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c O primeira novela de Machado de Assis maduro. Eis um texto que está entre
conto e novelaO graças à sua extensão. Vale já pelo sabor de seu humor e ironia. Mas há
que se ver na obra elementos típicos da produção realista de Machado de AssisO
principalmente a análise psicológica e a crítica social.

A primeira edição em livro da obra é de 1882O quando aparece incorporado ao volume



  . Anteriormente havia sido publicado em   (Rio de Janeiro)O de
15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. É dessa época também 
      que se tornaria um verdadeiro ponto de irradiação da obra da
segunda fase de Machado de Assis. c  éO sem dúvidaO apresenta bastantes
pontos de contato com esse romance monumental.

Para muitos críticosO c  se classifica como uma novela; sem dúvidaO levados
pelo número de páginas que em algumas ediçõesO chega a mais de oitenta. OutrosO
conduzidos pela análise íntima da narrativaO classificam-na entre os contos
machadianosO no que estão certos.

Já foi dito que o mergulho machadiano na mente de suas personagensO montando um


micro-realismoO torna-o cego para questões sociais. No entantoO o presente conto é
prova de que no nosso grande escritor o que ocorre é a soma desses dois campos. A
personalidade é influenciada por forças sociais; por sua vezO a sociedade é influenciada
por razões psicológicas. Dessa formaO podemos entender a literatura machadiana como
expressão de problemas psicossociais.

Dentro desse esquemaO pode-se até enxergar uma semelhança entre o autor e o
protagonistaO Simão BacamarteO poisO como alienista (entende-se por alienista o médico
que se especializava em cuidar de problemas ligados à menteO algo como hoje seria o
serviço de um psiquiatra)O está preocupado em analisar o comportamento dos habitantes
da cidade em que está instalado e como a conduta influencia as relações sociais.

O mais interessante é notar aqui o caráter alegóricoO ou sejaO representativo que a


narrativa assume. Tudo se passa em ItaguaíO pequena cidade do interior do Rio de
JaneiroO durante o período colonial. Cria-se um clima de ³era uma vezO num lugar
distante...´ Dessa formaO o que se passa nessa localidade é o que no fundo ocorre em
toda nossa civilização.
Em c  o escritor nos propõe o problema da fixação de fronteiras entre o normal
e o anormal da mente humana. Traçando uma linha rígida de procedimento profissionalO
o médico Simão Bacamarte aparece como símbolo de uma ciência friaO toda baseada na
razãoO fechada e sem frestas para a intuição ou a poesiaO como caminho de
conhecimento.

Todo o conto se desenvolve em tom de austeridadeO embora as entrelinhas; o autor não


descerra os lábiosO como aquela falada alegria do alienistaO que era ³alegria abotoada até
o pescoço´. Pintando o Dr. Simão Bacamarte como pessoa inteiramente consagrada aos
livrosO enfronhado em autores célebresO acatando as prescrições da ciência como
dogmas de féO e confundindo tudo na sua própria ciênciaO um tanto de cabalaO Machado
de Assis distribui em torno dessa curiosa personagem centralO numa difusa alegoriaO
figuras secundáriasO mas cheias de interesse humanoO e todas com papel de
responsabilidade na peça.

Nem comédiaO nem tragédia. Sutilmente aparecem loucos furiososO trancados em


alcovasO até a morte; loucos mansosO andando à solta pela rua. IssoO antes da chegada do
Dr. BacamarteO que viria descobrir loucura até nas pessoas normais. Aos poucos se vai
insinuando no leitor a desconfiança no equilíbrio mental do alienistaO em quem a cidadeO
a principioO acreditaO vendo nele a sua grande figuraO eO por issoO concordando com a sua
ciênciaO dentro do prolóquio ² ³de médico e louco todo mundo tem um pouco´.

Para contrastar o grande homemO lá está a esposaO que o ama e lhe admira o saberO desde
que permaneça abstratoO teóricoO sem aplicação. Por issoO não segue o regime alimentar
por ele prescritoO e tem ciúmes dos estudos que lhe tiram a primazia nas preocupações
do alienista. Já o farmacêutico é a bajulação interesseiraO aproveitando as manias do
doutor para obter vantagens ² o próprio cachorro bebendo água na sombra do boi.

