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Universidade do Vale do Itajai – UNIVALI

Centro de Ciências Jurídicas, Políticas e Sociais – CEJURPS


Curso de Direito
Disciplina Direito Internacional dos Direitos Humanos
Prof. Roberto Wöhlke, Msc

APRESENTAÇÃO DA TESE

ALUNA: Evelin Cristiane V. Machado

REFERENCIA DO TEXTO: KAMINSKI, Anelise Vaz. As limitações das intervenções


humanitárias da ONU: o caso do Haiti. Dissertação. Programa de Pós-graduação em Sociologia
Política – UFSC, 2011. Cap1. As intervenções Humanitárias no Pós-Guerra Fria (pág 23-50)

1. Questão / Tema

De início, sabe-se que parte da doutrina política clássica, tendo como uns de seus
precursores Rosseau, classifica o impulso natural de ajudar o próximo como algo intrínseco ao
ser humano. Alguns grandes princípios fornecem os alicerces para a discussão, como o da
humanidade, imparcialidade, neutralidade, e independência.
Não obstante, o rótulo "humanitário" tem sido cada vez mais usado por
Governos ocidentais para legitimar uma nova agenda de segurança. O uso de razões
humanitárias para justificar intervenções militares, atrelada ao fato de que os governos
envolvidos em tais operações militares são, geralmente, também os principais financiadores do
sistema, levou a discussões sobre os princípios éticos que circundam a questão.
Assim, o espaço humanitário perdeu a sua independência, principalmente devido ao
fator econômico, porquanto as organizações humanitárias foram essencialmente financiadas
pelos Estados que, progressivamente, vislumbraram na ajuda humanitária a possibilidade de
utilizá-la como instrumento da política externa. Respectiva tendência foi reforçada com as
incorporações das intervenções militares humanitárias. Nesta toada, protagonistas das
organizações humanitárias continuam a lutar contra tais aspectos.
A solução do dilema não fácil. É evidente que as ações humanitárias interventoras
tem consequências políticas, resta, portanto, saber quais são. Uma avaliação sincera sobre as
implicações éticas quanto ao assunto é o mínimo que se espera.
Se faz necessário a imposição de regras claras sobre a intervenção humanitária e
seus limites. No entanto, é difícil garantir o cumprimento tais regras. Isto porque, uma vez que a
guerra eclodiu, ela tende a acabar com tudo que existia outrora. Atingido o núcleo, pouco resta
da obediência as questões antes colocadas.
Os valores pré-definidos perdem peso quando em confronto com as magnitudes da
guerra, como a intolerância e o ódio. Diante das agonias, que são consequências imediatas no
correr de qualquer guerra, como então se posicionar?
Superada a questão da soberania estatal, ainda que até hoje latente entre a
comunidade acadêmica, o Direito Internacional dos Direitos Humanos assume o dilema. Neste
cenário surge a doutrina da “Responsabilidade de Proteger”. A ação humanitária deve ser
baseada na lei universal de proteger e zelar pelo indivíduo. É extremamente pertinentes aqui o
seguinte trecho, em que a autora, citando Habermas, sintetiza (fls. 45-46):
Defensores da doutrina argumentam que a comunidade internacional não deve tolerar
crimes que chocam a consciência da humanidade. Entre esses defensores, está
Habermas, que defendeu a ação da OTAN, argumentando, inclusive, que a falta de clareza
jurídica das regras não autoriza os Estados competentes a negar a ajuda necessária em
crises humanitárias ao redor do mundo. Em seu artigo, “Bestialidade e Humanidade” (19
99), ele alerta para o perigo da inversão das relações causais diante da revolta que uma
guerra causa, principalmente nos dias de hoje, quando cenas deprimentes disseminadas
na mídia fazem com que todos se sintam dolorosamente condoídos pela desgraça alheia.

A intervenção humanitária encara duas facetas que compõem a magia e a enganação


por dois turnos. Como aqui dissertado, não se ignora o possível conluio com interesses políticos
e particulares como brecha para uma doutrina de laissez-faire. Tanto assim o é que o governo
chavista teceu críticas acerca da Responsabilidade de Proteger, aduzindo que as propostas
atendem à uma agenda imperialista (p. 47).
Contudo, tendo como influência o princípio do dano em Stuart Mill e com base no
discurso de Habermas citado no texto, os indivíduos, de fato não podem arcar com as
consequências desastrosas de uma não-intervenção quando o cenário indica, tal qual ocorreu
na Ruanda, que as medidas interventoras podem prevenir o genocídio, ao passo da falta de
clareza jurídica/política que permeia as dificuldades desta dupla faceta.
Um dos desafios é portanto mitigar os efeitos das dificuldades apontas, como bem
colocado pela autora (p.49):
Assim que, ainda que teoricamente existam opiniões divergentes sobre o que motiva ou
não as decisões no campo internacional, o fato é que se o ordenamento jurídico
internacional estabelecer diretrizes mais claras de ação, e instituições como a ONU e a
Corte Internacional de Justiça adquirirem mais autonomia e algum poder coercitivo que
independa da concessão de países-membros, o espaço para arbitrariedades poderia
diminuir significativamente.

Portanto, a problemática persiste, e o que resta à comunidade internacional é


permanecer vigilante tendo como elemento-chave o que a história mostra com a experiência tida
nos últimos anos.