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Mulheres Prostituídas

“Só ouve direito quem se liberta dos preconceitos;


e só se liberta dos preconceitos quem é capaz de
restituir a palavra ao silenciado”
(Frei Antônio Moser).

I – Introdução

A palavra “prostituir” vem do verbo latino prostituere, que significa


expor publicamente, por à venda, entregar à devassidão. Dela se
deriva “prostituta”, para designar as cortesãs de Roma que se
colocavam à entrada das casas de devassidão.

A prostituição é parte de uma indústria multibilionária. Entre as


distintas modalidades desta indústria estão, ainda, o turismo sexual,
o tráfico de mulheres, a pornografia, etc.

A instituição da prostituição não beneficia somente o cliente, mas


traz benefícios a terceiros: donos de hotel, administradores,
proxenetas, traficantes, agências de turismo.

As mulheres prostituídas, em sua maioria, foram


condicionadas para ser prostitutas através do maus tratos, da
violência, da discriminação e da falta de auto-estima, que as faz
vulneráveis e passivas. Dentro desses condicionamentos, as
mulheres sentem que não valem nada em si e que seu único
recurso é o uso de seu corpo como objeto sexual.

Existe “prostituição de casa”, nas “zonas de confinamento”, e


“prostituição de rua” ou “trottoir”. Na “prostituição de casa”, as
mulheres atendem os seus clientes nestes locais, recebendo
ordens, geralmente, de uma cafetina. São obrigadas a usar drogas
e bebidas alcoólicas para beneficiar a cafetina. Na “prostituição de
rua”, é lá que ela conquista os seus clientes e paga aluguel em
quartos de hotéis de alta rotatividade. Há, ainda, locais de
prostituição disfarçados como algumas casas noturnas, casas de
massagem, “relax for men”, além de anúncios na imprensa e sites
na Internet.
De acordo com artigo do Serviço à Mulher Marginalizada, ONG que
estuda o assunto, considerar que a prostituição é uma opção de
trabalho, é uma maneira de aceitar que o sexo e o corpo da
mulher e de menores de idade são uma mercadoria. Reforçam-
se, assim, os conceitos patriarcais que alentam os papéis
sexuais de dominação masculina e submissão feminina.
Destaca a entidade os mitos a respeito do assunto: vida fácil,
profissão mais antiga do mundo, não gosta do “pesado”, faz muito
dinheiro, não tem caráter e o que se diz: “vagabunda, ninfomaníaca,
escolheu livremente a profissão, sabe muito sobre sexo”.

De forma geral, a sociedade lança um olhar de condenação sobre


as mulheres que sobrevivem da prostituição, sem procurar as
causas que levam a essa situação. Não condena, contudo, o
agente ativo da situação: o senhor cliente. Toda vez que se
discute a prostituição, coloca-se o foco na mulher e ergue-se
um muro de silêncio em torno do homem que paga e, portanto,
mantém o comércio do sexo. E tratando-se de crianças, o
cliente é, antes de tudo e principalmente, um criminoso.

Em entrevista à revista “Mulher Libertação” - Ano XII – Nº 51-


publicação do SMM, em 1997, Dom Antonio Fragoso, bispo
Emérito, fala sobre a hipocrisia social: o homem acusa a mulher
de perdida, mas sustenta o comércio sexual. Essa
esquizofrenia, segundo ele, é uma das responsáveis pela
prostituição. “Dentro dessa ótica, a mulher prostituída é vítima, e
vítima não se condena, mas se lhe oferece solidariedade”, conclui o
Bispo.

Dom Fragoso, em 1960, na época Bispo Auxiliar em São Luís do


Maranhão, implantou no Brasil o primeiro trabalho com mulheres
prostituídas, a partir de experiência do Padre Talvas, em Paris, com
o movimento Ninho.

Segundo Anima Basak, indiana, membro da Federação


Abolicionista Internacional, “a prostituição significa a dominação
machista sobre a mulher, que tem um corpo considerado como
explorável. Não pode haver prostituição com apenas uma
pessoa. Mas é sempre a mulher que leva a marca de
pecadora”.
O Brasil assinou, em 1949, a “Convenção contra o Tráfico de
Pessoas e Exploração da Prostituição” da ONU e, em 1979, a
“Convenção de Eliminação de Todas as Formas de Exploração da
Mulher”.

A atividade não é crime e portanto não é ilegal. Conforme os artigos


227 e 231 do Código Penal Brasileiro, que tratam dos crimes contra
os costumes, crime é o lenocínio e o tráfico de mulheres, ou seja, a
exploração da prostituição alheia. Nestes itens podem ser
enquadrados cafetões, rufiões e donos de casa e hotéis.

