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A noção de verso livre, do Prefácio Interesantíssimo ao Itinerário de Pasárgada Author(s): Rogério Chociay Reviewed2/2012 10:07 Your use of the JSTOR archive indicates your acceptance of the Terms & Conditions of Use, available at . http://www.jstor.org/page/info/about/policies/terms.jsp . JSTOR is a not-for-profit service that helps scholars, re searchers, and students discover, use, and build upon a wide range of content in a trusted digital archive. We use information technology and tools to increase productivity and facilitate new forms of scholarship. For more information about JSTOR, please contact support@jstor.org. . UNESP Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho is collaborating with JSTOR to digitize, preserve and extend access to Revista de Letras. http://www.jstor.org " id="pdf-obj-0-2" src="pdf-obj-0-2.jpg">

A noção de verso livre, do Prefácio Interesantíssimo ao Itinerário de Pasárgada Author(s): Rogério Chociay Reviewed work(s):

Source: Revista de Letras, Vol. 33 (1993), pp. 43-53 Published by: UNESP Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho

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Accessed: 12/12/2012 10:07

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A NOÇÃO DE VERSO LIVRE, DO PREFÁCIO

INTERESANTÍSIMO AO ITINERÁRIO DE PASÁRGADA1

Rogério CHOCIAY2

RESUMO:Neste artigo examinam-see dicutem-seas noções de versolivre a que chegaram Máriode

Andrade (1839-1945) e

ManuelBandeira (1886-1968) e que se expressam noPrefácio Interessantíssimo,

no Intineráriode Pasárgada e em alguns outrostextos dos dois escritores.

UNITERMOS:Mário de Andrade; ManuelBandeira; Modernismo; poesia modernistabrasileira; ritmo; verso;verso livre.

Emboratenha constituídouma das linhas de

força

da poesia modernista

brasileira,particularmente

comportado, a

na oposição declaradaao verso parnasiano, medidoe bem

prática do versolivre nunca contou com o apoio de uma teoriaclara,

perfeitamente delineada, capaz de ao mesmo tempoexplicar as inúmeras realizações

dos

poetasconsagrados e servirde poéticapara os iniciantes.De fato, excetuadasas

manifestaçõesprogramáticas dos tempos heróicose das muitascorrentes, o Moder-

nismobrasileiro não nos legou senão unstrês ou quatro textosmais lúcidos a respeito

do assunto, de sorte que os poetas das geraçõesposteriores se encontraram pratica-

mentesem outro aprendizadoque não os próprios textosdos

modernistasde primeira

linha.O resultado práticofoi, em primeirolugar, a ausênciade um conceitode verso

livrede aceitação geral; em segundo, a

variedade,por vezes contraditória, das

cada qual tentoufazer a respeito.

realizaçõespráticas, bem comoas explicaçõesque

Deste modo,depois

que o movimentorevolucionário iniciado pelos modernistasfluiu

pelo deltadas manifestações de vanguarda - e algumasquestionaram o próprio verso

(como o Concretismo,por exemplo, que trocouo verso,quer tradicional, quer livre,

pelo traçoverbal) -, os novos poetas que buscam aprender, e os novoscríticos, que

buscam

explicar, ainda não sabem exatamenteo que é e comose fazo versolivre.

Máriode Andradee ManuelBandeira revelaram preocupação constantecom o

problema desde os primeiros momentosdo Modernismo,chegando a trocarcorres-

  • 1. Este artigo é umdos resultadosde pesquisa sobrea versificação no Brasil,projeto de longoprazo cujas primeiras

fasesvêm sendo realizadascom o auxíliode bolsa-pesquisa do CNPq (Proa 301768/88-9). 2. Departamento de LetrasVernáculas - Institutode Biociências, Letrase CiênciasExatas - UNESP - 15054-000 - São Josédo Rio Preto - SP.

