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Indivíduo e pessoa na experiência da saúde


e da doença

The notions of the person and the individual


in the experience of health and illness

Luiz Fernando Dias Duarte 1

Abstract This is a review of a research line Resumo Revisão de uma linha de pesquisa no
present in Brazilian social science studies about campo das ciências sociais em saúde no Brasil
health and illness, characterized by a method- que se centra na hipótese metodológica de uma
ological emphasis in the cultural distinction diferença cultural fundamental entre os mo-
between relational models of the “person” and delos relacionais de “pessoa” e o modelo do “in-
the modern Western model of the “individual” divíduo” ocidental moderno (pensado como li-
(conceived as free, autonomous and equal). vre, autônomo e igual). Essa diferença cultu-
That distinction is particularly important for ral é de particular importância na caracteri-
the perception of different forms of the expe- zação das formas diferenciais de experiência
rience of health and illness, mostly between da saúde e da doença entre as classes populares
working classes in modern national societies das sociedades nacionais modernas e os seg-
and the social segments responsible for bio- mentos portadores dos saberes biomédicos eru-
medical knowledge, as a learned, dominant or ditos, dominantes e oficiais. Estes últimos têm
official ideology. This knowledge is funda- um compromisso originário com algumas ca-
mentally related to the ideology of individual- racterísticas da ideologia do individualismo,
ism, in its universalistic/rationalistic and phys- tais como o universalismo/racionalismo e o
icalist/scientificist guises. The complex set of cientificismo/fisicalismo. As representações,
representations, practices and institutions de- práticas e instituições dela dependentes ocu-
rived from it are systematically opposed to the pam um espaço de oposição à forma integra-
integrated, embedded and relational condition da, relacional, holista, como são pensadas e ex-
of the experience of illness (or of “physical- perimentadas as “doenças” (ou, como prefiro,
moral disturbances”, as I prefer) mostly with- as “perturbações físico-morais”) mesmo nos
in those groups where hierarchical, relational, segmentos “individualizados”, quanto mais nos
models of the “person” prevail. I evoke the an- segmentos regidos por representações hierár-
thropological grounds for this perspective of quicas, relacionais, de “pessoa”. Apresentam-se
analysis and describe some of the aspects of the os fundamentos antropológicos dessa perspec-
academic production related to it, in compar- tiva analítica e as diferentes dimensões da pro-
1 Museu Nacional, ison with other tendencies in the field. dução acadêmica a ela associada, em compara-
Universidade Federal do Key words Hierarchy, Culture, Health, Indi- ção com as de outras tendências do campo.
Rio de Janeiro. Quinta
da Boa Vista, 20940-040,
vidualism, Personhood Palavras-chave Hierarquia, Cultura, Saúde,
Rio de Janeiro RJ. Indivíduo, Pessoa
lfdduarte@alternex.com.br
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Entre os muitos aportes da antropologia social mais aguda e da ênfase crescente na compreen-
ao estudo dos fenômenos da saúde/doença fi- são interna dos sistemas em sua singularidade
gura a relativização cultural da noção de “pes- (o historicismo, o organicismo e o método clí-
soa”. Essa relativização advém do procedimen- nico oferecendo as imagens estruturantes do
to canônico da comparação entre as culturas, funcionalismo e do estruturalismo).
com a conseqüente generalização de modelos O primeiro texto explícito sobre o que se
analíticos que procuram fugir à determinação pode chamar hoje de “construção social da pes-
originária das representações da cultura oci- soa” é o de Marcel Mauss sobre a “noção de pes-
dental moderna – esta de onde emergem os sa- soa”, publicado em 1938 (Mauss, 1973). Nes-
beres científicos que cultivamos. se brilhante exercício de continuidade da tare-
A questão da determinação social ou cultu- fa a que se tinha proposto a Escola Sociológica
ral das representações de “pessoa” já se podia Francesa de ancorar na análise sociológica as
entrever no pensamento dos pais fundadores “categorias do pensamento humano” da tradi-
das ciências humanas no século 19. Em Marx, ção kantiana e aristotélica, Mauss ampara-se
por exemplo, a localização histórica e a disse- ainda num esquema evolucionista de revelação
cação analítica da ideologia liberal (como siste- e agregação progressiva dos componentes da
ma de pensamento correspondente à afirma- pessoa moderna para projetar finalmente a
ção da classe burguesa, agente da hegemonia sombra da figura, em toda sua súbita especifi-
do modo de produção capitalista) já permitira cidade, contra o pano de fundo dos outros mo-
entrever a relatividade histórica do valor da “li- delos culturais trazidos à comparação. Por essa
berdade”, tão intrínseco à afirmação do modelo época, treinados pelo culturalismo de Boas e
de pessoa moderna. Em Tocqueville, o esforço influenciados pelo descentramento do sujeito
de responder ao desafio de compreensão do no- da psicanálise de Freud, surgiam nos EUA os
vo estado de sociedade apresentado pela Revo- primeiros trabalhos do que veio a se chamar a
lução Francesa e pela organização dos Estados Escola de Cultura e Personalidade, que tam-
Unidos da América resultou em uma concomi- bém contribuiu estrategicamente para o em-
tante relativização do outro elemento do binô- preendimento geral de análise comparada das
mio fundador da ideologia moderna da pessoa: formas de pessoa.
