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INTRODUÇÃO

Entendemos que a categoria da igreja como povo de Deus serve de elemento


aglutinador dos fiéis e que implica num status jurídico de pertença onde todos podem
ter acesso a uma vida digna, à terra, à uma identidade legitimada pela comunidade e a
caminho da construção de uma nova sociedade, uma comunidade alternativa e
diferenciada.

Veremos que o Antigo Testamento relata o chamado de Abraão, e a formação


do povo de Deus que se confirmou na aliança de Javé com Israel elegendo-o dentre
os povos, para fazer dele o seu povo.

Como também no Novo Testamento, veremos que a igreja, através de Cristo,


é o novo Israel de Deus. Mediante Cristo todos poderiam fazer parte: judeus e
gentios, evidenciando, assim, a continuidade da história do povo de Deus com o povo
de Israel. E, como resposta a essa pertença e nova identidade, a Igreja desempenhará
a missão recusada por Israel de ser bênção, e abençoar todos os povos mediante a
obediência.

A escolha desse vocábulo bíblico com referencia à igreja como povo de Deus
é uma tentativa de resgatar o seu valor, sua relevância e o seu emprego para os dias
de hoje acerca da igreja, intencionando o retorno a uma terminologia mais plena,
pura, bíblica e ecumênica.

Esse conceito não é uma expressão a mais da realidade eclesial, entre outras
características, mas sim o ponto de partida para uma nova compreensão da Igreja, da
qual dependem muitas outras.
2

Há muitas imagens nas Escrituras e, mais especificamente, neotestamentária


para designar e conceituar a Igreja, dentre elas, pode-se destacar a imagem paulina
nas cartas aos Colossenses (1:15-18) e aos Efésios (1:18-23), da Igreja como Corpo,
cuja Cabeça é Cristo. Essa interpretação da Igreja como corpo místico de Cristo,
continuaria sendo, uma das imagens mais adequada para definir a Igreja.

No entanto, nossa preocupação é desencadear uma reflexão e uma tentativa


de fomentar uma mudança histórica, teológica e prática na maneira de compreender a
Igreja. Neste sentido, povo de Deus caracteriza melhor o conceito e poderia ser o
mais apropriado para definir a Igreja.

A categoria de povo de Deus é mais adequada que outras para destacar


determinados aspectos da Igreja. Por exemplo:

1. Povo de Deus traduz mais diretamente a condição de Igreja peregrina. A


igreja por ser um povo está condicionada à história e à cultura de sua época, de sua
sociedade e do mundo secular, sujeita a erros e as conseqüências de suas opções
históricas que a afasta da práxis e do ideal evangélico.

2. Povo de Deus é uma categoria mais adequada para inserir a compreensão


da Igreja dentro de uma visão dinâmica e evolutiva da história. Diante disso, pode
levar em conta os condicionamentos históricos, que, por conseguinte, tornar-se mais
flexível e atual sua mensagem e a missão.

3. Povo de Deus indica mais a idéia de continuidade com o povo de Israel. A


aliança com Deus se revelou em meio a acontecimentos históricos, em sua
manifestação progressiva e em direção a uma verdade sempre maior (Gl 3:15-22).

Podemos afirmar que a categoria de povo de Deus é mais adequada que a de


corpo de Cristo, pois, no sentido de pertença à Igreja, o conceito de povo de Deus,
que, sob estes pontos de vistas apontados acima, é muito mais amplo e flexível que
as de corpo e membros.

Diante disso, o objetivo deste trabalho é:

- Contribuir para a compreensão de que povo de Deus não quer dizer massa
passiva e irresponsável, mas o povo de Deus é, acima de tudo, uma associação de
3

homens e mulheres ativos e responsáveis. É ativo porque o Espírito Santo os habita e,


responsáveis, porque são enviados ao mundo para testemunhar, proclamar e viver o
Evangelho de Cristo Jesus.

- Pretender mostrar que a categoria Povo de Deus remete a uma compreensão


comum e básica de nossa condição eclesial: revelar a nossa condição comum 1 de
crentes como realidade primária e fundamental a partir da qual fomos constituídos
povo de Deus (1 Pe 2:9-10).

Enfatizando isso, Lohfink escreve:

Povo de Deus não significa estado de Israel. Povo de Deus


também não é apenas a comunidade espiritual dos devotos que,
sendo os mansos da terra, esperam a salvação. Povo de Deus é
aquele Israel que tem consciência de ser eleito e chamado por
Deus, com todo a sua existência - o que quer dizer também: em
toda sua dimensão social. Povo de Deus é aquele Israel que,
segundo a vontade de Deus, se deve distinguir de todas as
nações da terra. 2

Em termos bíblico-teológicos existem algumas dimensões (características,


propriedades) destacadas por biblistas e teólogos para definir o que é a Igreja, dentre
elas: “esposa de Cristo”; “casa” ou “templo de Deus” 3 ; “Corpo místico de Cristo”;
“sacramento de salvação”; “encarnação continuada de Cristo”; “pessoa mística”;
“comunhão visível da vida espiritual” 4 ; outras como “Reino de Deus em fase de
atuação”; “povo de Deus” 5 entre outros.

Sobre cada uma dessas dimensões da Igreja, poderiam desenvolver amplos


trabalhos exegéticos e científicos. 6 Não seguiremos o exemplo, mas procuraremos
nos ater e nos limitar a uma exposição sintética sobre a dimensão da Igreja como
1
Pretende-se evitar a clericalismo: a tensão entre o clero e laicato. Esse assunto será abordado no
segundo capítulo, no subtítulo 3.3. Lohfink é da opinião de que Jesus rejeita decididamente para a
comunidade dos discípulos o domínio e as estruturas de domínio, como são comuns na sociedade.
Gerhard LOHFINK, Como Jesus Queria as Comunidades? A Dimensão Social da Fé, p. 160.
2
G. LOHFINK, op. cit., p. 169-170.
3
Heinrich FRIESL, Modificação e Evolução Histórico-Dogmática da Imagem da Igreja. In:
Johannes FEINER; Magnus LOEHRER (Orgs.), “A Igreja”, p. 9.
4
Em Battista MONDIN, As Novas Eclesiologias: Uma imagem atual da Igreja, na primeira parte da
obra pode ser encontrado um estudo das definições elaboradas pelos seus precedentes.
5
Battista MONDIN, op. cit., p. 306.
6
João Batista LIBÂNIO faz uma análise diferente da realidade eclesial a partir da categoria de
“cenários”. A igreja comporta-se dentro de determinado cenário, num duplo movimento. Ad intra,
ela organiza sua própria vida. Ad extra, tece relações com o mundo político-econômico, cultural e
religioso circundante. Cenários da Igreja, p. 13. Avery DULLES, A Igreja e Seus Modelos, primeiro
capitulo emite considerações oportunas para o uso de modelos na eclesiologia.
4

povo de Deus na perspectiva bíblica: veterotestamentária: a relação de Deus com


Israel e, neotestamentária, a relação de Deus com a Igreja.

Nossa tarefa se limitará a apontar algumas passagens veterotestamentária


quanto a origem e formação do povo de Deus, iniciado com o chamado e eleição de
Abraão (Gn 12) e a extensão da aliança aos seus descendentes e, na exposição
neotestamentária, no que concerne à atenção de Jesus que era dirigida e voltada para
a reconstituição e restauração do povo de Deus - Israel, conforme Lohfink afirma que
“Jesus estava empenhado na reconstituição e restauração do povo de Deus (...) toda a
sua atividade estava dirigida a Israel”. 7 Em Jesus, o reino de Deus irrompeu na vida
humana de forma definitiva ao agregar em torno de si os seus e iniciando uma nova
era, um tempo escatológico, que caminha para uma consumação final.

Desenvolveremos nos capítulos ulteriores sobre a Igreja na teologia cristã.


Apontaremos sua natureza e sua caminhada na história. Discutiremos a tensão
existente entre o clericalismo e os leigos e o resgate pelo reformador Martinho
Lutero do principio bíblico do sacerdócio por todos e para todos. E, finalizando o
segundo capítulo discutiremos sobre a relação da Igreja com o Reino de Deus.

E, finalmente, mas não menos importante, no terceiro capítulo, destacaremos a


missão do povo de Deus através das dimensões ou características da Igreja tais como
a proclamação (querigma), o serviço (diaconia), a comunhão (koinonia) e a
evangelização.

7
Gerhard LOHFINK, Como Jesus Queria as Comunidades? A dimensão social da fé cristã, p. 43.
5

CAPÍTULO I
O QUE É POVO DE DEUS NA BÍBLIA

A partir do texto sagrado, as Escrituras, o início da formação do povo de


Deus pode ser encontrado no Antigo Testamento, através do chamado de Abraão, que
se confirmou na aliança de Javé com os seus descendentes, mais especificamente com
a nação de Israel elegendo-a dentre os povos, para fazer dela o seu povo.

A perspectiva bíblica do presente capítulo estará centralizada na pessoa e no


chamado de Abraão e na aliança de Deus com a nação de Israel do que nas demais
personagens do Antigo Testamento, como Moisés, Jacó e seus descendentes.

A tarefa que nos propomos, neste capítulo, é resgatar, sob a ótica


eclesiológica, o conceito de Igreja como povo de Deus para os dias atuais. A
comunidade de fé tem negligenciado a premissa de que efetivamente é povo de Deus.
Esta prerrogativa não deve gerar e nem despertar um sentimento de triunfalismo e,
quando percebe-se que acontece é exatamente o contrário, caminho de renúncia,
ascese e austeridade, voltam para trás engessando-se e acomodando-se em ser apenas
uma ajuntamento solene sem objetivos, metas e propósitos. Tornando-se um fim em
si mesmo.

A igreja é povo de Deus. Ao reconhecer essa imagem, a Igreja confirma seu


vínculo com a tradição veterotestamentária, relembrando os símbolos que giravam
em torno das idéias de eleição e aliança. Assim, a categoria da Igreja como povo de
Deus está fundamentada pela Sagrada Escritura no que concerne às idéias: eleição,
aliança, serviço e missão de Deus entre os seres humanos.
6

O estudo dos textos do Antigo e Novo Testamentos estabelecem


características históricas visíveis e concretas, referidas ao povo de Deus, 8 de que
foram elegidos para testemunhar a presença de Deus na história dentro de um
propósito de redenção universal.

A igreja, eleita e vocacionada, foi escolhida para proclamar às nações os atos


redentores e salvíficos de Deus, por intermédio de seu filho Jesus Cristo. “A Igreja
tem por missão despertar, acordar, preocupar, mostrar os caminhos, exortar e
estimular constantemente”. 9

Portanto, evidencia-se a relevância de tratar o tema a que nos propomos,


pois, as distorções quanto à compreensão são inúmeras.

1. Antigo Testamento
A linha principal da tradição do Antigo Testamento revela que Deus escolhe
das muitas nações que existem no mundo um único povo, que seja sinal de
salvação 10 , pois, na medida em que cumpre sua missão, as nações circunvizinhas vão
aprendendo e assimilando os valores do povo de Deus (Is 2:1-4).

A iniciativa é divina! A eleição e chamado de Abraão são inteiramente frutos


da ação proposital de Deus. Abraão era um arameu de ascendência pagã (Gn 11:26-
29) e originário de uma família idólatra (Js 24:2). Logo, não poderia reivindicar
qualquer mérito na escolha de Deus.

A história religiosa de Israel como Povo de Deus começa com um homem:


Abraão. É o que nos propomos discutir no próximo ponto.

1.1. O chamado de Abraão


Em termos bíblicos, Javé, em sua sabedoria infinita e soberania
inquestionável, acolhe e escolhe um único povo, para fazer dele sinal de salvação.
8
Norbert LOHFINK defende a tese e desenvolve um amplo trabalho exegético, em capítulo sobre o
Povo de Deus, afirmando que a expressão exata é “família de Iahweh” e não “povo de Deus” tendo
em vista o contexto histórico-religioso, onde escreve: “A família de Iahweh não é, em sua origem e
por todo o AT, um conceito eclesiológico, mas soteriológico”. Grandes Manchetes de ontem e de
Hoje, p. 148.
9
José COMBLIN, Igreja e sua Missão no Mundo, Tomo III, p. 9.
10
Gerhard LOHFINK, op. cit., p. 45.
7

Esse fato começa com uma família: em Abraão (Gn 17:1-8), num clã, num grupo,
num povo pequeno (Dt 7:7-9).

No começo da história de Israel, não se encontram grupos e/ou tribos


etnicamente homogêneas. Pelo contrário, deparamos famílias, grupos e tribos de
origens bem diferentes, que eram denominados pelo termo Hapiru 11 , que se referia às
pessoas sem filiação familiar no sentido sociológico. Eram estrangeiros, cativos e
escravos de status inferior dentro de um reino. A família do patriarca Abraão
enquadrava-se nessas características. Vivia em semi-desertos e estepes. Limitava-se a
ocupar áreas e caminhos onde haviam poços de água e pastagens suficientes para o
rebanho. 12

É neste contexto de peregrinação que Javé convoca Abraão:

O Senhor disse a Abraão: Parte da tua terra, da tua família e da


casa de teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti
uma grande nação e te abençoarei. Tornarei grande o teu nome.
Tu seja uma bênção. Eu abençoarei os que te abençoarem, e
quem te injuriar, eu o amaldiçoarei: em ti serão abençoadas
todas as famílias da terra (Gn 12:1-3). 13

Portanto, em Gênesis 12 encontramos a resposta de Deus para a dispersão


humana (Gn 11:1-9). A eleição e o chamado de Abraão são manifestações da graça de
Deus para com um povo, mas visando todos os povos da terra.

1.2. A aliança é estendida aos seus descendentes: Israel


Através da escolha de Abraão, sua fé e obediência ao chamado de Javé nasce
o povo de Israel 14 e, por conseguinte, a aliança de Javé com o patriarca abrange e se
estende a toda a sua descendência - o povo de Israel. 15

11
John BRIGHT, História de Israel, emite uma longa argumentação e interpretação sobre o termo:
“Hapiru”, p. 118-122.
12
Georg FOHRER, História da Religião de Israel, p. 26ss.
13
Tradução da versão: Tradução Ecumênica da Bíblia, TEB.
14
Norbert LOHFINK, Grandes Manchetes de ontem e de hoje: O Antigo Testamento e os grandes
temas de nossos dias, no capítulo “Povo de Deus” defende a tese que em vez de chamar “povo de
Deus” deveria ser “família de Iahweh”. Utiliza-se da estatística para prová-lo. Afirma que no Antigo
Testamento ocorrem nada menos do que 354 amostras de “povo de Iahweh” contra somente 2 de
“povo de Deus”. Cada povo era povo de um determinado deus, ou que cada deus possuía um povo (2
Cr 32:14-17). Outro autor elabora um trabalho extenso sobre o conceito: am Iahweh - laos tou
Theou é Medard KEHL, A Igreja, uma Eclesiologia Católica, p. 271-272.
15
Gerhard von RAD, Teologia do Antigo Testamento, p. 26, afirma que “povo de Israel” é um
anacronismo. Israel é a confederação sagrada de tribos, constituída na Palestina, após a tomada da
terra. Antes disso, não se pode falar de um “povo de Israel” numa perspectiva histórica.
8

Da mesma forma que Abraão, seus descendentes (Êx 6:7; Lv 26:12; 29:12; 2
Sm 7:24; 11:4) deveriam lembrar-se constantemente de que sua eleição e chamado
não se baseavam em seus próprios méritos, mas na iniciativa de Deus em amá-los e
chamá-los dentre as nações visando um propósito (Dt 7:6-8).

Javé elegeu 16 seu povo como instrumento a seu serviço para anunciar a
salvação aos povos de toda terra e conduzir o mundo inteiro no reconhecimento da
glória de Deus. A escolha de Israel como povo de Deus tinha como objetivo
testemunhar a glória do Deus criador, libertador e redentor de todas as nações.

Conforme a teologia bíblica, Deus impõe sua soberania ao escolher um povo.


É a pedagogia divina que começa com um pequeno grupo, e, no entanto, inclui o
mundo inteiro, isto é, através do exemplo daqueles que foram chamados primeiro.

Todavia, ser povo (am) de Deus não deve levar ao egoísmo religioso ou à
xenofobia; somente pode haver uma configuração autêntica de obediência à fé e ao
serviço para a salvação dos povos. Não se vive para si mesmo, senão somente para
Javé e, deste modo, para outros povos (goyim). 17 Assim, esta eleição e este chamado
podem ser entendidos não como um mero privilégio, mas como uma responsabilidade
para com as nações da terra.

Nesta predileção se concentra toda a dignidade religiosa de Israel. Javé é o


seu Deus e Israel é seu povo. Israel toma consciência de ser povo eleito, de sua
unidade nacional e religiosa, de sua missão de ser sinal para todos os povos, desde o
momento em que Javé interveio sobre a escravidão do Egito:

Por isso dize aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor. Eu vos farei
sair das corvéias do Egito. Libertar-vos-ei da sua servidão. Eu
vos reivindicarei com poder e autoridade. Tomar-vos-ei como
meu povo, e para vós eu serei Deus. Conhecereis que sou eu, o
Senhor, que sou vosso Deus; aquele que vos faz sair das
corvéias do Egito (Êx 6:6-7 18 - grifo nosso).

Neste mesmo sentido se entende e confirma a idéia da aliança: “Para vós


outros olharei, e vos farei fecundos, e vos multiplicarei, e confirmarei a minha

16
A. R. HULST, “Pueblo”. In: C. Westermann; E. JENNI, (Ed.). Diccionario Teológico Manual del
Antiguo Testamento, p. 373-416, Tomo II, afirma que não foi a eleição, mas sim a redenção que fez
de Israel povo de Deus. A eleição é fruto de reflexão posterior, cfe Dt 7:6-8.
17
A. R. HULST, “Pueblo”. In: C. Westermann; E. JENNI (Ed.), op. cit., p. 4l2.
18
TEB.
9

aliança convosco (...) porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não
vos aborrecerá. Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” (Lv
26:9-12).

Israel, portanto, tornou-se o povo escolhido dentre todos os outros povos, era
propriedade exclusiva de Javé. Israel tornou-se o povo de Javé, com o qual Deus fez
uma eterna aliança que se assenta, do início ao fim, na fidelidade de Javé. 19 Seu
conteúdo será eternidade irrevogável (Êx 32:13; Lv 26:42; Dt 4:31). Esse povo,
segundo Stenzel, realiza “assim o seu dogma nacional, o indissolúvel complexo
étnico-religioso de ser o povo de Deus”. 20

Mas a eleição não se destina a criar uma casta senhorial auto-suficiente e


autólatra, mas missionários a serem enviados ao mundo e a dar testemunho (Is 43:10;
49:6; 60:3; Jr 1:5). Russel P. Shedd argumenta que “a missão de Israel às nações
tinha por objetivo atraí-las ao Deus de Israel, para que assim aprendessem a obedecer
e a adorar ao Deus verdadeiro e crer nele” 21 . O desejo de Javé era fazer cumprir a
promessa feita à Abraão. Sua meta era fazer de Israel um sinal elevado de visitação e
bênção a todos os povos: “para a salvação dos muitos pelos poucos, dos orgulhosos e
poderosos pelos fracos e oprimidos”. 22

Podemos afirmar que a eleição e o chamado do povo de Deus no Antigo


Testamento têm sua base na iniciativa divina, no propósito de que através deste povo,
outros sejam alcançados e abençoados. O modo através do qual Israel viria a ser
usado é desenvolvido ao longo da história da salvação. No capítulo 12 do livro de
Gênesis podemos encontrar em forma embrionária a natureza e propósito do povo de
Deus no mundo.

1.3. O fracasso da aliança: desobediência e apostasia


No entanto, infelizmente, Israel não obedeceu, não cumpriu a missão pela
qual Javé o designara de ser luz para as nações (Is 42:6). A história de Israel nos
mostra que, ao invés de tornar o nome de Deus conhecido e temido entre os povos da
terra, Israel o profanou aos olhos de todas as nações (Ez 36:22-23). Ele se afastou de

19
Hans KÜNG, A Igreja, v. 1, p. 170-178.
20
cfe Alois STENZEL “A Igreja”. In: J. FEINER, & M. LOEHRER, A Estrutura Sacramental da
Igreja, IV/4, p. 9.
21
Russel P. SHEDD, Fundamentos Bíblicos da Evangelização, p. 19.
22
A. STENZEL, op. cit., p. 10.
10

Deus para a presença dos ídolos (Jr 5:19; 18:15; Ez 14:5-6). Seus líderes e juízes
tornaram-se corruptos, favorecendo o rico e oprimindo o pobre (Is 3:14-15; Am 2:6-
8; 5:7,10-12; Mq 3:1-4,9-11). A desigualdade econômica e social prevaleceu (Is 5:8;
Am 4:1; Mq 2:1-5). Seus pastores eram falsos (Mq 3:5-8,11).

O profeta Oséias fala da apostasia presente de Israel e de sua salvação


escatológica. Oséias foi instruído a chamar um de seus filhos de “não-meu-povo”,
pois o Israel rejeitado não era mais o povo de Deus, e ele não era mais o seu Deus
(Os 1:9; Am 3:2). Kehl define melhor a questão quando afirma:

Só no profeta Oséias é que Israel, por sua apostasia de Iahweh,


perde inteiramente de forma provisória o caráter de povo de
Deus: torna-se “não-povo” (Os 1:9). Mas Oséias expressa a um
só tempo a esperança de que num tempo posterior, Iahweh
voltará receber Israel como meu povo (Os 2:23). 23

A resposta de Israel não corresponde à ação de Deus em seu favor. É uma


história de fracasso e de traição, de queda e de infidelidade: uma história de pecado.
Assim, Israel aprofunda a sua crise, tanto política quanto religiosa que resulta na
queda do Estado como juízo e castigo pela conduta e pecados do povo. Mesmo diante
do chamado de Deus para o arrependimento, Israel gradualmente se esqueceu da sua
natureza particular como povo de Deus e do seu propósito para servir entre as nações.

Entretanto, e no mesmo contexto do anúncio de punição que emerge nos


escritos proféticos, o tema do “remanescente” sempre esteve preservado ou
presente. 24 O profeta declara: “Eis que os olhos do Senhor Deus estão contra este
reino pecador, e eu o destruirei de sobre a face da terra; mas não destruirei de todo a
casa de Jacó, diz o Senhor” (Am 9:8).

