Área de Integração

Módulo 3
Tema/Problema: 2.3 - A construção da
democracia.
Professor Paulo Gomes
Ficha: As Desigualdades Sociais
As desigualdades sociais acontecem quando a
distribuição da riqueza é feita de forma diferenciada
sendo que a maior parte dela fica nas mãos de
poucos. [...] A desigualdade social é um fenómeno
que ocorre quando, em determinadas sociedades,
algumas pessoas detêm mais capital, poder e/ou
influência que outras. Constitui-se, portanto, em uma
condição social que permite a determinadas pessoas
ter maior riqueza e qualidade de vida em detrimento
de outras. A desigualdade social pode ser legitimada
ou não, isto é, pode ser aceite como uma condição
natural dentro da sociedade por diversos fatores
(religiosos, culturais, políticos etc.) ou pode ser
contestada por ser tida como uma condição
historicamente construída.
Na atualidade, por ser um fenómeno comum a todos
os países, dado que decorre da própria lógica do
sistema capitalista, a desigualdade social muitas
vezes é legitimada sem que se tome consciência,
utilizando as justificações mais variadas, sejam elas
baseadas em questões materiais ou simbólicas.
Causas
A desigualdade social é causada, sobretudo, pela
divisão social que existe entre os proprietários dos
meios de produção e aqueles que para estes
trabalham, permitindo a continuidade das empresas e
gerando lucro para os proprietários. Este lucro, que
garante o rendimento dos proprietários, é gerado
pela mais-valia, isto é, uma parte da produção do
trabalho que não é paga aos trabalhadores,
constituindo o lucro das empresas.
Na atualidade, afirma-se que as desigualdades
sociais vêm-se agravando em todo o mundo, com
maior gravidade nos países periféricos, devido

sobretudo à fase neoliberal do sistema capitalista,
que diminui a participação do Estado na economia e
confere maior poder às empresas privadas, o que
vem aumentando o abismo entre ricos e pobres e
promovendo a formação de um bloco cada vez maior
de excluídos dos benefícios sociais.
A exclusão
Pode-se ainda afirmar que as desigualdades têm
uma forte relação com a desmobilização popular que
se observa em diversos países do mundo. Na disputa
pela imposição de valores e visões de mundo,
geralmente levam vantagem aqueles que dispõem de
maior volume de capital (financeiro, cultural, social,
simbólico), por isso grande parte da população é
excluída dos processos de tomada de decisão, tendo
de arcar com as consequências das decisões
tomadas pelas partes mais fortes.
Soluções
A solução para um problema complexo como a
desigualdade social não pode ser pensada de forma
estritamente técnica, como se dependesse de uma
equação matemática desenvolvida por economistas.
Este é um equívoco muito comum quando
esquecemos as raízes históricas de determinados
problemas, por isso deve-se ter clareza de que este é
um problema decorrente da própria estrutura
sistémica em que estamos inseridos, portanto
pequenas reformas são incapazes de dar conta de
todo o processo. Contudo, podemos apontar alguns
caminhos que vemos como fundamentais na
superação deste imenso problema social.
O primeiro deles, sem dúvida, é o acesso a uma
educação pública de qualidade, que atenda à
realidade das populações envolvidas e seja capaz de
formar seus sujeitos para uma ação política
comprometida com os interesses coletivos. A
educação deve ser vista não apenas como um
processo de formação de mão-de-obra para ser
absorvida pelo mercado de trabalho, mas
essencialmente como um processo de formação da
cidadania plena, que prepare os seus sujeitos para
participar ativamente de todos os espaços políticos,

atualmente ocupados quase inteiramente por
representantes das classes dominantes. A superação
das desigualdades sociais deve ser pensada sempre
num nível coletivo, de classe, com a união dos
grupos explorados e oprimidos (sejam eles de
trabalhadores, de mulheres, membros de minorias
étnicas, homossexuais, etc.) voltando-se contra a
fonte da exploração que se encontra na raiz do
sistema capitalista.
Além disso, é importante que o acesso ao
conhecimento (científico e não-científico) seja
democratizado para que se supere a alienação
social, permitindo que a população possa interferir
nos processos produtivos não só ao nível do
consumo, mas também nos níveis de elaboração,
produção e distribuição de produtos. No fundo, o que
queremos dizer é que a superação das
desigualdades sociais caminha junto com a
democratização plena da sociedade, portanto lutar
por democracia é também lutar pelo fim das
desigualdades.
http://desigualdadesocial2012.blogspot.pt/2012/03/de
sigualdade-social-causas-riscos-e.html

Liberdade, Igualdade e Fraternidade

O ser humano não é uma coisa, um objeto, uma
abstração. Olhemos para os seres humanos como
pessoa, como um alguém. “Alguém que é um “tu”
como eu e, ao mesmo tempo, um tu que não sou eu:
outro eu e eu outro, formando um “nós”. (Anselmo
Borges)
Liberdade, Igualdade e Fraternidade são os valores
éticos de referência que resumem os ideais da
Revolução Francesa (1789). [...]

