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G LO B A L I Z AÇÃO E G LO C A L I ZA Ç Ã O : P R O B L E M A S P A R A P A Í S E S
E M D E S E N VO L V I M E N T O E I M P L I C A Ç Õ E S P A R A P O L Í T I C A S
SUPRANACIONAIS, NACIONAIS E SUBNACIONAIS

Marc Humbert

7.1 I NTRODUÇÃO
“Globalização” é um termo que tem sido amplamente empregado pelos
cientistas sociais. A quantidade de livros publicados em inglês com a palavra
“global” é um bom indicador desse consenso de se analisar a mesma realidade
com o mesmo vocabulário. O número era zero em 1940, 82 em 1950, 303 em
1960, 1.766 em 1970 e 4.496 em 1980 (Worthington, 1993, p. 177), quando
eu comecei (ver, por exemplo, Humbert, 1981) a enfatizar a necessidade dos
estudos de economia e política do desenvolvimento de lidarem com a seguin-
te restrição: a produção passível de ser qualificada como sendo “industrial”
deve ser, em toda parte, inserida no sistema global ou mundial, um sistema
que era, e ainda é, envolvido em uma incessante evolução tecnológica. Entre as
implicações dessa preposição, duas são de extrema importância, mas são por
demais inquietantes para obterem um reconhecimento mais amplo dos cien-
tistas que estudam temas associados ao desenvolvimento:
• a desconexão da produção industrial com o “capitalismo” ou o “centro”
é uma ilusão, pois a indústria faz parte de um sistema mundial ou
global;
• a tentativa de copiar a estrutura de uma economia industrial ultra-
passada é tolice, pois a indústria não é uma estrutura, mas sim uma
dinâmica, isto é, a construção de uma trajetória de mudança técnica
e evolução estrutural.
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Quanto às políticas públicas, essa perspectiva levou a severas críticas às


tradicionais “políticas de desenvolvimento ou de industrialização”, especial-
mente aquelas perseguidas na América Latina sob a égide da substituição das
importações e de acordo com a “teoria da dependência”: elas se constituíam
apenas em mais políticas “comerciais ou macroeconômicas” que não consi-
deravam a base sobre a qual as indústrias podem crescer. As experiências das
economias fechadas do Leste Europeu, de 1917 a 1989, e até mesmo a recons-
trução das indústrias siderúrgicas do pré-guerra na Europa, durante os anos
1950 e 1960, foram igualmente criticadas.
O meu pensamento destrutivo tem sido recebido como uma apologia da
globalização, assim como tem sido para Emmanuel (1981), convidando os
países do Terceiro Mundo a se aproveitarem do conhecimento tecnológico das
multinacionais para construir uma indústria em seus territórios. A lógica de
Emmanuel já estava em sintonia com a idéia de glocalização: utilizar as dinâ-
micas globais para alimentar as locais. Tenho compartilhado com ele a perspec-
tiva pragmática e cínica segundo a qual o verdadeiro critério da eficiência de
qualquer política – não importando quais as suas denominações ou os atores
envolvidos – é o seguinte (ver, por exemplo, Humbert, 1984): essas medidas
ou ações são capazes de gerar melhorias significativas na capacidade produtiva
da comunidade?
O critério de capacidade produtiva é baseado em List (1841, edição fran-
cesa, 1854, p. 239): “O poder de criar riqueza é mais importante do que a
própria riqueza (...) o bem-estar do povo não depende – como acreditava Say –
da quantidade de bens e de valores comercializáveis que possui, mas do nível
de desenvolvimento de suas forças produtivas”. Enfatizamos a importância da
capacidade de mudança técnica que se constitui em um componente podero-
so, o motor do desenvolvimento da força produtiva. Em âmbito coletivo, isto
pode ser denominado capacidades sociais para mudança técnica ou inovação
(ver Humbert, 1997). E o processo de elevação do nível de desenvolvimento
das forças produtivas no interior de uma comunidade é um processo de apren-
dizado.
Uma apresentação minuciosa de todo esse quadro conceitual envolveria o
detalhamento de um número relativamente grande de conceitos e abordagens
originais que foram desenvolvidos em trabalhos anteriores, tais como:
• análise sistêmica aplicada às ciências sociais;
• nações ou regiões como sistemas sociais;
• indústrias e empresas como mesossistemas de produção híbridos;
• competição sistêmica entre empresas e nações.

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Não obstante, esse quadro conceitual é compatível e coerente com diver-


sos conceitos e resultados de outras teorias heterodoxas como economia evo-
lucionária ou economia neo-schumpeteriana. Dessa forma, este artigo não fará
uma apresentação detalhada do quadro conceitual, mas apenas apresentará o
necessário para convencer o leitor do seguinte argumento: para alcançar o obje-
tivo de industrialização, faz-se necessária uma política governamental voltada
para a glocalização da tecnologia, nos níveis nacional, subnacional e supra-
nacional.
Assim, duas seções antecedem as recomendações para as políticas públi-
cas. Na primeira, seção 7.2, argumentamos que a tecnologia e a indústria são
globais e estão mudando, utilizando o conceito de sistema industrial global.
Na seção 7.3, focalizamos as principais lições que podem ser inferidas de uma
implicação crucial subjacente à afirmação anterior: a industrialização depende
da dinâmica dos processos de aprendizado localizados; nesse ponto, podemos
nos valer do conceito de capacidade social para mudança.

7.2 A TECNOLOGIA E A INDÚSTRIA SÃO GLOBAIS E ESTÃO


MUDANDO : O S ISTEMA I NDUSTRIAL G LOBAL (SIG)
A arena industrial global é a única área onde as mais avançadas tecnologia
e indústria estão disponíveis, mas essa não é uma área de recreação. Primeira-
mente explicaremos como e por que a tecnologia e a indústria são globais, e
depois como é possível entrar nesta arena.

A ARENA GLOBAL DA TECNOLOGIA E INDÚSTRIA

É um fato que qualquer grupo de pessoas, qualquer comunidade, socieda-


de ou sistema social se depara com o mesmo e único sistema físico disponível
para subtrair dele a criação de recursos produtivos por meio da inovação ou
mudança tecnológica e de produção. A divisão espacial do planeta em muitos
territórios não extinguiu as “leis naturais” da física. Não importa o lugar onde
o sistema social está, ele tem de lidar principalmente com condições e leis
físicas que não são de origem local, com características da natureza que não são
locais. Essas características independem da especificidade de determinado sis-
tema social, independem da política, cultura, ética etc. A natureza também
inclui a dimensão biológica do homem, da morfologia à genética; por enquan-
to, existe apenas uma espécie. Dessa forma, a inovação e os processos de produ-
ção são construídos a partir da interação entre sistemas sociais e, digamos,
phusis, como uma base mais ou menos comum para todos os sistemas sociais.
Uma entre diversas implicações desta afirmação é que a ciência, a descoberta e
a explicação das leis naturais são universais, e que a maioria das inovações ocor-

