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SUMÁRIO

O CRISTÃO E A PÓS-MODERNIDADE: A TENTAÇÃO DE UM SACRIFÍCIO SEM CUSTO – Calleb

Berbert M. Ribeiro .................…..............................................................................................3

O SERVO MAU E O SERVIÇO INÚTIL – Saimon Saldanha .................….......................................7

TÓPICOS SOBRE PRÁTICA EM GRUPO – Saimon Saldanha ..............….....................................13

SUGESTÕES DE PERGUNTAS PARA O TALK SHOW..........................….....................................15


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O CRISTÃO E A PÓS-MODERNIDADE: A TENTAÇÃO DE UM SACRIFÍCIO SEM CUSTO

Calleb Berbert M. Ribeiro1

“E disse o rei Davi a Ornã: Não! Antes, pelo seu valor a quero comprar; porque não tomarei o que é teu,
para o Senhor, para que não ofereça holocausto sem custo.”
(1 Crônicas 21.24)

Imagine, por um instante, um filho que falhou fatalmente com seu pai, entristecendo-o
sobremaneira. Imagine que, rompida a comunhão, o filho não vê outra alternativa capaz de restaurar o status
quo ante, senão oferecer a seu querido e desapontado pai um regalo. Então às pressas, irrefletida e
inadvertidamente, com coisas mais importantes a fazer, agadanha um objeto aleatório que não usa mais,
envolve-o num embrulho qualquer e, gentilmente, entrega seu pai.
Nossas conclusões, invariavelmente, convergirão. Todos atribuiremos ao filho a pecha de
desleixado, preguiçoso, imprudente ou pouco inteligente no empreendimento de agradar a seu pai. Isto
porque, vencido pelo ímpeto da facilidade e pela comodidade de oferecer algo ruim ao acompanhamento de
desculpas – do tipo “eu não pude fazer mais, mas espero que aceite” – optou pelo conforto de fazer o menos
a quem era digno do mais.
Essa breve reflexão demonstra, em certa medida, o que ocorreu certa vez com Davi quando
desagradara ao Senhor realizando um recenseamento (1Cr 21.1). Aparentemente não há nada de errado num
recenseamento, é verdade; mas Davi o fez por confiar mais no número de guerreiros do Reino de Israel do
que no Senhor, que sempre guerreou as guerras de seus eleitos. Essa atitude pecaminosa de Davi, trouxe
juízo divino não apenas sobre ele, em sua condição de monarca, mas a todo o povo de Israel, na medida em
que caíram mortos setenta mil homens (1Cr 21.14).
Quase ao final dessa narrativa bíblica, lemos que Davi é chamado a levantar um altar ao Senhor
num determinado lugar (1Cr 21.18) e, nesse ínterim, um homem chamado Ornã oferece a Davi, a título
gratuito, não apenas sua eira, mas todos os recursos necessários ao oferecimento de um sacrifício
considerado perfeito (1Cr 21.23). Neste ponto do relato bíblico, Davi imediatamente – assim mostra o texto –
rejeita a gratuidade de Ornã, sob o argumento de que não era seu propósito oferecer a Deus um sacrifício que
não lhe custasse nada (1Cr 21.24).
A postura de Davi no texto em análise ensina muito sobre o dever de posição do cristão diante
dos tempos em que vive, precipuamente no que diz respeito à adoração a Deus – compreendida
liturgicamente ou não. Vejamos mais de perto o que o texto bíblico tem a nos ensinar.
A impressão que se tem ao ler os versículos 20 a 23, é de que Ornã estava inteiramente tomado
pelo medo, porque havia visto o anjo do Senhor postado “entre a terra e o céu, com a espada desembainhada