Quanto maior o distanciamento de Israel, tanto maior era a esperança em um


novo Israel, formado de novo por Deus:

Hei de dar-lhes um coração leal; porei neles um espírito novo;


eu lhes tirarei do corpo o seu coração de pedra e lhes darei um
coração de carne, para que caminhem segundo minhas leis,
guardem os meus costumes e os cumpram. Serão para mim um
povo e eu serei para eles Deus” (Ez 11:19-20; cf. 14:11; 36:28;
37:23; Jr 7:23; 24:7; 30:22; 32:37-40).
23
Medard KEHL, A Igreja: Uma Eclesiologia Católica, p. 273.
24
O conceito do remanescente já estava presente na história da salvação. Por exemplo: Noé, Abraão,
Isaque e Jacó foram escolhidos dentre outros.
11

Nós mesmos, antes de nos tornarmos cristãos, precisamos reconhecer que


estávamos nesta mesma situação de exclusão. Estávamos alienados de Deus e de seu
povo. O que conhecíamos acerca de Deus e de seu povo, a Igreja, não significava
quase nada. É exatamente esta a situação do mundo atual, da mesma forma que sem
Cristo a barreira de separação e inimizade foi levantada entre judeus e gentios, assim
também a nossa sociedade sem Cristo tem levantado barreiras sociais, raciais e
sexuais dando vazão a terrível tendência de discriminação, tornando-a uma das
principais característica da sociedade e da humanidade sem Cristo.

1.4. A expectativa de um novo povo escatológico


O que era para ser desfrutado como posse presente torna-se agora, depois do
fracasso do povo da aliança, aspiração de promessa para o futuro. Israel, Povo de
Deus, torna-se um conceito escatológico: Javé tornar-se-á de novo o Deus de Israel,
voltará a ser o povo de Javé; o fim dos tempos restaurará de novo o começo dos
tempos; Javé libertará de novo Israel, salvá-lo-á, e conquistá-lo-á; terá misericórdia
do seu povo e perdoar-lhe-á os seus pecados. Serão chamados filhos do Deus vivo
(Os 1:10). Serão um novo povo e um espírito novo. O Espírito do Senhor será
derramado por sobre o povo (Jl 2:28-32) e a circuncisão do coração tomará o lugar da
circuncisão da carne (Jr 4:4; 24ss; Dt 30:6). 25

Portanto, a expectativa escatológica rompe a barreira nacionalista e a nova


comunidade escatológica: a Igreja toma para si o conceito de Povo de Deus baseada
pela fé no Senhor Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, o grupo dos discípulos é
prefiguração daquilo que o Israel escatológico, reconstituído em todos seus membros,
deve ser um dia. 26

É o que veremos a seguir, agora, sob a perspectiva bíblica neotestamentária.

2. Novo Testamento
Se a história do povo de Deus no AT começa com um homem, Abraão, assim
também no NT com Jesus Cristo.

O ministério de Jesus era dirigido a Israel e desejava reuni-lo e fazer dele o


verdadeiro povo de Deus e, mesmo na sua morte, manteve sua missão vinculada para
25
Hans KÜNG, A Igreja, p. 169.
26
Gerhard LOHFINK, op. cit., p. 102.
12

com Todo-Israel.

A constituição dos doze é uma das indicações de que Jesus se dirige a Israel.
O grupo dos discípulos não foi concebido como substituto ou sucessor de Israel, mas
devia estar aberto e orientado para Israel. Ele deveria prefigurar o Israel
escatológico; ele deveria representar, como sinal, aquilo que em si deveria ter
acontecido em todo-Israel. 27

2.1. A Aliança é estendida aos seus descendentes: a Igreja


Após o evento morte/ressurreição de Cristo, os discípulos de Jesus,
compreendem-se como o verdadeiro Israel, não só como o verdadeiro mas, ao mesmo
tempo, como o novo Israel. 28 O fundamento era a fé mediante a experiência pessoal
no ressuscitado. Para os que criam, tinham como cumpridas em Cristo as promessas
do Antigo Testamento.

Para Lohfink, essa autocompreensão mostra-se primeiramente no seu


“comportamento”. Os discípulos deixam a Galiléia e vão para Jerusalém. A razão é
escatológica. Estavam convencidos de estarem no meio dos acontecimentos finais e,
conforme a fé judaica, os acontecimentos finais tem início em Jerusalém.

Outro fato é a questão do batismo (At 2:38-42). O batismo é pensado como


sacramento escatológico para Israel: diante do fim iminente, o povo de Deus deve ser
selado para poder subsistir no juízo do Filho do Homem. Ainda um terceiro
fenômeno destaca a autocompreensão da comunidade primitiva, o círculo dos doze é
completado por eleição (At 1:15-26). Os doze são testemunhas escatológicas contra
Israel.

Lohfink complementa, afirmando que a reconstituição escatológica de Israel,


começada por Jesus, está sendo continuada pela comunidade pós-pascal dos
discípulos em fidelidade a Jesus e ao seu projeto. 29

A Igreja que consiste tanto de judeus como de gentios tornou-se os ramos da


oliveira - o povo de Deus - o verdadeiro Israel. 30 Chama-se a si mesma a “Ekklesia de

27
G. LOHFINK, op. cit., p. 112.
28
Hans KÜNG, A Igreja, V. 1, p. 153.
29
G. LOHFINK, op. cit., p. 105-6.
30
George E. LADD, Teologia do Novo Testamento, p. 499; H. Küng, op. cit., V. 1, p. 162.
13

Deus” (1 Co 15:9; Gl 1:13). No grego, etimologicamente, ekklesia significa reunião


pública, assembléia, reunião da comunidade política. No entanto, a versão das
Setenta, em muitas passagens, traduz o termo qahal, isto é, a reunião do povo da
aliança do Antigo Testamento por ekklesia. É compreendida como o verdadeiro povo
de Deus. Os cristãos quando se chamam a si mesmos de Ekklesia de Deus, devem ter-
se compreendido como o verdadeiro Israel. 31

Mesmo depois da abertura para a aceitação de gentios e pagãos incircuncisos,


a idéia de ser povo de Deus é mantida. Todas as comunidades que professam sua fé
no Cristo ressurrecto, mesmo as comunidades em que os cristãos vindos do
paganismo eram em maior número, consideram-se a si mesmas como povo de Deus.
Neste sentido, a Igreja universal é a única verdadeira igreja, incorporando todos os
verdadeiros cristãos. Nesse nível, a Igreja é uma entidade espiritual e não possui
forma. As igrejas locais pertencem ao Corpo de Cristo na medida em que elas têm
membros realmente convertidos e comprometidos. Deduzimos que nenhuma igreja
local e nenhuma denominação reflete perfeita ou adequadamente a plenitude da
Igreja, povo de Deus.

2.2. Conceitos paulinos sobre a igreja como povo de Deus


O apóstolo Paulo trabalhou e aprofundou a questão teológica deste termo:
Igreja, povo de Deus e atribuiu-o aos cristãos vindos do paganismo como
“descendência de Abraão” (Rm 4; Gl 3). Todos os que crêem em Cristo, são os
verdadeiros descendentes de Abraão, portanto, o verdadeiro povo de Deus. A
teologia paulina não privilegia nenhuma etnia: os benefícios e privilégios de Israel
valem para todos o que crêem em Cristo: Abraão é seu pai (Rm 4:12); são herdeiros
(Gl 3:29); são filhos da promessa (Gl 4:28); são os eleitos (Rm 8:33); são chamados
(Rm 1:6s); são os amados (Rm 1:7); são os filhos de Deus (Rm 8:16; Gl 3:26).

Na teologia paulina, esses conceitos eram atribuídos ao contexto da idéia de


povo de Deus. Aqueles que professam sua fé em Cristo estão sob a nova aliança do
fim dos tempos (2 Co 3:6); refletem a glória do Senhor, o que antes, acompanhava e
beneficiava apenas o povo de Israel (2 Co 3:8); são templo de Deus, habitação do
Espírito Santo (1 Co 3:16); são a plantação de Deus (1 Co 3:5-9); são o edifício de
31
Karl Ludwig SCHMIDT, “Igreja”. In: Gerhard KITTEL (Ed.), A Igreja no Novo Testamento, p.
15-56, trabalha exaustivamente a etimologia do termo ‘Ekklesia’. Chega à conclusão de que o termo
“igreja” é tão sobrecarregado que sugere que se use a tradução de “comunidade eclesiástica”.
14

Deus (1 Co 3:9); são os verdadeiros cincuncisos (Fp 3:3), pois a mesma se dá no


coração e pelo Espírito (Rm 2:29).

É evidente que Paulo não trata a Igreja como o verdadeiro Israel, expressa-o
indiretamente, trata-o como “Israel segundo o Espírito”, o mesmo vale para os outros
autores dos escritos do Novo Testamento (Tg 1:1). Esse passo teológico já foi dado
no século primeiro pelos autores dos evangelhos: “Por isso vos afirmo que o Reino
de Deus vos será tirado e confiado a um povo que produza seus frutos” (Mt 21:43;
8:12; Lc 20:16).

Portanto, já não era mais necessário fazer parte da nação judaica para tornar-
se povo de Deus, apenas fé em Jesus Cristo era condição, sine qua non, suficiente
para isso. Agora, todos aqueles que crêem, quer judeus, quer gentios, fazem e podem
fazer parte do novo povo de Deus.

Na epístola aos Efésios 2:19-22, Paulo destaca algumas imagens metafóricas


sobre a nova comunidade de judeus e gentios:

Vocês, portanto, já não são estrangeiros, nem hóspedes, mas


concidadãos do povo de Deus e membros da família de Deus.
Vocês pertencem ao edifício que tem como alicerce os
apóstolos e os profetas (...). Em Cristo, toda construção se
ergue, bem ajustada, para formar um templo santo no Senhor.
Em Cristo, vocês também são integrados nessa construção, para
se tornarem morada de Deus, por meio do Espírito (2:19-20,22).

Reino de Deus (v. 19a). Paulo afirma que os gentios estavam separados da
comunidade de Israel, mas agora “já não sois mais estrangeiros ou peregrinos” são
considerados cidadãos do Reino. O Reino de Deus não é um reino terreno nem uma
estrutura espiritual, o Reino de Deus é o próprio Deus regendo o seu povo e
outorgando-lhe privilégios e responsabilidades. Judeus e Gentios pertencem
igualmente a esta nova comunidade inter-racial, governada por Deus, comunidade
esta que substituiu a antiga teocracia nacional do Antigo Testamento.

Família de Deus (v. 19b). Paulo muda de metáfora, passa do Reino para a
família. Em Cristo Jesus, judeus e gentios são mais do que cidadãos do mesmo
Reino, são filhos do mesmo Pai e vivem como irmãos. Mais adiante Paulo afirmará
que só existe um Deus que é Pai de todos. Porém o que Paulo enfatiza aqui não é a
paternidade de Deus, mas sim a fraternidade entre judeus e gentios.
15

Templo de Deus (v. 20-22). Paulo chega agora a sua terceira imagem
metafórica. O templo de Jerusalém era o ponto central na identidade de Israel como
povo de Deus. Agora havia um novo povo, será que haveria também um novo
templo? Sim, havia um novo templo, mas esse templo não era feito de pedras, mas de
pessoas. Qual seria a função desse novo templo? É a mesma função do velho templo:
“ser habitação de Deus” (22). Deus vive nesse povo, individualmente e também na
comunidade. Por que essa diferença sobre templo entre o velho e o novo povo de
Deus? O novo povo não era uma nação, mas uma nova comunidade inter-racial e de
alcance mundial. Um centro geográfico não seria apropriado para este novo povo. A
medida que desenvolve a sua metáfora Paulo enfatiza as partes que constituem esse
templo.

Paulo discorre, em primeiro lugar, do fundamento. Para Paulo os


fundamentos são os apóstolos e profetas. Visto que esses dois grupos
desempenhavam um papel pedagógico, parece claro que o fundamento não são essas
pessoas, mas sim a instrução que eles transmitiam. Apóstolos aqui não é genérico
podendo simbolizar missionários, bispos ou plantadores de Igreja, mas significa o
grupo seleto dos escolhidos de Jesus para essa finalidade, ou seja, os doze mais Paulo
e Tiago, irmão do Senhor. Já os profetas, diferentes da conotação atual, não são os
adivinhadores do futuro, aqueles que vivem apontando qual será o cônjuge ou o
próximo emprego, aqueles que vivem promulgando bênção, mas nunca dizem quais
são e nem quando elas chegarão, os profetas do NT são mestres inspirados aos quais
vinha a Palavra de Deus e que a transmitia fielmente aos outros. Em termos práticos,
quer dizer que este edifício está firmado sobre as Escrituras do Novo Testamento.

Em segundo lugar, Paulo fala da pedra angular que é de importância crucial


para um edifício. A pedra angular unia e alinhava as paredes e deixava o edifício
firme. Paulo está falando da função de Jesus de conservar aprumado, unido e estável
o edifício que está em crescimento. Unidade e crescimento da Igreja acontecem em
conjunto, e Jesus é o segredo de ambos.

Paulo passa da estrutura do templo para as pedras individuais. Não significa


que qualquer pessoa seja uma pedra viva que compõem o templo, mas as pessoas se
tornam pedras vivas no relacionamento pessoal com Cristo: “Cristo Jesus, a pedra
angular, na qual todo edifício, bem ajustado (...) no qual também vós juntamente
16

estais sendo edificados”.

Quando Paulo escrevia sua carta, existia em Éfeso um magnífico templo de


mármore, uma das sete maravilhas do mundo, dedicado a deusa Diana. Ao mesmo
tempo havia em Jerusalém o templo judaico, construído por Herodes. Dois templos,
um pagão e outro judeu, projetados por seus devotos como residência divina, esses
templos estavam vazios do Deus vivo. Mas qual a habitação do Deus vivo? O Deus
vivo tem no seu povo, a Igreja, seu lar e habitação na terra.

O edifício ainda não está completo, mas está sendo edificado. Mas o povo de
Deus, a Igreja, será também a sua morada nos céus. Somente depois da criação do
novo céu e da nova terra é que uma voz do trono declarará definitivamente: “Eis o
tabernáculo de Deus com os homens” (Ap 21:3).

Para Paulo, a Igreja é o Povo de Deus, escolhido para a sua habitação e


serviço, a fim de proclamar as virtudes do Senhor. Este povo é composto por todo
aquele que recebe Jesus como seu salvador e mantém um relacionamento com ele
como seu Senhor.

O apóstolo Paulo não desqualifica o Israel descrente na sua função histórico-


salvífica, por isso elaborou uma teologia perene que vincula a igreja com a sinagoga
(Rm 9-11). Por exemplo:

- Foi devido ao fracasso de Israel que a salvação alcançou as outras nações


(11:11);

- O fracasso de Israel serve como advertência à Igreja. Assim como Deus não
poupou a Israel, também não poupará a Igreja descrente (11:20-22);

- A Igreja pode aprender com Israel sobre a fidelidade de Deus (11:29; 11:1;
11:12; 11:26s).

- Despertar o ciúme de Israel para que, assim como a Igreja, alcancem a fé


(11:11-14).

Não podemos nos esquecer que o Antigo Testamento olha continuamente


para a frente, para o cumprimento de suas profecias e assertivas; o Novo Testamento
17

olha continuamente para trás, para o Antigo Testamento na realização escatológica


das teofânias na história da humanidade. Ambos os testamentos iluminam e
esclarecem um ao outro nas suas relações mútuas. Há uma corrente de vida que flui
de um para o outro, portanto, a reciprocidade existe entre ambos e que evocam e
apontam para uma conexão histórica: a história contínua do povo de Deus.

O padrão que aponta a relação de continuidade entre Israel e a Igreja é


percebido através do esquema promessa-cumprimento. Este aspecto está presente
tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Diante disso, o Novo Testamento pode
esclarecer o conteúdo do Antigo Testamento. 32

Conclui-se, portanto, que a vinculação entre Israel e a Igreja é permanente,


mostrando que a Igreja sem Israel nem sequer pode existir e, mais ainda, a Igreja
perderia sua identidade se esquecesse de sua relação contínua com Israel.

Padilla endossa esta afirmação, quando escreve:

À luz da insistência do Novo Testamento na unidade da história


da salvação, não é possível manter uma distinção rígida entre a
antiga dispensação e a nova. Já com Abraão é mostrado que a fé
é o princípio básico que determina a relação do homem com
Deus (Rm 4; Gl 3). Com efeito, Abraão é o pai de todos os que
têm fé (Rm 4:11,16). 33

2.3. Conceitos petrinos sobre a igreja como povo de Deus


Na primeira epístola de Pedro, o autor, referindo-se à Igreja de Cristo,
concede títulos aos cristãos que são tomados diretamente do modo como se descreve
o povo de Deus no Antigo Testamento (Êx 19:5-6; 23:22. Is 43:20; 61:6). 34 Os
cristãos assumem tais títulos como o novo Israel de Deus e, o autor da carta, sintetiza
os privilégios, as implicações decorrentes e as e responsabilidades do novo povo de
Deus:

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo
de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
32
Este assunto: continuidade e descontinuidade entre Israel e a Igreja é exaustivamente explorado
e desenvolvido nos opúsculos: George Eldon LADD, Teologia do Novo Testamento, p. 102-103;
Ralph L. SMITH, Teologia do Antigo Testamento, p. 342; Werner H. SCHMIDT, Introdução ao
Antigo Testamento, p. 353.
33
Carlos René PADILLA, Missão Integral: Ensaios sobre o Reino e a Igreja, p. 89.
34
Hans KÜNG, A Igreja, V. 1, p. 180-185.
18

maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas,
agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado
misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia (1 Pe 2:9-
10).

A passagem bíblica supra é um texto do apóstolo Pedro endereçada às diferentes


províncias da Ásia Menor; a epístola trata da vida dos cristãos em uma sociedade estranha e
desprovida de valores reais.

O apóstolo dirige suas palavras em exortação afim de que os cristãos se firmem em


Deus, pois se tornaram seu povo e, assim sendo, deveriam ser íntegros demonstrando um
caráter semelhante ao de Cristo, pois foram eleitos por Deus.

O texto em questão está ligado ao Antigo Testamento, mais especificamente uma


releitura cristã de Êxodo 19:5-6. Ressaltando assim o novo Israel de Deus que se torna seu
povo e sua família espiritual. Notemos que judeus e gentios se tornaram o laos de Deus e,
assim, herdaram um ministério para o serviço onde todos servem a Deus como sacerdotes.
Consideramos que cada crente deve ser encorajado e apoiado à medida que descobre
sua nova identidade em Cristo Jesus. Em vez de centralizar-se numa hierarquia
sacerdotal, cada cristão é declarado sacerdote, com acesso direto ao Deus Pai através
de Jesus Cristo.

Observa-se os vários títulos destacados pelo autor, entre eles: raça eleita, sacerdócio
real, nação santa, povo adquirido e comprado pelo preço de sangue para cumprir uma missão:
anunciar as grandezas dos atos poderosos de Deus com alegria no coração pois, outrora não
conheciam a Cristo, eram dominados pelos falsos valores do mundo, possuíam um caráter
mau e depravado; viviam nas trevas, dominados pelo poder do mal, não tendo
discernimento espiritual. Eram, desta forma, escravos dos seus próprios interesses
diabólicos; porém, agora, se tornaram luz e luzeiros para o mundo, após a conversão,
tornaram-se cidadãos do reino da luz.

Diante do contexto da comunidade petrina, o povo eleito de Deus não


pertencem mais ao mundo e nem a si mesmos, mas agora a Cristo; deveriam estar
prontos para desempenhar seus ministérios e para as perseguições que sofreriam.
Pedro enfatiza a vida transformada do Povo de Deus. Consola, fortalece e encoraja
seus companheiros a permanecerem firmes na doutrina e na fé, afim de que a Igreja
tomasse consciência de sua identidade de povo de Deus, de sua missão e das
19

conseqüências advindas dessa pertença.

Em Êxodo19:6 vemos a promessa feita aos filhos de Israel que seriam a


nação santa de Deus. Porém, devido ao povo judeu desobedecer e rejeitar a Jesus, o
messias, perderam o sacerdócio e a promessa que lhes pertenciam, assim o direito e
as promessas estenderam-se a nós que nos tornamos o povo de Deus, a Igreja de
Cristo.

Somos raça eleita, um grupo de pessoas que compartilha a mesma fé em


Cristo Jesus. Em meio à uma geração corrompida, Deus levanta um povo que o
glorifique e o adore em Espírito de verdade (Jo 4:24). Um povo onde há culto na vida
e na conduta, onde haja aprendizagem, comunhão fraterna, solidária e
verdadeiramente conversão, mudança de vida.

Ser Igreja é ser povo de Deus, pois todos aqueles que obedecem seus
mandamentos tornam-se filhos de Deus e seus sacerdotes. A função sacerdotal de
Israel na antiga aliança era conduzir o povo até Deus. O sacerdote era a pessoa
consagrada a Deus, o intermediário entre o povo e Deus, o que dava as instruções,
mestres da lei, eram os responsáveis pelas ofertas oferecidas em sacrifício a Deus. O
sacerdote tinha muitas responsabilidades representando o povo diante de Deus.

Deus estabelece um padrão para Igreja, para seu povo; o padrão é obedecer
seus mandamentos e cumprir sua vontade. Ter uma vida comprometida com os
valores cristãos, pois somos um povo para servir ao propósito de Deus no mundo.
Todos temos um serviço a executar. Isso significa que: todos os crentes têm acesso
direto a Deus; os cristãos são sacerdotes uns para os outros; os crentes são sacerdotes
de Deus no mundo.

Observando a comunidade cristã primitiva, cônscia de sua pertença à Igreja


como povo de Deus, podemos constatar que esta testemunhava não apenas pela
proclamação (At 2:1-41), mas também pelas suas obras, comportamento e estilo de
vida (At 2:44-47). A conseqüência disso é que a comunidade cristã contava com a
simpatia de todo o povo, e o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos
(At 2:47).