No maisO é o desfile de tipos humanos: o pródigoO o novo-ricoO o orador de sobremesaO o


ingratoO tantos outros que o leitor irá descobrindo. A revoltaO com sua dose de acasos e
qüiproquóO propicia a exibição costumeira do adesismoO da covardia moral e das
fraquezas que poderiam viver e morrer na sombraO se a comoção social não as tivesse
feito desabrochar inesperadamente.

Em c  já encontramos o Machado de Assis definitivoO dono e senhor de sua


expressãoO traduzindo em recursos de estilo certas característicasO por assim dizerO
labirínticas do seu modo de pensar. Preocupado com a infidelidade das palavrasO
pesando-asO examinando-lhes as facetasO contra ou a favor da luz; escritor em quemO
aparentementeO a linguagem é a preocupação maiorO quandoO na verdadeO só houve
preocupação de dar às idéias vestimenta adequada e autêntica.

  

Trata-se de um conto um tanto longoO estruturado em treze capítulos. Quanto à


montagemO é interessante observar que Machado de Assis se fundamenta em possíveis
"crônicas". Observe queO com alguma freqüênciaO ele se refere aos "cronistas" e às
"crônicas da vila de Itaguaí" comoO aliásO tem início c :     
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Também o fecho do conto apresenta a mesma referência: $!   "  
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 .

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O narrador é em 3ª pessoaO portantoO onisciente. A intenção do narrador é a análise do


comportamento humano: vai além das aparências e procura atingir os motivos
essenciais da conduta humanaO descobrindoO no homemO o egoísmo e a vaidade. A
intencionalidade crítica do narrador não se reflete somente ao ser humano de forma
geral. Ele criticaO tambémO a postura do cientista e do extremo cientificismo do final do
século XIX. ConseqüentementeO o narrador termina por criticar a Escola Naturalista.

           c 

Ô Arases Curtas.

 Linguagem correta

 Conversa com o Leitor.

 Análise psicológica das personagens

  c  "Casa de Loucos". EO aparentementeO ele deseja servir à ciência.


PorémO por trás dos atos aparentemente bonsO surpreende-se a intenção verdadeira de
Bacamarte:atingir a glória e ser a pessoa mais importante de Itaguaí. É Machado
desmascarando a hipocrisia humana.

c    !  Conhecer as fronteiras entre a razão e a loucura. Na


realidadeO ele pretendia buscara glóriaO através de um estudo da patologia cerebral.Obs.:
através de BacamarteO Machado de Assis critica os cientistas da épocaO queO para eleO
não tinham os conhecimentos suficientes e necessários. Esse conhecimento era bazófia
(da boca para fora).

 !  " - A aprovação cessa quando Simão Bacamarte


recolheO na Casa VerdeO pessoas em cuja loucura a população não acredita. Para Simão
BacamarteO o homem é considerado um caso que deve ser analisado
cientificamente.Obs.: Machado de Assis critica a postura cientificista que não vê o ser
humano na sua integridade corpo x alma.

     !

#  Ô são loucos aqueles que apresentarem um comportamento anormal de acordo


com o conhecimento da maioria.

#   ampliou o território da loucura:  ! 


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#   os loucos agora são os leaisO os justosO os honestos e imparciais. Dizia que se
devia admitir como normal o desequilíbrio das faculdades e como patológicoOo seu
equilíbrio.

#   o único ser perfeito de Itaguaí era o próprio Simão Bacamarte. LogoO somente
ele deveria ir para a Casa Verde.

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Percebe-se que toda a história se passa no passadoO havendo o uso do flash back: "As
crônicas da Vila de Itaguaí dizem queO em tempos remotosO vivera ali um certo médico:
o Dr. Sr. Bacamarte.

"O tempos remotos" a que se referem as crônicasO pelas indicações dadasO se remontam
à primeira metade do século XVIII (= reinado de D. João V).

A ação transcorreO como já se viuO em ItaguaíO "cidadezinha do Estado do Rio de


JaneiroO comarca de Iguaçu"O conforme declara o crítico Massaud Moisés em nota de
pé-de-página da edição que estamos consultando.

c  

Ô Aspectos de crítica sócio-política: Na figura do PorfírioO analisa-se o político sempre


buscando vantagens pessoais. No povo da cidade de ItaguaíO percebe-se a submissãoO a
fácil manipulaçãoO bastandoO para issoO conhecimento ou liderança.