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pondência em que discutirama naturezae as faces do versolibrismo. Em

artigo

publicado na Revistado Brasil (1924,p. 222) Márioreconheceu Bandeira como "o

primeiro a

empregar o versolivre no Brasil", mencionandoo poemaDebussy comoo

protótipo bandeirianoda nova técnica, mas não explicitando as razões que teriam

fundamentadotal reconhecimento. A

leiturado poema (Bandeira,1966, p. 64) pelo

estudiosode hoje, desvinculadodo espírito da época e de intençõesprogramáticas,

revela pormenoresque não se alinham plenamente com o parecer de Mário

de

Andrade:

DEBUSSY

Paraca, parala ... Paraca, parala ... Umnovelozinho de linha ... Para cá, para lá ...

Paraca, parala ... Oscila no ar pela mão de uma criança

(Vem e vai

...

)

Que delicadamentee quase a adormecero balança

-Psio

...

-

Para cá, parala ... Para cá e ...

 

- O novelozinhocaiu.

(Bandeira,1966, p. 64)

Observa-se, em primeirolugar, a dependênciaque o poema temdo própriotítulo,

sem o qual correriao risco de sofrer interpretaçõescompletamente opostas às

intençõesque carrega.Villa-Lobos, aliás, como

musicaro poema, interferiuna

lembraBandeira (1958,p. 71), ao

letra,suprimindo "o nomeinútil do compositorfrancês,

intitulando-aO novelozinhode linha".Por outro lado, apesar da inobservânciade

uniformidademétrica ostensiva, o poema Debussy ainda guarda aspectos que o

próprioBandeira, mais tarde, reconheceriacomo característicosda versificação

tradicional: o retorno regular do verso-refrão, que temleitura de hexassílabo3-6

("Para

cá, paralá

...

"),

a correspondência rítmicaentre o terceiroe o décimo-segundoversos,

de idênticonúmero de sílabas (oito,segundo o padrãoagudo de contagem) e as rimas

ricas (criança/balança,psio/caiu). Além disso, a heterometria, ou, se se quiser, as

assimetriasdo poema não parecemresponder a

uma atitudeostensiva de liberdade

métrica, mas antes se revelamcomo realizaçãodaquilo que os tratadistas antigos

chamavamde harmoniaimitativa: o poema, a partir da sugestão do títuloe por meio

de retornos simétricos,quebras de sequência e coma interpenetração de duas linhas

discursivas, tenta sugerir a impressão causada por um

suposto "estilo" apreendido

em peças

o poema

jeune

de Debussy. A esse respeito Bandeira (1958,p.

71) confessou que escrevera

"na doce ilusãode estar transpondopara a poesia a maneirado autorde La

a propósito lembrar que o Debussy faz parte de

filleaux cheveuxde lin".Vem

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Carnaval (1919) em que predominamaciçamente o verso tradicional, de feição

parnaso-simbolista.

A correspondência entreMário e Bandeiracontém inúmeras passagens que

podem trazerbons subsídiosao conhecimentodo versolivre modernista. Em carta

de 1924, Mário (1958,p. 21-2)

nado a presença

contradita observação de

Bandeira,que teria questio-

de um "alexandrinoortodoxo" no poema Nocturnode Paulicéia

Desvairada:

Zangaste como versoalexandrino e parnasiano "e o ciúmeuniversal etc. "

Mas, caro Manuel,

sabes da liberdade,mesmo excessiva que há no meulivro: portanto não foi preconceitoque me

obrigouàquela fórmula. Era assimmesmo. Senti assim. Saiu assim.Como posso eu desritmarum

movimento que brotounaturalmente? Só por prevenção? Mas no prefáciojá afirmavanão

desdenhar balouço de versoscomuns. A comoção muitavez está numritmo comum. Os ritmos

comunsexistiram primeiro na natureza,depois no

preconceito. Não há preconceito nemchavão

que não tenhaexistido naturalmente. E o meu ocasional alexandrino, mesmocom seus dois

substantivose dois adjectivos, existiuali naturalmentedentro de mim.Da mesmaforma ritmos e

metros que dentrodo livrose encontram. Além disso: eu aindaestava muito perto do meu passado.

