Área de Integração

Módulo 3
Tema/Problema: 2.3 - A construção da
democracia.
Professor Paulo Gomes
Ficha: A democracia ateniense
Nos grupos sociais pequenos e mais primitivos era a
natureza (que nos faz a uns fortes e a outros fracos, a
uns lentos e a outros rápidos, etc.) que determinava a
hierarquia política; nas sociedades maiores foi a
teologia que serviu para justificar a existência de
castas diferentes entre os membros do conjunto
social. A natureza, os deuses: nem com aquela nem
com estes é fácil discutir, porque não costumam
admitir objeções. Os gregos, como é natural, também
se submetiam nos seus começos a este mesmo tipo
de autoridades inapeláveis. Também os gregos se
deram conta, como aconteceu connosco, das
enormes diferenças naturais ou herdadas que se dão
entre os homens. Mas pouco a pouco começou a
ocorrer-lhes uma ideia algo esquisita: os indivíduos
parecem-se entre si para além das suas diferenças,
porque todos falam, todos podem pensar sobre o que
quiserem e o que lhes convier, todos são capazes de
inventar algo ou de rejeitar algo inventado por
outrem... explicando porque o inventaram e porque o
rejeitam. Os gregos sentiram paixão pelo ser humano,
pelas suas capacidades, pela sua energia construtiva
(e destruidora!), pela sua astúcia e as suas virtudes...
até pelos seus vícios. Outros povos ficaram
pasmados face aos prodígios da natureza ou
cantaram a glória misteriosa dos deuses, mas
Sófocles resumiu a opinião dos seus compatriotas ao
escrever numa das suas tragédias: “De todas as
coisas dignas de admiração que existem no mundo,
nenhuma é tão admirável quanto o homem.” Por isso
os gregos inventaram a Pólis, a comunidade cidadã
Ficha: A Democracia Ateniense
p.

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em cujo espaço artificial, antropocêntrico, não
governa a necessidade da natureza nem a vontade
enigmática dos deuses, mas a liberdade dos homens,
ou seja: a sua capacidade de raciocinar, de discutir,
de eleger e demitir dirigentes, de criar problemas e
equacionar soluções. O nome pelo qual conhecemos
esta invenção grega, o mais revolucionário
politicamente falando que alguma vez se tinha dado
na história humana, é democracia.
A democracia grega estava submetida ao princípio da
isonomia: o que significa que as
mesmas leis regiam todos, pobres
ou ricos, de bom berço ou filhos de
pais
humildes,
espertos
ou
imbecis. Acima de tudo, as leis
eram inventadas pelos próprios
que se submetiam a elas: havia que ter o cuidado na
assembleia (ecclesia) para não serem aprovadas leis
más, porque qualquer um que as aprovava podia vir a
ser a sua primeira vítima... [Nenhum cidadão] estava
acima da lei e a lei (a mesma lei) tinha que ser
obedecida por todos. Mas a lei não provinha de nada
mais elevado que os homens, não era uma ordem
irrevogável dada pelos deuses ou os antepassados
míticos, mas antes a assembleia dos cidadãos (todos
eles políticos, quer dizer, administradores da sua
Pólis) era a sua origem e por isso podia modifica-la
ou aboli-la se tal parecesse conveniente à maioria. Os
antigos atenienses tomavam tão a sério a igualdade
política dos cidadãos, e tão convencidos estavam que
a sua obediência se devia só às leis e não a pessoas,
por mais “especiais” que fossem (não aceitavam
especialistas em mandar)... que a maioria das
magistraturas e outros cargos públicos da Pólis eram
decididos por sorteio! Como todos os cidadãos eram
iguais, como ninguém podia negar-se a cumprir as
suas obrigações políticas para com a comunidade
(todos participavam nas decisões e podiam chegar a
ocupar postos de autoridade, mas era obrigatório
Tema/Problema: 2.3 - A construção da democracia.

