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Aonde está você agora, além de aqui dentro de mim?

Aonde está você agora, além de aqui dentro de mim?

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Publicado porNatalia Hanssen
“Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou”.
“Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou”.

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Published by: Natalia Hanssen on Mar 24, 2011
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03/24/2011

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Título: Aonde está você agora, além de aqui dentro de mim? Autor: Naty L. Potter Beta: Todinho a.k.a.

Marcia Litman Categoria: Challenge NFF Outubro/2010 Momento Histórico, Tributo NFF Renato Russo, Songfic, Drama. Classificação: PG-13 Advertencias: Nenhuma Capítulos: One-Shot Completa: Sim Bases: Momento Histórico: Ditadura Militar Brasileira. Música Renato: Vento no Litoral Resumo: Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou .

Era dia 20 de novembro de 1970. Uma moça jovem, talvez com seus vinte e poucos anos, observava o mar, sentada a uma pedra. Suas roupas expressavam muito sobre seu caráter, como, por exemplo, o fato de que ela não ligava mais para o mundo ao seu redor. Ainda utilizava vestes de meados da década de 60, como saias longas e de modelo evasê, e blusas de tecidos leves. Ela contrapunha totalmente o estilo aplicado a nova década, em que a ousadia ressaltava em cada humano que passava pelas ruas, talvez como forma de revolta ao governo militar que já comanda o país há alguns anos. Suas roupas também eram negras. Negras como seus cabelos ondulados e um pouco mal tratados. E naquela época essa cor só podia significar uma coisa: luto. Para os moderadores daquela pequena cidade a cena não era novidade. Todas as tardes ela aparecia ali, naquela praia. Sempre escolhia uma pedra diferente, dizendo a si mesma que assim não seria uma rotina, e então ficava por horas observando o ir e vir das ondas, esperando que elas lavassem a sujeira de sua alma, a dor que tanto a atormentava.
De tarde eu quero descansar, chegar ate a praia e ver Se o vento ainda está forte E vai ser bom subir nas pedras Sei que faço isso pra esquecer Eu deixo a onda me acertar E o vento vai levando tudo embora

Há pouco mais de um ano que tudo acontecera. Seu marido, José, havia feito algo muito, muito errado as vistas do governo. Na verdade, ele havia falado mal deste. E não por menos, também pensou como poucos e agiu; sim, ele armou uma rebelião contra os vigilantes e guardas de sua cidadezinha, sonhando em mudar o país pedaço por pedaço. Ledo engano. Ninguém podia contraria o governo, ninguém. E sua esposa lhe avisara, implorara-lhe para esquecer tudo isso e tentar viver uma vida tranqüila, mas ele não lhe dera ouvidos. Ele sonhava com um futuro melhor. O futuro que ambos imaginavam desde a adolescência juntos e agora não podiam concluir. Mas ele queria, e ele iria lutar por isso. Planos não passam de sonhos quando não executados, dizia ele.
Agora está tão longe Vê, a linha do horizonte me distrai:

Dos nossos planos é que tenho mais saudade, Quando olhávamos juntos na mesma direção

E agora ela podia ver que ele estava certo. Não sobre ter que lutar, mas sobre planos e sonhos e realizações... Todos os planos arquitetados dia após dia por eles haviam se transformado magicamente em sonhos. Sonhos que jamais se realizariam. Por mais contraditório que isso soe, o que aconteceu foi que ele lutou por um futuro melhor, e tudo o que conseguiu foi um futuro pior. Tudo o que eles haviam querido agora não passavam de visões, de devaneios, e ilusões. Ela vivia cada um deles toda noite, enquanto dormia, mas nada mais. Estava tudo na cabeça dela agora, amor, paz, alegria... ele.
Aonde está você agora Além de aqui dentro de mim?

No fundo ela sabia que ele não havia agido errado. Ele lutou pelo o que acreditava, ele foi em busca do que queria, e o que ele queria era desmanchar uma política cruel e autoritária. José estava certo, mas infelizmente, os poderosos não pensavam assim. Talvez se isso acontecesse em outra época. Talvez anos antes, ou talvez depois, a história pudesse ter tomado outro rumo. Mas não. Ela desejava que ele estivesse lá, lhe abraçando e dizendo que tudo ficaria bem, pois só ele conseguia lhe passar segurança com tais palavras. No fundo ela sabia que ele estava, e talvez isso machucasse mais. Queria seu corpo, sua presença... Mas ela não podia desistir, e por isso estava lá. José morrera para que eles tivessem algo a mais, e ela não podia jogar tudo fora. Por isso ela agüentava a tudo, firme e forte, e ia até a praia todos os dias, zelar pelo seu conforto onde quer que ele estivesse e buscar uma fonte de energia para continuar seguindo.
Agimos certo sem querer Foi só o tempo que errou Vai ser difícil sem você Porque você está comigo o tempo todo E quando eu vejo o mar, Existe algo que diz, Que a vida continua E se entregar é uma bobagem Já que você não está aqui, O que posso fazer é cuidar de mim Quero ser feliz ao menos Lembra que o plano era ficarmos bem?

Desceu da pedra em que estava e caminhou em direção ao oceano, onde deixou as ondas molharem levemente seus pés. A sua volta ele via algumas ± poucas - famílias felizes. Algumas crianças que brincavam, talvez não tão alegres quanto era de se esperar, mas brincavam. E era por isso que ela ia a praia todos os dias. Porque lá ela sempre via uma pontinha de felicidade. Lá, naquelas águas gélidas do mar, ela sentia um fio de vida que ainda havia a sua volta. E assim ela arrumava forças para continuar.

- Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos Sei que faço isso pra esquecer Eu deixo a onda me acertar E o vento vai levando tudo embora

~ fim ~

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