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Impacto da Deprivação Materna na Adolescência

Este documento discute o desenvolvimento emocional dos adolescentes que sofrem privação materna de acordo com a teoria psicanalítica. Apresenta conceitos sobre a importância do ambiente e do cuidado materno nas primeiras fases de desenvolvimento e como isso influencia a adolescência. Também discute a teoria do amadurecimento de Winnicott e o papel facilitador do ambiente para o desenvolvimento saudável.

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Impacto da Deprivação Materna na Adolescência

Este documento discute o desenvolvimento emocional dos adolescentes que sofrem privação materna de acordo com a teoria psicanalítica. Apresenta conceitos sobre a importância do ambiente e do cuidado materno nas primeiras fases de desenvolvimento e como isso influencia a adolescência. Também discute a teoria do amadurecimento de Winnicott e o papel facilitador do ambiente para o desenvolvimento saudável.

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3.

ADOLESCER

Esta planta gostada de csvscer Ao mesmo tempo ser


embrião; Aumentar, e contudo, escapar Do destino de
tomar forma.”
Richard WiIbur (apud Viorst 1988, p.43)

Como apontamos na Introdução, buscamos com a teoria


uma compreensão referente às questões dessa
dissertação: as conseqüências no desenvolvimento
emocional do adolescente que sofre deprivação da
função materna.
Para compreendermos o que é ser adolescente e,
principalmente, como lida com a situação de deprivação
materna, problemática dessa dissertação, faremos uma
aproximação aos conceitos básicos referentes ao
desenvolvimento precoce, descrevendo a base da
constituição da subjetividade do bebê, visto que,
conforme alguns estudos apontam, muitos dos processos
constituintes do bebê nunca são completados e, em
diversos momentos da vida do indivíduo, são re-
significados e
elaborados. A adolescência é um desses momentos!
Assim, percorreremos conceitos sobre a adolescência,
baseados na psicanálise que destaca o desenvolvimento
psicossexual e, posteriormente, buscaremos uma
aproximação dos conceitos winnicottianos referentes ao
processo de desenvolvimento adolescente.
Traçaremos, também, os elementos fundamentais que
estruturam o sentimento de ser real do adolescente, que
depende de um ambiente suficientemente adequado,
caracterizado pela extensão da função materna ao pai e
á família, para que, de fato, sejam supridas suas
necessidades, colaborando para que o seu
desenvolvimento prossiga em direção à fase adulta.
Será feito, ainda, um esboço teórico sobre a
adolescência na atualidade, com o interesse de situar a
função materna na vivência adolescente dos dias de
hoje.

3.1. A Teoria do Amadurecimento

Os estudos de Winnicott procuram ressaltar a


importância do meio ambiente no processo de
desenvolvimento psíquico do indivíduo. Nesse sentido, a
figura da

22.

mãe ocupa um papel de grande relevância para


proporcionar ao bebê um crescimento saudável, do ponto
de vista emocional. Para o bebê, ela é o primeiro
ambiente, tanto em termos biológicos quanto
psicológicos. A maneira como a mãe se comporta e se
sente em relação a seu filho exercerá uma grande
influência sobre a saúde do indivíduo.
Para Winnicott, as doenças psíquicas, particularmente
as mais graves, têm relação com perturbações que
ocorreram durante as fases iniciais da formação do
psiquismo, quando o meio ambiente da criança é
constituído pelas relações familiares. Admitindo que
cada individuo tem uma experiência singular de seu
ambiente devido a fatores pessoais insiste na idéia de
que um ambiente real, experimentado como facilitador, é
requisito indispensável ao desenvolvimento saudável das
potencialidades do indivíduo.
Este ambiente, conforme apontamos, é inicialmente a
mãe, ou quem exerça sua função, entendida como:
segurar o bebê, no início literalmente e, cada vez mais,
no sentido figurado de apoio psicológico; manuseá-lo,
através dos cuidados necessários a sua sobrevivência e
apresentar-lhe o mundo em pequenas doses
(apresentação de objeto). Inicialmente, diz Winnicott, a
mãe exprime seu amor através dos cuidados físicos,
procurando adaptar-se realmente de maneira ativa e
criativa às necessidades do seu filho.
Nessa concepção, o bebê, a princípio, vive em um
mundo subjetivo. Ele vive na dependência da figura
materna que lhe oferece a experiência de onipotência e
a possibilidade de viver em um mundo onírico. Aos
poucos, vai encontrando a nitidez e o seu mundo deixa
de ser apenas subjetivo.
Para chegar ao aspecto essencial desta condição, é
necessário deter-se sobre o papel da mãe ou figura
materna. Dela é preciso, no começo, um estado especial
que Winnicott chamou de “preocupação materna
primária”, momento em que a mãe abdica do seu próprio
“self” para cuidar do seu bebê. O bebê que se desenvolve
em um ambiente que este tipo de mãe pode proporcionar,
consegue viver durante um período suficiente em um
mundo subjetiva no qual o contato com a realidade
externa vai se dando gradativamente e através da mãe.
Numa situação de amamentação, por exemplo, o bebê
tende a olhar para o rosto da mãe e o que é refletido
neste momento é ele mesmo. O rosto dela reage

23.

com respostas faciais que lhe devolvem o próprio “self”,


tornando-o capaz de existir e sentir-se real.
Assim, ele descobre um modo de existir, de relacionar-
se com os objetos e de ter um “eu” (self). Este espelho,
portanto, reflete a presença da mãe interna, a
internalização do sentido da confiabilidade e do existir.
Conforme Winnicott (1967/1996) destaca “é somente
sobre uma continuidade no existir que o sentido do self,
de se sentir real, de ser, pode finalmente vir a se
estabelecer como uma característica da personalidade
do indivíduo” (p.18).
Esse investimento exaustivo da mãe no filho recém
nascido mostra também a importância de estar
preparada para deixá-lo ir quando ele precisar se separar
dela. Mas, como Winnicott observa corri freqüência, é a
diminuição cuidadosamente calibrada da adaptação à
mãe que permite à criança aprender lentamente a tolerar
a frustração, adquirir senso de realidade e conseguir
caminhar com as próprias pernas.
“O amor da mãe e sua estreita identificação com o filho,
diz o psicanalista D.
W. Winnicott, permitem que ela conheça as necessidades
da criança, e de certo modo forneça a coisa certa, no
lugar certo e no tempo exato” (WINNICOTT apud VIORST,
1988a, p.217). Porém mais tarde, quando o filho cresce,
ela deve, gradativamente, deixar de ser a mãe que
resolve tudo e entregá-lo ao mundo.
Todas as particularidades do cuidado materno que
antecedem e sucedem o nascimento convergem para a
composição do ambiente de holdinq. Isto inclui a
preocupação materna primária, mencionada
anteriormente, que possibilita à mãe fornecer ao bebê o
necessário suporte egáico.
Com a noção de holding, Winnicott refere-se a um meio
ambiente de sustentação que permite ao bebê “continuar
a ser”. A função principal do meio ambiente de
sustentação é evitar a experiência de aniquilamento do
ser pessoal, terror designado por Winnicott (1960) como
“ansiedade impensável”.
Como vimos, nas primeiras fases do desenvolvimento
do ser humano, um papel vital é desempenhado pelo
meio ambiente. No trajeto da dependência absoluta para
a independência relativa, gradativamente, ocorre a
separação entre o “eu” e o “não eu”, cujo ritmo varia de
acordo com o bebê e com o meio ambiente. Isso se
traduz na separação da mãe, como aspecto ambiental
objetivamente

24.

percebido. Se ninguém está ali para ser mãe, a tarefa


desenvolvimental do ser humano torna-se infinitamente
complicada.
Para Winnicott (1990), o ambiente confere grande peso
como facilitador do desenvolvimento do indivíduo. Esse
fator está presente desde o estado lactente, quando a
criança forma um par com a mãe; a ação do meio
ambiente permanece presente nos períodos posteriores
de crescimento e na vida adulta.
O significado de meio ambiente, nessa concepção,
engloba tudo o que está ao redor, incluindo aspectos
materiais e emocionais. A mãe é, a um só tempo,
representante de ambos, uma vez que age com seu corpo
e com seu investimento emocional.
O crescimento, por sua vez, demanda a presença
participativa do meio ambiente para apoiar o individuo
em seu processo evolutivo.
Essa relação leva Winnicott (1990) a afirmar que é
“produtivo examinar as necessidades dos lactentes e
então traduzir essas necessidades para uma linguagem
que é apropriada a todas as idades” (p.66).
Ou seja, inicialmente um espaço limitado por quatro
paredes — o quarto do bebê — vai tomando amplos e
sucessivos contornos, passando pela comunidade mais
próxima do indivíduo até a amplitude do contexto social:
o bebê novinho, o maiorzinho, a criança pequena, a
maior, o adolescente, o adulto, o idoso. Porém, é
importante ressaltar que são as pessoas envolvidas com
o indivíduo em cada uma dessas fases que maior
importância têm para o processo de crescimento.
Podemos nomear essas pessoas como sendo a figura
dos pais, dos professores, dos pares na profissão e no
trabalho, dos cônjuges, dos analistas, dos dirigentes das
instituições e etc.
Assim, o termo ambiente adquire vasta adjetivação:
acolhedor, tolerante, estável, seguro, confiável,
previsível, etc. No entanto, na prática, o ambiente pode
ser adequado ou não às necessidades de crescimento do
indivíduo. Quando há falhas, significa que o meio não
consegue ser suficientemente bom no sentido de atender
as necessidades do indivíduo.
Para Winnicoft (1990), “é a tendência inata no sentido
da integração e do crescimento que produz saúde no
indivíduo e não a provisão ambiental” (p.65). Entretanto,
o meio ambiente pode provocar a doença ao interceptar
a emersão do potencial herdado. Assim, a tendência que,
em princípio, o levaria a ter saúde

25.

emocional pode não se desenvolver, pode ser retardada


ou distorcida. Contudo, segundo Winnicott (1990), as
distorções podem ser prevenidas por meio de um
provisão ou cuidado ambiental suficientemente bom em
qualquer fase do desenvolvimento humano.
Assim, o autor nos ajuda a pensar no adolescente
deprivado de um ambiente facilitador e nas
conseqüêndas desta condição. Essas considerações
contribuições para a pesquisa e somam dados para
refletirmos a problemática apresentada.