Esta lei de hímen que nos persegue!(Andrade, 1958, p. 21-2)

Não é

difícil perceberque

o reparo de Bandeirase escudavano

pressuposto(mais

tarde expresso no Itineráriode Pasárgada) de que "no versolivre autêntico o metro

deve estarde tal modo

esquecidoque

o alexandrinomais ortodoxofuncione dentro

dele semvirtude de versomedido". (Bandeira,1958, p. 33) A zanga de Bandeira, vale

a pena observar, não deve ter surgidoapenas da leiturado verso apontado, mas de

outrosda mesmaestrofe:

Calor!

...Os

diabosandam no ar

corpos de nuas carregando ...

As lassitudesdos sempresimprevistos!

e as almasacordando às mãos dos enlaçados!

Idíliossob os plátanos!

E o ciúmeuniversal às fanfarras gloriosas

de saias corde rosae gravatas corde rosa! ...

(Andrade,s.d., p. 56)

O problemaprovavelmente

detectado por Bandeirareside no fato de que, embora

o

poema

comoum todo se proponha em versos livres, e mesmoesta estrofeassim se

apresente,permite, no entanto, leituraem "ritmostradicionais". Os dois primeiros

versos,por exemplo, podem ser lidoscomo octossílabos4-8 (muitoapreciado pelos

simbolistas).Nesta mesma leitura, o terceiroverso quebraria a sequência,apresen-

tando-secomo hendecassílabo (4-7-11). Mas o

quarto se lê

comoalexandrino perfeito,

seguido de um quebrado hexassilábico (o "quebrado natural"do alexandrino,por

corresponder ao seu hemistiquio) e

de outroalexandrino perfeito(o mencionadona

carta). O últimoverso da estrofe parece encaminhar-secomo alexandrino,pois

apresenta acentona sextae sinalefana sétima sílaba, mas a partir desse pontoquebra

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a expectativa, revelandouma sílaba a mais. 0 esquema abaixo, que visualizaa

sucessão de sílabas fracase fortesda estrofe, dá uma boa ideia desse jogo de

continuidadee descontinuidades:

oóoóoóoó

óooóoooó

oooóooóoooó

oó o o oóoóoóoó

oóoooó

oóoooóooóooó

oóoóoóooóoóoó

Mas não apenas nestaestrofe. Desde o iníciodo poema se podem reconhecer

"alexandrinosortodoxos" (versos1, 5, 9, 14,22, 24, 35,47, 49) e mesmo "antigos", de

receita6+6 não obrigada a sinalefa (versos7, 25, 31).

A resposta de Máriode Andrade, acima citada,defende, portanto, o que Bandeira

condena, remetendoa justificativa ao Prefácio Interessantíssimo,

onde se pode 1er:

Mas não desdenho baloiçosdançarinos de redondilhase decassílabos. Acontece a comoção

caberneles. Entram pois às vezes no cabarèrítmico dos meusversos. Nesta questão de metros

não sou aliado; sou comoa Argentina:enriqueço-me. (Andrade, s.d., p. 22)

Não deixa,todavia, Máriode Andrade (1958,p. 24) de fazercerta concessão a

Bandeirano parágrafoseguinte da cartamencionada (vale observar que já os dois

últimos períodos do parágrafosupracitado contémum velado pedido de desculpas):

Creio que tensrazão quanto à excessivamusicalidade dos meusversos. Caí muitasvezes

numdomínio inteiramente musical. Agora: o leitorestá avisado que meusversos devem ser ditos.

Aindacontinuo neste pensar: versossão para se dizer.O poeta é sempre um rapsodo. Em todo

caso procuroagora tirardos meus versos essa musicalidadedemasiado objectiva, visando

conservara arteda palavra dentrodos meios que lhe são próprios:clareza, sonoridade falada,

sentidode dicionárioetc. (Andrade,s.d., p. 22)

Em cartade 31.10.1924,todavia, Máriotranscreve ao

amigo o poema

Maturida-

de, que considera"bom" e pede-lheopinião (1958, p. 25). Emborano mesmotom

íntimoe fraterno que caracterizasua correspondência com Bandeira, não se pode

deixarde perceberalguma ironiano pedido,pois o poema trancritona carta apresenta

as mesmascaracterísticas de composição do anteriormentecriticado por Bandeira:

sem dificuldade,este poderiapinçar

no poema outrosalexandrinos "ortodoxos"

(versos4, 7,9, 11, 14, 16).