a “igualdade”. Um pouco antes de Mauss produzir o texto
A nascente experiência etnológica, decor- citado, seu mestre Durkheim publicara um tex-
rente da possibilidade de comparação contro- to circunstancial de pouca ressonância na épo-
lada de informações sobre os sistemas de repre- ca, mas que pode ser hoje considerado um dos
sentação e organização das diferentes socieda- primeiros a nomear em seu pleno sentido so-
des, juntou-se à erudição dos estudos clássicos ciológico uma categoria analítica importante
e ao afiado sentido histórico dos românticos para a compreensão das formas modernas da
para produzir uma crescente inquietação e pes- pessoa: o “individualismo” (Durkheim, 1970).
quisa sobre os conceitos estruturantes de nos- Durkheim ressaltava como essa categoria oni-
sa cultura. O parentesco, a religião, o direito, a presente na caracterização da modernidade
organização política, a lógica abstrata, os siste- carregava uma ambigüidade instauradora e
mas de conhecimento empírico, a economia; fundamental: designava uma categoria de acu-
tudo foi pouco a pouco sendo submetido ao sação a tudo que parecia corroer a antiga soli-
crivo de uma comparação crítica. Uma primei- dariedade social, um “egoísmo” coletivo mo-
ra solução para o enigma da pluralidade das derno, ao mesmo tempo em que abarcava os
formas culturais (pela primeira vez observadas melhores valores associados à cidadania re-
como entes de identidade plena) garantiu, po- publicana, como as preeminentes liberdade e
rém ainda, a preservação da crença na preemi- igualdade. Desenhava-se assim com maior ni-
nência de nossos valores culturais através do tidez o retrato do que Louis Dumont chamaria
modelo evolucionista. As outras formas de re- mais tarde a forma moderna da pessoa: o indi-
presentação e organização agora observadas e víduo.
descritas consistiam em estágios inferiores do Radcliffe-Brown, um dos expoentes da an-
estado atingido pela “civilização” – pela nossa tropologia social britânica, expôs com muita
“civilização”. Embora o horizonte evolucionis- nitidez a forma mais simples da oposição entre
ta ainda paire por sob o pensamento dos gran- as categorias “pessoa” e “indivíduo” em 1940,
des mestres da passagem do século 19 ao 20 ele em um artigo sobre “a estrutura social”: Todo
já vai cedendo ao peso de uma análise crítica ser humano vivendo em sociedade tem dois as-
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pectos: ele é indivíduo, mas também pessoa. Co- a resumi-los na oposição entre as ordens tradi-
mo indivíduo, ele é um organismo biológico, um cionais de construção da “pessoa” – definidas
conjunto muito vasto de moléculas organizadas como eminentemente relacionais e socialmen-
em uma estrutura complexa em que se manifes- te determinadas –, e o modelo moderno do
tam, enquanto ele persiste, ações e reações fisioló- “indivíduo” – com sua aspiração a liberdade,
gicas e psicológicas, processos e mudanças. (...) O igualdade, autonomia, autodeterminação e sin-
ser humano como pessoa é um complexo de rela- gularidade (“hiper-social”, portanto). Dedicou-
ções sociais (Radcliffe-Brown, 1973). Nessa fór- se Dumont eventualmente à demonstração da
mula, o indivíduo se apresenta apenas em sua história dessa configuração de valores, até sua
condição de instância “infra-social” (Duarte, hegemonia na configuração contemporânea da
1986b), como mero substrato concreto para a “cultura ocidental moderna”. Paralelamente,
imposição do estatuto social. Já fica porém ab- ele procurou produzir uma teoria da “hierar-
solutamente claro que “pessoa” designa – como quia”, como princípio estruturador dos siste-
no texto de Mauss – uma unidade socialmen- mas sociais e visões de mundo em que prevale-
te investida de significação. Essa fórmula ecoa, cem representações de “pessoa”. Esses sistemas
na verdade, a teoria do Homo duplex de Dur- foram chamados por ele de “holistas” (ou seja,
kheim, ao mesmo tempo amarrado a sua cor- relativos à totalidade), para chamar a atenção
poralidade imediata e fechada – por um lado – para o caráter apriorístico e totalizante de suas
e dedicado à busca da efetivação dos ideais mo- cosmologias. Dumont preocupou-se bastante
rais que lhe atribui sua cultura – por outro. com a possibilidade de confusão do seu esque-
Uma outra frente de contribuição ao nosso ma analítico com a oposição de senso comum
tema foi construída no âmbito da cultura ger- entre “tradição” e “modernidade”. Para ele, em-
mânica, estruturada em torno da filosofia ro- bora os sistemas ditos “tradicionais” sejam efe-
mântica, com sua ênfase ontológica na “singu- tivamente caracterizados pela preeminência do
laridade”. Entre as muitas contribuições funda- holismo e da hierarquia, e o sistema dito “mo-
mentais desse movimento, avulta, para nossos derno” pela hegemonia do “individualismo”,
fins, a formulação e utilização analítica do con- a proposta de uma conceptualização analítica
