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Mito ou Verdade?

+ Gleiser

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

A coroação da razão humana seria revelar o plano da Criação

Quando resolvi que seria físico, tinha em mente um caminho bem


claro: queria participar da busca pelas leis que estão por trás de
tudo o que existe na natureza, as leis que ditam desde a origem do
Universo até o comportamento dos átomos e das partículas de
matéria.

Inspirado por livros como "A Evolução da Física", de Leopold Infeld


e Albert Einstein, entendi que essa era a grande crença das
ciências físicas, que a diversidade do mundo é uma ilusão dos
sentidos. Ocultas entre as aparências estão essas leis
fundamentais, esperando para serem descobertas.

O ápice do conhecimento, a coroação da razão humana, seria


revelar o plano da Criação. Como escreveu Stephen Hawking em
"Uma Breve História do Tempo", a descoberta dessas leis, da
unificação de todos os processos naturais, seria equivalente a
conhecer a "mente de Deus".

Não há dúvida que esse "Deus" de Hawking é uma metáfora, que


ele não se referia ao Deus judaico-cristão.

Sendo esse o caso, que Deus é esse? Por que cientistas como
Hawking e o Prêmio Nobel Steven Weinberg, por que imortais como
Einstein e os arquitetos da física quântica Max Planck, Erwin
Schrödinger e Werner Heisenberg dedicaram tantos anos de suas
vidas à busca dessa teoria unificada? Por que milhares de físicos
hoje continuam essa busca, convictos de que essa unificação
existe? Tudo começou, como sempre, na Grécia antiga. Os filósofos
da escola de Pitágoras, famoso pelo teorema dos triângulos
retângulos (que, aparentemente, ele não inventou), acreditavam
que a essência da natureza era matemática: os números, e as
relações entre eles, descrevem tudo o que ocorre. O objetivo da
filosofia era entender como. Segundo os pitagóricos, números e
geometria eram inseparáveis.

O exemplo do triângulo torna isso claro, já que os comprimentos


dos três lados do triângulo são dados por números relacionados por
uma equação.

Formas e números, portanto, expressam a realidade.


O grande filósofo Platão abraçou a idéia dos pitagóricos e foi além.
Segundo ele, a geometria era o caminho da verdade. A essência da
realidade era geométrica e só podia ser contemplada pela mente.
Simetria passou a ser sinônimo de beleza e de verdade.
Para Platão, o arquiteto divino do cosmo (que ele chamou de
Demiurgo) era um geômetra.

Chegando ao século 17, Galileu, Kepler e, mais tarde, Newton


abraçaram a geometria como a língua da natureza. Os "Principia", a
obra em que Newton elabora os princípios da mecânica e a lei da
gravidade, são escritos como um tratado geométrico. Inspirados
pelo sucesso desses patriarcas, os físicos abraçaram o conceito de
simetria platônico: por trás da diversidade dos fenômenos naturais,
além das distorções de nossa percepção da realidade, há uma
ordem que pode ser expressa em termos matemáticos. Essa ordem
é a expressão máxima da verdade e cabe ao cientista desvendá-la.

É ela a "mente de Deus". (Literalmente, para Kepler e Newton.)


Não há dúvida de que a idéia de simetria serviu bem à física. Ainda
serve. Ela simplifica as equações: o Sol pode ser tratado como uma
esfera, mesmo que não seja. Mas a avidez com que a idéia de
unificação de tudo é buscada indica algo mais profundo.

No curto espaço dessa coluna, afirmo apenas que ela é diferente da


idéia de que simetrias são boas aproximações para descrever o
mundo natural. Não encontramos (ainda) indícios de que ela exista.
Talvez porque seja mesmo muito sutil, ou talvez porque seja uma
ilusão, um mito.

Seria herético imaginar que a natureza não se presta às nossas


expectativas de ordem?
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2206200804.htm

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Livros recomendados::mg

“O fim da Terra e do Céu”, O apocalipse na Ciência e na


Religião, Marcelo Gleiser, 336 páginas, Editora Companhia
das Letras, Rio de Janeiro, 2002.
www.companhiadasletrinhas.com.br/

“Cartas a um Joven Cientista”, O Universo, a vida e outras


paixões, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, RJ, Editora
Elsevier, 2007.

“Poeira das Estrelas”, De onde viemos? Para onde vamos?


Estamos sozinhos no Universo?, Marcelo Gleiser (Textos de
apoio: Frederico Neves), São Paulo, SP, Editora Globo, 2006.

“A Harmonia do Mundo”, Aventuras e desventuras de


Johannes Kepler, sua astronomia mística e a solução do
mistério cósmico, conforme reminiscências de seu mestre
Michael Maestlin. Marcelo Gleiser, São Paulo, SP, Editora
Companhia das Letras, 2006.

“Micro Macro”, Marcelo Gleiser, Publifolha.

“Micro Macro 2”, Marcelo Gleiser, "Micro Macro 2" é uma


reunião das colunas de Marcelo Gleiser, publicadas no
caderno "Mais!" da Folha de S.Paulo de 2004 a 2007.
Publifolha.

“O Livro do Cientista”, Col. Profissões. Marcelo Cipis /


Marcelo Gleiser, Companhia das Letrinhas.

“Mundos Invisíveis: da Aquimia à Física de Partículas”.


Marcelo Gleiser, 288 páginas. Editora Globo, 2008.
Depois do sucesso de Poeiras nas Estrelas, o físico Marcelo
Gleiser lança seu novo livro Mundos invisíveis: Da alquimia à
física de partículas, pela Editora Globo. Nesta obra, o autor
analisa os fenômenos físicos do micro para o macro,
partindo das subpartículas do átomo para desvendar o
universo. Para explicar tudo isto, Gleiser parte da simples
pergunta: Do que tudo é feito?. Logo nas primeiras páginas,
o escritor nos apresenta a frase O essencial é invisível aos
olhos, de Antoine de Saint-Exupéry, sugerindo a idéia de que
geralmente não prestamos muita atenção naquilo que está
ao nosso redor.Posteriormente, ele explica ao leitor como a
partir da simples observação de um fenômeno natural, ou de
algo que intrigava as pessoas, foi possível chegar às
principais descobertas do conhecimento.Ao longo de dez
capítulos, Gleiser, autor também de um quadro no programa
Fantástico, da Rede Globo, aborda os principais
questionamentos da ciência na história. A busca do elixir da
vida pelos alquimistas, os estudos sobre o cosmo, a
eletricidade e o magnetismo e a fascinante teoria da
relatividade são alguns dos temas abordados no livro.
Com exemplos e analogias simples, presentes no nosso
cotidiano, Gleiser explica as descobertas e experimentações
de estudiosos como Aristóteles, Isaac Newton e Albert
Einstein, na busca de desvendar um mundo invisível que
determina a composição de tudo o que existe na natureza.
Além de fotos e ilustrações, que enriquecem as teorias
apresentadas, a obra também conta com textos de apoio,
escritos pelo jornalista Frederico Neves.Desde o
pensamento de Nicolau Copérnico, para quem o Sol, e não a
Terra, era o centro do cosmo, até o surgimento da bomba
nuclear, na Segunda Guerra Mundial, o autor propõe uma
espécie de viagem no tempo para contar a história dos mais
antigos mestres da ciência e seus discípulos - pessoas que
foram capazes de trazer grandes descobertas para a
humanidade.O livro é essencial para todos aqueles que
querem conhecer os estudiosos que, movidos pela
curiosidade e pelo seu espírito criativo, foram corajosos o
suficiente para desafiar todos os conceitos de sua época e
quebrar paradigmas.

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