisco de propriedades e execuções sumárias de seus
adversários. É também nesse período que se intensificam as chamadas “invasões bárbaras”

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http://br.monografias.com/trabalhos/baro/baro.shtml#as

Impulsionados pelo ataque de povos asiáticos ou atraídos pelas condições de vida


existentes nas terras do império, esses povos começaram a se estabelecer em território romano
e tirar proveito do caos generalizado que cada vez mais dominava o cenário romano.

A situação chegou a tão ponto que despertou nos romanos de todas as classes a
necessidade de reagir ao esfacelamento de Roma e de conservar as tradições latinas. Roma
estava perdendo sua identidade e era preciso reagir para salvar o que ainda fosse possível. A
medida mais radical foi a divisão do império em dois por Diocleciano. No século IV, o Imperador
Constantino transferiu a capital do Império Romano para a cidade oriental de Bizâncio, que
passou a ser chamada de Constantinopla.

Outra medida fundamental para o perfil da Europa após a queda de Roma foi o Edito de
Milão que em 313 que garantiu a liberdade religiosa, acabando com as perseguições aos
adeptos de outras religiões que não o credo oficial romano

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89dito_de_Mil%C3%A3o

Para os cristãos, isso significou o fim das perseguições. Para Roma, o apaziguar das
tensões entre a religião que mais crescia entre as classes mais baixas do império. Em 380 o
cristianismo se tornou a religião oficial do império graças a Teodódio I. Após sua morte em 395, a
divisão do império se consolidou mais ainda até que em 476 o último imperador do ocidente foi
deposto e chegou ao fim o maior império da História.
Vejamos a seguir aspectos da educação romana:

O espírito prático romano manifestava-se também na educação, que se inspirou, entre os


romanos, nos ideais práticos e sociais. Na história da educação romana podem-se distinguir três
fases principais: pré-helenista, helenista-republicana, helenista-imperial. O fim da educação é
prático-social: a formação do agricultor, do cidadão, do guerreiro.

A partir do contato com a civilização helênica, a educação romana sofreu uma profunda
modificação. Primeiro foram traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas e
depois, na medida em que o grego passou a ser ensinado para a elite romana, os autores
começaram a ser lidos no original, influenciando enormemente a literatura nacional romana. As
famílias da elite começaram a hospedar professores gregos em suas casas e foram criadas
escolas - ludi - de instituição privada sem ingerência alguma do Estado.

Essas escolas eram de dois graus: elementares, onde se aprendia a ler, escrever e calcular;
médias, onde se ensinava a língua latina e a grega, se estudavam os autores das duas literaturas,
através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. Um terceiro grau será, enfim,
constituído mediante as escolas de retórica, uma espécie de institutos universitários, que
surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática.

A partir do Império, o Estado apóia a criação e manutenção de escolas municipais de gramática e


de retórica nas províncias e são fundadas cátedras imperiais, especialmente de direito, nos
grandes institutos universitários. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e
a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos, um
instrumento de penetração e de expansão da língua e do jus romano, um meio, em suma, para o
engrandecimento do império.

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/direito.htm#A

No caso das mulheres, na sociedade romana, elas ocupavam uma posição de maior
dignidade que na Grécia. A mulher, quando casada, era a verdadeira dona da casa, em vez de
permanecer reclusa nos aposentos das mulheres. Ela tomava conta dos escravos e fazia as
refeições com o marido, podia sair de casa e era tratada com profundo respeito, tendo acesso ao
teatro e aos tribunais. O casamento, sancionado pela lei e pela religião, era nos tempos mais
antigos uma cerimônia solene, e resultava da transferência da mulher do controle do pai para o
de seu marido.

O casamento era então uma modalidade simbólica de compra com o consentimento da


noiva. Ele também podia consumar-se mediante o usus, se a mulher vivesse com o marido
durante um ano sem ausentar-se por mais de três noites.

Essa autonomia, entretanto, não se aplicava a questões educacionais, já que a educação


não era indistintamente disponível para homens e mulheres, embora as meninas precisassem
ser minimamente educadas para que pudessem educar seus filhos e filhas. Mais uma vez, o
progresso nas instituições de ensino não é tão acessível para as mulheres quanto para os
homens. Ao lado dos escravos e dos plebeus, a mulher permanecia alheia às inovações da
educação em Roma, sendo raríssimas aquelas que conseguiam romper as limitações do mundo
doméstico.

EDUCAÇÃO HERÓICO-PATRÍCIA

“os pais são os artífices de seus filhos, aqueles que lhes dão as bases”
MOST Apud MANACORDA, 1999, p. 73
A educação heróico-patrícia ocorreu nos primeiros anos da República e era voltada para as
pessoas mais ricas, ou seja, aos patrícios. Este tipo de educação tinha como objetivo maior

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 17


divulgar os valores da nobreza de sangue. A família era a instituição mais respeitada e dava
plenos poderes ao pai.

República - governo regido pelo interesse comum em conformidade com a lei.

O processo educativo estava mais preocupado com a formação jurídico-moral e física.


Era uma pedagogia da ação, para a vida cotidiana, tomando como base o amor a pátria e a
conscientização histórica.

EDUCAÇÃO DE INFLUÊNCIA GREGA

A República iniciou-se no século VI a.C., representando os interesses dos patrícios (únicos a


terem acesso aos cargos políticos). Mais ou menos no século V a.C. uma parcela dos plebeus
enriqueceu e passou a lutar por direitos políticos através da criação do Tribunato da Plebe e da
Lei das Doze Tábuas.

Tribunato da Plebe- grupo de dez pessoas que representavam os plebeus na política romana.
Lei das Doze Tábuas- código Jurídico baseado em velhos costumes e em novas leis plebéias.

A educação ficou mais complexa, as escolas cresceram em número e em qualidade. O ensino


tanto podia ser ministrado em grego como em latim e dividia-se em três graus de ensino,
vejamos na tabela abaixo uma síntese da educação desse período:

GRAU DE ENSINO CARACTERISTICAS DISCIPLINAS


Elementar ou ludi recebia alunos a partir dos 7 anos; disciplina
leitura, escrita, cálculo, canções.
magister muito rigorosa, castigos físicos constantes.
Médio ou começava aos 12 anos, disciplina um pouco gramática latina, literatura, geografia,
grammaticus menos rígida. aritmética, geometria e astronomia.
estudantes membros da elite econômica,
Superior política, direito e filosofia.
ensino voltado para a erudição.

Toda a educação desse período valorizava a educação física, sobretudo as artes marciais, com o
intuito de preparar os soldados.

EDUCAÇÃO NO IMPÉRIO

Durante o período imperial (27 a.C. a 476 d.C.) ocorreu uma enorme concentração de poder nas
mãos do imperador, as antigas instituições republicanas (Senado, Assembléia, etc.) tiveram seus
poderes limitados foi nessa época que ocorreu o expansionismo romano que acabou
proporcionando à Roma o controle de diversas regiões na Ásia, Europa e África.

O processo educativo desta época se distinguiu do anterior apenas pela maior organização e
converteu-se numa educação pública, com a criação das escolas municipais no século I a.C.
Vespasiano (Imperador Romano entre 69-74) libera os professores do ensino médio e superior
do pagamento de impostos.

Os Principais Educadores Romanos

Boa erudição para falar bem em público: o espírito dos educadores romanos

CÍCERO (106- 46 a.C.)

Marco Túlio Cícero, orador e político romano, defensor da idéia de que o direito individual está
acima do direito Estatal. Teve boa formação em literatura greco-latina e retórica, estudando com
os melhores mestres da época. Aprofundou-se no estudo das leis e das doutrinas filosóficas e
tornou-se um dos maiores legisladores em toda a Antigüidade.

Valorizava a fundamentação teórica e filosófica do discurso, apaixonado defensor da educação


integral, afirmava que o orador deveria ter erudição, conhecer a cultura geral, aprofundar-se na
formação jurídica, na argumentação filosófica e, conhecer e desenvolver habilidades literárias e
teatrais.
Seus textos não se ocupam apenas da filosofia, mas também de temas sociais.

Não só pela extensão, mas pela originalidade e variedade de sua obra, Cícero é considerado o
maior dos escritores romanos e o que mais influenciou os oradores modernos. Além de ser o
maior orador do seu tempo, foi também, o mestre das letras mais completo de toda a
Antigüidade ocidental.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 19


CONHEÇA MAIS SOBRE A INFLUÊNCIA DE CÍCERO NA EDUCAÇÃO ROMANA AQUI

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/2004/09/30/000.htm

QUINTILIANO (35-96)

Defensor da filosofia enquanto um instrumento para se conhecer a individualidade do aluno,


dizia que o ideal educacional da eloqüência associada à sabedoria, seria a fórmula perfeita para
educar uma pessoa.
Valorizava também a psicologia como instrumento para se conhecer a individualidade do
aluno. Pelo que pudemos ver até então, Quintiliano, não se prendia apenas às discussões
teóricas, pelo contrário, defendia o uso de técnicas de diversas ciências para a melhoria da
educação.

Por falar em melhoria educacional, um aspecto que não se pode esquecer é que ele também
defendia o lúdico no processo ensino-aprendizagem, dizendo que intercalando recreação com
as atividades didáticas, o ensino seria mais prazeroso.

Achava o estudo em grupo fundamental para o favorecimento da emulação (busca pelos


melhores postos na escola e na sociedade) e no estímulo intelectual dos alunos. Por outro lado
não esqueceu da formação intelectual vigorosa, pois para ele, o estudo da gramática devia
estimular nos alunos uma escrita clara e elegante.
CONHEÇA MAIS SOBRE A INFLUÊNCIA DE CÍCERO NA EDUCAÇÃO ROMANA AQUI

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno08-11.html

Compare a educação romana com a grega a partir do que foi visto nos textos acima e
responda: quais suas principais diferenças e qual deles, na sua opinião, era o mais
completo? Por quê?

TRADIÇÃO MEDIEVAL

O poder cultural da Igreja Católica se estabelece no mundo ocidental e vai marcar


profundamente a vida das pessoas.

Queda do Império Romano e as Bases do Cristianismo

Após a queda do Império Romano do Ocidente, a Europa mergulha na Idade Média, período
pejorativamente chamado de “Idade das Trevas”. Por que pejorativamente? Porque embora a
Idade Média tenha sido por séculos uma fase marcada pelo obscurantismo intelectual, artístico e
científico, as pesquisas históricas das últimas décadas demonstraram o quanto as inovações em
diversas áreas da atividade humana que se manifestaram com tanto vigor no Renascimento
foram gestadas no período medieval.

A Idade Média é resultante do encontro entre a cultura romana e a cultura dos chamados
“bárbaros”, tudo isso embasado pela força da religião cristã. Esse longo período, que vai da
queda de Roma em 476 até a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453, é
convencionalmente dividido em Alta Idade Média, do século V até o século XI e a Baixa Idade
Média, do século XII ao XV, também foi chamado de “noite de mil anos”. Entretanto, estudiosos
de diversas áreas contribuíram para a elaboração de novas perspectivas sobre o período
historiadores. Nada mais justo, visto que a Idade Média foi um momento intenso de germinação
da identidade européia. Afinal, é no período medieval que se desenvolve a Escolástica e a
Patrística, surgem as universidades, a burguesia e a Reforma Protestante. Muito para um período
de inatividade, não?

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 21


Patrística

"A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica"

Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às


autoridades romanas e ao povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da
doutrina cristã, a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser
impostos pela força. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um
trabalho de conquista espiritual.

Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos
sobre a fé e a revelação cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por
terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja.
Uma das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou
munir a fé de argumentos racionais. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o
pensamento pagão teve como principal expoente o Santo Agostinho.

"Compreender para crer, crer para compreender". (Santo Agostinho


FONTE: http://www.mundodosfilosofos.com.br/pencristao.htm#E

A ALTA IDADE MÉDIA

Na Alta Idade Média temos o apogeu do feudalismo, o sistema econômico e social que geriu a
vida dos medievos e consistia de características bem marcantes, tais como:

• Agricultura de subsistência;

• Auto-suficiência dos feudos;

• Sociedade hierarquizada;
• Quase inexistência de atividade comercial;

• Trabalho servil.

Ao final do Império Romano, a insegurança das cidades levou à fuga de famílias de patrícios para
os campos onde se refugiaram e suas vilas com seus escravos e seus protegidos. À medida que o
escravismo foi se tornando inviável, o regime do colonato foi a alternativa para manter a
atividade agrária. Os escravos e também os plebeus, agora transformados em colonos e logo
depois em servos, passaram a se constituir na mão-de-obra básica da nova economia.

Progressivamente, a relação entre o dono da terra e aquela que nela trabalha foi se tornando
cada vez mais regulada por leis que garantiam o direito do senhor e a exploração do servo. A
vilae transformou-se em feudo, propriedade fortificada dentro de cujas muralhas viviam,
produziam e morriam os medievos.

A Idade Média significou o apogeu da Igreja, a mais importante instituição medieval. O clero
detinha o poder psicológico, material e espiritual. Desde o final do Império Romano, quando o
cristianismo foi alçado à esfera de religião oficial de Roma e os cristãos começaram desvendar os
preâmbulos da organização administrativa romana, a Igreja cresceu em poder material ao
mesmo tempo em que preocupou-se em fortalece sua doutrina
para conquistar novos adeptos entre os novos donos do poder e resistir às criticas.

A estratégia deu certo: com a Patrística, a doutrina dos primeiros padres da Igreja, buscou-se
uma fundamentação mais densa e unitária para o cristianismo institucional, recorrendo à
filosofia grega e romana. Com um discurso coeso, a Igreja conquistou não apenas as classes mais
nobres quanto firmou alianças com os chefes germânicos e nórdicos que adentravam o
território antes dominado por Roma.

O Concílio de Nicéia teve importância capital para a institucionalização do cristianismo. É nesse


momento que nasce a Igreja Católica, definindo seus dogmas, princípios litúrgicos e organização
interna. Pode ser considerado como um ato de transformação do Cristianismo primitivo,
espontâneo e místico, numa religião estruturada, com uma casta sacerdotal hierarquicamente
definida.

Até o século V, a hierarquia da Igreja Católica se define: na base de tudo os padres e suas
paróquias. Diretamente acima, os bispos das províncias; os arcebispos das capitais provinciais; os
patriarcas, bispos das principais cidades do Império Romano (Roma, Alexandria, Constantinopla
e Jerusalém) até que em 455, frente a decadência do Império, o bispo de Roma, assume a chefia
da cristandade e se proclama papa com o nome de Leão I.

A BAIXA IDADE MÉDIA

A Baixa Idade Média corresponde ao período entre os séculos XII e meados do século XV nos
quais ocorreram inúmeras transformações no feudalismo:

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 23


• Renascimento do mundo urbano e o reaquecimento das atividades comerciais;

• O fim do trabalho servil com a crise do feudalismo causada por revoltas dos servos;

• O surgimento da burguesia nas cidades;

• A centralização política nas mãos dos monarcas em contraste com os senhores feudais;

• As crises da Igreja Católica, culminando com a Reforma Protestante no século XVI.

• As estradas mais seguras pela diminuição e/ou extinção das invasões levam à
urbanização e crescimento do comércio.

• Aumento demográfico pelo aumento da produção de alimentos.

A passagem do século X ao XI foi um momento de mudanças na Europa feudal. Com o fim das
invasões bárbaras, o mundo medieval conheceu um período de paz, segurança e
desenvolvimento e a primeira conseqüência foi o aumento da população ocasionado pelo fim
das guerras contra os bárbaros e pelo recuo das epidemias, gerando uma queda da mortalidade.
Além disso, ocorreu uma suavização do clima, proporcionando mais terras férteis e colheitas
abundantes.

Esse crescimento implicou maior demanda de alimentos, estimulando o aperfeiçoamento das


técnicas agrícolas para aumentar a produção, assim como novas terras foram ocupadas e
desbravadas. Além disso, ocorreu um fenômeno histórico novo para a Idade Média, o êxodo
rural, ou seja, parcelas consideráveis das populações rurais dirigiram-se para as cidades.

As cidades, portanto, começaram a crescer durante a Idade Média a partir do desenvolvimento


agrícola, que garantia o abastecimento, e das atividades de troca do excedente, ou seja, do
comércio.

O revigoramento do comércio transformou as villas, as cidades portuárias e as antigas regiões


das feiras comerciais, que se tornaram permanentes. Várias cidades desenvolveram-se junto dos
castelos e mosteiros fortificados, em razão da proteção proporcionada por seus muros.
Provavelmente surge daí a denominação burgo para as cidades, pois essa palavra significa
fortaleza e castelo (do latim burgo). Os que habitavam os burgos, exercendo atividades
comerciais e manufatureiras, constituíram um novo segmento social no sistema feudal,
conhecido como burguesia.
Como inicialmente as cidades eram patrocinadas pelos senhores feudais, os burgueses se
submetiam à sua autoridade. Todavia, com o crescimento do comércio e o fortalecimento da
burguesia, as cidades iniciaram movimentos de independência (movimentos comunais).

Obtida a liberdade, as cidades passavam a ser governadas pelos setores mais enriquecidos do
comércio e da manufatura, que organizavam seus setores e propiciavam o desenvolvimento
econômico dos centros urbanos.

Apesar de todas essas transformações, a sociedade na Baixa Idade Média continuava dividida em
nobres, clero e servo. Os burgueses só começavam a se constituir uma nova força na sociedade
medieval e a transformação que suas atividades causaria nesse mundo pouco a pouco
prenunciava as diversas mudanças que aconteceriam e mudariam para sempre a sociedade
européia.

Ideal formativo e organização da Educação Medieval

A EDUCAÇÃO NA IDADE MÉDIA

A educação na Idade Média é profundamente marcada pela presença da Igreja Católica.


Depositária do conhecimento e guardiã da herança greco-romana, a Igreja era grande
controladora da vida mental dos medievos e assim se deu com a educação.

Vejamos abaixo como se dava efetivamente essa influência analisando os tipos de escola na
Idade Média e também o surgimento das universidades:

ESCOLAS PAROQUIAIS

No quadro da cidade romana, cada comunidade cristã organiza-se tendo à sua cabeça um bispo
- episcopos, que quer dizer vigilante eleito pelos fiéis.

Com o número crescente de igrejas, os bispos localizam-se apenas nos centros mais
importantes, enquanto se desenvolve, nas outras cidades, o papel dos presbíteros – do grego
presbyteroi, os anciãos donde vem a palavra francesa “prêtre”, sacerdote. Foi nestas cidades que
surgiram as Escolas Paroquiais (ou Presbitérias).

As primeiras remontam ao século II. Limitavam-se à formação de eclesiásticos, sendo o ensino


ministrado por qualquer sacerdote encarregado de uma paróquia, que recebia em sua própria
casa os jovens rapazes. À medida que a nova religião se desenvolve, passa-se das casas privadas
às primeiras igrejas nas quais o altar substitui a tribuna. O ensino reduz-se aos salmos, às lições
das Escrituras, seguindo uma educação estritamente cristã.

Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/paroquiais.htm

ESCOLAS MONÁSTICAS E EPISCOPAIS

No século VI, S. Bento de Núrcia elabora, no Mosteiro de Monte Cassino, na Campânia (Itália), a
regra regula que tantos mosteiros viriam a adotar.

Esta regra recomenda que os monges permaneçam num mesmo lugar, façam voto de pobreza e
de castidade, prestem obediência ao abade do grego abbas, que significa pai pratiquem a
hospitalidade e a caridade para com os pobres, trabalhem manualmente de forma a garantir a
sua subsistência, rezem e,
mais importante do que tudo, se dedique ao estudo e ao ensino.

É nos mosteiros espalhados pela Europa, longe do rebuliço das novas cidades emergentes na

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 25


Europa, que surgem as Escolas Monásticas que visam, inicialmente, apenas a formação de
futuros monges. Funcionando de início apenas em regime de internato,
estas escolas abrem mais tarde escolas externas com o propósito da formação de leigos cultos
(filhos dos Reis e os servidores também).

O programa de ensino, de início, muito elementar - aprender a ler, escrever, conhecer a bíblia (se
possível de cor), canto e um pouco de aritmética - vai-se enriquecendo de forma a incluir o
ensino do latim, gramática, retórica e dialética.

Paulatinamente, nas cidades, começam a surgir as Escolas Episcopais que funcionam numa
dependência da habitação do bispo. Estas escolas visavam, em especial, a formação
do clero secular (parte do clero que tinha contato direto com a comunidade) e também de
leigos instruídos que assim eram preparados para defender a doutrina da Igreja na vida civil.

Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/episcopais.htm

ESCOLA PALATINA

Durante o reinado de Carlos Magno (768-814), a Europa experimentou um notável


desenvolvimento cultural que se tornou conhecido sob o nome de “Renascimento Carolíngio”.

Incrementando o número de escolas nos mosteiros, conventos e abadias, Carlos Magno criou
uma quase obrigatoriedade de fornecer instrução aos leigos por parte de uma Igreja.

Estas escolas deveriam ser presididas por um eclesiástico - scholasticus - dependente


diretamente do bispo, daí o nome de Escolástica dado à doutrina e à prática de ensino assim
veiculada.

Escolástica
"Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus".

No século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas
ligadas às instituições católicas. A cultura greco-romana, guardada nos mosteiros até então,
voltou a ser divulgada, passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. Era
a renascença carolíngia.

Tendo a educação romana como modelo, começaram a ser ensinadas as seguintes matérias:
gramática, retórica e dialética (o trivium) e geometria, aritmética, astronomia e música (o
quadrivium). Todas elas estavam, no entanto, submetidas à teologia.
A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção
filosófico-teológica denominada escolástica (de escola).

A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico,


marcando-o definitivamente. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles,
descobertas até então, e à tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego.

A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema


básico de especulação filosófica. Nesse sentido, o período escolástico pode ser dividido em três
fases:

Primeira fase - (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita
harmonia entre fé e razão.

Segunda fase - (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração
de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino.

Nesta fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida.

Terceira fase - (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica, caracterizada pela
afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão.

Fonte http://www.mundodosfilosofos.com.br/pencristao.htm#E

Carlos Magno funda ainda, junto da sua corte e no seu próprio palácio, a assim chamada Escola
Palatina que servirá de modelo a outras escolas que vão surgir, especialmente em França.

Para apoio do seu plano de desenvolvimento escolar, Carlos Magno chamou o monge inglês
Alcuíno. É sob a sua inspiração que, a partir do ano 787, foram emanados os decretos capitulares
para a organização das escolas e organizados os respectivos programas.

Estes incluíam as sete artes liberais, repartidas no trivium e no quadrivium. O trivium abraçava as
disciplinas formais: gramática, retórica, dialéctica, esta última desenvolvendo-se, mais tarde, na
filosofia; o quadrivium abraçava as disciplinas reais: aritmética, geometria, astronomia, música, e,
mais tarde, a medicina.

Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/palatinas.htm

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 27


Trivium Quadrivium
Estudo de gramática, retórica e dialética
Estudo de geometria, aritmética, astronomia e
corresponderia atualmente ao ensino
música, era considerada como uma categoria
médio era mais comum e de caráter mais
superior de ensino. Geralmente só a elite
popular, menos complexo que o
econômica tinha acesso ao mesmo.
quadrivium.

ESCOLAS CATEDRAIS

Se, até ao século XI, a vida intelectual era praticamente monopólio da Igreja, a partir do século
XII, inaugura-se uma nova fase. À margem da sociedade feudal, emerge um novo grupo social, a
burguesia, urbana, mercantil e manufatureira, dedicada às finanças, acumulando riquezas, poder
e importância cultural.