ceito de Bildung (autocultivo pessoal). Toda a mais rigorosa permite perceber tensões inter-
psicologia e a sociologia românticas foram en- nas a cada sistema concreto decorrentes da di-
riquecedoras dessa pesquisa sobre indivíduo/ nâmica complexa do princípio da hierarquia
pessoa, mas a obra de Georg Simmel tem aí pre- em confronto com tendências ou forças sociais
eminência pela clareza e explicitação de suas individuantes ou individualizantes. Isso é tanto
propostas. A principal foi a da distinção entre mais verdadeiro nas sociedades ditas “moder-
um “individualismo quantitativo” e um “in- nas”, em que a vigência do princípio da hierar-
dividualismo qualitativo”. O primeiro se en- quia – apesar de sofrer uma contínua desquali-
contraria no ideário universalista, iluminista, ficação e oposição – não se interrompe, ense-
de afirmação da liberdade, igualdade e autono- jando uma série de efeitos ideológicos e histó-
mia dos sujeitos sociais – os “cidadãos” das de- ricos fundamentais. As sociedades “modernas”
mocracias modernas. O segundo, no ideário não podem ser assim linearmente descritas co-
romântico (ele não usava esse qualificativo) da mo “individualistas”, mas sim como referidas à
singularidade, interioridade, intensidade, au- “ideologia do individualismo”, em intensidade
tenticidade e criatividade dos sujeitos da cultu- e formas que só a análise empírica pode deter-
ra. O conceito de “cultura subjetiva”, também minar. Do mesmo modo, algumas sociedades
por ele formulado, permitia compreender o “tradicionais” (aí incluída a cultura ocidental
sentido dinâmico e afirmativo da presença do pré-moderna) não podem ser compreendidas
modelo do “indivíduo qualitativo” em nossa senão pela análise concreta das combinações e
tradição cultural (Simmel, 1971). tensões entre sua estrutura hierárquica funda-
A partir dos anos 1960, um antropólogo mental e a presença de disposições individuali-
francês dedicado ao estudo da sociedade india- zantes. Outras, do tipo vulgarmente descrito
na, Louis Dumont, começou a publicar uma como “tribais”, obedecem a dinâmicas tão com-
série de trabalhos voltados para a explicitação plexas quanto estranhas ao poder operatório
dos “embaraços sociológicos” decorrentes da desse modelo.
nossa “ideologia do individualismo” para a A noção de “hierarquia” em Dumont é mui-
compreensão das demais experiências culturais to precisa, afastando-se de algumas de suas co-
(cf., sobretudo, Dumont, 1972, 1985). Ele veio notações contemporâneas de senso comum.
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Ele a entende como o princípio pelo qual toda a de modo paradoxal, afirmando como valor to-
experiência humana (intelectual ou prática) talizante a priori a negação e recusa da totalida-
pressupõe uma distribuição diferencial (cultu- de e construindo sua dinâmica na relação entre
ralmente definida) do “valor” no mundo, que sujeitos que se desejam autônomos, indepen-
permite justamente a orientação do sujeito em dentes e originais.
situação. Podemos dizer que Dumont casa o Essa chave interpretativa foi apropriada no
princípio das “formas de classificação” do fa- Brasil de forma bastante abrangente e original,
moso artigo de Durkheim & Mauss com o prin- em comparação com a fortuna quase exclusi-
cípio da marcação diferencial pelo “sagrado” vamente etnológica das teorias de Dumont no
(essencial ao argumento das Formas elemen- exterior. Roberto Da Matta e Gilberto Velho in-
tares da vida religiosa de Durkheim) ou pelo cluíram seu esquema em interpretações hoje
mana (base do ensaio sobre a magia de Mauss clássicas da dinâmica societária nacional (Da
& Hubert). O argumento de Dumont não é po- Matta, 1979; Velho 1981), assim como muitos
rém mais tão pesadamente sociogenético quan- outros autores posteriores. Roberto Da Matta o
to o de Durkheim; sua proposta se aproxima exploraria de um ponto de vista juralista in-
mais, pela abstração, do modelo da “significân- glês, enfatizando o potencial político das con-
cia flutuante”, proposto por Lévi-Strauss em cepções conflitantes de “indivíduo” e de “pes-
1949, como chave para a compreensão da vida soa” numa sociedade como a brasileira, em que
simbólica (Lévi-Strauss, 1973). Mais de uma a preeminência da relacionalidade manteria
vez, Dumont evoca, como exemplo de sua pro- subordinada, limitada e praticamente negativa,
posta, o artigo de Robert Hertz sobre a “pree- a experiência da individualização. Gilberto Ve-
minência da mão direita”, em que se demons- lho leria o modelo dumontiano à luz das cita-
tra a necessidade universal de uma sobremar- das propostas de Georg Simmel e dos herdeiros
cação simbólica, de uma adjudicação diferen- norte-americanos da sociologia romântica ger-
cial de valor cultural, para além de uma possí- mânica, explorando, pelo contrário, a constru-
vel tendência anatômica à dextralidade no ser ção de carreiras e trajetórias individualizantes
humano. O último ponto mais abstrato dessa nos meios urbanos, “modernizados”, do Brasil.