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reu no passado, em muitos locais simultaneamente, e tem conseguido se di-


fundir em sistemas sociais muito diferentes em vários aspectos: político, ético,
cultural etc. Podemos lembrar ainda que, em qualquer parte da Terra, os ho-
mens esculpiram pedras, acenderam o fogo, plantaram sementes, construíram
paredes de adobe, usaram enxadas para arar a terra, machados para cortar as
árvores, óculos para ver, bicicletas para se locomover, aspirina para se tratar,
telefones para se comunicar, computadores, aparelhos de tevê, hambúrgueres.
Entretanto, todos esses artefatos podem ser moldados com um desenho-de-
produto estético local; a forma como são usados e a sua posição dentro das
organizações são específicas de cada sistema social.
Dessa forma, devemos criar categorias distintas de processos envolvendo o
sistema social quando os processos sociais interagem com a natureza: neste
caso, emerge uma espécie de sistema híbrido com características tanto naturais
quanto sociais. As interações entre os processos sociais e a natureza, visando à
produção mais eficiente de um objeto que possa satisfazer uma necessidade
social, dão origem a algo que pode ser denominado de um mesossistema
tecnoindustrial. Este é parcialmente um sistema híbrido entre a sociedade e a
física. Também é parcialmente um sistema intermediário, no sentido de que
não envolve todo um sistema social com objetivos sociais gerais, mas sim um
grupo menor – ou ao menos diferente – de interações; não uma comunidade
social por inteiro, mas apenas a comunidade de atores relevantes para a finali-
dade produtiva de determinado mesossistema.
Para descobrir qual a comunidade relevante de atores, devemos seguir
uma abordagem de baixo para cima, iniciando com um processo elementar de
produção ou de inovação. Aparentemente, em comunidades com um sistema
de emprego relativamente fechado, com uma aglomeração de empresas inter-
relacionadas, os processos de inovação baseados essencialmente em relações
entre usuários e produtores podem florescer, embora as limitações de tais pro-
cessos locais sejam óbvias. As relações entre usuários e produtores, dentro de
uma área restrita, serão eficientes para inovações incrementais, para a difusão
de processos desenvolvidos em outra parte, mas não conseguirão dar origem a
processos inteiramente novos. Desde o final do século XIX, as principais estru-
turas de produção têm sido construídas a partir de tecnologias nutridas pela
ciência e pelo conhecimento científico e as interações em larga escala, impli-
cando uma esfera muito maior que um espaço geográfico limitado, com rela-
ções entre usuários e produtores.
Como devemos considerar inovações como o transistor, o microprocessador,
o trem de alta velocidade, ou o avião a jato? Devem ser atribuídas à área admi-

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nistrativa onde está situado o laboratório que registrou a patente ou à organiza-


ção que produziu a primeira unidade? Se considerarmos o processo social que,
em cada caso, levou a uma inovação, perceberemos claramente que as interações-
chave envolveram pessoas, instituições e funções sociais trabalhando em escala
pelo menos nacional, e não em uma área estreitamente delimitada.
Existe um amplo consenso de que na produção e na tecnologia traçaram-
se caminhos “nacionais” – o modelo americano, o modelo germânico, o mode-
lo britânico, o modelo japonês. Na maior parte dos campos de avanço técnico,
durante o século XIX e talvez até a Segunda Guerra Mundial, os atores ou
comunidades de atores relevantes no trabalho eram preponderantemente de
origem nacional. Entretanto, no passado houve exemplos de comunidades re-
levantes internacionais. De acordo com Nelson e Rosenberg,
(...) o desenvolvimento do rádio implicou uma atividade transnacional, envolven-
do inventores e empresas na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Europa,
todos construindo em cima do trabalho dos colegas. O desenvolvimento das fibras
sintéticas foi resultado de transações internacionais similares (...) [de modo] que a
idéia de que existia, nessas áreas, comunidade tecnológica quase isolada, não parece
ser correta. (1993, p. 17)
De acordo com Bartholomew (1997), isso se verifica no desenvolvimento
de biotecnologias: a tentativa de aplicar o conceito de sistema nacional de
inovação, de forma estrita, não é relevante. Existem tantas interações no âmbi-
to mundial que, para essa autora, aparentemente há um sistema global no qual
empresas e sistemas nacionais encontram-se em interdependência complexa.1
Essa observação sobre uma variedade de exemplos de processos de inovação
leva a uma afirmação-chave feita por Nelson e Rosenberg (1993, p. 15): “As
interações importantes, as redes, não são as mesmas em todas as indústrias ou
tecnologias”. É amplamente aceito que a intensidade das atividades de inova-
ção varia significativamente nas distintas indústrias. Além do mais, existe um
forte argumento que dá apoio a essa idéia, segundo o qual os processos de
inovação e de produção não são apenas uma parte do funcionamento de um
sistema nacional de inovação, mas dependem de características específicas da
indústria, que são, até certo ponto, associadas à natureza da indústria.
Isso significa que, no interior de determinada indústria, existe algum tipo
de semelhança entre a maior parte das redes tecnoeconômicas, e estas provavel-
mente têm laços, mesmo que fracos, entre si; é isso que está moldando as
indústrias. Nelson trouxe elementos que nos convenceram de que cada indús-
tria se beneficia de uma estrutura específica e de uma forma singular de traba-
lhar, e portanto podemos considerar cada indústria como sendo um mesos-
sistema. Ele afirma que

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(...) agora é possível começar a ver as indústrias de uma forma mais complexa, como
sistemas envolvendo uma mistura de instituições, algumas privadas e algumas
públicas (...). A orientação aqui deve ser entendida não como uma alternativa para
um foco nas empresas, ou no clima macroeconômico, mas como um nível de
análise situado entre essas duas dimensões e que seja complementar a ambos.
(Nelson, 1991, p. 19)
Isso representa claramente um forte apoio para a análise da indústria em
termos de mesossistemas.
A maior parte das indústrias líderes, que estão redesenhando o mundo
industrial por meio da sua evolução e das suas interações, tem algumas caracte-
rísticas em comum. Elas são intensivas em tecnologia e possuem redes que
cruzam fronteiras; suportam uma competição acirrada entre algumas poucas
empresas gigantes que disputam mercados mundiais; o comércio internacional
e o comércio intrafirmas representam uma grande parte da produção e crescem
rapidamente; os fluxos internacionais de investimento são crescentes; não ape-
nas as joint ventures, mas também as alianças e os acordos internacionais são
cada vez mais numerosos; os governos atuam de forma a incentivar a transfor-
mação do aparato de produção localizado em seu território, atraindo o investi-
mento estrangeiro direto, subsidiando alguns atores locais, elaborando políti-
cas estratégicas para o comércio, a indústria e a tecnologia e assim por diante.
Toda indústria apresenta essas mesmas características gerais, mas cada
uma com um tempero especial no âmbito mundial. Isso é ilustrado, no caso
dos fluxos internacionais de capital, pelo notável paradoxo vis-à-vis a teoria
ortodoxa de comércio internacional. Em vez de fluxos de capitais intranacionais
entre uma indústria e outra, em busca de maiores taxas de lucro, dentro de um
quadro de imobilidade internacional do capital, as empresas estão se concen-
trando em seu negócio principal e são as fontes de investimento internacional
em seus próprios negócios. Assim, as empresas químicas estão investindo, no
âmbito mundial, em materiais químicos e é muito raro que uma empresa in-
vista em indústrias distintas do seu próprio negócio, dentro do seu país. Existe
algum tipo de lei internacional trabalhando para cada uma dessas indústrias
e, portanto, elas formam mesossistemas no âmbito mundial e interações en-
tre esses distintos mesossistemas moldam a trajetória tecnológica e industrial
mundial.
O que significa hoje em dia o termo industrial? A sua definição – isto é, as
características das estruturas e interações do aparato de produção necessárias
para que uma sociedade seja denominada industrial – evoluiu ao longo dos
anos, décadas, séculos. No nível mais elevado de complexidade temos o mesos-

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sistema industrial global, formado pela interação de empresas e indústrias,


governos e diversas instituições relevantes com atores estratégicos do campo de
batalha industrial no qual a competição global é travada. Em um nível mais
baixo de complexidade, sistemas mesoindustriais são dedicados à tecnologia e
à produção de um produto específico. Trata-se de um complexo de empresas,
atores (incluindo governos e outras instituições), ações, redes e outros relacio-
namentos que moldam uma organização existente e em evolução, cujo traba-
lho leva à manufatura de produtos em uma indústria mundial: eletrônicos, au-
tomóveis etc. A figura 7.1 é uma tentativa de ilustrar esta abordagem.