1 Calleb é membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus da Zona Leste (Ministério do Belém), em Alvorada/RS, na
Congregação Intersul, onde atua como superintendente e professor de Escola Bíblica Dominical e dirigente do Círculo
de Leitores e Amigos da Bíblia (CLAB). Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUCRS).
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na sua mão, estendida contra Jerusalém” (1Cr 21.16). Todos concordarão que esta deve ter sido uma cena
amedrontadora; tanto o é que levou Ornã e seus quatro filhos a se esconderem (1Cr 21.20). Além disso,
setenta mil homens já haviam sido mortos por aquele anjo (1Cr 21.14). Foi, então, o medo de Ornã a origem
de sua pronta solicitude em oferecer tudo a Davi. Ele ofereceu tudo pelo medo que o dominava.
Nesse aspecto, importa comparar Ornã e sua atitude à cultura pós-moderna e seus apelos ao
universo cristão. Aqui há similaridades e uma sutil dessemelhança, no que concerne à motivação, ao fim, ao
telos. Explicarei.
Entre a atitude de Ornã e a abordagem da cultura pós-moderna ao cristão há uma diferença
subjetiva, i.e., quanto à motivação: enquanto Ornã ofereceu todos os seus recursos dominado pelo medo da
terrível cena que havia contemplado, a cultura pós-moderna oferece todos os recursos logísticos,
tecnológicos e mercadológicos ao universo cristão, movida por um sentimento de ojeriza e repulsa à
mensagem da cruz. O mundo secularizado não suporta a pregação do evangelho; e tenta calar a voz do que
clama, através de sutis apelos e ofertas. É o espírito do iníquo, que já “opera nos filhos da desobediência” (Ef
2.2), que “se levanta contra tudo o que se chama Deus ou se adora” (1Ts 2.4a). A cultura pós-moderna tudo
oferece por um sentimento de aversão à pregação da Palavra de Deus.
Se atentarmos bem, veremos que essa cultura pós-moderna que nos rodeia não se preocupa com
elementos como significado e reflexão. Basta que as coisas tenham qualquer apelo estético ou emocional.
Não é preciso pensar, refletir demoradamente acerca das coisas ou pôr à prova nossas próprias convicções a
fim de verificar sua autenticidade. O que importa é falar. E quanto mais alto, melhor. É por essa razão que há
muito barulho no mundo atual; uma verdadeira profusão de discursos. Todos falam sobre tudo; qualquer
coisa sobre qualquer coisa. E tudo sem reflexão ou autoexame. É a marca maior da pós-modernidade.
Nesse contexto de desordem conceitual e de anarquia interpretativa (porque para o pós-moderno
não há significado, mas a sua opinião), o cristão é abordado de maneira desleal pela cultura pós-moderna. À
semelhança de Ornã que, por medo, disse a Davi: “tudo dou”, a cultura pós-moderna tudo nos oferece. E o
faz a preço de custo! Não é mais necessário refletir, construir uma vida de oração e de comunhão com o
Senhor, ou mesmo ler a Bíblia! Basta falar, cantar ou tocar. O que você quiser! O mais alto que puder! A sua
prosa, o seu verso ou a sua música só precisam atender às demandas da estética e da emoção. Basta ser
bonito, não aborrecer a ninguém e causar arrepios.
Para a consecução do objetivo de dar voz a quem, noutras condições, nada teria a dizer, a pós-
modernidade oferece todo o necessário para que se produza um álbum capaz de ser comprado centenas de
milhares de vezes no iTunes Store, ou para que se produza um videoclipe que ultrapasse os milhões de
visualizações no YouTube. Tudo nos é oferecido. Tudo em nome da estética e da experiência sensorial. Tudo
sem pagar o preço da sóbria reflexão bíblico-teológica, da oração contínua e de uma vida de obediência a
Deus. O preço pago pelos incautos é ouvir bobagens de quem não recebeu do Senhor para poder ensinar; mas
aventurou-se em peripécias pessoais na busca pelo sucesso e sagrou-se a si mesmo autoridade em alguma
coisa.