Nos Estudos da CNBB (15), “Prostituição, desafio à sociedade e a


Igreja”, Dom Luciano Duarte define o tema: “A prostituição, como
instituição legal, é uma mancha vergonhosa em nossa civilização. É
a aceitação de um fato, postulado pelo egoísmo dos homens,
propiciado pela fragilidade das mulheres, amparado pela hipocrisia
generalizada (...) Uma coisa é algo de que a gente se serve, como
quem usa um sabonete num lavatório. Depois se deixa para lá.
Uma pessoa é algo que é preciso descobrir por detrás da fuligem
do cotidiano. Uma pessoa é alguém que tem um nome, uma
história, foi criança, teve ilusões, sonhou com a vida, sentiu
desabrochar dentro de seu coração uma aspiração de felicidade”.

II – Causas da Prostituição

Estudiosos do assunto, na causas da prostituição colocam fatores


sócio-econômicos e psicológicos.

Fatores econômicos: falta de emprego; migração para os grandes


centros urbanos; jovens do campo, passando a viver na cidade;
mães solteiras com dificuldade na manutenção do filho. Moradias
em condições subumanas: barracos, cortiços, porões, muitas vezes
abrigam a promiscuidade, que é um caminho aberto para a
prostituição.

Fatores psicológicos: carências afetivas e traumas que marcam a


infância e a adolescência das pessoas.

Temos observado, na convivência com as mulheres prostituídas em


situação de pobreza, que a maioria foi estuprada na infância por
alguém muito próximo; possuem baixa ou nenhuma escolaridade e
faltou-lhes apoio familiar. Quanto às mais jovens, diversas delas
trocam o corpo por uma quantia de droga ilícita.
Segundo recente trabalho do Serviço à Mulher Marginalizada
(SMM), há uma legião de meninas vendendo o corpo por
desinformação e ilusão, levadas pela ganância de agenciadores
(muitas vezes mulheres) e pela mídia. Querem ganhar dinheiro,
com baixa escolaridade e sem empregos à vista. Enxergam, no
sexo comercializado, a única porta para as maravilhas do consumo,
o ideal moderno da felicidade.

III – Realidade da Prostituição e do Abuso Sexual Infantil

De acordo com o Serviço à Mulher Marginalizada - SMM, uma


pesquisa da Faculdade de Ciências Humanas da Fundação Mineira
de Educação e Cultura de Belo Horizonte estima que exista 1,1
milhão de mulheres prostituídas no país. O SMM acredita que esse
número esteja abaixo da realidade, já que é muito difícil ter dados
quantitativos quando se trata de uma questão que envolve
preconceito, falsa moral e pecado.

A revista “Época”, de 23 de outubro a 06 de novembro de 2000,


elaborou três interessantes reportagens sobre a realidade da
prostituição no Brasil, com o título: “As Prostitutas do Século XXI”.
Uma das entrevistadas salienta que ansiava pelos 18 anos para
assumir, sem documentos falsos, sem a condição de vítima, de
acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a condição de
prostituta. Escolheu comercializar o corpo atraída pelo dinheiro.
Mora com o namorado. Com dezessete anos, ele a trocou por uma
garota de programa. Ao tentar reconquistá-lo, ouviu a proposta: “Se
você for para a noite, fico com você”. O namorado transformou-se
em “empresário”: gerencia a manutenção financeira, procura
trabalhos mais vantajosos e decidiu que ela deve aprender inglês
para melhorar a fluência na negociação com clientes estrangeiros.
O namorado a leva até a boate de luxo. A reportagem observou
que, na porta, se abraçaram. “Eu te amo”, disse ele. “Eu te amo
muito e já já estou em casa”, ela balbuciou. Não gosta de ser
chamada de prostituta.

Em outro estudo da Faculdade de Ciências Humanas da Fundação


Mineira de Educação e Cultura (FUMEC), realizado com prostitutas
de Belo Horizonte e publicado na Revista Veja de 12/04/2000, a
trajetória das prostitutas de luxo, em geral, começa em casas de
massagem ou em boates “privês”, onde fazem shows de “strip-
tease” e mantêm contatos com potenciais clientes. Com o passar
do tempo, por causa do desgaste com os clientes e da própria
depreciação estética, muitas garotas passam a oferecer seus
“serviços” em qualquer lugar. Vão parar nas ruas. No estudo
da FUMEC, 76% das prostitutas entrevistadas apresentaram
sintomas de depressão, 59% de stress crônico e 36% disseram
ter pensado em suicídio alguma vez desde que começaram a
prostituir-se.

Voltando à revista “Época”: Brasília é uma outra realidade abordada


pela revista, atraindo uma clientela etiquetada como “vip” no
mercado da prostituição. São procuradas por homens maduros,
com dinheiro, tempo e disposição para a busca do prazer. Ficam
em boates e ruas. São encontradas, ainda, na rede de contatos,
buscando discrição. Uma delas, atraída pelos ganhos materiais,
sonha abrir um salão de beleza, casar e ter filhos, longe de Brasília.

Na segunda matéria, uma cafetina, com escritório registrado como


agência de modelos, comenta que ganha de 20% a 30% do
combinado. Diz que muitas meninas vêm iludidas para São Paulo,
querem ser modelos ou atrizes famosas. Terminam fazendo
programas. Ajudam a família e para que a família não desconfie do
que fazem, seus documentos são falsificados.