Não

custa lembrar que Márioe Bandeira foram, tanto quantopoetas, teóricos

dos mais lúcidosdo Modernismo brasileiro, e a obra poéticaque realizaramnão é

apenas produto do impulso líricoou do purotalento, mas da necessidadede proceder

a uma

experimentação constantede soluções, o que, na prática, dada a importância

modernista. Essa consciên-

de ambos,significava criara própria técnicaversificatória

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cia do fazere da necessidadede experimentar se

patenteia em muitas passagens de

Mário,como, por exemplo, no ensaio O MovimentoModernista:

O que caracterizaesta realidade que o movimentomodernista impôs,é, a meu ver, a fusão

de três princípios fundamentais:o direito permanente à

inteligência artística brasileira; e

pesquisa estética; a atualização da

a estabilização de uma consciênciacriadora nacional. (Andrade,

1960a,p. 242)

Esse "direito permanente à pesquisa estética"fora reivindicado também pelo

eu-líricode Bandeirano poema Poética, do livro Libertinagem, particularmente

nos

versos:

Estoufarto do lirismocomedido

do lirismobem comportado

do lirismofuncionário público comlivro de ponto

expedienteprotocolo e

sr. Diretor.

manifestações de apreço ao

(Bandeira,1966, p. 108)

e tambémno versofinal:

  • - Não quero maissaber do lirismo que não é libertação.(Bandeira, 1966, p. 108)

No tocanteao versolibrismo,

portanto, o ponto de partida de ambosé análogo:

marcados por um aprendizado e uma prática do verso segundo a Métrica,desejavam

escapar dos limites impostospor esta e experimentarsoluções novas.Isto está muito

bem representado nas palavras do PrefácioInteressantíssimo

em que o poema

(Andrade, s.

d., p. 20),

colegiais

em versostradicionais é comparado a uma "ordemde

infantes que saemda escola de mãos dadas, doisa dois", e o versolivre a "uma ordem,

ainda mais

alta, na fúriadesencadeada dos elementos". Questionando,assim, mas

não necessariamente proscrevendo, o verso tradicional, caracterizado por umaordem

"previsível", os dois poetas

buscaramdurante toda a sua vida, na teoriae na

essa "ordemainda maisalta" que deveriaser a essênciado versolibrismo.

prática,

Há uma discrepância,porém, entre ambos, de modus operandi:enquanto Mário

não se preocupa demasiadamenteem fazer com que cada versoseu seja inconfundível

com os tradicionais, bastando-lhea atitudede independência em relação à Métrica

no ato de composição e a harmoniaassim obtida no poema,Bandeira, no testamento

poético do Itineráriode Pasárgada, mostra-nos que sua

"genuíno" foiuma espécie

pesquisa

do verso livre

de busca do "antiverso", ou melhor, do "anti-ritmo".

Sua

reflexãocrítica sobre a própria obraevitou que sofressedemasiada influência do amigo

Mário,por exemplo, quando reconhece que Debussy, de fato, entre outros, não era

aindaum autêntico poema de versoslivres:

Versoscomo os do meu Debussy, Sonhode uma

Terça-FeiraGorda, Balada de SantaMana

Egipcíaca, Na solidãodas Noites Úmidas,Bélgica, A Vigília de Hero,Madrigal Melancólico, Quando

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Perdereso GostoHumilde da Tristezaainda acusam o sentimentoda medida. (Bandeira,1958,

p. 33) [grifonosso]

Esse "sentimentoda medida" (que aliás foio motivodo

reparo ao poema de

Mário, como há pouco comentamos) serviu para Bandeiracomo pedra-de-toque na

pesquisa formaldo verso livre,cujo resultadofinal o poeta

confessater sido "uma

conquista difícil" (1958,p. 33). Formadosob o signo da métrica parnaso-simbolista,

era, de fato, comoSisifo que Bandeira perseguia a tarefade estabelecera verdadeira

liberdadedos versos, sem qualquertipo ou impressão de retorno. Segundo ele mesmo

afirma, acabou encontrandoem outros géneros de textoos elementos"dessensibili-

zantes" (1958,p. 33) necessários para eliminardos poemas os resíduosdo metro:

traduções(de poemas metrificados) em prosa de Poe e Mallarmé,menus, receitas,

fórmulas farmacêuticas, como porexemplo:

 

Óleo de

rícino

Óleo de amêndoasdoces

 

Álcoolde 90°

Essênciade rosas.

