O Alienista (Conto de Papéis avulsos), de Machado de Assis

Recomende esta página para um amigo Versão para impressão Análise da obra O Alienista, primeira novela de Machado de Assis maduro. Eis um texto que está entre conto e novela, graças à sua extensão. Vale já pelo sabor de seu humor e ironia. Mas há que se ver na obra elementos típicos da produção realista de Machado de Assis, principalmente a análise psicológica e a crítica social. A primeira edição em livro da obra é de 1882, quando aparece incorporado ao volume Papéis Avulsos. Anteriormente havia sido publicado em A Estação (Rio de Janeiro), de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. É dessa época também Memórias Póstumas de Brás Cubas que se tornaria um verdadeiro ponto de irradiação da obra da segunda fase de Machado de Assis. O Alienista é, sem dúvida, apresenta bastantes pontos de contato com esse romance monumental. Para muitos críticos, O Alienista se classifica como uma novela; sem dúvida, levados pelo número de páginas que em algumas edições, chega a mais de oitenta. Outros, conduzidos pela análise íntima da narrativa, classificam-na entre os contos machadianos, no que estão certos. Já foi dito que o mergulho machadiano na mente de suas personagens, montando um micro-realismo, torna-o cego para questões sociais. No entanto, o presente conto é prova de que no nosso grande escritor o que ocorre é a soma desses dois campos. A personalidade é influenciada por forças sociais; por sua vez, a sociedade é influenciada por razões psicológicas. Dessa forma, podemos entender a literatura machadiana como expressão de problemas psicossociais. Dentro desse esquema, pode-se até enxergar uma semelhança entre o autor e o protagonista, Simão Bacamarte, pois, como alienista (entende-se por alienista o médico que se especializava em cuidar de problemas ligados à mente, algo como hoje seria o serviço de um psiquiatra), está preocupado em analisar o comportamento dos habitantes da cidade em que está instalado e como a conduta influencia as relações sociais. O mais interessante é notar aqui o caráter alegórico, ou seja, representativo que a narrativa assume. Tudo se passa em Itaguaí, pequena cidade do interior do Rio de Janeiro, durante o período colonial. Cria-se um clima de ³era uma vez, num lugar distante...´ Dessa forma, o que se passa nessa localidade é o que no fundo ocorre em toda nossa civilização.

Preocupado com a infidelidade das palavras. sem aplicação. labirínticas do seu modo de pensar. antes da chegada do Dr. Bacamarte. Nem comédia. fechada e sem frestas para a intuição ou a poesia. No mais. dono e senhor de sua expressão. da covardia moral e das fraquezas que poderiam viver e morrer na sombra. escritor em quem. Machado de Assis distribui em torno dessa curiosa personagem central. Em O Alienista já encontramos o Machado de Assis definitivo. mas cheias de interesse humano. A revolta. Por isso. pesando-as. enfronhado em autores célebres. dentro do prolóquio ² ³de médico e louco todo mundo tem um pouco´. aproveitando as manias do doutor para obter vantagens ² o próprio cachorro bebendo água na sombra do boi. loucos mansos. o autor não descerra os lábios. a principio. e. concordando com a sua ciência. Simão Bacamarte como pessoa inteiramente consagrada aos livros. Isso. lá está a esposa. andando à solta pela rua. propicia a exibição costumeira do adesismo. vendo nele a sua grande figura. que o ama e lhe admira o saber. toda baseada na razão. trancados em alcovas. Estrutura da obra Trata-se de um conto um tanto longo. o orador de sobremesa. o novo-rico. e todas com papel de responsabilidade na peça. e confundindo tudo na sua própria ciência. quando. teórico. contra ou a favor da luz. acatando as prescrições da ciência como dogmas de fé. Quanto à . por isso.Em O alienista o escritor nos propõe o problema da fixação de fronteiras entre o normal e o anormal da mente humana. aparentemente. o médico Simão Bacamarte aparece como símbolo de uma ciência fria. Todo o conto se desenvolve em tom de austeridade. como caminho de conhecimento. estruturado em treze capítulos. nem tragédia. embora as entrelinhas. que viria descobrir loucura até nas pessoas normais. figuras secundárias. em quem a cidade. examinando-lhes as facetas. por assim dizer. Pintando o Dr. Aos poucos se vai insinuando no leitor a desconfiança no equilíbrio mental do alienista. Já o farmacêutico é a bajulação interesseira. desde que permaneça abstrato. Traçando uma linha rígida de procedimento profissional. tantos outros que o leitor irá descobrindo. traduzindo em recursos de estilo certas características. é o desfile de tipos humanos: o pródigo. só houve preocupação de dar às idéias vestimenta adequada e autêntica. até a morte. como aquela falada alegria do alienista. Sutilmente aparecem loucos furiosos. um tanto de cabala. que era ³alegria abotoada até o pescoço´. a linguagem é a preocupação maior. na verdade. numa difusa alegoria. Para contrastar o grande homem. acredita. com sua dose de acasos e qüiproquó. se a comoção social não as tivesse feito desabrochar inesperadamente. e tem ciúmes dos estudos que lhe tiram a primazia nas preocupações do alienista. o ingrato. não segue o regime alimentar por ele prescrito.