As mulheres do porto de Salvador vendem sexo a marinheiros


estrangeiros. Alcançam os navios em catraias inseguras,
superlotadas e muitas delas trazem marcas dos naufrágios. Uma
conta à revista sobre o naufrágio. Eram seis pessoas e apenas três
coletes salva-vidas. As quatro mulheres boiaram agarradas aos
restos da embarcação. Atravessaram assim a madrugada. Pela
manhã, o sol queimava, o sal fazia a pele arder e os peixes
beliscavam. Uma das quatro, de 13 anos e grávida, morreu. A
entrevistada só alcançou a praia na manhã seguinte, com o sol alto.
Estava cega. O efeito só passaria horas mais tarde. Do naufrágio
trouxe, nos pés, espinhos de ouriços-do-mar e queimaduras no
pescoço. Aos dez anos, foi estuprada em uma praia de Salvador.
Envergonhada, omitiu da família. Parou de freqüentar a 3.ª série
porque se sentia “suja”. Fugiu de casa. Com 14 anos teve o
primeiro filho.

Conhecidas como “pisteiras”, há mulheres que se arriscam à beira


das vias movimentadas. Fazem ponto em postos de gasolina.
Vendem minutos de prazer dentro das cabines e podem ser
companheiras de viagem. Concentram-se em estradas de tráfego
intenso, próximas às regiões carentes e com escassas
oportunidades de trabalho. Muitas são menores de idade. “São
empurradas para o acostamento da miséria”. Uma delas, após o
primeiro programa, comprou uma calça jeans. “Eu me senti
poderosa quando saí da loja com o pacote debaixo do braço”.

Em sua última matéria, a revista “Época” aborda a situação das


mulheres prostituídas na região garimpeira. Uma das mulheres,
cafetina, na reportagem afirma: ”No mundo, a gente vale o que tem.
Quem aprende isso encontra a felicidade”. Para ela, menina que dá
lucro é aquela que tem amor pelo ouro e pela liberdade. De cinco
em cinco meses, excursiona de ônibus pela região em busca de
novas atrações, pois casa cheia é ouro no cofre. Em território
garimpeiro, a iniciação sexual é precoce. Mal menstruam, as
garotas são consideradas prontas para o sexo. Sucumbem às
regras e à falta de perspectivas.

A revista conclui que é um mundo complexo, habitado por mulheres


que cumprem papéis variados. Não existe a prostituta universal e
previsível, capaz de caber num verbete.

Gilberto Dimenstein, no livro “Meninas da Noite”, aborda, também, a


prostituição na área indígena que, segundo o líder Antônio Apurinã,
de Rio Branco, é alarmante. Tentava, em 1992, o líder da UNI
(União das Nações Indígenas), Apurinã, que a FUNAI impedisse a
entrada dos marreteiros nas tribos, pois transformaram, bem como
os garimpeiros e soldados, o sexo, tão natural entre a comunidade,
em troca de cachaça, remédios, roupas e comidas. Em Manaus,
segundo Dimenstein, em conversa com o coordenador do CIMI
(Conselho Indigenista Missionário) Michael Feeney, marreteiros e
soldados, espalhados pelos quartéis da Amazônia, são os
responsáveis pelos ataques às mulheres e meninas. O médico e
antropólogo Antonio Maria de Souza, pesquisador do Museu Emílio
Goeldi, de Belém, que passou boa parte de sua vida visitando as
tribos da Amazônia, obteve dezenas de depoimentos sobre curras
de meninas praticadas por soldados em São Gabriel da Cachoeira,
no alto Rio Negro. Um grupo de homens (em geral, recrutas de
folga) pegava uma indígena, geralmente jovem, arrastava para
um lugar ermo e praticava “a geral”, ou seja, uma curra.
Testemunha do médico é o índio Gabriel Gentil: “Eu vi com meus
olhos como uma mocinha chamada Larita, de 18 anos de idade, foi
agarrada por 11 recrutas brancos do Exército. Eu os vi trepando em
cima dela e se satisfazendo no corpo da moça durante a noite:
desde as 8hs até às 3hs da madrugada”. O comandante do 5. º
Batalhão Especial de Fronteiras do Exército de São Gabriel da
Cachoeira, coronel Francisco Abrão comenta o fato: “São as índias
que tentam estuprar meus soldados quando estão no cio. Eu tenho
que segurar meus soldados, porque eles não podem se aproveitar
dessa deficiência”.

Relatório do Serviço à Mulher Marginalizada apresenta, na cidade


de São Paulo, a realidade das mulheres e adolescentes pobres que
vivem na rua e albergues, também em hotéis e pensões que as
acolhem exclusivamente para atividades de prostituição:

- São provenientes de famílias em situação de miséria,


desestruturadas, com abandono de filhos e as meninas encontram
na prostituição um meio para ganhar o sustento. Algumas mulheres
já fazem parte da segunda ou terceira geração de mães
prostituídas.

