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Textos multimodais na aula de

português: metodologia de leitura


Lucia Teixeira*
Karla Faria e Silvia Sousa**

Resumo
Introdução
O artigo apresenta proposta me-
todológica para a abordagem de tex- Nas chamadas sociedades pós-indus-
tos multimodais em aulas de língua triais, vivemos em meio ao excesso, à
portuguesa. Considera a multimoda-
fragmentação, à dispersão e à variedade.
lidade um modo de produção de con-
teúdos próprio das sociedades pós-in- Imersos num mundo de tecnologia, em
dustriais e discute o conceito a partir que os apelos visuais e sonoros são irre-
da contribuição da semiótica fran- sistíveis, os jovens da era da cibercultura
cesa, que propõe uma resolução sin- têm a capacidade de ouvir música, ler
crética para textos que operam com
diferentes linguagens. Submetidos a
mensagens nas redes sociais, falar ao ce-
uma estratégia enunciativa, os textos lular e trocar de roupa ao mesmo tempo.
sincréticos não podem ser abordados Trata-se de uma geração que substituiu
como uma soma de diferentes códigos o jantar em família, em redor da mesa,
em interação, mas como produtos de
pelo lanche solitário no quarto, diante
operações enunciativas que conferem
unidade à diversidade. Propõe-se uma
metodologia de abordagem de tais
textos na escola, por meio de exem-
plos comentados.
*
Doutora em Linguística e Semiótica pela USP e atua
no Programa de Pós-graduação em Estudos de Lin-
guagem da Universidade Federal Fluminense. E-mail:
Palavras-chave: Sincretismo. Multi- luciatso@gmail.com
modalidade. Estratégia enunciativa. **
Doutora em Letras pela UFF e professora do Pro-
Semiótica. grama de Pós-graduação em Estudos de Linguagem
desta Universidade; Karla Faria (kcafaria@gmail.
com) é doutora em Estudos de Linguagem pela UFF.
As autoras são pesquisadoras do SeDi-UFF (Grupo de
Pesquisa em Semiótica e Discurso da UFF). E-mail:
silviamsousa05@gmail.com

Data de submissão: jul. 2014 – Data de aceite: ago. 2014


http://dx.doi.org/10.5335/rdes.v10i2.4295

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da tela do tablet, e navega não mais na Atentos aos jovens, descobriremos
imaginação que sonha amores impossí- que eles nos ensinam a não criar um
veis e carinhos vãos, mas nos sites que antagonismo entre leituras e tecnolo-
invadem suas inquietações e oferecem- gias midiáticas. Mostram-nos a todo
-lhes às vezes tão pouco, mas tão mais momento que “também se aprende a ler
do que lhes pode sugerir o mundo das e a ser espectador sendo telespectador
obrigações e deveres, quando desejam e internauta”, e mais ainda, que “ser
apenas diversão e entretenimento. São internauta aumenta, para milhões de
meninos e meninas que não mais mar- pessoas, a possibilidade de serem leito-
cam encontros no bar, mas no instagram, res e espectadores” (CANCLINI, 2008,
não mais chamam o amigo no telefone de p. 24 e 54).
casa, mas se comunicam pelo WhatsApp, O gosto pelos textos escritos, pela
mantêm-se conectados em grupos de con- boa literatura, ensinam nossos jovens
versa e seguem e são seguidos no twitter. estudantes, não precisa se sobrepor ou
São moços e moças que compartilham se antepor ao gosto pelos artefatos da
on-line seus momentos, fotos e emoções, indústria de entretenimento, mas, no
em conversas virtuais em que todos se mundo da mistura das linguagens e da
adoram, mandam beijos abreviados e desterritorialização das identidades, no
abraços desenhados, encurtam palavras mundo das imagens e da banalização
e repartem risadas feitas de letras e da cultura, nesse mundo que eles nos
carinhas. Expostos nas postagens que ensinam a habitar, o livro e a palavra
compartilham em blogs, são arredios ao convivem com os demais produtos cultu-
desenho caligráfico das letras correndo rais e associam-se à rede de informação
em páginas de cadernos com cadeados e lazer disponível em tantos outros su-
em que se costumava escrever diários. portes e modos de expressão. O menino
Apressados, comunicam-se em mensa- que acompanha a aula ligado na tela do
gens de recebimento instantâneo, sem celular não está necessariamente con-
paciência para os ultrapassados e-mails, versando com os amigos, mas pode estar
muito menos para bilhetes e cartas. acompanhando o último exercício que o
Esses jovens, que estudam enquanto velho professor enviou por e-mail. Sites
assistem à MTV ou que trocam o po- de bibliotecas, acervos públicos de obras
tencial estético e emotivo das telas de literárias, livros que podem ser baixados
cinema pelos filmes da cultura pop que e arquivados nos computadores pessoais,
baixam no computador, podem, entretan- páginas de museus e galerias de arte com
to, nos ensinar muito com suas escolhas, acesso a milhares de obras de arte antes
se estivermos dispostos a aprender com só disponíveis aos endinheirados que
eles um modo mais antenado, esperto, viajavam e frequentavam tais ambien-
polissensorial e animado de viver. tes, tudo isso prova que o conhecimento

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se abre para um público mais amplo e aproximarem-se e afastarem-se “como
diversificado e que é preciso aprender a borboletas que se perseguem”, para en-
ler em outros suportes. Será igualmente fim pousarem no solo. Esse percurso do
importante conhecer a poesia de Camões, olhar que acompanha o movimento das
descobrir o site de poesia concreta de folhas da árvore se assemelha àquele
Augusto de Campos, surpreender-se do movimento dos olhos nas folhas dos
com os romances de Machado de Assis, livros: tantos mundos, tantos mistérios
acessar obras literárias integrais de do- se desprendem daquelas páginas, voam
mínio público, ler poesia romântica nos em nossas imaginações, inquietam e
livros da biblioteca, percorrer blogs de entristecem nossos corações, animam
contistas contemporâneos e aprender a nosso corpo, movimentam-se em varia-
fazer pesquisa consultando sites de bus- das direções, circunvolteiam em nossa
ca. Googlar não precisa ser apenas um mente, para afinal pousar de novo nas
neologismo incômodo, podendo conter mesmas páginas que outros lerão, não
na ideia que dissemina um movimento sem antes ter transtornado nosso olhar
de conquista de novos meios e recursos. e recuperado nosso poder de dúvida,
A escola tem dupla missão: absor- insatisfação, indignação, encantamento.
ver as novas tecnologias e aproveitar A internet e a pluralidade de lingua-
seu potencial de produção de sentido gens que representam novas exigências
e, ao mesmo tempo, insistir sempre na de leitura no mundo contemporâneo,
literatura e na arte, porque livros, qua- entretanto, não podem estar afastadas
dros, esculturas, ao exigirem o silêncio da escola e parece que ainda hoje se
e a contemplação da apreensão estética, constituem em mistérios para práticas
representam a resistência e o assombro pedagógicas que antagonizam o que cha-
capazes de ressignificar a vida e dar-lhe mam de alta e baixa cultura. Fechando-
nova direção. -se à novidade, a escola vai ficando cada
A imersão nas páginas de um roman- vez mais distante do universo juvenil e
ce, no ritmo de um poema ou nas cores mais afastada das reais possibilidades
de uma pintura é capaz de nos alhear do de tocar afetos e interesses do público
mundo por instantes e nos fazer retornar estudantil, sobretudo dos ensinos funda-
de outro modo a esse mesmo mundo. É mental e médio. Será preciso incorporar
experiência semelhante à contemplação à aula de português a HQ, a charge, o
do mistério das folhinhas de nogueira jornal, o blog e o site, analisar poemas e
que Calvino viu cair da árvore. Voltean- pinturas, grafites e narrativas densas,
do no vento, as folhinhas – duas, três, gravuras e programas de TV.
quatro, quantas mais, diz Calvino (1999, Para isso, é necessário um saber, um
p. 203) – obrigam nossos olhos a acom- domínio metodológico e teórico que ofe-
panhá-las, perceber seu volteio, vê-las reça os instrumentos pedagógicos para