Todavia, paradoxalmente, essa oferta cobra um preço alto: oferecer a Deus um sacrifício sem
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custo. E não falo aqui de um custo logístico ou avaliável economicamente. Me refiro a um custo não só
intelectual e reflexivo, mas também espiritual. À medida em que a pós-modernidade nos diz “tudo dou”, sem
dizer, também nos tira muito daquilo que recebemos e que nos é muito caro, como já pude apontar: a
comunhão com Deus, a oração e o compromisso com a Palavra de Deus.
A experiência de quem nasceu no século vinte há de demonstrar que os hinos cristãos
produzidos em épocas como aquela – e dali para trás – carregavam consigo um substrato bíblico-teológico de
peso, além do alto nível espiritual dos louvores compostos e produzidos até então. Aqueles hinos, por sua
apresentação mesma, pressupunham que seu compositor esteve na presença do Senhor e recebeu d’Ele toda a
inspiração. Eram hinos que nos ensinavam (e ensinam) e que, simultaneamente nos faziam (e fazem) chorar.
E não movidos por mera emoção, mas por enxergarmos ali a Palavra de Deus e as marcas de uma vida de
comunhão com o Eterno.
Contudo, nos recentes anos, os hinos produzidos pela indústria fonográfica cristã brasileira
parecem ter ficado para trás no que concerne a seu conteúdo. Nem precisamos falar acerca desse conteúdo.
Todos conhecemos bem: ou a música será vazia de conteúdo, com vários minutos de duração, preenchidos
com repetições mântricas; ou carregará o péssimo conteúdo encontrado na imaginação fértil de um cantor em
busca de sucesso, ou n’alguma pregação emocionada; conteúdo achado em qualquer lugar, menos na Bíblia.
Entendo, pessoalmente, que perdemos muito em virtude de paulatinas concessões aos apelos da
pós-modernidade: menos reflexão, menos esforço intelectual, menos consagração; mais tecnologia, mais
roupas caras, mais barulho, mais propaganda. Às vezes nos parece que tudo se reduziu à reprodução e ao
comércio de palavras requentadas, ditas por pessoas da menor relevância do ponto de vista cristão. Estamos
biblicamente desautorizados a nos conformar com esse sistema (Rm 12.2).
Vivemos um tempo em que o mundo glorifica a função estética e emocional das coisas, da arte e
dos conceitos, onde “bom” se resume às coisas sem significado, que agradam aos adolescentes rebeldes
revoltados com o sistema, ou àquilo que causa arrepios e faz chorar, ou àquilo que atende às demandas da
cultura de massa. Todavia, em todas as épocas, em todos os lugares e a todas as idades, a Bíblia continua a
chamar: “Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (1Co
10.31). Noutras palavras: bom, para a Bíblia, é aquilo que glorifica a Deus!
Talvez pensemos que estes sejam momentos inapropriados para pregar a Palavra de Deus e para
zelar pela nossa ortodoxia e ortopraxia. É verdade. São tempos trabalhosos, já preditos pela Escritura (2Tm
3.1). Porém, Jesus nunca nos prometeu que teríamos sempre condições favoráveis para realizar a sua obra.
Ao contrário, as advertências de Cristo foram, sob certa perspectiva, desanimadoras (Lc 11.49). E, ao lado
dessas e doutras advertências a Bíblia está a todo momento a nos chamar a pregar a Palavra, a tempo e fora
de tempo (2Tm 4.2). Portanto, se decidirmos cruzar os braços e esperar condições favoráveis para fazermos
aquilo a que fomos chamados a fazer, estejamos cientes de que talvez essas condições jamais cheguem.
Antes e para além de qualquer ilegítima exigência do “deus deste século”, o cristão
comprometido com a Bíblia deve estar cônscio de que seu discurso, sua música e sua vida, devem ser para a
glória de Deus. Afinal, diversamente do contexto veterotestamentário, não estamos falando da adoração a um
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Deus irado, cuja ira precisa ser aplacada (2Sm 24.25), mas de um Deus amoroso e santo, que é digno da
nossa adoração.