Também o fecho do conto apresenta a mesma referência: "Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses. Ele critica. Porém. Para Simão Bacamarte. Observe que. É Machado desmascarando a hipocrisia humana. 2. Machado de Assis critica os cientistas da época. descobrindo. ele deseja servir à ciência.A aprovação cessa quando Simão Bacamarte recolhe. pessoas em cuja loucura a população não acredita. a postura do cientista e do extremo cientificismo do final do século XIX. através de um estudo da patologia cerebral. A intenção do narrador é a análise do comportamento humano: vai além das aparências e procura atingir os motivos essenciais da conduta humana. tem início O Alienista: "As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico. E." .Conhecer as fronteiras entre a razão e a loucura. Análise psicológica das personagens Casa de Orates . Conversa com o Leitor. Linguagem correta 3. com alguma freqüência. aliás. de Portugal e das Espanhas. portanto. o Dr. O objetivo de Simão Bacamarte . o narrador termina por criticar a Escola Naturalista. ele pretendia buscara glória.Obs. 4. também. Esse conhecimento era bazófia (da boca para fora). o egoísmo e a vaidade. é interessante observar que Machado de Assis se fundamenta em possíveis "crônicas". não tinham os conhecimentos suficientes e necessários.montagem. onisciente. Conseqüentemente. Frases Curtas. A intencionalidade crítica do narrador não se reflete somente ao ser humano de forma geral.: através de Bacamarte. na Casa Verde. Características de Machado de Assis encontradas no conto O Alienista 1. Simão Bacamarte e o sanatório . aparentemente. que. surpreende-se a intenção verdadeira de Bacamarte:atingir a glória e ser a pessoa mais importante de Itaguaí. sem ter podido alcançar nada". Foco narrativo O narrador é em 3ª pessoa."Casa de Loucos". por trás dos atos aparentemente bons. Simão Bacamarte. para ele. no homem. ele se refere aos "cronistas" e às "crônicas da vila de Itaguaí" como. Na realidade. o homem é considerado um caso que deve ser analisado . no mesmo estado em que entrou. filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil.

vivera ali um certo médico: o Dr. Aspectos de crítica sócio-política: Na figura do Porfírio. O conto 1. se remontam à primeira metade do século XVIII (= reinado de D. O homem. "cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro. João V). comarca de Iguaçu". Humor amargo de Machado de Assis . percebe-se a submissão.visão irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana: o autor utiliza o humor para criticar a hipocrisia humana. em tempos remotos. "Simão Bacamarte aparece como símbolo de um saber duvidoso.cientificamente. insânia. "O tempos remotos" a que se referem as crônicas. somente ele deveria ir para a Casa Verde. Tempo / Ação Percebe-se que toda a história se passa no passado. Dizia que se devia admitir como normal o desequilíbrio das faculdades e como patológico. para Machado. havendo o uso do flash back: "As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que. As teorias de Simão Bacamarte Teoria 1: são loucos aqueles que apresentarem um comportamento anormal de acordo com o conhecimento da maioria. fora daí. conforme declara o crítico Massaud Moisés em nota de pé-de-página da edição que estamos consultando. Bacamarte. provocada por um sistema social regido pela falta de valores. Logo. analisa-se o político sempre buscando vantagens pessoais. quando ele procura determinar uma . pois não se revela senão em estado de pânico em que põe o universo. ganancioso e movido pela intenção de poder. insânia e só insânia. para isso. A ação transcorre. a fácil manipulação. Sr. No povo da cidade de Itaguaí. como já se viu. 3.Obs. bastando. é acima de tudo. pelas indicações dadas. Teoria 2: ampliou o território da loucura: "A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades.o seu equilíbrio. os honestos e imparciais. 2. Teoria 4: o único ser perfeito de Itaguaí era o próprio Simão Bacamarte." Teoria 3: os loucos agora são os leais. em Itaguaí.: Machado de Assis critica a postura cientificista que não vê o ser humano na sua integridade corpo x alma. os justos. conhecimento ou liderança.