É com o seu apoio que se vai operar a renovação da idéia de escola, a sua abertura para além das
paredes dos mosteiros e abadias rurais.

O ensino literalmente deixa o campo e instala-se definitivamente nas cidades. As Escolas


Catedrais (escolas urbanas), saídas das antigas escolas episcopais (que alargaram o âmbito dos
seus estudos), tomaram a dianteira em relação às escolas dos mosteiros. Instituídas no século XI
por determinação do Concilio de Roma (1079), passam, a partir do século XII (Concilio de Latrão,
1179), a ser mantidas através da criação de benefícios para a remuneração dos mestres,
prosperando nesse mesmo século.

A actividade intelectual abre-se ao exterior, ainda que de forma lenta, absorvendo elementos
das culturas judaica, árabe e persa, redescobrindo os autores clássicos, como Aristóteles e, em
menor escala, Platão.

Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/catedrais.htm

Nascimento das Universidades (séc. XIII)

Fruto da intensificação da vida urbana, as Universidades tiveram como ponto de partida uma
estrutura análoga às corporações de ofício (chamadas de universitas). Gradualmente assume o
papel de centralizadora do conhecimento, fórum de debate e difusão de idéias. Sua história aos
poucos confunde-se com a própria história do pensamento, passando a assumir um virtual
monopólio.

Até século XII o ensino era monopolizado pela igreja. Aos poucos, este poder é delegado ao
chanceler, cujo poder diminui com o tempo. Com o crescimento do número de alunos, surge a
licença para lecionar (licencia docendi) delegada a cidadãos leigos.

A Universidade de Paris foi fundada 1170 a partir da escola da catedral de Notre Dame. Oxford,
no mesmo período. Em 1219, o chanceler perde poder sobre a Universidade de Paris, que se
torna independente do clero. Rebeliões a afastam também do poder real, e a Universidade
conquista novos privilégios, essenciais de sua identidade:
- autonomia jurisdicional

- direito de greve e de secessão

- monopólio da atribuição dos graus universitários

- Os estudos neste período seguiam a seguinte organização:

- Ensino de base: artes liberais [ver adiante]


(14 -20 anos)

- Bacharelado (duração de cerca de 2 anos)

- Doutoramento (idade mínima ao redor de 35 anos)

As sete artes liberais seguiam a estrutura de organização do conhecimento proposta pelo filósofo
romano Boécio (480-524 d.C.):

- Trivium (“três via”.): Lógica, Retórica e Gramática.


- Quadrivium (“quatro via”.): Aritmética, Geometria, Astronomia e Música

Existiam, como até hoje, exames para a obtenção de grau. O candidato era apresentado ao
Reitor, ao qual jurava obedecer os estatutos e não tentar corromper os examinadores. Na manhã
do exame, depois de ouvida a missa, o candidato comparecia diante de um colegiado de
doutores que lhe entregavam dois trechos de textos para comentar. Depois, retirava-se para
preparar a exposição que faria em lugar público (normalmente a Catedral), diante de um júri de
doutores. Depois do comentário exigido, respondia a perguntas dos doutores, que se retiravam
para deliberar, voltando em seguida para proclamar os resultados.

Em seguida, vinha o exame público. Conduzido com pompa a Catedral, o licenciado fazia um
discurso e lia uma tese sobre um assunto de Direito que defendia contra estudantes que o
atacavam, representando pela primeira vez o papel de mestre numa disputa universitária.
Aprovado, recebia as insígnias de sua função: um anel de ouro, um gorro simbólico etc. Parte do
cerimonial deste doutoramento subsiste na Universidade até os dias de hoje.

Após o exame, havia uma comemoração coletiva (às expensas do recém laureado), selando a
comunhão espiritual da corporação' universitária e simbolizando a admissão do novo membro
em seu meio, ritual originário das atuais “calouradas”. Com o surgimento de novas demandas
associadas à crescente vida urbana, as Universidades incorporaram certo grau de especialização
no programa, que se volta às diversas Faculdades (Direito, Medicina, Teologia etc).

A Universidade tornou-se polo criador de literatura científica especializada. Instituiu-se o


costume de publicar livros (copiados) chamados de exemplares que continham a matéria
ministrada (“apostilas”), copiadas à mão. Com o surgimento da imprensa, a divulgação de novos
trabalhos científicos se acelerou, diminuindo o tempo necessário para a difusão e o surgimento
de comentários, refutações e extensões desses trabalhos.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 29


Com a intensificação da vida urbana, o desenvolvimento laico e autônomo da Universidade e a
difusão de livros impressos, encontravam-se reunidas, no final da Idade Média, as condições para
a eclosão da uma rápida transformação cultural que seria o Renascimento.

Fonte: http://plato.if.usp.br/1-2003/fmt0405d/apostila/mediev11/node4.html

ESCOLAS SECULARES

Ao final da Idade Média, a burguesia se fortaleceu cada vez mais e começou a exigir uma
educação menos retórica e reflexiva. Era preciso dar aos mais jovens uma formação mais prática,
voltada pra necessidades cotidianas e não absolutamente embebida na teologia e filosofia. Ao
mesmo tempo, com a Reforma Protestante de 1517, essa mesma burguesia adere em massa ao
movimento dos reformados, o que impossibilita a permanência dos seus filhos nos colégios
católicos.

Daí surgem as escolas seculares, instituições que buscavam uma educação mais afinada com os
novos tempos. Nessas instituições o ensino das operações matemáticas, da escrita e da leitura
era reforçado, assim como de operações contábeis básicas, uma necessidade fundamental para
que esses jovens pudessem gerir futuramente os negócios de seus pais.

Com efeito, o desenvolvimento do comércio faz brotar novamente a necessidade de se aprender


a ler, escrever e calcular. Nessas escolas burguesas, acontece uma forte contestação à Igreja,
pois as mesmas se opunham ao ensino puramente religioso. Na verdade essas escolas queriam
uma proposta ativa, que atendesse aos interesses da classe burguesa.
Por volta do século XII a sociedade como um todo e em especial a educação medieval vão sofrer
mudanças, pois o modelo inicial do feudalismo não mais interessava aos comerciantes que
enriqueciam e muito menos aos reis. Isso ocasionou uma aliança entre os novos ricos
(burgueses) e a Coroa (reis).

E a situação das mulheres? Bom isso não variou muito, na época medieval a maior parte delas
continuou sem acesso à educação formal. Apesar de trabalharem arduamente ao lado do
marido, continuariam analfabetas. As meninas nobres aprendiam artes domésticas em seu
próprio castelo. Com o surgimento das escolas seculares, as meninas burguesas, começaram a
ter acesso à educação formal. Nos mosteiros (alunas internas) e nos educandários (alunas
externas) as meninas aprendiam a: ler, escrever, fazer artes da miniatura e a executarem cópias
de manuscritos

Durante a Idade Média, a força da Igreja Católica fez com que “clérigo” e “letrado” fossem
praticamente sinônimos. Quais foram as implicações para a sociedade medieval dessa
influência?

Agora é hora de trabalhar

1. Sócrates era defensor do diálogo, do contato direto com o outro como método educacional,
como podemos ler no texto “Sócrates, o mestre que desafiou o homem a se conhecer,
disponível no endereço
http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0179/aberto/pensadores.shtml

Além disso, considerava imprescindível que o homem conhece


a si mesmo para poder alcançar a plenitude do corpo e do espírito. De que forma a educação
contemporânea está em sintonia com as idéias de Sócrates?

2. “O Mito da Caverna narrado por Platão no livro VII do Republica é, talvez, uma das mais
poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, em qualquer tempo, para descrever a situação
geral em que se encontra a humanidade.” Dessa forma começa o texto “O mito da caverna”,
disponível em

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/caverna.htm e

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2006/05/17/000.htm

Você acha que a situação descrita por Platão Mito da


Caverna ainda pode ser encontrada nos dias de hoje? Exemplifique.

3. Ouça a música de Chico Buarque “Mulheres de Atenas”


no link

www.chico-buarque.letras.terra.com.br/letras/45150/ , leia o texto disponível em

http://www.revistamirabilia.com/Numeros/
Num1/mulher.html sobre a mulher grega e estabeleça
um quadro comparativo entre a vida das mulheres
gregas em Esparta e Atenas.

4. Compare a pedagogia de Quintiliano

http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno08-11.html e Cícero

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/2004/09/30/000.htm

e discuta sobre o ideal de cidadão romano que


cada um tinha em mente com suas idéias pedagógicas.

5. “Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior,


espiritual, ao seu vasto e vário império e, portanto, educar intelectual, moral e religiosamente os
povos bárbaros que o constituíam. Deste modo restauraria a civilização e a religião,
a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento.”

http://www.mundodosfilosofos.com.br/escolastica.htm#B

Analise historicamente o Renascimento Carolíngio


e destaque aquele que você considera o mais
importante avanço na área da educação.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 31


6. Leia o poema abaixo:

QUEM FAZ A HISTÓRIA

Quem construiu a Tebas das sete portas?


Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua
armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.
Bertolt Brecht
(1898-1956)

Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=128

Após a leitura, analise as rupturas e permanências


na educação das classes subalternas ao longo da
Antiguidade e da Idade Média.
A Educação do Mundo Renascentista à Contemporaneidade: em Busca do Racionalismo

No tema anterior, vimos que a educação estava voltada para valores do espírito e da religião. As
coisas iriam mudar: surgiu uma nova religião e nasce também uma nova visão de mundo.

TEMA 2 | O HUMANISMO CRISTÃO NO PROCESSO EDUCATIVO

A retomada dos valores greco-romanos acontece no período entre os séculos XV e X VI e é


denominado de RENASCIMENTO, que provoca um movimento conhecido como HUMANISMO.
Por conseguinte, nas primeiras décadas do século XVI, o movimento de Reforma Religiosa,
detona com toda a sua força, dando lugar a profundas mudanças político-religiosas.

O Renascimento foi uma nova visão de mundo estimulada pela burguesia em ascensão. Suas
principais características eram o racionalismo (em oposição à fé), o antropocentrismo (em
oposição ao teocentrismo) e o individualismo (em oposição ao coletivismo cristão).

O Humanismo foi um movimento intelectual que pregava a pesquisa, a crítica e a observação,


em oposição ao princípio da autoridade.

O Renascimento e o Humanismo nasceram na Itália, em função da riqueza das cidades italianas,


da presença de sábios bizantinos, da herança clássica da Antiga Roma e da difusão do mecenato.
A invenção da Imprensa contribuiu muito para a divulgação de novas idéias.

Principais figuras do Renascimento


Itália -- Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Giovanni Boccaccio, Nicolau Maquiavel, Leonardo da
Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo Buonarroti.

França -- François Rabelais, Michael de Montaigne.

Inglaterra -- Thomas Morus, William Shakespeare.

Holanda -- Erasmo de Rotterdam, Jan Van Eyck, Pieter Bruegel, Rembrandt.

Alemanha -- Albrecht Dürer, Hans Holbein.

Portugal -- Luís Vaz de Camões.

Espanha -- Miguel de Cervantes.

A pesquisa científica evoluiu muito no período graças, entre outros, a figuras como: Leonardo
da Vinci, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Johannes Kepler, André Vesálio, Miguel de
Servet e William Harvey.

http://www.brasilescola.com/historiag/renascimento.htm

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 33


A EDUCAÇÃO PROTESTANTE DE MARTINHO LUTERO
(1483-1546)

Alemão da região da Saxônia, se tornou mestre em Filosofia. Mais tarde, ingressou no convento
dos agostinianos, onde em 1507 ordenou-se sacerdote e posteriormente doutorou-se em
teologia.

O movimento de Reforma Religiosa inicia-se na Alemanha durante o século XVI e foi liderado por
Martinho Lutero. Esse movimento se estendeu não só pelo território alemão, mas por boa parte
da Europa central e do norte.

O século XVI foi marcado pela contestação dos dogmas católicos. Os reformistas passaram a
posicionar-se contrariamente à tradição e aos ensinamentos nos moldes tradicionais da Igreja,
pois alegavam que muitos deles iam de encontro à vontade divina. Martinho Lutero foi um dos
líderes que “protestou” contra a Igreja Católica na defesa dos interesses da classe burguesa e
conseguiu agregar um grande número de seguidores que formavam um grupo bastante
diversificado devido a motivos específicos:
- príncipes (queriam retomar terras doadas à Igreja);

- cavaleiros (queriam fugir do jugo dos príncipes);

- mercadores (queriam investir no espírito capitalista


de obtenção de lucro, o qual era combatido pela Igreja).

Em resumo, Lutero queria fazer da educação uma forma de contestação ao poderio da Igreja
Católica. Na sua opinião, a educação deveria ficar a cargo do Estado, pois só assim poderia
atingir um grande número de pessoas (ricos, pobres, mulheres).

Apesar do discurso ser igualitário, na prática a educação luterana não deixou de ser elitista, pois
defendia educação diferenciada para a classe trabalhadora (bem mais superficial) e para a elite
econômica (mais complexa e profunda).

A educação encontrou local privilegiado na Reforma por ser utilizada como um importante
mecanismo para a divulgação da nova religião protestante. Tanto que um dos primeiros
pressupostos da Reforma é oferecer iguais condições para todos os homens lerem e
interpretarem a Bíblia. Podemos perceber a quebra de paradigmas e a tentativa de
enfraquecimento do poder do clero.

No entanto, a primeira conseqüência desse movimento na área educacional foi a fundação da


educação pública moderna, medida que visava reagir contra o poderio da educação católica, já
que esta última se dedicava às escolas confessionais pagas. Vejamos a seguir as principais
propostas da Reforma Protestante para o campo educacional:

-Aspirava a implantação da escola primária para todos, para camponeses e artesãos;

-Defendia a educação pública e universal, sugerindo ainda que as autoridades de cada cidade
assumissem tal tarefa;
Condenava a aplicação de castigos físicos e critica a erudição e a ênfase na retórica da
Escolástica;

- Propunha uma educação mais moderna e pragmática, incluindo no currículo: exercícios físicos,
jogos e canto.

A reação de Roma foi imediata. A Contra Reforma, criou novas ordens religiosas para fazer
frente aos protestantes. Uma das mais importantes foi a Companhia de Jesus, cuja
influencia não só na concepção da escola tradicional européia como também na
constituição do homem brasileiro foram fundamentais para a história da educação.

http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/nova_pagina_109.htm

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 35


- Concilio de Trento (1545-1564);

- Fundação da Companhia de Jesus (1534);

- Restabelecimento do Tribunal da Inquisição (1538).

A EDUCAÇÃO JESUÍTICA

A Companhia de Jesus foi fundada por Inácio de Loyola (1491-1556) em 1534. Foi a mais
poderosa organização da Igreja católica durante muitos séculos e ainda na atualidade ocupa
posição de destaque no Vaticano.

Na educação, exerceu grande influência, pois substituiu a ação de outras instituições católicas
que entraram em decadência por conta da Reforma Protestante, a exemplo das escolas
monásticas e catedralícias. De certa forma foram os colégios e as universidades dos jesuítas
que, nesta época, vão ser os mecanismos mais importantes para conter a saída de fiéis do
catolicismo.

A educação dos jesuítas é regida pelo Ratio Studiorum. Assim era a organização no campo
educacional. Para começar existia uma forte hierarquia nos colégios: cada estabelecimento era
dirigido por um Reitor, auxiliado por um Prefeito de estudos, que era quem dirigia a instituição e
fiscalizava os professores. Geralmente, os colégios dividiam-se em duas alas:
• estudos inferiores; latim e grego, gramática e matemática;

• estudos superiores (de caráter teológico e diplomava em nível universitário.) teologia,


filosofia e retórica.

Ratio Studiorum - plano de estudos da Companhia de Jesus, aprovado em 1599, que ainda hoje
é o método ministrado nos colégios jesuítas.

Essa pedagogia vai reinar no Brasil Colônia por mais de 300 anos. O método de ensino consistia
no seguimento de alguns passos:

a) preleção;

b) explicação;

c) repetição;

d) composição.

A escola jesuítica enfatizava a, memorização e dava especial importância à retórica e à


redação, assim como à leitura dos clássicos e às artes cênicas. Entre os alunos a emulação e os
castigos físicos eram constantes, castigava-se ou premiava-se de acordo com a disciplina e o
rendimento escolar, o professor era considerado o detentor de todo o saber e o transmissor
absoluto dos conteúdos, cabendo aos alunos obedece-lo em todas as circunstâncias.

O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecuménico, convocado pelo
Papa Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica. A sua convocação surge
no contexto da reação da Igreja Católica à divisão que se vive na Europa do século XVI quanto à
apreciação da Reforma Protestante. O Concílio de Trento foi o mais longo da história da Igreja: é
chamado Concílio da Contra-Reforma. Emitiu numerosos decretos disciplinares. O concílio
especificou claramente as doutrinas católicas quanto à salvação, os sacramentos e o cânon
bíblico, em oposição aos protestantes e estandardizou a missa através da igreja católica,
abolindo largamente as variações locais. A nova missa estandardizada tornou-se conhecida
como a "Missa Tridentina", com base no nome da cidade de Trento, onde o concílio teve lugar.
Regula também as obrigações dos bispos e confirma a presença de Cristo na eucaristia. São
criados seminários como centros de formação sacerdotal e reconhece-se a superioridade do
papa sobre a assembléia conciliar. É instituído o índice de livros proibidos Index Librorum
Prohibitorum e reorganizada a Inquisição.
Celebrou-se em três períodos:

1º Período (1545-48 — Celebraram-se 10 sessões, promulgando-se os decretos sobre a Sagrada


Escritura e tradição, o pecado original, a justificação e os sacramentos em geral e vários decretos
de reforma;

2º Período (1551-52) — Celebraram-se 6 sessões, continuando a promulgar-se,


simultaneamente, decretos de reforma e doutrinais ainda sobre sacramentos em geral, a
eucaristia, a penitência, e a extrema-unção. A guerra entre Carlos V e os príncipes protestantes
constituiu um perigo para os padres de Trento;

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 37


3º Período (1562-63) — Convocado pelo Papa Pio IV, foi presidido pelos legados cardeais Ercole
Gonzaga, Seripando, Osio, Simonetta e Sittico. Estiveram ainda no concílio os cardeais Luís
Madruzzo, bispo de Trento e Carlos Guise. O Papa enviou os núncios Commendone e Delfino aos
príncipes protestantes do império reunidos em Naumburgo, e Martinengo à Inglaterra para
convidar os protestantes a virem ao concílio. Neste período realizaram-se 9 sessões, em que se
promulgaram importantes decretos doutrinais, mas sobretudo decretos eficazes para a reforma
da Igreja. Assinaram as suas actas 217 padres oriundos de 15 nações.
Os decretos tridentinos e os diplomas emanados do concílio, foram as principais fontes do
direito eclesiástico durante os 4 séculos seguintes até à promulgação do Código de Direito
Canónico em 1917.

Na história de Portugal, o concílio teve grande influência, quer pela participação e apoio dos reis,
quer pela influência que os seus decretos tiveram na vida eclesiástica e social do país.
No 1º período participaram o bispo do Porto, Frei Baltazar Limpo, carmelita, e os teólogos
dominicanos Frei Jerónimo de Azambuja, também embaixador régio, Frei Jorge de Santiago, e o
franciscano Frei Francisco da Conceição. Logo que o bispo do Porto regressou de Trento,
mandou D. João III que se reunisse com letrados para estudarem o modo de pôr em prática os
decretos da reforma.
No fim do 2º período D. João III e o cardeal D. Henrique constituíram assembléias de peritos para
porem em ação um grande plano de reforma, completando com os decretos do V Concílio
Laterense aqueles pontos ainda não promulgados em Trento.

No 3º período, D. Fernando Martins de Mascarenhas e o Dr. André Velho não só actuaram como
hábeis embaixadores, mas também se portaram como grandes senhores. D. Frei João Soares,
agostiniano, bispo de Coimbra, levou uma comitiva de umas 30 pessoas, sendo conhecido o seu
teólogo António Leitão. A caminho do concílio morreu o teólogo dominicano Fr. João Pinheiro,
vice-reitor da Universidade de Coimbra. Acérrimo executor do Concílio foi o arcebispo de Braga
Frei Bartolomeu dos Mártires, promulgando-o para Braga no sínodo bracarense e adaptando-o a
toda a metrópole no IV Concílio Provincial Bracarense de 1566.

obs: de acordo com alguns historiadores, o Concilio de Trento não CRIA a Companhia de jesus,
Index, nem a inquisição

http://enciclopedia.tiosam.com/enciclopedia/enciclopedia.asp?title=Conc%C3%ADlio_de_Trent
o

Ratio Studiorum - plano de estudos da Companhia de Jesus, aprovado em 1599, que ainda
hoje é o método ministrado nos colégios jesuítas.

Leitura Complementar

O plano de estudos (Ratio Studiorum): uma metodologia humanista católica


A recomendação de um Plano de Estudos já é feita pelas Constituições: deve incluir a
determinação dos horários de aula, sua ordem e métodos de execução; determinar os exercícios,
tanto de composição (que devem ser corrigidos pelo próprio mestre), como as disputas ou
debates públicos.

Tudo isto deve ser assunto de um tratado à parte, a ser aprovado pelo Superior Geral da
Companhia. Mas tanto o método quanto o conteúdo devem adaptar-se às exigências da época,
do local e das pessoas em questão, o que também é grande inovação.
Diante da rápida expansão da rede de escolas sob a direção da Companhia, tornou-se
absolutamente necessária a elaboração desse plano, pois em 1586 já havia 162 colégios, dos
quais 147 eram abertos a alunos externos.
Em termos históricos, o reitor do Colégio de Messina, Jerônimo Nadal (1507-74), já tinha
elaborado um Programa de Estudos - (Ordo Studiorum) em 1551, modelo seguido por outras
escolas da Companhia de Jesus.
No mesmo ano em que Nadal elaborou seu Programa, fundou-se uma escola livre de Gramática,
Humanidades e Doutrina Cristã, em Roma: o Colégio Romano, que servirá de inspiração e
instrumento de coordenação do ensino, de acordo com os crescentes esforços dos jesuítas que
visam primeiro conter e depois combater o aumento de influência da Reforma.

A primeira notícia da escola será promulgada sob o seguinte dístico: Scuola di gramática,
d'umanità e di dottril1a christíana, grátis (Escola de gramática, de ciências humanas e de doutrina
cristã).
Em 1584, Cláudio Aquaviva, quinto Geral da Companhia, inicia a preparação de um plano
definitivo para aplicação em todos os colégios sob direção da Sociedade de Jesus. Porém, este
só será promulgado sob forma definitiva, ou seja, como Plano e Instituição de Estudos da
Companhia de Jesus (Ratio Atque Instituto Studiorum Societatis Jesu), em 1599, depois de duas
versões experimentais.
Neste documento, regulamenta-se o governo do colégio, o conteúdo dos estudos e o
procedimento a se seguir no processo educativo, inclusive o comportamento dos professores e
dos alunos, como também a formação dos próprios professores.
Quanto ao conteúdo, este seguirá o programa do humanismo cristão. O instrumento para sua
implantação será o colégio, e o único método para sua realização será a tríplice metodologia,
que consiste na preleção, no conserto e na repetição.