FIGURA 7.1
UMA ABORDAGEM PARA A ANÁLISE DA INTERAÇÃO ENTRE O SISTEMA INDUSTRIAL
GLOBAL E O SISTEMA SOCIAL NACIONAL.

Fonte : Humbert, 1994: 456.

Verticalmente, o sistema industrial global está trabalhando e evoluindo


em uma direção mundial e configurando uma trajetória mundial. Essa trajetó-
ria tecnoindustrial geral é a combinação das trajetórias tecnoindustriais dos
seus subsistemas ou mesossistemas, como eletrônicos ou automóveis. Em um

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dado momento, o papel de um ou de outro subsistema é diferente, e fica claro


que a eletrônica, em sentido mais amplo, tem interagido nas últimas décadas
com todos os outros sistemas mesoindustriais de forma a provocar uma pro-
funda transformação desses sistemas: os automóveis e a produção de automó-
veis estão repletos de eletrônicos e quase todas as indústrias estão sendo rees-
truturadas pelo uso das tecnologias de comunicação e informação (TICs). Con-
forme observado por Cassiolato (1999), sem essas tecnologias, os países em
desenvolvimento se tornarão passivos e dependentes no processo de globalização. 2
Mas o simples uso de tais produtos ou tecnologias é insuficiente. As nações
devem procurar produzir tecnologias e manufaturar produtos em seus pró-
prios territórios. Isso já estava previsto nas políticas de substituição das impor-
tações: parar de importar manufaturados dos países industrializados e iniciar a
produção desses bens industriais em casa. É verdade que muitos países implan-
taram um conjunto de indústrias manufatureiras em seus territórios.
Horizontalmente, a figura 7.1 mostra como qualquer sistema social de
Estado-nação dirige e regula o máximo possível um sistema de produção
territorial. De acordo com diversos observadores, na maioria dos países, o siste-
ma social entraria em colapso se fosse separado dos outros. No entanto, em
muitos países, o sistema social não está interagindo suficientemente com os
outros, e assim se ressente da falta de acesso a equipamentos, produtos e tecno-
logias para um funcionamento atualizado. Em suma, a sua estrutura produtiva
parece não estar realmente ligada ao sistema industrial global. Seu aparato pro-
dutivo não está estagnado, mas não evolui no mesmo passo do sistema global;
sob os constrangimentos do seu sistema social de Estado-nação e na ausência
de relacionamentos nutridores do sistema industrial global, esses países se tor-
nam pouco a pouco obsoletos.
Assim, alguns territórios perdem terreno enquanto outros tomam a lide-
rança. Quando a articulação entre o sistema tecnoindustrial global e o sistema
social de Estado-nação é ortogonal, o resultado é o pior possível. É como se
fossem dois vetores: o seu produto é zero. Essa analogia é relacionada com o
nível relativo de desenvolvimento das forças produtivas ou o nível de indus-
trialização. Uma estrutura de produção completamente autônoma e indepen-
dente do sistema industrial global alcançará esta posição após algumas déca-
das. Esse é o caso de alguns países que foram excluídos da evolução industrial
mundial; isso vale tanto para os que não escolheram ser excluídos, como alguns
países da África subsahariana, quanto para aqueles que escolheram se des-
conectar, como os países do Leste Europeu e a China, que decidiram voltar à
cena nos anos 1990.

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Inversamente, os países na liderança são bem conectados no sistema in-


dustrial global e a direção da evolução do seu aparato produtivo é paralela
àquela do sistema industrial global. Assim, no topo, alcançam um nível de
industrialização excelente: grau 1, como no caso de produto escalar de vetores
paralelos. Isso está ilustrado na figura 7.2.

FIGURA 7.2
NÍVEL DE INDUSTRIALIZAÇÃO COMO RESULTADO DA ARTICULAÇÃO A O SISTEMA
INDUSTRIAL GLOBAL.

Obs.: k = nível de industrialização k ∈ [0,1]


rr
k i = g. ti a = territórios na dianteira
b = territórios atrasados

Na realidade, a maioria dos países não está no nível zero, nem no nível
um, mas entre os dois, e todos os países estão trocando de lugar, alguns em
ascensão ou catching-up, outros declinando ou se desindustrializando.
Quando um país compreende que é na arena global industrial que a tec-
nologia e a indústria mais atualizadas estão disponíveis, ele se predispõe a en-
trar nessa arena. A promoção neoliberal da globalização é um claro apelo ao
desmantelamento de todas as barreiras para que o aparato produtivo de qual-
quer país se torne aberto ao ingresso de qualquer ator do sistema global, e para
que todos os países se tornem plenamente integrados ao sistema industrial
global.

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7.3 A B ATALHA DO CATCHING -UP N O S ISTEMA I NDUSTRIAL


G LOBAL (SIG)
Alguns países latino-americanos escolheram, a partir dos anos 1940, se
manter relativamente autônomos do sistema industrial global e, enquanto isso,
alguns países do Leste asiático perseguiram uma estratégia mais aberta; nos
anos 1990 tornou-se evidente que as dificuldades do primeiro e o sucesso do
segundo grupo de países poderiam estar associados a esta opção: estarem ou
não abertos ao sistema industrial global.
Desejando reverter as tendências passadas, alguns países latino-america-
nos mudaram de idéia. “O velho tema do ianque invasor cedeu espaço para a
idéia do maravilhoso ianque dirigindo o trem global no qual você deve embar-
car imediatamente ou estará liquidado!”3 Esse novo lema parece ter sido adota-
do pelo ex-chefe de Estado brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Apesar de
ter sido um protagonista da teoria da dependência, ele afirmou que “o ingresso
na economia global é a única opção. Se não fizermos isso, não temos jeito de
competir (...) não é uma imposição externa. É uma necessidade que temos”.4
A realidade é que as trajetórias seguidas por esses dois grupos de países
têm sido quase que opostas. Diaz (1998) calculou um índice de catching-up
que corresponde ao desvio algorítmico da fronteira mundial (uma média con-
siderando o desempenho dos países líderes: EUA, Japão, Alemanha, Reino
Unido e França). A figura 7.3 apresenta os resultados, e a evolução da produti-
vidade da indústria manufatureira como um todo: uma seta indica a trajetória
para cada país. A base da seta é o valor do índice em 1970 no eixo horizontal e
o valor de 1980 no eixo vertical. O topo da seta representa o valor de 1980 no
eixo horizontal e o valor de 1990 no eixo vertical. Dessa forma, um ponto na
diagonal significa estabilidade (o mesmo desvio padrão, baixo ou alto); acima
da diagonal, representa o efeito de perder terreno (falling-behind), aumentan-
do o atraso, e o índice é crescente; abaixo da diagonal, representa o efeito de
catching-up, e o índice é decrescente. Para cada ano em que a fronteira mundial
é diferente, os países sem atraso em relação à fronteira mundial seriam repre-
sentados por um ponto na origem do eixo.
Aqui vemos claramente um movimento de catching-up pela Coréia e por
Taiwan e um falling behind pela Argentina, Brasil e México. Entretanto, o
desvio estatístico neste índice é menor para a Argentina e o México do que para
a Coréia e Taiwan; em contraste, o Brasil é ultrapassado pela Coréia, quase
alcançado pelo México, e recém-alcançado por Taiwan.
Essa evolução contrastante entre os dois grupos de países – principal-
mente o chamado milagre asiático – tem impressionado os observadores; nos
anos 1980 havia alguma convergência entre esses países. Por um lado, críticos

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FIGURA 7.3
T RAJETÓRIAS DA INDÚSTRIA MANUFATUREIRA ENTRE 1970 E 1990.