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uma leitura crítica e proveitosa. Não paciência, que Floch tão bem justificou
há bom ensino sem boa teoria, não há pela necessidade de alhear-se do acessó-
possibilidade de fazer avançar o conheci- rio e da dispersão proposta pela “torrente
mento oferecido pela escola se não se faz de imagens” dos apelos visuais do mundo
avançar também a teoria que fornece a (2002, p. 4), faz-se da duratividade da ob-
base de atuação prática dos docentes. Em servação, necessariamente contraposta à
suma, não há ensino de boa qualidade subitaneidade de um impacto. Desacele-
sem pesquisa consistente. ra-se o impacto, para que ele ganhe sen-
A semiótica francesa oferece as bases tido, para que vá além da emoção ou do
teóricas que fundamentam a metodo- susto. A sintaxe entra necessariamente
logia que se vai propor neste artigo, nesse movimento desacelerado de des-
elege o texto como objeto e o percurso construção, em que letras, linhas, cores
de produção de sentido como o modelo e movimentos são segmentados para
de previsibilidade a descrever. Escolher alcançar a composição, a organização
uma teoria que estuda os textos como que confere à ideia uma forma. A análise
objetos de sentido significa fazer uma é um movimento de desconstrução, por
opção pedagógica, a de privilegiar o texto meio do qual se perde o efeito de unidade
como unidade de trabalho, em torno da da criação para se chegar a uma unidade
qual se desenvolvem as atividades de de interpretação.
compreensão de vocabulário, interpre- Definindo-se como teoria geral do
tação, expressão oral e escrita e análise texto e da significação, a semiótica
das estruturas gramaticais. ocupa-se da produção de sentido de um
A aula de português deve girar em texto por meio de uma metodologia que
torno da análise de um texto, que pode considera a articulação entre um plano
se apresentar nas mais diferentes ma- do conteúdo e um plano da expressão e
terialidades e nas mais exuberantes categorias gerais de análise capazes de,
configurações multimodais. Diante da por um lado, contemplar a totalidade
multiplicidade de ofertas do universo da dos textos, manifestados em qualquer
cibercultura e dos inúmeros artefatos de materialidade e, por outro lado, definir
linguagem próprios das sociedades con- as estratégias enunciativas particulares
temporâneas, a escola precisa desenvol- dos textos concretos. É esse o modelo
ver métodos que deem conta do caráter teórico que adotamos a seguir.
multissensorial e das potencialidades
significantes dos textos em circulação. Semióticas sincréticas
Paul Claudel dizia que, para ob-
servar uma pintura, eram necessários O objeto da semiótica, já dissemos, é
“todos os recursos da paciência e da o texto, manifestado por todo e qualquer
sintaxe” (CLAUDEL, 2003, p. 133). Essa tipo de expressão e compreendido a um

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só tempo como objeto de significação e de nológicas e a sofisticação dos meios de
comunicação. A abrangência dessa esco- expressão põem em foco a questão da
lha epistemológica faz com que a teoria unidade de sentido dos textos e desafiam
se volte para os aspectos responsáveis as teorias a construir um instrumental
pela estruturação interna do texto, ao analítico que permita operar com a
mesmo tempo em que busca compreen- relação entre variedade significante e
der as relações entre enunciador e enun- totalidade de sentido.
ciatário. Representados concretamente, A noção bakhtiniana de gêneros
grosso modo, pelas figuras de autor e como “tipos relativamente estáveis de
leitor, esses assumem nos textos posições enunciados” (BAKHTIN, 2003, p. 262)
discursivas que simulam a interação se mostra duplamente interessante para
entre os sujeitos no mundo e constroem a semiótica, pois aponta para a possibi-
discursivamente a busca pela adesão, as lidade do estabelecimento de tipologias
estratégias de convencimento, a partilha que tornam os textos objetos passíveis de
ou a disputa de vozes. O texto, portanto, análise, de descrição e de categorização,
produto das escolhas de um enunciador ao mesmo tempo em que pressupõe a
e do fazer interpretativo de um enuncia- abertura para a novidade e a criação.
tário, compreende uma complexa rede Para a semiótica, o uso e a repetição de
discursiva caracterizada pela escolha de estratégias enunciativas, de gêneros,
gêneros e tipos textuais, a instauração de tipos e estilos é tomado como uma práxis.
estratégias argumentativas e a adoção Assim, a práxis enunciativa é responsá-
de determinados modos de interação. vel por atualizar no discurso “as formas
Além disso, todo texto faz uso de ferra- esquematizadas pelo uso ou, ainda,
mentas discursivas, para demonstrar estereótipos e estruturas cristalizadas”
formalidade ou informalidade, construir (FONTANILLE, 2007, p. 271). De outro
efeitos de aproximação ou de distancia- modo, é essa mesma práxis que prevê
mento, simular objetividade ou subjeti- como possibilidade o surgimento de no-
vidade. Somam-se a tudo isso, ainda, os vas significações, a partir dos desvios,
procedimentos da expressão que, dando das subversões e das expansões dessas
forma ao conteúdo, também significam. formas ou do emprego de novas formas
A adaptação de um romance para uma e estruturas, “inovando de forma explo-
minissérie sofre as coerções da nova siva, assumindo-as como irredutivel-
mídia, da linguagem audiovisual, e será mente singulares ou propondo-as para
necessariamente outro texto, outro modo um uso mais amplamente difundido”
de dizer. Essa complexidade pressupõe (FONTANILLE, 2007, 272). Com isso,
uma coerência interna capaz de conferir a semiótica lança sobre a enunciação
aos textos unidade e homogeneidade. O um ponto de vista dinâmico e passa a
surgimento de novas ferramentas tec- conceber o texto como uma unidade em