 Humor amargo de Machado de Assis - visão irônica e amarga que enfatiza aspectos
negativos denunciadores da frustração humana: o autor utiliza o humor para criticar a
hipocrisia humanaO provocada por um sistema social regido pela falta de valores. O
homemO para MachadoO é acima de tudoO ganancioso e movido pela intenção de poder.

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*. Machado de Assis chama a atenção para a relatividade da
ciência. Observe-se queO a cada teoria que ele criaO ele pensa estar diante de uma
verdade absoluta paraO em seguidaO perceber que isso não é verdade.

 Em c O Machado de Assis revela uma visão satírica e irônica da mentalidade


cientificista que marca o século XIX - O Naturalismo. O Realismo aproveitaO tambémO
nos seus romancesO algumas características filosófico-científicas da época. PorémO
condena os excessos do Naturalismo.

 &

'  ! - é o protagonista da estória. A ciência era o seu universo ± o


seu "emprego único"O como diz. "Homem de CiênciaO e só de CiênciaO nada o
consternava fora da Ciência" (p. 189). Representa bem a caricatura do depotismo
cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Acabou se tornando
vítima de suas próprias idéiasO recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único
cérebro bem organizado de Itaguaí.

'   é a eleita do Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas.
Embora não fosse "bonita nem simpática"O o doutor a escolheu para esposa porque ela
  * '   
 #  

 -
( '(  #   . Chegou a ser recolhida à Casa VerdeO certa vezO
por manifestar algum desequilíbrio mental.

    era o boticário. Muito amigo do Dr. Bacamarte e grande admirador de
sua obra humanitária. Também passou pela Casa VerdeO pois não soube "ser prudente
em tempos de revolução"O aderindoO momentaneamenteO à causa do barbeiro.

  (   era o vigário local. Homem de muitas virtudesO foi recolhido também à
Casa Verde por isso mesmo. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima
se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraicoO embora não soubesse nada
dessas línguas. Aoi considerado normal apesar da aureola de santo.

)    sua participação no conto é das mais importantesO posto que
representa a caricatura política na satírica machadiana. Representa bem a ambição de
poderO quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Aoi preso na Casa Verde
duas vezes; primeiroO por Ter liderado a rebelião; segundoO porque se negou a participar
de uma Segunda revolução: "preso por Ter cãoO preso por não Ter cão" (pág 229).

Outros figurantes aparecem no conto. Cada um representando anomalias e possíveis


virtudes do ser humano. Há loucos de todos os tipos no livro. Daí a presença de tanta
gente...



O protagonistaO depois de títulos e feitos conquistados na Europa (apesar de suas ações


aparentemente disparatadasO a personagem é alguém amplamente aceito pelo EstadoO
estabelece-se em Itaguaí com a idéia de criar um manicômio (Casa Verde)O que lhe seria
um meio de estudar os limites entre razão e loucura. No entantoO sua metodologia de
estudo é que o diferenciará radicalmente de Machado de Assis. Em sua frieza analíticaO
Simão assumirá um tom tão rígido que acabará se tornando caricaturescoO falho e
absurdo (parece haver aqui critica ao rigor analítico do determinismo cientificista que
andava em moda na literatura da época de Machado de AssisO principalmente a de
aspecto naturalista). O problema é que o especialista vem investido do apoio oficial de
todo o aparelho do EstadoO o que faz alguns críticos enxergarem nessa obra não uma
preocupação com a abordagem psicológicaO mas uma crítica de alcance político. O
conto seriaO portantoO uma forma de questionamento contra o autoritarismo massacrante
do sistema.

Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e perfeitamente aceitos pela


sociedade de Itaguaí. Mas começa a haver uma seqüência de escolhas que surpreendem
os cidadãos da pequena cidade. O primeiro é o CostaO que havia torrado sua herança em
empréstimos que se tornaram fundo perdido. O pior é que se sentia envergonhado de
cobrar seus devedoresO passando a ser até maltratado por estes. Depois foi a prima do
mão-abertaO que tinha ido defender seu parente com uma mirabolante história de que a
decrepitude financeira se devia a uma maldição (o mais hilário é que essa mulher fora
ao hospício para defender o primo eO após contar tal históriaO acaba sendo na hora
internada. AumentaO aquiO o terror sobre uma figura tão déspota e traiçoeira como Simão
BacamarteO pelo menos na visão do povo de Itaguaí).

