«O

valor
de
uma
civilização
desenvolvimento da sua técnica”.

Descobrir os pressupostos das nossas
opiniões
Por vezes surpreendemo-nos ao tomarmos consciência
de que dissemos algo sem pensar! Pior que isso, há
situações em que nós dizemos o que não pensamos. Ao
escrever isto também acontece, mas aí estamos sempre
a tempo de corrigir as inconsistências dos nossos
pensamentos: devemos reler cuidadosamente o que
escrevemos, corrigindo o texto até estarmos satisfeitos
com a expressão do nosso pensamento.
Eis um exercício simples que nos ajuda a examinar com
detalhe tudo o que é dito através de uma simples frase
que exprime uma opinião (uma tese).
Pressupostos:
1. As civilizações têm um valor menor ou menor
(podem ser hierarquizadas).
2. Podemos julgar o valor de uma civilização.
3. A técnica pode ser mais ou menos desenvolvida
dependendo das civilizações.
4. Podemos emitir juízos sobre o desenvolvimento de
uma civilização.
5. a. Uma civilização pode ser julgada pelo
desenvolvimento da sua técnica.
b. O único critério do valor de uma civilização, é o
desenvolvimento da sua técnica.

julga-se

pelo

Esta frase pequena e ingénua contém, no entanto, oito
opiniões suplementares. E isso ocorre em cada frase de
todos os nossos discursos (englobando aqui a fala e a
escrita).
Examinemo-la:

6. O desenvolvimento das técnicas é um índice do
valor de uma civilização.
7. Uma civilização pode desenvolver-se.
8. As técnicas têm valores diferentes.
Mas quais são então as questões às quais esta opinião
(tese) procura responder?
Questões:
1. O que é que faz o valor de uma civilização?
2. O desenvolvimento técnico é o único critério do
valor de uma civilização?
3. Temos o direito de julgar [as civilizações]?

4. O desenvolvimento técnico traz valor acrescido a
uma civilização? E dentro de que medida?
5. As civilizações são desiguais em valor?
Sócrates não pararia aqui. De certeza que levantaria
as questões seguintes, ainda mais fundamentais:
6. O que é uma civilização?

Atividades:
I. Analise as seguintes teses (opiniões) e descubra
os seus pressupostos. De seguida, identifique as
questões a que elas procuram responder:
I.1. «A filosofia distingue-se dos outros saberes
pela forma como são colocadas as suas questões».
I.2. «O mal não existiria se os seres humanos
não fossem livres».
I.3. «A filosofia e a ciência são saberes
diferentes, mas ambas são saberes racionais».
I.4. «O grafiti só poderá ser considerado uma
forma de arte se produzir nas pessoas um prazer
estético».
I.5. «A existência humana não poderia ter
sentido se não existissem os valores».
I.6. «De todas as ciências humanas a história é a
que é mais subjetiva».
I.7. «Os primatas superiores podem ser
considerados como pessoas, devendo ter direitos
semelhantes aos dos seres humanos».
7. O que é o juízo?
8. O que é o valor em si?

9. A que é que se reconhece o desenvolvimento?
10.
O que é a técnica?
11.
Qual é a utilidade da técnica?
12.
Que técnicas são mais úteis a uma
civilização?
A importância de desenvolvermos o poder e a
força do nosso pensamento
A filosofia convida-nos a pensarmos por nós próprios,
quer dizer, a sairmos das opiniões pré-fabricadas (os
preconceitos), a desconstruí-las para as examinar em
profundidade. Podemos de certo continuar a opinar
favoravelmente ou não a favor dessa tese que afirma
que «o valor de uma civilização se julga pelo
desenvolvimento da sua técnica», mas distinguiremos o
filósofo daquele que se mantém na comodidade das suas
crenças habituais. O filósofo está sempre pronto a
espantar-se de novo examinando as suas questões, de
cada vez que essa afirmação é formulada e a encarada a
nova luz segundo o contexto em que ela aparecer. Já o
segundo, o homem do senso comum, contentar-se-á com
opiniões já feitas, cómodas e atraentes. Mas, como o
maratonista que quer aumentar as suas capacidades
físicas não conta os passos que dá nos seus treinos,
também o filósofo desenvolverá a força do seu próprio
pensamento
exercendo-se
sem
descanso
no
questionamento.
François Brooks, www.philo5.com
Texto traduzido e adaptado por Paulo Gomes

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