Fonte : Diaz, 1998: p. 113.

marxistas negam que houve qualquer industrialização, argumentando que há


apenas uma possibilidade de inclusão no domínio das multinacionais se expan-
dindo para além do seu país (capitalista) de origem. Por outro lado, os ideólogos
liberais afirmam que há uma clara indicação de que a abertura é a chave para o
ingresso no clube dos países industrializados.
Na realidade, não é tão simples assim. O catching-up dos países asiáticos é
resultado de uma dura batalha entre indivíduos, empresas e governos: o sistema
industrial global não é um pátio de recreação; mas pode ser considerado como
um campo de jogo no qual se pode ganhar ou perder. Não há jogo de soma
zero. A melhoria da capacidade industrial é o que está em jogo para um dado
país. Uma forte proteção do sistema industrial global pode garantir uma inde-
pendência relativa, mas isso representa uma “independência sórdida” (Humbert,

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1988). As dinâmicas endógenas podem obter algum sucesso, mas, após algu-
mas décadas, a lacuna entre o aparato produtivo de determinado Estado-nação
e a média do sistema industrial global se alarga tanto, que a regulação social
não consegue manter o país fechado: as forças internas demandam um melhor
desempenho do aparato produtivo e a abertura é requerida como solução. En-
tretanto, a abertura por si só não é uma solução; traz uma ilusão e uma “depen-
dência lastimável” (ibid.). Ingressar no sistema industrial global não é simples;
a melhor analogia é entrar em uma arena de touros, e não subir a um palco
para receber aplausos e flores. O sistema industrial global, produz brisas fres-
cas, mas também tempestades; e um aparato produtivo frágil será parcialmen-
te destruído e se tornará incapaz de desempenhar o seu papel dentro do siste-
ma social, e ninguém no mercado global irá cuidar da sociedade órfã.
Os países que obtiveram algum sucesso não apenas abriram suas econo-
mias. Ao contrário, conforme mostrado por Rodrik,
(...) as economias que tiveram sucesso foram aquelas cujos governos fizeram uma
grande variedade de coisas não apenas bem-feitas, mas simultaneamente. Eco-
nomias bem-sucedidas são aquelas que combinaram um certo grau de abertura
com políticas favoráveis ao investimento, à estabilidade macroeconômica, e ao
gerenciamento prudente dos fluxos de capital. Os países que privilegiaram apenas
um desses fatores tipicamente viram as suas economias cambalearem no longo
prazo. A lição é simples, mas é freqüentemente desconsiderada (...) os políticos
precisam compreender que a integração na economia mundial por si só provavel-
mente não trará crescimento a longo prazo (...). As nações em desenvolvimento
têm de se engajar na economia mundial de forma que isso esteja de acordo com os
seus próprios termos e condições, e não de acordo com os termos impostos pelo
mercado global ou pelas organizações multilaterais. (1999, p. 19)
O contexto macroeconômico é muito importante, pois a abertura é pri-
meiramente uma política comercial, mas a industrialização é primeiramente a
habilidade de produzir com tecnologia de fronteira. Dessa forma, além das
observações macroeconômicas de Rodrik, é importante considerar o que é dito
sobre a tecnologia. De acordo com Archibugi e Iammarino,
(...) a globalização da inovação requer, portanto, uma expansão do portfólio de
políticas públicas (...) são necessárias políticas públicas para uma gama muito mais
ampla de assuntos, para que os países possam melhor explorar as oportunidades
associadas com a globalização da inovação e diminuir os riscos dos perdedores e
ganhadores. (1999, p. 333)
De acordo com Diaz (1998), a dimensão tecnológica é, conforme assina-
lamos em nosso quadro teórico, crucial, e esta também é a opinião de autores
como Nelson e Pack:

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A assimilação da tecnologia foi um componente crítico do milagre asiático (...)


aprender a utilizar novas tecnologias e a funcionar efetivamente em novos setores
exigiu o desenvolvimento de um novo conjunto de capacidades, novas formas de
organizar a atividade econômica e a familiarização e criação de competências para
atuar em novos mercados. Esse aprendizado não é uma tarefa rotineira, envolve o
empreendedorismo de risco e o bom gerenciamento. (1999, p. 417-418)
Concordamos plenamente com esta avaliação, e tentaremos, a seguir, defi-
nir o desafio técnico e saber como se desenvolvem empresas competentes, conside-
rando à parte outra dimensão crucial: como tornar essas empresas competitivas
em mercados globais.5

7.4 O S PROCESSOS D E APRENDIZADO DINÂMICO S Ã O


LOCALIZADOS : A S CAPA CIDADES S O C I A I S PARA A MUDANÇA
TÉCNICA

O catching-up industrial da economia de um Estado-nação não pode ocor-


rer sem um deslocamento significativo em suas capacidades para a mudança
técnica. A avaliação dessas capacidades deve considerar a esfera nacional, o que
faremos em primeiro plano. A seguir, tentaremos abrir a caixa preta: essas capa-
cidades são construídas concretamente por processos de aprendizado dinâmi-
cos, mas existem processos verdadeiramente localizados.

A EVOLUÇÃO DAS CAPACIDADES SOCIAIS PARA A MUDANÇA TÉCNICA


A nova era econômica é plenamente reconhecida como sendo governada
pela globalização e pelo conhecimento. É, portanto, óbvio, como tem sido
mostrado por diversos autores, que existe um
(...) papel estratégico de três conceitos: informação, conhecimento e aprendizado.
(...) A relação entre os três conceitos é forte: os processos de aprendizado, em suas
várias instâncias, resultam na acumulação de conhecimentos; estes sustentam teo-
ricamente os avanços científicos, técnicos e organizacionais que, codificados em
vários formatos informacionais, introduzem inovações que irão continuamente
transformar o sistema econômico. Em uma era de transição entre paradigmas
tecnoeconômicos, sujeita a transformações radicais e envolvendo, justamente,
tecnologias e atividades intensivas em informação, a simbiose com processos de
acumulação de aprendizado e conhecimento é absolutamente indispensável. Caso
contrário, as divisões entre indivíduos, empresas e organizações, países e regiões
irão se ampliar e consolidar. (Lastres e Ferraz, 1999, p. 54-55)
Assim, os gastos em P&D, patentes e patenteamento desempenham um
papel muito importante (Humbert, 1993). A seguir, examinaremos as diferen-
ças entre alguns países latino-americanos e asiáticos nesse campo de patentes e

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de gastos em P&D, e em seguida avaliaremos o nível geral de evolução das


capacidades sociais devidas ao aprendizado nacional nos dois grupos de países,
de 1940 até os anos 1990.