A preleção consiste de quatro etapas sucessivas:


O mestre deve ler o texto inteiro, sem interrupções, a não ser que se trate de algum texto muito
comprido.
Deve explicar o assunto, situando-o dentro de um plano global.
Deve explicar o texto, frase por frase e palavra por palavra, numa linguagem compreensível aos
alunos, recorrendo, se for necessário, ao vernáculo.
Deve fazer observações sobre cada frase, ou seja, intercalar tais observações dentro da própria
explicação. Essas observações devem ser anotadas pelos alunos em cadernos.
A preleção é usada para o ensino de todas as matérias humanistas: a Gramática, a Literatura, a
Poesia, a História, e sob forma modificada, para a Matemática, a Retórica, a Filosofia e a Teologia.
Paralela à preleção, vem uma segunda técnica, a saber, o conserto (consertatio), com base na
etimologia ciceroniana, que estende o sentido de luta física para a luta verbal ou debate. Este
método é utilizado para o ensino de todas as disciplinas, com a finalidade de corrigir os erros.
Trata-se de incentivar a rivalidade honrosa, visando a melhoria intelectual.
Os dois métodos se completam com os exercícios por escrito. Estes devem ser corrigidos pelo
mestre e as correções reforçadas por repetições orais, com a finalidade de fortalecer a memória.
Preleção, conserto, exercícios e repetição constituem a técnica pedagógica comum a todas as
escolas dos jesuítas.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 39


Diante da importância que a Ratio atribui ao mestre, recomenda-se a criação de uma academia
dedicada à formação do mesmo.
Assim, a Ratio Studiorum é um documento que traduz a missão educativa da Companhia num
programa concreto e prático, um instrumento que será utilizado para estender a Contra-
Reforma no ensino para além das fronteiras da Espanha, de Portugal, da França, da Itália, da
Áustria, da Alemanha do sul, da Rússia, até as colônias espanholas e portuguesas no Novo
Mundo, na África e nas índias Orientais.
GILES, Thomas Ransom. História da Educação. In: ______ O humanismo cristão e o processo
educativo. São Paulo: EPU, 1987. p. 135-136.

O RENASCIMENTO E A EDUCAÇÃO MODERNA

Uma nova visão de mundo se estabelece: a educação do sujeito racional

O SURGIMENTO DA ESCOLA MODERNA

Imagine que você durante muitos anos vivesse preso em uma sala fechada, e agora tivesse a
oportunidade de viver em um campo aberto; provavelmente a sensação seria muito boa e as
possibilidades de experimentar coisas emocionantes também.

Essa analogia serve para explicar como o homem renascentista se sentia na área do
conhecimento; agora eles tinham um campo aberto para correr, investigar e chegar as suas
conclusões, sem o medo imposto pelos dogmas religiosos.

A retomada dos valores greco-romanos acontece no período entre os séculos XV e XVI e é


denominado de Renascimento. O humanismo renascentista alimenta o movimento de Reforma
Religiosa, dando lugar a profundas mudanças político-religiosas.

Essa nova maneira de encarar a doutrina religiosa auxiliou a evolução das ciências humanas.
Esse procedimento representa o Humanismo que se expressava a partir da tendência ao
antropocentrismo.

A partir do Renascimento, o espírito religioso medieval começou a cair, seu prestígio diminuiu, a
Igreja perdeu a sua função de explicar o mundo dos homens. Assim, o próprio homem
procurava explicar a realidade que o cercava, desenvolvendo o pensar crítico que substitui uma
visão direcionada pela impossibilidade da indagação.

Esse procedimento representa a tendência ao antropocentrismo isto é, o resgate da dimensão


humana sob todos os aspectos. Um deles é entender o sujeito do conhecimento, questão
predominante na Idade Moderna. René Descartes, Francis Bacon, John Locke, David Hume,
dentre outros, são filósofos que discutem a teoria do conhecimento e ocupam-se com o
problema do método, isto é, com os procedimentos da razão na investigação de uma
determinada realidade.

Através da ciência moderna foram se constituindo uma nova teoria da mente, uma nova visão
do saber e uma nova imagem do mundo que causariam uma mudança radical no âmbito da
educação.
Hoje em dia é bastante comum nos perguntarmos qual o método utilizado por tal professor?
Sua didática é boa? Isso começou a se construir na idade moderna, ou seja, a ação científica e
pedagógica passou a contar com opções diferenciadas do modelo tradicional. Passaram então,
os pedagogos a se interessarem, cada vez mais, pelo método e realismo em educação.

A pedagogia moderna começa a exigir uma didática, que possa partir da compreensão das
coisas. Os educadores leigos (quando o educador não pertence mais ao clero nem a uma ordem
religiosa. Por isso chamado de educadores leigo ou laico) e religiosos se empenham na
organização da escola.

A escola moderna propunha o seguinte: descobrir uma forma de ensinar mais acelerada e mais
segura.

Humanismo - procura de uma imagem do homem e da cultura, em contraposição às


concepções predominantemente teológicas da Idade Média e ao espírito autoritário delas
decorrentes.

Antropocentrismo - resgate da dimensão humana em todos os seus aspectos, “ o Homem


como medida de todas as coisas”.

Apesar disso, a maioria das instituições educativas ainda permaneciam tradicionais, embora
assumissem uma nova feição.

Homem Vitruviano (Leonardo da Vinci)

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 41


Vejamos algumas das principais características da educação moderna:

- ênfase na formação moral;

-renovação do pensamento educativo;

- novos métodos de teorização;

- uso de línguas modernas;

- revalorização da educação física.

Essa pedagogia moderna contrariava a educação Antiga/Medieval, excessivamente formal,


retórica e conteudista. Ela preferia usar o rigor das ciências naturais (física, biologia, etc.) a
permanecer na tendência literária e estética própria do humanismo renascentista.

PRINCIPAIS EDUCADORES DA MODERNIDADE

João Amós Comênio (1592-1670)

O nome Comênio é o aportuguesamento da assinatura latina (Comenius) de Jan Amos


Komensky, nascido em 1592 em Nivnice, Morávia, então domínio dos Habsburgos, hoje
República Tcheca. Conseguiu superar o pessimismo antropológico que marcou a Idade Média e
vai propor um sistema articulado de ensino, reconhecendo o igual direito de todos os homens
ao saber.

O maior educador e pedagogo do século XVII produziu uma obra fecunda e sistemática, cujo
principal livro é Didática Magna. Destacou-se pela ousadia de suas propostas, é considerado por
muitos estudiosos como um revolucionário da educação,mas apesar disso ainda se utilizava de
algumas técnicas clássicas de ensino tais como o ensinamento religioso católico e da Ética.
Para ele o processo educativo teria as seguintes fases: Escola Materna cultivaria os sentidos e
ensinaria a criança a falar; a Escola Elementar desenvolveria a língua materna, a leitura e a escrita,
incentivando a imaginação e memória, além do canto, das ciências sociais e da aritmética. A
Escola latina se destinaria, sobretudo ao estudo das ciências.

Para os Estudos Universitários recomendava trabalhos práticos e viagens. Aí se formariam os


guias espirituais e os funcionários. À Academia só deveriam ter acesso os mais capazes.

Assim, Comênio deseja ensinar "tudo a todos". Atingir o ideal de uma educação ideal.

Principais propostas de Comênio para a educação:

• educação realista e permanente;

• método pedagógico rápido econômico e sem fadiga;

• ensinamento a partir de experiências cotidianas;

• conhecimento de todas as ciências e de todas as artes;

• ensino unificado. Segundo ele, seriam assim distribuídas.

Com a Boêmia derrotada na Guerra dos Trinta Anos, o imperador Fernando reprime o
protestantismo com a máxima força e devolve todas as escolas dos grupos de dissidentes à
autoridade da Igreja Católica, mormente aos jesuítas. Diante dessa realidade, em 1627 Comenius
refugia-se na Polônia onde, com um grupo de correligionários, assume as funções de pastor e
reitor de uma escola de Latim, até 1641, quando viaja para a Inglaterra. Ali divulga suas novas
teorias sobre o processo educativo.
É nestas circunstâncias que elabora sua maior obra pedagógica, Didaktica (A Didática). Publicada
em tcheco entre 1627 e 1632 e depois traduzida para o Latim, resulta em seu reconhecimento e
fama universais. Será elaborada de novo entre 1633 e 1638, sob o título Didatica Magna (A
Grande Didática). Esta versão será publicada em Amsterdã em 1657, numa edição latina das suas
obras sobre a educação.
Para Comenius, existe uma unidade fundamental que subtende toda a experiência humana. A
realidade do mundo da percepção é axiomática, indubitável; o único problema consiste em
interpretar essa realidade.

O desacordo entre os homens, especificamente sobre a compreensão da natureza por parte dos
estudiosos, tem por resultado as mais trágicas conseqüências.
Ausente tal discórdia, como também a violência social e política, tudo correria bem. Uma vez
que essa falta de harmonia é resultado da compreensão faltosa, é preciso procurar soluções
através do processo educativo, pois só este poderá levar o aluno a uma progressiva iluminação,
mostrando-lhe a ordem intrínseca da realidade.
Entretanto, faltava tudo para a realização desse ideal: um projeto de estudos adequado, um
método que levasse em devida conta a revolução científica, sobretudo o empirismo de Bacon e

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 43


graduados textos didáticos. Enfim, faltava tudo o que pudesse tornar o processo educativo
atraente para as crianças.

A primeira etapa empreendida por Comenius para remediar essa situação foi a publicação do
primeiro de uma série de textos pedagógicos, Janua Linguarum Reserata (A Porta das Línguas
Abertas, introdução ao estudo do Latim e de qualquer outra língua. O livro se tornou tão popular
que se espalhou por toda a Europa e foi publicado em todas as principais línguas do continente.
A idéia fundamental da obra é que o pensamento e a linguagem se complementam. Nesse
contexto, Comenius elabora o Vestibulum (O Vestíbulo), livro de leitura elementar, composto de
427 frases curtas, tais como "Deus é eterno, a terra é apenas temporal"; "Os anjos são imortais, o
homem é mortal"; "O corpo é visível, a alma é invisível".
Em Escola da Infância, escrito em tcheco em 1630 e publicado em alemão em 1633, Comenius
elabora um método a ser seguido pelos pais, de modo especial pela mãe, para iniciar a educação
da criança nos primeiros anos de vida.

Este método consiste em exigir que a criança observe determinada realidade para depois repetir
a palavra apropriada. Considerando que conceitos abstratos e generalizações são verdades
evidentes por si, estes se alcançam por intuição lógica.
O conhecimento adequado do mundo depende da experiência pessoal, do cultivo dos sentidos
e da correlação acertada entre linguagem e experiência.
Em 1634-6, Comenius esboça o projeto em que elabora e justifica a idéia da unidade do
universo, quando afirma que a reforma da escola e da aprendizagem em geral é o instrumento
imprescindível para a realização dessa utopia. O título inicial desse ensaio é Pansophiae
Prodromos (Intimações de uma Ciência Universal), mais tarde modificado para A Reforma das
Escolas.

Comenius entende que não há divisões na natureza, pois a classificação é um artifício, uma
invenção que violenta a continuidade orgânica que pauta o mundo real. Uma vez que o mundo
é um só, também o conhecimento é um só. Alcançar o conhecimento é alcançar uma visão
unificada da existência, corpórea e espiritual, e assim o homem atinge seu fim natural. Nestas
condições, reinarão necessariamente a harmonia e a paz, eliminando-se a ignorância e o mal.
Esta concepção, sob o nome de "pansofismo", atraiu reformadores e estadistas de toda a Europa.
É este o ideal que Comenius elabora na Didaktika e depois na Didactica Magna, em que
apresenta a primeira sistemática dos seus projetos educacionais e prevê a reforma de toda a
civilização.

Indubitavelmente, este foi o tratado educacional mais importante do século. Nele, Comenius
apresenta um método que servirá para ensinar a qualquer criança, com rapidez e
agradavelmente, a soma de todo o conhecimento. Ao mesmo tempo, transmitirá aquelas
qualidades de caráter que são relevantes para este mundo e para o mundo vindouro. Trata-se de
um método baseado na maturação da mente da criança e nos princípios que governam a
evolução da mente humana. Estes princípios devem substituir a estrutura formal, lógica, por
uma configuração psicológica. Esta permitirá que a aprendizagem e o ensino progridam juntos
naturalmente, pois ambos derivam da percepção sensorial. Esta, por sua vez, integrar-se-á numa
série de conceitos cada vez mais abstratos e complexos. Por outro lado, corresponde, a cada
nível, um conjunto de categorias lingüísticas, desde simples substantivos até proposições
complexas. Compete ao educador identificar e colocar ordem nessas categorias.
A criança é dotada de potencialidades de capacitação para o desenvolvimento, pois tudo se
encontra naquele microcosmo que é o homem. Portanto, desde o nascimento até a maturidade,
cada pessoa deve seguir as leis do desenvolvimento interior, através de uma seqüência pautada
pelo crescente aumento na acuidade da percepção, por lima melhoria nas capacitações físicas te
mataras, como, igualmente, pela competência lingüística.
Todo o crescimento humano segue determinados padrões, distribuídos por etapas: a primeira
infância, a criança, o jovem, o adulto. Em cada etapa se desenvolvem padrões de
comportamento correspondentes.
GILES, Thomas Ransom. História da Educação. In: ______ A tradição moderna. São Paulo: EPU,
1987. p. 152-154.

John Locke (1632-1704)

Inglês que criticava em sua teoria pedagógica o racionalismo de Descartes, desenvolve uma
concepção da mente infantil e da educação. Para ele a finalidade da educação se concentrava no
caráter, muito mais importante que a formação intelectual. Enfim, propõe o tríplice
desenvolvimento: físico, moral e intelectual. Segundo Locke, devia-se evitar a escola, onde a
criança pudesse ser bem acompanhada ou vigiada.

A partir de seus estudos para desenvolver a individualidade humana, ele marcou o início do
Iluminismo que via na Razão o fio condutor do homem. Dessa forma a base de sua doutrina
educacional era a renúncia dos desejos se assim a razão não justificasse.

Locke valorizava:

• a educação física;
• o estudo da contabilidade e escrituração comercial;
• as línguas modernas e o cálculo.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 45


Ao contrário de Comênio, Locke não defendia a universalização da educação, sua pedagogia era
elitista, pois a formação dos que irá governar e daqueles que serão governados devia ser
distinta.

Com efeito, no século XVII, o empenho é imenso na tentativa de institucionalizar a escola.


Efetivamente, o direito do ensino ainda pertence à Companhia de Jesus, que adentra o século
XVIII com mais de 600 colégios distribuídos pelo mundo. Mesmo sendo organizados e
competentes, os jesuítas representam o ensino tradicional mais conservador.

Para Locke, a educação é um valor que todo cavalheiro deve desejar para seus filhos. Porém, não
se trata de limitar o aluno ao conhecimento livresco.
Diferente dos humanistas, Locke insiste em que a virtude, principal objetivo do processo
educativo, não depende tão-somente de um sistema de educação baseado em conceitos
religiosos, pois a virtude pode ser ensinada através de um sistema de educação secular e cívico.
Essencial para o cultivo da virtude é a consciência das tendências naturais da criança. Porém, há
limites no alcance da educação em termos de modificar essas tendências, pois Deus imprimiu
certos caracteres na mente do aluno. Estes, como também suas formas físicas, podem receber
algumas emendas, mas não podem ser totalmente alterados e transformados.
Locke distingue-se também dos seus contemporâneos quando insiste que a criança tem a
capacidade de raciocinar. Esboça uma teoria da evolução da capacidade de apreensão da
criança.
Quanto à disciplina, esta deve ser forte, a ponto de levar o aluno, a abnegar os próprios desejos,
a contrariar as próprias inclinações, para poder seguir aquilo que a razão dita, mesmo quando os
desejos atraem em sentido contrário. A criança deve habituar-se a essa disciplina através da
prática.
Em termos do programa de estudos, Locke propõe, além da alfabetização, a História e a Ciência,
e insiste sobretudo no valor do vernáculo. Também insiste que o menino se familiarize com
várias profissões e que aprenda ao menos uma profissão manual, de preferência, duas ou três.
Locke recomenda, no entanto, que o menino seja instruído em casa, sob as orientações de um
tutor, evitando portanto a escola, pois a qualidade desta é péssima, além de expor o menino ao
vício.
As idéias de Locke espalham-se pela Inglaterra, Escócia e França, onde tiveram incalculável
influência.
GILES, Thomas Ransom. História da Educação. In: ______ O Iluminismo. São Paulo: EPU, 1987. p.
175.

O ILUMINISMO E O PROCESSO EDUCATIVO

E surgem as luzes do conhecimento ocidental, será que realmente iluminava-se a vida das
pessoas de maneira igual?

A ORGANIZAÇÃO EDUCACIONAL
Os séculos XVI e XVII assistiram ao fortalecimento de uma nova classe social: a burguesia, cujos
interesses se opunham frontalmente ao modo de produção feudal. No final do século XVIII, a
educação começa a dar sinais de um direcionamento para a cidadania, mas era bastante
evidente ainda as diferenças de classe nessa educação: a classe dirigente receberia instrução
para governar e a classe trabalhadora seria educada o bastante para trabalhar, em outras
palavras o sistema educacional ainda não era democrático.

Essa escola em nível de infra-estrutura já começava a se parecer com as escolas que conhecemos
na atualidade: vão estar divididas em classes de pessoas mais ou menos da mesma faixa etária,
vai dispor as carteiras dos alunos em filas, vai contar com prédios próprios para a prática
pedagógica, as aulas vão ser ministradas por profissional qualificado e vai estar submetida a um
sistema nacional de ensino público.

A Organização Educacional

Apesar dos progressos evidentes que discutimos no conteúdo anterior com relação ao processo
educativo, é bom salientar que os mesmos ainda são limitados, pois não existia ainda um plano
global ou mesmo uma teoria educacional que realmente merecesse ser chamada de avançada.

Os movimentos de reforma educacional eram isolados e dependiam de grupos de voluntários


ou mesmo de pessoas que aspiravam objetivos bem limitados e sem perspectivas mais
abrangentes. Por conseguinte, na segunda metade do século XVIII, muitos desses esforços não
oficiais (que não eram do Governo) entraram em decadência.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 47


E quem eram as pessoas que tinham acesso a esse sistema de ensino? Infelizmente "as luzes"
não conseguiam mudar ainda a realidade dos mais pobres, assim o sistema educacional estava
fundamentado numa estrutura rígida de classes sociais, ou seja os mais ricos é que estudavam
mais, tanto em qualidade como em quantidade.

Mas as rápidas transformações intelectuais, econômicas, sociais e políticas no Ocidente


solicitavam novas perspectivas no processo educativo e o movimento Iluminista nesse sentido
ajudou na reação da sociedade contra o autoritarismo religioso e político e, em menor escala,
contra as diferenças sociais. No núcleo desse movimento encontra-se uma fé inabalável na
ciência, na razão humana e no próprio homem.

PRINCIPAIS EDUCADORES DO ILUMINISMO

A Pedagogia de Rousseau

O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nasceu em Genebra, na Suíça e inaugurou uma


nova era na História da Educação, pois resgata a associação fundamental entre educação e
política. A base de sua teoria é a análise dos fatores que fazem nascer a desigualdade entre os
homens e vai concluir que esta não é algo natural, mas sim fruto da propriedade privada.

Nesse sentido para ele o que regulava a igualdade entre as pessoas era o Contrato Social ou seja
a forma como os homens se organizavam socialmente.

Para ele o contrato social verdadeiro e legítimo seria o resultado de uma convenção entre todos,
de um consentimento amplo e justo que buscasse diminuir as desigualdades entre os seres
humanos.

Acreditava no princípio de que apenas através do processo educativo, o homem poderia


recobrar o “estado natural” Suas principais obras são: Discurso sobre a origem da desigualdade
entre os homens, Do contrato social, e Emílio ou Da educação (1762).
Comumente se costuma dizer que Rousseau foi um revolucionário na pedagogia, já que
delineou um método liberal de educação com a finalidade de desenvolver a criança sem destruir
seu estado “natural”. O núcleo central dos interesses pedagógicos passa a ser a criança e não
mais o professor. Também, ressalta a especificidade da criança, que não deve ser encarada como
um adulto em miniatura.

Logo abaixo elencamos as principais propostas da pedagogia de Rousseau:

-homem deve ser educado para si mesmo e não mais para Deus ou para a vida social;
-educação afastada do artificialismo das convenções sociais, espontânea original;
-recusa o intelectualismo;
-valoriza os sentidos, as emoções, os instintos e os sentimentos;
-valoriza a experiência, o ensino ativo voltado para a vida, para a ação;
-teme a educação que põe a criança em contato com os vícios e a hipocrisia.
-Reflexos do pensamento de Rousseau no processo educativo

O pensamento de Rousseau, tanto no campo da política como no do processo educativo, teve


impacto profundo não só na Europa mas também no Novo Mundo. Elaborou suas teorias numa
época de fermentação intelectual e, mais do que qualquer outro pensador, formulou uma teoria
do processo educativo de acordo com os ideais do Iluminismo.
A reação e hostilidade manifestaram-se de imediato, e Emílio foi condenado pela Faculdade de
Teologia da Universidade de Paris.
O jesuíta francês Giacinto Gerdil publica uma refutação das idéias de Rousseau, em 1765, sob o
título Reflexões Sobre a Educação, Relativas tanto à Teoria como à Prática, em que alguns dos
Princípios que o Senhor Rousseau tenta Estabelecer em seu Emílio são Examinados e Refutados.
O autor argumenta que as verdades profundas estão além do alcance da mente juvenil e,
portanto, devem ser aceitas na base da fé, ou seja, confiando na autoridade.
Historicamente, esta reação coincide com a supressão da Companhia de Jesus, cujos colégios
são entregues a outras congregações ou a comissões seculares.
As idéias de Rousseau espalham-se por toda parte na Europa. Na Prússia, Christian Salmann
traduz as teorias de Rousseau na prática institucional, mas esta foi obra realizada sobretudo por
Johann Bernhard Basedow (1724-90).
O interesse de Basedow pelos problemas de educação inicia-se pela leitura de Emílio. É
conseqüente a esse contato com as idéias de Rousseau que Basedow propõe um manual para os
pais, em que estes podem seguir metodicamente as idéias de Rousseau, a saber, Metodenbuch
für Väter und Müt­ter der Familien und Völker (Livro Metódico para Pais e Mães de Famílias e
Nações). A resposta foi das mais entusiasmadas e tornou o manual famoso, sob o título Das
Elementarwerk (O Livro Elementar), livro de conselhos para os pais e livro de leitura elementar
para crianças. Este mostra também as influências de Comenius.
Ao mesmo tempo, Basedow é convidado pelo príncipe Franz Leopold de Anhalt-Dessau,
pequeno principado da Prússia, para fundar uma escola em Dessau. Devido à demora de
Basedow em iniciar a construção, pois estava preocupado com a publicação da sua obra, o
príncipe perde interesse. Todavia, mesmo sem o apoio do príncipe, Basedow abre a escola em
1774, e aceita alunos de famílias abastadas, mas também de famílias de operários, financiados

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 49


por benfeitores. A escola era conhecida como Philanthropinum, ou seja, o lugar do amor
humano.
O programa de estudos consistia no Alemão, Matemática, Ciências Naturais, História e Geografia.
Ensinava-se o Latim como segunda língua, pois esta continuava a ser o veículo de comunicação
internacional entre os estudiosos. Mas também, de acordo com os ideais de Rousseau,
acrescentam-se o artesanato, excursões naturais e mesmo um acampamento de verão. A escola
conta com um laboratório para o estudo de Ciências Naturais que dispõe de coleções, seguindo
o modelo de museu.
Quanto à metodologia, segue-se o preceito rousseauniano, conforme o qual a seqüência é de
primeira importância. Sobretudo, espera-se o momento certo para ensinar, ou seja, o momento
em que o aluno se encontra em condições de aprender. Insiste-se também em que o aluno deve
querer aprender e que, para fomentar este interesse, o professor deve fazer de tudo para que a
aula seja interessante e agradável. Assim, elimina-se a necessidade da coerção e do castigo. O
método de Ba­sedow depende muito de jogos, da competição e do envolvimento ativo do
aluno no processo educativo. Diminui­-se, portanto, a importância dada à memorização.
O êxito da escola foi tão enorme que, em 1776, Basedow abre a escola ao público para mostrar a
eficácia dos métodos ali utilizados e atrai visitantes de toda a Europa.
Devido a conflitos pessoais entre Basedow, políticos e professores, o Philantropinum entra em
declínio.
Todavia, já havia outras escolas seguindo o modelo rousseauniano, não só na Alemanha, mas
também na Suíça.
As idéias de Rousseau chegam até a Rússia, onde a tzarina Caterina II (r. 1762-96), adepta do
pensamento dos filósofos, introduz o Iluminismo em São Petersburgo. O primeiro objetivo de
Caterina era a reforma do processo educativo. A tzarina conseguiu estabelecer duas escolas
conforme os princípios de Rousseau, os Institutos de Smolny e de Novodevitch, embora os ideais
rousseaunianos fossem um tanto modificados.
Porém, a reação adversa também assumiu forma violenta, pois em 1764 Emílio e O Contrato
Social foram colocados no índice dos livros proibidos e as autoridades eclesiásticas mandaram
que fossem queimados.
Entretanto, as próprias refutações serviram para espalhar suas idéias, pois continham resumos
do seu pensamento.
O ideal dos direitos do homem, o ideal de um novo mundo moral e a importância do processo
educativo para a criação deste mundo espalham-se pela Europa afora e chegam até as Américas.
GILES, Thomas Ransom. História da Educação. In: ______ O Iluminismo. São Paulo: EPU, 1987. p.
182-183.
A Pedagogia de Kant

Immanuel Kant (1724-1804), maior representante do Iluminismo alemão, realizou em suas obras
a análise das possibilidades do conhecimento da razão humana situando os limites e as
condições nas quais a razão pode conhecer o mundo.