Após essesO é internado o albardeiro Mateus (profissional que faz albardasO ou sejaO selas
para bestas de carga. É uma profissão bastante humildeO tanto que a palavra albarda
também significa ³humilhação´. HáO portantoO uma carga negativa associada a essa
profissão. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio)O que se deliciava em
ficar horas admirando o luxo de sua enorme casaO ainda mais quando notava que estava
sendo observado. Essa personagem serve para que reflitamos questões como a
valorização exagerada do status e até mesmo uma análise do preconceitoO pois a maioria
da cidade não aceitava um homem de origem e trabalho humilde possuir e ostentar tanta
riqueza.

Apenas esses atos já foram suficientes para deixar a cidade em polvorosa. AssimO todos
anseiam pela volta de D. EvaristaO esposa de Simão BacamarteO que havia ido para o Rio
de Janeiro como maneira de compensar a ausência do maridoO tão mergulhado que
estava em seus estudos (é interessante lembrar a relação que o casal estabelece. Ela é
extremamente apaixonadaO algumas vezes dramática (se bem que o narrador deixa um
tom de descrédito ao sempre afirmar que essa caracterização é baseada nos cronistas da
época). Ele é frioO unindo-se a uma mulher não preocupado com sua belezaO mas com
aspectos práticosO como a capacidadeO o vigor para reprodução. Chega até a bendizer o
fato de ela não ser bonitaO pois seria menos dor de cabeça). Para os cidadãosO ela era a
esperança de salvação daquele terror constante e aparentemente arbitrário. Por issoO a
maneira festiva com que foi recebida.

No entantoO em meio a um jantar em homenagem à salvadora senhoraO Martim BritoO


um jovem dotado de exibicionismo de linguagemO faz um elogia um tanto exagerado:
Deus queria superar a Si mesmo quando da concepção de D. Evarista. Dias depoisO o
janota estava internado.

Logo apósO Gil BernardesO que adorava cumprimentar todosO até mesmo criançasO de
maneira até espalhafatosaO é confinado. Depois CoelhoO que falava tanto a ponto de
alguns fugirem de sua presença.

Pasma diante de aparente falta de critérioO Itaguaí acaba tornando-se um barril de


pólvora prestes a explodir. Aproveitando-se dessa situaçãoO o barbeiro PorfírioO que há
muito queria fazer parte da estrutura de poderO mas sempre tinha sido rejeitoO arma um
protesto com intenções revolucionárias (note que a questão pessoal (Coelho tinha
negócios importantes com Porfírio que tinha sido interrompidos com a internaçãoO sem
mencionar o sonho por poder da personagem) é disfarçada em preocupações altruístas.
Bem machadiano esse aspecto dilemático da realidade).

Depois de ter seu requerimento desprezado pela Câmara de VereadoresO une-se a vários
outros descontentes. Há uma esmorecimento quando se descobre que Simão havia
pedido para não receber mais pelos internos da Casa Verde. Configura-se a idéia de que
as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos.

No entantoO Porfírio consegue fôlego e institui uma insurreiçãoO que recebe até o seu
apelido: Revolta dos Canjicas. Vão até a casa do alienistaO mas este os recebeO de sua
sacadaO de forma equilibrada e sem a mínima disposição em se demover de sua
metodologia científica. A fúriaO que tinha sido momentaneamente aplacada pela frieza
do oponenteO é instigada quando este lhes dá as costas e volta aos seus estudos.

ProvidencialmenteO a polícia da época (dragões) surgeO com a intenção de sufocar o


levante. O mais espantoso é queO justo nesse momento em que o jogo parecia perdido
para PorfírioO tudo se volta a seu favor: os componentes da guardaO provavelmente
enxergando injustiça na ditadura científicaO passam para o lado dos revoltosos. Era tudo
o que o líder mais queria ± poder absoluto.

Surpreendentemente (ou não)O fortalecidoO Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige


para a Câmara dos Vereadores para destituí-la. Senhor supremoO no dia seguinte
encontra-se com o alienistaO que já friamente (como de costume) esperava ser demitido.
ImpressionantementeO o novo governante afirma que não vai meter-se em questões
científicas.

Configura-se aqui uma crítica a tantas revoluções que ocorreram na História e que estão
por ocorrer. Entende-se que elas são na realidade movidas por interesses coletivos
autênticosO mas que acabam sendo manipuladas e servindo de trampolim para que
determinadas pessoas subam ao poder por outros motivosO mais egoístas.