PATENTES E INVESTIMENTOS EM P&D


As patentes são um resultado da atividade tecnológica e são concedidas
em determinado território para solicitantes que podem ser residentes ou não.
Até o final dos anos 1980, o número de patentes concedidas na Coréia não era
superior ao do Brasil. Entretanto, o número de solicitantes de origem domés-
tica era mais elevado: 30% na Coréia em 1989 e apenas 5% no Brasil. Não sei
se Maldonado está totalmente correto quanto ao papel desempenhado pelas
multinacionais, não obstante concordarmos plenamente com a sua asserção
quanto à relativa exclusão do Brasil (e da Argentina e do México também) da
globalização da tecnologia.
O material empírico analisado nos leva a concluir pela exclusão do Brasil dos
fluxos globais de geração de tecnologia, quer em relação à limitada e decrescente
realização de atividades tecnológicas pelas multinacionais no país, quer pela extre-
mamente reduzida participação de empresas brasileiras nos fluxos de colaboração
global de tecnologia. (Maldonado, 1999, p. 117)
Maldonado prossegue:
As evidências indicam que, no caso brasileiro, as multinacionais vêm desenvol-
vendo estratégias de comercialização e exploração de suas tecnologias no território
nacional via licenciamento e, ao mesmo tempo, protegendo-as, através do depósito
de patentes no país. (Ibid., p. 112)
Nota-se claramente um problema no comportamento das empresas multi-
nacionais, mas, antes de aprofundar este tópico, vamos explorar a divisão entre
alguns países latino-americanos e dois países asiáticos.
A figura 7.4 mostra que nos Estados Unidos, residentes da Coréia e de
Taiwan obtiveram, de 1973 a 1992, mais e mais patentes, e em grande veloci-
dade; em contraste, a situação do Brasil, México e Argentina era muito fraca.
Nesse período, o índice de catching-up PIB por hora de trabalho tem sido mui-
to elevado para os dois países asiáticos e negativo para os países latino-ameri-
canos. A situação evoluiu de forma muito negativa para os países latino-america-
nos. No período de 1963 a 1987, o Brasil e o México estavam entre os vinte
países com mais residentes patenteando nos Estados Unidos, enquanto a Coréia
e Taiwan ocupavam uma posição próxima do 30º lugar. Mas, em 1995, en-
quanto os países latino-americanos foram classificados em torno do 30º lugar,
os países asiáticos conseguiram ocupar posições entre os dez primeiros coloca-

N 272 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

dos. De forma mais geral, a figura 7.4 mostra a correlação entre as duas variá-
veis para uma amostra de 23 países com um R2 testado para 0,1%. Isso signi-
fica que as duas variáveis são relacionadas, mesmo sendo difícil estabelecer a
natureza da relação.

FIGURA 7.4
RELAÇÃO ENTRE PATENTEAMENTO E A TAXA DE CATCHING-UP (1973-1992).
Fonte : dados do NSF e Maddison, 1995: 47 in Diaz, 1998: 289.

Normalmente, como o patenteamento é resultado de pesquisa, e como o


investimento em P&D no âmbito nacional é um bom índice da quantidade de
pesquisa realizada, devemos constatar que o nível de investimento deve ser
relativamente baixo. Já havíamos chamado atenção para isso no passado, no
caso latino-americano (Humbert, 1991). A figura 7.5 confirma esta afirmação
ao apresentar a evolução das trajetórias de catching-up para os países em nossa
amostra: nenhum catching-up por parte dos países latino-americanos e um for-
te catching-up pela Coréia e por Taiwan. O índice de catching-up corresponde
ao desvio relativo da média dos cinco países líderes (EUA, Alemanha, Japão,
França e Grã-Bretanha) na relação investimento em P&D e PIB. Assim, apa-
rentemente, os países asiáticos realizaram um esforço considerável para nutrir
suas capacidades para mudança técnica, enquanto em alguns países latino-
americanos esse esforço não foi tão grande.

N 273 n
N CO N H E C I M E N T O, S I S T E M A S DE I N OVA Ç Ã O E D E S E N V O LV I M E N T O

FIGURA 7.5
T RAJETÓRIAS DE CATCHING-UP EM GASTOS COM P&D (1981-1994).

Fonte : Diaz, 1998: 269.

A transferência de tecnologia e os esforços tecnológicos realizados por multi-


nacionais não são substitutos. Entretanto, o comportamento das multinacionais
e dos governos em relação a essas empresas, e também as qualidades do sistema
social no qual elas investem são temas que devem ser considerados. Archibugi
e Iammarino aconselham:
As políticas públicas devem tentar distinguir os investimentos direcionados
à criação de capacidade tecnológica em determinado país daqueles direcionados à
simples aquisição (...) em muitos casos, as empresas multinacionais têm interesse na
aquisição de competidores estrangeiros e uma tendência a fundir, reduzir ou até
fechar os laboratórios de P&D das subsidiárias. Mesmo que essas estratégias sejam
justificáveis do ponto de vista da empresa, elas enfraquecem a base tecnológica do
país. É para tais casos que uma política industrial para proteger as “jóias da famí-
lia” – que são as empresas mais ativas tecnologicamente, e precisamente por essa
razão as que estão mais expostas ao apetite dos seus competidores estrangeiros – é
necessária. (1999, p. 330).
Em outros casos, quando as multinacionais não estão investindo em projetos
de inovação no país, o governo deve examinar por que isto ocorre; de fato, como
observado por Niosi, na realidade as multinacionais estão investindo em P&D nas
filiais: As empresas estão crescentemente fazendo P&D no exterior, independente-
mente da indústria envolvida (...). Esse processo segue investimentos prévios em
mercados estrangeiros e infra-estrutura de produção (...). O aprendizado é um
elemento-chave no desenvolvimento da nova internacionalização da P&D.

N 274 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

A localização próxima a centros importantes de inovação (nos quais já estejam


baseadas universidades, laboratórios públicos e grandes unidades privadas de P&D
pertencentes aos competidores) é um importante mecanismo para a absorção dos
spillovers tecnológicos nos centros internacionais de excelência. O aprendizado
também ocorre com base no desenvolvimento de relações mais estreitas com mer-
cados e clientes líderes, aqueles que têm um papel importante no desenvolvimento
tecnológico. (1999, p. 15)
Então, existem motivos para que o governo
(...) avalie se o seu país oferece o ambiente apropriado para o desenvolvi-
mento de projetos inovadores. Se os fluxos entrantes são estruturalmente fra-
cos, as causas devem ser identificadas. Essas podem incluir uma infra-estrutura
inadequada, excessiva rigidez institucional ou a ausência de interlocutores adequa-
dos nas universidades e nos centros de pesquisa públicos. Cada um desses fatores
pode ser corrigido com as políticas públicas apropriadas. (Archibugi e Iammarino,
1999, p. 331)
Quão facilmente pode um sistema social se beneficiar de uma tecnologia
que não foi inventada no país? No passado, a maior parte dos sistemas sociais
era fechada, portanto, diferenciada, produzindo tecnologias adaptadas a contex-
tos específicos. A maioria dos países em desenvolvimento afirmava que não havia
uma real transferência de tecnologia dos países industrializados e uma corrente
teórica apontava a necessidade de tecnologias apropriadas. Muitos autores
enfatizavam que as multinacionais estavam transferindo tecnologias obsoletas
ou tecnologias muito atrás da fronteira tecnológica e que a transferência não
era completa e geralmente era superfaturada. A globalização da tecnologia abriu
as “caixas”: as tecnologias são cada vez menos adaptadas a um contexto único e
as multinacionais não relutam mais em conduzir a P&D no exterior, não ape-
nas em países industrializados, mas também em países menos desenvolvidos
(Reddy e Sigurdson, 1994), graças também à descentralização permitida pelo
desenvolvimento das TICs (Howells, 1995).
No entanto, devemos diferenciar tecnologias que podem ser importadas e
as capacidades de inovação que devem ser cultivadas domesticamente como
resultado do funcionamento de um sistema social. Na realidade, a dificuldade
remanescente não é importar, e sim transformar as fontes externas de tecnolo-
gia – em qualquer formato: bens de capital, licenças, investimento direto – de
forma que contribuam para uma real melhoria do desenvolvimento tecnológico
industrial. São parte dos insumos, blocos de construção das capacidades sociais
para a mudança tecnológica; de certa forma, são o “combustível” (Zimmermann,
1991). O impacto da transferência de tecnologia sobre a competitividade local
depende do “esforço geral para explorar fontes externas de tecnologia [o que