Kant confere à educação uma importância que se encontra fundamentada nas obras mais
clássicas, a Crítica da razão pura, na qual desenvolve a crítica do conhecimento, e a Crítica da
razão prática, que faz o exame da moralidade.

O problema do conhecimento humano é uma das mais importantes questões que dominam o
pensamento de Kant.

Ele fundamentou a moral na autonomia da razão humana, isto é, na idéia de que as normas
morais devem brotar da razão humana.
Segundo ele, ao desenvolver a faculdade da razão, constituiríamos o caráter moral. Na medida
em que a criança começa a crescer, o processo de formação deve tornar-se mais formal e incluir:

- a paciência;
- a disciplina;
- o cultivo das dimensões cognitivas e morais.

É o progresso sistemático desse desenvolvimento controlado da criança em processo de


maturação que Kant procura se dedicar.

A disciplina deve inculcar-se a partir dos cinco ou seis anos de idade.

O impacto de Kant sobre o processo educativo foi profundo, tanto que no século XX serão
reexaminados por vários autores na área da moral e da educação, entre eles estão Piaget e
Habermas.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 51


Ele retoma o debate entre os racionalistas e os empiristas. Condena os empiristas, segundo os
quais tudo o que conhecemos vem dos sentidos, e discorda dos racionalistas, para os quais tudo
o que pensamos vem de nós.

Segundo ele, o conhecimento é uma súmula dos conteúdos particulares dados pela experiência
e da estrutura da razão. O conhecimento acontece na relação sujeito e objeto.

Em suas investigações defende:

• A não probabilidade de conhecermos realidades que não passam pelo conhecimento sensível;
• Não ser possível dizer nada sobre a alma humana e sobre Deus, pois eles superam a nossa
capacidade de entendimento, e mesmo o nossa racionalidade;
• Ser impossível provar a existência de Deus.

O principal problema do processo educativo consiste em conciliar a submissão ao livre-arbítrio


da criança. Para ele é nos primeiros anos da infância que a criança encontrasse na fase pré-moral.
Assim sendo, não há necessidade de inculcar-lhe a moral.
Influenciado, por um lado, pelo racionalismo de Descartes, Spinoza e Wolff, ao afirmar o poder
da razão humana, ao mesmo tempo afirma a tradição do empirismo britânico, sobretudo de
Hume, que o acordou, segundo ele mesmo, do seu sonho dogmático, ou seja, da aceitação sem
provas da capacidade da razão de funcionar como o racionalismo o pretendia. Hume representa
um desafio a tal pressuposto, dando direção diferente ao campo da filosofia especulativa, para
Kant e para a posteridade.
Quanto à moral, elemento fundamental no pensamento de Kant, o Iluminismo o tocou
profundamente com a idéia de uma moral secular, junto com um problema levantado com toda
a agressividade por Rousseau, a saber, o papel desempenhado pelas emoções no conhecimento
humano.

[...]

Há uma lei moral que nos obriga a cumprir os deveres da nossa humanidade, sobretudo o
respeito pela humanidade em nossa própria pessoa, como também no outro, nunca utilizando e
tampouco permitindo que os outros nos utilizem para qualquer fim.
É dentro desse quadro que Kant elabora sua teoria da educação. As influências de Rousseau são
evidentes, sobretudo as idéias sobre o processo educativo expostas em Emílio.
Para o seminário sobre a Pedagogia, que dirige em 1776-7, Kant adota o livro de Basedow, Livro
Elementar, e intitula o seminário, Pedagogia Sobre o Livro Elementar de Basedow.
O texto desse seminário será publicado em 1803 pelo assistente de Kant, Theodor Rink.
Para Kant, trata-se de dar maior coerência filosófica às idéias de Rousseau, através de uma
apresentação mais lógica e não tanto psicológica.
O mais fundamental problema do processo educativo consiste em harmonizar a submissão às
necessárias restrições e à capacidade e ao livre-arbítrio da criança.
O termo "pedagogia" refere-se à intervenção controlada por parte do professor (pedagogo) no
processo educativo.

Kant está de acordo com a teoria orgânica da natureza da criança, mas procura outro caminho
mais ordenado e orientado para seu desenvolvimento. Ele argumenta que, uma vez que a
natureza funciona de acordo com objetivos, é necessário segui-la.
Nos primeiros anos da infância, a criança encontra-se na fase pré-moral. Portanto, deve-se evitar
qualquer esforço de inculcar-lhe a moral.
Porém, na medida em que a criança amadurece, o processo de formação deve tornar-se mais
formal. Este deve incluir a paciência, a disciplina e o cultivo das dimensões cognitivas e morais.
Todavia, Kant opõe-se à disciplina negativa, proposta por Rousseau, pois afirma que quando se
manda a criança para a escola, não é tanto para que aprenda algo, mas sim para que se
acostume a ficar quieta e seguir ordens. É assim que a criança aprende a não querer pôr
imediatamente em prática tudo o que passa pela sua cabeça. Portanto, trata-se de formar a
criança para aprender a disciplinar e controlar os impulsos, e mesmo adiar objetivos válidos e
honestos.

É à evolução sistemática desse desenvolvimento controlado da criança em processo de


maturação que Kant se dedica. A disciplina deve inculcar-se a partir dos cinco ou seis anos de
idade.

Dentro dessa perspectiva, mais uma vez Kant se distancia de Rousseau, pois apregoa o
continuado controle sobre às experiências da criança, porém continua dentro da tradição
rousseauniana, na medida em que aceita as etapas naturais da evolução dela. A criança brota

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 53


como a flor, pois a natureza colocou nela diversas sementes. Seu desenvolvimento é apenas
uma questão de as cultivar, mas também a planta deve ser podada e moldada pela educação de
maneira a influir no processo de maturação. Portanto, o desenvolvimento orgânico deve ser
corrigido, o que se faz através da devida aplicação da disciplina. Esta deve restringir a natureza
animal. Porém, deve ser seguida pela transmissão de informações e instrução, o que por sua vez
leva ao desenvolvimento da discreção. Esta se manifesta pela boa conduta social e o
comportamento refinado, o que se demonstra através das boas maneiras e da cortesia.
Entretanto, muito mais importante é o mais alto objetivo do processo educativo, ou seja, a
formação moral. Uma vez que não existe uma natureza moral a priori, ou preestabelecida, a
educação moral é uma necessidade absoluta.
A criança recém-nascida é moralmente neutra, o que leva Kant a recomendar o cuidadoso
exercício do cultivo da formação moral. Portanto, Kant rejeita a posição de Rousseau, que
pressupõe a natural bondade da criança. Este exige a remoção de todos os constrangimentos,
através da educação negativa, para deixar a personalidade natural brotar.
Kant insiste na importância da predisposição, por parte da criança, para desenvolver a bondade
moral. Entende-se que a Providência implantou em cada uma essa tendência, ou seja, no
homem há sementes de bondade. Estas desenvolver-se-ão auxiliadas pelo processo educativo.
Quanto ao cultivo da razão, Kant segue o método socrático complementado pela prática e
recomenda, como texto didático, a obra de Comenius, O Mundo em Desenhos (Orbis Sensualium
Pictus) e O Livro Elementar (Das Elementarwerk), de Basedow.
Porém, trata-se também de formular um programa de estudos, integrando, unindo teoria e
prática na medida do possível, de tal maneira que a regra e sua aplicação acompanhem-se, lado
a lado, para desenvolver a compreensão.
O treino e a disciplina são necessários para desenvolver predisposições em direção ao
crescimento moral. Todavia, Kant opõe-se ao castigo direto, pois este, de acordo com Rousseau,
deve resultar de certa lei da necessidade; é esta necessidade que deve levar a criança a
obedecer.
O principal objetivo do processo educativo é um mundo moral e socialmente regenerado. Kant
expressa seu pensamento a este respeito, quando afirma que a boa educação é a fonte de todo
o bem no mundo e levará à renovação, em termos do ideal do Iluminismo, isto é, à
perfectibilidade do homem.
No processo educativo está implicado o segredo da perfeição da natureza humana e, dentro do
otimismo característico do Iluminismo, Kant afirma que, pela primeira vez, a sociedade começa a
julgar acertado e a entender claramente em que consiste a boa educação. Através da educação,
a natureza humana melhorará continuamente e será levada à única condição digna da natureza
do homem.
Porém, trata-se da perfectibilidade do homem através dos seus próprios esforços, pois Kant não
mostra nenhum interesse pela religião, enquanto elemento do processo educativo. É o próprio
homem quem carrega o peso da sua perfeição.
Todavia, a educação e a instrução não devem tornar-se um simples processo mecânico, mas sim
devem fundamentar-se em princípios pedagógicos sólidos, inclusive na experimentação.
Quanto à escola, instituição rejeitada por Rousseau a favor do sistema tutorial, para Kant, ela é
indispensável como meio de inculcar e cultivar a responsabilidade moral. Porém, na realidade,
só há uma escola, o Philantropinum, de Basedow, que Kant aceita como modelo. Quanto às
demais, embora seus diretores possam ser bem intencionados, todas elas são estragadas pela
base, pois militam contra a natureza. A única maneira de esperar a salvação para a raça humana
através das escolas é reformá-las todas, radicalmente.
O impacto de Kant sobre o processo educativo foi profundo, sobretudo nas terras germânicas.
Os objetivos desse processo, tais como foram apregoados por Kant, a saber, a moralidade e a
virtude, dominaram quase totalmente a teoria educacional.
GILES, Thomas Ransom. História da Educação. In: ______ O Iluminismo. São Paulo: EPU, 1987. p.
185-188

Agora é hora de trabalhar

1. Reflita sobre os dois movimentos: a Reforma e a Contra-Reforma. Compare a proposta


educacional de Lutero com a Companhia de Jesus, destacando as semelhanças e as
diferenças entre as mesmas e fazendo uma relação com a educação atual.

2. Por que durante os séculos XVI e XVII a religião influenciou de maneira efetiva os rumos
da educação, inclusive no Brasil? Explique e justifique sua reflexão.

Depois de estudar a educação protestante e a jesuítica você poderia enumerar algumas


características educacionais desta época que ainda estão presentes na educação da
sociedade atual?

1. “Ensinar tudo a todos”, esse era um dos lemas de Comênio, explique em que medida a
proposta dele se mostrava inovadora para a época. Mas, antes mesmo de refletirmos
sobre esse lema, devemos primeiro nos questionar o que ele quer dizer com “tudo a
todos”.

2. Reflitam sobre esse fragmento se posicionando e fazendo relação com a educação atual
“Locke recomenda, no entanto, que o menino seja instruído em casa, sob as orientações
de um tutor, evitando portanto a escola, pois a qualidade desta é péssima, além de expor
o menino ao vício” (GILES, 1987, p. 175)
.
3. Diante da reflexão anterior é possível colocarmos em prática esse pensamento de Locke,
nos dias atuais? E como seria a funcionabilidade dessa idéia?

Você já conseguiu identificar qual é importância de se estudar História da Educação?

1. Reflita sobre esse fragmento de Rousseau, posicionando-se e fazendo relação com a


educação atual. “Quanto à metodologia, segue-se o preceito rousseauniano, conforme o
qual a seqüência é de primeira importância. Sobretudo, espera-se o momento certo para
ensinar, ou seja, o momento em que o aluno se encontra em condições de aprender.
Insiste-se também em que o aluno deve querer aprender e que, para fomentar este
interesse, o professor deve fazer de tudo para que a aula seja interessante e agradável.
Assim, elimina-se a necessidade da coerção e do castigo”. (GILES, 1987, p. 182).

2. Reflita sobre a proposta educacional de Rousseau fazendo uma relação com o que você
pensa como sendo uma educação ideal.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 55


Na sua opinião, Rousseau pode ser considerado um revolucionário na história da
pedagogia?

1. Reflita sobre as propostas educacionais de Kant e proponha a partir das idéias dele um
novo direcionamento para a educação.

2. Faça uma relação sobre a educação de Rousseau e Kant, pontuando os pontos comuns e
as divergências. E partindo dessas divergências, proponha um novo caminho para a
educação.

Por que no mundo atual é tão complicado ter uma vida moralmente positiva?

BLOCO 2| FILOSOFIA E EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA

CONSCIÊNCIA

Neste segundo bloco temático, procuraremos aguçar a reflexão, essa que deve ser uma das
habilidades mais apuradas dos educadores. Passemos então a discutir o assunto.

TEMA 3 | FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

Pensar de maneira organizada e racional numa sociedade capitalista e globalizada como a nossa
é algo que se torna cada vez mais difícil. Neste tema, convido você para tentar elaborar um
plano de ação que permita orientar nossos pensamentos de maneira mais segura.

O QUE É FILOSOFIA E PARA QUE SERVE?

O educador para se nortear na sua prática, deve, antes de mais nada, ter uma visão da totalidade
humana e a filosofia é muito importante nesse processo.

AFINAL, PARA QUE FILOSOFIA?

É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para
que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para
que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura,
música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?

Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de
Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou
seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre
distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e
que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o
direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.
Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das
ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.

Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das
obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser
valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a
Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma.

Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As
ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos
de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos;
pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.

Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da
verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como
aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos
e aperfeiçoados.

Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e
prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas.

O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca
respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o
cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o
senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.

Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria
para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos
filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a
Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica.

Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que
ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia),
mas o ensinamento moral ou ético.

A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a
vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e
paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres
humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver.

Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral
ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendo suas perguntas
desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que
é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres,
racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 57


um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas?

Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade,


nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto
da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica
permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.

Extraído de: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Para ler o texto na íntegra acesse:


http://br.geocities.com/mcrost02/convite_a_filosofia_01.htm

ENTENDENDO A ORIGEM E O CONCEITO

Filosofia é uma palavra de origem grega (philos=amigo; sophia=sabedoria), designando a


amizade ou amor pelo saber. Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (século VI a.C.) a
invenção da palavra filosofia. Pitágoras acreditava que a sabedoria plena pertencia aos deuses e
que nós mortais poderíamos apenas amá-la e desejá-la, assim o homem não seria um “sábio”
(sophos, em grego), expressão que julgou imprópria e presunçosa, e sim um “filósofo”, um
“devotado à sabedoria”.

É bem verdade que a análise etimológica da palavra Filosofia, não representa o conceito de
Filosofia. O que faz com que a pergunta “O que é Filosofia?” continue em aberto... Segundo
Maura Iglesias “se perguntarmos a dez físicos ‘o que é física’, eles responderão provavelmente,
de maneira parecida. O mesmo se passará, provavelmente, se perguntar a dez químicos ‘o que é
química’. Mas, se perguntarmos a dez filósofos ‘o que é filosofia’, ouso dizer que três ficarão em
silêncio, três darão respostas pela tangente, e as respostas dos outros quatro vão ser tão
desencontradas que só mesmo outro filósofo para entender que o silêncio de uns e as respostas
dos outros são todas abordagens possíveis à questão proposta”. De fato existe uma
impossibilidade de consenso a respeito da definição de Filosofia, afinal conceituar Filosofia, já
seria uma atitude anti-filosófica, pois ao invés de convidar ao debate isto simplesmente
encerraria a questão.

A proposta é que as ”respostas, ou tentativas de respostas”, jamais esgotem a questão, “que


permanece assim com sua força de questão, a convidar outras respostas e outras abordagens
possíveis”. (IGLÉSIAS,1998, p. 12).

A Filosofia na verdade traduz o pensar, o sentir e o agir da vida humana na sua mais alta
expressão (LUCKESI, 2000), ela não é de maneira nenhuma algo morto e, que não serve para
nada e nem pura abstração vazia de sentido. Pode-se afirmar que os filósofos, refletem
também sobre o cotidiano dos seres humanos e podem organizar um quadro coerente e
organizado para o entendimento da realidade que nos cerca.
Filosofia- surgiu procurando desenvolver o logos (saber racional) em contraste com o mito
(saber alegórico). Ela é um corpo de conhecimento, constituído a partir do esforço do ser
humano para compreender o mundo e dar-lhe um significado compreensivo [...] é um
instrumento de ação.
LUCKESI, 2000, p.22.

A filosofia clássica Antiga pode ser dividida em três grandes etapas:

Período Pré-socrático
(sécs. VII e VI a.C.);

Sobre os pré-socrático acesse:

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/socrates/presocraticos.htm

Período Socrático ou clássico


(sécs. V e IV a.C.);

Após o período pré-socrático seguiu-se uma nova fase filosófica, caracterizada pelo interesse no
próprio homem e nas relações do homem com a sociedade. O Período socrático ou
antropológico, (final do século V e todo o século IV a.C.) foi marcado pelo desenvolvimento das
cidades gregas, do comércio, do artesanato e das artes militares.

Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da Grécia, vivendo o Século de
Péricles, seu período de esplendor e florescimento da democracia.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 59


Qualidades como oratória e capacidade de argumentação, exposição e defesa das idéias passam
a ser extremamente valorizadas, num regime que afirmava a igualdade de todos os homens
adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da polis.

Devemos observar, entretanto, que estavam excluídos da cidadania o que os gregos chamavam
de dependentes: mulheres, escravos, crianças e velhos, além dos estrangeiros. Foi neste
contexto que surgiram os sofistas, filósofos que ensinavam aos homens jovens como discutir e
defender as suas próprias idéias.

SÓCRATES

Sócrates nasceu em Atenas, provavelmente no ano de 470 AC, e tornou-se um dos principais
pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que Sócrates fundou o que conhecemos hoje
por filosofia ocidental. Não se sabe ao certo quem foram seus professores de Filosofia. Embora,
pelo que se supõe, não tenha sido discípulo de nenhuma escola filosófica específica, Sócrates
certamente sabia de sua existência e compreendia o alcance de suas doutrinas.
Sócrates não deixou nada escrito; o que conhecemos sobre seus pensamentos e idéias é através
das obras de seus discípulos, pricipalmente Platão e Xenofontes.

Seus primeiros estudos e pensamentos discorrem sobre a essência da natureza da alma


humana. Enquanto os filósofos pré-Socráticos, chamados de naturalistas, procuravam responder
à questões do tipo: "O que é a natureza ou o fundamento último das coisas?" Sócrates, por sua
vez, procurava responder à questão: "O que é a natureza ou a realidade última do homem?"

Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia, pois defendia algumas idéias
contrárias ao funcionamento da sociedade grega. Criticou muitos aspectos da cultura grega,
afirmando que muitas tradições, crenças religiosas e costumes não ajudavam no
desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos.

Em função de suas idéias inovadoras para a sociedade, começa a atrair a atenção de muitos
jovens atenienses. Suas qualidades de orador e sua inteligência, também colaboraram para o
aumento de sua popularidade.

Temendo algum tipo de mudança na sociedade, a elite mais conservadora de Atenas começa a
encarar Sócrates como um inimigo público e um agitador em potencial. Foi preso, acusado de
pretender subverter a ordem social, corromper a juventude e provocar mudanças na religião
grega. Em sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta, em 399
AC.

O método socrático, como desde antigamente se observou, tinha um pouco das qualidades das
profissões de seus pais (seu pai era escultor e sua mãe, parteira). Sócrates não impunha o
conhecimento, mas à maneira da profissão materna, ajudava para que ele viesse à tona de
dentro do discípulo, que o produzia por si mesmo. Sua arte de dialogar, conhecida como
maiêutica, provocava aquilo que ficou conhecido como "a parturição das idéias". Por outro lado,
sua intenção era a formação autônoma da pessoa. Era converter, à maneira da profissão paterna,
uma massa natural e sem forma em uma bela representação individual do espírito. Daí resultava
que o conhecimento primordial do homem deve ser o conhecimento de si mesmo.
Leitura Complementar

A ARTE DO DIÁLOGO

O ponto central de toda a atuação de Sócrates como filósofo estava no fato de que ele não
queria propriamente ensinar as pessoas. Para tanto, em suas conversas, Sócrates dava a
impressão de ele próprio querer aprender com seu interlocutor. Ao “ensinar”, ele não assumia a
posição de um professor tradicional. Ao contrário, ele dialogava, discutia.

Mas Sócrates não teria se tornado um filósofo famoso se apenas tivesse prestado atenção ao que
os outros diziam. E é claro que também não teria sido condenado à morte por causa disso.
Geralmente, no começo de uma conversa, Sócrates só fazia perguntas, como se não soubesse de
nada. Durante a conversa, freqüentemente conseguia levar seu interlocutor a ver os pontos
fracos de suas próprias reflexões. Uma vez pressionado contra a parede, o interlocutor acabava
reconhecendo o que estava certo e o que estava errado.

Dizem que a mãe de Sócrates era parteira, e o próprio Sócrates costumava comparar a atividade
que exercia com a de uma parteira. Não é a parteira quem dá à luz o bebê. Ela só fica por perto
para ajudar durante o parto. Sócrates achava, portanto, que sua tarefa era ajudar as pessoas a
“parir” uma opinião própria, mais acertada, pois o verdadeiro conhecimento tem de vir de
dentro e não pode ser obtido “espremendo-se” os outros. Só o conhecimento que vem de
dentro é capaz de revelar o verdadeiro discernimento.

Deixe-me explicar melhor: a capacidade de dar à luz é uma característica natural. Da mesma
forma, todas as pessoas podem entender as verdades filosóficas, bastando para isto usar a sua
razão. Quando uma pessoa “toma juízo”, ela simplesmente traz para fora algo que já está dentro
de si.