3.1.1. Função Paterna

“A realidade psíquica sempre será estruturada com base


nos pólos da ausência e da diferença; e, os seres
humanos sempre precisarão se adaptar ao que é proíbido
e ao que é impossível”
Joyce McDougall (apud Viorst, 1988, p.85)

Após uma breve apresentação da teoria do


amadurecimento de Winnicott, traçaremos um esboço da
função paterna em sua obra.
Winnicott é acusado, por vezes, de não levar em conta a
função do pai em sua teoria do desenvolvimento afetivo
da criança. É preciso entender, porém, que, para ele, o
fator tempo é necessário para que o bebê reconheça a
mãe como um objeto e atribua ao pai uma significação
enquanto pessoa do sexo masculino.
No início não existe o terceiro, pois sequer existe o
segundo. Interessado pelos momentos iniciais da
constituição do psiquismo, Winnicott propõe que, quando
o pai cuida do filho na fase em que o bebê não se
distingue do meio ambiente, sua função é igualmente
materna. Ou, diz Winnicott, no inicio da vida do bebê a
função do pai é apoiar a mãe, juntamente com a família e
a sociedade, para que ela possa desempenhar essa
tarefa tão complexa e delicada que é participar da
emergência de um sujeito.
Além disso, Winnicott mostra a importância da função
paterna no sentido de proporcionar ao indivíduo o
contato com a realidade. Os limites, as regras, as normas
— impostas por tal função, favorece a integração do
indivíduo, levando-o a atingir uma totalidade pessoal:
reconhecer-se não apenas como um alguém querido e
inocente, mas também, como um alguém violento e em
alguns momentos desinteressante.

26.

Em sua obra o pai não é apontado de uma forma


específica; em termos de ambiente, ele oferece uma
importante contribuição na sustentação da família corno
um promotor do estágio de preocupação”. Abram (2000)
aponta que Winnicott, em um texto intitulado E o pai?
(1945), aborda o valor do pai em três campos principais:
“a relação entre os pais, o suporte proporcionado pelo
pai à mãe, em sua autoridade, além de ser ele aquele que
faz a distinção entre quem ele é e os outros homens”
(p.37).
Desta forma, o pai entra no quadro geral de duas
maneiras. Até certo ponto, ele é uma das duplicações da
figura materna. Pode vir a entrar na vida da criança
como um aspecto da mãe que é duro, severo, implacável,
intransigente, indestrutível e gradualmente vai se
tornando aquele homem que se transforma num ser
humano que pode ser temido odiado, amado, respeitado.
O modo de ser do pai naturalmente determina a
maneira como a criança usa ou não esse pai, na
formação da família de cada criança em particular. Aqui
lembramos de possíveis situações em que o pai não se
impõe e atribui apenas à mãe a função de cuidados.
Destaca-se, entretanto, a importância do pai não só
como apoio emocional ã mãe, como um ser humano que
sustenta a lei e a ordem na vida da criança, mas também
na medida em que se oferece e pode ser vivenciado
como objeto de identificação.
A teoria winnicottiana parece ter se desenvolvido e
aprofundado em torno do eixo constituído pela relação
mãe-filho, em primeiro plano, desempenhando o pai um
papel secundário. Por outro lado, Freud destacou a
importância da presença do pai a partir do início do
Complexo de Édipo, por volta dos quatro ou cinco anos, e
da sua resolução. A importância da participação paterna
é enfatizada no processo de rompimento da simbiose
mãe-bebê.
Isso nos leva a crer que quando o indivíduo chega ao
estágio de desenvolvimento em que consegue perceber a
existência de três pessoas (ele, a mãe e o pai), encontra,
na maioria das culturas, uma estrutura familiar a sua
espera. No interior da família, a criança pode avançar,
passo a passo, do relacionamento entre três pessoas
para outros mais e mais complexos. É nessa relação
triangular que enfrentará tanto as dificuldades como
também toda a riqueza da experiência humana.

27.

No filme “Minha vida de cachorro”, o pai de Ingemar não


aparece. Sabe-se que vive no Equador, mas não participa
da vida do garoto. Desta forma, a me além de doente, é
sozinha para cuidar dos filhos, o que compromete sua
atuação no fornecimento de uma maternagem
satisfatória, pois conforme a teoria winnicottiana nos
mostra: a mãe precisa do apoio da família para que possa
atender satisfatoriamente as demandas dos filhos.
Embora não saibamos até quando o pai esteve presente
em sua vida, vê-se que Ingemar tem introjetada a função
paterna. A princípio dois acontecimentos nos levam a
hipótese dessa vivência: Ingemar “casa-se” com uma
amiguinha através de um pacto de sangue e, mais
adiante, apaixona-se por uma mulher mais velha. Estes
acontecimentos podem ser característicos de quem
passou pela fase do Complexo de Édípo e, portanto, da
presença efetiva do pai que tem como função, entre
outras, o rompimento da simbiose mãe-filho. Assim, o
garoto demonstra a presença de uma identificação com
a figura masculina que o favorece no estabelecimento de
uma identidade sexual.
É claro que o fato de apaixonar-se por uma mulher mais
velha também pode estar relacionado a uma carência
devido ao momento difícil que Ingemar estava vivendo
(mãe doente, morrendo), mas isso será abordado adiante.

3.2. Visão geral sobre a adolescência

“Aí meu deus! Como está tudo esquisito hoje! E ontem


estava tudo tão normal? Será que mudei durante a
noite? Deixe ver: eu era a mesma quando me levantei
hoje de manhã?
Estou quase jurando que me sentia um pouquinho
diferente.
Mas, se não sou a mesma, então que é que sou? Ah, ai é
que está o problema? Lewis
Carrol. Aventuras de Alice no pais das maravilhas (1865,
apud Outeiral, 2003, p.7)
Neste item abordaremos alguns conceitos sobre a
adolescência. Para tanto serão utilizadas contribuições
de autores como Outeiral, Aberastury, Knobel, Levisky e
Freud, bem como dados da Organização Mundial de
Saúde (OMS) e da Estatuto da uma Criança e do
Adolescente (ECA) para obtermos abrangente dessa fase
de desenvolvimento.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OSM), a
adolescência é representada por indivíduos na faixa
etária entre 10 e 16 anos, e a juventude, entre

28.

16 e 20 anos. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente


(ECA), lei n. 8.069/90 - artigo 2, considera adolescente,
para efeitos da Lei, a pessoa entre 12 e 18 anos de idade.

Os termos adolescência, idade adolescente, teen age,


puberdade, juventude são palavras que designam um
largo período que, cronologicamente, se estende dos dez,
onze anos até os vinte ou vinte e um anos, dependendo
de grandes variações individuais e culturais. É um
período que ocorre mais cedo no sexo feminino, do que
no masculino.
Para Outeiral (2003), a palavra adolescência tem dupla
origem etimológica. Ela vem do Latin ad (a, para) e
olescer (crescer), significando a condição de processo
de crescimento. Adolescência também deriva de
adolescer, origem da palavra adoecer.
Relacionado a isso, Outeiral (2003) descreve:

Temos assim, nesta dupla origem etimológica, um


elemento para pensar esta etapa da vida: aptidão para
crescer (não apenas no sentido físico, mas também
psíquico) e para adoecer (em termos de sofrimento
emocional, com as transformações biológicas e mentais
que operam nesta faixa da vida) (OUTEIRAL, 2003, p.4).

Com relação ao aspecto adoecer, em termos de


sofrimento emocional, comentaremos adiante.
Segundo Ariés (apud Outeiral, 2003) a adolescência
teria se desenvolvido entre o final da Primeira Guerra
Mundial e o inicio da Segunda Guerra Mundial, entre 1918
e 1939; até então, passava-se da infância à idade adulta
em curto espaço de tempo.
Atualmente a adolescência pode ser compreendida em
vários aspectos. Alguns autores a definem em termos de
crescimento, como um período de transição, ou ainda,
como o período final da infância.
Há teorias que ressaltam as transformações físicas e
outras que destacam as transformações
comportamentais, tais como a suposta rebeldia, um
certo isolamento, apego a grupo de semelhantes, adoção
de novas formas de se vestir, falar e se relacionar, além
da presença de sintomas relacionados à depressão. Esta
fase de desenvolvimento acontece desde um momento
razoavelmente tranqüilo, até um período turbulento de
modo que chega até a se parecer com características
patolágicas.