proposta teórica de Dumont é o da dissociação Já em Gilberto Velho, mas, sobretudo, em
entre “hierarquia” e “poder”. Como ele subli- Sérvulo Figueira, viu-se a proposta dumontia-
nha, a distribuição diferencial de valor na so- na aplicada à compreensão da difusão dos sabe-
ciedade não implica necessariamente “domi- res psicológicos no mundo moderno (e parti-
nação” e “exploração” (categorias estruturantes cularmente na sociedade brasileira) e, portan-
das idéias individualistas de “poder”, “Estado” e to, também à área das perturbações ou doen-
“classe social”). Seu exemplo predileto é o das ças mentais (Velho, 1981; Figueira, 1981, 1985 e
castas indianas, em que a preeminência hierár- 1987). Tratava-se certamente da primeira ex-
quica (sustentada pela ideologia da pureza) in- ploração do esquema indivíduo/pessoa para a
cumbe aos brâmanes, enquanto o poder políti- compreensão da experiência da saúde/doen-
co (da realeza, por exemplo) incumbe aos cha- ça. Jane Russo logo viria a explorar também o
trias – segundos, e não primeiros, na ordem potencial do modelo para a compreensão da
cosmológica maior. difusão diferencial das terapêuticas psicoló-
Um dos aspectos mais notáveis da propos- gicas no Brasil (Russo 1993, 1994, 1997). Eu
ta de Dumont é o da não linearidade da opo- próprio procurei utilizar, nesse período, o po-
sição entre os dois termos em questão. Como tencial da história do individualismo e da teo-
ressalta o autor, todas as sociedades são essen- ria da hierarquia para o entendimento das for-
cialmente holistas, na medida em que têm que mas da pessoa e da perturbação nas classes po-
pressupor um agenciamento de sentido, uma pulares brasileiras, sobretudo no tocante às re-
cosmologia, a priori e que têm de se fundar em presentações do nervoso (Duarte, 1982, 1986a,
algum tipo de ordem relacional nas suas for- 1992, 1993, 1994, 1995, 1997a, 1997b, 1998a e
mas societárias efetivas. As sociedades influen- 1998b). Consolidava-se assim no Brasil uma
ciadas pela ideologia individualista têm como linha de trabalho que aproximava o esquema
ideal algum tipo de superação ou inversão des- “indivíduo x pessoa” das discussões tradicio-
se esquema universal. Mas, embora essa pre- nais sobre doença/saúde nas ciências sociais
tensão seja imensamente significativa, tanto em (para uma história e localização no campo in-
termos simbólicos quanto políticos, ela não telectual desse veio da antropologia brasileira
abole as condições referidas, apenas as atualiza contemporânea) (Duarte, 2000a e 2000b).