- Um grande número delas sofreu violência sexual por parte de


familiares, pessoas próximas ou nos locais onde trabalhavam como
domésticas.

Iniciaram a prostituição na puberdade e adolescência, provocando


distúrbios no seu desenvolvimento afetivo-emocional e obstáculos
no aprendizado escolar básico e habilidades profissionais; são em
sua maioria analfabetas ou semi-alfabetizadas.

- São rejeitadas socialmente pela atividade de prostituição e


assimilaram de forma profunda os preconceitos e desvalorização
social, fatores que agravam as dificuldades de procura e entrada no
mercado de trabalho.

- Em situação de abandono, são submetidas e exploradas por


mulheres e homens que vivem da prostituição (cafetões) e
traficantes de drogas. Envolvidas nessas situações, são
constantemente presas e vítimas de abusos e violência policial.

- Mulheres adolescentes, usuárias de drogas, principalmente álcool


e crack, utilizam-se da prostituição para conseguir dinheiro para as
drogas.

- Apresentam alta incidência de doenças, incluindo-se alcoolismo e


dependência de crack.”
De acordo com informações do Centro Feminista de Estudo e
Assessoria – Cfêmea -, as regiões brasileiras, no que diz respeito à
exploração sexual de crianças e adolescentes, possuem algumas
características:

No NORTE, os garimpos propiciam as formas mais violentas de


exploração sexual que incluem cárcere privado, venda e tráfico
de crianças e adolescentes, leilões de meninas virgens,
mutilações, desaparecimentos e turismo sexual portuário e de
fronteiras.

No CENTRO-OESTE, prevalece a exploração sexual em


prostíbulos nas regiões de fronteira e rota de narcotráfico,
redes de prostíbulos fechados, leilão de virgens.

No SUL, predomina a exploração de meninos e meninas de rua,


prostituição nas estradas, exploração de crianças pelo
narcotráfico e denúncias de tráfico de crianças.

No NORDESTE, prevalece o turismo sexual, com uma rede


organizada de aliciamento que inclui agências de turismo
nacionais e internacionais, hotéis, taxistas e comércio de
pornografia, tráfico de menores para países estrangeiros.
Fenômeno recente na região é a descentralização da
exploração comercial de menores que começa a se deslocar do
litoral para o sertão.

No SUDESTE, acentuam-se o pornoturismo e a exploração


sexual comercial de meninas e meninos de rua, nas estradas e
prostíbulos, com regime de cárcere privado.

Relativo ao turismo do sexo, o jornal “Folha de São Paulo”, em


matéria de 14/09/97 – 3 – Cotidiano -, “Pantanal entra na rota do
turismo do sexo”, abordou pesquisa inédita realizada pelo Instituto
Brasileiro de Inovações em Saúde Social – Ibiss - com o apoio do
Ministério da Justiça, Unicef e do governo estadual do Mato Grosso
do Sul, mapeando e identificando 65 pontos de prostituição em seis
cidades da região pantaneira localizada dentro dos limites do
Estado. Esse turismo é movimentado por pescadores e turistas
vindos principalmente de São Paulo.
A prostituição acontece em boates, “whiskeria”, ranchos. As boates
empregam mais de cem garotas de programa vindas de São Paulo,
Goiás, Paraná, Minas Gerais e até do Paraguai e do Chile.

Na cidade de Coxim, por exemplo, a prostituição praticamente


dobra durante a realização dos festivais de pesca na cidade e a
pobreza faz com que alguns pais até ofereçam as filhas.

Conforme matéria da revista “Maria Maria” – págs. 40, 41 e 42,


abordando o livro “Meninas do Porto”, de autoria de Maria Tereza
Verardo, Márcia S. Farah Reis e Rosângela M. Vieira, fruto de
trabalho junto às meninas do porto de Santos, entre 11 a 17 anos,
essas meninas já vivenciaram muitas mortes. Foi a morte familiar,
quando foram abusadas sexualmente em casa. Foi a morte social,
quando perceberam que suas famílias estavam à margem da
sociedade e dos padrões de consumo. Foi a morte dos modelos de
beleza, quando descobriram que não se enquadravam no
paradigma estético difundido pela mídia. E, na rua, essas meninas
encontram mais mortes.

A ONU, em matéria publicada no jornal “Estado de São Paulo” –


Caderno A – pág. 9 – 12/12/01, alerta para a existência de 100 mil
crianças e mulheres sendo exploradas sexualmente no Brasil. A
informação faz parte do relatório “Lucrando com o Abuso”,
publicado pela Unicef. O estudo indica a situação brasileira como
uma das piores no mundo, sendo superada apenas pelos Estados
Unidos, pela Índia e pela Tailândia.

Segundo a Unicef, o problema está concentrado nas cidades de


Salvador, Recife, Fortaleza e Manaus e a dificuldade para combater
essa prática decorre da falta de leis. Outro fator que contribui para o
problema é o turismo sexual principalmente nas capitais do
Nordeste brasileiro. Cerca de 14% das crianças e das mulheres
exploradas sexualmente no País fazem parte desse mercado.