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movimento, resultante do equilíbrio en- (1996). São, então, identificadas estraté-
tre retomadas e avanços, continuidades gias de persuasão por meio de elementos
e descontinuidades. visuais (cores, ângulos, poses) e linguísti-
Muitas palavras têm sido empregadas cos (modos e processos verbais, colocação
para tentar dar conta do advento de de pronomes, adjetivos) e consideram-se
novos gêneros e tipos textuais. Fala-se as correspondências entre sintagmas
muito em “hibridismo”, “multimodali- visuais e aqueles que existem na sin-
dade”, “intergenericidade”. A escrita e taxe da linguagem verbal. Analisam-se
a leitura hipertextual são vistas como as estruturas narrativa e conceitual e
o desdobramento previsível, como o busca-se um significado cultural comum
“futuro” da escrita e da leitura textual a autor e leitor ou espectador. Conferindo
(cf. LÉVY, 1993, p. 19). A convergência relevância às práticas sociais, de forma
entre diferentes mídias faz com que as que a comunicação é considerada como
narrativas deem lugar à criação de “uni- processo em que os objetos semióticos
versos”, “ambientes atraentes que não são produzidos e interpretados, havendo,
podem ser completamente explorados portanto, uma articulação consequente
ou esgotados em uma única obra, ou entre, por exemplo, o ato de planejar
mesmo em uma única mídia” (JENKINS, um jardim e o modo como os usuários o
2009, p. 161). Diante disso, que noção de aproveitam: como parque de diversões,
texto deve permear o trabalho de leitura descanso, local de encontros etc. A frui-
e interpretação? Que porta de entrada, ção do objeto liga-se à intenção com que
para textos cada vez mais sofisticados, foi produzido, firmando-se uma conexão
os professores podem e devem apresen- entre sujeitos. A postulação da semiótica
tar aos seus alunos nas aulas de língua social tem sido integrada à análise críti-
portuguesa? ca do discurso e a aplicada às concepções
Entre as teorias que vêm oferecendo de texto utilizadas no ensino de línguas.
instrumental metodológico consistente Na concepção da semiótica discursiva,
e de larga utilização por estudiosos do a intenção de um sujeito é substituída
discurso no Brasil, para a leitura de tex- pela intencionalidade do texto, conside-
tos caracterizados pelas relações entre rada como direção do sentido, dada pela
diferentes linguagens, estão a semiótica articulação dos três níveis do percurso: o
social de Kress e van Leeuwen e a semi- fundamental, em que uma oposição abs-
ótica discursiva, de origem greimasiana, trata e abrangente estabelece o mínimo
também chamada semiótica francesa. de sentido a partir do qual o texto se pro-
Os analistas da semiótica social têm duz; o narrativo, em que entram em cena
estudado particularmente textos em que sujeitos em busca de valores investidos
podem utilizar a gramática do design em objetos; o discursivo, em que temas e
visual proposta por Kress e Van Leeuwen figuras recobrem os conteúdos abstratos

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e operações enunciativas projetam no pelo verbal no texto das manchetes, nos
texto as categorias de pessoa, tempo e subtítulos, e visualmente nas figuras re-
espaço e as estratégias argumentativas. tratadas pelas fotografias e nos gráficos,
Esse percurso de produção do conteúdo desenhos e charges.
ganha forma por meio de um plano da O conceito de sincretismo em semió-
expressão, a materialidade significante tica possui duas acepções. A primeira é
de cada linguagem. Assim, um cartaz herdeira direta da definição de Hjelms-
de campanha de vacinação opera com a lev e diz respeito ao procedimento (ou
oposição fundamental entre vida e mor- ao resultado) que estabelece, por meio
te; contém a narrativa da transformação de uma superposição, uma relação en-
do estado do sujeito, de potencialmente tre dois (ou mais) termos ou categorias
doente a saudável, por meio da conjunção diferentes reunidos por meio de uma
com a vacina, e formaliza uma cober- grandeza semiótica ou linguística (cf.
tura figurativa, por exemplo, quando GREIMAS e COURTÉS, 2008, p. 467).
o desenho de uma gotinha dá forma à Observemos um exemplo:
vacina antipólio. No plano da expressão, [...] em português, as grandezas /e/ e /i/ são
esse conteúdo aparece num cartaz, por invariantes do esquema linguístico, uma vez
meio de arranjos do texto verbal e dos que distinguem “lê” de “li” (/le/ vs /li), “vê” de
“vi” (/ve/ vs /vi/), etc. Mas, em certas condi-
desenhos no espaço do suporte, jogos ções de uso como, por exemplo, em posição
de cores etc, constituindo uma unidade átona final, essas invariantes se superpõem
verbo-visual. no sincretismo /I/ (/dentI/ “dente”, “solte”)
(CARMO JR., 2009, p. 172).
Para dar conta de textos formados
pela multiplicidade de linguagens, como Esse sincretismo é possível graças aos
um cartaz, uma página de jornal, um traços comuns entre /e/ e /i/ (anterior e
blog ou uma história em quadrinhos, não arredondada), que torna o /I/ um som
a semiótica operacionaliza o conceito intermediário entre /i/ e /e/. De acordo
de sincretismo. Serão definidos como com a definição de Hjelmslev, por meio
sincréticos os textos cujo plano de ex- do sincretismo uma diferença transfor-
pressão é caracterizado pela mobilização ma-se numa identidade (cf. CARMO
de múltiplas linguagens apreendidas na JR., 2009, p. 171). Há neutralização da
mesma enunciação. Assim, ao ter diante oposição. No nível da sintaxe narrativa,
de si uma primeira página de jornal, o numa frase como “Joana penteou-se”, o
leitor percebe uma unidade de expressão sujeito frasal é um sujeito de estado, que
entre texto verbal (diferentes tipos, co- está em conjunção com o objeto “cabelo
res e tamanhos de fontes) e texto visual despenteado” e com o objeto “pente” e é,
(diferentes tamanhos, cores e composição ao mesmo tempo, o sujeito do fazer que
da fotografia). Essa unidade de expres- pratica a ação de “pentear-se”, transfor-
são se homologa aos conteúdos expressos mando o estado do cabelo de “despente-

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ado” em “penteado”. O papel actancial se estruturam espacialmente, como é o
que une os dois sujeitos (de estado e de caso da mídia impressa, em que os ele-
fazer) resulta de um sincretismo. mentos visuais (fontes, fotos, desenhos
A segunda acepção de sincretismo etc., submetidos a uma diagramação que
tem um caráter mais amplo e trata das opera com categorias como cor e forma)
chamadas semióticas sincréticas, que se são arranjados no espaço. Outros textos
caracterizam pela mobilização de múlti- se organizam temporalmente, como as
plas linguagens de manifestação, como emissões radiofônicas, que congregam
um programa televisivo, um filme, uma múltiplas substâncias sonoras. Outros
história em quadrinhos, entre outras. O ainda sobrepõem elementos visuais e
estudo de textos sincréticos tem como sonoros, como o teatro, a TV e o cinema.
tarefa descrever e explicar as estratégias A autora diferencia as relações de adjun-
de construção do efeito de unidade, ob- ção que decorrem da justaposição entre
servando como as diferentes substâncias as linguagens, das relações de sobrepo-
do plano da expressão (de agora em dian- sição ocorridas em simultaneidade (cf.
te PE) se articulam para produzir uma GOMES, 2009, 222-223, grifos nossos).
forma coerente e apreensível como um Entretanto, adverte que essas relações
todo no plano do conteúdo (de agora em podem ser subvertidas em situações
diante PC). A análise do objeto sincrético pontuais:
deve ainda considerar as especificidades Na televisão, por exemplo, é possível a
de manifestação próprias de cada texto: ocorrência de texto sobre fundo preto ou
um jornal impresso (verbo-visual) e um branco, estático, justaposto à imagem, sem
a presença de uma voz em off que o anuncie
telejornal (audiovisual) exemplificam oralmente. Na imprensa, é possível a sobre-
essas particularidades. A relação entre posição entre as linguagens verbal e visual.
as diferentes linguagens ocorre num No entanto, esses modos de presença das
linguagens, nos diversos veículos de comu-
continuum de solidarização que vai da nicação, podem causar estranhamento, por
convergência, entendida como grau má- não habituais, produzindo efeitos de sentido
ximo de solidariedade, à divergência. particulares (GOMES, 2009, p. 223).
Regina Gomes, ao analisar o sincretismo A observação de Gomes, ao considerar
em textos de mídia impressa, considera usos mais ou menos habituais de cada
que há uma “relativa independência” veículo de expressão se relaciona ao
entre a fotografia e o relato verbal da conceito de práxis enunciativa, em que
notícia e que verbal e visual se rela- os usos podem se fixar ou se renovar.
cionam por justaposição. Gomes (2009) Assim, a análise de textos sincréticos
parte da proposta de que existem três precisa considerar a relação estabele-
modos de estruturação do sincretismo cida entre o PE e o PC das múltiplas
em função da materialidade visual e/ linguagens que os compõem e também
ou sonora de cada texto. Há textos que os modos de funcionamento específicos