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Essa linha de pesquisa dedicou-se porém – defendida por mim desde 1986 de que as for-
no amplo leque das experiências de saúde/do- mas de construção da pessoa nas classes popu-
ença – sobretudo ao que chamo de “perturba- lares brasileiras não obedecem aos princípios
ções físico-morais”, ou seja, às condições, situa- da ideologia do individualismo. O fio central
ções ou eventos de vida considerados irregula- da argumentação repousa justamente na de-
res ou anormais pelos sujeitos sociais e que en- monstração do nervoso como “perturbação fí-
volvam ou afetem não apenas sua mais ime- sico-moral” estruturante nesses meios cultu-
diata corporalidade, mas também sua vida mo- rais, expressiva de uma ordem relacional, hie-
ral, seus sentimentos e sua auto-representação. rárquica, resistente ao diversos mecanismos de
Assim, um acidente de trânsito, embora pos- indução à adoção do modelo do “indivíduo”
sa afetar profundamente a vida moral de suas prevalecente nos meios letrados e dominantes
vítimas (além de seus corpos), não é visto em de nossa sociedade. A representação do nervo-
nossa cultura, em princípio, em si mesmo, co- so popular ocuparia, de certa forma, o lugar de-
mo “físico-moral”. A eventual experiência de marcado pela concepção de um “psiquismo”,
seqüelas ou traumas – essa sim – será certa- de uma interioridade psicológica, naqueles ou-
mente expressiva dessa tensão. Não há, por ou- tros meios culturais. Essa hipótese se coaduna-
tro lado, em nossa cultura, praticamente ne- va com a demonstração da afinidade entre o
nhuma possibilidade de se vivenciar uma per- modelo do indivíduo moderno (como valor) e
turbação exclusivamente “moral”. Alguma di- as representações psicologizadas, particular-
mensão da corporalidade acaba sempre com- mente as da psicanálise (Velho, 1981; Figueira,
prometida nessa vivência, mesmo que repre- 1985; Ropa & Duarte, 1985). A maior parte dos
sentada como um deslocamento ou afecção se- trabalhos aqui citados como exemplares de in-
cundária. As doenças chamadas de “mentais” vestigação do potencial heurístico de indiví-
ocupam certamente um lugar preeminente nes- duo/pessoa para a compreensão dos fenôme-
sa ordem de fenômenos, por se desenvolverem nos da saúde/doença foi assim realizada em
justamente a cavaleiro da discutida fronteira contextos populares, tentando responder aos
entre o “moral” ou “psicológico” (expressão na- graves desafios apresentados pela relação entre
tiva preferencial dos portadores das representa- as representações individualizadas ou indivi-
ções modernas individualizantes). Certas con- dualizantes dos agentes da biomedicina e as re-
dições corporais muito peculiares como as que presentações holistas dos pacientes dos ambu-
se relacionam com a “reprodução” e a “contra- latórios, clínicas, hospitais e demais serviços de
cepção” humanas participam igualmente desse saúde públicos.
horizonte analítico, por suas óbvias e graves São numerosos hoje os trabalhos que pro-
conotações morais (Leal, 1994; Leal & Lewgoy, curam compreender a dinâmica das classifi-
1995; Victora, 1995 e 1997; Paim, 1998; Luna cações, instituições e serviços de saúde sob es-
1999; e Citeli et al., 1998). Muitas doenças “físi- se prisma (por exemplo, Carrara, 1995; Bonet,
cas” apresentam, por outro lado, característi- 1999; Oliveira, 1998; Menezes, 2000; Chazan,
cas vivenciais suficientemente intensas ou pro- 2000; Carvalho, 2001; Rohden, 2001; Rojo,
longadas para merecerem a atenção integrada a 2001; Caretta, 2002 e Azize 2002). Embora cu-
que se procura referir o conceito de “perturba- bram um leque muito amplo de focos etnográ-
ção físico-moral” (Ferreira, 1998). Hoje em dia, ficos, todos têm em comum a disposição em
a soropositividade e a Aids certamente ocupam esclarecer como se processa essa dinâmica de
um lugar de relevo nesse quadro, por colocarem afirmação da racionalização biomédica em con-
em jogo dimensões vivenciais muito críticas, traste com as dimensões holistas da representa-
em função de sua associação com a sexualida- ção ou vivência dos eventos de saúde/doença.
de, com a moralidade e com a responsabilidade Alguns se debruçam sobre situações imediatas,
individual sobre a Aids no Brasil, na perspec- revelando confrontos de visão de mundo tão
tiva aqui resenhada (Guimarães, 2001; Schuch, inconvenientes para os pacientes quanto para
1998; e Knauth, 1991, 1995 e 1996). Todas as do- os profissionais comprometidos com sua fun-
enças venéreas, crônicas, degenerativas e infec- ção terapêutica. Em outros casos, esse trabalho
ciosas compartilham, também, de dimensões passa pela recuperação de uma história “racio-
morais preeminentes – a par de suas implica- nalista” do desenvolvimento das ciências natu-
ções físicas (Borges, 1998; Gonçalves, 1998). rais que sustentam a criação da medicina mo-
Uma outra dimensão estruturante dessa li- derna. E, com isso, passa a compreender a ten-
nha de trabalho tem sido a de testar a hipótese são entre a definição segmentada das ordens de
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realidade observadas e descritas (cada nível da representou freqüentemente o pólo mais típico
realidade material explicado por uma discipli- dessa especificidade, pelo seu explícito distan-
na e seus cânones específicos) e a expectativa ciamento da cosmologia fisicalista e pela sua
permanentemente renovada de atendimento a proposta de uma terapêutica simbólica e rela-
uma demanda terapêutica global ou integrada. cional.