E justamente porque fingia que não sabia de nada, Sócrates forçava as pessoas a usar a razão.
Sócrates era capaz de se fingir ignorante, ou de mostrar-se mais tolo do que realmente era.
Chamamos a isto de ironia socrática. Foi assim que ele conseguiu expor as fraquezas do
pensamento dos atenienses. E isto podia acontecer bem no meio da praça do mercado, no meio
de toda a gente. Um encontro com Sócrates podia significar expor-se ao ridículo, ao riso do
grande público.

Não é de espantar, portanto, que ele incomodasse e irritasse muitas pessoas, sobretudo os que
detinham poder na sociedade. Sócrates dizia que Atenas era como uma égua preguiçosa e ele
um mosquito que lhe picava o flanco para mostrar-lhe que ela ainda estava viva.

In: GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Cia. das Letras, São Paulo: 1998. p. 80-81.

Para saber mais acesse: http://www.mundodosfilosofos.com.br/socrates.htm

PLATÃO

Platão (c. 427 - 347 a.C.) foi o segundo da tríade dos grandes filósofos clássicos, sucedendo
Sócrates e precedendo Aristóteles, que foi seu discípulo. Como Sócrates, Platão rejeitava a
educação que se praticava na Grécia em sua época e que estava a cargo dos sofistas, incumbidos

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 61


de transmitir conhecimentos técnicos, sobretudo a oratória, aos jovens da elite para torná-los
aptos a ocupar as funções públicas. Platão, ao contrário, pensava em termos de uma busca
continuada da virtude, da justiça e da verdade.

Para Platão, "toda virtude é conhecimento". Ao homem virtuoso, segundo ele, é dado conhecer
o bem e o belo. A busca da virtude deve prosseguir pela vida inteira.

Platão tornou-se aprendiz de Sócrates por volta dos vinte anos. Descobre nele e sua dialética um
prazer, e se torna um "amante da sabedoria". Acompanhou de perto todos os passos do
julgamento de seu mestre, e o seu fim trágico marcou-o profundamente, deixando seqüelas
para o resto de sua vida. Depois da morte por envenenamento de Sócrates, desiludiu-se de vez
com a democracia ateniense e partiu em peregrinação pelo mundo.

Ao voltar para Atenas, passa a administrar e comandar a Academia, destinando mais energia no
estudo e na pesquisa em diversas áreas do conhecimento: ciências, matemática, retórica (arte de
falar em público), além da filosofia. Suas obras mais importantes e conhecidas são: Apologia de
Sócrates, em que valoriza os pensamentos do mestre; O Banquete, fala sobre o amor de uma
forma dialética; e A República, em que analisa a política grega, a ética, o funcionamento das
cidades, a cidadania e questões sobre a imortalidade da alma.

O projeto filosófico de Platão é baseado no seu interesse pelo que é eterno e imutável tanto no
que se refere à natureza, quanto à moral e à sociedade. Platão acreditava numa realidade
autônoma por trás do mundo dos sentidos a qual denominou de mundo das idéias que, a seu
ver, continha as coisas primordiais e imagens padrão referentes a tudo existente.

Para ele, todas as coisas que existiam eram efêmeras como uma bolha de sabão e, deste modo,
nada podia ser verdadeiramente conhecido. O que se percebe e o que se sente nos dá opiniões
incertas e só é possível possuir conhecimento seguro sobre algo através da razão.

Platão acreditava na dualidade humana: o homem possui um corpo (que flui) e uma alma
imortal (a morada da razão). Ele também achava que a alma já existia antes de vir habitar nosso
corpo (ela ficava no mundo das idéias) e que quando passava a habitá-lo, esquecia-se das idéias
perfeitas. Também pensava que a alma desejava se libertar do homem e isso propiciava um
anseio, uma saudade, que chamou de Eros (amor).

Mais sobre Platão: http://br.geocities.com/mcrost08/o_mundo_de_sofia_09.htm

ARISTÓTELES

Aristóteles (384-322 a.C.) foi aluno da Academia de Platão. Era natural da Macedônia e filho de
um médico famoso. Seu projeto filosófico está no interesse da natureza viva. Ele foi o último
grande filósofo grego e também o primeiro grande biólogo da Europa. Utilizava-se da razão e
também dos sentidos em seus estudos. Criou uma linguagem técnica usada ainda hoje pela
ciência e formulou sua própria filosofia natural.

Aristóteles discordava em alguns pontos de Platão. Não acreditava que existisse um mundo das
idéias abrangedor de tudo existente; achava que a realidade está no que percebemos e
sentimos com os sentidos, que todas as nossas idéias e pensamentos tinham entrado em nossa
consciência através do que víamos e ouvíamos e que o homem possuía uma razão inata, mas
não idéias inatas.
Para Atistóteles, tudo na natureza possuía a probabilidade de se concretizar numa realidade que
lhe fosse inerente. Assim, uma pedra de granito poderia se transformar numa estátua desde que
um escultor se dispusesse a escupi-la. Da mesma forma, de um ovo de galinha jamais poderia
nascer um ganso, pois essa característica não lhe é inerente.

Aristóteles acreditava que na natureza havia uma relação de causa e efeito e também acreditava
na causa da finalidade. Deste modo, não queria saber apenas o porquê das coisas, mas também
a intenção, o propósito e a finalidade que estavam por trás delas. Para ele, quando
reconhecemos as coisas, as ordenamos em diferentes grupos ou categorias e tudo na natureza
pertence a grupos e subgrupos. Ele foi um organizador e um homem extremamente meticuloso.

Também fundou a ciência da lógica.


Aristóteles dividia as coisas em inanimadas (precisavam de agentes externos para se
transformar) e criaturas vivas (possuem dentro de si a potencialidade de transformação). Achava
que o homem estava acima de plantas e animais porque, além de crescer e de se alimentar, de
possuir sentimentos e capacidade de locomoção, tinha a razão. Também acreditava numa força
impulsora ou Deus (a causa primordial de todas as coisas).

Sobre a ética, Aristóteles pregava a moderação para que se pudesse ter uma vida equilibrada e
harmônica. Achava que a felicidade real era a integração de três fatores: prazer, ser cidadão livre
e responsável e viver como pesquisador e filósofo. Cria também que devemos ser corajosos e
generosos, sem aumentar ou diminuir a dosagem desses dois itens. Aristóteles chamava o
homem de ser político. Citava formas de governo consideradas boas como a monarquia, a
aristocracia e a democracia. Acreditava que sem a sociedade ao nosso redor não éramos pessoas
no verdadeiro sentido do termo.

Disponível em:
http://www.ime.usp.br/~cesar/projects/lowtech/mundodesofia/aristoteles.html

Período Pós-socrático
(sécs. III e II a.C.)

Trata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis grega desapareceu como centro
político, deixando de ser referência principal dos filósofos, uma vez que a Grécia encontra-se
primeiro sob o domínio da Macedônia e depois do poderio do Império Romano. Os filósofos
dizem, agora, que o mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo. Em grego, mundo se diz
cosmos e esse período é chamado o da Filosofia cosmopolita, onde os valores gregos mesclam-
se com as mais diversas tradições culturais.

Essa época da Filosofia é constituída por grandes sistemas ou doutrinas, isto é, explicações
totalizantes sobre a Natureza, o homem, as relações entre ambos e deles com a divindade (esta,
em geral, pensada como Providência divina que instaura e conserva a ordem universal).
Predominam preocupações com a ética - pois os filósofos já não podem ocupar-se diretamente
com a política -, a física, a teologia e a religião.

Entre as novas tendências que surgiram, devemos registrar a fundação de escolas filosóficas
como: O estoicismo e o epicurismo.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 63


Na Idade Média (476 a 1453) o processo da busca puramente racional sofreu um certo
barramento,tendo em vista os dogmas religiosos que se apoderam do imaginário do mundo
ocidental. A Filosofia cristã possuía duas grandes correntes:

Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às


autoridades romanas e ao povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da
doutrina cristã, a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser
impostos pela força. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um
trabalho de conquista espiritual.

Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos
sobre a fé e a revelação cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por
terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja.

Uma das principais correntes da filosofia patrística, inspirada na filosofia greco-romana, tentou
munir a fé de argumentos racionais. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o
pensamento pagão teve como principal expoente Santo Agostinho (354-430).

Seu pensamento, reativa no cristianismo os princípios da clássica filosofia platônica, mas salva
guardando as características originais da teologia e da moral cristã.

A Escolástica, estudo obrigatório dos teólogos. Nela a razão encontra-se a serviço da fé. Seu
principal representante é o dominicano Santo Tomás de Aquino (1225-1274), doutor da
Escolástica que fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da fé cristã.

Era a Filosofia lecionada nas escolas Medievais. Os teólogos da Escolástica procuram amparar a fé
na razão, com o fim de melhor justificar as crenças, converter os não crentes e ainda combater os
infiéis. Acompanhe abaixo um quadro comparativo entre a Escolástica e a Patrística:
Corrente Principais características
Defesa dos dogmas católicos, luta no combate às heresias e na conversão dos considerados
Patrística
povos pagãos, filosofia dos padres.
Adaptação do pensamento aristotélico aos interesses da religião, tinha Jesus como o modelo
Escolástica de mestre e educador, o objetivo mais importante seria formar o homem na Fé, essa filosofia
era usada nos colégios e universidades católicas (modelo tomista/aristotélico).

Mona Lisa (Leonardo da Vinci)

Com o Renascimento a Razão começa a voltar de maneira vigorosa às mentalidades e ganha


espaço entre os artistas escritores e pensadores. No campo filosófico surgiu naturalismo e o
racionalismo, através deles o filósofo não apenas buscaria conhecer a realidade, mas sim
controlá-la passo-a-passo. Assim seria também a relação com a natureza, o homem tentava
conhecer melhor e controlar (reger) os fenômenos naturais.

Leitura complementar

Filosofia da Renascença
(do século XIV ao século XVI)

É marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas na Idade Média, de novas obras de
Aristóteles, bem como pela recuperação das obras dos grandes autores e artistas gregos e
romanos.
São três as grandes linhas de pensamento que predominavam na Renascença:

1. Aquela proveniente de Platão, do neoplatonismo e da descoberta dos livros do Hermetismo;


nela se destacava a idéia da Natureza como um grande ser vivo; o homem faz parte da Natureza
como um microcosmo (como espelho do Universo inteiro) e pode agir sobre ela através da

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 65


magia natural, da alquimia e da astrologia, pois o mundo é constituído por vínculos e ligações
secretas (a simpatia) entre as coisas; o homem pode, também, conhecer esses vínculos e criar
outros, como um deus.

2. Aquela originária dos pensadores florentinos, que valorizava a vida ativa, isto é, a política, e
defendia os ideais republicanos das cidades italianas contra o Império Romano-Germânico, isto
é, contra o poderio dos papas e dos imperadores. Na defesa do ideal republicano, os escritores
resgataram autores políticos da Antigüidade, historiadores e juristas, e propuseram a “imitação
dos antigos” ou o renascimento da liberdade política, anterior ao surgimento do império
eclesiástico.

3. Aquela que propunha o ideal do homem como artífice de seu próprio destino, tanto através
dos conhecimentos (astrologia, magia, alquimia), quanto através da política (o ideal
republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia, navegação) e das artes (pintura,
escultura, literatura, teatro).
A efervescência teórica e prática foi alimentada com as grandes descobertas marítimas, que
garantiam ao homem o conhecimento de novos mares, novos céus, novas terras e novas gentes,
permitindo-lhe ter uma visão crítica de sua própria sociedade.

Essa efervescência cultural e política levou a críticas profundas à Igreja Romana, culminando na
Reforma Protestante, baseada na idéia de liberdade de crença e de pensamento. À Reforma a
Igreja respondeu com a Contra-Reforma e com o recrudescimento do poder da Inquisição.

Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, Giordano Bruno,
Campannella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, Jean Bodin, Kepler e Nicolau de
Cusa.

Extraído de: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Para ler o texto na íntegra acesse:

http://br.geocities.com/mcrost02/convite_a_filosofia_05.htm
Já no Iluminismo, os filósofos buscaram sedimentar o papel da Razão, assim as luzes do saber
“iluminariam” as “trevas” da ignorância, ela (a razão) seria o único caminho para uma sociedade
mais justa e igualitária com base em duas vertentes: a prática de uma filosofia realmente crítica e
o apoio e orientação da ciência pura.

Leitura complementar

Filosofia da Ilustração ou Iluminismo


(meados do século XVIII ao começo do século XIX)

Esse período também crê nos poderes da razão, chamada de As Luzes (por isso, o nome
Iluminismo). O Iluminismo afirma que:

● pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política (a Filosofia da
Ilustração foi decisiva para as idéias da Revolução Francesa de 1789);

● a razão é capaz de evolução e progresso, e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade


consiste em liberar-se dos preconceitos religiosos, sociais e morais, em libertar-se da superstição
e do medo, graças as conhecimento, às ciências, às artes e à moral;

● o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações, que vão das mais
atrasadas (também chamadas de “primitivas” ou “selvagens”) às mais adiantadas e perfeitas (as
da Europa Ocidental);

● há diferença entre Natureza e civilização, isto é, a Natureza é o reino das relações necessárias
de causa e efeito ou das leis naturais universais e imutáveis, enquanto a civilização é o reino da
liberdade e da finalidade proposta pela vontade livre dos próprios homens, em seu
aperfeiçoamento moral, técnico e político.

Nesse período há grande interesse pelas ciências que se relacionam com a idéia de evolução e,
por isso, a biologia terá um lugar central no pensamento ilustrado, pertencendo ao campo da
filosofia da vida. Há igualmente grande interesse e preocupação com as artes, na medida em
que elas são as expressões por excelência do grau de progresso de uma civilização.

Data também desse período o interesse pela compreensão das bases econômicas da vida social
e política, surgindo uma reflexão sobre a origem e a forma das riquezas das nações, com uma
controvérsia sobre a importância maior ou menor da agricultura e do comércio, controvérsia
que se exprime em duas correntes do pensamento econômico: a corrente fisiocrata (a
agricultura é a fonte principal das riquezas) e a mercantilista (o comércio é a fonte principal da
riqueza das nações).

Os principais pensadores do período foram: Hume, Voltaire, D’Alembert, Diderot, Rousseau,


Kant, Fichte e Schelling (embora este último costume ser colocado como filósofo do
Romantismo).

Filosofia contemporânea

Abrange o pensamento filosófico que vai de meados do século XIX e chega aos nossos dias. Esse
período, por ser o mais próximo de nós, parece ser o mais complexo e o mais difícil de definir,
pois as diferenças entre as várias filosofias ou posições filosóficas nos parecem muito grandes

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 67


porque as estamos vendo surgir diante de nós.

Para facilitar uma visão mais geral do período, faremos, no próximo capítulo, uma contraposição
entre as principais idéias do século XIX e as principais correntes de pensamento do século XX.

Extraído de: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Para ler o texto na íntegra acesse

http://br.geocities.com/mcrost02/convite_a_filosofia_05.htm

Na sua opinião o homem do mundo atual deve da ênfase à sua natureza interna como
forma de construir um mundo melhor?

O PAPEL DO FILÓSOFO E O ATO DE FILOSOFAR

A principal tarefa do filósofo é refletir sobre a realidade, qualquer que seja ela, descortinando
seus significados mais profundos, ou seja, descobrindo o que está por trás das aparências. Para o
filósofo, refletir significa pensar de maneira organizada, sistemática e a partir de uma
metodologia, o que já foi pensado. Neste sentido, refletir, seria fazer o próprio pensamento
retornar, para assim termos uma melhor compreensão, um maior entendimento de
determinado assunto que se apresenta.

A reflexão só é considerada uma atitude própria da Filosofia, quando é feita de forma radical,
rigorosa e de conjunto. Assim, a filosofia é considerada radical porque investiga um problema
até as suas raízes, quando investiga um problema não se preocupa apenas em entender
somente o efeito, mas sim as causas, isto é as origens, a raiz que originaram aquele efeito. Daí
conclui-se que a filosofia é radical quando explicita os fundamentos do pensar e do agir.

Tendo em vista que a filosofia é um modo de pensar, um posicionamento frente às questões que
o mundo nos apresenta, ela não pode ser considerada como um conjunto de saberes pronto e
acabado, muito menos fechado em si mesmo. Desta forma o ato de filosofar começa por
inventário dos valores (éticos, estéticos e morais) que dão rumo à nossa vida. Depois dessa
primeira etapa é preciso criticar tais valores sob todos os ângulos, ou seja, a sua base de
sustentação, descobrir a sua essência. Na terceira etapa é necessário reconstruir os valores, ou
seja, construí-los criticamente para a orientação de nossas vidas em sociedade.
Entendemos, então, que não é possível desunir filosofia de filosofar pois os dois são uma mesma
coisa. O filosofar é uma disciplina no pensamento que ao ser operada vai produzindo filosofia e a
filosofia é a própria matéria que gera o filosofar. São indissociáveis. A matéria filosofia separada
do ato de filosofar é matéria morta, recheio de livro de estante. Para ser filosofia ela tem que ser
reativada, reoperada, assim reaparecendo a cada vez. Como a malha tricotada que só aparece se
houver o ato do tricotar. O leigo desavisado não vê o tricotar na malha e não saberia refazer seu
caminho.

A tricoteira sabe cada passo dos pontos e ao ver o tricô pode ver o tricotar, pode, a partir do
tricô, reativar o tricotar que vai produzir tricô e assim sucessivamente. O movimento da razão a
que chamamos filosofar se dá por intermédio de conceitos filosóficos e estes só são criados e
recriados por meio do filosofar. Não há como ficar com uma coisa e dispensar a outra já que não
são duas coisas e sim uma só. Não há o dilema filosofia ou filosofar. Filosofia é filosofar e filosofar
é filosofia.

Renata Pereira Lima Aspis

Para lê o texto na integra acesse:

http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n64/22832.pdf

O CONHECIMENTO

Por que será que algumas pessoas ou grupos se estabelecem no poder? Uma das respostas é
porque elas dominam conhecimentos diversos, vejamos então o que vem a ser esse conceito e
como ele se constrói.

Por que será que algumas pessoas ou grupos se estabelecem no poder? Uma das respostas é
porque elas dominam conhecimentos diversos, vejamos então o que vem a ser esse conceito e
como ele se constrói.

O que é conhecimento? Como podemos conhecer as coisas? Essas perguntas vêm perseguindo o
homem há muitos anos, aliás há séculos. Desde os primórdios histórico-filosóficos do homem e do
mundo.
É importante compreendermos que dependendo da cultura, do momento histórico, do próprio saber
acumulado, da estrutura socioeconômica, política e social, ou até mesmo em decorrência da
evolução tecnológica, teremos as mais diversas respostas.

Assim, refletir acerca do conhecimento é uma das tarefas filosóficas mais centrais. O conhecimento
pode ser compreendido como um problema de caráter filosófico que busca a compreensão de si e do
mundo, e para tanto, necessário se faz entender a própria capacidade de apreensão ou compreensão.

Uma vez que para tratar de tal reflexão temos a disciplina denominada de Teoria do conhecimento
ou epistemologia, crítica do conhecimento, que consiste em refletir criticamente sobre as
possibilidades do sujeito cognoscente (aquele que conhece, o investigador, pesquisador) apreender
o objeto cognoscível (o que é conhecido, investigado, apreendido), estabelecendo assim uma

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 69


relação de aprendizagem reflexiva em busca de descortinar, desvelar a realidade acerca dos
fenômenos que nos cercam e nos envolve em nossas teias de relação

Conhecimento - é a relação que se estabelece entre um sujeito que conhece ou deseja


conhecer algo e o objeto a ser conhecido ou que se dá a conhecer.

Teoria do Conhecimento – disciplina filosófica que busca refletir sobre o conhecimento, tendo
como objeto investigatório suas origens, seus fundamentos, sua extensão e seu valor.

Ao falarmos em conhecimento, estamos designando o ato de conhecer como uma relação que
se estabelece entre a consciência que conhece e o objeto conhecido. Portanto há dois
elementos no ato de conhecer: o sujeito que quer conhecer e o objeto a ser conhecido. Porém
de acordo com a concepção crítico-social é preciso refletir de que o conhecimento se processa
quando o sujeito conhecedor consegue apreender, refletir e, sobretudo resignificar no mundo o
seu objeto de investigação levando em consideração o contexto histórico e social dessa reflexão,
uma vez que a forma de apreensão de um determinado objeto pode sofrer influências do meio
cultural em que o sujeito está inserido.

Assim sendo o conhecimento pode ser considerado como a compreensão inteligível da


realidade que o sujeito humano adquire através de sua confrontação com a realidade. Ele pode
ser adquirido e construído em conversas, nos livros em jogos, etc. A raiz de todo conhecimento
está na sua meta maior que é atingir o entendimento da verdade e não a simples e pura
retenção de informações.

Para sermos intelectualmente ativos, é necessário utilizarmos as informações adquiridas de


maneira ativa para que assim entendamos o mundo exterior e o nosso interior
(autoconhecimento). Vejamos a seguir as principais teorias do conhecimento constituídas no
mundo moderno:

“Penso, logo existo”


(Cogito, ergo sum)
A primeira dessas teorias foi o inatismo que teve como principal ícone teórico René Descartes
(1596- 1650), que é considerado o pai da Filosofia Moderna, começou uma forma de reflexão
que se opõe à tradição escolástica. Ao analisar o processo pelo qual a razão chega à verdade,
Descartes utiliza o recurso da dúvida metódica.

Para conhecermos a verdade, é necessário, em princípio, colocarmos todos os nossos


conhecimentos em dúvida, questionando tudo para criteriosamente analisarmos se existe algo
na realidade de que tenhamos total certeza.

Inatismo- concepção segundo a qual as idéias ou os princípios já existem na mente dos


indivíduos e portanto não surgem de fora para dentro.
ARANHA, 2002, p. 238.

Descartes insere uma ampla mudança no pensamento moderno, segundo a qual o sujeito tem a
função ordenadora do conhecimento: O pensamento, sistematicamente dirigido, encontra
inicialmente em si os critérios que permitirão estabelecer algo como verdadeiro.

Por conseguinte, a ciência na era moderna deixa de ser um saber contemplativo e passa a se
afirmar como sinônimo de verdade e também de progresso.
Segundo o mesmo as idéias superiores derivam não do geral, mas do particular, ou seja, elas já
se encontram no espírito e são comuns a uma natureza humana. O critério proposto para saber
se tais idéias eram verdadeiras ou não seria um critério seguro do nosso espírito.

Enquanto o inatismo de Descartes prioriza a razão, como ponto de partida de todo


conhecimento, Locke se opõe a esse pensamento. O empirismo de John Locke afirma que nada
está no espírito que não tenha passado primeiro pelos sentidos.

O empirismo, apesar de influenciado pelo inatismo, vai propor que o conhecimento só se


efetiva a partir da experiência sensível, ou seja, só depois de algum experimento poderia se
elaborar o conhecimento. As duas fontes do conhecimento seria a sensação e a reflexão Locke
foi o mais importante teórico dessa corrente do pensamento.

John Locke

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 71


Empirismo - doutrina filosófica moderna (séc XVII) segundo a qual conhecimento procede
principalmente da experiência, principais representantes: Hume e Locke repetido
ARANHA, 2002, p. 238

A corrente interacionista é fruto das teorias progressistas de influência marxista e o


construtivismo soviético e se utiliza da dialética, entendida como a lógica da contradição.

Sujeito e objeto situam-se por assim dizer numa nova relação entre si, na qual nenhum dos dois
prevalece, um dependendo do outro, só existindo enquanto pólo da relação.