e só de Ciência.era o vigário local. Padre Lopes . Machado de Assis chama a atenção para a relatividade da ciência. 4. Embora não fosse "bonita nem simpática". o barbeiro . Porém. rasteiramente. Cada um representando anomalias e possíveis virtudes do ser humano.O Naturalismo. por manifestar algum desequilíbrio mental. A ciência era o seu universo ± o seu "emprego único". Foi preso na Casa Verde duas vezes. nos seus romances. perceber que isso não é verdade. "Homem de Ciência. Representa bem a caricatura do depotismo cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Crispim Soares . momentaneamente. Daí a presença de tanta .é o protagonista da estória.era o boticário. "É a deformação do "cientista" que toma como verdade absoluta os pressupostos da ciência e comete. condena os excessos do Naturalismo. D. Representa bem a ambição de poder. algumas características filosófico-científicas da época. Acabou se tornando vítima de suas próprias idéias. por Ter liderado a rebelião. à causa do barbeiro. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraico. ele pensa estar diante de uma verdade absoluta para. Outros figurantes aparecem no conto. a cada teoria que ele cria.é a eleita do Dr. Chegou a ser recolhida à Casa Verde. Muito amigo do Dr.igualando. preso por não Ter cão" (pág 229). também.norma geral de conduta para o comportamento humano. Observe-se que. Em O Alienista. são e inteligentes". embora não soubesse nada dessas línguas. O Realismo aproveita. Machado de Assis revela uma visão satírica e irônica da mentalidade cientificista que marca o século XIX . recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único cérebro bem organizado de Itaguaí. certa vez. equívocos sucessivos sem dar pelo absurdo de suas pretensões".sua participação no conto é das mais importantes. quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. segundo. Também passou pela Casa Verde. Simão Bacamarte . todos os indivíduos". estando apta para darlhes filhos robustos. em seguida. primeiro. Homem de muitas virtudes. como diz. foi recolhido também à Casa Verde por isso mesmo. posto que representa a caricatura política na satírica machadiana. porque se negou a participar de uma Segunda revolução: "preso por Ter cão. Personagens Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas. pois não soube "ser prudente em tempos de revolução". Há loucos de todos os tipos no livro. em seu nome. nada o consternava fora da Ciência" (p. Evarista . o doutor a escolheu para esposa porque ela "reuni condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem". Foi considerado normal apesar da aureola de santo. aderindo. Bacamarte e grande admirador de sua obra humanitária. Porfírio. 189).

Enredo O protagonista. Essa personagem serve para que reflitamos questões como a valorização exagerada do status e até mesmo uma análise do preconceito. a personagem é alguém amplamente aceito pelo Estado. passando a ser até maltratado por estes. Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e perfeitamente aceitos pela sociedade de Itaguaí. esposa de Simão Bacamarte. Depois foi a prima do mão-aberta. é internado o albardeiro Mateus (profissional que faz albardas. que se deliciava em ficar horas admirando o luxo de sua enorme casa. É uma profissão bastante humilde. tão mergulhado que estava em seus estudos (é interessante lembrar a relação que o casal estabelece. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio). após contar tal história.gente. tanto que a palavra albarda também significa ³humilhação´.. O conto seria. algumas vezes dramática (se bem que o narrador deixa um . uma forma de questionamento contra o autoritarismo massacrante do sistema. aqui. Assim. principalmente a de aspecto naturalista). O problema é que o especialista vem investido do apoio oficial de todo o aparelho do Estado. Em sua frieza analítica. ou seja. Evarista. O pior é que se sentia envergonhado de cobrar seus devedores. acaba sendo na hora internada. ainda mais quando notava que estava sendo observado. pelo menos na visão do povo de Itaguaí). que lhe seria um meio de estudar os limites entre razão e loucura. selas para bestas de carga. Após esses. Ela é extremamente apaixonada. o terror sobre uma figura tão déspota e traiçoeira como Simão Bacamarte. depois de títulos e feitos conquistados na Europa (apesar de suas ações aparentemente disparatadas. pois a maioria da cidade não aceitava um homem de origem e trabalho humilde possuir e ostentar tanta riqueza. sua metodologia de estudo é que o diferenciará radicalmente de Machado de Assis. que havia ido para o Rio de Janeiro como maneira de compensar a ausência do marido. Aumenta. O primeiro é o Costa. Simão assumirá um tom tão rígido que acabará se tornando caricaturesco. que tinha ido defender seu parente com uma mirabolante história de que a decrepitude financeira se devia a uma maldição (o mais hilário é que essa mulher fora ao hospício para defender o primo e. falho e absurdo (parece haver aqui critica ao rigor analítico do determinismo cientificista que andava em moda na literatura da época de Machado de Assis. mas uma crítica de alcance político. No entanto.. Mas começa a haver uma seqüência de escolhas que surpreendem os cidadãos da pequena cidade. portanto. todos anseiam pela volta de D. Há. estabelece-se em Itaguaí com a idéia de criar um manicômio (Casa Verde). Apenas esses atos já foram suficientes para deixar a cidade em polvorosa. uma carga negativa associada a essa profissão. o que faz alguns críticos enxergarem nessa obra não uma preocupação com a abordagem psicológica. portanto. que havia torrado sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido.