Sejamos, pois, como o músico Davi, que tentado a oferecer ao Senhor um holocausto sem custo,
optou por pagar o preço que poderia não pagar e, por conseguinte, Deus recebeu sua oferta, respondendo
com fogo do céu sobre o altar do holocausto (1Cr 21.26).

Conscientizemo-nos de que, se estivermos dispostos a pagar o preço digno do oferecimento de


um sacrifício agradável ao Senhor, Ele nos responderá. Talvez não com fogo do céu, como muitas vezes
esperamos (1Rs 19.11-13). Talvez Ele fale de outras maneiras (Hb 1.1). Importa é que o Senhor se agrade de
nossas vidas e continue confirmando a obra das nossas mãos (Sl 90.17). Talvez pareça não haver resultados
imediatos, ou que todos os outros estejam correndo noutra direção (1Pe 4.4). É o que naturalmente ocorre em
tempos trabalhosos como os nossos tempos. Pessoas se interessam mais pela mentira do que pela Verdade. A
despeito das circunstâncias desfavoráveis, estejamos certos de que enquanto estivermos vivendo ao lado de
Jesus e zelando pela integridade de sua Palavra, o Senhor cuidará de nós e nos usará conforme sua soberana
vontade.

São Francisco de Paula, 28 de dezembro de 2017.


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O SERVO MAU E O SERVIÇO INÚTIL

Saimon Saldanha2

"Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-
lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e
ausentou-se logo para longe.

E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos. Da mesma
sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o
dinheiro do seu senhor.

E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles. Então aproximou-se o que recebera cinco
talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco
talentos que granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre
muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor,
entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel
servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Mas, chegando também o que
recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas
onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o
seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias
então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o
talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que
não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de
dentes." – Mateus 25:14-30

A conhecida Parábola dos Talentos é uma das chamadas "parábolas escatológicas"3, por encontrar-se
como parte integrante do sermão profético que Jesus proferiu aos seus discípulos no Monte das Oliveiras. Ao
longo dos capítulos 24 e 25 do Evangelho segundo Mateus, após os episódios da entrada triunfal em
Jerusalém, do lamento sobre a cidade e da profecia sobre a destruição do templo, Jesus responde os
questionamentos de seus discípulos a respeito dos tempos do fim. Nesse contexto escatológico, onde trata da
grande tribulação, de Sua segunda vinda e do grande julgamento, surge uma sequência de 3 parábolas que
estão, de certo modo, interligadas: a Parábola do Servo Fiel e do Mau, a Parábola das Dez Virgens e a
Parábola dos Talentos.

A Parábola dos Talentos tem sua narrativa desenvolvida a partir de três atos, todos eles
correspondentes aos três servos: a distribuição do dinheiro4, as atitudes dos servos e o ajuste de contas. Ao
observarmos as relações entre os servos e o senhor, notamos que, ao mesmo tempo que delega funções

2 Saimon Saldanha é produtor musical, arranjador e pianista. Mestrando em Teologia (FABAPAR), Pós-graduando em
Aconselhamento Pastoral (FACEL) e Bacharel em Música (UFRGS). Membro da Igreja Evangélica Assembleia de
Deus em Montenegro/RS.
3 Parábolas que tratam das últimas coisas.
4 Talento – unidade monetária de peso (de 27 a 40 kgs)
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administrativas, o senhor tem controle absoluto sobre o destino de seus servos. Isso pode ser explicado se
atentarmos para o termo grego usado para retratar a condição daqueles homens: doulos. O doulos nada mais
é do que um escravo. A escravidão dos tempos neotestamentários não segue os mesmos padrões que
conhecemos da escravidão nas Américas, por exemplo. Mesmo assim, o doulos bíblico tem por peculiaridade
a consciência da obrigação de nunca promover os seus próprios interesses, mas sim os do seu senhor. A
relação servo-senhor é uma relação de pertencimento, de pacto, de dependência, de fidelidade e de dever
para com os interesses do senhor. Conscientes disso, podemos questionar: quais foram os possíveis motivos
que fizeram o servo tido como mau apresentar um serviço inútil? De que forma a negligência do servo mau
poderia dialogar com o nosso serviço na casa do Senhor e nos ensinar verdades que nos levem a um serviço
ativo e diligente no Reino de Deus?