 

Foi, pois,

postuladoque

da

observação

de textoscomo estes

Bandeiraestabeleceu o

que

fundamentatoda a sua teoriado versolivre: "no versolivre autêntico

o metrodeve estarde tal

forma esquecidoque

o alexandrinomais ortodoxo funcione

dentrodele sem virtudede verso medido". Emborafale em "alexandrinomais

ortodoxo", Bandeira querdizer, simplesmente, que num poema em versosrealmente

livresnão poderápairar nenhuma suspeita de metrificação. Não se trata,pois, de o

poeta

fazerum versoalexandrino e inseri-lono meio dos versos livres, mas de um

versoconstruído como "livre" ser tomado, em função de elementosdo contexto, como

"alexandrinoortodoxo". A construção do poema emversos livres, neste sentido, seria

a construção de um poema em antiversos.

A solução de Bandeira, emboranão expliquetudo, tembase lógica: o versolivre

deveser exatamento o oposto do versotradicional; se esteé medido,aquele não pode

ser; se este apresenta retornosacentuais regulares,aquele não pode apresentar; se

nesteas rimassão fixas,naquele devemser livres; se este,enfim, apresenta-se dotado

de um ritmo previamenteplanejado, aquele deve trazer sempre a característicado

imprevisto, do individualmente elaborado, sem fórmulas preconcebidas. Ao cabo

desse processo de reflexãoe de prática, Bandeiradeclara-se imune ao metricismo:

Umnúmero fixo de sílabascom as suas

pausas criaum certo movimento rítmico, mas não

é forçoso ficarno mesmometro para mantero

ritmo.Quando atentei nisso, senti-meverdadeira-

menteliberto da tiraniamétrica. (Bandeira,1958, p. 34)

O extremocuidado com

que analisao assunto, no entanto, o

fazdeixar escapar

uma desconfiança: "Mas não sei se não ficou sempre uma comosaudade a repontar

aqui e ali

"

...

(1958,p. 33)

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Estas duas últimas observações da Bandeira,espécie de desabafos, trazemà

bailao fatode que a preocupação como versolivre tinha como nó górdio o problema

do "ritmo":ao

quebrar as coordenadasmétricas do poematradicional, quebrar-se-ia

tambémo ritmo?Bandeira acha que é possível elaborarno poema em versoslivres

"umritmo um

pouco

maissutil do

que

o estritamenteestabelecido pelo númerofixo

de sílabas" (1958,p. 36). A mesmaideia aparece em Máriode Andradeem A escrava

que não é Isaura,quando afirma:

O que interessasob o ponto de vistaformal na constituição das artesdo tempo é o ritmo.

Ritmonão significa volta periódica dos mesmosvalores de tempo.

Istoserá quando muitoeuritmia. (Andrade,1960b, p. 222)

Essa insistênciana ideia de que o poema em versoslivres tem um "ritmo

próprio",que não se confundecom o do poematradicional, tornou-se estereótipo em

todos os estudos posteriores sobre o versolibrismo, e é a expressão concretada

preocupação dos poetas em legitimar o verso livrecomo forma organizacional

alternativaà métricatradicional e em

muitos aspectos,segundo os modernistas,

problemática

"melhor" que esta. Ingressamos, neste ponto, na parte mais confusae

da teoriamodernista do

verso livre,que

nemMário nem Bandeira conseguemexplicar

de modo rigorosamenteobjetivo. Que "ritmo"seria esse dos versoslivres? "Há muitas

vezes que obedecera ritmosinteriores pessoais", diz Márioa Bandeira (1958,p. 29).