2.4. A identidade da igreja como povo de Deus


20

Em Gálatas 3:28 e 1 Coríntios 12:13, seu autor, Paulo, elenca algumas das
características que devem nortear a Igreja, como comunidade, que toma para si o
conceito de povo de Deus:

1. “Não há mais judeu nem grego”. A condição religiosa ou racial do ser


humano já não eram mais impedimento para fazer parte da comunidade de fé. Todos
podem ser integrados ao povo de Deus, colocando, assim, em evidência a sua
unidade. Paulo afirma que de ambos, judeus e gentios, Jesus fez um só povo.

2. “Não há escravo nem livre”. A condição sócio-política dos seres humanos


em nada influencia a questão da salvação. As diferenças entre escravo e livre, na
comunidade dos salvos, não significava nada (Fm 16).

3. “Não há homem nem mulher”. Mostrava que era nas comunidades


domésticas que as barreiras eram rompidas e se tornavam irrelevantes, em favor da
nova vinculação de todos a Cristo. O resultado dessa nova relação, é que entre o
povo de Deus não existem mais barreiras de discriminação, pois toda a desigualdade
foi abolida.

Padilla, interpreta essa passagem da seguinte maneira:

Ninguém, com base nesta passagem, sugeriria que os gentios


devem tornar-se judeus as mulheres devem tornar-se homens e
os escravos devem tornar-se livres a fim de participarem das
bênçãos do evangelho. Mas não se faz justiça à passagem se ela
não for interpretada como uma afirmação de que em Cristo
Jesus apareceu uma nova realidade: uma unidade baseada na fé
nele, uma comunidade à qual a pessoa se vincula sem que se
tome em consideração sua raça, posição social ou sexo. 35

Compreende-se daí que todos os fiéis constituem o sujeito social da igreja: os


fiéis não podem mais se satisfazer com o papel de “objeto” e funções ministeriais de
direção, todos se tornam sujeito destacado do agir eclesial. 36 Agora, a realidade
eclesial abrange e integra todos os fiéis, sem diferenciação alguma, como Povo de
Deus. 37

35
Ibid., p. 155.
36
Medard KEHL, A Igreja: Uma Eclesiologia Católica, p. 33-5.
37
Heinrich FRIES, “A Igreja”, In: J. FEINER & M. LOEHRER, Modificação e Evolução Histórico-
Dogmática da Imagem da Igreja, V. IV/2, p. 52.
21

Podemos concluir compreendendo que o conceito da “igreja como povo de


Deus” expressa bem o caráter universal e missionário da Igreja; Deus suprime na
nova aliança o corte entre o único povo eleito de Israel e os muitos povos gentios, ao
reunir para si um “povo dentre os povos”. Essa reunião só se realiza, portanto, como
acontecimento permanente da missão e da auto-superação deste povo uno rumo aos
muitos povos e culturas. Para a igreja, a missão não deve tornar-se conseqüência da
comunhão entre os seus, mas ambas as tendências básicas constituem somente em
recíproco condicionamento, a verdadeira identidade do povo de Deus. 38

Conclusão
Deus confiou uma missão ao povo de Israel, no entanto, este fracassou pela
sua desobediência e apostasia, embora, Deus havia revelado toda a sua vontade em
fazer de Israel um sinal de sua presença e bondade a todos os povos.

Com o advento de Jesus Cristo, rompendo todas as barreiras sócio-político-


religiosas, fora transferida à Igreja toda urgência dessa tarefa.

A conclusão que chegamos, resume em poucas palavras o que exigiu muitas


páginas para desenvolver e explicar quando Martinho Lutero disse:

Acaso esses [discípulos de Jesus] eram chamados de povo de


Deus naquele tempo? Eles certamente eram o povo restante de
Deus, mas não tinham esse nome, ao passo que quem tinha esse
nome não o era. Quem sabe se em todo o curso do mundo,
desde a origem da Igreja de Deus, o estado desta sempre tenha
sido tal que alguns eram chamados de povo e santos de Deus e
não o eram, ao passo que outros dentre eles o eram
efetivamente qual remanescente, mas não eram chamados de
povo ou santos? 39

Assim, depois dos apontamentos em epígrafe do que é o povo de Deus na


perspectiva bíblica, vamos desenvolver, no segundo capítulo, a perspectiva histórico-
teológica deste mesmo povo na tradição cristã. É o que veremos a seguir.

38
Medard KEHL, Ibid., p. 88.
39
Martinho LUTERO, Obras Selecionadas, V. 4, p. 62.
22

CAPÍTULO II
A NOÇÃO DA IGREJA NA TEOLOGIA CRISTÃ

Este capítulo não é uma tentativa de oferecer uma análise ou panorama


exaustivo da teologia cristã. Antes, nossa intenção é abordar e limitar a questão sob a
perspectiva histórico-teológica da Igreja. A teologia tem experimentado tempos
difíceis no campo eclesiológico, porém, para aqueles que valorizam a Palavra de
Deus e desejam saber o que Deus está procurando revelar ao seu povo, ela é uma
tarefa necessária, relevante e gratificante.

Começaremos estudando a natureza ontológica do povo de Deus, o caminho


que a comunidade deve percorrer para chegar a beneficiar-se das imprecações de ser
uma comunidade de eleitos e eleitas. Limitada como um organismo institucional, mas
transcendente no que respeita a sua natureza divina.

A relação entre o povo de Israel e a Igreja de Deus será destacada. Onde


veremos, também, a tensão existente entre ambos. Abordaremos a questão sobre a
continuidade ou descontinuidade de Israel com a Igreja.

Estudaremos sobre a Igreja, como povo de Deus na história. A Igreja está no


vértice da história da salvação universal, evidenciada pela escolha e ação divina
sobre uma nação, Israel, para que pudessem ser um sinal para o mundo dos atos
salvíficos e redentores de Deus em seu benefício. Abordaremos o desenvolvimento
histórico distintivo e tensional entre o clero e os leigos.

Será discutido e resgatado um dos pontos basilares da Reforma Protestante:


O sacerdócio universal dos crentes. É para todos. Apontaremos as circunstâncias
23

históricas do momento em que a igreja perdeu a noção de ser para ter. O monge
Martinho Lutero percebeu o distanciamento existente entre a organização engessada e
hierarquizada e o organismo da Igreja.

Veremos, ainda, e finalmente, a relação entre a Igreja e o Reino de Deus.


Qual é a relação entre ambas. A Igreja com seus discípulos é o reino ou uma agência
visando a inauguração e a sua implantação? Estava nos planos de Jesus dar
continuidade ao seu projeto iniciando um novo movimento, a Igreja? Quem gera o
quê: A Igreja gera o reino ou o reino gera a Igreja? Quem guarda o quê: A Igreja
guarda o reino ou o reino guarda a Igreja?

Enfim, essas e outras questões serão brevemente discutidas neste capítulo


com algumas propostas na tentativa de respondê-las.

1. A natureza ontológica do povo de Deus


A Igreja, assim como o povo de Israel, é uma comunidade de eleitos, não
havia méritos que a qualificasse para entrar em aliança com Deus, a iniciativa foi
unilateral, procede de Javé, 40 não está condicionada aos organismos institucionais e
não se sujeita ao espírito humano; sua vida provém do fato de sua eleição: sua
linhagem é santa e sua missão está a serviço do Reino do céus.

Estas dimensões, derivadas de sua eleição, demonstram, ao mesmo tempo,


seu caráter humano e transitório de comunidade. Assim, a Igreja é também uma
instituição de pessoas pecadoras e falhas; sua pureza e santidade se mesclam com a
existência de falsos profetas, que, embora realizando as obras de Cristo estão muito
distantes de seu espírito; ela não é o Reino e por isso sua missão e serviço podem
converter-se até mesmo num pseudo-cristianismo.

A Igreja, diferente do povo de Israel, é uma comunidade constituída


exclusivamente por vínculos religiosos; sua estrutura não supõe e nem exige uma
continuidade num plano ético, cultural ou social com nenhum povo da terra, senão
que está aberta ao todo, à plenitude, à pluralidade das nações. Por outro lado, este
universalismo não contempla as peculiaridades específicas de cada povo, com os
carismas dos seus membros e de suas formas religiosas. Ademais, a Igreja é a forma
escatológica da intervenção de Deus na história do ser humano por intermédio da
40
Hans KÜNG, A Igreja, enfatiza: “é certo que a Igreja é fundação de Deus”, p. 183, V. 1.
24

ação ministerial de Jesus, presente na terra como realizador perfeito do amor


trinitário ao gênero humano.

A imagem de povo apresenta aspectos familiares e profundos da realidade


eclesial; descreve a Igreja em sua dimensão tanto mística como social e temporal; na
mística, quando os membros se agrupam em torno de Cristo presente nos sacramentos
e no acontecimento da proclamação de Sua Palavra; a dimensão temporal e social se
manifestam no destino da Igreja, em sua peregrinação, missão e implantação do
Reino de Deus.

Para o reformador João Calvino, a Igreja deveria ser uma comunidade onde
houvesse o estímulo e o encorajamento para o exercício da fé e da obediência, e sua
qualidade maior deveria ser norteada pela “comunhão dos fiéis”, mesmo que
implicasse uma vivência em meio à lutas, privações e perseguições. 41

Calvino fazia distinção entre Igreja visível e invisível. 42 A igreja visível é


aquela que podemos conhecer, ver, apalpar, ou melhor, uma assembléia visível de
pessoas que se reúnem num edifício especial no tempo e no espaço, que pertencem a
certa paróquia ou diocese. A igreja deveria possuir os seus ofícios; pastor, professor,
presbítero e diácono, que deveriam colaborar na manutenção da disciplina
eclesiástica. Assim a igreja, deveria cuidar e ter o controle da moral e dos costumes.
A Igreja invisível é composta pelos eleitos e fundamentada pela Palavra de Deus e os
sacramentos. É o conjunto de todos que têm fé em Cristo, onde a comunhão interna é
compartilhada por todos os que possuem fé comum e a mesma esperança.

Lutero, por seu turno, entende a igreja não propriamente como Povo de Deus,
mas como a comunhão dos crentes ou “comunhão dos santos”, como aparece no
terceiro artigo do Credo Apostólico, refletindo a unidade da fé, compartilhada por
todos da comunidade. Portanto, a pertença à Igreja é uma questão de fé. E essa
comunhão entre os fiéis era fruto do Espírito Santo, assim, desqualificava qualquer
conceito institucional para Igreja. Lutero entendia a Igreja como uma união mística,
espiritual e invisível. Conceito novo e revolucionário para o seu mundo.

Para Lutero, as características da Igreja eram: Batismo, Ceia do Senhor e a

41
Juan CALVINO, Institucion de la Religion Cristiana, IV, I, 3.
42
Juan CALVINO, op. cit., IV, I, 2,7.
25

proclamação da Palavra da Deus. A Igreja existe pela Palavra e em torno da Palavra


de Deus e, através dos sacramentos, o Espírito Santo opera e reúne os cristãos no
mundo todo. 43

Não obstante, Emil Brunner entende e defende que a Igreja tanto é visível
quanto invisível e discute sobre o papel da mesma na salvação e na vida comunitária.
Demonstra que a Igreja no Novo Testamento é a manifestação da presença do Cristo
e que torna-se revelação e salvação divina em ação. Não a vê como um meio para
atingir um fim; descreve-a ainda como nada mais do que um comunhão de pessoas.

Uma pessoa não crê antes da comunhão, visto que a fé vem pelo ouvir,
portanto, não podendo ser salva de forma isolada ou solitária, pois a verdade e a
comunhão são vistas como a mesma coisa. Por isso, a Igreja possui um papel
relevante nesta comunhão, tanto vertical quanto horizontal. Esta última traz o amor
do Pai como o vínculo da perfeição, que é a essência da comunhão dos que
pertencem à ecclesia.

A comunhão com Cristo e a comunhão com os outros são correlativos, um


não existindo sem o outro. Por isso que é impossível considerar a Igreja como um
meio para se alcançar um fim. Compreendê-la como o próprio fim. Embora, de forma
terrena, este objetivo final da ecclesia seja ainda alcançado imperfeitamente.

O mesmo autor destaca a questão que surge da intenção de se fazer deste


lugar de comunhão de pessoas numa instituição, administrativa e legal, demonstrando
sua oposição ao modelo neotestamentário, uma Igreja como koinonia christou e
koinonia pneumatos, sendo comunhão de pessoas sem o caráter institucional. 44

Brunner apresenta a Igreja como povo de Deus, povo eleito que era também a
legítima descrição de Israel, ligando o velho pacto com o novo. A diferença entre os
pactos, segundo ele, do modelo da Igreja com o do povo de Deus do AT é
reconhecido sob três formas: as leis cerimoniais e rituais de Israel não são mais
válidas no NT; a clara discriminação do velho pacto entre membresia de uma nação
ou raça e membresia de uma comunidade de crentes; a última, é o fato das leis civis
prescritas para Israel como uma entidade política nacional não são mais relevantes.

43
Bengt HÄGGLUND, História da Teologia, p. 197-199.
44
Emil BRUNNER, O equívoco sobre a Igreja, p. 92.
26

Por fim, o fato de Jesus ter fundado a ecclesia é vista como de pouco
importância, visto que a Igreja está em qualquer evento enraizado Nele e interpretado
por Ele. Ele é a cabeça do seu corpo que é a ecclesia. Desta forma, a comunidade de
Jesus é o verdadeiro povo do pacto, cuja história inicia do velho pacto, mas atinge
sua realidade através da presença viva do Senhor ressurrecto; por isso, a igreja nada
mais é do que o povo Deus, morada do Espírito, não sendo meramente uma
instituição, mas corpo vivo de Cristo. 45

Emil Brunner, conclui, considerando que a característica principal que deve


ser observada e destacada é a tensão entre a Igreja como corpo de Cristo e a
instituição. Afirma que a Igreja hodierna não é mais uma comunhão de pessoas, mas
antes uma instituição. No entanto, afirma, com todas as letras, que Deus tornará a
fazer com que ela seja uma verdadeira comunidade de irmãos energizada pelo Seu
Espírito. 46

2. Povo de Israel e igreja de Deus


Depois de percebermos a natureza mística e temporal da Igreja, convém que
tratemos de especificar as relações existentes entre o povo de Israel e a Igreja, como
comunidade continuadora das promessas daquele povo.

Em primeiro lugar, nos termos “povo de Deus” e “Israel”, nos escritos


neotestamentários, é praticamente impossível evitar a ambivalência. Em alguns
momentos, como em Atos 26:17, a Igreja parece situar-se em um plano superior ao
povo e aos gentios; em outros, como em Romanos 15:7-12, se descreve como
formada tanto pelo povo eleito como pelos gentios.

Em segundo lugar, o conceito de povo neotestamentário é unitário; em


nenhuma parte existe uma contraposição radical entre Israel e a Igreja. Existe uma
continuidade 47 entre os dois testamentos, o mesmo Deus revela seus desígnios de
amor ao mesmo povo. 48

45
Emil BRUNNER, O equívoco sobre a Igreja, p. 13-29.
46
E. BRUNNER, op. cit., p. 81-125.
47
Heinrich SCHLIER defende a tese de que a Igreja, enquanto Povo de Deus “em Cristo”, mantém
uma continuidade com o Povo de Deus, que é Israel. “Igreja”. In: Johannes FEINER & Magnus
LOEHRER, Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica, V. IV/1, p. 126-129.
48
John H. ELLIOTT, Um lar para quem não tem Casa, realiza uma excelente exegese sociológica,
baseada na Primeira carta de Pedro, sobre a Igreja, como comunidade dos fiéis, onde o “estranho”
não está mais isolado e alienado, mas é irmão.
27

Nesse contexto, admite-se que existe uma certa tensão entre Israel e a Igreja.
De um lado, Deus não revogou suas promessas à Israel e, a Igreja é a continuação
legítima, na história da salvação cujo processo começou na criação de Israel, que
Deus elegeu para ser seu povo; por outro lado, a Igreja é uma criação nova 49 , uma
entidade espiritual originada pelo sangue de Jesus, composta por muitos povos, na
qual participam todos, judeus e gentios, homens e mulheres, escravos e livres,
segundo a distribuição dos carismas pelo Espírito. 50

Sintetizando esse ponto, a interpretação de Hans Küng, complementa:

A Igreja é, sempre e em toda a parte, todo o Povo de Deus, toda


a Ecclesia, toda a comunidade de crentes. Todos são a estirpe
eleita, o sacerdócio régio, o povo santo. Todos os membros
deste Povo de Deus são chamados por Deus, justificados em
Cristo, santificados no Espírito Santo. Nisto todos são iguais,
dentro da Igreja. 51

3. A Igreja, povo de Deus na história


A história é concebida, teologicamente, como a resposta divina ao drama
humano. Essa resposta se dá em diferentes níveis, dentre eles o acontecimento de
Cristo - nascimento, ministério, morte e sua ressurreição - constituem a fase final
mais sublime.

Todo o relato bíblico neotestamentário enfatiza com os acontecimentos da


vida, morte e ressurreição do Senhor e os primeiros cristãos foram homens e
mulheres convertidos pela pessoa de Cristo que, posteriormente, expressaram sua fé
em termos doutrinários. Calvino, ao comentar Gálatas 3:26, afirma que “todos
quantos crêem nele é dado o privilégio de serem feitos de Deus. Como? Pela fé em
Cristo”. 52

No entanto, a revelação e a ação de Deus não se limitam ao mundo cristão. A


Igreja é concebida como comunidade de fé, mas também como um povo, na história,
como instituição 53 que se integra aos planos de salvação de Deus a toda a
49
Leonhard GOPPELT, Teologia do Novo Testamento, V. 1, afirma que a Igreja, como o povo
escatológico de Deus, torna-se a nova criação, que não se limita mais a um povo, como Israel, mas
aqueles que em Cristo se tornam um (Gl 3.28), p. 411.
50
Juan Jose H. ALONSO, La Nueva Creacion: Teologia de la Igresia del Señor, p. 213.
51
Hang KÜNG, A Igreja, V. I, p. 178.
52
João CALVINO, Gálatas, p. 114.
53
A Igreja na qualidade de instituição não é marginalizada e nem tampouco torna-se um grupo
sectário.
28

humanidade.

Desta forma, a Igreja está no vértice da história da salvação e dos seres


humanos, evidenciada pela ação de Deus sobre o mundo e, mais especificamente, no
povo de Israel por ser este sua continuação e sua perfeição. 54 A ênfase do livro dos
Atos dos Apóstolos aponta para os desígnios de Deus sobre Israel e sobre o Messias
como etapa final da comunicação de Deus com a humanidade.

A perspectiva da revelação progressiva de Deus na história se concebe nas


narrações de ambos os testamentos. A chamada de Deus para fazer de Abraão um
povo de sua propriedade (Gn 12:1-8; 17:1-8); a fé do Patriarca (Gn 15.6); a revelação
à Isaque e Jacó (Gn 26:1-6; 28:10-13); a aliança com esse povo (Êx 19:1-8; 20:1-20);
o preparo do povo pelos profetas para a espera do Messias (Gl 4:4-7).

Jesus é para a comunidade cristã primitiva o cumprimento das esperanças de


Israel (Lc 2:29-32; At 4:11-12). A Igreja surge como a continuação e culminação das
esperanças messiânicas do povo eleito. Assim, a Igreja representa uma nova
economia de graça e salvação em Jesus Cristo e, também, o Israel escatológico,
elevada à dimensões cósmicas, em que culminam todas as intervenções salvíficas de
Deus na história.

Este tema está tão fortemente arraigado no espírito de Paulo, que dele fez um
símbolo interpretativo do crescimento da comunidade cristã, uma realidade a ser
edificada à maneira como a Igreja é compreendida no ministério de Jesus (Ef 2:19-
22).

No entanto, a caminhada de fé da Igreja não foi fácil. Veremos a seguir as


dificuldades com que o povo de Deus encontrou pelo caminho.

3.1. O povo de Deus no segundo século


Lyra afirma que, pela ótica do historiador Stephen Neill, o segundo século da
igreja:

54
Comungam a tese de que a Igreja é continuação entre Israel e o novo Israel, a Igreja: Ênio J. da
Costa BRITO, em O Leigo Cristão no Mundo e na Igreja, referindo-se sobre as teses de Yves M. J.
CONGAR, p. 51. George E. LADD, Teologia do Novo Testamento, não concorda que a Igreja é a
continuação do povo de Israel. Sua tese é que o Reino é tirado de Israel e dado a outros - a ekklesia
de Jesus (Mc 12:9). Israel já não é mais a testemunha do Reino de Deus: a Igreja assumiu o seu
lugar, p. 108-110.
29

É marcado por uma grande massa de missionários (...)


profissionais mantidos pela igreja (...) é a partir deste período
que podemos perceber o delineamento de uma nova distinção
religiosa privilegiada, fruto de uma necessidade institucional
apologética. Os bispos passaram a exercer maior autoridade
sobre a Igreja. Começou assim a ser construída através da
patrística a instituição da Igreja. 55

Devido aos problemas de deturpações doutrinárias advindos do próprio seio


da Igreja, a liderança se viu na necessidade de protege-la, dando assim início a
construção de uma forma de governo institucional; posteriormente, criando assim
uma “verdadeira casta de religiosos que colocaria o ministério leigo no ostracismo
por vários séculos”. 56 Vejamos um pouco o contexto vital daquela época.

No primeiro século as igrejas eram independentes, sem uma forte


organização, mas ao aproximar do final do quarto século começa surgir uma
organização institucional e hierarquizada que ficou conhecida como Igreja Católica. 57

Os religiosos consagrados pelo sacramento eram vistos como comissionados


para cumprir a função do ofício sacerdotal que era: "ensino, administração e
santificação levando-os assim à uma posição privilegiada onde eram vistos como
superiores” aos demais membros da comunidade. 58

O cristianismo, antes organizado de maneira um tanto indefinida e regido


pelo amor fraterno, torna-se um corpo firmemente coeso com dirigentes oficialmente
reconhecidos. Dava-se assim os primeiros passos a distinção nociva entre clericos
profissionais e os leigos.