decidir e mandar quando chegasse a ocasião), tirar à
sorte os cargos políticos parecia aos gregos [de
Atenas] a melhor das soluções.
Isonomia? A mesma lei para todos? Igualdade
política? Já te estou a ouvir protestar. Como podia ser
verdadeira essa igualdade, se tinham escravos! De
facto, os escravos não participavam na vida política
ateniense. Nem as mulheres (que tiveram que
esperar nada menos que vinte e seis séculos, até
ontem, como quem diz, para terem plenos direitos
políticos... com exceção dos estados islâmicos, onde
continuam à espera). [Também os estrangeiros viam
vedado o seu acesso à cidadania – e neste caso era
considerado estrangeiro quem não tivesse nascido na
cidade, mesmo que viesse da cidade vizinha, também
ela grega]. Tens razão no teu protesto, mas não te
esqueças que passaram muitos séculos e ao longo
desse tempo muitas crenças foram revistas. Os
pioneiros atenienses nunca sustentaram que todos os
seres humanos tinham direitos políticos iguais: o que
inventaram e estabeleceram é que todos os cidadãos
atenienses tinham direitos políticos iguais. E sabiam
que nem todas as pessoas eram cidadãs: havia que
pertencer ao sexo masculino, ter uma certa idade,
que não ser escravo, ter nascido na Pólis, etc.. Mas
todos os que reuniam estes requisitos eram
politicamente iguais. Asseguro-te que esta mudança
de mentalidade já é bastante revolucionária em
comparação com o que se fazia então na Pérsia,
Egito, China, ou no México dos aztecas. A ideia de
que todos os seres humanos somos iguais veio mais
tarde, por influência dos estóicos, epicuristas, cínicos,
cristãos e outras seitas subversivas. Ainda assim
tiveram que passar quase dois mil anos para que se
abolisse a escravatura, para que as mulheres
pudessem votar e ser eleitas para cargos
governamentais, para que uma assembleia mundial
de nações aprovasse uma declaração universal dos
direitos humanos. Se aqueles antigos gregos não

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tivessem dado o primeiro passo, o passo decisivo,
provavelmente tu não te indignarias perante as
desigualdades que existiam na sua Pólis, nem
perante as que se dão entre nós, tanto tempo depois!
[...]
A invenção democrática, esse círculo em cujo centro
estava o poder, essa assembleia de vozes e
discussões, teve como consequência que os
cidadãos – os submetidos à isonomia, à mesma lei –
se viam uns aos outros. As sociedades democráticas
são mais transparentes que as outras, transparência
às vezes até à indecência: todos somos espetáculo
uns para os outros. Os reis absolutos de outrora
viviam em palácios inacessíveis nos quais ninguém
podia entrar sem a sua permissão: só apareciam em
público rodeados da maior majestade, sobrehumanos, rígidos, e procuravam aparentar estar
acima das paixões ou necessidades físicas próprias
de qualquer ser humano. Os vassalos baixavam a
cerviz à sua frente, sem atrever-se a levantar a vista.
Nas sociedades piramidais de antigamente, cada
grupo social conhecia o género de vida que levavam
os superiores e não se atrevia a julgar as suas
virtudes e os seus vícios pela mesma medida com
que julgava os membros da sua classe. Entre os
gregos, pelo contrário, cada qual estava dependente
dos demais: as habilidades e os méritos não se
davam por garantidos a ninguém, tinham antes que
mostrar-se... e demonstrar-se (“demonstrar” significa
mostrar ao povo – demos – às [outras] pessoas, aos
iguais). As debilidades e os vícios também eram
coisas do domínio público. Por isso teve que ser na
Grécia que nasceram os dois espetáculos de massas
democráticos por excelência, inimagináveis entre os
egípcios e os persas: o desporto e o teatro.
A competição desportiva é o fruto direto do
estabelecimento da igualdade política. Há razões
para isso. Em primeiro lugar, como as velhas
legitimações hierárquicas devidas à nobreza de
sangue, a eleição divina ou a posse de riquezas,
tinham perdido a sua vigência, foi preciso inventar
Ficha: A Democracia Ateniense
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outras fontes de distinção social. Lição importante [...]
[a tirar daqui:] numa sociedade os indivíduos podem
ser iguais (política e juridicamente) mas nunca
intercambiáveis: serão iguais, mas nunca serão o
mesmo. Cada grupo precisa de tipos humanos que
representem a excelência[...]. Os gregos admiravam o
corpo humano, a sua energia e a sua beleza: as
competições desportivas serviam para estabelecer
distinções entre os corpos e destacar a primazia dos
melhores. Iguais, mas não indistintos... A segunda
razão é que só os iguais podem competir entre si: se
não se pode olhar a cara do faraó, tu cá tu lá, muito
menos se lhe poderá disputar uma corrida ou uma
luta; Nero organizava concursos de canto
acompanhado com lira, só pelo tonto gosto de
receber todos os prémios...[...] A disputa competitiva
exige igualdade humana, reconhecimento mútuo,
camaradagem na rivalidade. [...]
O teatro foi outro corolário transcendental que teve a
democracia grega. Noutras culturas havia rituais e
cerimónias religiosas que incluíam certas formas de
representação simbólica, mas foi na Grécia que pela
primeira vez os homens converteram em espetáculo
as paixões e emoções puramente humanas... ainda
que os deuses interviessem de vez em quando nos
conflitos. Em cada sessão teatral, os gregos assistiam
a tragédias e comédias, quer dizer, a aspetos
humorísticos dos seus afazeres individuais e ao
tremendo drama dos seus conflitos, olhavam-se uns
aos outros e viam as suas diferenças dentro da
igualdade política: devido ao facto de se tratarem
como iguais deram-se conta de quão diferentes são
os indivíduos uns em relação aos outros.
Fernando Savater, Política para Amador, [Política
para um jovem], Cap. 4.