E Bandeiraescreve a Alphonsus de GuimaraensFilho (1958,p. 1422) sobreo "oceano

em perpétuo movimentodo versolivre ". Bandeira, tentandocaracterizar o verso livre

poroposição ao metrificado,

falana "construção redonda"deste (1958,p. 33) [grifo

nosso],enquanto Márioafirma:

Continuarno verso medido é conservar-sena melodia quadrada e preferi-la à melodiainfinita

de que a músicase utilizasistematicamente desde a moda Wagner sem que ninguém a discuta

mais. (Andrade,1960, p. 226) [grifonosso]

Na supracitada cartaa

Alphonsus de GuimaraensFilho (1958,p. 1422), Bandeira

parece retrucara Mário:"Chamo poeta 100%o que é artista também, isto é, artesão

também, - o poeta que sabe nadar em todas as águas: no oceano em

movimentodo versolivre e ...

perpétuo

nos blocos congelados da formafixa", [grifonosso]

Uma síntesefeliz da visão bandeirianade versolivre aparece em carta que o

poeta escreveem 1951a DoraVasconcelos (1958,p. 1453),quando faz reparos sobre

as técnicasda poetisa: "Àsvezes as linhasem que você reparte o seu discurso poético

não são versos(o verso precisa terautonomia, precisa de uma coisa que pode viver

por si no esplêndidoisolamento)", [grifo nosso] Não era essa exatamentea ideia que

Máriotinha a respeito, como aliás formularaem cartade 1924 ao

amigo,que

lhe

sugerira transformar três versos de um poema em um só: "Queres que eu faça disso

um só verso.Não razão propriamente. Ao contrário.Si por acaso no versolivre

cada verso correspondesse a

um juízointeiro, entãoteria razão, mas o versolivre não

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é só isso, embora seja tambémisso. Há muitasvezes que obedecerá ritmos interiores,

pessoais".(1958, p. 29)

As observações feitasaté este ponto demonstram que Máriode Andradee

ManuelBandeira chegaram a concepções de versolivre muito próximas,apesar de

algumasdiscrepancias no modo como buscaramrealizar seus versos"ou no modo

comotentaram explicá-los. Nascidose crescidossob o signo da métrica parnaso-sim-

bolista (Mário confessa-omais uma vez, e os primeiros livrosde Bandeiranão têm

outra feitura), era natural que enfrentassem grande dificuldadeem libertar-setanto

dos maneirismosdo estilo como da previsibilidade das formasmétricas. Com a

ebulição das novas ideias modernistas,começaram ambos a moldarsuas próprias

teorias, não sem conversarembastante a respeito, e sob a pressão da necessidade

impostapelo

próprio Movimentode definirfronteiras entre o

passado questionado e

Bandeira apelida "re-

o

presènterevolucionário, entreos "ritmos"tradicionais (que

dondos"e Mário "quadrados") e os "ritmos" modernos,que deveriamnascer da ânsia

de liberdadeformal característica do Movimento.

A teoriado versolivre modernista,todavia, restoucarente de

aprofundamento

justamente nesse ponto: o do "ritmo". Tanto Bandeira como Mário falam, comovimos,

que o poema em versoslivres tem um ritmo que não se confundecom o ritmodo

poema em versostradicionais. Mas, em que consiste, então?As respostas,algumas

das quais citamos acima, se ganham em entusiasmo,perdem em objetividade.Mário,

em A escrava que não é Isaura (1960b,p. 228) chega a dizer que o versolivre é

"arrítmico pelo conceitouniversal de ritmo", assim como antes falaraem "ritmos

interiores". Este é, de fato, o pontonevrálgico da teoria.