29.

Essa aparência patológica acontece porque, na


adolescência, meninos e meninas emergem de modo
irregular e desajeitado da infância e da dependência, em
busca de se tornarem adultos.
De acordo com Knobel (apud Aberastury, 1981), o
adolescente passa por desequilíbrios e instabi- lidades.
“Mostra-nos períodos de elação, de introversão,
alternando com audácia, timidez, desco- ordenação,
urgência, desinteresse ou apatia, que se sucedem ou são
concomitantes com conflitos afetivos (...)” (KNOBEL
apud ABERASTURY, p.28).
Embora haja vários enfoques, existe um que é comum, o
de que esse é um estágio importante do amadurecimento
e que, em condições favoráveis, proporcionará ao
indivíduo a formação de sua estrutura de caráter.
Sociologicamente, adolescência é o período de
transição em que a criança deixa de ser totalmente
dependente para se iniciar na idade adulta.
Psicologicamente, a adolescência é uma situação de
conflito em que há ajustamentos e reajustamentos, não
raras vezes com características, segundo Freud,
neuróticas, quando as fases pré-genitais não se deram
normalmente. A sexualidade evolui e passa por inúmeras
transformações, ou metamorfoses, para que o individuo
alcance a sua constituição mais estável.
Winnicott (1994) nos mostra que se examinarmos os
processos de amadurecimento, veremos que o
adolescente nessa fase está tendo que enfrentar
mudanças associadas a puberdade.
Relacionado a isso, vemos que há uma confusão entre
os termos adolescência e puberdade que, embora
tenham significados diferentes, estão estreitamente
relacionados. A puberdade é um termo
predominantemente biológico e compreende
fundamentalmente as transformações corporais, a
aparição da menstruação na menina e a ejaculação no
menino. Já com a adolescência nos referimos ao
componente psicológico do processo que pode ser
modificado ou influenciado pelo fator social, não
excluindo o fato de que a puberdade também pode ser
influenciada pelo fator social, mas de maneira geral essa
diferenciação é válida.
O período de transformações da adolescência também
pode ser abordado pela ótica da maturidade
psicossexual. Nessa perspectiva, baseada na psicanálise
freudiana, há uma ênfase ao desenvolvimento das
pulsões e um estudo aprofundado dos conflitos
intrapsíquicos.

30.

O desenvolvimento da sexualidade e suas


manifestações secundárias estão presentes nesta fase.
Em particular, nos casos sadios, cada indivíduo vivenciou
antes do período de latência a experiência de um
Complexo de Édipo plenamente desenvolvido, isto é,
viveu as posições do relacionamento triangular
constituídas pelos pais conforme vimos brevemente no
item “Função paterna”.
Na fase em que Freud chamou de latência, geralmente
entre os sete e dez anos, a criança deixa o âmbito
exclusivo da família e passa a adquirir conhecimento
social. Há uma convergência de maior estabilidade
psíquica e importantes habilidades cognitivas, que dão
ao indivíduo mais autocontrole. É um momento em que o
indivíduo descobre que os pais são falíveis e encontrará
um novo conjunto de pessoas para admirar, imitar e amar.

A adolescência é uma etapa evolutiva peculiar ao ser


humano. Entretanto é caracterizada por uma revolução
biopsicossocial que gera sofrimento e angústia devido a
bruscas transformações físicas e psíquicas apontadas
anteriormente.
Esse sofrimento que angustía os adolescentes é reflexo
dos conflitos da dependência infantil que intimamente
ainda persistem. Além disso, as angústias e ansiedades
peculiares à adolescência estão relacionadas à
preocupação do adolescente com seu desenvolvimento
físico, especialmente no que diz respeito aos aspectos
sexuais.
As novas relações sociais do adolescente com os pais e
com outras pessoas da família ou grupo de amigos,
também podem ser fonte de ansiedade. Paralelo a isso
há um sentimento de solidão e insegurança, de que não é
compreendido e de que não é capaz de tomar decisões
sobre sua vida.
De acordo com Levisky (1998), as características da
adolescência sua expressividade, manifestações
comportamentais e adaptação social, são dependentes
da cultura e do ambiente em que o processo se
desenvolve.
Desta forma, penso que os conflitos característicos
dessa fase de desenvolvimento tendem a agravar se o
adolescente estiver inserido numa família que também
está em crise, seja por separação dos pais, por violência
doméstica, alcoolismo de um dos pais, sérias
dificuldades econômicas, doença física ou morte — como
é ocaso da mãe do personagem do filme no qual estamos
estudando.
Diante do exposto acima, vimos que as modificações
que caracterizam a adolescência propiciam uma série de
eventos psicológicos e corporais, como a

31.
perda do corpo infantil, que culminam naquilo que
denominamos de aquisição de uma identidade sexual.
Segundo Outeiral (2003):

Vive o adolescente, neste período evolutivo, a perda de


seu corpo infantil, com uma mente ainda infantil e com
um corpo que vai se fazendo inexoravelmente adulto, que
ele teme, desconhece e deseja e, provavelmente que ele
percebe aos poucos diferente do que idealizar quando
adulto. Assim querendo ou não, o adolescente é levado a
habitar um novo corpo e a experimentar uma nova mente
(OUTEIRAL, 2003, p.7)

Essa vivência de perda do corpo infantil também é


abordada por Aberastury (1981), quando diz que o
objetivo final do desenvolvimento do adolescente é a
construção da própria identidade que se processa na
interação dos conteúdos internas com os conteúdos
externos. Nesse dinamismo, para formar sua própria
identidade há necessidade de elaboração, pelo
adolescente e pelos pais, de perdas que são
denominadas lutos, como: “luto pelo corpo infantil, luto
pelos pais da infância e luto pela perda do papel e
identidade infantis” (p.10).
Assim, vê-se que a adolescência não pode ser
compreendida estudando separadamente os aspectos
biológicos, sociais ou culturais, pois ela é uma atitude ou
postura do ser humano perante essas transformações e
mediante as influências transmitidas pelo meio ambiente
e pela cultura a que pertence.
Diante desse fenômeno que é a adolescência os pais
buscam compreender e solucionar as aflições
apresentadas pelos filhos. Não sabem como agir, como
lidar com a instabilidade que esta fase apresenta. Por um
lado, os adolescentes, na sua imaturidade, no seu
processo de amadurecimento, inscrevem nos pais as
suas necessidades básicas; por outro lado, repudiam
qualquer ajuda.
Isto acontece porque, na adolescência, os
comportamentos de apego em relação aos pais sofrem
alterações, tornando-se cada vez menos visíveis. Ao
mesmo tempo, o vínculo com outros adultos e pessoas
da mesma idade adquire maior importância.
Uma ligação ou vínculo persiste usualmente por grande
parte do ciclo vital. Durante a adolescência, as ligações
da infância passam a ser suplementadas por novas
ligações e, em alguns casos, substituidas por estas
últimas: porém as primeiras ligações (mãe-família), não
são facilmente abandonadas.

32.

Nesse caso, a mãe ou quem exerça a maternagem, é o


objeto que se apresenta como um continente acolhedor
para oferecer ao adolescente uma condição psíquica
menos perturbada tornando-o capaz de digerir as
experiências emocionais intoleráveis.
A ameaça da perda da figura de ligação pode levar uma
criança, adolescente ou adulto a viver em constante
ansiedade, sentir medo de perder pessoas próximas e
apresentar resistência para estabelecer novos
relacionamentos.
Com isso, consideramos importante compreender o
processo de afastamento criança/família que começa
com o esforço para sair do colo da mãe, depois ficar de
pé, ir para as outras salas da casa, passando das
imagens, sons e cheiros da vida em família para os
estudos, tarefas e brincadeiras do período de latência -
que precede a adolescência. No entanto, é fundamental
que haja continuidade de um ambiente sustentador para
abarcar a demanda do indivíduo a cada etapa de sua
vida.
No filme, Ingemar apresenta algumas características
desta fase de desenvolvimento que é a adolescência. As
brincadeiras sexuais (pênis preso a garrafa), a polução
noturna, o estranhamento com as mudanças de seu
corpo, o namoro com garota da sua idade, o interesse
pelas leituras de matérias sexuais junto a seu avô, o
comportamento desinibido do tio que o diverte e
estimula sua sexualidade; são vivências como essas que
nos mostram que Ingemar está vivendo a puberdade.
Porém, esse momento novo acontece concomitante à
doença que pouco a pouco consome a vida de sua mãe.
Conforme vimos na teoria, este é um fator que aumenta
a angústia que acontece naturalmente nesta fase de
desenvolvimento e exclui a possibilidade de um suporte
materno que ajude Ingemar a lidar de forma mais
tranqüila com essas transformações.
Adiante, voltaremos a essas questões.

33.