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de cada linguagem, tais como lineari- elementos de modo mais previsível e
dade vs. concomitância que diferenciam, habitual ou de modo mais inusitado e
por exemplo, a linguagem verbal das insólito. Uma primeira página de jornal
linguagens visuais. Com efeito, as dife- (verbo-visual), por exemplo, constrói
rentes linguagens em um texto sincrético um sincretismo por justaposição, que
estão submetidas à enunciação que as rege dois modos distintos de apreensão:
condensa e confere a elas o sentido de a concomitância da linguagem visual
unidade. A enunciação põe o discurso e a linearidade da linguagem verbal.
em andamento e assim legitima pelo uso Entretanto, a apresentação da primeira
determinadas práticas significantes. A página põe em relevo a visualidade, de
semiótica discursiva buscou enfrentar modo que o que se torna proeminente é
a questão do sincretismo, a fim de com- a organização topológica dos elementos:
preender como essa “heterogeneidade a distribuição das fotografias, a orga-
multimodal” (FONTANILLE, 2008, nização das colunas, os tamanhos e as
p. 33) se converte em unidade. A partir distribuições de diferentes fontes. A
de variadas análises de textos sincré- categoria do espaço, digamos, é a porta
ticos, do aprofundamento do exame da de entrada para esse texto. Já um texto
visualidade e dos avanços da teoria, audiovisual opera por meio da sobrepo-
percebe-se certo consenso acerca do sição de linguagens numa linearidade,
papel da estratégia enunciativa como tornando central a temporalidade. Yva-
dispositivo capaz de conferir unidade à na Fechine (2009, p. 335), ao analisar
pluralidade de elementos (TEIXEIRA, o sincretismo em textos audiovisuais,
2009, p. 63). adverte que, para analisar as unidades
Pensando em categorias gerais de em jogo no audiovisual, é preciso “anali-
análise de textos sincréticos, elegeremos sar as articulações que fundam a cadeia
o par sobreposição e justaposição de audiovisual na sua sucessividade (um
linguagens que nos parece dar conta, ao plano após o outro) e simultaneidade
menos de modo geral, da relação estabe- (superposição de expressões nos planos)”.
lecida entre os sincretismo audiovisual Entretanto, considera que o conteúdo au-
e verbo-visual. Esses modos gerais de diovisual no cinema, por exemplo, surge
funcionamento dos textos sincréticos se “da superposição dos conteúdos visual e
aliam à estratégia enunciativa que liga musical” (idem, p. 338).
as linguagens aos diferentes modos de Esses modos de funcionamento orga-
apreensão (linearidade, concomitância). nizam as relações entre as linguagens
Além disso, cabe à estratégia enunciati- num determinado suporte por meio de
va relacionar o PE e o PC das múltiplas um ponto de vista enunciativo e são
linguagens, de modo a ampliar ou res- responsáveis por criar o sincretismo
tringir conteúdos, sobrepor ou justapor propriamente dito. Em outras palavras,

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as diferentes linguagens manifestam-se no PC (TEIXEIRA, 2009, p. 67). Uma
de modo heterogêneo e cabe ao sincre- análise clássica e modelar de Floch sobre
tismo dado pela estratégia enunciativa a linguagem publicitária da campanha
resolver essa heterogeneidade. No caso de lançamento do cigarro News mostra
do texto jornalístico: que a oposição da expressão /desconti-
O fato de as imagens fotográficas estarem nuidade/ vs. /continuidade/ se articula
subordinadas pela manchete principal e à oposição de conteúdo /identidade/ vs. /
envolvidas pelo verbal escrito, que as circun- alteridade/ (Floch, 2009, p. 161).
da, é uma primeira pista e uma estratégia
do sujeito da enunciação para que o leitor A leitura de textos sincréticos, portan-
tome todo o conjunto como um só conjunto to, precisa considerar o funcionamento
significante (GOMES, 2009, p. 243). geral estabilizado pela práxis enuncia-
O estudo das semióticas sincréticas tiva e o minucioso exame das categorias
exige, ainda, um exame mais profundo da expressão de cada linguagem. Esse
da visualidade. Os sistemas visuais de- percurso de análise inclui, no nível mais
mandaram da semiótica um esforço de superficial e concreto, o exame dos temas
discriminação das categorias da expres- e das figuras disseminados no discurso.
são visual, que acabaram por delinear Os temas, mais abstratos, como “rique-
o projeto de uma “semiótica plástica”. za”, por exemplo, são recobertos por fi-
Jean-Marie Floch defende que o trata- guras, mais concretas, como: “dinheiro”,
mento cromático e gráfico de uma ima- “joias”, “propriedades”, “mesa abastada”,
gem pode operar uma rearticulação dos “luxo”, “herança”. O famoso personagem
signos figurativos (Floch, 2009, p. 166). de Walt Disney, tio Patinhas, ao aparecer
O estabelecimento de categorias plásti- mergulhando ou admirando suas monta-
cas permite um refinamento do exame nhas de moedas, figurativiza a riqueza
de combinações e contrastes de cores do avaro, daquele que acumula. Não só
(categoria cromática), das relações entre as figuras moedas e Patinhas, mas os
formas (categoria eidética), da organiza- recursos de expressão do brilho amare-
ção do espaço (categoria topológica) e dos lado das moedas e do traço ascendente
efeitos construídos pela materialidade da boca do personagem, em estado de
significante (categoria matérica). Ao alegria, configuram o caráter ideológico
examinar tais categorias busca-se ma- dos mecanismos de figurativização e
pear os efeitos de sentido construídos na acentuam a visão capitalista da riqueza
articulação entre expressão e conteúdo. como acúmulo individual de bens. Por
Assim, categorias topológicas como alto meio de cadeias construídas pela reite-
vs. baixo e eidéticas como retilíneo vs. ração de elementos (verbais, visuais, so-
curvilíneo podem construir no PE efeitos noros) denominadas cadeias isotópicas,
de contenção vs expansão que corres- os textos constroem percursos de leitura
pondam a estaticidade vs dinamicidade e garantem sua coerência. Os programas