N 275 n
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está associado à] criação de uma mão-de-obra técnica e produtiva qualificada”


(Mowery, 1993, p. 51). De acordo com Lall, “o investimento externo é uma
forma efetiva de transferir os resultados da inovação, mas não configura neces-
sariamente a própria capacidade inovadora”. Isto significa que “não existe subs-
tituto para o esforço local voltado ao desenvolvimento de capacitações, e a
transformação tecnológica não pode ser um processo passivo baseado em por-
tas abertas” (Lall, 1993, p. 93).
Os esforços endógenos, assim como as capacidades sociais, são os com-
bustíveis que garantem o funcionamento do motor da mudança técnica (ver
figura 7.6).
Em todas as localidades, processos locais podem captar oportunidades
advindas dos fluxos internacionais de conhecimento e tecnologia, desde que
previamente tenham sido desenvolvidas as capacitações básicas necessárias para
aproveitá-las. Essa “relevância das capacidades domésticas para monitorar e
absorver a pesquisa externa” (Mowery, 1994, p. 128) é o que define a “glocaliza-
ção da tecnologia”, e é assim que os desafios da globalização podem virar opor-
tunidades.

OS TIPOS DE LOCALIZAÇÃO DE PROCESSO DE APRENDIZADO


Definitivamente, e podemos ler sobre isso na literatura sobre a globalização
da inovação, o processo de inovação e de melhoria da tecnologia utilizada na
manufatura de produtos é um processo de aprendizado essencialmente locali-
zado. Assim, concordamos plenamente com Cassiolato e Lastres (1999) quan-
do focalizam as comunidades nas quais é possível observar os atores operando
em um contexto concreto de organizações e instituições para a construção de
capacidades, obtendo reais mudanças técnicas e inovações. Não obstante, é
importante, conforme ressaltado pelos autores, articular distintos níveis para a
elaboração das políticas:
A compreensão de que a inovação constitui-se em processo de busca e apren-
dizado, o qual, enquanto dependente de interações, é socialmente determinado e
fortemente influenciado por formatos institucionais e organizacionais específicos
(...) a proposta conceitual de sistema local de inovação é a que parece oferecer
melhor possibilidade de compreensão do processo de inovação (...) trata-se de um
referencial que permite e até mesmo exige o estudo do processo inovativo em seus
diferentes e específicos níveis. Tal quadro de referência está baseado em alguns
conceitos fundamentais – aprendizado, interações, competências, comple-
mentaridades, seleção, path-dependencies etc. – que enfatizam significativamente
os aspectos regionais e locais. Conseqüentemente e conforme também destacado,
neste caso se reconhece a importância dos estímulos aos diferentes processos de

N 276 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

Importação de tecnologia do
Sistema Industrial Global
Elevada Baixa
+ -
Fortes
+

Esforços tecnológicos Sustentável Desconectada


endógenos

Fracos Truncada Ausente


-

Esquematização da evolução da qualidade das capacidades sociais para a


mudança técnica dos anos 1940 a 1990 em países selecionados
Coréia e Taiwan Argentina, Brasil
e México

90
æ æ70
80 60 ç
ã æ ç

70 50 80
å æ ç
60á á50 90
å40 40æ

FIGURA 7.6
T AXONOMIA DA QUALIDADE DAS CAPACIDADES SOCIAIS PARA A MUDANÇA TÉCNICA .

Fonte : Diaz, 1998: 208 – 210.

N 277 n
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aprendizado e de difusão do conhecimento, assim como a necessária diversidade


nas formas das políticas envolvidas. (1999, p. 774)
Assim, creio que podemos iniciar com a “dimensão nacional”, a avaliação
da dinâmica das capacidades sociais para a mudança técnica. Essa dinâmica,
no momento “t”, depende primeiramente do estado das capacidades sociais
para a mudança técnica e da qualidade dos blocos de construção que nutrem a
sua evolução. Considerando esse estado, a dinâmica resultará dos processos de
aprendizado. Mesmo com capacidades sociais para a mudança técnica susten-
táveis (figura 7.6), se, por um lado, os esforços tecnológicos são esforços roti-
neiros de “aprender fazendo” (learning by doing) e “aprender usando” (learning
by using) fracamente articulados com o funcionamento do sistema industrial
global e, por outro lado, os esforços deliberados de “aprender buscando” (learning
by searching) (Nelson e Winter, 1982, p. 400) são robustos, mas fracamente
articulados com a evolução da trajetória tecnológica mundial, o resultado será
a estagnação. Esse fenômeno é ilustrado na figura 7.7, e tem ocorrido na maio-
ria dos países latino-americanos, com exceção de um pequeno esforço de apren-
dizado rotineiro dos anos 1960 até os anos 1980. Em contraste, o dinamismo
das capacidades sociais para a mudança técnica da Coréia e de Taiwan benefi-
ciou-se de uma evolução em direção a uma dinâmica que aumenta as capacida-
des sociais para a mudança técnica.
Na dimensão nacional, a política governamental relevante parece ser aquela
direcionada à melhoria do nível educacional e talvez à orientação das institui-
ções relevantes: mais pessoas com educação básica, mais escolas técnicas ou
profissionalizantes, mais engenheiros, químicos, mecânicos etc., mais universi-
dades, mais relacionamentos entre universidades e empresas. Mas, conforme
afirmam Nelson e Pack,
(...) assim como apenas o investimento físico não pode por si só explicar o cresci-
mento, um nível educacional crescente também não é por si só decisivo. A bem-
sucedida absorção tecnológica e o empreendedorismo nos países em desenvolvi-
mento certamente foram facilitados pela crescente oferta de técnicos bem treina-
dos. Simultaneamente, tinha de haver empresas empreendedoras nas quais traba-
lhar, ou a oportunidade de encontrar novas empresas. (1999, p. 433)
De fato, um país precisa de empresas e de empreendedorismo para alcan-
çar a industrialização. Não tratarei deste importante assunto aqui (ver, por exem-
plo, Beraud e Perrault, 1994), mas isso nos transporta para a dimensão da em-
presa.
É dentro da empresa que o aprendizado ocorre. Concordo plenamente
com Kenney e Florida,6 que introduziram o conceito de “produção mediada

N 278 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

Nível de aprendizado deliberado em


relação à trajetória tecnológica global
Elevado Baixo
+ -
Forte
+
Compatibilidade do
“aprender fazendo” e Aumentando Aguardando
“usando” (learning by (Stand-by)
doing e by using) com o
funcionamento do sis-
tema industrial global

Fraca Derrapando Estagnado


-

Esquematização da evolução do dinamismo das Capacidades Sociais para


a Mudança Técnica dos anos 1940 a 1990 em países selecionados
Coréia e Taiwan Argentina, Brasil
e México

90
å80á á70 70
å ä å
60 80 60

å ä å
50 90 50
å
40

FIGURA 7.7
T AXONOMIA DO DINAMISMO DAS CAPACIDADES SOCIAIS PARA A MUDANÇA TÉCNICA .