A ordem com que estes três valores se apresentam,
reflete a prioridade com que têm sido defendidos,
registando-se desde o século XVIII, uma maior
valorização do primeiro (Liberdade), como condição
de realização dos outros dois. Quando falamos de
Liberdade falamos desta ideia de que “todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e em
direitos.”
Podemos dizer que é legítima a sobrevalorização da
Liberdade, porque sem liberdade não há Igualdade
nem fraternidade. Mas a História tem demonstrado
que a proteção da liberdade, só por si, não implica
necessariamente, a realização da igualdade nem da
fraternidade. As desigualdades, bem como as
práticas discriminatórias em função do sexo,
orientação sexual, religião, idade, língua ou origem
social, que ainda persistem no nosso século, são
exemplo disso.
Em Portugal, podemos dizer que somos um país livre
porque temos um regime democrático com uma
Constituição que protege tais liberdades, sendo, ao
mesmo tempo, um dos países com maior
desigualdade social e económica na Europa…
Destes três valores, a Fraternidade tem sido o
conceito filosófico menos compreendido. O Artigo 1.º
da Declaração Universal dos Direitos Humanos
estabelece que “Todos os seres humanos nascem
livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados
de razão e de consciência, devem agir uns para com
os outros em espírito de fraternidade.” Importa ler até
ao fim e perguntar o que significa esse espírito de
fraternidade? Qual a sua relação com a Liberdade e
a Igualdade?
Fraternidade é um termo oriundo do latim frater, que
significa “irmão[...] Fraternidade é o laço de união
entre os homens, baseado no sentimento de
confiança mútua, fundado no respeito pela dignidade
da pessoa humana e na igualdade de direitos entre
todos os seres humanos.
Este conceito realça o valor da dimensão relacional
do ser humano, o papel do homem e da mulher em
sociedade, a forma como se relacionam com os
demais e participam no bem estar comum. É a peça-

chave para a plena configuração da cidadania entre
as pessoas. Quando revisitamos o conceito
Fraternidade na declaração dos direitos do homem
de 1793, saída da revolução francesa, ela é,
curiosamente, definida como “não faças aos outros o
que você não gostaria que fizessem a você, faça o
bem aos outros à mesma medida que gostaria de o
receber.” Esta definição, também conhecida como a
“Regra de Ouro, é um valor partilhado por todas as
grandes religiões e tradições espirituais. À ideia de
fraternidade, também estão associados valores como
a solidariedade, altruísmo, compaixão e caridade.
Os desafios que vivemos atualmente nas sociedades
que se afirmam de “desenvolvidas”, pedem respostas
diferentes. Respostas globais, coletivas, mas
também respostas ao nível das bases, dos
relacionamentos humanos. Os tempos são de
contradição e mudanças muito aceleradas, de
crescentes desigualdades sociais e económicas e
individualismo, em que tudo parece estar reduzido a
mercadoria (saúde, educação, corpo, cultura, genes,
água, etc) e em que nada tem valor se não houver
alguma contrapartida. Convivemos com um
multiculturalismo sem fronteiras sem conseguirmos
ultrapassar pré-conceitos e criar pontes com o que
nos é estranho, ao mesmo tempo que enfrentamos a
ameaça de extremismos ideológicos e religiosos que
assentam em “fraternidades” que se unem em torno
da nomeação de um inimigo comum e proporcionam
um sentido de missão e pertença a uma juventude
alienada. Assim, nunca foi tão urgente refletir e
aprofundar esta ideia de Fraternidade e o seu papel
na construção de uma sociedade melhor.
As descobertas da neurociência, da biologia e outras
ciências, dos últimos 30 anos, sobre a origem
biológica da moral, sobre a natureza gregária e
empática do ser humano, vieram reforçar essa
necessidade e viabilidade. Demonstram que a
natureza humana não é só destrutiva e competitiva. A
preservação e evolução da espécie ao longo da vida
humana, tem dependido sobretudo da cooperação,
da reciprocidade e da solidariedade.

Não é por acaso que assistimos no nosso século a
um repensar do legado Iluminista do século XVIII,
cujo lema foi “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”,
propondo-se um Iluminismo e uma Cidadania para a
século XXI, baseados em valores como a
sustentabilidade, inclusão, solidariedade e sociedade
civil.
A experiência de pertença, de comunidade e a ideia
de bem-comum só é possível com o reconhecimento
da existência do outro. Não podemos forçar a
fraternidade, mas podemos assumi-la como um
dever cívico através da educação para uma
cidadania mais empática, fraterna e solidária,
assente numa consciência de inter-dependência
entre as pessoas, numa atitude mais aberta,
cooperativa, menos desconfiada e sem preconceitos
face ao outro.
É através desta ideia de fraternidade – assente numa
atitude empática de me colocar no lugar do outro, no
respeito pela dignidade humana, na igualdade e
liberdade – que reconhecemos e defendemos a
nossa humanidade. A nossa indignação e
manifestação diante da barbárie dos ataques
terroristas em França ao Jornal satírico Charlie
Hebdo, não se resume a uma reação contra a
violação da liberdade de expressão. Quando nos
identificamos como “Je suis Charlie”, mesmo que não
concordemos com os conteúdos do Jornal, também
queremos dizer, na linguagem empática: “o que te
fizeram a ti, fizeram-no a mim”. A morte do outro
provoca-nos dor e revolta.
Defendemos a Liberdade religiosa, a liberdade de
pensamento, de expressão, de associação e reunião.
Mas esta não é auto-suficiente, precisa de
fraternidade e responsabilidade. Um indivíduo tem
todo o direito de ter liberdade, desde que essa
atitude não prejudique nem anule o outro.
Não há Eu sem um Tu. Eu e Tu formamos um Nós,
por mais diferente que esse Tu seja de um Eu que o
estranha… porque não há existência possível sem
encontro
nem
diálogo.
Paula
Serpa,
http://www.serpessoa.com/somos-todos-irmaos/

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