de sua sacada. Ele é frio. O mais espantoso é que. com a intenção de sufocar o levante. em meio a um jantar em homenagem à salvadora senhora. um jovem dotado de exibicionismo de linguagem. é instigada quando este lhes dá as costas e volta aos seus estudos. mas este os recebe. o vigor para reprodução. Providencialmente. que recebe até o seu apelido: Revolta dos Canjicas. No entanto. Chega até a bendizer o fato de ela não ser bonita. mas com aspectos práticos. mas sempre tinha sido rejeito. de maneira até espalhafatosa. Gil Bernardes. que falava tanto a ponto de alguns fugirem de sua presença. A fúria. como a capacidade. de forma equilibrada e sem a mínima disposição em se demover de sua metodologia científica. Dias depois. Itaguaí acaba tornando-se um barril de pólvora prestes a explodir. une-se a vários outros descontentes. Configura-se a idéia de que as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos. o barbeiro Porfírio. faz um elogia um tanto exagerado: Deus queria superar a Si mesmo quando da concepção de D. pois seria menos dor de cabeça). Logo após. a maneira festiva com que foi recebida. provavelmente enxergando injustiça na ditadura científica. .tom de descrédito ao sempre afirmar que essa caracterização é baseada nos cronistas da época). Porfírio consegue fôlego e institui uma insurreição. Por isso. ela era a esperança de salvação daquele terror constante e aparentemente arbitrário. Senhor supremo. Evarista. que já friamente (como de costume) esperava ser demitido. no dia seguinte encontra-se com o alienista. até mesmo crianças. é confinado. sem mencionar o sonho por poder da personagem) é disfarçada em preocupações altruístas. Vão até a casa do alienista. Aproveitando-se dessa situação. Para os cidadãos. Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige para a Câmara dos Vereadores para destituí-la. que tinha sido momentaneamente aplacada pela frieza do oponente. Surpreendentemente (ou não). Há uma esmorecimento quando se descobre que Simão havia pedido para não receber mais pelos internos da Casa Verde. justo nesse momento em que o jogo parecia perdido para Porfírio. a polícia da época (dragões) surge. que há muito queria fazer parte da estrutura de poder. Depois Coelho. unindo-se a uma mulher não preocupado com sua beleza. Era tudo o que o líder mais queria ± poder absoluto. Bem machadiano esse aspecto dilemático da realidade). fortalecido. arma um protesto com intenções revolucionárias (note que a questão pessoal (Coelho tinha negócios importantes com Porfírio que tinha sido interrompidos com a internação. No entanto. o janota estava internado. passam para o lado dos revoltosos. tudo se volta a seu favor: os componentes da guarda. Martim Brito. que adorava cumprimentar todos. Pasma diante de aparente falta de critério. Depois de ter seu requerimento desprezado pela Câmara de Vereadores.

O clímax deuse quando a própria esposa do alienista. . Dias depois. Entende-se que elas são na realidade movidas por interesses coletivos autênticos. mais egoístas. acaba sendo internada. mais ainda porque um seu opositor. por meio da Casa Verde (tanto é que mudavam os poderosos. O segundo é o Porfírio antes se levantar ferozmente contra Porfírio e agora considerá-lo de extrema utilidade para o seu novo governo. sua teoria estava errada. Conseqüência: arma uma balbúrdia tamanha que acaba derrubando o Canjica. Configura-se aqui uma crítica a tantas revoluções que ocorreram na História e que estão por ocorrer. Na realidade. que apóia Porfírio no momento que pensava que Simão havia caído. o cientista havia notado que 75% dos moradores estavam confinados. O primeiro é o fato de gente ter perdido a vida por um levante que tinha a intenção de derrubar a Casa Verde e agora tudo ficar esquecido. assistente e bajulador do alienista. merecendo ser refeita. finalmente revelada. a ponto de não conseguir dormir por não saber como iria numa festa. Depois o Presidente da Câmara dos Vereadores. além de demonstrar um rigor científico louvável. Ao mesmo tempo que era a prova de que Bacamarte não tinha intenções egoístas. desvios do padrão (era essa. a regra que determinava quem era e quem não era são). este não estava interessado em questões sociais. Certo tempo depois. o barbeiro João Pina. como num feito rocambólico. Esse recuo. mas que acabam sendo manipuladas e servindo de trampolim para que determinadas pessoas subam ao poder por outros motivos. extremamente preocupada com jóias e vestidos. pois até a própria consorte tinha se tornado vítima. Provavelmente todas essas idéias passaram na mente de Simão no momento em que Porfírio veio expressar-lhe apoio em seu trabalho sanitário. então o normal seria não seguir um padrão. portanto. 50 apoiadores da revolução são internados. Na verdade. Porfírio ficou desnorteado. Mais gente é confinada. o novo governante afirma que não vai meter-se em questões científicas. tanto que reconhece que erra. Fortalece-a. Fora essa questão polêmica. Pode-se dizer que exibe uma questão polêmica: quem é normal? O que segue a maioria? Se 75% apresentam desvios de personalidade.Impressionantemente. Crispim. O que virá daí já se sabe. São os dois casos que descobre como matéria de estudo. Mas o novo poder não destitui a Casa Verde. Tanto que pergunta quantos pessoas haviam morrido na revolução. a cidade recebe a notícia de que Simão determinou a soltura de todos os ³loucos´ da Casa Verde. Estatisticamente. deve-se perceber a força que o Estado. mas tinha uma rixa pessoal com o outro barbeiro. tornava também patente a arbitrariedade a que Itaguaí estava submetida. pois demonstra que o protagonista não está preocupado com vaidade. exibe mais elementos interessantes para a interpretação do conto. levanta-se contra. mas o sistema continuava o mesmo).