Fonte : Kim, 1991 e Diaz, 1998.

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N CO N H E C I M E N T O, S I S T E M A S DE I N OVA Ç Ã O E D E S E N V O LV I M E N T O

pela inovação”: um conceito que se refere à “integração da inovação com a


produção, trabalho intelectual e físico” (Kenney e Florida, 1993, p. 14). Apren-
der é demorado e não é fácil: é impossível acreditar que a tecnologia é transferida,
que a informação pode ser comprada pelo preço correto e que se pode iniciar a
produção de um produto novo graças apenas ao equipamento comprado no
mercado. A tecnologia é tácita, incorporada em aprendizado pessoal e de equi-
pes, organizada dentro das empresas e das comunidades. Dois exemplos per-
mitirão que nos aprofundemos um pouco mais nesse tema.
Em primeiro lugar, a experiência da Hyundai com automóveis, conforme
narrada por Kim:
Apesar do treinamento e do serviço de consultoria de especialistas, os enge-
nheiros da Hyundai repetiram testes durante quatorze meses antes de criarem o
primeiro protótipo. Mas o bloco do motor quebrou no seu primeiro teste. Novos
protótipos apareciam quase toda semana, mas quebravam no teste. Ninguém na
equipe conseguia descobrir por que os protótipos quebravam sempre, gerando
sérias dúvidas, até em nível gerencial, sobre a sua capacidade de desenvolver um
motor competitivo. A equipe teve de jogar fora mais onze protótipos quebrados
antes que um sobrevivesse ao teste. Foram feitas 2.888 mudanças no design do
motor (...). Noventa e sete testes foram feitos antes que a Hyundai refinasse os
motores de aspiração e o turbocharger (...). Além disso, mais de 200 transmissões e
150 veículos de testes foram criados antes que a Hyundai os aperfeiçoasse em
1992. (1997, p. 22)
Alguns anos atrás, eu explicava essa dificuldade para os meus alunos uti-
lizando um exemplo da culinária francesa: você pode comprar um livro muito
explícito e ilustrado escrito pelos melhores cozinheiros e redatores de receitas
e, em seguida, ir para o restaurante após o desastre que você certamente fará na
cozinha se você não tiver alguém para transferir o conhecimento tácito. Fico
feliz, portanto, em descobrir um exemplo semelhante no famoso livro de Nonaka
e Takeuchi (1995) sobre o desafio enfrentado pela Matsushita na construção
de um eletroeletrônico doméstico para fabricar pão. Eles nos contam toda a
história, mas vamos examinar aqui o que eles denominaram “o segundo ciclo”:
No segundo ciclo, a equipe tinha de resolver o problema de como fazer com
que a máquina trabalhasse a massa do pão corretamente (...) para resolver este
problema, Ikuko Tanaka se tornou aprendiz do padeiro chefe do Osaka International
Hotel. Lá ela aprendeu as capacidades necessárias via socialização, observando e
imitando o padeiro chefe, em vez de aprender via manuais ou receitas. Em seguida
ela traduziu a capacidade de trabalhar a massa do pão em conhecimento explícito.
O conhecimento foi externalizado pela criação do conceito de “esticar girando”
(twisting stretch). Além disso, ela externalizou esse conhecimento expressando os
movimentos necessários para o propulsor usando expressões como “mais devagar”

N 280 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

ou “mais fortemente”. Para aqueles que nunca haviam tocado em massa de pão
antes, compreender as capacidades necessárias para trabalhar a massa do pão era tão
difícil, que os engenheiros tiveram de compartilhar a experiência passando horas
junto aos padeiros experimentando trabalhar a massa do pão. O conhecimento
tácito foi internalizado via colocação de costelas especiais dentro da caixa de massa
do pão. A combinação ocorreu quando o conceito “esticar girando” e o conheci-
mento tecnológico dos engenheiros se juntaram para produzir um protótipo da
padaria caseira. (1995, p. 105)
Neste caso, podemos observar que o ambiente dentro da empresa era
importante. Havia pelo menos um artesão: um mestre de padaria. De forma
geral, não apenas para o início de um projeto, mas até para o nascimento de
uma empresa, o ambiente circundante é muito importante. Teece e Pisano
(1994, p. 550) explicam que “algumas rotinas e competências podem ser atri-
buídas às forças locais ou regionais que moldam as capacidades das empresas
nos estágios iniciais de suas vidas”. Malecki (2000) insiste – e eu concordo
inteiramente com ele – em que “a cultura local é crucial” em muitos processos
de mudança técnica; isso se dá pela natureza tácita do conhecimento e a neces-
sidade de compartilhar linguagem, confiança e, acima de tudo, o sentimento
de pertencer à mesma comunidade. Ele considera que
(...) as forças locais e regionais, de fato, continuam a moldar as capacidades das
empresas ao longo do tempo (...). A natureza tácita do conhecimento e a qualidade
local do conhecimento tácito contribuem para a sua “aderência” e permitem que a
comunicação e colaboração interempresas ocorra de forma fácil e barata. Mais
importante ainda é o papel da confiança (Ebers, 1997; Lane e Bachmann, 1998).
Para poder comunicar o conhecimento tácito, mesmo que parcialmente, um eleva-
do grau de confiança mútua e compreensão é normalmente necessário. Isso envol-
ve o compartilhamento de linguagem, valores e cultura. O aprendizado – espe-
cialmente aquele baseado no conhecimento tácito – ocorre de forma mais fácil e
tem maior probabilidade de ocorrência em regiões localizadas, nas quais capacida-
des localizadas se desenvolveram ao longo do tempo. Essas capacidades incluem
particularmente os dotes institucionais – um conceito de difícil demonstração
empírica, mas crescentemente aceito nas pesquisas sobre sistemas nacionais (e regio-
nais) de inovação. (2000, p. 75-76)
O escopo do local e o seu limite geográfico não são evidentes. Jaffe e Traj-
tenberg (1999, p. 130), estudando os fluxos de conhecimento na forma de
citações em pedidos de patentes apresentados por novos solicitantes, a fim de
avaliar se a proximidade do solicitante aumenta a probabilidade de obter uma
citação, descobriram que “no geral, os resultados confirmam nossas descober-
tas anteriores de que existe uma significativa localização geográfica dos fluxos
de conhecimento”. Mas deve ser observado que, neste caso, a localização é
“nacional”.