3.2. A institucionalização da igreja


O marco definitivo para a institucionalização da Igreja fôra realizado no ano
313 com o imperador Constantino promulgando o edito de Milão onde “tornava o

55
Sérgio Paulo Ribeiro LYRA, O Ministério Leigo : uma perspectiva histórico-missiológica, p.
112.
56
Ibidem. Ver ainda Walter ELWELL, Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. O
mesmo afirma que bispo significa superintendente, posição de liderança ou pastor do rebanho, p.
196.
57
Robert Hastings NICHOLS, op. cit., p. 36. O termo ‘católica’ quer dizer universal; esta fôra uma
federação ou associação de igrejas que eram ligadas por um acordo formal com três aspectos:
Uma só forma de governo, bispos presbíteros diáconos; Pela adoção de um só credo; Por todos
reconhecerem e receberem uma só coleção de livros do Novo Testamento.
58
Yves CONGAR, Apud, Antônio José NASCIMENTO, Fides Reformata, op. cit., p. 112.
30

Cristianismo religio licíta, outrora perseguida, agora conquistava o império”. 59

Cairns argumenta que na época em que o Cristianismo tornou-se a religião


aceita pelo Império Romano, o sistema hierárquico estava plenamente estabelecido
na Igreja 60 e ainda com a institucionalização e sua incorporação ao Império Romano
como religião oficial, “o cristianismo tornou-se a religião do status-quo. 61

Sergio Paulo Lyra argumenta que a Igreja passa a chamar-se Igreja Católica
Romana, onde o bispo de Roma passa a ter supremacia sobre todos os outros bispos,
tornando o ritual da Igreja cada vez mais sofisticado, distanciado do povo,
centralizando assim o poder. 62

Segundo Volkman, como conseqüência surgiram algumas importantes


características deste momento: 63

1) O ministério da igreja é monopólio do clero;

2) O clero, por ser de natureza hierárquica, precisa desenvolver uma estrutura


de comando, sendo o bispo a autoridade última em assuntos de doutrina, disciplina e
direção da igreja, vindo em seguida presbíteros e diáconos;

3) A ordenação é a porta de entrada para o clero, conferindo ao sacerdote um


status especial;

4) A ordenação é a autorização para o exercício do ministério;

5) O papa é o bispo dos bispos. Ele é o sucessor de Pedro e o primeiro bispo


de Roma.

A partir das idéias acima não é difícil entender a importante observação que
John Driver fez da importância do clero como algo que contribuía para o bem estar
público e reforçava o imaginário simbólico da figura do religioso. 64 Até hoje

59
Sérgio Paulo Ribeiro LYRA, op. cit., p. 112.
60
Earle E. CAIRNS, O Cristianismo Através dos Séculos, p. 93-94 Ver: W. WALKER, História da
Igreja Cristã, p. 124-125. Os clericos distinguira-se claramente dos leigos, cresce o valor dos
bispos, diáconos presbíteros.
61
Sérgio Paulo Ribeiro LYRA, op. cit., p. 112.
62
Sérgio P. R. LYRA, op. cit., p. 112. Roma fôra o centro tradicional de autoridade para o mundo
romano; os bispos receberam poder judicial civil, além das exclusivas autoridades eclesiásticas;
seu poder é efetivo na solução de crises políticas e espirituais, levando ao leigo à tornara-se
apenas cidadão, ofertante e aprendiz submisso à Igreja.
63
M. VOLKMANN, “Teologia prática e o ministério da Igreja” In HARPPRECHT, C.S. (org).
Teologia prática no contexto da América Latina. p. 87-88.
64
John DRIVER, Contra a corrente – ensaios de eclesiologia radical, p. 34.
31

podemos ver no nosso país inúmeros eventos e comemorações em que se busca a


presença de um sacerdote (seja católico ou protestante) sob a justificativa de se
assegurar a presença de Deus naquele local!

O ministério, que cuida da esfera espiritual, é de competência do clero, os


seus detentores. Por isso, os bispos monárquicos eram elevados e estimados em
honra, distintos dos demais, para aumentar ainda mais esta distinção, surge a
sucessão apostólica como forma para legitimar a clericalização. Cairns afirma que
assim, consequentemente todos os bispos foram elevados a posição superior aos
demais membros das igrejas e da instituição:

Há uma ininterrupta ligação com Cristo através dos apóstolos;


em cada igreja um bispo se elevava acima dos presbíteros como
bispo monárquico, assim o bispo Romano passou a ser
reconhecido como o primeiro entre os iguais devido à
importância do peso da tradição relacionada a sua cadeira. 65

Com a organização hierárquica solidificada, estando o clero exercendo


demasiado domínio espiritual sobre o povo, os concílios criando leis eclesiásticas, o
culto impressionante e cheio de mistérios, seus dogmas autoritários aumentavam
ainda mais a centralização do poder levando o leigo à resignação e alienação. 66

Com a Igreja cada vez mais institucionalizada, os cristãos comuns pareciam


tornar-se cada vez menos essenciais nas atividades da Igreja; seu papel foi se
tornando ouvir obedientemente as ordens do clero. Aumentando e agravando ainda
mais a distinção já existente.

3.3. O desenvolvimento da doutrina distintiva entre clero e laicato

Um dos ideais da idade média era constituir um império governado por Roma
que alcançaria o mundo; neste império havia um código, cujas leis se destinavam a
regular os atos humanos e enquadrá-los em uma forma de culto, onde o sacerdócio
era exaltado. Este sistema fez do sacerdote o soberano da vida, elevando-o sobre os
demais. 67

65
Earle E. CAIRNS, op. cit., p. 94. A Igreja Católica Romana por séculos considerou o papa,
bispos, monges, padres, como uma classe diferenciada de pessoas, priorizado o clero ou
participantes do estado espiritual em detrimento dos demais, que faziam parte do estado
temporal.
66
Robert Hastings NICHOLS, op. cit., p. 52.
67
David SCHAFF, Nossa Crença e a de Nossos Pais, p. 48.
32

A distinção entre clero e laicato fôra aparecendo gradualmente, bispos,


presbíteros, diácono eram separados, distintos na posição que ocupavam dos demais
membros da igreja 68 . Esta distinção por muitos era correspondente a distinção entre a
igreja e o mundo. “A Igreja era concebida como societas perfecta (sociedade
perfeita), porém inequalis (desigual), com os status clericalis e laicalis, tendo cada
grupo seus respectivos direitos e responsabilidades”. 69

Volkman relata que o clero, por ser de natureza hierárquica, precisa


desenvolver uma estrutura de comando, sendo o bispo uma autoridade última em
assuntos de doutrina e disciplina, vindo em seguida presbíteros e diáconos. 70 Peter
Eicher argumenta que devido a este fato o conceito leigo-laikos se torna uma das
principais correntes de oposição e tensão dentro da igreja. 71

Consideramos que os dois vocábulos se desenvolveram na medida em que a


história caminhava. No entanto, os mesmos verbetes estavam aprisionados ou
despidos de seus significados verdadeiros em função da estrutura de poder e de suas
contingências.

A seguir, abordaremos a tensão existente entre clero e laicato, suas


respectivas funções são tentativas de trazer mais luz aos fatos.

3.3.1. O clericalismo

A origem da palavra clerical: “clero é o termo grego Kléros que significa


porção, herança ou partilha”. 72 Complementa Walter A. Elwell que a palavra clero
revela: “uma parte indicando um método de seleção; podendo denotar aqueles
escolhidos para serem de Deus”, “a parte do Senhor” ou ainda “porção do Senhor”. 73
A palavra clero “acabou ganhando ao longo da história a conotação de algo especial,
que possui uma parte especial”. 74

68
Robert Hastings NICHOLS, op. cit., p. 37. Ver. R. N. CHAMPLIN, Enciclopédia de Bíblia
Teologia e filosofia, p. 782.
69
J. Christian BEKER, Apud, Antônio José do NASCIMENTO, Fides Reformata, op. cit., p. 112.
Ver ainda R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 935-942.
70
M. VOLKMANN, Teologia prática e o Ministério da Igreja. In: C. S. HARPRECHT, Teologia
Pratica no contexto da América Latina, p. 80.
71
Peter EICHER, Dicionário de conceitos fundamentais de teologia, p. 450.
72
R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 771.
73
Walter A. ELWELL, Enciclopédia Histórico teológica da Igreja Cristã, p. 290.
74
Luiz Henrique Solano ROSSI, Libertando o Leigo para o Trabalho, p. 2. Ver: Walter ELWELL, op. cit., p.
290. Este termo era usado para referencia aos oficiais ordenados, aumentando a rivalidade das classes.
33

O clero formava, no seu contexto eclesial, uma categoria espiritual distinta


dos demais, os leigos dependiam do clero para encontrarem sentido na vida e êxito
em seus labores 75 . Vemos uma distinção e divisão abissal entre as classes, pois com o
“clero ficava a responsabilidade de administrar os sacramentos na igreja, ambiente
sagrado; e ao laicato ficava à procura de trabalho no mundo, ambiente profano”. 76

Os ministérios da Igreja tornam-se monopólio do clero, pois os mesmos


tornaram-se as únicas pessoas alfabetizadas, capacitadas e cultas. A educação passou
para as mãos da igreja, aumentando ainda mais seus privilégios, sua supremacia,
criando claramente cidadãos de primeira classe em detrimento dos demais. Em
conseqüência, sacerdotes e religiosos deixaram-se levar a tarefas que não eram
teologicamente essenciais à sua vocação: trabalho acadêmico e burocrático na Idade
Média; de educação e de serviço social nos dias de hoje.

3.3.2. O laicato

Segundo Walter Elwell, o termo laicato deriva do termo “laos”, “povo”. 77 De


acordo com Solano Rossi, podemos afirmar que “o laicato nada mais é do que o
leigo, pois à palavra leigo vem do grego “laos” (povo) “aquilo que é do povo”,
“comum”, “faz parte do povo” 78 . Ainda podemos observar que “o laicato deve
denotar rigorosamente a totalidade do povo de Deus”. 79

Ressaltando a temática supra, o termo laicato é compreendido pela maioria


dos autores cristãos como a imagem ideal do povo de Deus, pois sua etimologia está
atrelada à “palavra portuguesa deriva-se do grego laikós, relativo ao povo, que por
sua vez vem do termo laós, povo”. 80

Historicamente, o termo laicato veio a ser aplicado àqueles que não são
75
W. WALKER, op. cit., p. 124-125. Ver: R. N. CHAMPLIN. op. cit., p. 771. A palavra portuguesa clero veio a
significar o grupo inteiro de homens separados mediante ordenação, para serem os líderes da Igreja.
76
Antônio José NASCIMENTO, op. cit., p. 112. Ver Peter EICHER, op. cit., p. 450. Ocorrera mais
dualidade entre clero e leigo, agora transferindo-se para o nível religioso e ascético moral, todo
clero torna-se homens espirituais, e o povo leigo fica conhecido como carnais.

77
Walter A. ELWELL, op. cit., p. 410.
78
Luiz Henrique Solano ROSSI, “Em nosso contexto brasileiro a palavra leigo significa alguma
coisa que tem que ver com a ausência de conhecimento, ignorância em determinado assunto”, op.
cit., p. 2.
79
Walter A. ELWELL, op. cit., p. 410.
80
R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 782.
34

especificamente ordenados ao ministério; 81 porém, Robert B. Munger relata que:

O cristianismo foi no início um movimento de leigos (...)


tirando pescadores de seus barcos e redes, Jesus fez deles
pescadores de homens. Ele ousou crer que pessoas comuns
poderiam transformar-se em servos extraordinários de Deus.
Dentro do povo comum chamou discípulos que por sua vez
enviou para discipular as nações. 82

Notamos que o “leigo é o servo eleito por Deus, não institucionalmente


consagrado ao ministério”. 83 Porém, a distinção de classes era gritante
“especialmente marcada na Igreja Católica Romana e na ortodoxia oriental, com forte
ênfase no fato de que o dever do laicato era ser ensinado, obedecer e prestar
contribuição financeira”. 84

Ressaltamos que a classe leiga, membros comum da igreja, necessitava de


mudanças, de um grito à liberdade e de um despertamento de suas prerrogativas, afim
de trazer e gerar uma revolução para a compreensão do ser Igreja, mesmo porque a
compreensão do povo tornar-se-ia libertadora, abolindo assim, efetivamente, a
divisão dicotômica existente na igreja.

4. A Reforma Protestante e o retorno do ministério leigo


Segundo Earle Cairns, a “unidade foi ponto chave da sociedade medieval,
esta unidade se conseguiu através das instituições universais do santo Império
Romano (...), e devido a padronização espiritual provida pelos sacramentos e pelos
credos”. Porém, sementes de discórdia haviam sido plantadas e tornaram ao tempo da
reforma numa vulcânica explosão que rasgaria em pedaços o tecido da religião
medieval. 85

O movimento reformista procurava voltar a pureza original do Cristianismo;


os reformadores queriam desenvolver uma teologia que estivesse em completa
81
Walter A. ELWELL, op. cit., p. 410. o vocábulo veio a indicar pessoas que não são profissionais
de alguma profissão ou negócio em contraste com profissionais. R. N. CHAMPLIN, op. cit., p.
482.
82
Robert B. MUNGER, Apud, Lawrence O. RICHARDS, op. cit., p. 10.
83
Sérgio Paulo Ribeiro LYRA, op. cit., p. 112.
84
Walter A. ELWELL, op. cit., p. 410. Ver: Peter EICHER, op. cit., p. 450. A palavra leigo toma o
significado de excludente: leigo é a olhos vistos não especialista, o não formado, que também não
mais entendia a língua culta, o latim, e, por isso, não consegue acompanhar a liturgia, torna-se
ouvinte silencioso.
85
Earle CAIRNS, op. cit., p. 184-5. A prática na vida e nos hábitos da hierarquia papal e a
preocupação constante com atividades seculares por parte do papado, levaram muitos a reagir
contra a falta de força espiritual que pareciam haver em suas igrejas locais.
35

concordância com o Novo Testamento e que resgatasse seus princípios e valores;


“eles criam que isto seria possível a partir do instante em que a Bíblia tornava-se
autoridade final da Igreja”. 86

Ressaltamos que muitas foram as contribuições da Reforma para com a


história, mesmo conscientes de que muitas doutrinas envolvidas ficaram apenas no
campo teórico. Nascimento afirma que entre as doutrinas relacionadas, destaca-se:

Uma posição mais restrita acerca da autoridade das escrituras à


autoridade papal foi rejeitada; houve a rejeição do conceito das
indulgências; foi rejeitada a doutrina da sucessão apostólica. A
justificação pela fé, lado a lado com o ensino geral sobre a
graça divina tornou-se o fator principal na prédica; houve
separação entre Igreja e Estado; houve total rejeição da
hierarquia eclesiástica; impôs-se o conceito do sacerdócio de
todos os crentes, com a rejeição (por parte da maioria dos
grupos protestantes) do conceito de que o ministro é uma
espécie de padre. 87

Consideramos que entre os assuntos tratados na reforma, destaca-se, salvo


melhor juízo, a tentativa de afastar a dominação clerical; e disponibilizar ou
proporcionar ao laicato uma participação mais significativa e relevante na vida da
Igreja.

4.1. Martinho Lutero


Segundo Paul Tillich, o “ponto decisivo da reforma e da história da igreja foi
a experiência de um monge agostiniano em sua cela monástica. O único homem que
realmente conseguiu ruptura com o sistema romano”. 88

Martinho Lutero nasceu em 1483 em Eisleben (ao leste da Alemanha) fôra


destinado para o estudo de Direito, porém volta-se para o mosteiro, onde após muitas
lutas interiores e existenciais, desenvolveu uma nova compreensão de Deus, da fé e
da Igreja. Em 1512 doutorou-se em teologia, percebendo claramente os erros da
Igreja Católica. 89 Rompendo, assim, com o sistema Romano; 90 envolveu-se em
“conflitos com o papado, seguido de sua excomunhão e a fundação da Igreja

86
Earle E. CAIRNS, op. cit., p. 224. Destituindo assim o poder que operava nas mãos da igreja.
87
Antonio José NASCIMENTO Filho. O Laicato na Teologia e Ensino dos Reformadores, p. 12.
88
Paul TILLICH, História do Pensamento Cristão, p. 227.
89
R. N. CHAMPLIN, op. cit., p. 926-927.
90
Paul TILLICH, op. cit., p. 241. A vida de Lutero fôra desafiando o papa, abrandando os
camponeses, intervindo em crises políticas, ensinando, pregando e debatendo assuntos eclesiais.
36

Luterana, a qual presidiu até morrer em 1546”. 91

O âmago da teologia de Lutero era que “em Jesus Cristo, Deus deu-se a si
mesmo, absolutamente sem reservas, para nós. Lutero, afirmava que a Bíblia é a
Palavra de Deus, e nela está contida a mensagem de Cristo, a expiação, o perdão dos
pecados e a dádiva da salvação”. 92

É importante ressaltar que Lutero sempre considerou-se um membro


verdadeiro e fiel da Igreja una, santa, católica e apostólica. Porém, na qualidade de
mestre e pastor de almas, protestou contra o abuso das indulgências, pronunciou um
‘não’ decisivo a todo sistema papal, denunciou o papa como anticristo, referiu-se à
hierarquia romana como a igreja prostituta do diabo, e ainda outros atos de renúncia
e protestos provocando e agravando o cisma no seio da Igreja. 93

Em seu livro Apelo a Nobreza Cristã da Nação Germânica, Lutero ataca a


distinção entre os dois estados; espiritual e temporal criado pelos Romanistas que
favoreciam a vida do clero em relação ao povo, afirmando ser:

Pura invenção que o papa, bispos, sacerdotes e monges sejam


chamados estado espiritual, ao passo que príncipes, senhores,
artesãos e camponeses de estado temporal. Trata-se de uma
astuta mentira, mas que ninguém se assuste com ela, por esta
razão: Todos os cristãos são verdadeiramente do estado
espiritual e não há nenhuma diferença entre eles, a não ser de
ofício. 94

Lutero luta por uma Igreja do povo, onde Deus seria acessível a todos e não
apenas ao clero, afirmava que o papado havia se apropriado indevidamente de uma
prerrogativa que pertencia apenas a Deus. Assim, a Palavra de Deus não deveria estar
cativa à um grupo distinto de homens, mas a todo povo de Deus. 95

Luta pelo direito e o dever de cada cristão para que o mesmo exercite sua
função profética. Para Lutero, nós que estamos no reino de Cristo, não estamos
confinados a uma ordem eclesial; a um lugar ou uma tribo, todos somos chamados à
91
Timothy GEORGE, Teologia dos Reformadores, p. 53.
92
Ibid, p. 61.
93
Ibid, p. 87.
94
H. BETTENSON, op. cit., p. 293. “Segue-se, portanto, que entre leigo e sacerdote, príncipes e
bispos, não mais há distinção entre estados temporais e espirituais, a única diferença é a do ofício
e função”.
95
Timothy GEORGE, op. cit., p. 89. Esclarece que todo cristão é livre para ser como Cristo e para
seguir o exemplo de Cristo, cada Cristão deveria louvar, glorificar e dar graças à Deus.
37

adoração e ao serviço. Baseando-se em I Pedro 2:9-10 afirma: “Uma vez que todos os
cristão são chamados das trevas, cada um tem o compromisso de declarar o poder
daquele que nos chamou (...). Cristo deu a cada um o direito e poder de avaliar e
decidir, exortar e pregar”. 96

Para Lutero, todos os cristãos fazem parte do ministério de Cristo e ainda que
todo serviço, todo ministério que é realizado em prol do Reino de Deus por qualquer
cristão que seja é aceito e aprovado diante de Deus, não havendo diferença em
importância, nem em classe, mas sim em serviço.

4.2. O sacerdócio para todos


Uma das maiores contribuições de Lutero à eclesiologia foi sua doutrina do
sacerdócio de todos os cristãos 97 . De todas as ênfases da Reforma na área
eclesiológica, com certeza, a que trouxe maior contribuição para a vida e missão da
Igreja foi o sacerdócio universal. 98

Para os reformadores, o princípio do sacerdócio universal de todos os


crentes, é visto como um ensino essencial e de destaque na Palavra de Deus,
fornecendo uma base para a “insistência na primazia do laicato nas igrejas
protestantes”. 99

Eles afirmavam o princípio bíblico de que cada cristão é


ministro de Deus, de que cada pessoa é um sacerdote. O
significado mais pleno da expressão é que todos os cristãos são
sacerdotes uns dos outros, pois o sacerdócio refere-se ao
ministério mútuo de todos os crentes. 100

O sacerdócio universal de todos os crente apresenta a pessoa de Cristo como


único mediador entre Deus e os seres humanos, concedendo a cada pessoa salva
“acesso direto ao trono” por intermédio do seu sacrifício na cruz e pela operação do
Espírito Santo no interior do cristão. 101

96
Martinho LUTERO, Apud: Antônio José NASCIMENTO, op. cit., p. 128.
97
Timothy GEORGE, op. cit., p. 96. Lutero não podendo concordar com a doutrina e a existência
do clero declara que Cristo é o único mediador, e que na igreja todos são sacerdotes, todos
tinham o direito de ler, ser ensinado mesmo sem a necessidade de um sacerdote ordenado.
98
Antônio José NASCIMENTO, op. cit., p. 117, afirma que “Porém nenhum de seus ensinos é tão
mal interpretado como este. O que Lutero deixa claro é que a essência de sua doutrina se baseia
em que todo cristão é sacerdote de alguém e somos todos sacerdotes uns dos outros”.
99
Antônio José NASCIMENTO, op. cit., p. 113.
100
Ibid, p. 117.
101
Solano Portela NETO, A mensagem da Reforma para os dias de Hoje, p. 2.
38

Lutero luta por romper com a tradicional divisão da igreja em duas classes
“clero e laicato”, afirma que cada membro tem parte igual no sacerdócio e isto
significa que os ofícios sacerdotais “são propriedade comum de todos os cristãos, não
há prerrogativa especial de uma casta seleta de homens santos. Para Lutero, baseado
em 1 Pedro 2:9, o sacerdócio de todos os cristãos é tanto uma responsabilidade
quanto um privilégio, um serviço tanto quanto uma posição”. 102

Vicent J. Donovan argumenta:

Naquele momento único e supremo de sua vida, quando Jesus


ofereceu sacrifício uma vez por todas, ele reuniu em si mesmo
todo o sentimento do sacerdócio e sacrifício, e obliterou para
sempre a necessidade da classe sacerdotal. 103

A Igreja Católica tenta resgatar, já no fim do século XX, o conceito


eclesiológico da Igreja como Povo de Deus através do 21º Concílio Ecumênico
Vaticano II, iniciado em 11/10/1962, denominou-se o “Concílio da Igreja sobre a
Igreja”, voltado a dimensão pastoral, produziu em sua constituição dogmática
denominada de Lumem Gentium, dispensando todo o segundo capítulo da encíclica
para tratar e resgatar o conceito da Igreja como povo de Deus, numa tentativa de
rechaçar por completo o clericalismo, ou seja, as diferenças entre o clero e o laicato
na Igreja Católica.

