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PROCURADORIA GERAL DO MUNICÍPIO
Procuradoria de Patrimônio, Urbanismo e Meio Ambiente

EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA 04ª VARA CÍVEL DA COMARCA DE


NITERÓI

TJRJ NIT CV04 201800501184 29/01/18 12:49:39138038 PROGER-VIRTUAL


Processo nº 0058220-87.2017.8.19.0002
(Pasta 1709)

O MUNICÍPIO DE NITERÓI, por seu Procurador que esta


subscreve, vem, diante do noticiado na mídia impressa local sobre eventual
descumprimento da decisão liminar, esclarecer o que se segue.

A decisão liminar em referência determinou a suspensão de qualquer


intervenção na área abrangida pela Operação Urbana Consorciada na Região Central
de Niterói/RJ. Todavia, ao interpretar a decisão em sua completude, nos exatos termos
que inspira o artigo 489, § 3, do CPC1, a simples demolição de um dos prédios
desapropriados situado na Rua Marquês do Paraná não tem por condão violar o
decisum. Explica-se.

Considerando os elementos fáticos que lastreiam o objeto da ação,


seria por demais forçoso considerar que todo e qualquer ato material na região física
da OUC, ainda que não integrante do escopo dessa política pública urbanística de
grande monta, estaria vedado. Admitir isso seria, na prática, vedar a natural e ordinária

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Art. 489. São elementos essenciais da sentença: [...] § 3o A decisão judicial deve ser interpretada a partir da
conjugação de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé.

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rotina urbana nesse espaço da cidade. Nessa linha de entendimento ampliativo, por
exemplo, a simples concessão de uma autorização para pequenos reparos em uma casa
situada no centro de Niterói seria considerada uma violação à decisão liminar. O que,
certamente, não é a pretensão delimitada na inicial e que inspirou o deferimento da
tutela antecipada.

Assim, o mero ato material de demolição de um prédio desapropriado


pelo Município NÃO possui a magnitude para ser considerada uma intervenção
urbanística no bojo da Operação Urbana Consorciada. E, como tal, NÃO pode ser
considerado como descumpridor da decisão liminar.

A decisão proferida pela 4ª Vara Cível da Comarca de Niterói se


refere à OUC-Niterói enquanto projeto urbanístico macro, ao passo em que o ato puro
e simples de demolição de imóveis desapropriados se insere no âmbito do poder de
império do Ente Público, concretizado no bojo de um procedimento de desapropriação,
não representando, por si só, o início de qualquer atividade de alargamento da via
pública. Quanto a isso, mister destacar que o Município poderá, inclusive, dar
destinação diversa ao bem, desde que atenda ao interesse público (tredestinação lícita).

Em reforço a isso, o documento anexo ao presente, destaca que a


demolição pretendida ostenta potencial poluidor insignificante e de baixo impacto,
sendo atividade de pequeno porte. Informa, ainda, que não há vegetação no local e
não se trata de área especialmente protegida. Assim, inexiste qualquer violação ao
meio ambiente. Mais uma vez, aplicar a interpretação extensiva que se quer dar ao
decisum seria, na prática, exigir um Estudo de Impacto Ambiental, sabidamente
complexo e caro ao erário, para a simples demolição de prédio público de
insignificante impacto poluidor. (Doc. Anexo: Manifestação Técnica – SMARHS)

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Pois bem, todavia, caso se entenda que o mero ato de demolição de


próprios municipais estaria albergado pela liminar, requer seja excepcionada a
demolição ora em andamento por razões de ordens práticas e técnicas.

Conforme certificado pela Empresa Municipal de Moradia,


Urbanização e Saneamento “EMUSA”, o início da demolição, com a retirada das
partes internas, janelas, portas, etc, se deu anteriormente à decisão liminar (o
Município foi intimado em 18 de dezembro de 2017). Os atos materiais de demolição
ocorreram ao longo dos meses pretéritos com o avanço das desapropriações. Conforme
documento anexo, a Ordem de Início para a demolição dos prédios foi dada em 23 de
novembro de 2018. Diante disso, duas questões técnicas saltam aos olhos. (Doc.
Anexo: Ofício EMUSA)

A primeira reside no sério risco que se agravava, dia após dia, de


invasão do prédio público. Era fato notório de que o prédio se encontrava vazio. O que
era agravado pelo fato de que o mesmo se encontrava sem as portas e janelas. Aliás, a
própria Procuradoria Geral do Município recebeu denúncias nesse sentido, noticiando
e alertando a Secretaria de Obras e a EMUSA sobre tais riscos, frise-se, bem antes da
decisão liminar.

A segunda reside no risco estrutural que por ventura poderia surgir,


caso não se prosseguisse com a demolição. Nos termos narrados pela EMUSA, a
demolição teria que ser concluída o mais breve possível. Uma vez iniciada, pela
retirada das partes internas, haveria risco de fadiga estrutural da construção, com o
aparecimento de avarias que colocariam em risco não só a construção, como os
transeuntes (por exemplo, risco de queda de reboco, partes do prédio, etc). Sem falar
no grau de comprometimento que um prédio devassado poderia gerar, funcionando
como foco de insetos e doenças.

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Esse, então, foi o conjunto de circunstancias que motivaram o avanço da


demolição. Caso o imóvel permanecesse no estado em que se encontrava, desocupado
e sem portas, janelas, dentre outros, poderia advir graves riscos à coletividade. Isso
porque o local poderia facilmente se tornar um foco de propagação de vetores de
doenças, comprometendo a saúde pública, bem como sofrer com atos atentatórios à
segurança pública, tais como vandalismo e invasões.

Desse modo, caso V. Exa. Entenda que todo e qualquer ato de demolição
se insira no campo de incidência da decisão, requer seja autorizado, excepcionalmente,
o prosseguimento das demolições dos prédios já desapropriados. Nessa hipótese,
conforme requerido pelo Ilmo. Sr. Diretor da EMUSA, terminada a demolição, a área,
então, seria limpa e cercada, não havendo qualquer outra intervenção na localidade.

Por fim, o Município informa, com o devido respeito, que irá impugnar
em momento oportuno a decisão ora mencionada, com a apresentação de pedido de
reconsideração/recurso, conforme razões de fato e direito a serem discutidas ao longo
do processo.

Requer, desde já, as intimações sejam feitas em nome e no token


eletrônico da Prefeitura Municipal de Niterói.

Nestes termos, Pede deferimento.


Niterói, 29 de janeiro de 2017.

JOSÉ COTRIK NETO


PROCURADOR DO MUNICÍPIO
MATRÍCULA 240.888-0/OAB/RJ Nº 158.959

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