3.3. Winnicott e a Adolescência

“Transpondo a zona das calmarias”


Winnicott (1960)

Considerando que as tarefas do cuidado materno


favorecem a integração do “eu” do adolescente ao longo
de seu processo de amadurecimento, faremos um esboço
teórico sobre a adolescência enfocando a relação
materno-filial sob a perspectiva winnicottiana.
Segundo Winnicott (1981), nas experiências da infância
de cada adolescente, há caracteristicas e tendências
pessoais herdadas e adquiridas, fixações a modalidades
pré-genitais de experiência instintiva e resíduos da
dependência e da implacabilidade infantis; além disso,
restam todos os tipos de padrões doentios associados a
eventuais falhas de amadurecimento em nível edípico ou
pré-edípico.
Assim, os adolescentes chegam à puberdade com
padrões predeterminados pelas experiências de infância;
muita coisa permanece no inconsciente, e muito não é
conhecido por não ter sido experimentado.
Na fase da adolescência o indivíduo se percebe no
contexto de um grupo (escolar, por exemplo) e faz parte
de algo que se chama “meninos” e “meninas”. A
identidade sexual e a compreensão do que pode ser
vivenciado por pessoas dessa idade tornam-se mais
claras, o que intensifica o senso de identidade, aquele
“este sou eu”, numa distância física e emocional do lar.
Outeiral e Araújo, em texto intitulado “Winnicott e a
Adolescência” (2001), ressaltam a afirmação de
Winnicott quanto aos comportamentos dessa faixa
etária:

[...] o rapaz ou moça nesta faixa etária lida com suas


mudanças puberais. Ambos chegam ao desenvolvimento
total de sua capacidade sexual e as manifestações
secundárias ligadas a uma história pessoal passada[...].
Especialmente quando saudável, cada indivíduo passou
por uma experiência antes do período de latênda de um
Complexo de Édpo visceral, isto é, das duas posições
mais importantes da relação triangular com os pais; e
houve (na experiência de cada adolescente) modos
organizados de afastar as angústias ou de aceitar e
tolerar os conflitos inerentes a essas condições
essencialmente complexas. (WINNICOTT apud OUTEIRAL e
ARAUJO, 2001, p.326).

É importante ressaltar que a adolescência é mais do que


a puberdade física, ainda que esteja muito baseado nela.
Adolescência implica em crescimento e ainda

34.

que ocorra crescimento, a responsabilidade é dever das


figuras parentais. Conforme traz Winnicott em “A
imaturidade do adolescente” (1968/1996), “se elas
[figuras parentais] abdicam esse papel, os adolescentes
são obrigados a um salto para a falsa maturidade,
perdendo a sua maior riqueza: a liberdade de ter idéias e
agir por impulso” (p.129).
Segundo Winnicott (1968/1996), “o adolescente pode
ficar prematuramente velho e perder a espontaneidade,
os jogos e o impulso criativo despreocupado, devido à
perda de um dos pais ou rompimento da família” (p. 124).
Essas citações serão comentadas adiante. Por
enquanto vamos retomar os principais conceitos de
Winnicott no intuito de compreender a adolescência e
sua relação com a maternagem.
Acredito ser importante abordar a adolescência,
considerando a construção da subjetividade através de
sua relação com o ambiente, assunto ressaltado no tem
Teoria de Amadurecimento, pois refere-se à maternagem
que pode ser inserida em um contexto social ou cultural
diversificado. É a extensão da função materna no pai, no
irmão mais velho ou na avó, por exemplo, que possibilita
ao indivíduo viver num ambiente satisfatório e
desenvolver- se de modo saudável.
Para Winnicott (1965) a adolescência é:

[...] uma segunda oportunidade de maneira que as


experiências principais possam ser reencenadas pe!a
criança em sua própria casa durante a adolescência. Se
as primeiras tiveram realidade, é mais provável que as
segundas a tenham também” (WINNICOTT, 1965 apud
SANTOS, 1998, p.91).

Na visão winnicottiana, o indivíduo caminha da


dependência absoluta do ambiente e, gradativamente, vai
conquistando a dependência relativa que se traduz na
experimentação da autonomia até chegar à adolescência
com o desafio de atingir a fase adulta.
Winnicott (1960/2001) traz considerações sobre esse
modo de pensar; “Assim, não precisaremos nos importar
muito com a idade de uma criança, adolescente ou
adulto. O que nos interessa é a provisão do ambiente
bem adaptada às necessidades do indivíduo em dado
momento”. (p.130)
Desta forma, a teoria winnicottiana permite-nos
elucidar as necessidades existenciais do adolescente,
que aparecem na busca pela construção da
subjetividade adulta, juntamente com o meio ambiente
satisfatório.

35.

Entende-se que são necessários alguns anos para o


amadurecimento cio indivíduo para assim desenvolver
sua capacidade de descobiir o equilíbrio entre o ódio e a
destruição, que acompanham o amor dentro de si
mesmo. Isto traz a integração do ‘eu” do adolescente,
uma vez que ele se apropria dos impulsos destrutivos
dirigidos ao objeto sentido como bom;
consequentemente, ele ganha uma maturidade para o
estágio da vida adulta.
Considero ser importante ‘separar para integra?’,
separar-se da mãe e poder olhar para ela, poder
identificar-se com ela; relacionar-se com outras pessoas
sem perdê-la de vista.
Winnicott (1960/2001) ressalta que:

Quando examinamos este fenômeno do


desenvolvimento, que começa com a maternagem e
continua no interesse persistente que a família tem pelo
adolescente, não podemos deixar de ficar
impressionados pela necessidade humana de um círculo
que se amplia continuamente para cuidar do indivíduo e
também pela necessidade que o indivíduo tem por um
lugar onde uma contribuição pode ser feita de vez em
quando, sempre que ele tiver necessidade de ser criativo
ou generoso. Todos esses círculos cada vez maiores
representam o colo da mãe, seus braços e sua
preocupação.
(WINNICOTT, 1960, p. 130)

Aqui o autor nos mostra que a maternagem deve


sempre estar presente, mesmo que o adolescente
esteja vivendo a fase da dependência relativa. Quando
ele procurar, ela deve estar lá, proporcionando
aconchego segurança e fortalecendo sua busca para
atingir urna identidade pessoal.
Uma das caracteristicas do adolescente é a luta para
superar depressões, pois, na adolescência cada indivíduo
está vivenciando uma experiência de vida, um problema
de existência e de estabelecimento de uma identidade.
No entanto, o adolescente sempre necessitará do
contexto ambiental para poder suportar esses momentos
depressivos, seja no grupo de amigos em que confiou
para se identificar, seja no contexto familiar.
Uma outra característica é a de ser essencialmente
isolado; assim, o adolescente revive aspectos da
infância, pois o bebê, até viver a experiência do não-eu,
permanece isolado pela natureza subjetiva de seu
ambiente.
Assim, há, entre os adolescentes, uma tendência de
viver em grupos com interesses comuns. Esses grupos
desempenham um papel de grande importância,

36.

que é o de fornecer um espaço de identificação e de


compartilhamento de suas perdas.
É também uma característica-desta-fase oscilação
entre independência rebelde e dependência regressiva, e
mesmo a existência de ambos ao mesmo tempo.
Na rebeldia, o indivíduo rompe com o circulo imediato
que o envolve e lhe dá segurança. Mas, ao romper o
indivíduo procura inserir-se num circulo mais amplo
(amigos, escola, sociedade) que esteja pronto a aceitá-lo,
o que eqüivale dizer que ele tem necessidade de retornar
à situação rompida (colo materno).
Em um texto intitulado “Adolescência: transpondo a
zona das calmarias”, o autor expõe que houve um
crescente interesse pelo estudo dessa fase do
desenvolvimento trazendo consigo uma nova literatura
ligada ao assunto, indundo romances e autobiografias
escritas pelos próprios adolescentes.
Neste mesmo texto refere-se à adolescência como um
retrato da sociedade e do tempo em que viveu. É-nos
permitido supor a existência de uma conexão entre esse
desenvolvimento de nossa consciência social e as
condições sociais específicas da época em que vivemos”
(WINNICOTT, 1961/2001, p. 115).
Considerando que Winnicott se referia à década de 60,
penso ser possível fazer aqui uma associação deste
pensamento ao momento que vivemos (início do século
XXI). A adolescência pode ser um retrato social dessa
era de avanço tecnológico e de tantas desigualdades
sociais, onde os de classe média e alta são privilegiados
por adquirir esses recursos, e os da classe inferior,
privados desta condição.
Uma outra noção que me parece adequada aos
adolescentes dos dias de hoje é o que Winnicott
(1961/2001) chamou [...] de zona das calmarias - uma fase
em que se sentem fúteis e ainda não se encontram”.
(p.122)
A futilidade e a confusão mental parecem ser, de fato,
uma característica da adolescência, pois estão ligados a
uma descoberta pessoal. Porém, hoje em dia, o que
existe é um número maior de estímulos que os levam
futilidade. A mídia e a lnternet os colocam no mundo das
ilusões e os afastam da realidade de quem

Na edição do livro “Família e o desenvolvimento do


individuo” de 1980, o título desse texto é “Adolescência:
lutando contra a depressão” (1961).