Leonardo Boff declara que o Vaticano II, em bom tempo, equilibrou a


perspectiva, recuperando a sanidade teológica ameaçada. A Igreja é
fundamentalmente Povo de Deus; todos participam do múnus magisterial de Cristo;
também os leigos; a hierarquia, no interior deste povo, goza de um múnus oficial,
mas sempre como serviço a toda a comunidade cristã. 104

Boff chama a atenção para a necessidade de se redistribuir o poder do


sagrado. Ou seja, não é apenas mais o pastor, ou o padre quem detêm o "monopólio"
do sagrado. O pobre, o oprimido, enfim, o estratificado social também deve ter

102
Timothy GEORGE, op. cit., p. 97, alude que Lutero não rejeitou a ordenação de ministros da
palavra e suas responsabilidades sacramentais, sua grande rejeição era em assumir que um
sacerdote, missionário, bispo ou monge por estarem totalmente envolvido com atividades
religiosas, eram pessoas mais próximas de Deus e distintas das demais em autoridade e santidade.
Ver: Sérgio Paulo R. LYRA, op. cit., p. 112.
103
Vicent J. DONOVAN, apud. Antônio José NASCIMENTO, op. cit., p. 118.
104
Leonardo BOFF, Igreja, carisma e poder, p. 218.
39

acesso à potesta sacra. 105

Diante do exposto, conclui-se que todo sacerdócio leigo e ordenado, deriva


do sacerdócio único, santo e eterno de Cristo. Por meio de Cristo todos os crentes
participam de um sacerdócio universal, não existindo (nem pode!) diferenças de
classes.

5. A igreja e o reino de Deus


Uma questão que fica em aberto a muitos questionamentos e interpretações é
quanto ao relacionamento da Igreja com o Reino de Deus. Para os cristãos dos
primeiros séculos, o Reino foi sempre considerado escatológico. Uma oração
primitiva do segundo século continha: “Lembra-te, ó Senhor, da tua Igreja, para (...)
ajuntá-la como um todo, em sua santidade, dos quatro cantos da terra, para entrar no
teu reino, que tens preparado para ela”. 106

No período da patrística, Santo Agostinho de Hipona identificou o Reino de


Deus com a Igreja. A partir da Reforma Protestante, embora em uma forma
modificada a identificação de um com o outro foi perpetuada. João Calvino (1509-
1564), um dos sistematizadores da teologia reformada, utilizou a passagem do
Evangelho de Mateus 13:47-50, como argumento bíblico, com o propósito de
fundamentar o princípio da identificação da Igreja com o Reino de Deus. Tais
conceitos relacionados com o Reino e a Igreja, 107 e a relação existente entre os
mesmos, são trabalhados e desenvolvidos por Ladd, quando afirma:

A missão de Jesus foi a de inaugurar uma era de cumprimento


como evento antecipado de uma consumação escatológica, e, se
num sentido real, o Reino de Deus, em sua missão, invadiu a
história humana, ainda que de um modo inesperado, segue-se
que aqueles que recebem a proclamação do Reino são
considerados não apenas com o povo que iria herdar o Reino
escatológico, mas como o povo do Reino há no tempo presente
e, consequentemente, em algum sentido da palavra, a Igreja. 108
105
Leonardo BOFF, Igreja, Carisma e Poder, p. 25
106
Cfe O Catecismo dos Primeiros cristãos para as Comunidades de Hoje, didaqué: 10:5.
107
Outros conceitos eclesiológicos poderiam ser trabalhados bíblico/teologicamente, tais como:
unicidade, santidade, catolicidade, apostolicidade da Igreja. Embora não sejam objeto específico de
abordagem deste trabalho, mesmo tendo com ele relações estreitas, outros conceitos eclesiásticos
poderiam ser trabalhados. Podem ser encontrados em muitos livros que tratam de Eclesiologia,
dentre eles: Alfredo Borges TEIXEIRA, Dogmática Evangélica, p. 263-267 e Philip J. HEFNER, “A
Igreja”, In: Carl E. BRAATEN & Roberto W. JENSON, Dogmática Cristã, V. 2, p. 213-222;
Jacques de SENARCLENS, Herdeiros da Reforma, p. 341-346.
108
George E. LADD, Teologia do Novo Testamento, p. 100.
40

A relação entre o Reino de Deus e a Igreja pode ser demonstrada nas atitudes
de Jesus. Padilla afirma: “A ênfase central do Novo Testamento é que Jesus veio para
cumprir as profecias do Antigo Testamento e que, em sua pessoa e obra, o Reino de
Deus tornou-se realidade presente”. 109

Stott trata deste Reino mostrando os dois extremos tradicionais de concebê-


lo. Uma concebe o Reino como uma realidade completamente realizada. Esta
“escatologia realizada” foi popularizado por C. H. Dodd, afirmando que o Reino foi
plenamente implantado por Jesus. Agora, fica com a Igreja, através da obra social e
da proclamação, implantar a semelhança deste Reino. E no outro extremo, Albert
Schweitzer apresentou a tese de um Reino exclusivamente vindouro. Jesus irá
implantar um Reino totalmente oposto ao contexto humano. 110

Ladd tenta resolver a tensão entre os dois extremos, escrevendo sobre o


Reino que foi inaugurado por Jesus, e que exerce um processo de “fermento,”
atuando de forma libertadora através da história. É o “já, ainda não” do Reino
presente, mas não completamente realizado. Portanto, ainda espera-se uma
consumação final que se realizará na parúsia. Jesus ensinou a respeito do Reino que,
“certamente é chegado (...) sobre vós” (Lc 17:20-21), mas ao mesmo tempo ensinou,
em suas parábolas, a respeito da definitiva consumação do Reino no final dos
tempos. 111

Embora a Igreja não se eqüivale ao Reino, ela manifesta sua forma de ser
através de sua vida, e proclama a respeito de sua vinda pela evangelização. Porém, a
consumação do Reino não será pela mediação da Igreja, mas pela atuação divina que
se vale do serviço e pregação da comunidade de Cristo, e que vem em contraste com
toda a injustiça e miséria do mundo.

Diante disso, em primeiro lugar, Jesus não assumiu o seu ministério com o
propósito de iniciar um novo movimento, reconheceu a Israel, a quem o pacto e as
promessas foram dados, como os naturais “filhos do Reino” (Mt 8:12; 10:5-6). Sua
missão foi a de proclamar ao povo de Israel que Deus estava agindo naqueles dias a
fim de cumprir as suas promessas e conduzir Israel ao seu verdadeiro destino.

109
C. René PADILLA, Missão Integral: Ensaios sobre o Reino e a Igreja, p. 197.
110
John R. W. STOTT. Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, p. 422-424.
111
Idem, p. 424.
41

O segundo fato é que Israel rejeitou a Jesus e a sua mensagem a respeito do


Reino. A proclamação do Reino e a chamada ao arrependimento caracterizavam o
ministério de Jesus desde o início, mas o evangelhos registram o conflito e a rejeição
de Israel à mensagem que culminou na sua morte.

O terceiro aspecto é significativo. Embora Israel como um todo rejeitou a


oferta do Reino feita por Jesus, um grupo remanescente abraçou a fé no Cristo,
tornando-se o verdadeiro Israel e os representantes da nação como um todo, portanto,
os discípulos de Jesus são os recipientes da salvação messiânica, o povo de Deus, o
povo do Reino, o verdadeiro Israel.

O fato de que Jesus considerou o círculo daqueles que receberam a sua


mensagem como sendo os filhos do Reino, o povo peculiar de Deus, como o
verdadeiro Israel de Deus, que assumiram o lugar da nação rebelde. No entanto, os
discípulos de Jesus pertencem ao Reino; mas eles não são o Reino. Essa aparente
contradição pode ser explicada.

Em primeiro lugar, o NT não iguala os cristãos com o Reino. Jesus não


equaciona os discípulos com o Reino. Muitas passagens apontam para a relação
inseparável entre a Igreja e o Reino, mas não a sua identidade (Mt 13:38-43; 16:18-
19); os missionários pregavam o Reino de Deus, não a Igreja (At 8:12; 19:8; 20:25;
28:23-31). Assim, a Igreja constitui-se no povo do Reino, nunca no próprio Reino.

Em segundo lugar, o Reino gera a Igreja. Aqueles que aceitaram a mensagem


e o cumprimento da esperança messiânica do AT foram constituídos como o novo
povo de Deus, os filhos do Reino, o verdadeiro Israel, a Igreja incipiente. Assim a
entrada no Reino significa participação na Igreja, mas a entrada na Igreja não
significa, necessariamente, entrada no Reino de Deus.

Em terceiro lugar, a missão da Igreja é dar testemunho do Reino. Ela não


pode edificar o Reino ou mesmo tornar-se Reino, mas pode proclamar os atos
redentores de Deus em Cristo em favor da criação e das criaturas, como se lê no
evangelho de Mateus, tanto judeus como gentios (Mt 8:11-12). A missão da Igreja
como arauto, sinal, e instrumento do Reino de Deus está em foco.

Em quarto lugar, a Igreja é considerada como sendo a agência do Reino. Os


42

discípulos foram considerados como agentes instrumentais do Reino, pelo fato de que
as obras do Reino terem sido realizadas por eles como se fossem realizados pelo
próprio Jesus. Pregavam o Reino, mas também curavam os enfermos e expulsavam
demônios (Mt 10:8; Lc 10:17).

Assim, a Igreja torna-se o instrumento do Reino de Deus na proclamação da


Palavra, no serviço e na batalha contra as marcas dos poderes satânicos. 112

Ademais, a Igreja é a guardadora do Reino. O conceito veterotestamentário


tinha Israel como o guardador do Reino. Desde o chamamento de Abraão e a entrega
da lei, o domínio e o governo de Deus podiam ser experimentados somente através da
lei, e, Israel, sendo a guardiã da lei, mantinha o Reino de Deus em custódia.

Nesse contexto, entendemos que na pessoa de Jesus, o reinado de Deus


manifestou-se em um novo evento redentor. A nação de Israel rejeitou a proclamação
deste evento divino, mas aqueles que o aceitaram se tornaram os verdadeiros filhos
do Reino. A ekklesia torna-se a guardadora do Reino, em lugar dos israelitas.
Portanto, a Igreja não somente testemunha a respeito do Reino, mas também
constitui-se em instrumento do Reino, à medida que este manifesta o seu poder nesta
era presente, é também a guardadora do Reino. Hans Küng, conclui: “A Igreja não é
o Reino de Deus, mas levanta para ele os olhos, aguarda-o, ou melhor, vai ao seu
encontro como povo peregrino e prega-o ao mundo como seu arauto”. 113

Mais: a Igreja, como povo de Deus, dará evidencias de que o Reino de Deus
está presente histórica e concretamente no mundo na medida em que compreende que
torna-se o “corpo” onde os conceitos absolutos deste mesmo Reino - a liberdade, a
justiça, o amor, a solidariedade - possam encarnar historicamente. Os valores do
Reino de Deus precisam ser corporificados. E, essas corporificações são as
materializações da presença de Deus. “A igreja não pode dispor desta
presencialização de Deus, através de sua palavra e de sua ação humana”. 114 A Igreja,
como povo de Deus, deve manifestar e ser a manifestação corporificada da presença e

112
Leonardo BOFF, Igreja, Carisma e Poder, p. 160
113
Hans KÜNG, A Igreja, V. 1, p. 138; C. René PADILLA, afirmou: “Ela não deve ser equiparada
com o Reino, mas tampouco separada dele. Seu propósito é refletir os valores do Reino, aqui e
agora, pelo poder do Espírito Santo”, op. cit., p. 202.
114
Johannes FEINER, A presencialização da Revelação pela Igreja, p. 13
43

dos valores do Reino de Deus. 115

O que resulta disso é que se o povo de Deus, na qualidade de ser a Igreja de


nosso Senhor Jesus Cristo, não manifestar concretamente através de sua práxis os
valores do Reino de Deus, perderá a consciência de sua missão e responsabilidade e a
condição de ser guardiã deste mesmo Reino.

Assim tem Deus estabelecido o seu reino entre seu povo. As


fronteiras deste reino, entretanto, não são demarcadas por
muros nem cercas. Os muros de demarcação são, antes, os dez
mandamentos. Quem ultrapassa estes mandamentos sai fora do
reino de Deus e deixa de pertencer a seu povo. Reino de Deus e
povo de Deus são idéias correlativas. 116

Conclusão
Entendemos que é totalmente válida, relevante e atual a perspectiva
eclesiológica sobre a natureza da Igreja como povo de Deus. É uma prova de que
realmente a ação conscientizadora e libertadora de Deus pode agir em qualquer lugar,
circunstâncias e em qualquer tempo, até mesmo dentro dos muros da Igreja. Aliás, os
filhos de Deus deveriam ser os primeiros a experimentar a integridade da realidade
libertadora de Deus, mediada pelo sacrifício vicário de Cristo.

Esta divisão humana entre cleros e leigos, sagrado e profano, santo e imundo,
favorece somente aqueles que detém o poder, mas uma boa teologia destrói o
pensamento desses que intitulam-se os escolhidos, eleitos e perfeitos, afirmando que
Deus age também naqueles que muitas vezes nós esquecemos e desprezamos. A
esfera da ação de Deus é o mundo e, não necessariamente, a Igreja. Somos desafiados
a proclamar essas verdades, também, a esses excluídos tendo como exemplo a vida de
Jesus, e, nele, imitarmos a sua práxis libertadora.

O discurso sobre Deus e sobre aqueles que lhe pertencem é totalmente


moldado pelos acontecimentos históricos. As condições históricas vão sendo
interpretadas a partir do evento Cristo. Entendemos que a manifestação de Deus para
com os seus é a de um Deus encarnacional, que acolhe e aglutina, e que somos os
seus intérpretes neste mundo. Da mesma forma a igreja é chamada a assumir
encarnacionalmente sua tarefa no mundo.

115
Flávio Braga FACCIO, Os sinais do Reino de Deus na História, p. 28
116
Herbert HAAG, Teologia Bíblica, p. 212.
44

Temos a função e o privilégio de vivenciar a realidade de que somos povos


de Deus e mostrar a sua face misericordiosa e acolhedora em todo lugar. Cada
geração é responsável em atualizar os atos salvíficos de Deus na história. Já não
basta a Igreja olhar o mundo. Chegou o momento de transformá-lo e até mesmo
substituí-lo pelos valores do Reino de Deus.

A igreja, como um todo, é cooperadora de Deus na medida que se


conscientiza de sua natureza, comunidade de eleitos e eleitas. Agentes do Reino. Essa
verdade pode ser percebida através da história da salvação e da relação entre Israel e
a Igreja. Relação de continuidade do projeto de Deus de fazer com que todos, sem
distinções, possam fazer parte do corpo místico de Cristo, povo de Deus, capacitados,
alimentados, guiados e energizados pelo seu Espírito.

Assim, após a reflexão histórica do povo de Deus na perspectiva da tradição


cristã, vamos elaborar no terceiro capítulo a missão deste mesmo povo. Entendendo
que esta missão é iniciada em Deus, mas acontece através da Igreja, tendo como local
de concretização, no mundo.
CAPÍTULO III
A MISSÃO DO POVO DE DEUS

O nosso alvo neste capítulo é elaboração de uma teologia de missão para o


povo de Deus que parte de Deus e traz salvação e transformação a todas as pessoas, a
despeito de seu contexto cultural, étnico ou social. Portanto, uma questão de extrema
pertinência é o ponto de partida para tal missiologia. Existem muitos paradigmas
missiológicos que poderiam nortear nossa reflexão. No entanto, Em Atos 1:6-8, há
dois pontos de partida que nos permitem formular duas filosofias missiológicas,
embora contrastantes e conflitantes. É o que veremos a seguir.

1. Missio Dei

1.1. Antropocêntrica
Na primeira parte da passagem bíblica supra (v. 6) destacamos o primeiro
ponto que nos ajuda a entender e formular um parâmetro missiológico:
antropocêntrico.

É missão a partir do agir humano, que busca os interesses particulares de um


determinado grupo. A pergunta dos discípulos em 1:6 reflete isso, pois posicionava a
nação de Israel em superioridade às demais nações, um reflexo de uma cosmovisão
nacionalista. Ao sintetizarem a restauração de Israel com o Reino de Deus, a
esperança messiânica tomou a forma de um libertador político que iria exercer a ira
de Deus contra os estrangeiros, seus algozes. A missão humana é exclusivista e
particular, e leva determinados grupos a se retirarem do contexto humano mais amplo
a fim de garantir um status sócio-religioso que é negado aos outros.
46

O contexto histórico da igreja ajuda a perceber que este modelo missiológico


dominou e condicionou a prática dos cristãos. O resultado foi a construção e a
perpetuação de um abismo entre a hierarquia e os leigos.

1.2. Teocêntrica e Trinitária


Em atos 1:7-8 encontramos o segundo parâmetro missiológico, que também
apresenta a missão teocêntrica e trinitária, a partir do agir divino.

Em 1:7, o projeto salvífico-histórico se deve à autoridade (exousía) singular


de Deus. A missão não pertence aos seres humanos, mas é missio Dei, obra exclusiva
de Deus. Deus é o autor de todo esforço salvífico.

No Antigo Testamento, os pactos com os patriarcas são sempre iniciativas de


Deus. No pacto abraâmico, o dever principal de Abraão é a obediência ao plano de
ação executada por Deus. É o mesmo com Moisés e Israel, pois a auto-revelação de
Deus não foi uma descoberta de exploração humana, mas uma transmissão de
conhecimento de Deus sobre si mesmo às suas criaturas. Finalmente, as profecias do
surgimento do Salvador são sempre segundo o plano e tempo de Deus, em contraste
com a sabedoria humana.

No Novo Testamento, Deus realiza seu projeto através de Cristo, em


oposição às agendas e conselho humanos. A encarnação, morte, e ressurreição
contradizem qualquer idéia que os seres humanos possam conceber a respeito de sua
própria salvação (1 Co 1:18-25). Conclui-se, então, que a autoridade do Pai sobre a
missão pressupõe a ausência da mediação humana, e a história da salvação depende
singularmente da iniciação, execução e consumação de Deus.

Destaca-se o fato de que a missão teocêntrica é também uma missão


trinitária. A missio Dei é missão do Pai, Filho, e Espírito Santo, que agem juntos em
todas as etapas da história da salvação, realizando juntos todos os eventos salvíficos,
sem qualquer forma de submissão em essência de um ao outro. Como já elaborado, o
desenrolar da história é segundo a exousía do Pai, que faz a história do mundo
colaborar para cumprir os momentos salvíficos (At 1:7). Portanto, a missão é também
pneumatológica. Em Atos 1:8, a presença do Espírito é o fator definitivo para o
testemunho de Jesus. As primeiras instruções aos discípulos exigiam somente a
espera, pois eram apenas a agência de Deus. O Espírito seria o dynámis para cumprir
47

uma nova etapa na história da salvação, fornecendo energia operante, força motriz, e
capacitação para realizar as intenções e propósitos de Deus. 117

Como observa Bosch, o Espírito representa a prometida presença de Cristo


em sua comunidade (Mt 28:18). Também representa para a Igreja o mesmo poder
(dynámis) que dirigiu o ministério de Cristo. Como Cristo, a Igreja não é responsável
para provar a legitimidade de sua missão, pois ela é confirmada pela manifestação do
Espírito. Portanto, envolvimento missionário, longe de ser um projeto humano, é
conseqüência do dom do Espírito.

O Espírito inicia e guia a missão, e fornece o poder para realizá-la. Por fim, a
iniciação e direção do Espírito na missão representam a vontade de Deus para a
salvação universal, manifestada em Cristo, e agora completada através da agência da
Igreja. Atos 1:8 estabelece isso com o anúncio do testemunho a partir dos judeus para
todas as nações da terra. 118

Se a missão é trinitária, então é também cristológica. Em Atos 1:8, Jesus é o


enviador dos discípulos, a porta-voz de Deus para decretar a missão universal. Mas
ao enviar seus discípulos para serem suas testemunhas, ele estava referindo ao seu
agir histórico. Os discípulos eram testemunhas de sua encarnação, morte, e
ressurreição, que agora seriam anunciadas a toda a criação. No entanto, esta
proclamação não seria só um anúncio de fatos, mas reflexão sobre o significado
destes fatos para todas as pessoas. Portanto, queremos afirmar que ao enviar seus
discípulos para darem testemunho dele, Jesus estava se fornecendo como o próprio
conteúdo deste testemunho. Em seu ministério e atuação salvífica, Jesus se mostrou
como o conteúdo do Reino de Deus, prova de sua proximidade ao contexto humano, e
evidência da auto-oferta de Deus a todos os seres humanos.

117
Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, Poder e Testemunho – Missões em Atos 1 e 2. In: C. Timóteo
CARRIKER (org). Missões e a Igreja Brasileira, p. 82.
118
David J. BOSCH, Missão Transformadora, p. 113-115.
48

Isso nos leva ao conceito da encarnação. A vida e ministério de Jesus foram


vida e ministério encarnados. Em outras palavras, Jesus na terra representou Deus na
terra. Era a invasão de Deus no mundo, onde Deus aceitou a totalidade do contexto
humano para tornar-se participante nos sofrimentos, limitações e processos
cotidianos da vida humana. No entanto, com a intenção salvífica, esta operação
encarnada representou a auto-revelação de Deus à totalidade das etnias, culturas e
classes sociais que compõem o mosaico mundial. Embora a partir do contexto
judaico, Jesus encarnou o conteúdo da mensagem salvífica universal.