Uma das interpretaçõespossíveis para essa lacuna na teoriado verso livre

modernistaseria a de que este, por sua própria naturezade antiverso, teria feição

individual,configurando-se de maneira singular e inconfundível em cada poeta, razão

pela qual não poderiajamais sersubmetido a padrões de análisee julgamento. Nem

Mário,porém, nem Bandeira, autorizamtal interpretação. A

correspondência entre

ambosfoi uma permanente discussãosobre sua técnica, tantoem versos tradicionais,

que não deixaramde empregar,quanto em versoslivres. Ressaltam, é bem verdade,

o quanto de "pessoal", de "individual", entracomo componente do poema em versos

livres, mas em nenhummomento negam que haja elementos objetivos em sua

estrutura,passíveis, portanto, de avaliação

e julgamento. No ensaioPoesia e Verso,

Máriosubscreveria sem

Bandeiranos apresenta um parecer definitivoa este, que

reservas:

Maso versolivre cem por centoé

aqueleque

nãose socorrede nenhumsinal exterior senão

o da voltaao ponto de

partida à esquerda da folhade papel: versoderivado de vertere, voltar. À

o versometrificado.

Mas é engano. Bastadizer

primeiravista, parece maisfácil de fazerdo que

que noverso livre o poeta temde criaro seuritmo sem auxílio de fora.É comoo sujeitoque solto

norecesso da florestadeva achar o seucaminho e sem bússola, sem vozes que de longe o orientem,

semos grãozinhos de feijão da históriade Joãoe Maria.(Bandeira, 1958, p. 1282)

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Emborano plano das imagens, Bandeiratenta dizer-nos que o poema em versos

livresnão é puro fluxocaótico e indiferençado,

mas possui um princípioorganizador

criado pelo poetapara

o

poema

e no

poema,princípio organizador que

deve deixar

marcas"sensíveis" (os grãozinhos de feijão de que fala Bandeira). Se o poeta não

conseguirgerar o poema segundo esse princípioorganizador, não faráa rigor nem

versoslivres nem poema. É o que afirma Bandeira,já de maneiramais explícita, no

mesmo parágrafosupracitado :

Sem dúvidanão custa nada escreverum trechoem prosa e depois distribuí-loem linhas

irregulares, obedecendotão somenteàs pausas do pensamento. Mas isso nuncafoi verso livre. Se

fosse,qualquer pessoa poderiapôr em versoaté o últimorelatório do Ministroda Fazenda. Essa

enganosa facilidadeé causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras.

(Bandeira,1958, p. 1282)

A ironiada últimafrase é bastante significativa da consciência que temo poeta

de que o adventodo versolivre não trouxe apenas soluções, mas também problemas

como o da identificação da nova formade expressãopoética e do seu aprendizado

pelos maisnovos. A este respeito, a sequência do parágrafo de Bandeirase tornaao

mesmo tempo um desabafoe um deboche:

O Modernismoteve isso de catastrófico: trazendo para a nossa língua o verso livre, deu a

todoo mundoa ilusãode que uma sériede linhas desiguais é poema. Resultado: hoje qualquer

subescrituráriode autarquia em crise de dor de cotovelo,qualquer brotinhodesiludido do

namorado,qualquer balzaquiana desajustada no seu ambientefamiliar se julgam habilitadosa

concorrercom Joaquim Cardozoou CecíliaMeireles. (Bandeira,1958, p. 1282)

Mesmo reconhecendo-se alguma razão na queixa-desabafo do poeta, não é

possívelesquecer que uma parte da culpa do estado de coisas que acusa (como

estamosobservando ao longo deste artigo) é do próprio Movimento Modernista,que

não deixou de

maneiraabsolutamente clara e organizada em doutrinasubsídios

técnicos para a

composição e critérios objetivospara

o julgamento dos versoslivres

e, deste modo, crioua "ilusãode que umasérie de linhas desiguais é poema". A culpa

se reparte tambémcom os que vêm estudandoo Modernismo,pois ainda não

conseguiram reunirem sistemaas

lições,reflexões, manifestações programáticas,

desabafos, comentáriose confidências dos poetas modernistascomo Mário e Bandeira

sobreo versolibrismo.

Podemos, neste ponto, levantara questãoque se anuncioudesde o iníciodeste

artigo: a dificuldade que ainda temosde compreender o

verso livre,correspondente

à dificuldade que os modernistastiveram paraexplicá-lo e, mesmo,praticá-lo, talvez

residano emprego da palavra "ritmo" ; é possívelque o conceitode "ritmo"não tenha

sido adequado ao que os poetas e teóricosdo períodoqueriam significar quando

abordavama novaforma versificatória.