Enfim. preso por não ter cão. principalmente o padre (que já havia sido internado). Sua alegação era a de que os edis não podiam legislar em causa própria.assumia em determinar quem estava na linha e quem não estava. O vereador Galvão é o primeiro a ser internado. pois. conclamado a preparar outra revolta. firmeza de caráter). . fora esses casos. Assim foi com um advogado de conduta exemplar que só não foi internado porque havia forçado um testamento a ter a partilha do jeito que queria. A esposa dedicada de Crispim é também alocada na Casa Verde. inclusive de D. dentro da nova teoria (louco era quem mantinha regularidade. pois se tocou que gente havia perdido a vida na Revolta dos Canjicas para o resultado ser infrutífero. conclui que o único anormal era ele próprio. Um inimigo de Simão se vê na obrigação de avisar o alienista do risco de vida que o cientista corria. soltar todos mais uma vez e encerrar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida. Simão vai percebendo que seu segundo método era falho. Alguns casos são interessantes. o terror recomeça. Por tal desprendimento. Porém. recusa-se. após muita reflexão e muita conversa com pessoas notórias da cidade. Até Porfírio. resumiu bem sua situação: preso por ter cão. porque havia protestado contra uma emenda da Câmara que instituía que somente os vereadores é que não poderiam ser reclusos. Pessoas que se demonstram firmes em sua personalidade são consideradas curadas quando exibem algum desvio de caráter. Com exceção dele próprio. Ou então quando a esposa do Crispim xinga-o ao descobrir o verdadeiro caráter do marido. Evarista. pois ninguém naturalmente tinha uma personalidade reta. Todos tinham de se encaixar a uma norma. perfeita. na hora acaba sendo confinado. É por isso que. O barbeiro fica louco. decide. volta a ser preso. A despeito dos protestos de muitos. pois. Ao ser preso.

Daí o título Vidas Secas. portanto. chegam a constituir um verdadeiro substituto da ação e da trama do livro. A nota predominante do livro é o desencontro dos seres. Possui 13 capítulos até certo ponto autônomos. ou mesmo grunhidos. A terra é seca. Vidas Secas é. A obra pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos. sua esposa Vitória. Nem os opressores comunicam-se com os oprimidos. incisivas. a zoomorfização e antropomorfização das criaturas. o que mostra o afastamento existente entre elas. exclamações. O que une os episódios no livro é a utilização de vários motivos recorrentes (a paisagem árida. mas sobretudo o homem é seco. enxutas. O que há de libelo no livro se inclui na sua própria estrutura e não em discursos das personagens ou do autor. a zoomorfização e antropomorfização das criaturas. a cama de varas de sinhá Vitória etc. seu Tomás da bolandeira.). caracterizados pelo autor apenas como " menino mais novo" .Vidas Secas. como a paisagem árida. de Graciliano Ramos Recomende esta página para um amigo Versão para impressão Análise da obra Narrado em 3ª pessoa (ao contrário das obras anteriores de Graciliano Ramos). nem cada grupo comunica-se entre si. Vidas Secas pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos. que dada a sua redundância e a maneira como são distribuídos. Enredo Capítulo 1 . a dramática descrição de pessoas que não conseguem comunicar-se. a cama de varas de sinhá Vitória etc. seu Tomás da bolandeira. enxutas. dois filhos. os pensamentos fragmentados das personagens e seu conseqüente problema de linguagem. O discurso do narrador é igualmente construído com frases curtas. Os diálogos são raros e as palavras ou frases que vêm diretamente da boca das personagens são apenas xingatórios. mas o narrador que se faz sentir pelo discurso indireto. Nesta obra não é a personagem que ressalta nele. os pensamentos fragmentados das personagens e seu conseqüente problema de linguagem. Graciliano prefere a eloqüência das situações fixadas à eloqüência puramente verbal. acentuando-se a solidão em que vivem. mas que se ligam pela repetição de alguns motivos e temas. quase sempre períodos simples. quase sempre em períodos simples. construído em frases curtas. Cada uma tem sua vida particular.Mudança É a história da retirada de uma família. Também as personagens são focalizadas uma por vez. fugindo da seca. incisivas. com o pavor da verbosidade. Escritor extremamente contido. Fazem parte dela Fabiano.