Os princípios da democracia
ateniense
A democracia ateniense baseava-se
nos seguintes princípios:
Tema/Problema: 2.3 - A construção da democracia.

Isocracia
“É o ideal da igualdade de acesso aos cargos
políticos. Foi usado na Grécia Antiga, assim todos
os cidadãos atenienses tinham o direito e o dever de
participar na vida política da Pólis. As decisões
normalmente tomadas em conjunto respeitavam a
vontade da maioria, pois todos tinham igual direito
de voto.” wikipedia
Isocracia significa ‘igualdade no acesso ao poder’
(kratos) e implica que todos os cidadãos tenham não
apenas o direito e obrigação de eleger os seus
chefes, mas também que eles próprios possam vir a
ser eleitos para desempenhar funções nos diferentes
órgãos existentes na pólis.
Isonomia
Isonomia é o conceito mais importante, na medida em
que acaba por englobar os restantes e, por isso,
ocorre nas fontes antigas como sinónimo do tipo de
constituição que coloca o poder no demos ou ‘povo’
(i.e. a democracia). Isonomia significa, à letra,
‘igualdade perante a lei’ (nomos). Em consequência,
todas as pessoas que detêm o estatuto de cidadão
devem poder gozar dos mesmos direitos previstos na
lei, entendida como expressão da vida em
comunidade (pólis) e que representa, por isso, a
garantia de estabilidade no interior dessa mesma
comunidade.
Isegoria
Isegoria, pode ser traduzida por ‘igualdade no acesso
à palavra’ ou, para usarmos a expressão consagrada,
‘liberdade de expressão’. Tratava-se de uma
prerrogativa fundamental para o exercício activo da
cidadania na assembleia, no conselho e nos tribunais
ou então, numa equivalência mais directa do termo,
naquele que era o espaço por excelência da
intervenção pública: a ágora.
E os Gregos anunciavam esse direito através do
recurso a uma fórmula breve, cuja sonora

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simplicidade ainda hoje continua válida e eficaz:
«Quem deseja usar a palavra?».

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