Provavelmente todas essas idéias passaram na mente de Simão no momento em que


Porfírio veio expressar-lhe apoio em seu trabalho sanitário. Tanto que pergunta quantos
pessoas haviam morrido na revolução. São os dois casos que descobre como matéria de
estudo. O primeiro é o fato de gente ter perdido a vida por um levante que tinha a
intenção de derrubar a Casa Verde e agora tudo ficar esquecido. O segundo é o Porfírio
antes se levantar ferozmente contra Porfírio e agora considerá-lo de extrema utilidade
para o seu novo governo. O que virá daí já se sabe.

Dias depoisO 50 apoiadores da revolução são internados. Porfírio ficou desnorteadoO


mais ainda porque um seu opositorO o barbeiro João PinaO levanta-se contra. Na
realidadeO este não estava interessado em questões sociaisO mas tinha uma rixa pessoal
com o outro barbeiro. Conseqüência: arma uma balbúrdia tamanha que acaba
derrubando o Canjica.

Mas o novo poder não destitui a Casa Verde. Aortalece-a. Mais gente é confinada.
CrispimO assistente e bajulador do alienistaO que apóia Porfírio no momento que pensava
que Simão havia caído. Depois o Presidente da Câmara dos Vereadores. O clímax deu-
se quando a própria esposa do alienistaO extremamente preocupada com jóias e vestidosO
a ponto de não conseguir dormir por não saber como iria numa festaO acaba sendo
internada. Ao mesmo tempo que era a prova de que Bacamarte não tinha intenções
egoístasO pois até a própria consorte tinha se tornado vítimaO tornava também patente a
arbitrariedade a que Itaguaí estava submetida.

Certo tempo depoisO como num feito rocambólicoO a cidade recebe a notícia de que
Simão determinou a soltura de todos os ³loucos´ da Casa Verde. Na verdadeO o cientista
havia notado que 75% dos moradores estavam confinados. EstatisticamenteO portantoO
sua teoria estava erradaO merecendo ser refeita.

Esse recuoO além de demonstrar um rigor científico louvávelO pois demonstra que o
protagonista não está preocupado com vaidadeO tanto que reconhece que erraO exibe
mais elementos interessantes para a interpretação do conto. Pode-se dizer que exibe uma
questão polêmica: quem é normal? O que segue a maioria? Se 75% apresentam desvios
de personalidadeO desvios do padrão (era essaO finalmente reveladaO a regra que
determinava quem era e quem não era são)O então o normal seria não seguir um padrão.
Aora essa questão polêmicaO deve-se perceber a força que o EstadoO por meio da Casa
Verde (tanto é que mudavam os poderososO mas o sistema continuava o mesmo)O
assumia em determinar quem estava na linha e quem não estava. Todos tinham de se
encaixar a uma norma.

EnfimO dentro da nova teoria (louco era quem mantinha regularidadeO firmeza de
caráter)O o terror recomeça. O vereador Galvão é o primeiro a ser internadoO porque
havia protestado contra uma emenda da Câmara que instituía que somente os vereadores
é que não poderiam ser reclusos. Sua alegação era a de que os edis não podiam legislar
em causa própria. A esposa dedicada de Crispim é também alocada na Casa Verde. O
barbeiro fica louco. Um inimigo de Simão se vê na obrigação de avisar o alienista do
risco de vida que o cientista corria. Por tal desprendimentoO na hora acaba sendo
confinado. Até PorfírioO volta a ser presoO poisO conclamado a preparar outra revoltaO
recusa-seO pois se tocou que gente havia perdido a vida na Revolta dos Canjicas para o
resultado ser infrutífero. Ao ser presoO resumiu bem sua situação: preso por ter cãoO
preso por não ter cão.

Alguns casos são interessantes. Pessoas que se demonstram firmes em sua


personalidade são consideradas curadas quando exibem algum desvio de caráter. Assim
foi com um advogado de conduta exemplar que só não foi internado porque havia
forçado um testamento a ter a partilha do jeito que queria. Ou então quando a esposa do
Crispim xinga-o ao descobrir o verdadeiro caráter do marido.