INATISMO OU EMPIRISMO

De onde vieram os princípios racionais (identidade, não-contradição, terceiro-excluído e razão


suficiente)? De onde veio a capacidade para a intuição (razão intuitiva) e para o raciocínio (razão
discursiva)? Nascemos com eles? Ou nos seriam dados pela educação e pelo costume? Seriam
algo próprio dos seres humanos, constituindo a natureza deles, ou seriam adquiridos através da
experiência?

Durante séculos, a Filosofia ofereceu duas respostas a essas perguntas. A primeira ficou
conhecida como inatismo e a segunda, como empirismo.
O inatismo afirma que nascemos trazendo em nossa inteligência não só os princípios racionais,
mas também algumas idéias verdadeiras, que, por isso, são idéias inatas.

O empirismo, ao contrário, afirma que a razão, com seus princípios, seus procedimentos e suas
idéias, é adquirida por nós através da experiência. Em grego, experiência se diz: empeiria -
donde, empirismo, conhecimento empírico, isto é, conhecimento adquirido por meio da
experiência.

Para ler o texto na integra acesse

http://www.discursus.hpg.ig.com.br/javanes/inadqui.html

Saiba um pouco mais acessando o endereço abaixo:

http://www.geocities.com/discursus/javanes/solucoes.html
OS PROBLEMAS DO INATISMO E DO EMPIRISMO: SOLUÇÕES FILOSÓFICAS

Jean Piaget

O sujeito se dá conta de que, embora condicionante da posição do objeto não pode integrá-lo; o
objeto, por sua vez, por mais autônomo que seja não mais se impõe dogmaticamente ao sujeito
como pura positividade.

Vejamos a seguir as principais teorias do conhecimento constituídas no mundo moderno:

AS FORMAS DE CONHECIMENTO
Inatista Empirista Interacionista
• Supremacia do objeto (do
meio); • Não há contradição
• Supremacia do sujeito;
• Sujeito: tábula rasa sujeito/objeto homem/mundo;
• Sujeito: idéias inatas é a
(passivo); • O conhecimento renova-se
condição do conhecimento.
• Conhecimento sempre.
transmitido e recebido.

(O psicólogo mais famoso entre os educadores


e que quase nunca deu palpites sobre educação...)

O suíço Jean Piaget (1896-1980), pai da psicologia da inteligência, estava interessado em saber
como nós podemos aprender algo. Mais do que a psicologia e as características de cada
indivíduo, o que o preocupava era a construção de uma teoria do conhecimento. Como
chegamos a saber algo que não sabíamos? Como o conhecimento evolui?

Impossibilitado, pela falta de dados, de estudar a evolução do pensamento ao longo da história


da humanidade, Piaget voltou-se para experiências com crianças - baseadas em diálogos
abertos sobre temas específicos e não em testes. Por meio delas, tentou entender os processos

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 73


pelos quais evoluía a compreensão de conceitos básicos como espaço, tempo, causalidade física,
número, julgamento moral, etc.

Depois de escrever uma série de livros sobre suas conversas com crianças de quatro anos em
diante, Piaget estudou incessantemente o crescimento de seus três filhos, escrevendo, entre
1925 e 1931, três livros clássicos. Nessas obras, apresenta suas dúvidas sobre o papel do
pensamento verbal na gênese da inteligência e afirma que, nos primeiros anos de vida, a
inteligência é uma conseqüência das ações, da atividade da criança, e não de sua linguagem.

Era o início de uma obra enorme e de difícil leitura, porém fascinante e única. Opondo-se tanto
às teorias que acreditavam no caráter inato do conhecimento quanto às que viam as crianças
como "tábuas rasas" sobre as quais o conhecimento se inscrevia, Piaget definiu uma nova
concepção: o construtivismo, segundo o qual o conhecimento é construído ativamente pelo
sujeito, é uma conseqüência de suas interações com o mundo e de suas reflexões sobre essas
experiências, de tudo aquilo que pode abstrair delas.

Para Piaget, as crianças são como "pequenos cientistas", pois fazem experiências com o mundo
ativamente. A construção do conhecimento é um processo biológico de assimilação do novo ao
que já existe, comparável, de certa forma, à digestão. Isso porque, ao ser "assimilado" pelo
sujeito, o alimento se transforma. O mesmo acontece com o conhecimento, que é "assimilado"
aos esquemas e estruturas do indivíduo. (Ver item Pós-piagetianos.)

Na área da educação, sua influência é enorme, embora Piaget fizesse questão de deixar claro
que não era pedagogo. Conhecedor e defensor assumido das práticas da Escola Nova e da
pedagogia praticada por Freinet, Piaget escreveu pouco sobre pedagogia e nunca desenvolveu
nenhum método.

Mesmo assim, as pesquisas e as idéias de Piaget sobre a evolução dos processos de


aprendizagem serviram (e continuam servindo ainda hoje) como fonte de inspiração e como
uma base sólida para criticar o ensino tradicional, excessivamente verbal, passivo e não-
desafiador para os alunos. O trabalho de Piaget deu origem a inúmeras tentativas (marcadas por
boas idéias e por equívocos) de readequar os conteúdos e a forma de ensiná-los, processo que
continua até hoje.

Para ler o texto na íntegra acesse:

http://www.educacional.com.br/pais/glossario_pedagogico/piaget.asp

Os Sete Saberes Necessários À Educação Do Futuro (Edgar Morin)

I - As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão

É impressionante que a educação que visa a transmitir conhecimentos seja cega ao que é
conhecimento humano, seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à
ilusão e não se preocupe em fazer conhecer o que é conhecer.

De fato, o conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta "ready made", que pode ser
utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do
conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para
enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessam de parasitar a mente
humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez.
É necessário introduzir e desenvolver na educação estudo das características cerebrais, mentais,
culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto
psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

O calcanhar de Aquiles do conhecimento


A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado
pelo erro e pela ilusão. O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo.

Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em
estímulos ou sinais captados pelos sentidos. Resultam, daí, os inúmeros erros de percepção que
nos vêm de nosso sentido mais confiável, a visão.

Ao erro da percepção acrescenta-se o erro intelectual


O conhecimento, como palavra, idéia, de teoria, é fruto de uma tradução/construção por meio
da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro.

O conhecimento comporta a interpretação, o que introduz o risco de erro na subjetividade do


conhecedor, de sua visão de mundo e de seus princípios de conhecimento.
Daí os numerosos erros de concepção e de idéias que sobrevêm a despeito de nossos controles
racionais. A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e pás perturbações mentais trazidas
por nossas emoções multiplicam os riscos de erro.

O desenvolvimento do conhecimento científico é poderoso meio de detecção de erros e de luta


contra as ilusões. Entretanto, os paradigmas que controlam a ciência podem desenvolver
ilusões, e nenhuma teoria científica está imune para sempre contra o erro. Além disso, o
conhecimento científico não pode tratar sozinho dos problemas epistemológicos, filosóficos e
éticos.

Disponível em: http://www.conteudoescola.com.br

No seu entender, o estudo científico para ter validade precisa negar a religião?

AS FORMAS DE ABORDAR O MUNDO

São várias as formas pelas quais o homem entra em relação com o mundo que o rodeia, a
depender das circunstâncias e necessidades, bem como do tipo de cultura em que ele está
inserido.

AS FORMAS DE ABORDAR O MUNDO REAL

O homem, ao longo de sua existência na Terra, tem procurado conhecer o mundo através de
várias formas: a mais antiga é a que ficou conhecida como consciência mítica,
predominantemente religiosa e ligada a rituais mágicos, buscando soluções para os problemas
concretos da humanidade geralmente a partir de apelos às divindades.

Com o rompimento das organizações tribais e o crescimento das formas de organização

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 75


humana, surge uma outra abordagem conhecida como senso comum, nela as pessoas passam a
reelaborar a herança cultural recebida da comunidade. Mais ou menos a partir do século XVII a
parece a abordagem científica que através de toda uma metodologia vai estabelecer leis e
teorias científicas a fim de delimitar os seus objetos de estudo. Existe também uma outra
abordagem do real que é a concepção filosófica, na qual se busca compreender o mundo
criticamente a partir do pensamento lógico e racional.

Vejamos a seguir um quadro resumo com estas abordagens do real:

AS FORMAS DE ABORDAR O MUNDO REAL


• Saber baseado na magia, busca de segurança via forças
ocultas;
MÍTICA
• Presença de rituais mágicos no cotidiano.

• Saber difuso, fragmentado e assistemático, ametódico,


não crítico, impreciso e muitas vezes incoerente;
• De início procura compreender o mundo com base na
SENSO
tradição dos costumes, na experiência social;
COMUM
• Posteriormente pode se articular com interesses políticos,
econômicos e religiosos.

• Surgiu no século XVII com a Revolução Galileana;


• Saber bem elaborado, objetivo, coerente e intencional;
• Baseia-se na lógica, usa a experimentação e a
CIENTÍFICA investigação de causa e efeito;
• Busca a utilização de métodos racionais e sistemáticos e o
desenvolvimento de teorias.

• Compreensão crítica do mundo;


• Busca esclarecimentos coerentes, racionais e lógicos;
FILOSÓFICA • Reflete sobre as questões buscando superar as
aparências.

As abordagens descritas anteriormente foram o resultado da experiência cultural da


Humanidade que foi construída ao longo de muitos anos. Cabe ressaltar que uma forma de
abordar o real não invalida a outra. Por exemplo, aquilo que pensamos e desejamos primeiro se
formata na esfera da imaginação, ou seja, nos pressupostos míticos, dessa forma, o mito serve de
alicerce para o trabalho posterior da esfera da razão. Não se trata de aceitar o mito de forma
mecânica, afinal podemos, aceitá-lo ou recusá-lo.

Quando entramos em contato com os mitos, podemos usar a reflexão para entendermos os
valores, a "moral da história" que existe em cada um deles e que fundamenta o mesmo, para, a
partir daí, construirmos um determinado juízo de valor.

O QUE É EDUCAÇÃO E PARA QUE SERVE?

A educação é um poderoso instrumento para transformar a sociedade, portanto entendê-la é


uma questão crucial para todo educador comprometido com a sua profissão.
O homem é um ser histórico-social, ou seja, que efetiva suas relações mediante práticas culturais
complexas ocorridas em determinado tempo-espaço. Sendo assim, nenhuma pessoa consegue
se esquivar do processo educativo. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de uma maneira ou
de outra, todos nós envolvemos parte significativa de nossas vidas com ela.

O ser humano constrói o seu lastro cultural a partir do trabalho (através do qual transforma a
natureza e a si mesmo) e dos aspectos culturais (danças, jogos, relações familiares, etc.). O
aperfeiçoamento de suas atividades só é possível através da educação. Assim sendo a mesma é
um fator importantíssimo para a socialização e humanização dos Homens.

Educação - prática social cujo o fim é o desenvolvimento humano [..] de acordo com as
necessidades e exigências de determinada sociedade em determinado tempo/espaço.
CAVALCANTI, 2004, p. 93

Encerramos aqui este breve histórico do pensamento filosófico ocidental, estudaremos, a seguir,
um outro aspecto importante da filosofia: o próprio ato de filosofar.

A educação pode ser formal ou informal. Aquela que acontece no cotidiano, que é realizada
através do aprendizado empírico das tarefas, ou seja, construída no dia-a-dia é considerada a
educação informal. Essa categoria é construída, sobretudo, pela observação e convivência entre
os membros de uma sociedade, sem um planejamento prévio, sem local ou mesma hora
determinada. Já a educação formal acontece através de pessoas especializada, procura
selecionar os elementos essenciais para a sua transmissão, geralmente acontece com
planejamento prévio e em local e hora definidos.

Assim, a educação dentro de uma sociedade se revela como um instrumento de manutenção ou


transformação social e não como um fim em si mesmo. Deste modo, ela precisa de pressupostos,
de conceitos que possam fundamentar e orientar os seus caminhos. A sociedade da qual ela está
inserida precisa possuir alguns valores que possam nortear a sua prática.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 77


Entende-se que a educação pode se dar de maneira formal ou informal. Portanto, entende-se
que a educaçãoé o processo de desenvolvimento integral do homem, isto é, de sua capacidade
física, intelectual e moral, que tem como fim não só a formação de habilidades,mas também do
caráter e da personalidade social. A educação não é uma atividade econômica, embora seja uma
atividade de custo elevado. Ela é um serviço prestado a sociedade mediante o financiamento de
uma instituição específica.

É bom que se tenha em mente que educação é algo diferente do trabalho enquanto este
transforma a natureza em cultura para um determinado fim, aquela não se preocupa apenas
com uma finalidade, mas em instrumentalizar o homem para a vida como um todo.

Trabalho - atividade coordenada que envolve os meios de produção (terra, máquinas,


equipamentos, etc.) de caráter intelectual ou físico e pelo qual se recebe uma remuneração.

No processo educativo formal, a transmissão de valores e conhecimentos se materializa através


da pedagogia (diversos processos sistematizados de métodos e diretrizes educacionais).
Existiram diversas pedagogias ao longo da História da Educação. As que mais se destacaram no
Brasil foram três: a Tradicional; a Renovada e a Tecnicista.

Essas Pedagogias e várias outras que passaram a vigorar a partir da década de 1980 serão
largamente discutidas na disciplina Didática.

É bom que se diga que não queremos que você veja com preconceito nenhuma dessas
pedagogias. Devemos, entretanto, refletir para encontrar uma forma de atuar na prática que
verdadeiramente forme para a cidadania.

E qual seria a finalidade básica da educação?

Esta é uma pergunta complexa, pois a finalidade pode variar bastante ao longo do tempo e a
depender da cultura e da sociedade na qual se dá o processo educativo. Isso é o que tem
mostrado a História da Educação: por exemplo, na Grécia dos tempos heróicos, a finalidade era
formar guerreiros, na Grécia da época das cidades-estado, almejava-se formar cidadãos.

Em Roma, os esforços se concentravam na formação de cidadãos com espírito prático e assim


sucessivamente.

E na atualidade, qual seria a finalidade básica da educação?

Bom, responder a esta pergunta é um exercício bastante interessante. Num mundo globalizado
é extremante difícil ponderarmos a finalidade exata da educação, pois as realidades de cada
sociedade são distintas.

Assim os objetivos educacionais em um país desenvolvido pode ter pontos em comum com os
de um país em desenvolvimento, mas certamente não serão iguais e daí por diante. Portanto os
fins da educação baseiam-se em valores permanentes (ética, estética, moral, conhecimento, etc)
e em valores provisórios (necessidades humanas concretas).
Estes valores provisórios se alteram conforme vamos alcançando os objetivos imediatos;
enquanto nossa realidade concreta vai se modificando e as etapas vão avançando.
A educação é um processo que dura a vida toda, não tendo idade para se iniciar e nem terminar,
ela não pode se limitar à mera continuidade da tradição, pois ela supõe a possibilidade de
rupturas, pelas quais a cultura se renova e o homem se aperfeiçoa, construindo assim a sua
história.

Tornar a Educação verdadeiramente integral e portanto realmente formativa do Ser Humano é,


antes de mais nada, oferecer a todos instrumentos de crítica e reflexão acerca da sociedade em
que vivemos, a fim de que possamos superar as contradições e assim tornar a mesma mais justa,
menos excludente e portanto menos violenta.

Não é a prática educacional quem estabelece os seus fins. Quem o faz é a reflexão filosófica que
permeia a educação, dentro de uma dada sociedade. As relações entre educação e filosofia
parecem ser quase "naturais". Enquanto a primeira trabalha com o desenvolvimento do Ser
Humano e sobretudo das novas gerações, a segunda é a reflexão sobre o que e como devem ser
estes Seres Humanos e a própria sociedade.

Na sua opinião, a educação deve abordar os condicionantes socioeconômicos que influenciam a


realidade educacional?

FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Imaginem a análise vigorosa e radical da filosofia aliada ao processo educacional, sem


dúvida é melhoria na qualidade da educação, vejamos então como tentar fazer isso.

Enquanto reflexão filosófica, a Filosofia da Educação tem como tarefa básica buscar o sentido
mais profundo do próprio sujeito no processo educacional, ou seja, de construir a imagem do
Homem em seu papel de sujeito/educando, nesse sentido
deve ser uma disciplina que busque integrar as várias
contribuições das ciências humanas.

A relação entre Educação e Filosofia é bastante espontânea.


Enquanto a educação trabalha com o desenvolvimento dos
homens de uma sociedade, a filosofia faz uma reflexão sobre
o que e como devem ser ou desenvolver estes homens e esta
sociedade, isto é, uma reflexão sobre os problemas que a
realidade educacional apresenta.

A função maior da filosofia da educação é contribuir para


que o Ser Humano adote uma postura reflexiva no que tange
à problemática educacional. É assim que a Filosofia da Educação passa a desenvolver uma
tríplice tarefa:

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 79


Antropológica - se preocupa com a idéia de Homem que se pretende forjar a partir das
contribuições das ciências humanas;
Epistemológica – discutir sobre o processo de produção, sistematização e transmissão do
conhecimento);
Axiológica - estuda as questões relacionadas ao valor que os homens atribuem às coisas, a sua
valoração.

A partir dessas três dimensões é possível fazer da filosofia um dos instrumentos mais eficazes
para se pensar na educação, pois educar envolve a análise do contexto em que se dá o processo,
valores, conhecimento e método. A filosofia da educação, a despeito do desenvolvimento de
outras ciências humanas, tais como psicologia e sociologia, ainda possui relevância na medida
em que possui tarefas específicas, pois é ela talvez a melhor área do conhecimento para mediar
a interdisciplinaridade.

Vejamos abaixo um quadro resumo dessas três tarefas da Filosofia :

ÁREAS DA FILOSOFIA QUE TRATAM DA BUSCA DO SENTIDO DA EXISTÊNCIA


HUMANA
Estuda as questões relacionadas ao conhecimento do ponto de vista
Epistemologia
crítico;
Axiologia Trata das questões relacionadas ao agir humano calcado em valores;
Antropologia Trata das questões relacionadas à condição da existência humana.

É também papel fundamental da Filosofia da Educação procurar construir uma imagem do


Homem que se pode educar. Essa imagem que a Filosofia deve construir do homem só será
consistente se for baseada nas condições reais de existência, isto é em suas mediações históricas
e sociais concretas. Na história da humanidade existiram três grandes Concepções de Homem
que a orientação pedagógica pretendeu formar.

AS CONCEPÇÕES DE HOMEM
Essencialista Naturalista Histórico-social
• Homem compreendido a partir de • Homem entendido enquanto
• Homem enquanto uma
uma natureza imutável; organismo vivo, regido pelas leis
entidade natural e histórica;
da natureza;
• A perfeição de cada ser dependeria • A natureza humana
da realização plena das • Homem compreendido a partir
determinada pelas condições
potencialidades internas. do dualismo mente e corpo;
objetivas de sua existência;
• A supremacia seria do corpo,
• O ser humano seria resultado
organismo vivo regido por leis
de um processo de vir-a-ser.
da natureza.

Além das análises antropológica (concepções de homem), epistemológica (conhecimento) e


axiológica (valores) no processo educativo; a filosofia da educação tem a função de mediar a
questão da interdisciplinaridade, através da qual se estabelece um elo entre as diversas
disciplinas, o que auxilia e muito o trabalho desenvolvido pela pedagogia. Assim espera-se que
com o auxílio da filosofia, por exemplo, evite-se a supremacia dos “ismos” (capitalismo,
psicologismo, etc.) ou seja de a educação ficar alienada e só enfocar determinada ciência na
análise dos fenômenos pedagógicos.

Por que isso é importante? Na nossa concepção todos os “ismos” se não forem devidamente
analisados e ponderados, acabam por escravizar o pensamento humano, tornando o educador
apenas um defensor ou um crítico feroz de determinada ciência, não fornecendo ao educando
uma visão mais ampla da vida.

Desde o seu nascimento, o Homem estabelece uma relação com as coisas do mundo: pessoas,
valores, objetos, etc., assim sendo a filosofia da educação ocupa lugar central para a prática
pedagógica, pois é somente a partir do pensamento crítico-reflexivo que a educação se tornará
mais eficaz, clara e coerente.

A educação, quando imbuída dos ideais filosóficos não se ocupa em “formatar” os seres
humanos de maneira homogênea, mais sim oferecer condições ideais para que o educando
caminhe com as suas próprias pernas e encontre assim o seu próprio caminho que certamente
não serão iguais, pois cada aluno tem o seu tempo, aspirações, valores e inteligências múltiplas.
É justamente nesse ponto que reside a beleza da educação.

Assim a filosofia da educação auxilia muito a pedagogia, mas não se deve confundir uma com a
outra. Enquanto a pedagogia pode ser compreendida como uma teoria geral da educação que
se preocupa com a eficácia e a intencionalidade da práxis pedagógica; a filosofia acompanha
reflexivamente os problema ligados à educação, mediando a contribuição que as outras ciências
podem fornecer para que o processo de ensino/aprendizagem se torne mais reflexivo e ao
mesmo tempo mais objetivo. Em resumo a filosofia da educação busca a compreensão profunda
de determinada realidade educacional de maneira vigorosa e integral.
A reflexão sobre os problemas referentes à transmissão e construção do conhecimento é uma
tarefa fundamental para a filosofia da educação.

Para saber mais, assista ao vídeo:

Mesa Redonda sobre Filosofia da Educação, na qual os principais problemas filosóficos


relacionados à Educação em geral são colocados e problematizados.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 81


Depois do que foi discutido, você consegue elaborar um conceito para a filosofia da educação?

Agora é hora de trabalhar

1 - Explique as principais semelhanças e diferenças que existem entre as abordagens do real:


2 - “[...] Aprendemos e ensinamos, trabalhamos, ouvimos música, namoramos, passeamos e
podemos construir nossas vidas com sucesso no campo profissional-financeiro e amoroso sem
nos deixarmos envolver pelo discurso e pelos problemas filosóficos. Parecemos viver muito bem
sem ela.

Aliás, pelo que pudemos perceber em nossa atividade de docente de filosofia, as questões
filosóficas normalmente nos deixam incomodados, mal humorados, ansiosos. Isso porque
dentre outros motivos, como normalmente ocorre, ao tentar resolvê-las, deparamo-nos com
outros problemas que até então não havíamos considerado. Assim, a filosofia parece ser não
apenas desnecessária para o bem viver, como incompatível com a idéia de uma vida tranqüila.

A atividade filosófica lida com problemas aparentemente distantes da vida comum, o filósofo é
visto como um sonhador de sonhos inefáveis, ou ainda, como uma pessoa que está sempre
envolvida com assuntos que a grande maioria das pessoas não dá a menor importância.

A filosofia e os filósofos, parecem ser vistos pela sociedade, pelo senso comum, como uma
chatice, algo sem nenhuma utilidade. E na sala de aula a situação é a mesma, ou talvez pior, pelo
fato de ser uma disciplina geralmente aplicada no primeiro período dos cursos superiores,
quando os alunos chegam com toda a carga valorativa do senso comum sobre a filosofia, ou
com uma visão deturpada da matéria que viram por outros meios e nada entenderam.

Não gostamos do que não conhecemos, a idéia do pré-conceito Mas essa visão negativa da
filosofia não se restringe ao senso comum. “Vários pensadores adotaram uma postura destrutiva
com relação à filosofia, ou pelo menos com relação ao que eles concebiam como sendo
filosofia.”

MOREIRA, Kênia Hilda. In.: Filosofia na Sala de Aula: Qual é a utilidade da filosofia na sala de
aula?. Disponível em:

http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/resafe/numero002/textos/comunicacao_keniahildamoreira.ht
m
Acesso em: 11/12/2006.