37.
realmente são e onde querem e podem chegar (embora
estes não sejam os únicos efeitos da mídia e da
internet). Esse assunto será melhor abordado adiante.
Para Winnicott (1961) há um tipo de distúrbio que não pode
ser deixado de Lado nesta fase de desenvolmento — o
fenômeno da delinqüência.
Ele aponta que há uma íntima relação entre as
dificuldades normais da adolescência e o estado anormal
a que se pode chamar tendência anti-social, assunto que
será mais explorado adiante. A diferença desta relação
reside na dinâmica e na etiologia de ambos.
O autor afirma que:

[...] na raiz da tendência anti-social há sempre uma


deprivação ou carência. Este pode ser simplesmente o
resultado de um estado de ausência ou de depressão da
mãe, ocorrida num momento crítico, ou da dissolução da
família. Mesmo uma privação menos violenta, ocorrendo
num momento de dificuldades, pode acarretar resultados
persistentes, sobrecarregando as defesas disponíveis.
Por trás da tendência anti-social há sempre uma fase de
saúde seguida de uma ruptura, após a qual as coisas
nunca mais foram as mesmas (WINNICOTT, 1961/2001,
p.125).

O adolescente com esse tipo de problema tende a


obrigar o mundo a reconhecer sua divida, ou a fazer com
que o mundo reconstrua a estrutura rompida.
Não podemos afirmar, porém, que toda adolescência
seja igualmente fundada sobre deprivação. Mas a
semelhança entre os dois quadros é identificada pelo
elemento de carência; na adolescência normal, é mais
brando e difuso, e não exige demais das defesas
existentes.
Essas características podem ser agentes que
influenciam os grupos com os quais o adolescente se
identifica. Os adolescentes que sofreram deprivação de
cuidados podem se sentir vulneráveis e com isso
apresentar comportamentos característicos da
tendência anti-social.
Esperamos ter, com o tempo, adolescentes que
transponham a zona das calmarias e passam a ser
capazes de identificar-se com a sociedade, com os pais e
com todos os gêneros de grupos, sem sentir a ameaça da
perda da própria identidade. Porém, compreendemos que
este aspecto não depende apenas do tempo, mas
também da qualidade do ambiente em que vivem estes
adolescentes.
Winnicott expõe, ainda que todos os que exploram esse
campo da psicologia devem reconhecer que os
adolescentes não querem ser entendidos e, com isso, os

38.

adultos devem guardar para si próprios o que


compreendem a respeito da adolescêricïa.
Percebemos que há dificuldade em escrever sobre a
adolescência por ser uma fase que necessita ser,
efetivamente, vivida e é, essencialmente, uma fase de
descoberta pessoal. Da mesma forma que encontramos
dificuldade de escrever sobre o adolescente deprivado
da função materna. É um sofrimento que possivelmente é
compreendido na íntegra apenas quando vivido.
Podemos através da teoria explicar o sentimento de
deprivação materna sob uma ótica específica, mas as
diversas nuances desse sentimento, penso não serem
atingidas, pois cada ser humano é singular e, portanto,
reagirá de forma diferenciada.
Segundo Winnicott (1961), os padrões que se
manifestam no adolescente normal têm relação com
vários tipos de distúrbio mental. Por exemplo, o de evitar
a falsa solução corresponde à incapacidade de o
paciente psicático aceitar o meio termo ou a
ambivalência psiconeurática, ou ainda, com a ilusão e
auto-ilusão de saúde. A necessidade de sentir-se real
tem a ver com a depressão psicótica. E a necessidade de
desafiar corresponde à tendência anti-social que se
manifesta na delinqüência.
O autor traz uma breve definição teórica sobre a
adolescência. Diz que há razoável consenso entre os que
se dedicam ao estudo da psicologia dinâmica e uma
definição geral em termos de desenvolvimento
emocional do indivíduo.
A hora de adolescer é abordada por Winnicott
(1961/2001) com o seguinte questionamento: ‘seria sinal
de saúde adolescer no tempo certo, isto é, na época em
que ocorre o crescimento púbere?” (p.l 19).
Winnicott (1961/2001) faz uma comparação entre os
povos primitivos e nossa sociedade atual. Para ele, os
povos primitivos disfarçam sob tabus as mudanças da
puberdade ou transformam adolescentes em adultos, em
poucas semanas, por meio de rituais. Já nossa
sociedade diz que os adultos estão se formando por meio
de processos maturacionais e são impulsionados na
adolescência por suas tendências de crescimento.
Winnicott (1961/2001) não aborda a adolescência como
uma patologia; refere-se ao indivíduo saudável, embora
escreva:

39.
[...] a adolescência tem cura, uma cura apenas, que
porém não pode interessar ao garoto ou a garota que
estão em pleno sofrimento. A cura da adolescência vem
do passar do tempo e do gradual desenrolar dos
processos de amadurecimento; estes de fato conduzem,
ao final, ao aparecimento da pessoa adulta (WINNICOTT,
1961/2001, p. 115-116).

A cura, para o adolescente, não tem muita importância.


Ele busca uma cura imediata e, ao mesmo tempo, rejeita
a possibilidade de “curas”, pois vê em cada uma delas
elementos falsos. A sociedade deve tolerá-lo, mas não
curá-lo. A questão que se coloca é se a sociedade tem
saúde suficiente para agir desta forma.
Winnicott (1961) destaca algumas necessidades
manifestadas pelos adolescentes:

- de evitar a falsa solução, levando-os a adotar uma feroz


moralidade
- de sentir-se real, ou tolerar a absoluta falta de
sentimento;
- de ser rebelde num contexto que, confiadamente,
acolha também a dependência;
- de aguilhoar repetidamente a sociedade, de modo que o
antagonismo desta faça-se manifesto e possa ser
respondido com antagonismo.

Por falsa solução entendemos que, na rebeldia,


qualquer atitude dos pais e de representantes da
sociedade é vista pelo adolescente como falsa solução.
O adolescente busca soluções imediatas, mas, ao mesmo
tempo, rejeita uma após outra, pois vê em cada uma
delas elementos falsos; qualquer coisa que é dita ou feita
ao adolescente está errada. É oferecido apoio e isso é
errado, tira-se o apoio e isso é errado também.
Desta forma, o autor nos chama atenção para a
dificuldade dos pais de adolescentes, por verem-se
desafiados e, ao mesmo tempo, impulsionados a
executar funções primárias, necessitando acolhê-los
como se acolhe a um bebê.
Com isso vemos que a questão também gira em torno
de como os adultos irão lidar com os adolescentes no
desafio de tentar compreendê-los sem procurar curá-los
de uma coisa que é essencialrnente sadia.
Não podemos deixar de considerar que todo
adolescente transforma-se, com o tempo, em um adulto.
Com relação a esse aspecto Winnicott (1961/2001)
destaca que:

Os pais têm maior consciência desse fato do que muitos


sociálogos; a irritação pública com o fenômeno da
adolescência é facilmente evocada

40.

pelo jornalismo barato e pelas declarações públicas de


indivíduos importantes; a adolescência é tratada como
um problema, e o fato de que cada adolescente está na
verdade vivendo um processo ao cabo do qual se tornará
um adulto consciente e integrado na sociedade é
deixado de fora da questão (WINNICOTT, 1961/2001,
p.116).

Esta citação será retomada no item Adolescência hoje,


no qual será abordado o desenvolvimento adolescente
permeado pelas transformações sociais.
Uma das definições apontadas no texto “Deduções a
partir de uma entrevista terapêutica com uma
adolescente” Winnicott (1964/1994) diz que:

A adolescência é o estágio de tornar-se adulto através


do crescimento emoonal. Abrange um período de tempo
durante o qual o indivíduo é um agente passivo dos
processos de crescimento. A única cura para a
adolescência é a passagem do tempo, a passagem de
três a seis anos ao final dos quais o adolescente torna-
se capaz de identificar-se com as figuras parentais e
com a sociedade sem adoção de falsas soluções.
(WINNICOTT, 1964/1994, p. 249)

Esta citação remete-me a pensar sobre uma das falas


de Ingemar no filme: “o tempo cura feridas”. Naquele
momento estava se referindo à tristeza pela morte de
sua cadela, mas penso podermos aqui generalizar ao
tempo que cura também as angústias dessa fase de
desenvolvimento que é a adolescência. Ingemar, além de
viver uma fase de descoberta pessoal, enfrentou o
sofrimento ocasionado pelas perdas (da mãe e da
cadela).

3.3.1. A importância da família como ambiente

“Não há família que possa ostentar o cartaz: aqui não


temos problemas.” Antigo
pravério chinês, citado por
Bruno Beflelheim (1976, apud Outeiral, 2003, p.11)

Procuraremos agora mostrar algumas contribuições de


Winnicott para pensarmos sobre a função da família na
constituição subjetiva do indivíduo. Desta forma,
finalizaremos a compreensão de ambiente facilitador em
sua obra, que foi enfatizado pela função materna,
sustentada pela função paterna e da família como um
todo.

41.

Por se tratar de constituição do indivíduo, a família é


algo que pede um estudo mais detalhado, mas que não
teremos condição de fazê-lo neste trabalho, pois
fugiríamos da proposta inicial de pesquisar
especificamente as consequências da deprivação
materna na adolescência. No entanto, fazeremos um
esboço teórico de conceitos que contribuem na
compreensão geral da temática.

Em um texto intitulado” Família e maturidade


emocional”, de 1960, Winnicott traz a seguinte questão:
seria possível ao indíviduo atingir a maturidade
emocional fora do contexto familiar?