O desenvolvimento do “método clínico” é o re- Como todas as instituições públicas em nos-
sultado de um engenhoso compromisso entre sa cultura, as que se ocupam da medicina e saú-
a segmentação dos domínios científicos e o de sofrem, além do mais, os efeitos da “racio-
olhar interpretativo sobre o corpo, seus sinais e nalização” instrumental baseada na segmen-
sintomas (o que Foucault chamou de “conheci- tação dos saberes e domínios de prática. Isso
mento singular do indivíduo doente”) (Fou- tem implicado a criação de serviços cada vez
cault, 1963). A segmentação dos domínios de mais especializados, em que prevalece a aten-
saber é um dos estímulos originais ao que se ção a dimensões isoladas dos “doentes” ou das
veio a chamar de “especialização” médica, re- “doenças”. Se o “hospício” ou “asilo de loucos”
produzindo no nível das técnicas e da organi- encarnou na história de nossa cultura a separa-
zação da prática médica o mencionado efeito ção e segmentação médica em seu formato mais
de dissolução da totalidade da experiência da antiquado, duro, coletivo, o “hospital” moder-
saúde/doença. Parte das críticas crescentes a es- no atualiza essa tendência sob formas brandas
se efeito se fundamenta justamente na lingua- e tecnicamente irrepreensíveis. Os CTIs pare-
gem de defesa da “pessoa” ou da “personaliza- cem representar a forma mais aguda da ten-
ção” – ou seja, de uma atenção à totalidade ou dência, no radical isolamento a que submetem
singularidade do doente e de sua vivência. seus usuários, em circunstâncias e condições
Uma outra dimensão do “cientificismo” in- freqüentemente vividas ou representadas como
trínseco à constituição da biomedicina é a do “desumanas” ou “despersonalizantes” (Mene-
seu irredutível “fisicalismo”. Todo o empreen- zes, 2000).
dimento científico de nossa cultura decorre da É preciso ressaltar que, no Brasil, esses de-
denúncia das cosmologias holistas, totalizan- senvolvimentos implicaram associações do
tes, e a própria emergência da racionalidade esquema analítico “indivíduo/pessoa” com al-
moderna se representa atrelada à superação das guns aspectos da obra de Michel Foucault. Em-
“superstições”, das representações “mágicas” ou bora suas obras mais epistemológicas possam
“religiosas” que envolvem a experiência da per- ter muitos pontos de contato com a história do
turbação ou doença em todas as demais cultu- individualismo e do universalismo, tal como
ras. O processo de constituição da identidade concebida por Dumont, as apropriações dire-
da biomedicina é assim visto como uma longa tas foram feitas com suas obras mais históricas.
marcha em direção à transparência da nature- A história da loucura na era clássica já conti-
za, perturbada aqui e ali pelas resistências da ig- nha uma reflexão sobre a emergência do sujeito
norância ou do obscurantismo. Há toda uma moderno e suas instituições dedicadas, associá-
história específica do desenvolvimento de um vel ao empreendimento de relativização do va-
saber médico das “doenças mentais” – ela pró- lor-indivíduo e particularmente esclarecedo-
pria uma categoria cultural muito significativa ra sobre a história das perturbações físico-mo-
(Duarte, 1994). A psiquiatria (ou fenômenos rais. Vigiar e punir e a História da sexualidade
associados a sua presença social, como o Movi- I foram porém muito mais diretamente apro-
mento dos Trabalhadores de Saúde Mental ou priáveis, ao aprofundarem de modo radical e
a Reforma Psiquiátrica) tem merecido assim desafiador a investigação sobre os mecanismos
diversos estudos contemporâneos, instruídos ideológicos e políticos da constituição dos su-
pela perspectiva crítica aqui apresentada (por jeitos modernos. Foucault deteve-se aí longa-
exemplo, Venâncio 1997, 1999, 2000, 2001; Lou- mente sobre as instituintes propriedades de
gon 1998; Leal 1999; Henning 1998; Verztman “individualização” dos mecanismos disciplina-
1995; Russo 1993, 1994, 1997, 1998). Essa pers- res modernos e do “dispositivo de sexualidade”.
pectiva analítica tem hoje um particular inte- Essa apropriação não se fez – é verdade – sem
resse na tensão entre versões mais organicistas alguma violência quanto aos pressupostos epis-
ou fisicalistas do sujeito e de suas perturbações temológicos maiores do pensamento foucaul-
físico-morais e versões “psicogênicas”, ou seja, tiano, notoriamente avesso a uma atitude uni-
que postulam uma dinâmica e causalidade es- versalista sistemática e comparada. O potencial
pecíficas para esses fenômenos. A psicanálise de confluência explorado pareceu, porém, se
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autorizar mais explicitamente pelos dois volu- versão “estruturalista” do universalismo fran-
mes seguintes e finais de sua “história da sexua- cês, ao pressupor a existência de uma ordem
lidade”, em que a distância cultural mesma dos fundamental no pensamento humano subja-
materiais analisados veio a permitir uma inter- cente à diversificação cultural, de que nos po-
pretação mais antropológica de sua pesquisa. demos aproximar tentativamente através da
Essa inflexão do pensamento de Foucault foi sistemática interpretação antropológica dos
prenunciada em um importante artigo escri- dados empíricos comparados. É assim possível
to com Richard Sennett em 1981 (Foucault & e conveniente que a pesquisa e reflexão cientí-
Sennet, 1981). É possível ler aí uma explícita ficas proponham modelos interpretativos dessa
contribuição ao conhecimento da complexida- “realidade”, por mais que infletidos pela cons-
de das formas da pessoa na tradição ocidental, ciência das propriedades do intérprete/obser-
numa verdadeira “genealogia” do ideal do indi- vador. Isso implica o equilíbrio entre um “cons-
víduo. trucionismo” e um “realismo”: todo ato huma-
Convém neste ponto esclarecer uma di- no é culturalmente “construído” e determina-
mensão mais abstrata do movimento de idéias do, mas nem por isso deixa de ser eficaz e “real”.