Com base no texto reflita sobre a (in)utilidade da Filosofia e discuta sobre sua aplicação e
necessidade no trabalho docente.

3 - No site da Revista NOVA ESCOLA, acesse as reportagens: SANTO AGOSTINHO: Um educador


para a revelação divina (http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0182/aberto/mt_68280.shtml)
e TOMÁS DE AQUINO: O mestre da razão e da prudência (http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/
0183/aberto/mt_74923.shtml) ambas de autoria de Márcio Ferrari.
Após as leituras complementares, e com base no material e nas discussões da disciplina, trace
um paralelo entre o modelo educacional da Patrística e o modelo educacional da Escolástica,
estabelecendo semelhanças e diferenças.

4 - Leia atentamente o texto abaixo e em seguida responda ao que se pede:

O filósofo:

Uma vez aceito o principio de que todos os homens são “filósofos”, isto é, que entre os
filósofos profissionais ou técnicos e os outros homens não há diferença qualitativa, mas apenas
quantitativa (e neste caso quantidade tem um significado particular que não pode ser
confundido com soma aritmética, já que indica maior ou menor homogeneidade. Coerência e
logicidade, etc. [...])
O filósofo profissional ou técnico não só pensa com maior rigor lógico, com maior
coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história
do pensamento, sabe explicar o desenvolvimento que o pensamento teve até ele e é capaz de
retomar os problemas a partir do ponto em que se encontram, depois de terem sofrido as mais
variadas tentativas de solução, etc. Tem, no campo do pensamento a mesma função que os
especialistas nos diversos campos científicos.
GRAMSCI apud ARANHA 2002, p. 109

a) De acordo com o texto qual é a diferença básica entre o filósofo profissional e o não
profissional?

b) Descreva como pensa o filósofo profissional

5 - Redija um pequeno texto acerca da importância da educação na vida do Ser Humano:

6 - Segundo nossa LDB (lei 9394/96) - Título II “Dos princípios e fins da educação nacional” Art. 2º
- a educação tem por finalidade “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o
exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho.”. Como podemos verificar a
educação no Brasil tem finalidades bem complexas, e reflete uma tendência mundial de
enxergar a educação numa perspectiva integral e planetária, que começou a se delinear
principalmente a partir da década de 90 com a Conferência Mundial de Educação para Todos.
Em sua opinião a educação na atualidade tem cumprido essa missão? Como, na condição de
educadores, podemos contribuir para mudar estruturalmente o nosso projeto educacional?

7 - Leia atentamente o texto abaixo e em seguida responda ao que se pede:

Desafio aos educadores

Um famoso filósofo alemão do século passado, Frederico Nietzsche, tece uma crítica radical à
civilização ocidental, dizendo que ela educa os homens para desenvolverem apenas o instinto
da tartaruga. O que quer dizer isso? A tartaruga é o animal que diante do perigo, da surpresa,
recolhe a cabeça para dentro da sua casca. Anula, assim, todos os seus sentidos e esconde,
também na casca, os membros, tentando proteger-se contra o desconhecido [...].
Formar boas tartarugas parece ter sido o objetivo dos processos educacionais e políticos da
educação desenvolvidos no mundo ocidental nos últimos anos. Temos educado os homens para
aprenderem a se defender contra todas as ameaças externas, sendo apenas reativos [...].
Precisamos assumir o desafio de educar o homem para desenvolver o instinto da águia. A águia

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 83


é o animal que voa acima das montanhas, que desenvolve os seus sentidos e habilidade, que
aguça ouvidos, os olhos e competência para ultrapassar os perigos, alçando vôo acima deles. É
capaz, também, de afiar as suas garras para atacar o inimigo no momento em que julgar mais
oportuno [...]

RODRIGUES apud SEVERINO, 1994 p. 24

Com base no texto faça um comentário sobre que tipo de educação (métodos, pedagogia,
objetivos, etc.) deve ser desenvolvido para formar “águias”:

8 - Justifique a frase do historiador da educação René Hubert: “Não há doutrina pedagógica


concebível, grande reforma exeqüível, sem conhecimento geral dos fatos e das teorias do
passado”.

9 - “(...) a filosofia da educação parte do conhecimento do contexto vivido, a fim de fazer a crítica
dos valores decadentes, bem como a dos novos valores, indagando a respeito de que homem se
quer formar naquela determinada sociedade e naquele tempo específico”. (ARANHA, 2005, p.
17)

Com base na citação de Maria Lúcia de Arruda Aranha, discuta qual a importância da filosofia
para a teoria da educação?

TEMA 4 | A FORMAÇÃO CRÍTICA E A NECESSIDADE DE UMA POSTURA

ÉTICA E DO EDUCADOR

A quem posso chamar educador


Primeiro, àqueles que enfrentam bem as circunstâncias com que se deparam no dia-a-dia...
Depois, àqueles que são honrados em suas relações com todos os homens, agüentando com
facilidade e bom humor aquilo que é ofensivo para outros, então sendo tão agradável e razoável
com seus companheiros quanto é humanamente possível...
Àqueles que têm seus prazeres sob controle e não acabam derrubados por suas infelicidades.
Àqueles a quem o sucesso não estraga, que não fogem do seu próprio eu, mas sim, se mantêm
firmes, como homens de sabedoria e sobriedade.
Sócrates

Em face da crescente preocupação que nos cerca, no que diz respeito ao alto índice de inversão
de valores que permeiam o agir humano no meio social, a presente temática tem como um dos
princípios norteadores buscar refletir sobre a possibilidade de contribuir com os estudantes em
formação, futuros profissionais da educação, buscando subsídios valorativos e formativos
relacionados aos saberes pedagógicos que levem em consideração as novas concepções
educacionais e pautadas em posturas éticas, responsáveis e dinâmicas, frente às necessárias
transformações sociais bem como o exercício crítico e criativo, tendo em vista os professores
que se pretende formar para atuarem no contexto da sociedade contemporânea, marcada por
determinações histórico-filosóficas e sociais.
Aristóteles pensava que um dos objetivos principais da educação era produzir pessoas de
virtude. Acreditava que a educação não deveria estar limitada à sala de aula, mas também ser
uma função do Estado. Seu enfoque à sabedoria era “prático”, usando não só o método
científico como também a filosofia. Uma importante preocupação era moldar o entendimento e
a “precisão do pensamento”. As obras educacionais de Aristóteles têm tido um impacto
significativo no desenvolvimento da educação ocidental. Seu pensamento tem influenciado
muito nossas concepções em educação nas ciências humanas e exatas, e suas idéias têm
encontrado predileção com pensamentos religiosos e seculares em educação. (OZMON e
CRAVER 2004: 89).

Assim como os grandes ícones da sabedoria clássica, que refletiu sobre os aspectos éticos e
políticos educacionais, acreditamos que se faz necessário empreendermos esforços para a
promoção e valoração da formação do educador que é de suma importância para o
desenvolvimento humano e responsabilidade social da nação brasileira.
[...] Devemos ter atenção exclusiva na formação de professores [...] A formação de mestres
depende de mobilização social. O resgate da figura do professor significa valorizar o motor da
transformação da realidade nacional.

((*) Resolução CNE/CP 1/2006. Diário Oficial da União, Brasília, 16 de maio de 2006, Seção 1, p.
11).
Fernando Haddad
Ministro da Educação

Será que no dia-a-dia somos seres humanos conscientes do nosso papel na sociedade? Será que
os nossos valores nos permitem construir um mundo melhor? É isso que procuraremos elucidar
neste tema.

EDUCAÇÃO E IDEOLOGIA: A LUTA PELO PODER

O mundo, entre outras coisas é constituído por valores materiais (bens de consumo, dinheiro,
propriedades recursos naturais, dentre outros.) e por valores imateriais ou simbólicos
(conhecimento, educação, sentimentos, postura, e outros. ) A educação é constituída não só de
prática técnica e política, mas também de prática simbolizadora, suas ferramentas são
essencialmente símbolos, que desenvolve sua ação.

Símbolos - elemento adotado de forma convencional como representação de um outro


elemento, ou seja, são mediações de que nos servimos para lidar com os objetos, com as
circunstâncias e até mesmo com outros símbolos.

Em função da subjetividade, o homem começa a produzir os bens culturais e a desfrutar deles. A


atividade subjetiva acontece em função da capacidade que temos de representar
simbolicamente os objetos de nossa experiência. A cultura é o resultado do trabalho humano
nas diversas esferas da nossa vida seja ele formal ou informal.

A educação é uma prática cujos utensílios técnicos são especificamente simbólicos. Ela atua
sobre o conjunto das demais mediações da existência, a partir dessa sua especificidade.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 85


Com efeito, a cultura é uma criação humana. Portanto, a educação é fundamental para a
socialização do homem e sua humanização, é também um meio de distribuição de bens
culturais, ou seja, ela torna possível a apropriação dos bens culturais já produzidos.

Enquanto prática que lida com instrumentos simbólicos, a educação ainda atua nas dimensões
individual e coletiva, correndo um duplo risco de se envolver nesse processo ideologizador.
Assim, é pela educação, mesmo quando informal, que o indivíduo se apropria dos conteúdos
culturais de seu grupo. Ela amplia seu trabalho empregando essencialmente esses conceitos e
valores presentes na cultura em que se processa.

Por outro lado, para manter sua ideologia, uma sociedade necessita reproduzi-la, e a educação é
comumente considerada como uma das mais adequadas mediações para garantir essa
reprodução. Existem vários Aparelhos ideológicos os mais poderosos são:

• religião;
• partidos Políticos;
• forças Armadas ;
• escola.

Desses todos a escola ao lado da Religião, dos Partidos Políticos e das Forças Armadas é
talvez o mais sutil e o mais eficiente de todos os aparelhos ideológicos, pois a mesma trabalha
de maneira eficaz e sorrateira, através da inculcação de valores e interesses de classe nos
educandos. Assim, ficam evidente que as instituições educacionais constituem perfeitos
aparelhos ideológicos para agirem em função do Estado.

Ideologia- conceitos e valores particulares de um grupo social passados a todos como se


fossem universais
SEVERINO, 1996.
Estado- instituição política detentora do poder de um determinado território, constituído por
elementos físicos, humanos, políticos e jurídicos.

A ideologia num sentido mais amplo é o conjunto de idéias ou concepções a respeito de algum
aspecto sujeito à discussão. Para o filósofo Karl Marx ( 1818-1883), a ideologia seria uma forma de
conhecimento ilusório que serviria para o mascaramento dos conflitos sociais, adquirindo assim um
sentido negativo como um instrumento de dominação que exerce uma grande influência no jogo de
poder. Enquanto que para o filósofo Antonio Gramsci (1891-1937) será preciso distinguir entre as
ideologias orgânicas e ideologias arbitrárias, donde as primeiras são historicamente necessárias por
organizarem as massas humanas formando o terreno por onde os homens se movimentam, ou seja
servem como alicerce conservando assim a unidade do bloco social, já as ideologias arbitrárias serve
como um subsídio de dominação social.

Marilena Chauí
Marx afirma que a consciência humana é sempre social e histórica, isto é, determinada pelas
condições concretas de nossa existência.

Isso não significa, porém, que nossas idéias representem a realidade tal como esta é em si
mesmo. Se assim fosse, seria incompreensível que os seres humanos, conhecendo as causas da
exploração, da dominação, da miséria e da injustiça nada fizessem conta elas. Nossas idéias,
historicamente determinadas, têm a peculiaridade de nascer a partir de nossa experiência social
direta. A marca da experiência social é oferecer-se como uma explicação da aparência das coisas
como se esta fosse à essência das próprias coisas.

Não só isso. As aparências – ou o aparecer social à consciência – são aparências justamente


porque nos oferecem o mundo de cabeça para baixo: o que é causa parece ser efeito, o que é
efeito parece ser causa. Isso não se dá apenas no plano da consciência individual, mas,
sobretudo no da consciência social, isto é, no conjunto de idéias e explicações que uma
sociedade oferece sobre si mesma.

PARA PESQUISAR MAIS ACESSE: http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/filosofia/ideologia1.htm

Elementos que constituem o Estado

Essenciais Acessórios
País- território fixo determinado Pátria
População- povo Nação
Governo- poder- soberania Autoridade- legitimidade- eleições
Ordem- mínima essencial Reconhecimento – Constituição

Fonte: LAGO, B. Curso de sociologia política. S. Paulo: Vozes, 1996

A política queiramos ou não, permeia a maior parte das atividades humanas, o tempo todo. O
homem mal informado, que se diz apolítico é facilmente manipulado e influenciado pelos donos
do poder.

Assim é hora de repensarmos a importância da mesma em nossas vidas. Desde que as


sociedades humanas se tornaram mais complexas, o principal instrumento de disputa pelo
poder deixou de ser a violência física e passou a ser a palavra, o discurso, a persuasão.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 87


Política - toda e qualquer atividade humana que envolva interesse público.

Poder - ação ou relação que gera efeitos na vida de outras pessoas, fazendo com que o seu
detentor domine pessoas ou mesmo grupos humanos.

A função principal da ideologia é camuflar, mascarar as contradições existentes nas


sociedades, tais como as diferenças de classe, de raça e de gênero, apresentando a sociedade
como algo harmônico e igualitário, pois a mesma é um conjunto de idéias, representações e de
normas de conduta que induzem o homem a pensar de determinada maneira. Essa maneira de
pensar geralmente é articulada pelas classes dominantes, ou seja, por quem está no poder.

Para analisar criticamente, vejamos abaixo, a letra da música:

É Preciso Saber Viver


(Erasmo Carlos)

Quem espera que a vida


Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho


Você deve retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver


É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

Toda pedra no caminho


Você deve retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver


É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver
Saber viver

É preciso saber viver


É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver
Saber viver

É preciso saber viver


É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver
Saber viver

A ideologia facilita a coesão entre os homens e a aceitação apolítica de determinadas situações


vantajosas para uns e de exploração para outros, estabelecendo a noção de que as coisas são
como deveriam ser.

A própria classe dominante sofre também a influência de sua própria ideologia na medida em
que ele (o dominador) considera o seu papel de explorador como algo natural.

O processo de alienação da consciência em relação à realidade objetiva dá-se quando o Ser


Humano elabora conteúdos explicativos e valorativos que julga válidos e verdadeiros com os
quais pretende explicar e legitimar vários aspectos da vida cotidiana.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 89


Assim a própria consciência humana sai lesada e não se dá conta de que tais valores, ideais e
conceitos tem um sentido que naquela situação está na contramão da objetividade real.

Alienação - fragmentação da consciência, perda da individualidade, da consciência


crítica,diluição da própria identidade.

Assim sendo a escola não é encarada como uma instituição realmente democrática, pois existiria
uma escola para formar as elites econômicas (de qualidade, com estrutura pedagógica,
profissionais bem pagos etc.) e outra para formar as classes menos favorecidas (geralmente em
condições inferiores).

Para exercitar a nossa formação crítica, problematizemos com base no texto abaixo:

O Analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o
analfabeto político. Ele não ouve,
não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe,
da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio,
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que
da sua ignorância política
nasce a prostituta,
o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos
que é o político vigarista,
pilantra e corrupto
e lacaio dos exploradores do povo.

• Por que há tantas pessoas que se desinteressam pela política?


• Qual a importância da Consciência política?
• Reflita sobre esta frase do escritor Lima Barreto:“O Brasil não tem povo, tem público”

Na primeira a ideologia difundida seria a de como se tornar um membro da classe dominante e


alcançar os mais altos postos na vida econômica e social. Mesmo sendo esta uma posição um
tanto quanto extremada, há de se convir que existe existe muito acerto nesta teoria.

Na sua opinião a maior parte das pessoas pensa de forma clara e organizada no dia-a-dia?

Saiba mais

http://www.espacoacademico.com.br/012/12mt_1976.htm

"A Escola como Organização Complexa”

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 91


PARA REFLETIR UM POUCO MAIS:

COMIDA

Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer & Sérgio Brito.

Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer.

Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade.

A partir da letra da música dos Titãs (comida) qual relação você pode fazer com a educação, o
poder e a ideologia?

A NECESSIDADE DE UMA NOVA ÉTICA NA EDUCAÇÃO

Ao lermos um jornal ou assistirmos a TV, ficamos chocados com o número de notícias que
aparecem sobre corrupção, violência deturpação de valores morais, etc. Portanto o educador
deve investigar a raiz desses problemas: a falta de Ética.

Na nossa vida cotidiana, encontramos freqüentemente situações nas quais a nossa decisão
depende daquilo que consideramos justo, boas ou moralmente corretas. Assim, toda vez que
isso ocorre, estamos diante de uma decisão que envolve um julgamento moral da realidade, a
partir do qual vamos nos guiar.

Portanto, a ação humana é uma ação carregada de valores, pois para o homem, as coisas do
mundo e as ações sobre o mundo não são indiferentes. O homem analisa a validade e
legitimidade das suas ações. Esses valores são orientados pela moral.
Moral - conjunto de regras que regula o comportamento do homem na vida em sociedade.

Sobre a dimensão ética na formação do educador por Marlene Santosi

Embora seja um termo bastante amplo, podemos conceituar Ética como uma área do saber à
qual corresponde o estudo dos juízos de valor referentes à conduta humana, seja tomando por
referência as regras de conduta vigentes numa determinada sociedade,seja tomada de modo
absoluto para qualquer tempo ou lugar. Assim, a Ética em sua acepção mais usual pode ser
entendida como relativa à moralidade, como avaliação dos costumes, deveres e modos de
proceder dos homens para com os seus semelhantes.

Mas além desta perspectiva quase instrumental, de avaliar e considerar se os atos praticados
estão conformes a determinadas regras vigentes na sociedade, a Ética tem também,
fundamentalmente, um outro papel: o de buscar refletir sobre estas regras e ações a partir de
valores absolutos (válidos em qualquer contexto); reflexão esta que poderia ter como resultado
o estabelecimento de novos parâmetros de ação, fundando, assim, novas práticas sociais que
tivessem como valor referencial o homem, pois este como observa Mondin (1998: 43) é "Antes
de tudo, um valor absoluto, não um valor instrumental: ele pertence à ordem dos fins e não à
dos meios (...) cada homem possui uma dignidade real (...) e inviolável".

Para continuar a leitura reflexiva, acesse o link abaixo:


http://www.consciencia.org/contemporanea/eticasantosi.shtml

A sensibilidade aos valores é denominada de consciência moral. Como vimos anteriormente o


ramo da filosofia que estuda os valores é a axiologia. Dentre eles destaca-se a Ética (um dos
temas transversais dos PCN’s). Se os valores são os alicerce de todas as nossas ações, é
imprescindível reconhecer sua importância para a práxis educativa. Entretanto, os valores
transmitidos pela sociedade nem sempre são claramente tematizados, e até mesmo muitos
educadores não fundamentam sua prática em uma reflexão mais cuidadosa a respeito ética.

Ética - qualidade da ação fundada em valores morais; pode também significar a área da Filosofia
que trata da moralidade da ação humana e ainda pode ser considerada como a ciência do
comportamento moral dos homens em sociedade.
SEVERINO. 1999, p.138 e NALINI, 1999, p. 34.

Na atualidade existe uma crise sem precedentes quanto aos valores que orientam a vida em
sociedade e nesse sentido alguns conceitos têm sido esvaziados do seu real valor. Qualquer
vocábulo quando exageradamente utilizado faz com que seu sentido original perca a força.
Assim tem acontecido com alguns conceitos importantes, tais como Justiça, Liberdade,
Fraternidade e a Ética, que atualmente têm sido confundidos quanto aos seus verdadeiros
significados.
Por que isso tem ocorrido? Ora de tanto se ouvir falar de tais conceitos, as pessoas passam a ter
uma falsa impressão de já tê-los compreendido em sua verdadeira essência

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 93


No fundo, ética é uma coisa muito simples: não se pode fazer ao outro o que não
gostaríamos que fizessem com a gente.
Ana Maria Machado in: Isto É nº 1838 de 29/12/2004

Para o homem atual, os valores não estão pré-definidos e não são descobertos pelo acaso, mas
vão sendo construídos ao longo de suas vidas tanto de forma coletiva como de forma individual,
ou seja, o Homem educa-se pelo exemplo dos outros e pela suas próprias inclinações.

Assim, como exigir de uma criança que ela não minta se alguém (que eu não quero falar naquele
momento) ligar para a minha residência e aí eu orientar a criança a dizer que eu não estou em
casa, quando na verdade estou? Como exigir de uma criança que ela não ache a corrupção algo
comum se no meu relacionamento cotidiano com ela, repito uma frase mágica do tipo: se você
passar de ano vai ganhar uma bicicleta? Não seria mais correto orientá-la a passar de ano porque
é o certo e não para que ela se acostume a cumprir o seu dever esperando sempre receber algo
em troca? Mais uma vez cabe-nos a reflexão.

No processo educacional, o resgate da ética é de fundamental importância uma vez que antes
de tudo a verdadeira educação é um compromisso ético, ou seja, é preciso que a relação
professor-aluno seja calcada em valores positivos e verdadeiros, estes que constroem a
dignidade humana. Na atualidade vivemos num intenso relativismo a questão dos limites está
sendo esquecida ou negligenciada o limite entre o legal e o ilegal está se confundindo.

A escola é uma das instituições mais complexas de nossa sociedade, tendo em vista que as
forças de dominação, degradação, alienação estão se consolidando em nossa sociedade de
maneira alarmante e somente a partir de uma (re) educação da humanidade podemos aspirar a
dias melhores.

A formação crítica do educador requer uma ação educativa pautada em valores que ultrapassem
o espaço da “sala de aula” enquanto espaço físico, estático e momentâneo fazendo-a
transcender e se inserir nos aspectos culturais, históricos, morais subjacentes ao meio social do
qual se encontra inserida frente aos diversos desafios que se apresentam na nossa atualidade,
pois os padrões educacionais tradicionais e metafísicos e/ou meramente tecnicista, já não
atendem mais as exigências constituídas na atualidade, devido aos inúmeros avanços
alcançados pela sociedade contemporânea exigindo cada vez mais o desenvolvimento da
consciência crítica e posturas éticas e bioéticas na atuação e desempenho do seu papel
enquanto construtor e formador de outros sujeitos cognoscentes, cidadãos no exercício dos
seus deveres e na busca dos seus direitos constitucionais, políticos para cada vez mais se
alcançar o avanço da sociedade como um todo.

Assim, a postura crítica e ética do educador, torna-se uma exigência frente às novas
necessidades sociais contemporâneas, sobretudo porque já não cabe mais alimentarmos a
fragmentação dos conhecimentos vivenciados em nossas práticas educativas que repercutem
também na dimensão humana culminando na fragmentação dos sujeitos e influenciando-os a
agir passivamente e egoisticamente numa sociedade que consegue conviver imersa na inversão
da escala de valores e considerando utópica toda e qualquer tentativa de reinvenção dessa
pseudo-realidade, acreditando que “uma andorinha só não faz verão” e que “não se deve remar
contra a maré” e que os valores morais e éticos já não podem servir como parâmetros para uma
real vida social.

Cabe ao educador quando da sua atuação e prática docente buscarem oportunizar aos seus
educandos, a construção do conhecimento e formação crítico-reflexivo e ética, ou seja,
formação humanística e profissional dos estudantes para que sejam capazes de intervir e
transformar-se enquanto seres que se autoproduzem e que atuam no mundo tornarem-se
cidadãos com aptidões de reunir e transferir os recursos e procedimentos necessários, que lhes
permitam auxiliar e criar as suas próprias saídas aos desafios enfrentados no dia-a-dia das suas
vidas no âmbito sócia e profissional das suas atuações.