Entre os principais motivos da exploração sexual comercial,


encontramos no relatório: pobreza, discriminação de gênero,
guerras, crime organizado, globalização, ambição, tradições e
crenças, disfunções familiares e o tráfico de drogas. Crianças
exploradas sexualmente sofrem danos – sexuais, físicos e
emocionais – que duram a vida toda ou resultam em morte precoce.
As crianças que sofrem abusos, mas conseguem escapar do
comércio sexual – que são a minoria -, enfrentam o preconceito da
sociedade, a rejeição da família, vergonha, medo e a perda das
perspectivas no futuro.

A educação é vital para prevenir a exploração sexual de crianças:


fortalece a criança para que se proteja. Além disso, as escolas
podem ensinar a criança a evitar situações de alto risco.

Conclui o relatório que a exploração sexual comercial de


crianças é um flagelo clandestino, por isso a grande
dificuldade de se conseguir estatísticas precisas. A quantidade
exata de crianças exploradas sexualmente nunca chega às
autoridades governamentais, porque as crianças são
negociadas por meio de rede subterrânea de traficantes de
crianças. Em muitos países, esse problema nem sequer é
reconhecido. Estima-se em aproximadamente um milhão o
número de crianças – na sua maioria meninas – que entram
para o comércio multibilionário do sexo a cada ano no mundo.

Marlene Vaz, socióloga e pesquisadora da Unicef, em entrevista


aos Cadernos do CEAS em 1996, relata que, uma vez, em Aracaju,
conseguiu levar as meninas para um exame ginecológico. Os
cafetões, quando descobriram que ela era pesquisadora,
tentaram agredi-la. Após tê-los convencido a entrar no local
onde as meninas estavam, constatou a grande mudança com
relação ao ambiente sofisticado da noite anterior, onde havia
ocorrido um strip-tease. Elas estavam confinadas num lugar de
chão de terra batida, algumas de shortinho e camiseta, outras
só de calcinha e sutiã, drogadas, desgrenhadas, todas
comendo de mão numa vasilha semelhante a um cocho, como
se dá de comer aos porcos. Vinha um cachorro e tentava
abocanhar a carne – e uma das meninas o empurrava com a
perna, sonolentamente, imersa naquela letargia do dia
seguinte, do sono, da bebedeira, das drogas. Contou isso para
mostrar a diferença do que é a noite, na presença dos clientes,
e o dia seguinte.

Segundo Marlene, a maioria não gosta de da vida que leva. Há


pouquíssimas que dizem que não querem sair porque já se
acostumaram. O mais comum é a falta de perspectiva, de
qualificação, de conhecimento de outra vida. Num ou outro caso,
são infelizes. Ao serem entrevistadas, terminam muito fragilizadas e
acabam chorando.

A exploração sexual de crianças começou no passado. Narra-nos


Guido Fonseca, em seu livro “História da Prostituição em São
Paulo” – Editora Resenha Universitária – São Paulo – (1982), que,
em 1788, José Arouche de Toledo Rendon, em análise feita das
causas da decadência da Capitania de São Paulo chama a atenção
para o triste espetáculo que se via nas ruas da cidade: inúmeras
meninas esmolando e outras recebendo dinheiro em troca do
corpo, muitas delas com menos de doze anos. Em sua maioria
eram órfãs ou enjeitadas pelos pais.

No mesmo livro, cita-se que, em 1825, crianças enjeitadas ou filhas


de militares enviados ao extremo sul do país para a defesa da
Pátria e que não haviam retornado ou que voltavam inválidos,
erravam pela cidade e acabavam sendo recolhidas por famílias
paupérrimas que logo as atiravam à prostituição, almejando algum
lucro.

Outras, filhas de prostitutas, simplesmente seguiam o caminho


trilhado pela mãe e a maioria, talvez, embrenhava-se por esse
caminho como única forma de tentar sair da miséria.

Ficou conhecido, ainda no século passado, o prostíbulo da Nhá


Tuca, velha exploradora que reservava crianças do sexo feminino,
filhas de prostitutas escravas, para a renovação de seu prostíbulo,
substituindo as mais velhas ou as que tivessem morrido. Como
narra Fonseca, aos domingos e dias santos, a cafetina mandava
três ou quatro meninas, bem vestidas, para o centro, a fim de
conquistar principalmente os acadêmicos, trazendo boa quantia em
dinheiro para a sua alegria.

A idade, a beleza e a gravidez eram acenos para um comprador


mal intencionado, como o anúncio que transcrevemos, publicado no
jornal “A Lei” (São Paulo) em 01º / 03/ 1853: “Vende-se uma boa
escrava crioula de quinze anos de idade, sem vícios, moléstia ou
defeito; muito bonita e bem preta, a qual está grávida de quatro
meses. Quem quiser comprá-la dirija-se à rua Tabatinga, na casa
que fica em frente à rua Boa Morte”.