A encarnação de Deus em Jesus, além de representar a proximidade do Reino


de Deus para todos que se conformam ao senhorio de Cristo, também representou o
modelo missionário que Deus estabeleceu para a Igreja. A missão da Igreja se modela
segundo a atuação histórica de Jesus entre os seres humanos. Esta atuação tinha duas
dinâmicas. A primeira era horizontal, a todos os povos, e a segunda era vertical, para
cima e baixo na escala social. A respeito da dinâmica horizontal, devemos mencionar
primeiro que o ministério de Jesus se realizou a partir dos judeus, pois Jesus buscou
salvar as ovelhas perdidas de Israel. Sua postura inclusivista aos povos gentílicos, a
primeira vista, parece ocultada.

A análise do ministério de Jesus revela de forma concreta suas intenções


salvíficas para com os gentios (Lc 4:23-27), incluindo os samaritanos (Jo 4), e os
romanos (Mt 8:5-13). Jesus deixou plenamente revelada a disponibilidade do Reino
aos gentios ao decretar o testemunho entre todas as nações em Atos 1:8. Portanto, os
feitos e as suas palavras implicam na universalidade do evangelho para todos os
grupos étnicos.

No ambiente social, a encarnação manifestou a disponibilidade do Reino para


todos que a sociedade antiga israelita marginalizava. No evangelho de Lucas, o
ministério de Jesus dá uma atenção especial para mulheres (7:12-14), enfermos
(8:43-48), leprosos e imundos (5:13), publicanos (18:9-14; 19:9-10), prostitutas
(7:36-50), e criminosos (23:39-43). O evangelho é anunciado aos pobres (6:20-22) e
aos pecadores (5:29-32), enquanto que os ricos não são rejeitados, mas advertidos
quanto ao perigo das riquezas (18:24-30). Ainda mais, a opção de vida de Jesus não
foi a afluência e aprovação pública, mas a simplicidade e rejeição. Portanto, ao
realizar seu projeto salvífico participando do contexto de pobres e estigmatizados,
49

Jesus mostrou que o Reino de Deus era para aqueles que nada puderem fazer para
ganhar cidadania no Reino, senão depender da misericórdia de Deus, enquanto que,
os que se julgavam os administradores do Reino, eram rejeitados. Desta forma, a
missão novamente é missio Dei, pois pressupõe a ausência de qualquer mediação
humana e a soberania de Deus para sua realização, e também representa a
preocupação de Deus na integralidade de cada indivíduo. Em outras palavras, o
evangelho é integral. Representa uma proposta divina para a salvação espiritual e a
transformação material que valoriza as necessidades sociais, econômicas, físicas e
emocionais de todos.

2. Missio eclesiae
A missão da Igreja (missio eclesiae) obedece ao modelo ministerial de Jesus
na encarnação. Atos 1:8 é nada mais do que representação do agir salvífico de Jesus,
por agência humana, que ultrapassa barreiras culturais, nacionais e sócio-econômicas
para tornar o Reino de Deus universal. O testemunho dos discípulos, pelo dynámis do
Espírito, era o anúncio dos eventos histórico-salvíficos, com seus significados, em
“(...) toda a Judéia e Samaria e até aos confins do mundo”. Importância igual é dada
à evangelização de Jerusalém, Samaria, e das demais nações.

Cada região mencionada representou um desafio cultural e social para os


discípulos. Jerusalém foi testemunha ocular dos feitos salvíficos de Deus em Jesus, e
agora se torna o ponto de partida da evangelização mundial, e o primeiro a ser
confrontado com a convicção e perdão de pecados. “Toda a Judéia” incluiu a
Galiléia, região de miséria econômica e mistura racial com povos gentílicos e,
portanto, terra desprezada pelos judeus fiéis. Samaria, a “pátria da heresia”, era
odiada pelos judeus por causa de sua impureza de raça e infidelidade à Lei Mosaica.
Em último lugar, “aos confins da terra” implicava não somente na pregação a todos
os povos gentílicos, até aos mais distantes, mas também aos romanos, os inimigos
conquistadores. 119

Portanto, a missão dos discípulos é de testemunho entre os grupos


estigmatizados por serem pobres e impuros, entre os de culturas estranhas, e entre os
considerados como inimigos. Assim, a missão da Igreja, como povo de Deus, implica
na superação de preconceitos culturais e sócio-econômicos, e, segundo o exemplo
119
Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, op. cit., p. 83.
50

encarnacional, na convivência e participação no contexto dos que são marginalizados


pelos sistemas sociais e culturais. Implica na demonstração do evangelho integral
através da aceitação incondicional dos ricos e dos economicamente desfavorecidos,
na compaixão visível para os rejeitados pela sociedade, e na superação de barreiras
culturais e nacionais para levar o evangelho aos povos mais desconsiderados pelo
mundo ocidental, até mesmo aos que são vistos como inimigos.

Em resumo, conclui-se que Atos 1:6-8 revelam a prática missiológica, pois


trata do progresso no projeto histórico-salvífico de Deus. O Filho e o Espírito, tanto
através do ministério terrestre de Jesus (Lc 4:18) quanto por meio da marcha
missionária da Igreja, permanecem em cooperação divina para tornar o Deus triúno
conhecido a todos os povos da terra, efetuando a auto-revelação de Deus na história.
Este projeto implica em salvação proclamada e oferecida a todos que se deixam
conformar-se ao senhorio de Cristo e a libertação espiritual, material e emocional
para todos os excluídos, estigmatizados e vitimados, sem distinção segundo critérios
culturais, sociais e econômicos.

2.1. A missão do povo de Deus

É importante esclarecer que o verdadeiro sentido da Igreja não se deixa


confinar numa definição conceitual. A Escritura não fornece uma definição da Igreja,
mas apresenta diversos aspectos dessa única realidade, aspectos que precisam ser
somados e completados e às vezes corrigidos, uns pelos outros. 120 Todos os aspectos
devem ser levados em consideração, não se pode admitir a exclusão deste ou daquele.

A missão da Igreja como povo de Deus está fundamentada pela Sagrada


Escritura no que concerne as idéias: eleição, aliança, serviço e missão de Deus. A
liberdade é a marca desse relacionamento, no entanto, existe uma alternância
constante entre obediência e desobediência, mas nem uma nem outra situação quebra
a aliança de Deus com seu povo.

A noção da missão do povo de Deus, expressa e manifesta a continuidade


entre Israel e o novo Israel: a Igreja. A literatura paulina fundamenta a idéia de que a
Igreja é a imagem do corpo de Cristo, ela é a extensão, a continuação de Cristo neste
120
Para Dom Murilo S. R. KRIEGER, Deixa meu Povo ir, p. 118. A Igreja é a assembléia de todos
(Clérigos e Laicos) aqueles que, pelo batismo, foram convocados para estarem ao redor da mesma
mesa, sendo que é o próprio Cristo quem a preside.
51

mundo. Cristo é a cabeça do corpo que a Igreja se torna. A missão da Igreja,


proveniente de sua própria natureza, é ser a presença de Cristo no mundo, em
obediência ao Cristo que a governa e que caminha junto com o seu povo, leigos e
leigas, povo da Nova Aliança.

A Igreja, como povo de Deus, pode e deve ser uma comunidade de eleitos
que adora e glorifica a Deus servindo ao próximo; que vive em comunhão fraterna e
solidária com os seus, que acolhe os excluídos, que proclama a mensagem libertadora
de Cristo mediante a instrumentalização do Espírito Santo que os torna,
verdadeiramente, povo missionário de Deus.

É um dos fatos marcantes de nossa era é que, no contexto latino-americano,


começa surgir uma reflexão que leva em consideração justamente a realidade sofrida,
injusta e oprimida em que vive a maior parte da população deste continente. A Igreja
não está isenta destas injustiças, pelo contrário, pelo seu espírito pacífico e
resignado, não oferece resistência, nem alternativas práticas e eficientes que
desmonte e desmascare as intenções implícitas e explícitas destas estruturas injustas,
extratificadoras e desumanas da nossa sociedade.

Como conseqüência dessa profunda crise, a Igreja latino-americana inicia seu


processo de reestruturação, ao mesmo tempo, ocorre uma desestruturação mundial
das formas tradicionais de pensamento e de crenças e, muitas vezes, a caótica procura
de novas formas e estruturas que dê conta e responda esses anseios. A força leiga da
Igreja afastada e, sempre, na defensiva durante séculos, torna-se agora uma parte da
busca do ser humano hodierno e, como Povo de Deus, toma posição frente a uma
sociedade sem vínculos afetivos e sem relacionamentos duradouros, desfragmentada
e totalmente alienante. Como essa conscientização de ser Igreja poderá ser e fazer
diferença nesta sociedade pós-moderna?

A Igreja latino-americana encontra-se num momento novo. Nunca se


produziu tanta reflexão bíblico-teológica como agora. E, entretanto, sua identidade
teológica, sua práxis, precisa ser elaborada, ainda não existe. A Igreja precisa manter
seus dogmas e suas verdades, no entanto, deve traduzi-la para o ser humano moderno
e, ao mesmo tempo, dialogar e participar do próprio desenvolvimento desta cultura
secular e influenciá-la.
52

Sejam quais forem as verdades que a Igreja proclame, o Povo de Deus deve
distinguir-se sempre como a comunidade de homens e mulheres que confessem o
Senhorio de Jesus Cristo, que vivam sob a proteção e inspiração do Santo Espírito e
se comprometam, como membros, e assumam seu compromisso e sua missão em prol
do Reino de Deus. 121 Deixará de ser Igreja quando Jesus não for mais reconhecido
como o Senhor, como o modelo-mor para a vida humana e a história. 122 A Igreja
primitiva distinguia-se por sua proclamação e confissão de que “Jesus Cristo é o
Senhor” tanto nos cultos (intra muros) quanto na sociedade (extra muros).

No entanto, a missão do povo de Deus não se esgota com o querigma. Deve


reconhecer sua responsabilidade de trabalhar e esforçar-se em todos os níveis e
sentidos em prol do Reino de Deus na terra. O Reino torna-se um acontecimento que
se manifesta através das ações seculares. Mais: a Igreja deve sempre ser uma
comunidade de homens e mulheres empenhados num compromisso integral com as
tarefas da diaconia. Torna-se uma parte do trabalho essencial da Igreja e um aspecto
de sua tarefa missionária. Através do serviço no e para o mundo, a Igreja apressa,
efetivamente, o dia em que todos serão levados ao reconhecimento de que a
verdadeira pregação do Evangelho obteve, enfim, um efeito relevante na vinda e
consumação final do Reino.

2.2. As dimensões da missão da igreja


À luz do Novo Testamento, a Igreja possui três dimensões, as quais são
possibilidades de expressar o modo pela qual a Igreja, através de seus filhos e filhas,
leigos e leigas, realiza o seu ministério e cumpre a sua missão. A tríade 123
neotestamentária tem sido chamada pelos teólogos como: Querigma (proclamação da
Mensagem Cristã) 124 ; Diaconia (serviço no/para o mundo) e Koinonia (o caráter
fraterno e solidário do Povo de Deus).

121
Este aspecto é especialmente desenvolvido por José Míguez BONINO no seu Livro: Ama e Fazes
o que Quiseres, 1982, onde elabora um extenso trabalho sob a ética cristã. O Povo de Deus deve
estar consciente da nova ordem, do mundo novo, em Cristo com o advento do seu Reino.
122
A literatura é muito rica sobre o assunto: Senhorio de Cristo. Veja as acertadas reflexões do Dr.
Alberto F. ROLDÁN, Señor Total, Publicaciones Alianza, 1998; Dionísio PAPE, Cristo é o Senhor.
ABU, 1976.
123
A tríade ministerial da Igreja é tratada exaustivamente por muitos tratados bíblico-teológicos.
Nosso propósito não é tratar o assunto conceitualmente, mas, tão somente, tematicamente.
124
C. H. DODD, Segundo as Escrituras, p. 7-23; Johannes FEINER, Revelação e Igreja, p. 119-134,
trabalham com competência e esmero a conceituação e aplicação do termo “querigma” na vida e na
práxis da Igreja.
53

No entanto, essa tríade não pode ser entendida como aspectos distintos,
antes, se complementam, refletindo uma única realidade: o caráter integral da obra
redentora da Igreja no desempenho de sua missão.

Os elementos que aqui colocamos como dimensões da Igreja, Charles van


Engen discute como o propósito e o papel da igreja local, considerando a eclesiologia
pela "perspectiva multifacetada" da razão de ser da Igreja, no que diz respeito à sua
participação no mundo "por meio da koinonia, querigma, diaconia, martíria" como
"comunidade pactual do rei", ou no contexto do Reino de Deus no mundo. 125
Martinho Lutero as chama de marcas da igreja, notae ecclesia. 126 As marcas arroladas
por Lutero são: a Palavra, o Batismo, a Santa Ceia, o ministério, a oração, o
sofrimento e “outras”. Sugere de chamá-las de sacramentos. 127

Veremos a seguir algumas marcas ou dimensões da Igreja, as mesmas não


abarcam e abrangem todas as categorias elencadas pelo reformador, mas denotam a
essência eclesiológica do povo de Deus.

2.2.1. A dimensão querigmática da igreja


O termo “querigma”, no grego, significa “mensagem”. Logo, a Igreja é
chamada para proclamar e viver uma mensagem. A sua mensagem consiste na
proclamação ao mundo daquilo que Deus tem feito pelo ser humano em Jesus Cristo.
Bonino, avança nessa distinção da tarefa da Igreja, quando afirma: “A Igreja, isto é, a
comunidade daqueles que abraçam uma tarefa histórica na liberdade do perdão e da
santificação de Deus, não pode existir a não ser na celebração, proclamação e
testemunho concretos dessa liberdade”. 128

Esta função de anunciar é fundamental e a torna diferente de tudo o mais. A


mensagem que seus filhos e filhas proclamam é uma mensagem de libertação e de
chamado à maturidade. Os textos bíblicos do Novo Testamento apontam para a
125
Charles van ENGEN, Povo missionário, povo de Deus, p. 112.
126
O II capítulo do livro de Salvador PIÉ-NINOT, Introdução à Eclesiologia, trabalha com esmero
os conceitos fundamentais da Igreja. Destaca a igreja como sacramento, comunhão, povo de Deus,
corpo de Cristo, tradição viva, sociedade e como instituição. Sua abordagem é à luz do fundamento
de que a Igreja Católica Romana é a sucessora legítima do colégio apostólico. Já a tradição
protestante evoca como principal paradigma da Igreja é o do povo de Deus e que sua maior
preocupação, segundo Calvino, está no trabalho pastoral e na "cura de almas". John H. LEITH, A
Tradição Reformada, p. 128.
127
Philip J. HEFNER, A Igreja. In: Carl E. BRAATEN & Robert W. JENSON, Dogmática Cristã, V.
2, p. 231-232ss.
128
José Míguez BONINO, A Fé em Busca da Eficácia, p. 128.
54

mensagem que a Igreja tem que proclamar: Jesus Cristo. A Boa Nova é a libertação
que Cristo trouxe e oferece aos homens e mulheres que nele crêem.

É nesta aspecto que a Igreja possui um papel fundamental, pois a ela como
povo de Deus, cabe a responsabilidade do Kerigma, ou seja, da proclamação do
evangelho e das boas novas: Cristo Jesus. Hoje ainda Jesus está pregando ao mundo,
através dos lábios dos seus seguidores.

O lugar da pregação e do ensino 129 na Igreja se deduz facilmente do que já foi


dito. Eles são essenciais para a vida eclesiástica porque são instrumentos poderosos
para comunicar e vivenciar o evangelho que se encontra no âmago da vida da Igreja e
para torná-lo, também, efetivo fora da Igreja.

A proclamação e a evangelização não estão confinadas as quatro paredes do


templo, nem são monopólio da liderança da Igreja. A palavra de Deus não é
propriedade da instituição e nem está presa sob a velha ortodoxia alienante e
desfigurada. A Igreja é Povo de Deus. Todos participam. Todos podem participar do
serviço de ensinar, todos são enviados à missão, todos são co-responsáveis pela
comunidade, todos devem se santificar, “todos somos irmãos” (Mt 23:8).

Boff expressa isto da seguinte maneira: “(...) uma Igreja do povo, com os
valores do povo, em termos de linguagem, expressão litúrgica, religiosidade popular,
etc”. 130

Segundo Van Engen, a Igreja existe para os outros, para a humanidade, Ela
se envolve com os oprimidos, não apenas evangeliza, prega e ensina, mas também
age. A missão visa fortalecer as igrejas, é uma nova concepção que identifica a
essência da mesma. No entanto, o testemunho é algo que deve ser levado em

129
Paulo FREIRE, no seu livro: Educação como Prática da Liberdade, elabora um excelente ensaio
sobre a necessidade do ensino, como instrumento pedagógico, com o objetivo de gerar vida e não
como um veículo de ideologias alienantes que somente mantém o status quo, e a ignorância da
massa empobrecida. A igreja, também, não foge dessa responsabilidade. Fica o registro: poderia-se
destacar a didaqué (ensino) como uma das dimensões do igreja, no entanto, o assunto é tão sério que
merece um tratamento especial abordando essa temática devido a sua relevância.
130
Leonardo BOFF, Igreja: Carisma e Poder, p. 208. Outro livro do mesmo autor: Eclesiogênese,
aborda o assunto sobre a gênese de uma nova Igreja. É a mesma igreja de Jesus Cristo, mas
concretizada dentro de um outro quadro, onde não existe mais a divisão entre clérigos e leigos.
Nesse livro, Boff também demonstra que as CEBs, são Igrejas. No entanto, as CEBs apontavam para
uma renovação na Igreja Católica, mas fracassou, pois, possuía apenas um crivo ideológico
(objetividade) e, agora, substituída pelo movimento carismático (subjetividade).
55

consideração, a vida do cristão é a Bíblia que o não crente lê. 131

2.2.2. A dimensão diaconal da igreja


A pregação e o testemunho não esgotam a missão da Igreja. Ela precisa
reconhecer sempre sua responsabilidade de trabalhar e esforçar-se em todos os níveis
e com todos os recursos em prol do Reino de Deus na terra. Deve compreender que o
Reino é um acontecimento que se manifesta mais freqüentemente por meios seculares
do que religiosos: os cegos recobram a vista, os surdos têm os ouvidos abertos, os
estropiados são curados, os pobres recebem esperança e assim por diante (Mt 25:31-
46).

A Igreja deve sempre ser uma comunidade integralmente empenhada num


compromisso total com as tarefas da diaconia, não como tática para futuras
conversões ou simplesmente para bom exemplo, mas porque é uma parte do trabalho
essencial da Igreja e um aspecto integral de sua tarefa missionária. Através de seu
apostolado de serviço no e para o mundo, a Igreja apressa de fato o dia em que todos
os seres humanos serão levados juntos à transformação social e ao resgate definitivo
da dignidade humana.

A Igreja não limita-se apenas a palavra de libertação, mas também tem de


juntar-se a Cristo em sua obra de libertação do ser humano. Isto é “diaconia” ou
serviço. A Igreja não se restringe à proclamação da chegada do Reino, tem a função,
também, de anunciar os seus benefícios. O ministério de Jesus estava imbuído de um
projeto que envolvesse o ser humano integral, quando proclamou: “O Espírito do
Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para pregar boas novas aos pobres,
enviou-me a proclamar libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos, para
pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4:18-19).

O Cristo vai à frente, e, os filhos da Igreja não tem outra alternativa senão a
de seguir o mestre. Servi-lo é juntar-se à sua obra de libertação no mundo. A
diaconia, portanto, está envolvida no ato de tornar a Palavra de Deus em ação
libertadora. No entanto, diaconia não é meramente um serviço social, mas significa,
sobretudo, que toda a comunidade cristã é uma comunidade chamada a servir.

131
Charles van ENGEN, Povo missionário, povo de Deus: Por uma redefinição do papel da igreja,
p. 142-143.
56

A tarefa da Igreja é a de ser diáconos do mundo, que se submete e se entrega


à luta pela libertação, saúde, dignidade e integridade do ser humano e do mundo. Ao
atuar entre os excluídos e a favor deles, a Igreja reflete o caráter de Deus que se
preocupa com o ser humano na sua totalidade. Somente assim o mundo será
impactado pela pregação proclamada através dos atos de justiça, compaixão e serviço
do povo de Deus.

A proclamação sem a diaconia é abstrata e vazia. A diaconia sem a


proclamação não faz sentido. Jesus Cristo evangelizava curando e curava
evangelizando. Mosconi acrescenta: “não é só discurso que Jesus faz. Ele age
também, e muito! Sua prática aparece antes e depois dos discursos, e os discursos
estão aí para esclarecer o sentido de sua prática (...), a prática e o discurso em Jesus
são algo inseparáveis”. 132

Esta dimensão da vida da Igreja tem seu próprio valor intrínseco, de acordo
com o exemplo e a mensagem de Jesus, mas também em valor instrumental no
fortalecimento do Povo de Deus para seu ministério e serviço no mundo.

Paulo retrata esse princípio afirmando que a Igreja é um corpo com muitos
membros, todos vivificados pelo mesmo Espírito e cada qual com sua função. Não
existe nenhum membro não carismático, vale dizer, ocioso, sem ocupar um
determinado lugar e função na comunidade: “cada membro está a serviço do outro
membro” (Rm 12:5). Assim, o verdadeiro serviço do Povo de Deus, aflora quando
homens e mulheres colocam o que são, o que têm e o que podem a serviço de Deus,
dos irmãos, do próximo, do pobre e dos excluídos. Referem ao Espírito Santo seus
dons e talentos e os fazem frutificar como dádivas de Deus em benefício da
humanidade. 133

Para o reformador, João Calvino, apesar de crer que a pobreza era um


instrumento de Deus, não deixou de se envolver e tentar mudar o quadro social e
político de sua época. Pois, acreditava que a Igreja tinha uma função de apoio aos
pobres, mas que cabia ao Estado cuidar deles, porém, devido à proporção do
problema, a Igreja dava assistência. Prova disso, é que diante da situação social de

132
Luis MOSCONI, Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, p. 25. Em outro livro: Evangelho
de Jesus Cristo segundo Marcos, novamente vincula o discurso de Jesus com sua prática, p. 17.
133
Leonardo BOFF, Igreja, Carisma e Poder, p. 238-239.
57

Genebra onde havia muita opressão aos pobres, altos impostos, vícios, prostituição,
analfabetismo e falta de assistência por parte do Estado, Calvino, aplica e organiza o
diaconato.