Winnicott (1960/2001) destaca que se dividirmos a


psicologia dinâmica em duas partes, termos duas vias de
abordagem do problema: na primeira, termos o
desenvolvimento da vida instintiva, as funções e
fantasias pré-gentais transformando-se numa
sexualidade plena; na segunda, vemos o indivíduo
estando sujeito, no início da vida, a uma dependência
absoluta que gradativamente caminha rumo à
independência.

Seguindo essa primeira vertente, a idéia de


adolescência surge no momento em que as mudanças
da puberdade ascendem ao primeiros anos de vida,
reaparecem ou temdem ou tendem a reaparecer na
psique do divíduo.
Embora considerando também esse pensamento
tipicamente freudiano, para Winnicott (1960) a segunda
abordagem é mais vantajosa, pois com ela não
precisamos nos prender à idade específica de uma
criança, adolescente ou adulto. O que nos interessa é o
grau de adaptação das condições ambientais às
necessidades do indivíduo.

No entanto, vê-se que uma das funções mais


importantes da família está ligada à complexa fantasia
sexual do indivíduo. O sexo não é apenas fonte de
satisfação física, mas é também uma conquista do
crescimento emocional da pessoa; quando tais
satisfações surgem de relacionamentos significativos,
tanto para a pessoa quanto para a sociedade , elas
representam um dos pontos culminantes da sáude
mental. Nem sempre o lar e a família permanecem
receptivos à vida sexual do adolescente, mas as
vivências di dia a dia em sociedade (troca de experiêcias
com colegas) proporcionam a ele a oportunidade de
desenvolver-se quando a esse importante aspecto.

42.

Winnicott considera maturidade sinônimo de saúde: a


criança de dez anos que é madura para a sua idade, o
infante que é maduro aos três anos, o adolescente sadio
que é um adolescente maduro - e não um adulto precoce.
O adulto sadio, que é maduro enquanto adulto significa
que já ultrapassou todos as estágios da maturidade, isto
é, todos os estágios maduros anteriores.
Referindo-se ao crescimento do adolescente em
“Conceitos contemporâneo de desenvolvimento
adolescente e suas implicações para educação
superior”, Winnicott (1968/1975) diz que:

[...] esse crescimento é também questão de um


entrelaçamento altamente complexo com o meio
ambiente facihtante. Se a famífia ainda tem
disponibilidade para ser usada, ela o é em grande escala,
mas se não mais se encontra disponível para esse fim,
[...] torna-se necessária então a existência de pequenas
unidades sociais, para conter o processo de crescimento
adolescente. (WINNICOTT, 1968/1975, p. 194).

Desta forma, compreendemos a importância tanto do


contexto familiar corno do social, que devem ser
facilitadores do processo de desenvolvimento no
estabelecimento da saúde e crescimento no indivíduo.
Trata-se de um tema que inclui a questão do cuidado
materno, que se modifica de acordo com o crescimento
da criança, da dependência à independência. Essa
segunda abordagem parece ser mais adequada ao
estudo do desenvolvimento emocional sadio.
O desenvolvimento emocional do indivíduo é constituído
a partir da trajetória que vai do estado de indistinção
com a mãe até o estado de ser um indivíduo separado.
Assim, o caminho percorrido segue pelo território
conhecida como família, que tem no pai e na mãe suas
principais estruturas.
O cuidado materno transforma-se em um cuidado
oferecido por ambos os pais, que juntos assumem
responsabilidades por seus filhos. Esse cuidado dos pais
pode ser ampliado para a família, que inclui os irmãos,
avôs, primos, padrinhos ou ainda, nas “famílias
tentacuiares contemporâneas” com outros tipos de
parentescos como: madrastas, padrastos, meio-irmãos,
etc.
A tarefa de quem cuida de adolescente consiste em
aceitar as irrupções de rebeldia e as recaidas na
dependência. É provável que a família seja a estrutura
mais apropriada para suportar essa dupla exigência do
adolescente: da tolerância à rebeldia e dos cuidados, do
tempo e do dinheiro dos pais.

2 [Link] Kehl; Conferência “A família tentacular


contemporânea”, Universidade São Marcos, 11/03/04.

43.

Desta forma, de acordo com Winnicott (1966/1996)


“considera-se a família um lugar onde as crianças
descobrem sentimentos de amor e ódio, e onde elas
podem esperar simpatia e tolerância, assim como a
exasperação que ocasionam” (p. 110).
A tarefa de cuidados consiste, ainda, em atender as
necessidades do indivíduo que cresce; não apenas em
satisfazer os impulsos instintivos, mas também estar
presente para receber uma relação de troca de
afetividade - características essenciais da vida humana.
Segundo Winnicott (1960/2001) “o apoio compreensivo
não é coisa tão rara, pois a norma é a existência da
família e de pais que se sentem responsáveis e apreciam
essa responsabilidade com que são investidos” (p. 132).
Essa citação de Winnicott parece contrapor a idéia de
que os pais, ao lidarem com adolescentes sentem grande
dificuldade em atender às demandas desta fase de
desenvolvimento que acontece com rebeldia
concomitante a uma dependência infantil. Sabe-se
também que hoje os pais vivem amedrontados, pois há
muita violência nas grandes cidades, o que relativiza
essa afirmação winnicottiana.
Winnicott (1990) destaca que “na estrutura familiar, os
pais fornecem também a continuidade no tempo, talvez
uma continuidade desde a concepção da criança até o
fim da dependência que caracteriza o término da
adolescência” (p.57).
Como se sabe, o adolescente que foge de casa não se
livra de modo algum de sua necessidade de ter um lar e
uma família, O sair de casa (para a escola, para a
sociedade) representa ao adolescente, na fantasia, estar
destruindo o lar ou relação de dependência.
Na prática, o adolescente precisa sair do colo da mãe
em direção a uma área maior, mas sujeito a controle:
algo que simbolize o colo que a criança abandonou.
Porém, não é fácil para a criança elaborar o sair e voltar
sem um apoio satisfatório da família.
Em uma cena do filme o personagem Ingemar foge da
casa do seu tio por alguns momentos, pois vê-se diante
de uma situação que provoca angústia (seu tio comunica
que terá que dormir na casa da Sra. Avidsson, pois não
há mais espaço em sua casa). Ingemar foge, segue em
direção à fabrica de vidro onde o tio trabalha e na qual
encontra a mulher mais velha por quem se apaixona.
Dela, ele recebe acolhimento e atenção.

44.

Estes fatos parecem ilustrar a teoria no sentido de


mostrar que a busca sempre será pela extensão do que
representa a maternagem; e que esses comportamentos
são revidicações do que lhe falta afetivamente.
Pensamos que, muitas vezes, para os adolescentes, os
familiares são um estorvo, mas não deixam de ser
importantes. A privação de relações familiares para
reclamar, amar, odiar ou temer tende a proporcionar
comprometimentos emocionais. Segundo Winnicott
(1957/2001), “[...] a ausência de familiares de quem
possamos reclamar, a quem possamos amar odiar ou
temer constitui uma deficiência terrível podendo levar a
uma tendência de desconfiar até de vizinhos mais
inofensivos” (p.60).
A família tem seu próprio crescimento e o indivíduo
experimenta mudanças que advêm da gradual expansão
e das atribulações familiares. Embora às vezes não seja
lugar de proteção, em geral protege o indivíduo do mundo
e, aos poucos, vai introduzindo o mesmo no ambiente
externo, caracterizado por outras relações (amigos,
parentes, vizinhos). Isto inclui, na fase da adolescência,
principalmente a vida escolar, em que o adolescente se
vê diante de pessoas com a mesma idade com que ele
pode trocar, se identificar, se relacionar, etc.
Neste ponto, vemos que o crescimento significa
simplesmente passar por experiências características de
cada fase de desenvolvimento. Na adolescência,
crescimento significa adquirir novos relacionamentos
externos aos da família, buscando satisfação e bem
estar, trocando, somando, amando e recebendo amor,
sem que as relações primárias (mãe/pai) percam-se de
vista.
Conforme Winnicott destaca em seu texto
“Individuação” (1970/1994), “[...] até certo ponto, sempre
resta a tarefa de o indivíduo tornar-se cada vez mais
independente, ainda que mantendo o buraco para ele
rastejar de volta” (p.222).
Winnicott escreveu, em 1967, sobre “O papel de espelho
da mãe e da família no desenvolvimento do individuo”.
Neste artigo, ele cita a influência que sofreu do texto de
Jacques Lacan “O estágio do espelho” (1949), expondo,
entretanto, que sua maneira de compreender o papel
especular do rosto da mãe é diferente daquela descrita
por Lacan. Winnicott referiu-se a uma relação de
mutualidade entre o bebê e a mãe, a mãe ambiente que
inclui, além da mãe-objeto, o pai e a família. A tese
principal deste artigo é a de que o indivíduo, para poder
olhar criativamente o mundo, deve ter internalizado a
experiência de ter sido olhado.

45.

Conforme Winnicott (1967/1975) destaca:

[...] quando urna família permanece integra e tem em si algo


em desenvolmento, durante certo tempo, cada criança
extra benefícios dai: pode ver-se na atitude de cada um
dos membros ou na atitude da família como um todo.
Podemos incluir nisso tudo, tanto os espelhas reais que
existem pela casa, quanta às oportunidades que a
criança tem a ver os pais e demais pessoas, olhando-se
a si mesmos. (WINNICOTT, 1967/1975, p. 161-162).