Ao olharmos com atenção para os versos 24 e 25, percebemos alguns pontos de conflito.

1 – Relação do servo mau com o seu senhor

Nossas atitudes e respostas para com a vida estão intimamente relacionadas com as informações que
temos e com a interpretação que fazemos delas. Essa realidade às vezes se torna mais perceptível em nossos
momentos falhos. "Eu não sabia!" é uma das respostas comuns, desde a infância; ou então, "eu pensei que
fosse de 'tal forma', mas me enganei...". No primeiro caso, falta de informação. No segundo, informação
adquirida, porém mal interpretada. E esse comum fenômeno de ação pela análise e interpretação de
informações também é visto na história do servo mau: "Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que
ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento;
aqui tens o que é teu."

Mesmo com uma leitura não muito atenta podemos notar que a atitude do servo não foi fruto de
impulso ou de um mero desleixo irrefletido. A prática de esconder dinheiro no solo era uma medida comum
de segurança. Sua má administração também não foi fruto de esquecimento para com o bem que lhe foi
confiado. Não. O servo refletiu. Ponderou. Analisou as informações e tomou a atitude que lhe pareceu a
melhor possível dentro de sua interpretação. O problema surge justamente nesse ponto: sua interpretação. O
servo mau achava que conhecia seu senhor, mas não enxergava nada além de uma visão parcial de quem ele
era. Para o servo, o senhor era duro, severo. Embora notemos um senhor confiante em seus escravos,
delegando funções administrativas, recompensando a diligência e agindo com bondade e justiça, parece que
esses atributos não se fizeram tão evidentes para o servo mau em sua relação com seu senhor. Seu foco era na
justiça, que, por sua vez, era interpretada como rigidez e severidade. Ele possuía as informações, mas as
interpretava de maneira parcial e equivocada, desequilibrando assim os atributos de seu senhor para focar em
apenas um, mal interpretado, que o fez falhar em suas suposições. Ele não conhecia o seu senhor tão bem
assim. Não o enxergava de maneira ampla, plena, em todos os seus atributos. O servo mau, na realidade,
conhecia apenas a falsa construção psicológica que fizera da identidade de seu senhor.
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O serviço da adoração contemporâneo tem refletido em muito um conflito semelhante ao do


negligente servo. A maneira como o Evangelho é lido e interpretado, segundo os relativizados padrões pós-
modernos, tem criado construções identitárias semelhantes à falsa construção psicológica que o servo mau
tinha a respeito de seu senhor. O serviço cristão decai e padece pois, assim como na parábola, as pessoas têm
servido ao seu senhor, à sua construção pessoal de quem é Deus e de qual é a melhor forma para servi-lO.
Nisso, o mesmo desequilíbrio acontece. Evidencia-se um atributo divino em detrimento aos outros. O
conhecimento fragmentado e microfocado de quem é Deus, de Seus interesses e de Sua palavra, cria um deus
de identidade parcial e desequilibrada em seus atributos. E, assim como o servo da narrativa, acha-se que
conhece-se a Deus. Julga-se ter intimidade. Entende-se que a vontade de Deus é conhecida e que o melhor
serviço está sendo feito para cumprir essa vontade.