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de auditório de televisão destinados às conteúdos verbais contidos nos balões de
chamadas camadas populares, controla- fala ou comentários do narrador com os
dos por um enunciador que argumenta conteúdos apresentados visualmente.
pelo exagero e a desmedida, fundam-se O sincretismo se realiza por meio da
numa estética do excesso, manifestada, instauração de cadeias temáticas e fi-
no plano do conteúdo, num sortimento gurativas nas diferentes linguagens. O
variado e numeroso de figuras e numa conceito de isotopia diz respeito à recor-
simulação de participação interativa do rência, à retomada de temas e figuras,
público, e, no plano da expressão, em de modo que sejam construídos percursos
elementos como multicromatismo, toma- que indicam um caminho de leitura. No
das de câmera, iluminação intermitente, caso de textos sincréticos verbo-visuais, o
sonoridade acelerada e preenchimento verbal e o visual podem confirmar a mes-
pleno do espaço. Esse tipo de texto sin- ma isotopia, restringindo a leitura, ou
cretiza as múltiplas linguagens por meio podem desencadear isotopias distintas.
da aceleração da expressão e da satura- A relação entre as linguagens pode ser
ção do conteúdo e, com isso, tematiza-se marcada por harmonia ou conflito, pode
a alegria, a vivacidade, a empolgação. instaurar a reiteração ou o contraponto
entre os conteúdos que veiculam. No caso
Metodologia de análise das HQs do tio Patinhas, quando o per-
sonagem exclama “Ah, como isto é bom!
Passemos ao exame de alguns textos O contato do ouro na pele é revigorante!”
sincréticos, com a finalidade de exem- e mergulha na sua piscina de moedas,
plificar as possibilidades de abordagem com expressão sorridente e movimentos
concreta de textos desse tipo na escola. cheios de vivacidade, o visual reitera o
verbal e vice-versa. Numa HQ de humor,
Ler e interpretar HQs um personagem que cai de joelhos em
declaração apaixonada à amada, cria
As histórias em quadrinhos são textos imagem que pode ser contestada por
sincréticos do tipo verbo-visual, em que olhares, gestos e balões de pensamento
uma sequência de quadros com desenho da mulher a quem se declara.
e, em geral, texto verbal apresentado Nas tiras, em que a sequência narra-
em balões, desenvolve uma narrativa. tiva se mostra horizontalmente, em geral
Podem concretizar-se em diferentes gê- em três quadros que condensam todas as
neros, como a tira de humor, a história de características das HQs, podemos obser-
aventuras, os quadrinhos de terror etc. A var com mais detalhes essas formas de
leitura desse tipo de texto pressupõe do relações entre linguagens:
leitor uma competência para apreender
e relacionar a sequência construída pelos

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Figura 1 recentes facilitam a vida. A passagem da
dificuldade à facilidade, do desconforto ao
conforto, constrói narrativamente a ideia
da transformação do mundo por meio do
contraste entre a dureza e a truculência
da carroça e a suavidade e maciez da
cama e do travesseiro de Chiquinha. No
Fonte: Miguel Paiva, O Globo, Globinho, 15 jan 2011, p. 8.
PE visual, o exame dos formantes cromá-
ticos confirma essa narratividade, pois a
Na tira de Chiquinha, a tarja supe-
passagem do tempo se dá pela diferença
rior, em cor vermelha, dá destaque ao
entre cores apagadas e opacas nos dois
título, que anuncia uma nova forma
primeiros quadros – fundo azul, tons ter-
de contar a história da humanidade.
rosos e marrom na carroça e nos cavalos
O subtítulo convoca a temática da co-
(quadro 1); fundo lilás, vinho, preto e
municação, pormenorizada na tira por
branco da roupa do homem (quadro 2)
meio da isotopia figurativa construída
– e cores mais vivas e brilhantes no últi-
no texto verbal – “cartas”, “telefone/
mo – fundo laranja, rosa e azul vibrante
telefonista”, “MSN”, “Orkut”, “facebook”
da roupa de Chiquinha, marcadas por
e “celular”. Essa cadeia figurativa ins-
pontos de luz. Assim, constrói-se a ideia
taura verbalmente uma sequência que
de que os acontecimentos passados são
guia o percurso de leitura. Levar o aluno
esmaecidos pelo tempo, ao passo que o
a mapear essas informações e a perceber
brilho das cores marca o frescor do pre-
o percurso figurativo como uma repre-
sente. Além disso, a ordem dos quadri-
sentação linear da evolução dos meios
nhos na página (recurso visual) compõe
de comunicação pode ser um primeiro
a estratégia enunciativa que ordena
passo de leitura desse texto.
temporalmente a apresentação dos fatos
A observação das figuras visuais, por
e encontra eco na temporalização verbal
meio da descrição dos elementos de cada
dada pelos advérbios “antigamente”,
quadro, revela que há uma reiteração
“depois” e “hoje” usados em sequência em
dessa sequência dada pelos elementos
cada quadro e pelo emprego de verbos no
visuais: carroça (que conduz as cartas),
pretérito nos dois primeiros quadrinhos
telefone antigo e celular moderno. No
e no presente no último.
segundo quadro, por exemplo, o tema da
Observando, ainda, o visual por meio
antiguidade é dado também pelas roupas,
das categorias eidéticas vê-se que a rela-
pela gravata borboleta, pelo corte de
ção entre as formas da figura humana é
cabelo e o tipo de bigode do personagem
contrastante. A passagem da verticalida-
retratado. Já no último quadro, o tema
de, nos dois primeiros quadrinhos, à ho-
da atualidade se relaciona às facilidades
rizontalidade, no último quadro, põe em
e ao conforto, construindo a ideia de que
relevo discursivamente um percurso que
as ferramentas de comunicação mais
vai da tensão ao relaxamento, da conten-

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ção à distensão. O texto verbal contrapõe analisar sua organização e funcionamen-
distanciamento e aproximação, por meio to, o que pode ser fundamental para uma
das categorias da enunciação. Assim, “navegação” segura e produtiva. Um site
o tempo do “então”, de “antigamente”, constitui-se no formato de um hipertexto,
em que a comunicação exigia interme- isto é, um conjunto de nós e de links, que
diários (mensageiros/ telefonistas) se permitem a navegação por um conjunto
opõe ao “hoje”, momento próximo da de páginas relacionadas entre si, arma-
enunciação em que um eu que enuncia zenadas de maneira virtual.
é projetado discursivamente. A oposição Enquanto o texto é uma estrutura
entre o lá/então e o aqui/agora constrói linear, hierarquizada, o hipertexto é uma
sintaticamente a passagem do tempo e estrutura de rede, na qual os elementos
o desenrolar da história do mundo. O
textuais são nós, ligados por relações não
conteúdo da facilidade e da agilidade da
lineares e pouco hierarquizadas, mani-
comunicação é construído por meio da
festadas pelas diversas linguagens que
articulação entre as linguagens, que, no
se articulam numa totalidade de sentido
caso em análise, se deu por reafirmação
sincrética.
e reiteração entre verbal e visual.
Veja-se um exemplo:
Tiras são textos ricos para análise,
porque possibilitam, com economia de
Figura 2
recursos, a compreensão de um fio nar-
rativo. Além disso, operam com riqueza
de procedimentos de expressão. Não
podem figurar apenas como ilustração de
algum conteúdo, devendo ser exploradas
em toda a sua potencialidade de geração
de sentidos. Analisar uma tira pode ren-
der não só a compreensão do emprego
de categorias da expressão visual, mas
também a produção escrita de textos
narrativos, a formatação de diálogos, e
ainda a apresentação dramatizada de
uma história.

Navegar em sites da
internet
Ainda que se use a internet com
Fonte: Ciência Hoje das Crianças. Disponível em: http://
frequência e com naturalidade, muitos chc.cienciahoje.uol.com.br/ Acessado em: 27 ago.
estudantes ainda não são capazes de 2013.