Em suas ordenanças eclesiásticas, delineou a atividade dos diáconos que era


a administração da obra de caridade e foi ele quem primeiro resgatou esta função
bíblica. Os diáconos em Genebra devem ter sido especialistas na ação social, além do
cuidado pastoral que deveriam prestar dando assistência, consolo e conselhos aos
pobres.

Calvino empenhou-se tanto na reforma da Igreja, quanto na reforma da


sociedade e a Igreja teve um papel fundamental para tais desdobramentos. A Igreja
em Genebra contribuiu com hospitais, dando assistência aos pobres e necessitados,
criação da primeira escola primária da Europa, assistência a refugiados, fiscalização
de preços, diminuição da jornada de trabalho, cursos profissionalizantes. Enfim, a
Igreja encarnou naqueles dias um papel de instrumento de libertação, pois a teologia
social do reformador sustentava que a Igreja deveria envolver-se com os excluídos e
oprimidos, sem fazer qualquer distinção de credo ou raça. 134

A encarnação é o modelo para a missão diaconal da Igreja. Em sua


encarnação Jesus identificou-se com a humanidade pecadora, solidarizou-se com ela
em suas aspirações, angústias e debilidade e a dignificou como criatura feita à
imagem de Deus. A Igreja é chamada a encarnar sua missão ao estilo de Jesus. Este
cumprimento demanda cruzar fronteiras geográficas, culturais, sociais, lingüísticas,
espirituais, com todas as suas conseqüências. 135

A Igreja não é o que muita gente pensa, uma espécie de clube 136 filantrópico,
spa espiritual, um lugar onde as pessoas pensam do mesmo jeito ou coisa semelhante.
Os membros vão à igreja por causa de Deus. Seus interesses e motivações extrapolam
os interesses e atividades humanas. Vão para adorar a Deus em comunidade,
celebrativamente, mas ao adorar a Deus, encarnam a dura realidade do próximo
servindo-os, para a glória de Deus.

134
Earle E. CAIRNS, O Cristianismo através dos Séculos: uma história ilustrada da Igreja Cristã, p.
264 e Thimothy GEORGE, Teologia dos Reformadores, p. 239
135
Valdir STEUERNAGEL, Obediência missionária e prática histórica, p. 178.
136
Charles van ENGEN, op. cit., p. 200.
58

Em vez de um mero clube religioso, limitado, restrito, vivendo em função e


em prol dos seus próprios interesses, a Igreja pode ser descrita como possuindo uma
“dupla personalidade”.

Por um lado ela é um povo “santo” separado do mundo para


pertencer a Deus. Por outro, porém, é composta de gente
“mundana”, no sentido de que é enviada de volta ao mundo para
testificar e servir. É isto que o Dr. Alec Vidler, segundo a linha
de Bonhoeffer, chama de “o santo mundanismo” da Igreja. A
Igreja nunca poderá se engajar na missão, a não ser que
preserve ambos os lados de sua identidade. 137

Enfim, a Igreja precisa resgatar esse princípio de que não pode afastar-se do
mundo, isolando-se, mas também não pode assimilar os seus valores. Sua missão é o
seu serviço no e para o mundo. Stott conclui:

A missão parte da doutrina bíblica que considera a Igreja na


sociedade. Uma eclesiologia desequilibrada produz uma missão
igualmente desequilibrada. (...) os cristãos devem impregnar a
sociedade não-cristã. Assim, sua dupla identidade e a dupla
responsabilidade da Igreja serão bem evidentes. 138

Depois de termos nos ocupado com a significação dos termos proclamação e


serviço, fica a pergunta; qualquer precede ou procede?

A solidariedade missionária inspirada por Jesus em seu ministério encarnado


lança a base para a interação da Igreja com os dilemas e conflitos de sua vizinhança,
pois se constitui como a postura que permite a manifestação da justiça no interior da
Igreja, mas também na sociedade.

Essa postura implica num desdobramento social, a procura da justiça que


envolve a reivindicação e promoção da dignidade e direitos de todos os indivíduos, e
a provisão compassiva de recursos para ajudar cada um a superar os seus conflitos. 139
No entanto, como argumenta Ricardo Barbosa de Sousa, não é apenas a defesa dos
marginalizados que manifesta a justiça, mas a postura amorosa e comunitária que os
aceita como membros da família. 140 Isso combate a visão paternalista que visa
reverter o quadro de injustiça pela apropriação de recursos e doação de favores para
ajudar os excluídos.
137
John STOTT, Mentalidade Cristã, p. 45.
138
Ibid, p. 45.
139
J. Kirk ANDREW, op. cit., p. 53-55.
140
Ricardo Barbosa de SOUSA, A Justiça dos Filhos do Reino, p. 233.
59

A missão é equilibrada pela dinâmica da evangelização. Aqui levanta-se a


discussão da ordem prioritária entre evangelização e serviço social, uma dicotomia
mantida pelo Movimento Crescimento de Igreja, 141 cuja atenção em técnicas e
métodos pragmáticos se fortalece pela preocupação com a disposição de recursos
para cumprir a missão. Segundo Juan Miranda, a limitação dos recursos à disposição
da Igreja exige a priorização da evangelização sobre o serviço, a fim de promover em
primeiro lugar a salvação eterna. Em relação a transformação social, “Não teríamos o
dinheiro, as energias e as pessoas necessárias. Isso implica em estabelecer
prioridades.” 142 No entanto, argumenta-se que a Igreja sob o impulso do Espírito
cumpre sua missão não pelo financiamento de projetos sociais e emprego de
estratégias e técnicas, mas principalmente pela mudança de mentalidades e a
superação de preconceitos e barreiras de segregação. Por isso, concordamos com
Manfred Grellert, em seu artigo sobre a missão da Igreja no Brasil.

À medida que seu serviço ajuda a aliviar a dor humana e a


transformar as estruturas sociais que escravizam milhões de pessoas
na pobreza, miséria e exploração, a Igreja ganhará credibilidade e
será ouvida pelo mundo como quem tem autoridade para dizer algo
de valor. 143

Entretanto, não é suficiente argumentar pela não-dicotomização da


proclamação e serviço. Na realidade, a maioria dos recursos não são dedicados a
nenhuma expressão missionária, sem antes serem consumidos pela manutenção da
estrutura eclesial. Por isso, a evangelização e serviço social tratam-se de atividades
periféricas da Igreja. Chama-se atenção à importância de trazer de volta ao centro da
vida da Igreja a necessidade do ser humano em relação ao plano integral de Deus
para a humanidade. Se cada necessidade humana é vista como uma oportunidade para
o encontro entre a humanidade e o Deus compassivo, então se tornam desnecessários
tanto a priorização pragmática das dimensões missionárias quanto o uso consumista
de finanças e energias para atividades que só beneficiam a igreja local, como por
exemplo a construção de novos templos.

141
Este movimento é da inspiração de Donald McGAVRAN. Sua obra Compreendendo o
Crescimento da Igreja é um estudo valioso sobre a evangelização eficaz, embora que sua tese de
que as igrejas locais devem crescer segundo a divisão de unidades homogêneas representa uma
tendência demasiadamente pragmática. C. René PADILLA, em sua obra Missão Integral, traz
uma refutação teológica e exegética para contrabalançar as idéias deste movimento.
142
Juan Carlos MIRANDA, Manual de Crescimento da Igreja, p. 47.
143
Manfred GRELLERT, Dimensões da Missão da Igreja no Brasil, In; C. Timóteo Carriker (org.),
Missões e a igreja Brasileira, v. 3, perspectivas teológicas, p. 97.
60

Salienta-se, então, a integralidade do evangelho, assunto trabalhado por


Stott, citando Mahatma Gandhi, que criticou a prática missionária inglesa pela
condicionalidade de seu serviço, cujo altruísmo tinha o objetivo de ganhar
convertidos. “Eu sustento que proselitizar sob o manto de serviço humanitário é, no
mínimo, insaudável (...) porque devo eu mudar minha religião porque um médico que
professa o cristianismo (...) tem me curado de alguma doença?” 144 Assim, Stott nota a
hipocrisia de considerar o serviço como um meio para ou expressão da
evangelização. A missão é assim executada com motivos secundários, e a conversão
se torna um pagamento para receber favores. Portanto, o serviço social não é uma
subdivisão da evangelização. Os dois são entidades distintas, cada um sendo um fim
em si mesmo. 145

Stott defende a primazia da evangelização, na base do argumento de que a


separação de Deus é a condição mais degradante. 146 Não negamos que haja distinção
entre a evangelização e o serviço social, e que a necessidade mais profunda do ser
humano é a sua alienação de Deus. Porém, a primazia de um sobre o outro fica inútil
quando a comunidade cristã, movida pelo Espírito, se dispõe a satisfazer as
necessidades humanas que lhe são apresentadas, usando seus próprios recursos e
energias. A Igreja que permanece alheia à situação de miséria e alienação ao seu
redor é uma comunidade fora de seu propósito e longe de sua missão. Palavras e
obras devem se constituir como o princípio de todas as atividades eclesiais, andando
de mãos dadas para descrever e manifestar a presença de Deus, cujo amor implica em
ajudar sem qualquer expectativa de retorno. É somente assim que o amor de Deus no
contexto humano se apresenta de forma incondicional. “Ver necessidade e possuir a
solução compele o amor à ação, e seja esta ação evangelística ou social, ou até
mesmo política, depende daquilo que ‘vemos’ e daquilo que ‘temos’”. 147

Afirmamos, então, a proposta holística de Stott, argumentando e defendo a


parceria entre ação social e pregação. Inspirado pela atuação de Jesus enviado ao
mundo pelo Pai, a Igreja enviada exerce um diálogo de palavras e obras para

144
Apud, John R. W. STOTT, Christian Mission in the Modern World, p. 26.
145
Idem, p. 25-28.
146
Ibidem.

147
John R. W. STOTT, Christian Mission in the Modern World, p. 28.
61

manifestar o caráter do Reino.

(as) palavras (de Jesus) explicavam suas obras e suas obras eram uma
manifestação concreta de suas palavras. (...) Afinal, as palavras só
deixam de ser abstratas quando se concretizam em atos de amor; e as
obras, de igual maneira, continuam sendo ambíguas, até que sejam
interpretadas pela proclamação do evangelho. 148

Diante disso, salienta-se a idéia de que a evangelização em si promove


transformação social, idéia que tem fortalecida a primazia da proclamação. Bosch
relata a história do surgimento do fundamentalismo, que nasceu como uma reação ao
Evangelho social liberal. Este, com sua ênfase pós-milenista, se alicerçou na crença
de que haveria uma evolução gradual até a instalação de uma idade de ouro por
Cristo em sua parúsia. Em íntima relação com a demistificação da Bíblia do método
exegético histórico-crítico, afirmou a compaixão e conhecimento humano como o
meio de restauração social. No entanto, trata-se de um conceito etnocêntrico, pois
concebeu missões como um projeto para compartilhar as bênçãos da sociedade norte-
americana com os estratificados sociais para promover civilização e a cristandade. 149
O fundamentalismo pré-milenista, contudo, se inclinou para o outro extremo, com
sua escatologia fatalista em relação a sociedade, profetizando o aumento de
catástrofes e injustiça (quanto pior, melhor!) como sinais da volta de Cristo.
Portanto, a pregação do evangelho foi considerado como a tarefa suprema, tendo o
objetivo de apressar a volta do Rei, enquanto que o envolvimento político-social foi
visto como suspeitos. 150

Até meados do século XX, a tensão entre os dois se amenizou. No entanto,


ainda continuou influente no pensamento de principais líderes evangélicos. Billy
Graham declarou sua convicção de que se a Igreja voltasse à sua tarefa principal, a
de proclamar o evangelho e converter as massas, então haveria um grande impacto
positivo na solução ou, pelo menos, amenizar as necessidades sociais, morais e
psicológicas da humanidade. 151 Entretanto, a história tem revelado um quadro
diferente. Carl Henry escreve sobre a “consciência pesada” do fundamentalismo,

148
John R. W. STOTT, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, p. 385-386.
149
David J. BOSCH, op. cit., p. 283, 319-320. Este autor elabora a tensão entre o Fundamentalismo
e o Liberalismo (evangelho social), e narra a origem e história dos dois. O frei Leonardo BOFF
também discute o tema num livro-CD com o título: Fundamentalismo. No entanto, o frei analisa o
tema sob a ótica do radicalismo Islâmico e o Protestante.
150
David J. BOSCH, op. cit., p. 316-317.
151
Idem, p. 404.
62

notando sua falência em desafiar as injustiças de regimes totalitários, racismos, e


tratos internacionais corruptos. “Fundamentalismo, ao revoltar contra o Evangelho
Social, parecia também ter revoltado contra o imperativo social cristão.” 152

Núñez elabora a questão com mais profundidade ao notar a forte influência


do fundamentalismo na América Latina, trazido pelos missionários estrangeiros. A
opção pelo silêncio político, a fuga e alienação dos dilemas sociais acabaram sendo
uma opção política, pois ao falhar em denunciar as injustiças, a Igreja
silenciosamente foi conivente, ou pior, aprovou a corrupção sócio-política maciça.
Como resultado, o crescimento numérico da Igreja, resultado de um árduo trabalho
evangelístico aumentou, mas sem conotação social, não tem servido para transformar
o quadro de miséria, injustiça e desigualdades sociais. 153

É nesta crise que desenvolveu-se a Teologia da Libertação, que representa


um movimento cristão autêntico latino americano. Teólogos católicos latino-
americanos que se perceberem debaixo de dominação de poderes e interesses
comerciais do primeiro mundo, reagiram contra o sistema capitalista e classista,
afirmando a necessidade de uma opção preferencial pelos pobres. 154 O movimento
recebeu seu impulso depois da Conferência de Bispos Latino Americanos (CELAM
II), em Medellín, Colômbia, em 1968, onde houve uma decisiva preferência
esquerdista. Isso favoreceu a popularidade do livro Una Teologia de la Liberacion
(1971), escrito por Gustavo Gutiérrez, para muitos, o teólogo principal e fundador da
Teologia da Libertação. 155

Este movimento postulou um novo método hermenêutico “ver, julgar e agir,”


que trata-se de um diálogo ativo com o contexto de miséria e injustiça que escraviza
e prejudica as multidões. Leonardo Boff, escreve sobre este método, que começa com
a situação existencial e parte para uma reflexão que faz uma leitura dependendo das
ciências sociais. Assim, se chega até um consenso a respeito do ideal existencialista
para o povo e dos meios para sua realização. 156 No entanto, como explica Núñez, esta

152
David J. BOSCH, op. cit., p. 404.
153
Emílio Antonio NÚÑEZ, op. cit., p. 376-379.

154
David J. BOSCH, op. cit., p. 432-438.
155
Emílio Antonio NÚÑEZ, op. cit., p. 248.
156
Leonardo BOFF, Clodovis BOFF, Como Fazer Teologia da Libertação, p. 39-46.
63

hermenêutica recebe mais influência das ciências sociais do que da Bíblia, com
destaque principal nas teses sociais e econômicas de Marx, Hegel e Kant. As ciências
fazem com que a Bíblia fale e, também, determinam sua mensagem. 157

Nascida em tempos de turbulência, esta teologia político-social representa


uma confrontação aos regimes militares e ditadores, procurando defender a dignidade
e direitos dos deserdados e excluídos da sociedade. Seu valor se encontra em sua
solidariedade efetiva com as massas. 158 O famoso lema de “ler a Bíblia a partir dos
pobres” 159 demonstrando sua natureza como um movimento popular, e salienta seu
valor central afirmando a necessidade de cada indivíduo e grupo ser o sujeito de seu
próprio processo de desenvolvimento.

No entanto, a Teologia da Libertação ainda trata-se de um movimento


missionário reducionista. A “práxis revolucionária” 160 de Boff é na realidade um
filtro sociológico através do qual se lê e interpreta a Bíblia. Assim, a salvação não é
mais reconciliação individual com Deus, mas toma sentido político, libertação de
uma situação de opressão para desempenhar a prática de libertar outros. A ação
social toma o lugar da evangelização, negligenciado a dimensão individual da vida
humana. Portanto, aproxima-se a uma salvação pelas obras. 161 Brown critica os
teólogos libertacionistas pela sua falta de atenção à eternidade da salvação, e pela
idéia da mediação humana e meritória para a salvação. Resume esta salvação não em
termos de revolução, mas ressurreição e volta iminente de Cristo.

Nós podemos parafrasear a pergunta de Jesus: Que aproveita ao


homem libertar o mundo inteiro, mas falir em libertar a ele mesmo?
A esta pergunta a teologia da libertação não tem dado resposta; pior
ainda, é uma que nem tem perguntado. 162

Da mesma forma que a ênfase na primazia da evangelização negligencia a


dimensão horizontal do evangelho, a teologia da libertação falta na dimensão vertical
com Deus, carecendo de perspectiva eterna. Ao resumir a missão em termos apenas
proclamatórios, a Igreja calada perante o quadro de miséria e exploração falha em
manifestar a compaixão presente e restauradora de Deus, que aponta à maneira de ser

157
Emílio Antonio NÚÑEZ, op. cit., p. 250.
158
Leonardo BOFF, Clodovis BOFF, op. cit., p. 38.
159
S. J. João Batista LIBÂNIO, et al. 20 Anos de Teologia na América Latina e no Brasil, p. 20.
160
Leonardo BOFF, Clodovis BOFF, op. cit., p. 48-50.
161
John R. W. STOTT, Christian Mission in the Modern World, p. 92-95.
162
Harold O. J. BROWN, What is Liberation Theology? p. 15.
64

do Reino vindouro. E ao reduzir a missão à práxis revolucionária sócio-política, a


teologia da libertação, embora trazendo dignidade e alívio, deixa de fornecer
esperança eterna e levar o ser humano a uma libertação integral mediada pela
reconciliação pessoal com o Criador.

Diante disso, devemos ser capazes de perceber o propósito e natureza da


missão da Igreja. Embora o serviço social e a evangelização não resumem a
totalidade da ação da Igreja, se constituem como sua expressão missionária. Esta
expressão é a manifestação da presença de Deus solidária com os homens e mulheres,
incorporada por Cristo, e continuada pelo Espírito Santo por meio da Igreja. É
também presença articulada pelas palavras e obras. Isso chama atenção para o
evangelho integral, com suas dinâmicas verbal e braçal. Pela proclamação, a Igreja
na missio Dei desafia, consola, e chama ao arrependimento e integração no Reino de
Deus. É convocação a um encontro com Deus que produz uma reorientação da vida.

Como uma comunidade de serviço, a Igreja manifesta de forma concreta a


maneira de ser do Reino, alimentando, cuidando, curando, dignificando, fornecendo
trabalho, visitando, doando e abençoando os necessitados onde quer que se
encontram. Inclui-se a ação social, que age nas arenas política, econômica e social,
denunciando práticas sociais e burocrática-administrivas que geram e perpetuam a
pobreza e preconceitos, ou negam o direito das pessoas à educação e a uma vida
digna. Portanto, o Reino se torna imanente e ativo entre uma humanidade
desamparada por meio de uma Igreja solidária e fraterna.

Resumindo, todas as necessidades humanas se tornam pontos de encontro


para manifestar a natureza compassiva de Deus e concretizar o propósito da Igreja
em missão, cujas palavras conduzem as pessoas social e espiritualmente alienadas a
uma reconciliação imediata, integral e eterna.

2.2.3. A dimensão koinoníaca da igreja


“E perseveraram... na comunhão” (At 2:42), “todos os que creram estavam
juntos e tinham tudo em comum” (2:44). A palavra comunhão ou koinonia descrevia
o relacionamento conjugal do antigo mundo grego. Várias vezes no Novo
Testamento, se refere à nossa comunhão com Deus (1 Jo 1:3-7), mas, geralmente,
koinonia fala do nosso relacionamento com outros cristãos. É interessante que na
65

literatura neotestamentária há mais imperativos que destacam nossa comunhão uns


com os outros do que aos nossos deveres no mundo ou até ao nosso relacionamento
direto com Deus. Isso revela que o nosso relacionamento com Deus é medido mais
pelos nossos relacionamentos com outros cristãos do que por qualquer outro fato (1
Jo 3:23; 4:7,20). 163

A palavra koinonia é geralmente traduzida, na ótica latino-americana, por


“comunhão”, “fraternidade”, “solidariedade”. Cox afirma que a koinonia é o “aspecto
da responsabilidade da Igreja que exige uma demonstração visível daquilo que a
Igreja está dizendo no querigma e apontando na sua diaconia”. 164

Boff, afirma que a Igreja, Povo de Deus, é configurada por “comunidades de


batizados, de fé, esperança e amor, animados pela mensagem de absoluta fraternidade
de Jesus Cristo que se propõe, historicamente, a concretizar um povo de livres,
fraternos e participantes”. 165

A Igreja como povo de Deus pode e deve ser uma comunidade de eleitos para
o serviço a Deus e ao próximo; que vive em comunhão com os seus, que acolhe os
excluídos, que proclama a mensagem libertadora de Cristo mediante a
instrumentalização do Espírito Santo que os torna, verdadeiramente, povo de Deus.

Gillis comenta:

A igreja, pela prática da comunhão em profundidade, deve


oferecer um modo alternativo de relacionamento social,
concedendo cura para aqueles que estão sendo destruídos no
caos do mundo moderno. Daí a razão de uma trabalho pessoal,
em vez de construir um número maior de templos, cada vez
maiores para abrigar ali relações tão ou mais massificantes que
as experimentadas fora da igreja. 166

Outro aspecto que merece ser destacado, pois é o que diferencia a igreja de
outras agremiações civis e comunitárias. É a sua dimensão missiológica que expressa
a ação de Deus no mundo, no passado, hoje e no futuro.