aqui resenhado, a da sua fundamentação epis- Muito pelo contrário, sua “naturalização” sim-
temológica abrangente, que a distingue de ou- bólica lhe adjudica a mais veraz das materiali-
tras tendências dos estudos sociais de saúde/do- dades.
ença no Brasil e no exterior. O primeiro pon- A categoria “experiência” no título deste ar-
to a ressaltar é o do seu caráter fundamental- tigo não deve fazer supor uma continuidade
mente “universalista”, ou seja, voltado para a com os estudos hoje explicitamente dedicados
produção de modelos de ambição abrangente, à “experiência de saúde/doença”. A experiência
que procuram envolver os estudos empíricos das perturbações é – para mim – certamente
pontuais em malhas interpretativas maiores. A uma dimensão crucial de sua realidade, sem lhe
aplicação dessa perspectiva em antropologia se conceder, porém, privilégio ontológico ou gno-
caracteriza pelo método comparativo, isto é, a seológico sobre o “sentido” ou “significação”.
busca de aproximações e afastamentos entre os Há hoje, todavia, uma amplamente dissemina-
diversos elementos das unidades de significa- da disposição em privilegiar a “ação”, a “práti-
ção (e os códigos de sua estruturação interna), ca” ou a “agência” no jogo social, em detrimen-
com vistas a eventuais juízos de universalida- to das análises que partem das idéias, represen-
de. Esse “universalismo” se tinge de “romantis- tações ou categorias de pensamento. Essa dis-
mo”, porém, ao pressupor uma inescapável sin- posição faz parte de uma retomada muito ge-
gularização do pensamento e experiência hu- neralizada do “romantismo” em combinação
manos nessas “unidades de significação” a que complexa com o “empirismo”, em oposição à
chamamos habitualmente de “culturas”. O mais longa preeminência do universalismo (sobre-
importante corolário desse pressuposto é o da tudo em sua versão estruturalista) no pensa-
consciência do caráter radicalmente relativo de mento do século 20. Os conceitos oitocentistas
todo esse empreendimento, justamente por ser românticos de Erfahrung (experiência), Erleb-
culturalmente localizado. Todas nossas ambi- nis (vivência) ou Verstehen (compreender) res-
ções universalistas – inclusive as científicas – se surgem assim renovados pelas ambições de pro-
ancoram nos pressupostos ideológicos de nos- dução de um conhecimento pontual, tópico,
sa cultura específica e jamais escapam dessa de- voltado para a “singularidade” mais do que pa-
terminação original. Chamo a essa estranha in- ra a “universalidade”, para a “intensidade” mais
junção um “universalismo romântico” e a con- do que para a “racionalidade” e para a “com-
sidero a via régia do conhecimento antropoló- preensão” mais do que para a “explicação”.
gico (Duarte, 1999). Essa outra vertente dos estudos de saúde/
Uma segunda característica fundamental doença tem oferecido importantes contribui-
é a da preeminência da significação sobre a ções etnográficas ao tema, contribuindo, junto
prática na dinâmica da interpretação socioló- com as perspectivas “estruturalistas”, para um
gica. Considera-se assim essa via herdeira da deslocamento dos horizontes – mais antigos no
tradição durkheimiana de ênfase no estudo das campo – de interpretação desses fenômenos
“representações sociais” como caminho privile- como reflexo das condições de “dominação po-
giado de compreensão de todos os fenômenos lítica” e “exploração econômica”. Embora os
sociais, de acesso mesmo aos dados de “morfo- efeitos da diferenciação social sejam uma parte
logia” e “dinâmica”. Mas se nutre, sobretudo, da preeminente das determinações culturais em
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que se reproduzem todos os segmentos sociais e antropológicos sobre saúde/doença já me-


nas sociedades complexas, eles são sempre me- receu referências em resenhas técnicas desse
diados por esses códigos e não podem aspirar campo. Lembro particularmente as de Canes-
assim a uma causalidade linear na interpreta- qui (1994), Diniz (1997) e Minayo (1998). O
ção. A própria denúncia da dominação de clas- volume 12 de Curare, editado por Annette Lei-
se é um efeito de uma versão da ideologia do in- bing e dedicado à “antropologia médica no Bra-
dividualismo, primordialmente comprometi- sil”, incorpora contribuições de diversos auto-
da com a “igualdade” em oposição ao chamado res aqui citados. Minha contribuição à utiliza-
“liberalismo”. É extremamente importante le- ção analítica do esquema “indivíduo/pessoa”
var em conta essa ideologia, pois ela não inspi- na compreensão da cultura das classes popula-
ra apenas uma linha de interpretação dos fenô- res foi utilizada de maneira criativa e crítica
menos da saúde/doença, mas participa inten- por Pablo Semán em seu trabalho sobre reli-
samente da dinâmica institucional das cha- giosidade e perturbação na Argentina (Semán,
madas “políticas públicas”, buscando estender, 2000a e 2000b).