A geração anterior à nossa foi muito diligente em sua busca e na prática da vida piedosa. A grande
expansão que o Evangelho teve em nosso país na segunda metade do século passado é resultado direto desse
compromentimento com Deus e com a propagação do Evangelho. Mesmo assim, por vezes era notada certa
tendência a desequilibrar a identidade divina em sua essência plena e evidenciar uma relação de solene
temor. "Guarda o teu pé quando entrares na casa de Deus"; "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria";
são trechos bíblicos comumente ouvidos de nossos pais e avós. A preocupação com o respeito e a sobriedade
na relação do humano com o divino acabou gerando, em alguns casos, certo engessamento em formalismos e
pseudo-erudições. Como todo o fluxo da história humana tem demonstrado funcionar de maneira dinâmica,
onde as ideias e as ênfases costumam se contrapor a cada novo período histórico, com nossa experiência no
serviço da adoração não foi diferente. A nova geração surge e, de maneira antitética à anterior, reconstrói a
imagem de Deus a partir dos atributos opostos. O Deus da atualidade é o Deus do amor. É o Deus das
experiências emocionais e sensoriais. É o Deus que quer festejar com seu povo. O Deus que não suporta que
façamos qualquer tipo de julgamento. O Deus pelo qual o jovem canta que é apaixonado, declara que na Sua
presença tem vontade de correr e pular e ainda diz, no auge da intimidade: "oi Jesus, to te esperando no meu
quarto! Toma minha chave, não precisa fazer cópia!" Um Deus feito sob medida, que se ajusta a qualquer
estilo de vida e se adapta às vontades e necessidades relacionais e emocionais de cada um, por mais fluidas
que sejam. Interpreta-se um Deus construido psicologicamente a partir de uma visão parcial e distorcida de
Seus atributos, e esquece-se dos demais. Esquece-se que o Deus do amor ainda é justo e merece nosso
serviço diligente e respeitoso; que o Deus imanente, que age no nosso interior, ainda é transcendente e
majestoso, e merece nossa reverência; que o Deus da graça libertadora ainda é santo, e que, como santo,
ainda faz ecoar o seu "sede santos como Eu sou santo"! Nossa adoração só voltará a ser bíblica quando
buscarmos uma visão realista de quem nós somos, e atentarmos para quem Ele é. Não para quem nós
gostaríamos que Ele fosse. Nem para quem a cultura contemporânea tenta nos induzir a acreditar que ele
seja. Mas para quem Ele realmente é, a partir de toda amplitude de Sua autorevelação. Deus revelou-se em
Sua criação, na consciência humana, nas Escrituras e especialmente em Seu Filho Jesus. Quando o ser
humano consciente de si passa a conhecer, mesmo que de forma limitada, essa revelação identitária, a
adoração sincera passa a ser uma consequência natural. A adoração é a resposta natural do humano diante do
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maravilhamento com o divino.

2 – Ação guiada por sentimentos – Primazia da emoção

"Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não
espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento."

O servo conhecia seus deveres para com seu senhor. Sabia de suas habituais práticas administrativas
e de suas expectativas – "ceifar onde não semeou, ajuntar onde não espalhou". Mas também sabia que seu
senhor tinha poder sobre seu destino, e temeu. Estagnou-se pelo medo. Não encontrou motivação
suficientemente forte a ponto de vencer seus temores e escondeu o talento na terra. Com essa atitude, ele
inverte a hierarquia de interesses e perde sua consciência de servo. Como escravo que era, seu dever era
trabalhar pelos interesses do seu senhor, e não pelos seus. Mas uma ação guiada por sentimentos conseguiu
fazer com que o servo fosse julgado mau e negligente, e sofresse assim a pena do juízo.

Nós vivemos em uma sociedade extremamente romantizada, sentimentalizada. A oposição ao


racionalismo da modernidade trouxe a primazia da emoção e da afetividade como uma das marcas da pós-
modernidade. O foco é o sentir, é a sensação, a emoção. E essa ênfase desordenada traz um desequilíbrio
para o serviço da adoração, por concentrar-se nas emoções humanas e não considerar o homem interior em
sua integralidade: mente, coração e vontade; razão, emoção e volição. A genuína experiência espiritual trata
o homem no seu todo, e um interior submisso a Deus sujeita-se aos interesses do Senhor e age movido pela
consciência do dever, e não por sentimentos.