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Para depreender como se dá o sentido a indicação “entrar” e um desenho de
nos textos, o analista fragmenta suas uma abelha. Centralizado, abaixo, está
partes, observando-as atentamente e o menu do portal, com os principais links
descrevendo-as detalhadamente. A par- de acesso, composto pelo fundo branco,
tir daí, examinam-se os procedimentos fonte azul e ícones roxos. Ao passar o
adotados para construir o sentido do mouse sobre os links, suas cores ressal-
texto. tam, em vermelho, chamando a atenção
Ciência hoje das crianças (CHC) é do usuário. As cores em harmonia cola-
o site da revista de mesmo título do boram na organização do percurso do
Instituto Ciência Hoje. De forma alegre, internauta pelo site. A observação e a
descontraída, o site busca despertar descrição visual do site funcionam como
curiosidade científica nas crianças. Será primeira etapa da análise.
analisada aqui a capa do site, aquela Dois dinossauros estão dispostos na
que se abre quando o endereço do link é parte central da 1ª rolagem, configurada
digitado. A capa é o primeiro contato do de forma ampla, tomando todo o campo
internauta com os sites de internet e esse visual da tela. Eles se movimentam e
contato se dá por meio da 1ª rolagem da dialogam entre si e com os leitores, em
página, a parte superior. um espaço que reproduz o ambiente de
A configuração topológica do site da um quarto, concretizado pela cama posta
CHC se dá na divisão nítida entre a 1ª à esquerda, próxima de uma janela, e a
rolagem e o restante da página, horizon- porta fechada à direita. A organização
talmente. A fronteira entre as partes é topológica dos elementos nessa parte da
constituída pela linha não demarcada 1ª rolagem captura o leitor para o tema
que está abaixo dos dinossauros. A 1ª em destaque. Os objetos que compõem
rolagem apresenta-se de forma bem di- o espaço desse quarto e as vestimentas
ferente da parte superior, entretanto há dos dinossauros estão relacionados à
uma harmonia no ajuste entre as partes principal matéria do veículo naquele
na formação da unidade do site. período: arqueologia. Mapas, bússola,
O arranjo topológico da 1ª rolagem é desenhos rupestres, livros são figuras
constituído principalmente de forma ho- que compõem a área central da 1ª rola-
rizontal, em faixas. A composição cromá- gem com os dinossauros, concretizam o
tica se caracteriza pela cor azul escura tema da matéria principal e auxiliam
ao fundo, em contraste com o título do na ambientação dos internautas com o
site, em vermelho e branco, chamando assunto. Figuras principais, os dinossau-
a atenção do leitor, do lado esquerdo. ros movimentam-se e olham para fora
Na parte superior central, há um box da tela. Um deles, o da esquerda, faz
verde de busca e ao seu lado direito um um convite ao internauta, em discurso
link para a autenticação no site com direto “Já pensou em seguir a carreira de

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arqueólogo?”. A pergunta revela-se como com um espaço conhecido da criança. Os
uma interpelação que cria a interação do elementos que figurativizam o tema em
personagem com o internauta. Os ele- destaque na edição preenchem o espaço
mentos citados anteriormente, dispersos do quarto, substituindo os elementos
pelo quarto, são ícones configurados em comuns de um quarto infantil: uma bola,
hiperlinks que levam o leitor a uma pági- uma boneca, uma mochila ou um par
na sobre o tema. O discurso direto apare- de patins. O arranjo desses elementos
ce num balão de fala, recurso comum em que dão segurança ao leitor também o
HQ, que estabelece familiaridade com o persuade a navegar pelo site com mais
usuário. O uso desse recurso, aliado à interesse e curiosidade.
expressividade dos personagens, reforça A movimentação pelo site apresenta-
a estratégia de persuasão estabelecida -se de forma dinâmica e rápida, e a atu-
pelo enunciador. alização é constante, com a entrada de
A organização da parte inferior da novos temas e reportagens. Os dinossau-
página, de fundo bege, simula o chão ros mudam de ambiente e de roupa de
do quarto, alargando a dimensão do acordo com os novos conteúdos expostos.
cômodo, e está divida em dois blocos. Entretanto, a composição estrutural do
À esquerda há uma coluna com cinco site permanece a mesma, a disposição
chamadas para as diversas seções que do título, do boxe de busca, do menu, por
compõem o site. Essa coluna vertical, exemplo, mantém-se sempre no mesmo
contornada por uma fina e discreta lugar. Esse arranjo sincrético preserva
linha, apresenta fundo branco com as a identidade visual do site, imprimindo-
chamadas em links, dispostas horizon- -lhe um perfil particular, ao mesmo
talmente. À direita, diferentemente, há tempo em que cria certo conforto para
três boxes separados. Nos dois menores, o internauta e instaura uma prática de
há um link de atividade para colorir e acesso ao site.
outro com uma chamada para a revista As categorias topológicas e cromáti-
impressa; eles estão dispostos sobre um cas do plano da expressão, articuladas
boxe maior, com links para vídeos e rá- entre si e com o plano do conteúdo,
dio. Tais chamadas em formato de links geram o efeito de sentido de harmonia e
são constituídas de elementos verbais e totalidade e são apreendidas na mesma
não verbais. enunciação. Essa articulação também
É nítido o contraste entre a 1ª rolagem gera o efeito de sentido de curiosidade
e a parte inferior do site. A 1ª rolagem é e relaciona o aprendizado à diversão,
mais ampla, os elementos dispostos de pois a navegação se dá de forma lúdica,
forma dispersa pelo quarto remetem ao de acordo com temas direcionados ao
ambiente do quarto do leitor, criando público infantil. Mostrar aos alunos as
um vínculo por meio da familiaridade funções dos links e as relações estabe-

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lecidas entre as linguagens é fazê-los provocado pela saturação de informações
compreender o gênero e interpretá-lo. Da que circulam na sociedade contemporânea
(GOMES, 2008, p. 85).
mesma forma, analisar o sentido de cada
figura ou dos recursos de expressão que Como já foi assinalado anteriormente, o todo
criam o efeito de interatividade pode le- de sentido produzido pelo texto sincrético
é produto de um único enunciador que se
var o aluno a ter consciência de que nada mostra habilidoso em articular as múltiplas
num texto é gratuito, tudo se harmoniza linguagens em relação: “não há, por isso,
para criar um programa de manipulação, uma enunciação verbal e outra visual, ou-
tra melódica, e assim por diante, mas uma
por meio do qual o enunciador busca a
só enunciação que mobiliza, no plano da
adesão do enunciatário. expressão, uma pluralidade de substâncias
estruturadas sob uma só forma” (GOMES,
Analisar a capa do jornal 2008, p. 85).