intensificar ou qualificar os recursos de atendi- Essa menção me sugere sublinhar final-
mento médico ou sanitário às populações ca- mente a importância da confluência desta li-
rentes. Têm assim um papel extremamente em- nha de pesquisa sobre doença/saúde com a dos
preendedor em muitos aspectos das complexas estudos sobre “religião”. Efetivamente, essas
relações entre os aparelhos de Estado e a vida duas dimensões da vida social mantêm íntimos
social; em contrapeso às implicações excluden- entrelaçamentos, tanto pelo lado das estruturas
tes das políticas “liberais”. Em muitos casos, cosmológicas a que correspondem necessaria-
porém, seu generoso impulso universalista leva mente, quanto pela integração prática em “sis-
à apologia linear da “individualização” no trato temas de cura” e “trajetórias terapêuticas”, em
com as classes populares e seus complexos mo- que fatos vividos ou classificados como religio-
dos de ser “pessoa”, ensejando delicados emba- sos se misturam a fatos vividos ou classificados
tes, desgastes e impasses (Caretta, 2002; para como médicos, psicológicos ou psiquiátricos.
um exemplo recente). Todos os estudos pioneiros sobre as condições
A aplicação de um esquema interpretati- do pensamento mágico colocam em cena a
vo linear associado à “dominação” é uma das oposição pessoa/indivíduo; se não explicita-
tendências internas da Medical Anthropology mente, pelo menos alguns dos traços compo-
norte-americana – o que ali se chama de ten- nentes desse modelo, como a “racionalidade”
dência critical. Trata-se de um dos muitos as- ou a “relacionalidade”. Vamos vê-los particu-
pectos de um movimento amplo e importan- larmente esclarecedores em Lévy-Brühl, Max
te de análise dos fenômenos de saúde/doença, Weber ou Evans-Pritchard, por exemplo. Não
caracterizado – a meu ver – sobretudo pela ten- cabe aqui resenhar, porém, a herança total des-
dência à reificação, seja ela do tipo “biomédi- sa orientação. No Brasil, pode-se encontrar di-
co”, “culturalista” ou “marxista”. Minha crítica à versos estudos de fenômenos religiosos explici-
literatura produzida nesse âmbito sobre a “sín- tamente influenciados pela linha de investiga-
drome dos nervos” resume as objeções que me ção do “indivíduo/pessoa”, como os de Maués
levam a uma oposição sistemática a uma im- (1994), Rodrigues (1995), Rodrigues & Caroso
portação direta da categoria “antropologia mé- (1998) ou Barroso (1999).
dica” para o interior do campo brasileiro de ci- A experiência da saúde/doença interpela a
ências sociais em saúde (Duarte, 1993). A in- integralidade da identidade pessoal – como
sensibilidade à percepção dos múltiplos efeitos todas as ocorrências a que os ingleses chamam
da ideologia do individualismo e do universa- de “afflictions” – impondo, portanto, ações e
lismo científico (particularmente biomédico) reações mobilizadoras de sentido. O fato de se-
sobre as condições da apercepção sociológica rem elas alternativamente peregrinações, pro-
geral, que é muito característica do pensamen- messas, conversões e sacrifícios ou consultas,
to universitário médio norte-americano, seria exames, operações, dietas ou transplantes – ou
particularmente danosa para a compreensão de ainda tudo isso alternada ou concomitante-
uma sociedade como a brasileira, em que avul- mente – põe em cena horizontes de significa-
ta de tal modo a presença de modelos relacio- ção e princípios de ação complexos e diferen-
nais de pessoa. ciados que o esquema analítico da “pessoa/in-
A contribuição da linha de trabalho aqui divíduo” ajuda a compreender em nossa socie-
resenhada no âmbito dos estudos sociológicos dade.
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Artigo apresentado em 20/6/2002


Aprovado em 12/8/2002
Versão final apresentada em 9/9/2002