PorémO fora esses casosO Simão vai percebendo que seu segundo método era falhoO pois
ninguém naturalmente tinha uma personalidade retaO perfeita. Com exceção dele
próprio. É por isso queO após muita reflexão e muita conversa com pessoas notórias da
cidadeO principalmente o padre (que já havia sido internado)O conclui que o único
anormal era ele próprio. A despeito dos protestos de muitosO inclusive de D. EvaristaO
decideO poisO soltar todos mais uma vez e encerrar-se sozinho na Casa Verde para o resto
de sua vida.
O    * + 

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Narrado em 3ª pessoa (ao contrário das obras anteriores de Graciliano Ramos)O .
& pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos. Nesta obra
não é a personagem que ressalta neleO mas o narrador que se faz sentir pelo discurso
indiretoO construído em frases curtasO incisivasO enxutasO quase sempre em períodos
simples. A obra pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos.
Possui 13 capítulos até certo ponto autônomosO mas que se ligam pela repetição de
alguns motivos e temasO como a paisagem áridaO a zoomorfização e antropomorfização
das criaturasO os pensamentos fragmentados das personagens e seu conseqüente
problema de linguagemO seu Tomás da bolandeiraO a cama de varas de sinhá Vitória etc.

O que une os episódios no livro é a utilização de vários motivos recorrentes (a paisagem


áridaO a zoomorfização e antropomorfização das criaturasO os pensamentos fragmentados
das personagens e seu conseqüente problema de linguagemO seu Tomás da bolandeiraO a
cama de varas de sinhá Vitória etc.)O que dada a sua redundância e a maneira como são
distribuídosO chegam a constituir um verdadeiro substituto da ação e da trama do livro.

Também as personagens são focalizadas uma por vezO o que mostra o afastamento
existente entre elas. Cada uma tem sua vida particularO acentuando-se a solidão em que
vivem. . & éO portantoO a dramática descrição de pessoas que não conseguem
comunicar-se. Nem os opressores comunicam-se com os oprimidosO nem cada grupo
comunica-se entre si. A nota predominante do livro é o desencontro dos seres. Os
diálogos são raros e as palavras ou frases que vêm diretamente da boca das personagens
são apenas xingatóriosO exclamaçõesO ou mesmo grunhidos. A terra é secaO mas
sobretudo o homem é seco. Daí o título . &% O discurso do narrador é
igualmente construído com frases curtasO incisivasO enxutasO quase sempre períodos
simples. Escritor extremamente contidoO com o pavor da verbosidadeO Graciliano
prefere a eloqüência das situações fixadas à eloqüência puramente verbal. O que há de
libelo no livro se inclui na sua própria estrutura e não em discursos das personagens ou
do autor.



 Ô  2  

É a história da retirada de uma famíliaO fugindo da seca. Aazem parte dela AabianoO sua
esposa VitóriaO dois filhosO caracterizados pelo autor apenas como " menino mais novo"
e "o menino mais velho"O e a cachorra Baleia (deve-se lembrar que o romance fala em
seis viventesO contando com o papagaio que eles comeram por não haver comida por
perto). Nesse capítulo temos a descrição da terra árida e do sofrimento da família. As
personagens não se comunicam; apenas duas vezes o paiO irritado com o menino mais
velhoO xinga-o. Essa falta de diálogos permanece por todo o livroO como também a
intenção de não dar nome às criançasO para caracterizar a vida mesquinha e sem sentido
em que vivem os retirantesO que não têm consciência de sua situaçãoO emboraO ainda
nesse primeiro capítuloO Aabiano e Vitória sonhem com uma vida melhor: "&(
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Mais adiante é Aabiano quem sonha: "&( .     
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Mostra o homem embrutecidoO mas ainda capaz de analisar a si próprio. Tem a


consciência de que mal sabe falarO embora admire os que sabem se expressar. E chega à
conclusão de que não passa de um bicho.

   „

AquiO pela primeira vezO aparece a figura do soldado amareloO que mais tarde voltará
simbolizando a autoridade do governo. IgualmenteO pela primeira vezO insinua-se a idéia
de que não é apenas a seca que faz de Aabiano e sua família pessoas animalizadas. Ele é
preso sem qualquer motivo e toma a analisar sua situação de homem-bicho. Só queO
desta vezO não tem mais coragem de sonhar com um futuro melhor. Ao fim do capítuloO
temos Aabiano ciente de sua condição de homem vencido eO pior aindaO sem ilusões com
relação à vida de seus filhos.