Sabemos que as condições de trabalho, ainda são muito degradantes, as relações de poder
estão desvirtuadas e a distribuição dos bens materiais e simbólicos extremamente desiguais,
nesse sentido se torna necessário um verdadeiro pacto social entre os educadores para o
resgate da verdadeira cidadania, inclusive a partir de uma postura crítica em relação a sua
própria atuação, e da direção da instituição de ensino na qual trabalha e da postura de seus
alunos em sala de aula.

Muitos podem se perguntar o que a educação tem a ver com a ética? A resposta mais razoável é
tudo, uma vez que apenas um ser humano educado pode educar outro e para se educar uma
sociedade inteira é necessário termos a moralidade positiva denunciada em nosso agir cotidiano
em quaisquer que sejam as condições materiais e imateriais que constituam a nossa realidade
social.

Os sistemas e códigos morais podem até variar, mas não a moralidade em si e nem a
sensibilidade humana.
A educação se tornará mais coerente e eficaz a partir do momento que estivermos capacitados
para explicitar esses valores, ou seja, se desenvolvermos um trabalho reflexivo que esclareça as
bases axiologia educacional.

Na busca de garantir sua missão educacional pautada em valores éticos se faz necessários ao
educador pesquisar alguns dos indicadores educacionais que possam orientar uma ação
educativa possível de auxiliar as metas de qualidade humana e social que se quer alcançar, como

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 95


por exemplo, adotar como eixo estrutural da sua prática educativa as quatro aprendizagens
fundamentais, recomendadas pelo “Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre
Educação para o século XXI”:

“Aprender a conhecer” - caracterizado pela busca do domínio dos instrumentos do


conhecimento com a finalidade precípua de descobrir, compreender e fazer ciência;

“Aprender a fazer” - entendendo-se que, embora indissociável do “aprender a conhecer”, o


“aprender a fazer” refere-se diretamente à formação profissional, na medida em que se trata de
orientar o acadêmico a por em prática os seus conhecimentos, adaptando a educação à
configuração do trabalho na sociedade atual;

“Aprender a viver junto” - Sendo o homem um ser de relações, constitui-se num grande
desafio para a educação, tendo em vista que trata de ajudar os alunos no processo de
aprendizagem para a participação, a cooperação e, sobretudo, para a busca coletiva de soluções
para os problemas contemporâneos. Isto implica no desenvolvimento de competências
interpessoal e intrapessoal;

“Aprender a ser” - Integrando as três aprendizagens anteriores e caracterizando-se pela


elaboração de pensamentos autônomos e críticos que contribuam na formulação própria de
juízos de valor, formando assim um cidadão e profissional decidido e preparado para agir nas
diferentes circunstâncias da vida.

Na sua opinião qual deve ser o maior compromisso do educador o compromisso político
ou o compromisso ético?
Busquemos pesquisar e refletir aceca da formação crítica e da postura ética do educador, como
uma das contribuições significativas de transformação mundial.

Baixar aqui o Filme: Ilha das Flores do cineasta Jorge Furtado


http://www.portacurtas.com.br/index.asp

Para Saber mais, vamos investigar:

As Metas de desenvolvimento do Milênio


www.pnud.org.br - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento:

METAS, OBJETIVOS E INDICADORES

Acabar com a extrema pobreza e a fome, promover a igualdade entre os sexos, erradicar
doenças que matam milhões e fomentar novas bases para o desenvolvimento sustentável dos
povos são algumas das oito metas da ONU apresentadas na Declaração do Milênio, e que se
pretendem alcançar até 2015.

As Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) surgem da Declaração do Milênio das


Nações Unidas, adotada pelos 189 estados membros no dia 8 de setembro de 2000. Criada em
um esforço para sintetizar acordos internacionais alcançados em várias cúpulas mundiais ao
longo dos anos 90 (sobre ambiente e desenvolvimento, direitos das mulheres, desenvolvimento
social, racismo, etc.), a Declaração traz uma série de compromissos concretos que, se cumpridos
nos prazos fixados, segundo os indicadores quantitativos que os acompanham, deverão
melhorar o destino da humanidade neste século.

As Metas do Milênio estão sendo discutidas, elaboradas e expandidas globalmente e dentro


de muitos países. Entidades governamentais, empresariais e da sociedade civil estão procurando
formas de inserir a busca por essas Metas em suas próprias estratégias. O esforço no sentido de
incluir várias dessas Metas do Milênio em agendas internacionais, nacionais e locais de Direitos
Humanos, por exemplo, é uma forma criativa e inovadora de valorizar e levar adiante a iniciativa.

Concretas e mensuráveis, as 8 Metas – com seus 18 objetivos e 48 indicadores – podem ser


acompanhadas por todos em cada país; os avanços podem ser comparados e avaliados em
escalas nacional, regional e global; e os resultados podem ser cobrados pelos povos de seus
representantes, sendo que ambos devem colaborar para alcançar os compromissos assumidos
em 2000. Também servem de exemplo e alavanca para a elaboração de formas complementares,
mais amplas e até sistêmicas, para a busca de soluções adaptadas às condições e
potencialidades de cada sociedade.

http://www.pnud.org.br/hdr/hdr2003/docs/hdr2003_01.doc

POR ONDE VAMOS COMEÇAR?

Este curso começa por você. Há outras alternativas:

Nós poderíamos começar apresentando a disciplina e dar a você um programa cujos conteúdos,
proposições e fatos se identificassem apenas com as abordagens.
Estes aspectos certamente são importantes, mas o elemento básico de nosso curso é,
particularmente, você, sua existência e seu ser.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 97


Por isso se justifica começarmos por você: conteúdo fundamental.
Há muitas facetas diferentes de você.
Há seus objetivos educacionais, suas aspirações, seus sentimentos, seus temores, seus conflitos,
seus aborrecimentos, suas alegrias e seus êxitos. Tudo isso são aspectos descritos por você. Mas
o dado central é que você existe: você está aqui, você é uma presença única.

O propósito deste envolvimento é testemunhar sua existência, ser você não precisa
impressionar ninguém ou ser algo que você não é. (...) Ser, existir, manifestar. É o que esperamos
de você. Nossa intenção é a de criar um clima no qual você possa expressar-se livremente,
estamos falando de uma liberdade que significa algo interior, subjetivo, existencial.

Pode ser você mesmo, como você é, sendo aceito pelos outros nessa dimensão.

Pretendemos que você encontre condições para poder ser ouvido pelos outros e também
para ouvir os outros.

Esperamos criar um clima de confiança mútua onde seus sentimentos reais, positivos ou
negativos se manifestem numa autêntica relação interpessoal.

O indivíduo capaz de profunda ou corajosamente, pensar em seus próprios pensamentos e


sentimentos, sendo aquilo que ele é, escolhendo a si mesmo e o caminho de sua vida através do
diálogo com os outros terá aquele senso de liberdade de que falamos.
Liberdade implica escolha de ação e ação requer uma perspectiva de objetivos.

Você, neste curso aprenderá a identificar suas potencialidades e desenvolvê-las a partir de você
mesmo, segundo sua própria lei interior.
Por isto este curso começa com você: compreensão, colaboração, responsabilidade, respeito,
participação e amizade...

OBS.: Idéia extraída do livro Liberdade para aprender, de Carl Rogers. Adaptação Maria Celi do
Amparo Nunes Kramm.

Chegamos ao fim dos nossos estudos. Esperamos que a História e a Filosofia da Educação
tenham ajudado a nos tornar seres humanos mais conscientes do processo educativo da
humanidade e a partir daí construirmos um mundo melhor.

Agora é hora de trabalhar

1. “A função da ideologia é camuflar a divisão social entre as classes.” Você concorda com tal
afirmação? Justifique a sua resposta

2. Como nos disse Caetano Veloso “Navegar é preciso”... Que tal investigarmos mais sobre a
ideologia?

a) Quem foi Antoine Louis Claude Destutt de Tracy?

b) Vamos construir um Quadro Conceitual sobre ideologia, com pelo menos quatro autores
distintos?
O Quadro Conceitual deverá ser construído livremente e criativamente. Por exemplo; utilizando
tabelas, gráficos, poderá ser um quadro que também contenha ilustrações! Mãos a obra!

c) Com base na música de Caetano Veloso, abaixo identificada, desenvolva uma pesquisa sobre
o, poder ideológico que imperou no Brasil nas décadas de 1960/70.

Caetano Veloso Sorriso solto, perdido


Horizonte e madrugada
Os Argonautas O riso
O arco
Caetano Veloso Da madrugada
O porto
O barco Nada
Meu coração não agüenta
Tanta tormenta, alegria Navegar...
Meu coração não contenta
O dia O barco
O marco O automóvel brilhante
Meu coração O trilho solto, barulho
O porto Do meu dente em tua veia
Não O sangue
O charco
Navegar é preciso Barulho lento
Viver O porto
Não é preciso Silêncio

O barco Navegar...
Noite no teu tão bonito

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 99


03) Vamos ao Cinema? ( Assista o filme: Ilha das Flores).
Com base no texto filmográfico: Ilha das Flores, que você acabou de assistir, desenvolva o que se
pede abaixo:

Um comentário crítico confrontando os aspectos éticos do filme.


Construção de algumas questões-problemas (reflexões) de como a educação pode contribuir
para a transformação social.

04) Com as palavras-chaves, abaixo destacadas, busque realizar as atividades solicitadas abaixo:

Palavras-Chaves:

Valores, Educação, Atualidade, Ideologia e Poder.

a) Elaborar um texto, contendo as palavras chaves destacadas, como eixos norteadores da sua
reflexão crítica;

b) Agora, pesquise ou desenvolva alguma Ilustração, poesia, música, dentre outros, que possa
indicar uma interpretação para o seu texto;

05) [...] Dificuldades constantes põem em risco a conduta ética do professor. A primeira e mais
fundamental destas dificuldades é a perda do espaço ético, a perda do juízo prudencial [...] o
dito sistema que não é ninguém concreto e sim, pura abstração, ou algo impessoal, usurpou a
possibilidade de o professor decidir sobre a conduta do aluno. Cabe ao professor cumprir
normas e regulamentos [...] deste modo a burocracia transforma o professor num mero
instrumento de aparente ordenamento neutro.”
PAVIANI, J. Problemas de filosofia da educação. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 116.

a) De acordo com o texto acima, qual a principal dificuldade ética enfrentada pelo professor na
atualidade?

b) Por que a burocracia do sistema pode levar o professor a se afastar de uma postura ética?

06) Agora é Hora de “pesquisar, analisar para compreender e praticar para transformar”:

a) Quais são as oito metas do milênio para mudar o mundo?

b) Como a formação crítica e a ética do educador pode auxiliar nessas metas?

c) O que cada um de nós podemos fazer?

Para auxiliar a sua pesquisa acesse:


http://www.onu-brasil.org.br/
Filmografia

Tema 01
Filme Ano Diretor (a) Sinopse
A epopéia de um mercador judeu que
é escravizado por seu amigo de
Ben-Hur 1959 William Wyler
infância e que consegue uma chance
única para se vingar.
O gladiador Spartacus, em 73 a.C.,
comanda célebre rebelião de escravos
Stanley
Spartacus 1960 contra a classe dominante de Roma.
Kubrick
Filme baseado no romance histórico de
Howard Fast.
Joseph L. A história da ascensão e declínio de
Cleópatra 1963
Mankiewicz Cleópatra, rainha do Egito.
A luta pelo poder entre as classes
Jerzy
Faraó 1964 dirigentes no Egito Antigo.
Kawalerowicz
Competente reconstituição de época.
A Queda do
Anthony O tema é o final do Império, assolado
Império 1964
Mann pelos bárbaros.
Romano
Apresenta os antecedentes de Roma,
Federico revelando com um frescor intenso o
Satyricon 1969
Fellini cotidiano da grande civilização que
sucumbiu aos próprios vícios.
Saul, o primeiro rei dos hebreus, foi
Bruce sucedido por David em 1006 a. C. que
Rei David 1986
Beresford destacou-se por derrotar o gigante
filisteu, Golias.
O filme é uma ficção, porém retrata
Gladiador 2000 Ridley Scott aspectos importantes da vida cotidiana
do Império Romano.
Crimes misteriosos abalam a rotina de
uma abadia da Itália medieval. Um
sagaz monge franciscano é chamado
O Nome da Jean Jacques
1986 para resolver o mistério. Baseado no
Rosa Annaud
romance, de mesmo nome, do
pensador Umberto Eco. Ótima
reconstituição de época.
Narra a história verídica do amor entre
o filósofo cristão Abelardo e a
Em Nome inteligente Heloísa, na França do século
1988 Clive Donner
de Deus II. Transmite o peso das pressões
religiosas medievais sobre a vida das
pessoas.

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 101


Tema 02
Diretor
Filme Ano Sinopse
(a)
Atritos entre o pintor renascentista
Agonia e Carol Michelangelo e seu patrocinador, o papa
1965
Êxtase Reed Júlio II. Filme baseado no romance de
Irving Stone.
A história do brilhante astrônomo e
matemático italiano que desafiou teorias
amplamente aceitas em sua época. A obra
Galileu Joseph
1975 de Galileu chamou a atenção da
Galilei Losey
Inquisição, que perseguiu um dos
maiores gênios da humanidade e o
obrigou a renegar suas descobertas.
Totalmente convencido de que a Terra é
redonda, Cristovão Colombo desejava
encontrar um novo caminho marítimo
para as Índias, mas para isto precisa
dobrar a resistência do inquisidor Tomas
de Torquemada. Após alguns anos casado
e com um filho, consegue suplantar seus
Cristovão Alberto
1984 opositores e obtém as benção e o apoio
Colombo Lattuada
financeiro dos reis da Espanha.
Entretando, durante a viagem se defronta
com sabotadores e com uma tripulação
descontente e temerosa, que acredita que
nunca retornará a Espanha se continuar
navegando em um oceano que parece
não levar a lugar nenhum.
O filme retrata a "Guerra Guaranítica" na
região de Sete Povos das Missões, no final
Roland
A Missão 1986 do século XVIII, época dos tratados de
Joffé
fronteiras assinaados entre Portugal e
Espanha.
Hábito Bruce Filme sobre a colonização do Canadá, por
1991
Negro Beresford missionários jesuítas.
O filme de Ridley Scott que tem Gerard
Depardieu no papel principal, focaliza o
1492 - a
Ridley principal momento da expansão marítima
Conquista do 1992
Scott espanhola, quando em 1492 Cristóvão
Paraíso
Colombo tentou atingir o Oriente
navegando para o Ocidente.
O filme mostra um dos episódios mais
Giordano Giuliano polêmicos da história: o processo e a
1973
Bruno Montaldo execução do astrônomo, matemático e
filósofo italiano Giordano Bruno (1548-
1600), queimado na fogueira pela
Inquisição por causa de suas teorias
contrárias aos dogmas da Igreja Católica.
O filme aborda a vida de três
personagens: Petrarca, Alberti e Leonardo
Da Vinci e a Carol
1987 da Vinci. Trabalho ambientado no clima
Renascença Reed
intelectual de Florença, entre os séculos
XIV e XV.
O filme retrata a França em 1572, quando
do casamento da católica Marguerite de
Valois e o protestante Henri de Navarre,
A Rainha Patrice
1994 acaba servindo de estopim para um
Margot Chéreau
violento massacre de protestantes
conhecido como a "noite de São
Bartolomeu".
Doutorado em teologia, Lutero não
conseguia compreender alguns dogmas
da Igreja Católica para com seus súditos.
Lutero 2003 Eric Till
Como por exemplo, a "oferta" de
indulgências aos fiéis, em troca da
salvação de suas almas do purgatório.

Tema 03
Filme Ano Diretor (a) Sinopse
Adaptação do mito grego de Perseus, o
filho de Zeus, e sua aventura para
Fúria de
1981 Desmond Davis destruir Medusa e o monstro Kraken, a
Titãs
fim de salvar a Princesa Andrômeda, sua
noiva.
As aventuras de Odisseu com os mitos e
A Andrei
1997 lendas característicos da Grécia
Odisséia Konchalovsky
Homérica
Baseado em uma história real, o filme
retrata a luta dos pais de Lorenzo,
O Óleo Augusto e Michaela Odone, para salvar o
de 1992 George Miller filho de uma doença terminal;
Lorenzo enfrentando médicos, cientistas e
grupos de apoio que relutam em
incentivar o casal na busca de uma cura.
Em um futuro próximo, Thomas
Anderson, um jovem programador de
Andy
computador que mora em um cubículo
Wachowski /
Matrix 1999 escuro, é atormentado por estranhos
Larry
pesadelos nos quais encontra-se
Waschowski
conectado por cabos e contra sua
vontade, em um imenso sistema de

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 103


computadores do futuro. Em todas essas
ocasiões, acorda gritando no exato
momento em que os eletrodos estão
para penetrar em seu cérebro. À medida
que o sonho se repete, Anderson
começa a ter dúvidas sobre a realidade.
Por meio do encontro com os
misteriosos Morpheus e Trinity, Thomas
descobre que é, assim como outras
pessoas, vítima do Matrix, um sistema
inteligente e artificial que manipula a
mente das pessoas, criando a ilusão de
um mundo real enquanto usa os
cérebros e corpos dos indivíduos para
produzir energia. Morpheus, entretanto,
está convencido de que Thomas é Neo, o
aguardado messias capaz de enfrentar o
Matrix e conduzir as pessoas de volta à
realidade e à liberdade.

Tema 04
Filme Ano Diretor (a) Sinopse
Desde menina, Ellie buscou indícios de
outras vidas no universo. Quando recebe
Robert uma mensagem com uma máquina capaz
Contato 1997
Zemeckis de levar um ser humano e fazer contato
com extraterrestres, reinvidica o direito de
ser escolhida para a missão.
Eugene Simonet, um professor de Estudos
Sociais, faz um desafio aos seus alunos em
uma de suas aulas: que eles criem algo que
possa mudar o mundo. Trevor McKinney,
um de seus alunos e incentivado pelo
desafio do professor, cria um novo jogo,
A Corrente
2000 Mimi Leder chamado "corrente do bem", em que a
do Bem
cada favor que recebe você retribui a três
outras pessoas. Surpreendentemente, a
idéia funciona, ajudando o próprio Eugene
a se desvencilhar de segredos do passado
e também a mãe de Trevor, Arlene, a
encontrar um novo sentido em sua vida.
Yuri Orlov é um traficante de armas que
realiza negócios nos mais variados locais
do planeta. Estando constantemente em
O Senhor Andrew
2005 perigosas zonas de guerra, Yuri tenta
das Armas Niccol
sempre se manter um passo a frente de
Jack Valentine, um agente da Interpol, e
também de seus concorrentes e até
mesmo clientes, entre os quais estão
alguns dos mais famosos ditadores do
planeta.
Adaptado de um romance, que é a
novelização de um caso real, conta a
história da alemã Olga Benário, comunista
que acabou se envolvendo com o grande
Jayme
Olga 2004 líder também comunista Luís Carlos
Monjardim
Prestes. Durante o governo de Getúlio
Vargas, Olga foi presa e deportada para
sua terra natal, indo parar na mão dos
nazistas.
A luta guerrilheira contra a ditadura militar
nos anos 60 e início dos anos 70, a partir
do ponto de vista de seus integrantes na
Tempo de André
2004 época. Uma avaliação real do que foi a
Resistência Ristum
resistência armada no Brasil em seu
período mais crítico, com todos seus erros
e acertos.

Glossário

ALIENAÇÃO: Fragmentação da consciência, perda da individualidade, da consciência crítica,


diluição da própria identidade.

ARETÉ: Perfeição ou virtude de uma pessoa.

BÁRBARO: Palavra usada para identificar todos os povos não romanos.

CLERO: Classe social formada por aqueles que receberam ordens sacras, religiosos.

CONHECIMENTO: É a relação que se estabelece entre um sujeito que conhece ou deseja


conhecer algo e o objeto a ser conhecido ou que se dá a conhecer.

CRíTICO-REPRODUTIVISTA: Teoria pedagógica difundida nos anos 70 que critica a ilusão liberal
da Escola como instância de democratização, concluindo que ela reproduz as diferenças sociais.
ARANHA, 2002, p. 236

CULTURA: Um amplo e variado conjunto de conhecimentos e realizações que o homem


desenvolve em sociedade, que é acessível a determinado grupamento humano. Associa-se às
representações simbólicas, de produtos e de procedimentos apresentados pelo homem ao
longo de sua história.

EDUCAÇÃO: Prático socila cujo fim é o desenvolvimento humano [..] de acordo com as
necessidades e exigências de determinada sociedade em determinado tempo/espaço.
CAVALCANTI, 2004, p.93

Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 105


EMPIRISMO: Doutrina filosófica moderna (séc XVII) segundo a qual conhecimento procede
principalmente da experiência. Principais representantes: Locke e Hume.
ARANHA, 2002, p. 238

ESCOLAS SECULARES: Escolas do século, do mundo, abertas a qualquer atividade não religiosa.

ÉTICA: Qualidade da ação fundada em valores morais; pode também significar a área da
Filosofia que trata da moralidade da ação humana e ainda pode ser considerada como a ciência
do comportamento moral dos homens em sociedade.
SEVERINO. 1999, p.138 e NALlNI, 1999, p. 34

FEUDO: Unidade produtiva da época Medieval, grande extensão de terra que pertencia a um
senhor feudal.

FILOSOFIA: Surgiu procurando desenvolver o logos (saber racional) em contraste com o mito
(saber alegórico). Ela é um corpo de conhecimento, constituído a partir do esforço do ser
humano para compreender o mundo e dar-lhe um significado compreensivo [n.] é um
instrumento de ação.
LUCKESI, 2000, p.22.

HERESIA: Toda doutrina que fosse contrária aos dogmas da Igreja católica; crimes contra a fé
católica

HUMANISMO: Procura de uma imagem do homem e da cultura, em contra posição às


concepções predominantemente teológicas da Idade Média e ao espírito autoritário delas
decorrentes.
ARANHA, 2002.

IDEOLOGIA: conceitos e valores particulares de um grupo social passados a todos como se


fossem universais.
SEVERINO, 1996.

INATISMO: Concepção segundo a qual as idéias ou os princípios já existem na mente dos


indivíduos e portanto não surgem de fora para dentro.
ARANHA, 2002, p. 238.

LEI DAS DOZE TÁBUAS: Código Jurídico baseado em velhos costumes e em novas leis plebéias.

LEIGO: Quem não é eclesiástico que não segue a carreira religiosa.

NOBRE: Classe social que possuía privilégios de nascimento, geralmente eram proprietários de
terras.

RATIO STUDIORUM: Plano de estudos da Companhia de Jesus, aprovado em 1599, que ainda
hoje é o método ministrado nos colégios jesuítas.
LUZURIAGA, 2001, p. 118.

SERVOS: Classe social que prestava serviços à nobreza e ao clero, não eram proprietários.
SÍMBOLO: Um elemento adotado de forma convencional como representação de um outro
elemento, ou seja, são mediações de que nos servimos para lidar com os objetos, com as
circunstâncias e até mesmo com outros símbolos.

TOTALITÁRIO: É a ação que centraliza todas as decisões e poderes em uma pessoa ou grupo de
pessoas. Na educação isso se refletia na autoridade total e incontestável do mestre.

TRIBUNATO DA PLEBE: Grupo de dez pessoas que representavam os plebeus na política


romana.

Referências

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Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação | 107


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