Na capa são selecionadas, pelo enun-


Analisar e interpretar o gênero capa ciador, chamadas de notícias, suscetíveis
de jornal na sala de aula é uma atividade de funcionar como apelo a uma rápida
que estimula a capacidade crítica dos leitura, a uma “olhadela”:
alunos, se puderem perceber os efeitos Esse modo de fazer ver – e fazer saber –
das escolhas feitas pelo jornal. Funcio- ligeiro, descontínuo, abrangente, faz com
nando como uma espécie de “vitrine” da que uma primeira apreensão do sentido
edição do dia, a capa atrai a atenção dos se dê através de apenas alguns elementos
textuais colocados em destaque, em detri-
leitores e tem por função convencê-los a mento de outros – o relato verbal escrito,
comprar o jornal e ler suas páginas. A comentários de maior extensão, artigos,
temática da capa refere-se às principais editoriais – que podem agregar sentido ou
ressignificar essa captação mais imediata
notícias da edição, variando o estilo e a e rápida da olhadela. Essa olhadela é uma
composição de acordo com o público leitor maneira de o leitor acercar-se dos fatos,
a que o órgão se destina. informar-se, tendo a ilusão de inscrever-
-se no mundo, participar dele, mesmo que
Para a leitura do jornal, não se pode
tudo isso muito superficialmente, pelas
dissociar texto verbal e imagem, pois aparências do mundo, a partir daquilo que
ambos estão articulados em um todo seu jornal diário veicula como representação
de sentido, logo, a apreensão do sentido e síntese dos eventos significativos, dentre
tudo o que acontece (GOMES, 2008, p. 95).
se dá por essa correlação entre a plu-
ralidade de linguagens. Regina Gomes O leitor, capturado pela manchete ou
afirma que pela chamada, pode, por meio da indi-
A estratégia enunciativa, ao empregar pro- cação da página ou do caderno, ir direto
cedimentos de sincretização de linguagens, para o texto de seu interesse, exercendo
ajuda a construir a identidade semiótica a leitura hipertextual. Porém, há leitores
de um jornal, selecionando o enunciatário
que preferem a leitura linear, folheando
ao qual se dirige. Empresta-lhe, também,
visibilidade, acrescentando-lhe um traço página a página, num movimento de pas-
diferencial no meio do ruído intermitente sar os olhos pelas páginas, ora seguindo,

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ora detendo-se na leitura daquilo que em oposição a um enunciador “que grita,
lhe interessa. porque hiperbólico, nos jornais de im-
Em sua composição, a capa de jornal prensa dita sensacionalista” (DISCINI,
se organiza na relação entre aspectos 2003, p. 40).
verbais e visuais, distribuindo as cha- Observemos as capas dos jornais O
madas em colunas verticais e horizon- Globo e Extra, veículos da mesma empre-
tais. A categoria topológica é a principal sa destinados a públicos diferentes (A/B,
responsável pela articulação entre as o primeiro; C/D, o segundo), publicados
linguagens verbal e visual. Essa orga- na mesma data.
nização topológica que se repete diaria-
mente em um formato previsível gera um Figura 3
efeito de sentido de confiabilidade entre
enunciador e enunciatário. Na primeira
faixa horizontal, lê-se o nome do jornal.
Nas colunas verticais, estão distribuídas
as chamadas para as notícias. Fotos e
charges, junto com as cores e formatos
das fontes utilizadas, são os elementos
visuais da capa. A montagem da capa
revela escolhas: que informação é mais
importante? Que fotografia usar? Que
título atribuir a uma notícia? Todas
essas escolhas definem a linha editorial
do jornal, isto é, o ponto de vista que o
jornal assume diante dos acontecimentos
do mundo.
O estilo pode variar entre o mais só-
brio e o mais exuberante. O estilo mais
sóbrio cria efeito de seriedade, ordem,
equilíbrio. O estilo mais exuberante
constrói efeitos de apelo, informalidade
e descontração. O primeiro associa-se
aos grandes temas nacionais e interna-
cionais. O segundo, aos assuntos mais
ligados à vida privada. Segundo Discini, Fonte: O Globo.  14 jun 2013. Disponível em: http://acervo.
nos jornais produzidos para as classes A oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegaca
oPorData=201020130614  Acessado em: 22 set
e B, “jornais da imprensa dita séria”, o 2014. 
enunciador é “eufemístico e fala baixo”,

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Figura 4 chamadas. Essas estratégias revelam
um enunciador que recorre aos recursos
hiperbólicos da expressão, fortes meca-
nismos de apelo à atenção do leitor. Os
traços gráficos do plano da expressão, a
contenção nas cores e traços, a organiza-
ção das notícias em colunas divididas por
linhas quase transparentes, nas capas de
O Globo, refletem o tipo de enunciador e
enunciatário, fazendo com que este dese-
je entrar em conjunção com a leitura do
jornal por se identificar imediatamente
com seu modo de apresentação discreto,
sóbrio e contido.
Os temas sensacionalistas são os
que ficam em evidência no jornal Extra:
futebol, violência, fofocas televisivas,
voltados para o apelo popular, refletindo
o enunciatário que busca nas páginas
do veículo a informação mais cotidiana,
de interesse mais imediato. Os temas
escolhidos em O Globo são abrangentes,
Fonte: Extra 14 jun 2013. Disponível em: http://extra.globo. gerais, relacionados ao coletivo, tratam
com/capas-jornal-extra/14-06-2013-8685179.html  de acontecimentos nacionais e interna-
Acessado em: 22 set 2014.
cionais e atendem à expectativa de um
leitor antenado com questões de conjun-
As características visuais de O Globo tura econômica e política.
são da ordem da contenção, a diagrama- As escolhas temáticas, o uso de norma
ção é equilibrada, com distribuição simé- urbana de prestígio, o jogo de reiterações
trica entre fotos e textos, recursos que entre o verbal e o não verbal e a predo-
falam de um enunciador discreto, que se minância da 3ª pessoa são os principais
dirige a um leitor de bom gosto, um leitor recursos de conteúdo e expressão que
das meias medidas, contido também. No constroem os efeitos de sentido de ob-
Extra, as fotos preenchem boa parte da jetividade e imparcialidade e revelam
capa e antecipam as chamadas verbais. um jornal que busca consagrar-se como
Os recursos visuais são da ordem do autoridade, a partir da credibilidade que
exagero e da profusão, que aparecem no constitui seu perfil.
tamanho das fotos e das fontes gráficas
utilizadas tanto na manchete como nas

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A principal notícia do dia, a manche- procedimento de figurativização tenta
te, tem destaque nas capas, por meio da recobrir ao máximo a realidade, quanto
posição centralizada e das fontes em ta- mais icônico, maior é o efeito de realida-
manho grande. Em O Globo, a manchete de obtido, pois “na fotografia a figurati-
em negrito ressalta do fundo branco; no vidade remete a figuras do mundo na-
Extra, em cor branca, ela é sobreposta à tural, facilmente reconhecíveis, própria
foto, contrastando com a cor escura do à iconicidade deste tipo de linguagem”
fundo. O tempo verbal das chamadas ge- (GOMES, 2008, p. 63).
ralmente está no presente do indicativo, Nas fotos das capas em análise, o lá –
ainda que se refiram a uma ação passa- o exterior – foi inserido no aqui – espaço
da. O uso do tempo presente em lugar do do enunciador – aproximando ainda
pretérito é uma forma de estender a ação mais o enunciatário do acontecimento.
até o momento do agora, da produção do Diana Luz Pessoa de Barros destaca a
jornal e da sua leitura, dando-lhe status importância das fotos, pois “o papel anco-
de atualidade, o que torna o fato mais rador da fotografia [...] é assegurado pela
próximo do leitor e caracteriza os gêneros crença ideológico-cultural no seu caráter
da esfera jornalística, de modo geral. de ‘cópia do real’” (BARROS, 1990, p. 61).
Se os recursos de composição, obser- No jornal, a publicação da foto é tam-
vados aqui na diagramação da capa, bém uma estratégia de argumentação
já ressaltam o perfil de cada jornal, o fundamental, pois “funciona (...) como
estilo acentua a constituição semiótica uma espécie de persuasão veridictória,
de cada órgão de imprensa. O modo de uma garantia de fidelidade a um certo
dizer, tanto na forma escrita das notícias mundo real, concreto, dado. (...) [A foto-
narradas quanto nas fotos e recursos grafia] é tomada, por quem a observa,
visuais que as complementam, e a forma como documento, expressão de realidade,
de comunicar, pelo comedimento ou pelo verdade, portanto” (TEIXEIRA, 2001, p.
excesso, estabelecem as diferenças entre 416). O flagrante das manifestações feito
os dois jornais aqui destacados. pelas fotos concretiza o efeito de sentido
A fotografia no jornal contribui para a de realidade e de verdade do texto jor-
concretização de lugares, fatos e aconte- nalístico. Além do efeito de realidade, o
cimentos, pelo caráter icônico de imagens enunciador, por meio dessa estratégia,
que reforçam a ilusão de realidade. A simula estar em todos os lugares ao
iconicidade “costuma estar associada mesmo tempo, cobrindo todos os fatos.
à saturação de traços figurativos que Nas capas do Globo e do Extra, en-
busca aproximar a representação (feita tretanto, as fotos da manifestação se
por meio de uma pintura, uma fotografia, diferenciam pelas tomadas, o foco, que
um texto verbal, etc) de uma imagem confere maior ou menor particulariza-
do mundo” (TEIXEIRA, 2001, p. 416). O ção ao acontecimento. No Globo, duas