O

próprio Máriode Andrade, nas páginas de

A escrava que não é Isaura (1960b,p. 227-9) mais de uma vez aqui mencionadas,

demonstracerta dificuldadeem esclarecero sentidoem que emprega a palavra

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"ritmo".De fato, o conceitode "ritmo",qualquer que seja a área em que se empregue

a palavra, está indissoluvelmente ligado à noção de "periodicidade", de "retorno

periódico". A negação

dessa

periodicidade,portanto, seria a negação do próprio

problema ao falar (I960,p. 228)que

conceitode "ritmo".Mário percebeu muitobem o

o verso livre,segundo o conceitouniversal de ritmo, é "antirrítimico"

(sic); e a busca

quase

obsessivade Bandeiraem

fazer poemas cujos

versosem nenhummomento

"lembrassem"os metrificadoscaracteriza a mesma atitudeno plano do "fazer"

poético.

O verso livre, dizem-nos Mário, Bandeirae outros modernistas, é antimétrico,

recusa-seradicalmente a um padrão, a umamedida préviaimposta de fora para dentro

do poema. Este ponto é pacífico e inquestionável. Mas seria o versolivre mesmo

anti-rítmico?Em que consistiria, entãoessa especificidadeque ao mesmo tempo o

distingue de verso metrificado,

da prosa, do poema em prosa e até mesmodo "falso"

versolivre questionadopor Bandeira?Seria um verso portador de característicade

"não-ritmo" que só funcionaem contraponto com a existênciade textos (os

poemas

metrificados)

que apresentam "ritmo" (conceitoque deixariao versolivre eternamente

dependente,por funcionarcomo "anti", como negação, do verso metrificado)? Ou um

verso que realizaritmos "interiores",

"individuais", "psicológicos", cujo julgamento se

tornariaextremamente dificultoso, senão impossível? Ou um verso que apresenta

configurações absolutamentediferentes e

independentes das dos versos metrificados,

às

quais talveznão caiba, pelo menoscomo chave-mestra, o

"ritmo"?

conceitodescritivo de

As três indagações acima traduzema perplexidade dos estudiososatuais em

relação ao assunto.Já estamos,porém, a uma distânciasuficiente do Modernismo

brasileiro parapodermos, com isenção,debruçados sobreos poemas emversos livres,

bem como sobre os textosde poética explícitamodernista, começar a resolvero

enigma, talvezusando como guia a exclamaçãobem-humorada, mas incisiva, de

Máriode Andrade:

Mas o que distingue a

p. 227)

prosa da poesia não é o metro, com milbombas! (Andrade,1960b,

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CHOCIAY, R. The notionof freeverse, from Prefácio Interessantíssimo to Intíneráriode

Pasárgada. Rev.Let São Paulo, v. 33,p. 43-53,1993.

■ ABSTRACT:This paper is an analysis and a discussionof the potions offree verse attained by Mário

de Andrade (1893-1945) and Manuel Bandeira (1886-1968) 'and whichare presented in Prefácio

Interessantíssimo (A

veryinteresting preface), in Itineráriode Pasárgada(Itinerary of Pasárgada) and in

severalother texts by thetwo authors.

■ KEYWORDS:Mário de Andrade; ManuelBandeira; Modernism; poetry; modernbrazilian poetry;rhythm;

verse; freeverse.

Referências bilbiográficas

ANDRADE, M. de. ManuelBandeira. Revista do Brasil São Paulo, n. 107,p. 15-24, 1924.

. Cartasde Máriode Andradea ManuelBandeira. Rio de Janeiro:Simões, 1958.

.

Poesias completas. São Paulo: Martins, s.d.

.

Aspectos da literaturabrasileira. São Paulo: Martins,1960.

. Obraimatura. São Paulo: Martins, 1960.

BANDEIRA,M. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958.v. 2.

. Estrelada vidainteira. Rio de Janeiro:José Olympio, 1966.

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