N 281 n
N CO N H E C I M E N T O, S I S T E M A S DE I N OVA Ç Ã O E D E S E N V O LV I M E N T O

Dessa forma, a política local é muito importante para melhor nutrir as


empresas, suas equipes e os indivíduos de uma forte cultura local: isso os auxi-
liará a aprender conjuntamente. No entanto, as empresas devem poder buscar
o conhecimento necessário no local em que ele estiver disponível, e é primeira-
mente dentro da comunidade nacional que elas procuram. As políticas para a
assistência técnica, o trabalho em rede etc. constituem receitas conhecidas.7 É
difícil dizer mais alguma coisa: tudo isso são insumos e a verdadeira receita é o
know-how para misturar tudo de forma a que o pão fique bom.
Tentei convencer o leitor de que o aprendizado, deliberado e criativo,
ligado à trajetória tecnológica global é o elemento-chave para a industrializa-
ção. Espero que eu também tenha passado a idéia de que as pessoas aprendem
com as suas mãos e com os seus cérebros e que precisam falar, trabalhar e viver
juntas para aprenderem. Esse é um papel importante da cultura, que é desem-
penhado de forma muito diferente em cada país; entretanto, a cooperação in-
ternacional permanece sendo muito útil. O Mercosul pode tirar algumas li-
ções da União Européia? Por que não lançar um programa do tipo Esprit ou
Eureka? A importação de tecnologia e de métodos de gerenciamento não é fácil
e nem sempre é imediatamente eficaz. Muitos países utilizam métodos japone-
ses no gerenciamento de suas empresas. De acordo com alguns autores, isso
também se aplica ao Brasil.
Aparentemente, as empresas brasileiras têm se mostrado cautelosas ao fa-
zer essas mudanças; segundo Humphrey,
(...) existe evidência demonstrando que as empresas líderes (no Brasil) estão ado-
tando alguns elementos das práticas japonesas. (...) um número crescente de em-
presas estão dispostas a experimentar os métodos japoneses. No entanto, a evidên-
cia considerando apenas as grandes empresas é enganosa (...) claramente existem
diferenças sistemáticas entre as empresas no Brasil. Esquemas de sugestões, esque-
mas simples de controle periódico de qualidade por trabalhadores e esquemas
kanban limitados são muito mais difundidos do que processos de controle estatís-
tico, manutenção total da produção, células ou trabalho em equipes. (1994, p.
334)
Posthuma examinou
(...) a introdução de programas de controle de qualidade, círculos de controle de
qualidade e just in time em empresas brasileiras de componentes de automóveis.
Nenhuma empresa em sua pesquisa havia transferido essas técnicas por inteiro.
Em vez disso, a adaptação local, seletiva e parcial, caracterizou a maneira pela qual
as novas técnicas organizacionais foram introduzidas. Até mesmo essa introdução
limitada de novas práticas teve um impacto positivo no desempenho das empre-
sas. (1994, p. 375)

N 282 n
GLOBALIZAÇÃO E GLOCALIZAÇÃO n

Esses são exemplos da potencial glocalização da tecnologia desde que exis-


ta não apenas a importação, mas uma combinação desse combustível estran-
geiro com o combustível local: é o que o próprio Japão vem fazendo desde a era
Meiji com métodos ocidentais; vamos agora fazer o mesmo com os métodos
japoneses. Contudo, não se deve esperar que o processo de glocalização ocorra
em um país como o Brasil como simples resultado do comportamento livre das
empresas multinacionais8 em um contexto nacional de “ingresso na economia
global” (Cardoso, 1995; ver citação acima): isso irá depender de uma forte
política nacional em um contexto de cooperação intergovernamental.

N OTA S
1“A variação nesses distintos sistemas nacionais de inovação fornece uma motivação a mais para
a cooperação tecnológica internacional. (...) A ligação aos sistemas de inovação estrangeiros via
alianças internacionais de cooperação dá às empresas acesso a uma gama mais ampla de soluções
para problemas tecnológicos (...) ao mesmo tempo, entretanto, a participação em parcerias
tecnológicas internacionais pode reforçar as fraquezas inerentes a cada sistema nacional de
inovação. Acresce que o maior conhecimento das tendências internacionais gera uma força pró-
competitiva, no sentido de imitação de formas e práticas institucionais bem-sucedidas, o que
pode comprometer o equilíbrio funcional dos sistemas nacionais. Os sistemas nacionais de
inovação são, dessa forma, conectados uns aos outros via pressões simultâneas de reforço e
deslocamento. A análise desse entrelaçamento complexo de sistemas sociais e desenvolvimento
tecnológico dentro de um sistema global nos impele a reconsiderar as bases sobre as quais as
vantagens competitivas nacionais são construídas e sustentadas.” (Bartholomew, 1997, p.
262)
2Cassiolato (1999, p. 188): “A importância de políticas industriais e tecnológicas para acelerar
o uso eficiente das tecnologias de informação e comunicações deve, dessa maneira, se constituir
em prioridade fundamental. Sem elas, a participação das economias em desenvolvimento no
processo de internacionalização continuará sendo passiva e dependente”.
3De acordo com Cohen, 1998, reproduzindo uma declaração de um funcionário argentino e
citado por Rodrik (1999, p. 9).
4 Cardoso, Wall Street Journal (15 de dezembro, 1995, p. A1), citado em Rodrik (ibid.).
5 A regulamentação macroeconômica e o comportamento das empresas em mercados globais,
incluindo processos de multinacionalização, são muito importantes, ainda que o cerne seja a
tecnologia. De acordo com Rodrik (ibid.), a regulamentação macroeconômica ainda é possível;
para Bartlett e Goshal, tornar-se um player global ainda é possível: “Uma vez liberta do repuxe
gravitacional do seu mercado doméstico, o próximo grande desafio para a empresa multinacional
emergente é escolher uma estratégia para ingressar no mercado global. Aparentemente, as
desvantagens do ingresso retardatário são extensas. Estudiosos do gerenciamento de empresas
concluíram que a predominância dos gigantes globais é enraizada no seustatus de primogenitura.
(...) Existem, entretanto, notáveis vantagens em ingressar com algum atraso. As empresas

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N CO N H E C I M E N T O, S I S T E M A S DE I N OVA Ç Ã O E D E S E N V O LV I M E N T O

multinacionais emergentes que examinamos tipicamente exploraram as vantagens do ingresso


tardio utilizando um dos seguintes esquemas: algumas examinaram o desempenho dos players
globais estabelecidos e manobraram em torno destes, freqüentemente explorando nichos que
as empresas maiores negligenciaram. Outras adotaram uma estratégica alternativa arriscada:
usaram o seu status de empresa recém-chegada para desafiar as regras do jogo, beneficiando-se
da inflexibilidade nos modelos de negócios das empresas estabelecidas” (2000, p. 138).
6Tomei conhecimento desse conceito, que fornece uma clara compreensão do comportamento
produtivo usual da maior parte das empresas que visitamos no Japão, graças a um livro escrito
por Delbridge (1998, p. 8). Em Beyond Mass Production, Kenney e Florida (1993) descre-
vem cinco dimensões do novo modelo de “produção mediada pela inovação”: uma transição da
habilidade física e trabalho manual para capacidades intelectuais ou “trabalho mental”; a cres-
cente importância da inteligência social ou coletiva em contraste com o conhecimento ou
habilidade individual; uma aceleração da velocidade da inovação tecnológica; a crescente im-
portância de processos contínuos de melhoria no chão da fábrica; e a fluidez das fronteiras entre
o laboratório de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e a fábrica.
7 Ver, por exemplo, Van Dijk: “a) apoiar a criação de um centro de inovação e melhoria da qua-
lidade, ajudando os empreendedores com design de produtos, melhoria de métodos de produ-
ção e o uso ótimo de equipamentos multifunção, b) recomendar o uso de equipamentos
multifunção, particularmente em unidades produtoras menores, e promover a sua introdução,
c) promover aglomerações de empresas de diferentes tamanhos com atuação em diversos seto-
res; por exemplo, reservar espaços para unidades menores nas zonas industriais existentes, nas
quais a competição cooperativa entre pequenas e grandes empresas é possível, d) estimular a
formação de redes de empreendedores, e) apoiar contratos de terceirização como uma forma de
fortalecer o tecido industrial” (1994, p. 38).
8 Ver, por exemplo, a análise desenvolvida por Leite Moreira em sua tese de doutorado Les
transformations de l’investissement direct étranger et leurs conséquences sur le secteur manufacturier
au Brésil (Paris XIII, 2000).

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