   - 

Se as aspirações do marido resumem-se em saber usar as palavras adequadas a uma


situaçãoO a de Vitória é uma cama de couro. Também essa cama será motivo diversas
vezes repetido no decorrer da obraO como veremos adiante. Além de ser a personagem
que melhor articula palavras e expressõesO conseqüência de ser talvez a que mais tem
tempo para pensarO uma vez que Aabiano trabalha o dia todo e à noite dormeO sem ter
coragem para devaneios ou para falsear sua dura realidadeO ela é caracterizada como
esperta e descobre "   patrão    contas do marido (no capítulo ).

 ,  c 2 2  

Também ele possui um ideal na vida: o de se identificar ao pai. No início do capítulo:


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Adiante: "     1%   '2    " 

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   #
    #    '   4   #  (
  6   "  (   
% O nível das aspirações dos
componentes da família decresce cada vez mais. O ideal do menino mais velho é o de
ter um amigo. A amizade de Baleia já lhe servia: "c      -% 
 (-
  -# '    5 %

 .  [

Temos a descrição de uma noite chuvosa e os temores e devaneios que desperta na


família de Aabiano. A chuva inundava tudoO quase inundava a casa deles tambémO mas
eles sabiam que dentro em pouco a seca tomaria conta de suas vidas outra vez.

 /  A

Apresenta primeiramente os preparativos da ' # em casaO para ir à festa de Natal na


cidade eO em seguidaO dirigindo-se à festa. ÉO senão o maisO um dos mais melancólicos
capítulos do livro ² quando as personagens centrais da históriaO em contato com outras
pessoasO sentem-se mais humilhadasO mesquinhas e ate mesmo ridículas. Percebem a
distância em que se encontram dos demais seres e isso é novo motivo de humilhação
para eles. Resta a sinhá Vitória a solução do devaneio: "&( . 5 #
   #     4  %    %

Para AabianoO não há esperanças: "1   




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%     ( 
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      -  '*  %

 0  ^

Conta a morte da cachorra. Caíra-lhe o pêloO estava pele e ossosO  corpo enchera-se de
chagas. Aabiano resolve matá-la para aliviar os sofrimentos dela. Os filhos percebem a
situaçãoO magoados e feridos por perderem um ³irmão´: "   
 
' 0   /   ,#
  !   ' %%%

Já feridaO com os demais membros da família chorando e rezando por elaO Baleia espera
a morte sonhando com outro tipo de vida: " "    '!#  
  ( 
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  #     
 #   (" 
% c   '  ( 
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Percebe-seO aliásO que dos seis componentes da famíliaO Baleia é quemO ao lado de
VitóriaO com maior clarezaO consegue elaborar seus devaneios.

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É outro capítulo melancólico. Se em  Aabiano conscientiza-se de que há no


mundo homens queO por possuírem uma posição social diferente da deleO podem
machucá-loO se em 1 os familiares percebem sua situação inferior e desajeitada e
sentem-se ridículosO agora chegam à conclusão de que pessoas com dinheiro também
podem aproveitar-se deles. São duas as reações de Aabiano ao notar-se roubado pelo
patrão: primeiro revoltaO depois descrença e resignação. Vale a pena ressaltar nesse
capítulo que é sinhá Vitória quem percebe que as contas do patrão estão erradas. Ela é
caracterizada como a mais arguta e perspicaz dos seis viventes da família.

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Temos uma descrição mais profunda desta personagem. Observa-se queO fisicamenteO é
menos forte que Aabiano; moralmente é uma pessoa corruptaO enquanto Aabiano é
honesto; contudo é por ele respeitado e temidoO por ocupar o lugar de representante do
governo.

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A seca está para chegar outra vezO prenunciando mais miséria e sofrimento. Aabiano faz
um resumo de todas as desgraças que têm marcado sua vida. Há muito não sonha mais.
Seus problemas agora são livrar-se de certo sentimento de culpa por ter matado Baleia e
fugir de novo.

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Continua a análise de Aabiano a respeito de sua vida. A esposa junta-se a ele e refletem
juntos pela primeira vez. Vitória é mais otimista e consegue transmitir-lhe um pouco de
paz e esperança por algum tempo. E numa mistura de sonhosO descrenças e frustrações
termina o livro. Graciliano Ramos transmite uma visão amarga da vida dos retirantes

 

. & começa por uma fuga e acaba com outra. No início da leitura tem-se a
impressão de que Aabiano e sua família fogem da seca: "      % 
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O último capítuloO 1 O descreve cena semelhante: "   '!  
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O romance decorre entre duas situações idênticasO de tal modo que a fimO encontrando o
principioO fecha a ação num circulo. Entre a seca e as águasO a vida do sertanejo se
organizaO do berço à sepulturaO a modo de retorno perpétuo.