2.2.4. A dimensão missionária da igreja


163
J. Scott HORRELL, Ultrapassando Barreiras, p. 22.
164
Harvey COX, A Cidade do Homem, p. 119.
165
Leonardo BOFF, Ibid, p. 185.
166
Christian GILLIS, Eclesiologia à Brasileira, In: J. Scott HORRELL, Ultrapassando Barreiras,
p. 202.
66

O evangelismo e o serviço são dimensões e atividades da missão da Igreja


que, por meio da palavra e ação, oferece a cada pessoa e comunidade, onde quer que
seja, uma oportunidade válida de ser desafiada a uma reorientação radical de sua
vida. Esta reorientação implica aspectos tais como ser liberada da escravidão ao
mundo e seus poderes, abraçar a Cristo como Salvador e Senhor, chegar a ser um
membro vivo de sua comunidade, a igreja, alistar-se em seu serviço de reconciliação,
paz e justiça na terra, e estar comprometida com o propósito de Deus de colocar
todas as coisas debaixo do domínio de Cristo.

A evangelização é um mandato de Jesus para expandir o evangelho por todo


o mundo. Começou com Pedro em Atos 2 pregando-o em praça pública e três mil
pessoas foram alcançadas. O livro de Atos traz à memória a unção da igreja primitiva
ao espalhar as boas notícias via pregação, testemunho, viagens missionárias e
martírio. Mostra outras formas de evangelização: boas obras (Tt 3:1,2,8,14), prática
do bem e a mútua cooperação (Hb 13:16), visita aos órfãos e viúvas (Tg 1:27),
procedimento exemplar no meio dos incrédulos (1 Pe 2:12) e prontidão para
responder a todo aquele que nos pedir a razão da esperança (1 Pe 3:15). Um grupo
que está vivendo de acordo com a vontade de Deus exerce uma atração e influência
positiva nas pessoas que estão procurando a verdade. 167

A Sagrada Escritura é básica na conceituação, elaboração e prática


missionária, John Stott afirma: “Sem a Bíblia a evangelização do mundo seria não
apenas impossível, mas também inconcebível”. 168 Ela coloca sobre nós a
responsabilidade de evangelizar o mundo, dá-nos um evangelho a proclamar, diz-nos
como fazê-lo e declara-se o poder de Deus para a salvação da humanidade.

Qualquer missionário tem que ter os princípios e valores bíblicos como seu
instrumento de fé e prática, pois qualquer outro mecanismo torna impraticável fazer
missões. Podemos perceber essa mesma verdade nas palavras e na prática de Jesus
(Jo 5:17; 4:34; 15:16; 20:21; Mt 24:14; 28:18-20).

As Escrituras, segundo Macedo, revelam “um Deus em suas dimensões


cósmica, soteriológica e escatológica”. 169 Seu conteúdo bíblico-missionário é

167
J. Scott HORRELL, op. cit., p. 22-23.
168
John STOTT, A Bíblia na evangelização do mundo, p. 01.
169
Aproniano Wilson de MACEDO, Teologia de Missões, p. 26.
67

profundo, porquanto exalta Deus e percebe a igreja como co-responsável da ação de


Deus no mundo. Deus é o senhor que comanda as ações e a igreja é sua serva. Foi
escolhida, salva e enviada para proclamar a história da salvação, a histórica de
Cristo, que é realidade oculta de toda a história, agora, porém, revelada. Macedo
abordando esse assunto diz que “a Bíblia é básica na evangelização porque ela é
antes de tudo uma revelação de Deus, não um conjunto de idéias e histórias a respeito
dele. Se ela é a fonte da teologia, logicamente é a base para a ação missionária”. 170
Os textos bíblicos relatam que a Igreja é uma comunidade que Deus criou para uma
missão. É esse o conceito de ‘povo de Deus’ no Antigo (Gn 12:4; 18:18; Is 43:10;
42:6-8), e no Novo Testamentos (Mt 20:23-28; 28:16-20; Jo 17:15; 20:19-23; 1 Pe
2:9-10; 2:18-25).

A missão da Igreja não pode ser concebida como uma atividade, mas sim,
como a própria razão de ser e existir. A igreja não é um fim em si mesma. Foi
idealizada por Deus com um propósito distinto e definido, é o seu agente. A igreja
não existe para si mesma. Só tem sentido na medida em que está a serviço de Deus
no mundo. Tudo o mais deve girar em torno deste imperativo: missionar. Os
missionários surgem dentro da própria comunidade. 171 Missionário e comunidade são
correlativos e complementares. Sua esfera de ação é o mundo. Só assim a Igreja tem
sentido. Só assim, é verdadeiramente Igreja de Jesus Cristo.

Diante disso, a Igreja não é uma estranha no mundo e nem é sua inimiga. A
missão e função dos seus filhos, leigos e leigas, nos levam a pensar na Igreja como
serva do mundo. Assim como a redenção da humanidade passou pela necessidade de
Cristo tornar-se servo, também, para continuar a missão de Cristo, a igreja deverá
tornar-se serva e, com humildade, ir ao encontro dos necessitados.

Essa verdade fez com que Shelley fosse peremptório: “Devemos reentrar no
mundo de que saímos, só que agora como embaixadores de Cristo”. 172 Como isso
pode ser realizado? É o que veremos a seguir.

2.2.4.1. O mundo como obra de Deus


Deus criou o mundo e por isso lhe pertence (Sl 24:1). Asensio, confirma: “o

170
A. W. de MACEDO, op. cit., p. 27
171
José COMBLIN, Antropologia Cristã, p. 30.
172
Bruce SHELLEY, A Igreja: o povo de Deus, p. 126.
68

israelita recorda no culto, interpelando assim a Deus, as antigas façanhas de Javé


(...). Javé acima de todos os deuses, dominador das “águas”, vencedor do monstro
(Raab), criador e rei”. 173

Essa compreensão perpassa toda a Escritura como credo confessional sobre a


percepção de Deus. Não como um ser abstrato, etéreo, afirma-se, pelo contrário, a
concretude da unicidade de Deus, de sua grandeza e incomparabilidade com os
deuses das nações circunvizinhas. Josué proclama que sua casa serviria a Javé (Js
24:15). Elias argumenta ao povo infiel para que escolhesse a quem serviriam: a Javé
ou a Baal (1 Rs 18:21).

Os textos bíblicos mostram a centralidade de Javé como criador e


mantenedor da criação. 174 O israelita sabe que o feito criacional de Javé foi a seu
favor e que somente ele, como Povo escolhido de Deus, pode ser o intérprete da ação
criadora de Deus. A igreja de Jesus Cristo também tem a percepção de ser a
continuadora e mediadora da ação de Deus no mundo, como agentes transformados e
transformadores.

Charles van Engen exprime com singular capacidade o que significa ser povo
de Deus no mundo:

(...) fica evidente que a natureza transformadora da congregação


não é apenas uma preocupação teórica. É por meio dos vários
subsistemas da congregação que o povo de Deus conserva a sua
salinidade, para que possa contribuir missionariamente para a
transformação do mundo em que foi colocado pelo qual Cristo
morreu. Estando “no mundo”, sem ser “do mundo”(Jo 17:11-
16), a Igreja está constantemente interagindo com o mundo,
para que o mundo possa crer (17:21). A estipulação de alvos dá
forma concreta à relação missionária da igreja com o seu
ambiente. 175

Para Boff o mundo é "como o espaço da historificação do Reino e de


realização da própria Igreja". A Igreja é compreendida como realidade escatológica
do "Reino dentro do mundo e mediação para que o Reino se antecipe mais
173
V. M. ASENSIO, Livros Sapienciais e outros escritos, p. 318.
174
Os judeus no AT tinham uma imagem do cosmos bem diferente da nossa. Representavam-no
como um disco enorme e plano, circular, rodeado pelas imensas águas do oceano. Estava assentado
sobre quatro colunas que se afundavam no abismo. Ariel Álvarez VALDÉS, Que Sabemos sobre a
Bíblia?, V. 1, p. 61; A terra era vista como uma imensa plataforma rodeada e sustentada pelas águas.
V. M. ASENSIO, op. cit., p. 317.
175
Charles van ENGEN, op. cit., p. 183.
69

densamento no mundo". 176

2.2.4.2. O mundo como objeto do amor de Deus


Deus se revela na história. Os relatos bíblicos destacam o caminhar de Deus
com o ser humano. Chama um povo para fazê-lo bênção e seu sinal na terra (Gn 12).
Contrai uma aliança com Abraão (Gn 15:18) e, através de Moisés, com o povo de
Israel (Êx 24:8). 177 O Deus que se revelou no Êxodo e na caminhada do povo pelo
deserto até a conquista da terra prometida. Deus está sempre agindo e imiscuindo-se
na história para o bem do ser humano e da criação. É através dos eventos históricos e
de seus filhos e filhas que Deus fala, se revela e renova a vida no mundo.

O mundo é a arena da atuação libertadora e renovadora de Deus. A força


leiga da Igreja evidencia-se na medida em que participa do mundo. A missão da
Igreja é juntar-se a Deus no seu trabalho de libertação e renovação.

Deus ama contextos seculares e suas comunidades crentes. A Igreja é “O


povo de Deus”, mas esses mundos, também são “O povo de Deus”. Qualquer visão do
mundo secular que ignore ou rejeite essa verdade básica é superficial e viola o
espírito do Cristianismo. Por isso, quando nós falarmos da vida no contexto da igreja,
nós temos que reconhecer sua realidade divina e cultural, no mesmo momento. Outro
modo de dizer isso é que a Igreja está situada em um contexto só, a criação, mas
dentro desse contexto, Deus fala na voz da cultura e na voz do transcendente. 178

Os excluídos devem ser os primeiros destinatários da missão da Igreja, uma


vez que a boa-nova de Jesus se mostra na capacidade de gerar sentido lá onde a
existência parece ter fracassado. Uma evangelização que não trouxer uma
potenciação maior de vida, que não desafogar as mentalidades dos medos
existenciais, que não levar a estruturas sociais de maior colaboração e daí de
humanização, dificilmente prolonga e atualiza a boa-nova de Jesus. 179 Assim, cabe a
Igreja e a seus filhos e filhas atualizarem os atos redentores de Deus em favor de
todos, mas, prioritariamente, aos empobrecidos e excluídos da vida socio-político-
176
Leonardo BOFF, Igreja, Carisma e Poder, p. 16

177
Alfons DEISSLER, O Anúncio do Antigo Testamento, p. 12.
178
James FARRIS, O que é teologia prática, In: Caminhado: Revista da Faculdade de Teologia da
Igreja Metodista, p. 92.
179
Leonardo BOFF, Nova Evangelização: Perspectiva dos Oprimidos, p. 88-89.
70

econômica e religiosa, como sujeitos principais da evangelização. 180

Odilon Chaves avança um pouco mais, complementando a tese de Boff,


afirmando:

A Igreja deve anunciar que chegou para ficar ao lado dos


oprimidos (...) a Igreja não deverá somente se preocupar em
resolver seus problemas sociais. Cristo deve habitar em cada
coração, dando conforto, amor, alegria, certeza que Deus está
presente. Deve haver uma transformação interior, no coração, e
uma transformação social. 181

Mas, para proclamar a ação histórica de Deus ao mundo, torna-se necessária


a compreensão de que o mundo é o locus teológico, onde Cristo envia sua Igreja e
promete conduzi-la.

Para entender a missão do povo de Deus, precisamos discutir a missão da


igreja. A razão de ser da igreja é essencialmente missionária: glorificar a Deus
proclamando as boas novas através do serviço.

Diante disso, é urgente repensar a eclesiologia a partir da missiologia. Todo o


povo de Deus é missionário e não devemos, sob hipótese alguma, departamentalizar a
igreja em segmentos distintos e excludentes. A tarefa proclamadora não compete tão
somente a elite eclesial e a comunhão não está limitada as atividades litúrgica e
cúltica, mas todos são irmãos e irmãs, povo de Deus.

180
Leonardo BOFF, Ibid, p. 123 e do mesmo autor: América Latina: Da Conquista à Nova
Evangelização, p. 101. Neste opúsculo aparece uma História da Salvação a favor dos oprimidos e
até, às vezes, a partir dos oprimidos. Esta investigação nos ensina a importância de ler a Bíblia a
partir dos pobres, de vincular a teologia com a práxis libertadora, de repensar e respeitar a
pedagogia bíblica. Somente assim chegaremos ao novo Reino proposto por Cristo.
181
Odilon CHAVES, A Evangelização Libertadora de Jesus, p. 62-63.
71

CONCLUSÃO

A compreensão do propósito intencional, missional e universal de Deus para


com o mundo, deve causar grande impacto na sua Igreja, tanto da forma de pensar,
como também de agir como Povo de Deus. Evangelização e responsabilidade social
são partes integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na
missão integral da Igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo.

Primeiramente, como aqueles que foram eleitos e chamados para ser parte
integrante do Povo de Deus, reside apenas na ação intencional que Deus teve um dia
para conosco; temos que reconhecer que esse fato reside tão somente na graça de
Deus. Como Povo de Deus precisamos aprender acerca do sentimento de Jesus
quando ora: “Não te peço para tirá-los do mundo; e, sim, para guardá-los do
maligno” (Jo 17:15).

Em segundo lugar, o Povo de Deus precisa reconhecer que a ação intencional


de Deus nos concedendo “vida juntamente com Cristo” não é apenas dom de Deus,
mas também responsabilidade para com aqueles que nos cercam, pois somos agora
“feitura dele, criados em Cristo para boas obras” (Ef 2:1-10). Como Abraão foi
chamado para ser uma bênção para todas as nações da terra, em Jesus fomos
escolhidos e chamados para sermos sal da terra e luz do mundo (Mt 5:13-16).

Assim, como Israel, fomos eleitos e chamados não apenas para ser “depósito”
das bênçãos de Deus, mas principalmente “canal” para que estas cheguem a todo
72

homem e mulher latino-americanos. 182

Em terceiro lugar, uma vez compreendido nosso papel como veículos das
bênçãos de Deus aos povos da terra precisamos reavaliar nossas atividades e
estruturas eclesiais, tendo em vista uma postura missionária mais clara e objetiva em
relação ao povo brasileiro. Assim como os discípulos foram chamados para ir e dar
frutos, e frutos que permanecessem, nós também fomos chamados por Deus e
enviados a gerar frutos em nosso contexto vivencial (Jo 15:16).

Podemos perceber que a compreensão de pertença ao Povo de Deus é,


realmente, uma descoberta maravilhosa. A pessoa surge, apoiada na força da
esperança, das profundezas de seu desespero. Sua covardia é substituída pela
coragem. Os laços rígidos de seu egoísmo são rompidos pelo sabor da gratidão que o
desprendimento traz. A alegria brota e inunda sua dor, e o amor entra na vida do ser
humano para aniquilar sua solidão e restaurar sua dignidade.

Ao proclamar a Palavra libertadora, ao experimentar a comunhão dos santos


e ao servir o outro, o Povo de Deus encontrou seus semelhantes e seu lugar na
história, tal é a transformação do isolamento existencial no modelo saudável de Jesus
Cristo e, paralelamente, descobriu o que significa viver na dimensão da Igreja como
Povo de Deus.

Destacamos as características da Igreja como povo missionário de Deus,


onde não existe o binômio laicato versus clérigos, mas, tão somente, um povo em
missão, onde todos são chamados a serem proclamadores da Palavra, ao ensino, a
comunhão e ao serviço. Uma Igreja que serve, que trabalha e acolhe os excluídos e
deles cuidam, em nome de Jesus (Mt 25:44-45) e, acima de tudo, que vivam em
comunhão fraterna e solidária.

Uma Igreja que evangeliza e uma Igreja que serve. São marcas unívocas da

182
Cfe Jorge PIXLEY e Clodovis BOFF, em Opção pelos Pobres, defende a tese que a proclamação
do Evangelho e os valores do Reino de Deus devem ser feitos, preferencialmente, pelos pobres.
Segundo esta visão os pobres aparecem como verdadeiros sujeitos. Com ele procura-se ter uma
relação basicamente simétrica e igualitária. São nosso irmãos, amigos, companheiros, enfim
parceiros de uma ação conjunta, p. 250; Leonardo BOFF, Teologia do Cativeiro e Libertação,
comunga da mesma tese quando afirma: o pobre apresenta-se como Teofania e Cristofania enquanto
ele é a memória permanente da Transcendência concreta que questiona todos os nosso arranjos , p.
198.
73

missão da Igreja e da função do povo de Deus. Há outras que poderiam ser


mencionadas: uma Igreja libertadora, solidária, encarnada e sofredora. O testemunho
da Igreja é parte indispensável na economia de Deus neste mundo. Conclui-se que a
missão da Igreja é a sua própria vida.

Lembremos da pessoa e ministério de Jesus, que identifica-se com todos os


estrangeiros, emigrantes, forasteiros, mendigos, exilados, cativos, escravos e pobres,
e que ensinava seus discípulos a também serem estrangeiros, pobres e livres para o
serviço e a evangelização. Sendo assim, identifica-se com o povo latino-americano
que sofre toda sorte de exclusão, violência, repressão, perseguição e morte.

Boff defende a tese que a Igreja do futuro deverá ser a Igreja do passado.
Essa concepção é articulada sob a forma de que o povo de Deus é um povo em
missão libertadora que está em oposição à qualquer teologia que aliene o ser humano
do seu meio; de seus direitos, e, por conseguinte, promotora da não-vida, mas que
seja, acima de tudo, uma Igreja missionária, solidária e fraterna, que produza uma
teologia que promova a esperança e a vida. 183 A Igreja perde seus sinais de
veracidade quando não é uma comunidade marcada por fé, esperança, amor e a
procura livre da verdade.

A formulação da Igreja, constituída de leigos e leigas, como povo de Deus,


não é um modo exclusivista ou uma maneira de restringir à comunhão e participação
de todos no mesmo corpo, pelo contrário, mostrar que a comunidade é acolhedora e
aglutinadora. Todos podem fazer parte da família missionária de Deus. 184 Sob esta
perspectiva, o debate é amplo, poderia abrir caminhos para um novo diálogo inter-
eclesias e fomentar uma nova maneira de ver e compreender a missão da Igreja como
Povo de Deus. 185

O que discutimos nesta dissertação indica ou sugere que devemos:

1. Repensar a correta articulação entre: Reino-mundo-Igreja

Quando esta articulação não é plenamente desenvolvida, corre-se o risco de

183
Leonardo BOFF, Igreja, carisma e poder, p. 218.
184
George Eduardo LADD, Teologia do Novo Testamento, p. 501.
185
O enfoque é ecumenicamente muito fecundo, porque o tema ‘A Missão dos Leigos como Povo de
Deus’ encontra ressonância entre a maioria dos católicos, protestantes e ortodoxos.
74

gerar grandes desvios teológicos. Por exemplo: a) a identificação da Igreja como


sendo o próprio Reino de Deus, 186 criando assim, uma "imagem eclesial abstrata,
idealista, espiritualizante e indiferente à trama da história". b) a "identificação com o
mundo projeta uma imagem eclesial secularizada, mundana, disputando o poder entre
outros poderes deste século". c) a Igreja pensada a partir de si mesma, sem vínculo
com o Reino, gerando uma "imagem eclesial auto-suficente, triunfalista". 187

2. Repensar o conceito de missão da Igreja.

Não é simplesmente destinar recursos financeiros - quando o fazem - para que


o evangelho espalhe visando a expansão do Reino de Deus. A missão é integral na
medida que alcança e interpreta todas as dimensões do ser humano com suas
necessidades, carências materiais e existencias bem como gerando um espaço
simbólico onde a fé e as inter-relações acontecem e possam expressar-se de maneira
solidária, fraterna e comunitária.

3. Questionar a instituição quando tenta engessar e inibir a diversidade ministerial do


povo de Deus.

A história demonstra que a instituição-igreja sempre foi questionada e


confrontada na medida que se afastava de sua natureza missionária e de sua arrogante
postura de impedir que os filhos e filhas de Deus exercem seus dons e ministérios,
pois quando a Igreja torna-se insensível, "as nossas comunidades se brutalizam, as
igrejas-denominações se ossificam e aí as estruturas sociais não são questionadas e
estão livres para dar vazão a toda sua repressão irracional e totalitária". 188

4. Dialogar com os novos modelos alternativos da ação ministerial do povo de Deus,


tais como células, grupos caseiros, discípulado dentre outros.

Existem uma série de atividades e ministérios nas Igrejas onde o povo de Deus
exercita seus dons e ministérios. Muitos modelos de grupos pequenos, caseiros e
discipulado nos quais celebram os atos salvíficos de Deus entre as pessoas, exercita-
se a fé e serviço em prol dos irmãos e da comunidade.

O grupo pequeno é o lugar em que as pessoas são evangelizadas, discipuladas,


186
Esta abordagem é mais detalhadamente explicada na seção: "A Igreja e o Reino de Deus", p. 41.
187
Leonardo BOFF, Igreja, Carisma e Poder, p. 16-l7.
188
Rubem Olino da ROSA, Amadurecendo com o Luto, p. 34
75

equipadas para servir; é o lugar em que os membros se edificam mutuamente. O


grupo serve como comunidade em que os cristãos podem prestar contas uns aos
outros e manter total transparência entre si.

A atividade eclesial não limita-se às quatro paredes do templo, muito menos


ao exercício pastoral da elite pensante das igrejas.

O Povo de Deus é chamado a viver no mundo. É o local para onde Deus


enviou sua Igreja, para viver a sua fé, e ser um sinal de esperança e libertação para o
mundo. Não é concebível uma vivência cristã fora do mundo. O mundo é a terra onde
Deus plantou a semente da sua Igreja.

Diante disso, se Jesus não for levado a sério, a Igreja pode justificar sua
passividade. Se Israel que era “considerada” a oliveira boa e, por causa da
desobediência, foi rejeitada, quanto mais não rejeitará a oliveira brava, precisamente,
nós, a Igreja de Jesus Cristo. A complacência e a indolência da Igreja não serão
toleradas.

Se a igreja for fiel ao seu chamado e a sua missão como povo de Deus, vai
criar novos odres onde o povo de Deus possa atuar e viver de forma plena e integral
todas as riquezas de uma vivência cristã sadia e saudável.
76

BIBLIOGRAFIA

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