Uma outra situação, envolvendo menores, é narrada no livro


“Abandonados” da Dra. Lia Junqueira: uma família chegou do Norte
e logo as duas filhas, uma de 14, outra de 16 anos, foram levadas,
junto com um irmão, ainda adolescente, para um prostíbulo na rua
Aurora. Neste lugar, funcionava um esquema no qual o gerente
fazia o papel de rufião. A mulher era praticamente loteada: o
usuário determinava que parte do corpo ele queria usar. Da cintura
para cima era um preço, da cintura para baixo, outro preço, corpo
todo, outro preço. O irmão ficava no buraco da fechadura
observando se o cliente estava usando só a parte pela qual pagara.
Se o cliente tivesse pagado por uma parte e usasse outra, o dever
do menino era chamar o gerente do hotel, que adicionaria mais uma
quantia na conta.

No livro “Memória da Morte, Memória da Exclusão”, Francisca E. S.


Severino entrevista uma menina que, com dez anos, foi violentada
pelo irmão e essa situação permaneceu por um tempo. Para
proteger-se, a menina vestia calças compridas uma por cima da
outra. A mãe não acreditou na história.

Maria Cecília de Souza Minayo, que prefacia o livro “O Corpo na


Rua e o Corpo da Rua” de Romeu Gomes, afirma que é preciso
exorcizar o horror que é destruir impunemente corpos, sonhos e
vidas tangidos pela fragilidade e pela miséria.

A exploração sexual é um grave atentado aos direitos das crianças


e dos adolescentes. Ela se caracteriza pelo uso sexual com fins de
lucro, seja levando-os a manter relações sexuais com adultos ou
adolescentes mais velhos, seja utilizando-os para a produção de
materiais pornográficos, como revistas, fotografias, filmes, vídeos e
sites da Internet. Outra forma de exploração é o tráfico, isto é, levar
crianças e/ou adolescentes para outras cidades, estados ou países,
a fim de servirem a propósitos sexuais.

Essa situação tem raízes na exploração do ser humano. São os


filhos da promiscuidade gerados pela miséria, pela droga, pela
violência sexual infantil, pelo erotismo, pela coisificação da pessoa.

IV - O Tráfico de mulheres

O primeiro mercado em dinheiro ilegal do mundo é o tráfico de


armamentos. O segundo é o tráfico de drogas seguido pelo tráfico
de mulheres, crianças e adolescentes.
Segundo estimativas da Federação Internacional Helsinque de
Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), 75
mil brasileiras se prostituem atualmente nos países da União
Européia (UE). Apenas 5% delas vendem o corpo por “opção”. As
demais são vítimas de mercadores de escravas brancas.

As estimativas mostram que cerca de 15% das mulheres obrigadas


a se prostituir na União Européia são aliciadas no Brasil, o que
coloca o País como o maior exportador de mulheres para
exploração sexual da América do Sul. Relatórios de ONGs e
investigações da Interpol identificam as três principais rotas usadas
pelos mercadores no País. Mulheres são aliciadas no Rio e
embarcadas nos aeroportos Tom Jobim e de Guarulhos em São
Paulo. Trajeto semelhante ao usado para levar as aliciadas no
Nordeste: Salvador (BA), Fortaleza ( CE) e Recife (PE), que
também usam como opção o aeroporto de Salvador. As duas rotas
têm como destino Portugal e Espanha. Na terceira, as mulheres são
levadas de Goiânia (GO) e Belém (PA) para o Suriname, de onde
seguem para Amsterdã.

Para driblar as autoridades européias, os mercadores mudam as


mulheres de cidade e de país. Assim elas passam por turistas,
ficando de três a seis meses em cada região.

A revista “Isto É”, em reportagem sobre o tráfico de mulheres,


publicada em 5 de junho de 1996, coloca uma outra situação:
agências de viagem da Europa incluem em seus pacotes os
serviços de garotas de programa brasileiras. Em muitos casos as
mulheres são vendidas.

Segundo a jornalista Priscila Siqueira, em outubro de 1998, oito


brasileiras, entre 19 e 34 anos, vítimas da rede internacional de
prostituição em Israel, foram resgatadas da máfia russa. Elas
haviam viajado três meses antes, achando que seriam empregadas
como garçonetes ou como domésticas em Tel-Aviv.

Conforme testemunho de Kátia Regina Fernandes, 19 anos, ela


pretendia comprar um apartamento para a família, com a promessa
de ganhar US$ 1.500,00 por mês. Kátia vivia em cárcere com as
colegas e só podiam sair na companhia de seguranças da máfia.
Seus passaportes foram tomados assim que chegaram em Israel.
De acordo com Ana Lucia Furtado, 34 anos, ela era ameaçada
pelos chefões da rede quando não atendia a 15 clientes por noite,
mesmo que apresentassem doenças venéreas.