Mas será apenas a seca o motivo dessa fuga? Percebemos no romance a descrição de
dois mundos: o mundo de Aabiano e o mundo composto pela sociedade. Do primeiroO
fazem parte AabianoO sinhá VitóriaO o menino mais velhoO o menino mais novoO Baleia e
o papagaio. Do segundoO seu Tomás da bolandeiraO o patrão de Aabiano e o soldado
amarelo. Tanto as personagens do primeiro grupo como as do segundo vivem na mesma
regiãoO sofrendo todas a mesma seca. Por que não foge dela o patrão de Aabiano?
Porque ele possui as terras e o dinheiroO porque ele emprega os trabalhadores segundo
suas próprias leisO fazendo deles meros escravos sem qualquer direito a uma vida digna
e independente.

Caracterizado como dono e opressorO o patrão não tem necessidade de fugir da seca. De
seu Tomás também Aabiano sente-se distante. Porque seu Tomás era cultoO sabia
comunicar-se com precisãoO ao passo que eleO AabianoO só sabia grunhir e mal articulava
uma ou outra palavra.

Se o dinheiro do patrão representa um fator de humilhação para AabianoO a linguagem


de seu Tomás significa a cultura e a educação que Aabiano jamais poderá possuir. E ele
se humilha mais uma vez.

Seu Tomás simboliza ainda um status econômico de segurança e conforto. De fatoO


sinhá Vitória manifesta sempre o desejo de possuir uma cama igual a deleO e esse sonho
é a mais alta aspiração que possui. O soldado amareloO por sua vezO simboliza o
governo. Metido num ³fuzuê sem motivo´O Aabiano acaba preso. Temos agora um
Aabiano não apenas humilhadoO mas vencidoO consciente de sua situação animalizada
dentro de uma sociedade em que os mais fortes sempre vencem os mais fracos. E é por
esse mesmo motivo queO no capítulo c & O ficando as duas personagensO
lado a ladoO sem mais ninguém por perto e AabianoO podendo revidar a injustiça
anteriormente sofridaO resolve deixá-lo em paz.

Aabiano entrevê na organização do Estado a entidade que humilha; o representante


dessa entidadeO às vezesO e até frágilO mas a estrutura condiciona o humilhado à
incapacidade de reagir.

Entre os dois mundos que acabamos de descrever ³não há um sistema de trocasO senão
um mecanismo de opressão e bloqueio´. O que parece ser importante para Graciliano
Ramos é denunciar a desigualdade entre os homensO a opressão socialO a injustiça. São
esses os temas de . &# por isso foi dito no início desta análise que o livro não
deve ser considerado apenas regionalista. Em momento algum o esmagamento de
Aabiano e de sua família é explicado apenas pela seca ou por qualquer fator geográfico.

Já foi feita uma referência anteriormente sobre a consciência de Aabiano quanto à sua
condição animalizada na sociedade a que pertence. Affonso Romano de Sant¶Ana faz
uma aproximação de Aabiano à BaleiaO e de sinhá Vitória ao papagaio. Segundo eleO o
pensamento de AabianoO no capítulo que recebe seu nomeO passa por três etapas:

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A identificação entre sinhá Vitória e o papagaio acentua-se sobretudo no capítulo &(


.O quando ela tenta perceber o sentido da comparação que seu marido fizera do
seu modo de caminhar com o do papagaio: "<# 1   

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A partir dai a imagem dos pés de Vitória vai se fundindo à imagem do papagaioO até que
estilisticamente a superposição se destaca em frases como essas: c( 

 %    . Aí o adjetivo
 já não se refere exclusivamente ao
papagaio que foi morto para matar a fome da famíliaO mas descreve a própria sinhá
Vitória tão ³infeliz´ como aquele ³pobre louro ³. No resto do capítuloO o autor usa de
um processo de recorrência da imagem da aveO agora ampliando-lhe a área semânticaO
referindo-se à galinhaO especialmente a ³galinha pedrês"O devorada pela raposa.