A caatinga ficaria verde. seria o vaqueiro. Chocalhos tilintariam pelos arredores.Cadeia Aqui.Fabiano Mostra o homem embrutecido. Tem a consciência de que mal sabe falar. ainda nesse primeiro capítulo. xinga-o.Sinhá Vitória Se as aspirações do marido resumem-se em saber usar as palavras adequadas a uma situação. vaquejadas. ela é caracterizada como esperta e descobre que o patrão rouba nas contas do marido (no capítulo Contas). as moas cruzadas segurando os joelhos ossudos. Fabiano. e a cachorra Baleia (deve-se lembrar que o romance fala em seis viventes.. Capítulo 4 . pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamento. pela primeira vez. Capítulo 2 . aparece a figura do soldado amarelo. Mais adiante é Fabiano quem sonha: "Sinhá Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. uma vez que Fabiano trabalha o dia todo e à noite dorme. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria. e ele. novenas. a de Vitória é uma cama de couro. sem ter coragem para devaneios ou para falsear sua dura realidade. temos Fabiano ciente de sua condição de homem vencido e. insinua-se a idéia de que não é apenas a seca que faz de Fabiano e sua família pessoas animalizadas. Capítulo 3 . Nesse capítulo temos a descrição da terra árida e do sofrimento da família. Também essa cama será motivo diversas vezes repetido no decorrer da obra. embora admire os que sabem se expressar. Ele é preso sem qualquer motivo e toma a analisar sua situação de homem-bicho. para caracterizar a vida mesquinha e sem sentido em que vivem os retirantes. como veremos adiante. que não têm consciência de sua situação. Só que..e "o menino mais velho". mas ainda capaz de analisar a si próprio. as nádegas bambas de sinh á Vitória engrossariam. Essa falta de diálogos permanece por todo o livro. apenas duas vezes o pai... pela primeira vez. Fabiano e Vitória sonhem com uma vida melhor: "Sinhá Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. queimando o assento no chão. Igualmente. conseqüência de ser talvez a que mais tem tempo para pensar. que mais tarde voltará simbolizando a autoridade do governo. sem ilusões com relação à vida de seus filhos. irritado com o menino mais velho. Além de ser a personagem que melhor articula palavras e expressões. E chega à conclusão de que não passa de um bicho. Ao fim do capítulo. não tem mais coragem de sonhar com um futuro melhor. para bem dizer seria o dono daquele mundo. pior ainda. embora. tudo numa confusão. como também a intenção de não dar nome às crianças. contando com o papagaio que eles comeram por não haver comida por perto). a roupa encarnada de sinhá Vitória provoca ria a inveja das outras caboclas . As personagens não se comunicam. . desta vez.

Mas se fosse? Precisava mostrar que podia ser Fabiano. matar cabras à mão de pilão." Para Fabiano." Adiante: "Evidentemente ele não era Fabiano. Resta a sinhá Vitória a solução do devaneio: "Sinha Vitória enxergava. unia cama de verdade. Ia crescer espichar-se numa cama de varas. a cama de seu Tomás da bolandeira. de perneiras. a cadelinha era o único vivente que lhe mostrava simpatia. trazer uma faca de ponta na cintura. Valia-se. um dos mais melancólicos capítulos do livro ² quando as personagens centrais da história. torto. em casa. em contato com outras pessoas. sofria a carícia excessiva. A chuva inundava tudo." O nível das aspirações dos componentes da família decresce cada vez mais. O ideal do menino mais velho é o de ter um amigo. sentem-se mais humilhadas. mesquinhas e ate mesmo ridículas. quase inundava a casa deles também. fumar cigarros de palha. senão o mais." Capítulo 7 .Festa Apresenta primeiramente os preparativos da família.O Menino Mais Velho "Tinha um vocabulário quase tão minguado coma o da papagaio que morrera no tempo da seca.. calçar sapatos de couro cru. em seguida. Sonhava ." Capítulo 6 . dirigindo-se à festa. A amizade de Baleia já lhe servia: "O menino continuava a abraçá-la. não há esperanças: "Fabiano roncava de papo para cima. através das barracas.Inverno Temos a descrição de uma noite chuvosa e os temores e devaneios que desperta na família de Fabiano. No início do capítulo: "Naquele momento Fabiano lhe causava grande admiração. É. O menino mais velho e Baleia ficariam admirados. guarda-peito e chapéu de couro com barbicocho. com movimentos fáceis de entender Todos o abandonavam. de exclamações e de gestos. para ir à festa de Natal na cidade e..O Menino Mais Novo Também ele possui um ideal na vida: o de se identificar ao pai.Capítulo 5 . Capítulo 8 . E Baleia encolhia-separa não magoá-lo. e Baleia respondia com o rabo. Percebem a distância em que se encontram dos demais seres e isso é novo motivo de humilhação para eles. pois. gibão. apear-se-ia num pulo e andaria no pátio assim." E finalmente: "Ao regressar. com a língua. mas eles sabiam que dentro em pouco a seca tomaria conta de suas vidas outra vez." Em seguida: "E precisava crescer ficar tão grande como Fabiano.