Ainda na matéria da Revista “Isto É”, citada acima, o maior


agenciador de brasileiras, no Suriname, é Henk Kunath, de 54 anos.
As mulheres que chegam à sua boate são obrigadas a assinar um
documento concordando com seus métodos de trabalho. Assinam,
realmente, mas muitas vezes sob coação, cercadas de seguranças
truculentos. No contrato de quatro páginas oferecido por Kunah, as
mulheres são proibidas de tudo e ele controla suas vidas. Passam a
pagar, à boate, a alimentação e a moradia. Cumprem exigências
absurdas, como não freqüentar lugares onde existam brasileiros,
sob pena de multa. Se ficarem grávidas ou adquirirem alguma
doença venérea, Kunath aplica mais multas, com valores definidos
a seu critério. Até por ficarem menstruadas, as mulheres podem ser
penalizadas.

As maiores queixas de maus tratos em boates ocorrem em Manila.


O dono da casa, um filipino chamado Ricky, é acusado de espancar
brasileiras.

As mulheres do Suriname também são usadas para transportar


drogas para a Europa.

Muitas mulheres ganham no corpo um número tatuado, para facilitar


a identificação.

Uma outra forma de atrair para a prostituição é o casamento por


correio, que se dá através de avisos que aparecem nos jornais e
revistas, por meio de algumas agências matrimoniais e atualmente
também por Correio Eletrônico, solicitando jovens de boa presença
que desejem se casar com estrangeiros. Na maioria destes casos,
os supostos casamentos significam uma arapuca para introduzir as
mulheres na prostituição. Nos casos em que de fato ocorre o
matrimônio, as mulheres podem sofrer abuso ou serem maltratadas,
e ao buscarem libertar-se desta relação, ficam no estrangeiro e
muitas terminam na prostituição.

V – Violência sexual
O jornal “Folha de São Paulo” – caderno Folhateen de 27/07/98, em
matéria sobre a violência sexual apresenta dados que merecem
destaque:

Perfil do agressor: o pai é o principal violentador, seguido do


padrasto, de ouros familiares e vizinhos.

Perfil da vítima: a maioria é menina e entre 11 e 15 anos.

Números da violência sexual doméstica: em São Paulo, de


1104 casos atendidos no IML em 1997, 41% dos agressores
eram o pai, 21%, o padrasto e 14%, o tio.

Conseqüências do abuso: medo, depressão, sentimento de


culpa, queda de auto-estima, distúrbios alimentares, tentativas
de suicídio.

O que o agressor diz à vítima: “Foi você quem provocou”; “Se você
contar para alguém, vou dizer que é mentira”; “Faço isso para
agradar você e porque você gosta”; “Você é minha preferida. Gosto
mais de você do que de outra mulher”; “Esse será nosso segredo”.

Em reportagem no jornal “Folha de São Paulo” – Caderno


Campinas – C6, em 14/07/2000, encontramos que o Brasil registra
cerca de 50 mil casos por ano de violência sexual contra crianças e
adolescentes segundo o Ministério da Justiça.

De acordo com pesquisadores que trabalham com a questão da


violência contra menores, a estimativa é que os números oficiais
representam apenas 10% do total de casos. Isso porque grande
parte das agressões ocorre na própria casa das vítimas. É uma
violência que, em muitos casos, não é notificada. Os crimes mais
comuns são de lesão corporal, maus-tratos, estupros, ameaças e
sedução.

De 80 casos de violência sexual, analisados pela Clínica


Psicanalítica da Violência do Rio de Janeiro, em parceria com a
Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), 74% aconteceram em casa e o
agressor é o pai, o irmão ou o padrasto:

37% – próprio pai;

24% - padrastos;
13% - irmãos;

13% - vizinhos;

13% - outros.

Idade das vitimas:

05 a 09 anos – 50%;

00 a 04 anos – 20%;

10 a 14 anos – 16%;

15 a 19 anos – 14%.

Seqüelas mais comuns: desvios de comportamento,


comprometimento do quadro emocional, distúrbios severos do
sono, dificuldade de aprendizado, isolamento social, conduta
regressiva e precocidade sexual.

Em pesquisa realizada no município de São Paulo (Saffioti,


1993/1995) sobre o abuso incestuoso: 71,5% dos agressores eram
os próprios pais biológicos e 11,1% eram padrastos. Assim o pai e
quem lhe faz as vezes compareceram com 82,6% do total de
agressores sexuais incestuosos.

A CPI da Prostituição Infanto-Juvenil, realizada pela Câmara dos


Deputados em 1993, apresentou a realidade da exploração sexual
de crianças e adolescentes em diversos estados do país. Revelou
que 50% dos estupros são incestuosos, o que implica uma
transgressão do dever de proteção que se inscreve na família
como instituição.

VI – Incesto

A revista “Maria Maria” do UNIFEM aborda o tema incesto. A maior


parte do abuso contra as crianças acontece dentro da família e
os agressores são, em geral, o próprio pai ou o padrasto.

A maioria das vítimas é mulher (93%) e cerca de 60% têm entre


08 e 15 anos, de acordo com um estudo de casos atendidos no
Setor de Sexologia do Instituto Médico Legal de São Paulo,
finalizado em 1996 pelo médico Carlos Alberto Diêgole,
coordenador do PAVAS de São Paulo.