Assim, podemos expressar a contribuição que uma


família pode realizar no sentido do crescimento e
enriquecimento da personalidade de cada um de seus
membros, individualmente.
Winnicott (1966/1996) ressalta que “a família é o
primeiro agrupamento, e de todos os agrupamentos, é o
que está mais próximo de ser um agrupamento dentro da
unidade da personalidade. O primeiro agrupamento é
simplesmente uma duplicação da estrutura unitária”
(p103). Quando falamos em família corno agrupamento,
falamos em termos de crescimento do indivíduo.
Segundo Winnicott (1960/2001), “a família é a única
entidade que pode dar continuidade à tarefa da mãe (e
depois também do pai) de atender às necessidades do
individuo” (p. 131).
Vê-se que o ambiente desempenha um papel de grande
importância ao proporcionar a continuidade da
existência e do interesse da família pelo adolescente,
pois, conforme destaca o autor em “Adolescência:
transpondo a zona das calmarias” (1961/2001) “[...]
muitas das dificuldades porque passam os adolescentes,
e que muitas vezes requerem a intervenção de um
profissional, derivam das más condições ambientais [...]“
(p.117).
Neste contexto, podemos dizer que crescer depende
também de tendências herdadas, é, sobretudo, uma
questão de entrelaçamento complexo com o ambiente
facilitador.
Os aspectos acima citados mostram como possíveis
falhas ambientais podem comprometer o bom
desenvolvimento do indivíduo. E ainda, se partirmos do
pressuposto de que houve um ambiente facilitador
satisfatório, como condição para o início do crescimento
e do desenvolvimento do individuo, temos uma proposta
enriquecedora para uma reflexão referente ao estado
emocional do adolescente que

46.

perde essa maternagem e, portanto a continuidade dos


cuidados que davam sentido à existência, justamente em
um momento de turbulência de sua vida.
Pensando novamente em nosso prezado Ingemar, o
mesmo parece enquadrar-se nessa situação. A mãe
doente, o pai ausente e a separação do irmão
comprometem a condição de um ambiente satisfatório,
mas o garoto é levado pelos tios para ser cuidado.
Um dos tios o leva para um ambiente frio e distante,
onde não se sente querido, protegido. Já o outro, o leva
para um ambiente acolhedor e até instrutivo para o
momento de vida em que se encontra.
Apesar da receptividade do tio, as várias mudanças por
que passou situaram Ingemar em lugar transitário, um
sentimento de não pertencer a nada e nem a ninguém.
No entanto, Ingemar tem ali a possibilidade de viver
outros aspectos que são essenciais para sua vida, como
freqüentar a escola da região, encontrar amigos de sua
idade, namorar, brincar e ao mesmo tempo receber o
amor do tio, do avô, da Sra. Avidsson, enfim, relacionar-
se com outras pessoas capazes de fornecer a ele, de
uma certa forma, a continência acolhedora bem como
instrumentos que favorecem seu crescimento.
Conforme vimos na teoria, o ambiente saudável é fator
indispensável para o desenvolvimento emocional.
Ingemar estava longe de sua mãe, mas de uma certa
forma o ambiente no qual foi inserido era materno. Tanto
a função materna como paterna estavam diluídas
naquele contexto. Porém, isso tudo não exclui o
sentimento de perda e até abandono, conforme veremos
no item Separar-se da mãe, onde entraremos na questão
da deprivação materna e suas possíveis conseqüências.

47.
3.4. Adolescência hoje

“Que os jovens modifiquem a sociedade e ensinemos


adultos a ver o mundo em forma renovada:
mas, aonde existe o desafio de um jovem em
crescimento, que haja um adulto para encará-lo.
E não é obrigatóflo que isto seja agradável”
D. Winnicott (1971 apud Outeiral 2003, p.59)

Neste item traçaremos um esboço teórico sobre a


adolescência na atualidade, estabelecendo uma relação
entre o pensamento winnicottiano de 1961 com as
reflexões de alguns autores atuais.
Na opinião de Winnicott (1961/2001), três grandes
mudanças sociais alteram todo o clima que envolve os
adolescentes. Embora essas considerações
winnicottianas tenham sido escritas em 1961, podemos
aqui reconsiderá-las e adaptá-las à sociedade em que
vivemos atualmente:

- Com a evolução da medicina, as doenças venéreas


(AIDS, DSTS, e outras) não são mais vistas como
enviadas de Deus;
- O adolescente moderno pode explorar sua sexualidade
sem a agonia provocada pelo medo de uma concepção
indesejada. O desenvolvimento de técnicas
contraceptivas fornece ao adolescente a liberdade de
explorar sua sexualidade;
- Com a suposição de que não haverá mais guerras, não
precisamos preparar novos jovens para lutar.

É claro que hoje muitos outros aspectos podem


influenciar o comportamento de nossos adolescentes,
conforme veremos a seguir. Mas penso que Winnicoff, já
naquele tempo, pontuou muito bem que, com a
transformação dos tempos, os adolescentes possuem
outros recursos para viver a adolescência, embora não
excluindo primordialmente a presença de um ambiente
materno satisfatório.
No entanto, como veremos adiante, esses recursos
oferecidos pelas mudanças sociais da atualidade podem
oferecer vantagens e desvantagens para o
desenvolvimento do indivíduo.
A primeira mudança que identifico diz respeito à cidade
atual (vida urbana) que é composta por desigualdades
sociais e violência, fatores que geram insegurança e
angústia, além da poluição (prejudicial à saúde), do
trânsito e etc.

48.

Penso que ser um adolescente nos dias de hoje pode


ser algo muito sofrido, quando se pertence a classes
mais desfavorecidas, pois o mesmo muitas vezes é
privado de necessidades básicas como escola,
alimentação, recursos para higienização pessoal, entre
outros; além disso, também é frustrado em seus desejos
de ter uma roupa da moda ou um computador, por
exemplo.
Desta forma, a adolescência não deve ser vista
separadamente das condições de vida, sendo necessário
considerar o contexto sócio-econômico e a história de
vida de cada adolescente.
No entanto, as classes sociais que podem oferecer aos
adolescentes tanto recursos básicos para sobrevivência,
como os recursos inovadores, parecem favorecer o
processo de desenvolvimento do adolescente deste novo
tempo no sentido de satisfazê-lo perante os encantos da
tecnologia. Nos referimos aqui ao adolescente da classe
média e alta.
Osório (1989), em texto intitulado “O adolescente do
ano 2000: uma visão prospectiva”, destaca que “a
linguagem dos computadores será a língua materna e
universal dos adolescentes na virada do século” (p. 65).
Nesta perspectiva, o adolescente vive hoje num mundo
globalizado pelos meios de comunicação e avanços
tecnológicos. Desta forma, podemos contar com a
capacidade criativa dos mesmos que possuem
disponibidade para despojar-se de modelos que, com o
passar do tempo e experiência, tornaram-se obsoletos e,
sobretudo, com sua convicção de que é o futuro e não o
passado que referencia o progresso social.
Podemos notar que as crianças e os adolescentes são
os seres mais influenciados por todas as transformações
marcantes do mundo moderno. O desenvolvimento
tecnológico também apresenta desvantagens para o
desenvolvimento do adolescente. Seu envolvimento com
as máquinas parece afastá-lo da troca em família e dos
acontecimentos sociais. Refiro-me aqui à mídia de modo
geral, á informática, entre outros, pois apesar de situá-lo
ao progresso social, distancia o adolescente da
realidade, embora haja também o efeito inverso:
informa e traz para o mundo real (atual).
Assim, de acordo com Katz e Costa (1996), “o templo
deste adolescente pós- moderno é o Shopping Center
feérico de luzes e cores. Seus amigos são o walkman, o
video cassete, a TV à cabo e os computadores
domésticos”. (p.336)

49.
Essa citação nos faz pensar que nossos adolescentes
estão cada vez mais dirigidos ao consumo e ao prazer
imediato. Porém, essa nova forma de vida também
apresenta vantagens no sentido de os adolescentes se
mostrarem preparados para o mercado de trabalho atual
que exige de nós, sem dúvida, o conhecimento das novas
tecnologias.
Assim, vemos que essa nova geração poderá gerar bons
frutos socialmente se não se prenderem, é claro, à
superficialidade dos encantos da mídia e do mundo dos
sonhos, característica típica da fase da adolescência.
Outra mudança significativa que podemos mencionar
está relacionada à evolução da medicina que favorece a
saúde de nossos adolescentes. Hoje vê-se a cura de
muitas doenças e o uso de diversas técnicas
contraceptivas que contribuem para evitar a gravidez.
Uma outra alteração social é a de aparente “liberdade
sexual”; nota-se que os adolesceotes nunca foram tão
bem informados e precoces em relação ao sexo. No
entanto, ainda se mostram confusos sobre questões
como virgindade, fidelidade, namoro, casamento.
Segundo uma pesquisa realizada pelo BENFAN
(Sociedade para o Bem Estar Familiar) para o Ministério
da Saúde (apud Gravidez Precoce, 2004), “de cada três
garotas entre quinze e dezenove anos, pelo menos uma
tem vida sexual. A cada ano cerca de um milhão de
adolescentes engravidam sem planejamento no Brasil”
(p.1).
A maioria das adolescentes conhece os métodos
anticoncepcionais, mas as informações parecem não ser
suficientes e este aspecto nos chama atenção quando
constatamos, através das pesquisas, que tem aumentado
a incidência de gravidez precoce.
Conforme a pesquisa mencionada, podemos observar
que a primeira relação sexual do adolescente acontece
muito cedo e muitos adolescentes não iniciam com um
namoro e sim com um alguém com quem “ficam”,
expressão utilizada para designar um relacionamento
rápido com troca de beijos, abraços e muitas vezes sexo,
o que difere de um namoro em que as pessoas se
conhecem mais, há uma continuidade no relacionamento
e posterior envolvimento de outros familiares.
Segundo Outeiral (2003) “a situação atual cria uma
erótica que, de certa forma, adquire autonomia em
relação ao desejo: ou seja, o objeto está pronto e