Se em Cadeia Fabiano conscientiza-se de que há no mundo homens que. Capítulo 10 . por ocupar o lugar de representante do governo. Fabiano se agitava. enquanto Fabiano é honesto. . O mundo ficaria todo cheio de preás gordos. rolariam com ela num pátio enorme. num mundo cheio de preás. Caíra-lhe o pêlo.. com maior clareza. agora chegam à conclusão de que pessoas com dinheiro também podem aproveitar-se deles.O Mundo Coberto de Penas A seca está para chegar outra vez. Há muito não sonha mais. ao lado de Vitória. soprando. Observa-se que." Já ferida. São duas as reações de Fabiano ao notar-se roubado pelo patrão: primeiro revolta. pisavam-lhe os pés com enormes retinas e ameaçavam-no com facões terríveis. o corpo enchera-se de chagas.agoniado. Capítulo 12 . Fabiano faz um resumo de todas as desgraças que têm marcado sua vida. Baleia espera a morte sonhando com outro tipo de vida: "Baleia queria dormir Acordaria feliz. enormes. As crianças se esposariam com ela. consegue elaborar seus devaneios." Percebe-se. contudo é por ele respeitado e temido.Baleia Conta a morte da cachorra. por possuírem uma posição social diferente da dele. moralmente é uma pessoa corrupta. com os demais membros da família chorando e rezando por ela. Vale a pena ressaltar nesse capítulo que é sinhá Vitória quem percebe que as contas do patrão estão erradas. Muitos soldados amarelos tinham aparecido. Baleia é quem. fisicamente. Capítulo 11 . estava pele e ossos.. podem machucá-lo. prenunciando mais miséria e sofrimento." Capítulo 9 .. é menos forte que Fabiano.. depois descrença e resignação. Seus problemas agora são livrar-se de certo sentimento de culpa por ter matado Baleia e fugir de novo. que dos seis componentes da família. num chiqueiro enorme. Fabiano resolve matá-la para aliviar os sofrimentos dela. Ela é caracterizada como a mais arguta e perspicaz dos seis viventes da família.Contas É outro capítulo melancólico. para bem dizer não se diferenciavam. Os filhos percebem a situação. E lamberia as mãos de Fabiano.O Soldado Amarelo Temos uma descrição mais profunda desta personagem. um Fabiano enorme. aliás. se em Festa os familiares percebem sua situação inferior e desajeitada e sentem-se ridículos. magoados e feridos por perderem um ³irmão´: "Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três.

do berço à sepultura. Tanto as personagens do primeiro grupo como as do segundo vivem na mesma região. largou-se com a família. a modo de retorno perpétuo. porque ele emprega os trabalhadores segundo suas próprias leis. Fuga. Pouco a pouco os bichos se finavam. descreve cena semelhante: "A vida na fazenda se tornara difícil. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido." O último capítulo. Mas será apenas a seca o motivo dessa fuga? Percebemos no romance a descrição de dois mundos: o mundo de Fabiano e o mundo composto pela sociedade. Do primeiro. e os garranchos se torciam. negros. salgou a carne. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. No início da leitura tem-se a impressão de que Fabiano e sua família fogem da seca: "Entrava dia e saía dia. torturadas pelos redemoinhos. a vida do sertanejo se organiza. fecha a ação num circulo. sofrendo todas a mesma seca. sem se despedir do amo. onde as folhas secas se pulverizavam. Baleia e o papagaio. como negro fugido. Encolhido no banto do copiar Fabiano espiava a caatinga amarela. Entre a seca e as águas. escurecia. A tampa anilada baixava.Fuga Continua a análise de Fabiano a respeito de sua vida. Porque seu Tomás era culto. Sinhá Vitória benzia-se tremendo. quebrada apenas pelas vermelhidões do poente. sinhá Vitória. Vitória é mais otimista e consegue transmitir-lhe um pouco de paz e esperança por algum tempo.Capítulo 13 . o patrão de Fabiano e o soldado amarelo. perdidos no deserto queimado. pedindo a Deus um milagre. os fugitivos agarraram-se. E Fabiano resistia. o menino mais velho. Do segundo. fazem parte Fabiano. E numa mistura de sonhos. só sabia grunhir e mal articulava . de tal modo que a fim. viu que tudo estava perdido. Fabiano. manejava o rosário. encontrando o principio. Caracterizado como dono e opressor. Por que não foge dela o patrão de Fabiano? Porque ele possui as terras e o dinheiro. De seu Tomás também Fabiano sente-se distante. matou o bezerro morrinhento que possuíam. o menino mais novo. sabia comunicar-se com precisão. Graciliano Ramos transmite uma visão amarga da vida dos retirantes Comentários Vidas Secas começa por uma fuga e acaba com outra. Miudinhos. devorados pelo carrapato. mexia os beiços franzidos rezando rezas desesperadas. somaram-se as suas desgraças e os seus pavores. O romance decorre entre duas situações idênticas. ao passo que ele. combinou a viagem com a mulher. fazendo deles meros escravos sem qualquer direito a uma vida digna e independente. A esposa junta-se a ele e refletem juntos pela primeira vez. seu Tomás da bolandeira. Só lhe restava jogar -se ao inundo. descrenças e frustrações termina o livro. o patrão não tem necessidade de fugir da seca. torrados. As noites cobriam a terra de chofre. Mas quando a fazenda se despovoou.