Uma das agravantes desse tipo de violência é que ela ocorre


por um tempo prolongado. Levantamento conclusivo do
CEARAS (Centro de Estudo e Atendimento Relativo ao Abuso
Sexual da Universidade de São Paulo) mostra que cerca de
40% dos casos se estende por um período de um a cinco anos.

Adolescentes que são molestados desde criança costumam


carregar uma culpa enorme. Por isso, na maioria das vezes se
calam. “A vítima não sabe diferenciar se é abuso ou se o afeto é
assim mesmo”, diz Cláudio Cohen, psicanalista coordenador do
CEARAS. Com o tempo, percebe a diferença, mas o medo e a
vergonha fazem com que não denuncie.

As seqüelas desse tipo de abuso são imprevisíveis e independem


do fato de ter ou não ter havido estupro. As vítimas costumam se
tornar adultos com forte tendência à depressão e à baixa auto-
estima. Têm problemas emocionais, dificuldades de estabelecer
relacionamentos e são muito inseguras.

Conclui a matéria, feita por Andréia Pires, com a colaboração de


Rossana Maurelli: “Freqüente, o abuso intrafamiliar não é fácil de
diagnosticar, mas pode ser minimizado se professores, médicos e
cada um de nós estiver atento aos sinais de sofrimento de uma
criança. A omissão, nesses casos, infelizmente, é comum. Um
crime que é cúmplice da violência”.

O abuso sexual sempre deixa seqüelas. Se a ferida não for tratada,


ela não cicatriza.

VII – Pedofilia

O I. º Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças,


realizado em Estocolmo de 27 a 31 de agosto de 96, estabeleceu
um plano de ação coordenador entre os diferentes países e os
serviços policiais internacionais, contudo as questões de fundo
sobre o significado e as causas da pedofilia permaneceram em
aberto.
O abuso sexual de crianças pode acontecer dentro do quadro
familiar, no âmbito comunitário ou de forma internacional.

As conseqüências na infância são: insucesso escolar,


perturbações do comportamento, fobias em relação à
sexualidade, sexualização das relações (perversões,
precocidade sexual). Na adolescência: dificuldades na
identidade feminina, rejeição da imagem corporal, estado
depressivo grave, perturbações alimentares (anorexia),
delinqüência, prostituição e outras.

Por vezes, as más condições da vida familiar levam a criança


desamparada a vagar pelas ruas à procura do pai ou da mãe
imaginários, acabando por encontrá-los, dramaticamente, na
pessoa do pedófilo. O ato dessas pessoas inesperadas deixa
cicatrizes profundas na alma da criança sob a forma de culpa e de
angústia.

A luta contra a violência sexual com as crianças passa


necessariamente pela resposta a duas grandes questões:

1. Qual o lugar da criança na sociedade?

2. Qual a atitude dos adultos em relação às crianças?

Há duas maneiras de conviver no mundo com as crianças: criança


como sujeito ou criança como objeto. A atitude do adulto pode
comprometer seriamente a relação da criança consigo mesma, com
o mundo e com os outros.

VIII – Prostituição e Gênero

No que diz respeito à relação de gênero e prostituição, a pedagoga


Josefa Brendía Gómez (Pepita), do Centro Ecumênico de Serviço à
Evangelização e Educação (Cesep), em entrevista à revista “Mulher
Libertação” (Nov. /Dez. 97), coloca que a prostituição é um negócio
que envolve muitos interesses. É o produto de uma concepção da
sexualidade patriarcal que coloca os homens como sujeitos da
mesma. No negócio da prostituição, a mulher é a peça mais frágil e
responsabilizada. A trajetória de mulheres pobres prostituídas é
uma trajetória de violência familiar.
De acordo com algumas pesquisas, a menina se prostitui depois de
ter sido violentada, dentro de casa, pelo padrasto ou pelo próprio
pai. Isso gera uma visão negativa do próprio corpo e uma carência
afetiva. Há uma cadeia de responsabilidades que ficam ocultas
quando a mulher é vista como a única responsável, a sem-
vergonha. Assim, fica oculto o sistema que leva à marginalidade.
Nesse sentido, a ação de apoio deveria se realizar no sentido das
mulheres se fortalecerem, aumentando a sua auto-estima e a sua
consciência, para que elas se reconheçam dentro de sua própria
história. E esta é sempre carregada de culpa.

Conforme trabalho do Serviço à Mulher Marginalizada, muitos


homens exercem sua sexualidade à custa da exploração e
dominação de mulheres, meninas e meninos, fundamentando-
se em premissas patriarcais: a crença de que o seu impulso
sexual é incontrolável e requer desafogo. É parte desta mesma
cultura patriarcal, que considera que a mulher é inferior ao
homem e que sua sexualidade tem que estar a ser- viço do
homem, a repetida frase: “a prostituição é a profissão mais
antiga do mundo”.

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Maria Cristina Castilho de Andrade*


criscast@zaz.com.br