Quanto da nossa relação com Deus e com o servir tem sido dirigida por emoções? Será que os
sentimentos têm sido o juiz ou o foco de nossas escolhas? Vemos no meio musical cristão muito dessa
realidade exposta nas letras e nos movimentos artísticos. Desde a escolha do repertório até mesmo a atuação
no púlpito evidenciam a ênfase nos sentimentos, tanto nos pessoais quanto nos coletivos. Nunca se cantou
tanto na história da igreja músicas dirigidas para o outro, de maneira emotiva e muitas vezes anti-bíblica, por
colocar, assim como o servo mau, a valorização da pessoa prioritariamente em relação a Cristo. Os conselhos
diretivos de Paulo em Colossenses 3:16 são deixados de lado. "A palavra de Cristo habite em vós
abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos
e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração." Paulo traz uma verdade esquecida
em nosso meio musical: o propósito da experiência músico-litúrgica é o louvor a Deus e a edificação mútua.
Mas não são quaisquer cânticos. São cânticos espirituais! Não são quaisquer letras. São salmos e hinos que
louvam ao Senhor com gratidão e de coração! E toda experiência de edificação coletiva, seja através do
ensino doutrinário ou da admoestação, tem que estar embasada, abundantemente, na Palavra de Cristo! Os
resquícios da natureza pecaminosa nos trazem uma propensão natural para nos afastarmos dessas verdades e
desses princípios. Mas uma consciência de que somos doulos, escravos de Cristo, e de que todas as nossas
vontades e os nossos afetos tem de estar sujeitos à Sua vontade e aos seus interesses, coloca-nos outra vez na
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posição certa para o serviço. A posição de pertencimento, dependência e subordinação, independente de


nossos sentimentos. Sentimentos são instáveis e fluidos, geralmente apresentando a tendência de ter um
fundo egoísta. Sendo assim, não podem servir como base prioritária para mover o serviço.

3 – Acomodação diante de falsas suposições

Olhando mais uma vez para o texto, aparentemente, não vemos no servo uma consciência de culpa e
uma preocupação arrependida de sua negligência. "Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que
ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento;
aqui tens o que é teu." Ele supôs conhecer seu senhor. Supôs que agir segundo sua resposta emocional seria o
mais sensato. Supôs que sua confissão o justificaria. O verso 19 diz que o senhor voltou "muito tempo
depois". Mesmo assim, em todo esse tempo, parece que não houve sensação de incômodo por parte do servo.
Ao reencontrar-se com seu senhor, entregou-lhe o talento, em uma fala onde a conotação parece demonstrar
acomodação. "Está aqui o dinheiro! Guardado com segurança e entregue ao seu dono!" Negligente
acomodação. Falsas suposições. Sua atitude, baseada em uma série de suposições erradas, foi a causa de sua
ruína.

Nós vemos em Lucas 2:43,44 um outro caso de atitude acomodada baseada em falsas suposições.
"E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem
sua mãe. Pensando, porém, eles que viria de companhia pelo caminho, andaram caminho de um dia, e
procuravam-no entre os parentes e conhecidos." A caravana que subira de Nazaré para Jerusalém, para a
Festa da Páscoa, já tinha por hábito seguir o trajeto anualmente. Parecia não haver preocupações. Talvez
comentassem sobre as cerimônias de Jerusalém, as questões políticas ou qualquer outro assunto que fosse de
interesse pessoal. Seguiam seu caminho, tão ocupados com suas questões que esqueceram do principal: a
presença de Jesus no grupo. "Pensando, porém, eles que viria de companhia pelo caminho" seguiam sua
jornada baseados nessa falsa suposição. Ora, era o grupo que subira junto com Jesus a Jerusalém.
Possivelmente era o grupo que fazia a mesma viagem todos os anos. "Com certeza ele deve estar no nosso
meio. É o nosso grupo, nossa família, e ele sempre esteve conosco. Por que seria diferente agora? Sigamos
nossa jornada e continuemos tratando de nossas questões pessoais!" Mas foi trilhado caminho de um dia, e a
falta não foi dada. Presumia-se ser como das outras vezes, mesmo não o enxergando por perto.