50.

oferecido antes mesmo de ser desejado. Não existe mais,


então, este obscuro objeto do desejo tão ao gosto dos
modernos [...]“. (p.120-121)
Penso que as dificuldades em relação à vida amorosa
dos adolescentes de hoje, apesar do conhecimento e da
‘”iberdade”, podem ter uma explicação de ordem
emocional: não é só uma questão de informação, mas
também de maturidade (de ter ultrapassado alguns
estágios do desenvolvimento).
Como vimos nessa dissertação, os aspectos que
envolvem o processo adolescente abrange tanto o
adolescente como sua família e sociedade. Com isso.
entendo que a experiência do adolescer hoje acontece
em um momento em que a sociedade sofre intensas e
rápidas transformações de uma série de paradigmas.
Diante dessas considerações, vê-se que Winnicott, já em
1961, tinha uma visão do que envolvia a adolescência. Os
fatores que se acrescentam são os avanços tecnológicos
que trouxeram uma nova forma de vida não só para os
adolescentes.
O tempo dos adolescentes hoje é bem mais rápido que
o tempo dos adultos no que se refere ao tempo interno e
de elaboração de experiências, e não apenas do tempo
cronológico ou conceitual. Knobel (1974 apud Outeiral,
2003) expõe a distinção que faz referente ao tempo
conceitual e ao tempo interno. Para ele, o tempo
conceitual é o do movimento dos astros, das colheitas,
das estações e do relógio, e o tempo interno é o tempo
da subjetividade do ser.
Segundo Knobel (1974 apud Outeiral, 2003), “essa
distinção entre esses dois tempos é essencial ao sentido
do self (ou ao going on being de Donald Winnicott) e à
organização da personalidade, realizações estreitamente
ligadas ao processo adolescente” (p. 114).
Essa é a fase em que a noção de tempo assume
características corporais e rítmicas; por exemplo, o
tempo de dormir, de comer, de estudar, entre outros, e,
gradativamente, o adolescente vai adquirindo a noção de
passado-presente-futuro, interno e externo e a aceitação
da perda do corpo infantil, da identidade infantil e dos
pais da infância.
Creio que as indicações acima são bastante
significativas e retratam um pouco o perfil dos nossos
adolescentes que vêm se desenvolvendo em um
ambiente com muitas contradições. Todo adolescente
busca um caminho a seguir e nem

51.

sempre é capaz de encontrar o melhor e decidir-se por


ele mesmo, sem o apoia dos pais e da sociedade Focal.
Embora aparentemente nossos adolescentes
demonstrem ser independentes, não há seres totalmente
independentes. O que há são seres capazes de sustentar
uma individualidade e conduzir suas vidas em um
determinado sentido e com certos propósitos, embora
sempre dependendo do outro para algo.
É aí que entra o ambiente facilitador. Um continente
acolhedor, não apenas materno, mas também paterno,
que estará presente para abarcar as angústias, os
medos, dividir as virtudes e também para frustrar, fazer
exigências, impor limites. É o abraço, o laço, o espaço
para crescer e não estar só.
Como vimos, os fatores sociais interferem no percurso
adolescente, positiva ou negativamente, dependendo da
história de vida de cada um e de como se processa em
cada adolescente o contato com as transformações do
mundo moderno.
Atualmente é a tecnologia que envolve os nossos
jovens; na década de 50, na pequena Vila da Suécia,
época e lugar onde vivia o personagem Ingemar, existiam
outros recursos para o adolescente como o boxe, o
futebol, as diversões regionais e inclusive, no caso de
Ingemar, a possibilidade de conhecer o trabalho em uma
fábrica de vidro e um pouco sobre arte. Vê-se que há
outros valores, caracterizados por um certo tipo de
sociabilidade e de cultura da região.
Apesar de considerarmos todos esses aspectos, a
demanda afetiva deve ser destacada. Acredito que todo
ser humano demande cuidados, demande um ambiente
facilitador caracterizado, neste trabalho, pela
maternagem, embora seja claro que a cada estágio de
desenvolvimento (bebê, criança, adolescente, adulto,
idoso) essa demanda se altere durante o percurso da
dependência absoluta à independência relativa. O
personagem do filme também nos mostra esse aspecto
de demanda afetiva.
Conforme vimos na teoria, é o amor da mãe e sua
dosagem de limites que proporcionará ao adolescente a
segurança suficiente para o impedir de sair desafiando o
mundo através da sexualidade, das drogas, da
agressividade.

52.

E os pais nessa...?

É claro que precisamos considerar que os pais vivem o


conflito de gerações, pois apesar de aceitarem que os
tempos mudaram, vivem com seus valores
internalizados, o que dificulta e muito na relação com
seus filhos adolescentes.
Devido a esse conflito, os pais se perdem na dosagem
de limites, os deixam livres ou prendem demais. Essa
confusão impede o adolescente de experimentar a
vivência da hierarquia familiar o que o ajudaria na
estruturação do sentimento de respeito ao outro e na
delimitação de papéis sociais.
De acordo com Duteiral (2001) “falta a nossa sociedade
figuras significativas que representem uma postura de
ética e moral com as quais o jovem possa se identificar”
(p.330), já que os pais (pai-mãe), objetos primários de
identificação, têm falhado nesse papel ao negar aos
adolescentes o limite necessário que estruture sua
criatividade.
Segundo Outeiral (1994/2001):
A criatividade na adolescencia articula-se
necessariamente com a noção de limite.., Criação de um
espaço protegido dentro do qual o adolescente poderá
exercer sua espontaneidade e criatividade sem receio e
risco. Precisamos lembrar que não existe conteúdo
organizado sem um continente que lhe dê forma
(OUTEIRAL, 1994/2001, p. 330).

Esse continente responsável (os pais) também precisa


estar bem (profissional, financeira e emocionalmente)
para exercer sua função; situações de desemprego,
doença, stress, certamente prejudicam seu desempenho
como pais. Porém, a dificuldade dos pais em relação aos
adolescentes pode ter outras fontes (como por exemplo,
o fato de não terem eles próprios vivido integralmente a
adolescência). Conforme escreve Calligaris (1999) no
artigo “A adolescência venceu”:

O adolescente de hoje, ao contrário, deve se perguntar


se o incômodo que ele consegue produzir é feito de
inquietude ou de inveja. Se for inveja, crescer se torna
difícil: como se diferenciar de adultos que se inspiram
justamente nos esforços adolescentes para se
diferenciar dos adultos? Para tornar a vida um pouco
mais fácil para os adolescentes, seria bom que os
adultos saíssem da infância (CALLIGARIS, 1999, p.4)

Esta citação parece estar relacionada à formulação


winnícottiana de 1961:

53.

Os muitos colapsos psicológicos entre os adolescentes


demandam nossa tolerância e nossos cuidados; o novo
tipo de desenvolvimento igualmente exerce uma tensão
sobre a sociedade, pois os adultos que foram privados da
adolescência não gostam nada de ver meninos e
meninas florescendo à sua volta WINNICOTT, 1961/2001,
p. 119).

Essas idéias parecem confirmar a hipótese mencionada


acima de que a dificuldade dos pais em lidar com seus
filhos adolescentes está relacionada à vida pessoal de
cada pai e mãe e de como viveram a adolescência, além
dos fatores sócio-culturais de hoje que tornam a
adolescência um ideal, uma fase invejada.
Como podemos notar, o assunto adolescência é muito
complexo. Falamos de limites, tecnologia, dificuldades
financeiras, na dificuldade dos pais em lidar com os
filhos adolescentes, entre outros assuntos. E ai?
Os pais (ou quem cuida do adolescente) podem ser
“moderninhos” ou
“quadrados”, ou não saber lidar com seus filhos
adolescentes, mas a minha questão
é: estão presentes? Estão ali quando o adolescente
solicitar? Entendo por presença
a possibilidade de atender suas demandas emocionais,
caracterizadas por rebeldia
e dependência regressiva.
Penso que os jovens procuram um tipo de dentificação
que não os abandone sozinhos em sua luta: luta para
sentir-se real, para estabelecer uma identidade pessoal,
para viver o que deve ser vivido sem ter que conformar-
se em um papel preestabelecido.
E essa luta, de acordo com a teoria winnicottiana, deve
ser acompanhada pela maternagem, assunto abordado
amplamente nos itens que compõem essa dissertação.
54.

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