Fabiano termina por se aproximar de Baleia. Temos agora um Fabiano não apenas humilhado. no capítulo que recebe seu nome. poucas frases adiante. Em momento algum o esmagamento de Fabiano e de sua família é explicado apenas pela seca ou por qualquer fator geográfico. nova alteração se dá em suas considerações. o pensamento de Fabiano. os braços moviam-se desengonçados. a linguagem de seu Tomás significa a cultura e a educação que Fabiano jamais poderá possuir. passando a individuo apenas esperto e depois a um semelhante do animal. No entanto. Decaindo do ponto mais elevado da escala. você é um homem¶. as pernas faziam dois arcos. O soldado amarelo. o representante dessa entidade. Fabiano . Baleia . por isso foi dito no início desta análise que o livro não deve ser considerado apenas regionalista. em contraposição. a opressão social. O que parece ser importante para Graciliano Ramos é denunciar a desigualdade entre os homens. ficando as duas personagens. a quem. sinhá Vitória manifesta sempre o desejo de possuir uma cama igual a dele. em seu diálogo-a-um ele considera: ³² Você é bicho. por sua vez. Entristeceu. consciente de sua situação animalizada dentro de uma sociedade em que os mais fortes sempre vencem os mais fracos. Segundo ele. ele se considera positivamente dizendo: ²Fabiano. E de homem que se aceitara apenas como um bicho esperto. mas a estrutura condiciona o humilhado à incapacidade de reagir. E ele se humilha mais uma vez. ele se coloca como um animal: ³o corpo do vaqueiro derreava-se. lado a lado. De fato. pelo menos sabia se. a injustiça.Ou seja: um individuo que não sendo exatamente um homem. Fabiano entrevê na organização do Estado a entidade que humilha. e de sinhá Vitória ao papagaio. Se o dinheiro do patrão representa um fator de humilhação para Fabiano. São esses os temas de Vidas Secas. às vezes. passa por três etapas: "Primeiramente. safar dos problemas. simboliza o governo. Affonso Romano de Sant¶Ana faz uma aproximação de Fabiano à Baleia. Já foi feita uma referência anteriormente sobre a consciência de Fabiano quanto à sua condição animalizada na sociedade a que pertence. e esse sonho é a mais alta aspiração que possui. podendo revidar a injustiça anteriormente sofrida.uma ou outra palavra. Entre os dois mundos que acabamos de descrever ³não há um sistema de trocas. no capítulo O Soldado Amarelo. e até frágil. e considerando mais realisticamente sua situação se corrige µ² Você é um bicho. E é por esse mesmo motivo que. Parecia um macaco. Metido num ³fuzuê sem motivo´. senão um mecanismo de opressão e bloqueio´. Seu Tomás simboliza ainda um status econômico de segurança e conforto. mas vencido. Fabiano acaba preso. sem mais ninguém por perto e Fabiano. Depois se estuda com menos otimismo. resolve deixá-lo em paz.

µ. devorada pela raposa. Nesta frase estaria integrado o sentido duplo do termo ³bicho µ. mexia-se como papagaio." A partir dai a imagem dos pés de Vitória vai se fundindo à imagem do papagaio. destacando principalmente os verbos e adjetivos conferidos a um e outro elemento numa mesma simbiose metafórica. Pobre do louro. caros e inúteis. era ridícula. Uma análise mais interessada nestes levantamentos poderia perfilar dentro do livro todos os processos sistemáticos de zoomorfização dos animais. trôpega. . A identificação entre sinhá Vitória e o papagaio acentua-se sobretudo no capítulo Sinha Vitória. Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usara nas festas. referindo-se à galinha. positivo / negativo. agora ampliando-lhe a área semântica. Aí o adjetivo pobre já não se refere exclusivamente ao papagaio que foi morto para matar a fome da família. o autor usa de um processo de recorrência da imagem da ave. No resto do capítulo. aplicado a Baleia: animal / esperteza. mas descreve a própria sinhá Vitória tão ³infeliz´ como aquele ³pobre louro ³. Calçada naquilo. até que estilisticamente a superposição se destaca em frases como essas: Olhou os pés novamente. quando ela tenta perceber o sentido da comparação que seu marido fizera do seu modo de caminhar com o do papagaio: "Ressentido. especialmente a ³galinha pedrês".