Como tem sido o nosso serviço no Reino de Deus? Será que não temos perdido Jesus pelo caminho e
seguido em tranquilidade, baseados em falsas suposições? É muito fácil chegar a esta falta de percepção em
nosso meio. Andamos com o "grupo de Jesus". Cantamos e escutamos músicas que falam (ou deveriam falar)
de Jesus. Carregamos nossas Bíblias com o Evangelho de Jesus. É natural a presunção de que Ele esteja
conosco. E torna-se natural seguirmos, dia após dia, desenvolvendo ministérios ou mesmo nos referenciando
em outros ministérios com esse senso de tranquilidade e de satisfação. "É a Igreja de Jesus. Estamos todos
fazendo música que fala de Jesus. Ele deve estar conosco..." Mas é só quando realmente deixamos por um
momento nossas questões de interesse pessoal, nossos anseios musicais, artísticos ou mesmo ministeriais, e
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acalmamos o ritmo da jornada para procurá-lO, que vamos poder ter certeza de contarmos ou não com Sua
presença em nosso caminhar. Com os pais de Jesus também foi assim. E somente após 3 dias, retornando
para Jerusalém, que O encontraram no Templo. "Por que te afastaste, Jesus? Estávamos ansiosos a te
procurar!" E a resposta nos ensina a mesma verdade negligenciada pelo servo mau de Mateus 25: "Não
sabeis que me convém tratar dos negócios do meu Pai?" O serviço cristão não é uma atividade para minhas
conveniências. Não trata dos meus anseios, dos meus sonhos, dos meus negócios. Não! Servir a Cristo é
submeter-se ao que convém a Ele e tratar dos negócios do Pai! É manter-se atento à Sua vontade e, se
preciso, voltar atrás afim de reencontrá-lO. É entender o que Maria pôde entender nas bodas de Caná da
Galiléia quando o mesmo Jesus lhe disse: "Ainda não é chegada a minha hora". É esperar a hora dEle! É
buscar os interesses dEle! É seguir a agenda dEle, não a nossa!

Eu te convido a refletirmos o nosso caminhar como servos, como adoradores. Nossa visão está
focada no Senhor? Estamos conscientes de nossa posição de escravo? Temos buscado conhecer a Deus na
plenitude de Sua autorevelação? Ou será que temos nos deixado guiar por sentimentos ou falsas suposições,
vivendo de forma acomodada por estarmos caminhando junto do "grupo de Cristo"? O servo mau não teve
uma segunda chance após o retorno de seu senhor. Mas para nós ainda há tempo. Sirvamos, pois, com
diligência e espírito devoto, sabendo que nosso trabalho não é vão no Senhor e que Ele é galardoador
daqueles que O buscam.
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TÓPICOS SOBRE PRÁTICA EM GRUPO

Saimon Saldanha

1 – Formação Instrumental

Conhecer e definir funções dos instrumentos

FUNÇÕES: - Melódica

- Rítmica

- Harmônica

- Contrapontística

2 – Frequências dos instrumentos

Noções de equalização e psicoacústica


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3 – Material Idiomático dos instrumentos e dos gêneros/estilos musicais

- Entendendo música como uma linguagem universal: clareza e organização na comunicação

- Utilizando M.I. – de acordo com a formação instrumental

- Utilizando M.I. – de acordo com o gênero/estilo musical

4 – Noções Básicas de Arranjo

- Formação instrumental

- Gênero/Estilo – Groove (levada)

- Forma – Sessões (principais e acrescidas)

- Instrumentação/orquestração – funções dos instrumentos no arranjo

- Equilíbrio da estrutura musical

Unidade

- Utilização de materiais restritos


- Inter-relação entre seções
- Recorrência

Diversidade
- Utilização de novos materiais / Variações
- Contraste entre diferentes materiais ou seções
(Dinâmica – Textura – Instrumentação – Densidade)
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SUGESTÕES DE PERGUNTAS PARA O TALK SHOW

Preencher, destacar e entregar no domingo à tarde:

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