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fotos horizontalizadas documentam por uma estratégia enunciativa que se
a brutalidade policial, acentuando o manifesta visualmente na organização
confronto entre manifestantes e forças topológica do espaço, a partir da qual são
institucionais. O jornal estabelece uma estabelecidos os destaques e escolhidos
oposição entre desordem e preservação os aspectos da realidade a noticiar.
da ordem, mostra as forças em conflito,
dando maior amplitude ao fato. No Ex- Conclusão
tra, a foto única, verticalizada, dá ênfase
aos manifestantes, elevando-os ao centro Os exemplos sugerem uma estratégia
do acontecimento, valorizando o aspecto de análise que começa no mapeamento
heroico da manifestação e diluindo o de figuras e temas, elementos mais
confronto. Imagens em contraposição, superficiais do discurso, passa pelas
as duas fotos se associam aos sujeitos projeções de pessoa, tempo, espaço e as
semióticos que as publicam: de um lado, estratégias de interlocução com o enun-
a busca da objetividade, o interesse por ciatário, que criam efeitos de aproxima-
um panorama geral e abrangente; de ção e distanciamento com o enunciador,
outro, a particularização da notícia, a e termina na organização visual que
escolha de um aspecto mais subjetivo integra sincreticamente todos os elemen-
do acontecimento. No primeiro caso, há tos. Cada texto, entretanto, solicita do
harmonia e reiteração entre foto e man- leitor um olhar particular. Se o texto é
chete; no segundo, contraponto entre uma HQ, os elementos visuais são mais
uma e outra. Se o visual tem maior força evidentes como condutores da narrativa.
de apelo, a foto do Extra, com efeitos Se o jornal está em foco, as chamadas de
plásticos realçados pelos contrastes cro- primeira página exercem função primor-
máticos e os efeitos de luz, cria efeito de dial, logo se integrando à diagramação.
subjetividade e realce da ação do grupo Quando se examina um site da internet,
de manifestantes, enquanto as duas fotos também a visualidade, aliada aos movi-
do Globo pretendem reforçar o caráter mentos solicitados ao internauta, pedem
documental da cobertura jornalística. destaque na análise. Cada atividade de
Na análise em sala de aula, não se interpretação será diferente, reverente
pode abrir mão da relação entre foto- ao formato, às linguagens em relação e
grafia e legenda, organização visual e às possibilidades de sentido dos diferen-
notícias, recursos de projeção de pessoa, tes objetos semióticos. Uma teoria geral
tempo e espaço e efeitos de subjetividade da significação, como a semiótica, propõe
e objetividade. A construção de sentido um modelo geral de análise, aplicável à
na capa e no jornal de modo geral se leitura de qualquer texto, mas também
dá justamente na articulação entre as enfatiza as particularidades dos diferen-
imagens e os textos verbais, organizados tes códigos.

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A adoção de uma teoria não é uma de qualidade, no entanto, não se faz com
questão de crença, mas de adesão, de a soma de boas atuações individuais,
escolha, de filiação à determinada matriz mas com uma mudança de concepção
teórica. Entre crença e adesão existe a que, por sua vez, também só é possível
diferença conceitual que faz intervir na com a criação de condições coletivas de
segunda a racionalidade. Na crença, engajamento e concentração de esforços.
tem-se a “atitude de quem se persuadiu É nesse sentido que a adesão a uma teo-
de algo pelos caracteres de verdade que ria é importante: trata-se de uma forma
ali encontrou” (HOUAISS, 2001). Na de oferecer direção a um grupo que tem
adesão, não há aceitação, mas acordo, um objetivo comum definido.
não há verdade, mas possibilidades que Compreendida como matriz de pro-
se oferecem, dentre as quais se escolhe dução de conhecimento, a teoria não é,
uma, a partir de determinada análise. necessariamente, terreno seco e pedre-
Essa diferença é fundamental e serve goso, árido, difícil de penetrar. Pode ser
aqui para afirmar que o trabalho de que se torne o ponto de partida de uma
pesquisa e suas aplicações origina-se nova atitude, de um outro modo de olhar
na filiação, na adesão a alguma teoria e o mundo. Mesmo porque, trabalhar com
que sem a densidade de uma teoria bem a linguagem é estar sempre atento às
assimilada e bem compreendida não há paixões humanas, sejam elas feitas de
ensino que se sustente. papel, tinta, notas musicais ou qualquer
Em ensino de língua materna, costu- outra linguagem.
ma-se, muitas vezes, usar a opinião ou a É, aliás, com as paixões humanas que
crença como contraponto (quase sempre se pretende encerrar este texto. “Para
débil) do conhecimento. “Eu sinto que os aquele que fala e, em particular, para
alunos gostam”, “Eu acho que assim eles aquele cujo ofício é falar sobre o discurso,
aprendem mais rápido”, “Eu tenho feito para o linguista, a língua pode ser um
assim e os alunos gostam muito”, “Eu objeto de amor”. E o amor pela língua
acredito nesse tipo de exercício” – são é o amor pelo outro, pela diferença: “o
recortes expressivos de um certo mur- amoroso das línguas é enamorado da al-
múrio ingênuo e difundido que associa teridade” (HAGÈGE, 1998, p. 391 e 394).
ensino de língua portuguesa a alguma Ser enamorado da língua materna
qualidade própria ou a alguma desco- é também apaixonar-se pela alterida-
berta pessoal e intuitiva de um ou outro de. Ou o que mais fazemos nós todos
grande professor. os dias, ensinando língua portuguesa,
Experiência e vontade são efetiva- senão mostrar aos estudantes o mis-
mente duas grandes forças que diferen- tério de existir na linguagem? Existir
ciam atuações profissionais e podem, na linguagem é aproximar-se do outro
acrescentando entusiasmo ao trabalho, a cada instante, para recebê-lo ou para
torná-lo mais bem sucedido. Um ensino rejeitá-lo. Pensar na linguagem, fazer

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Lucia Teixeira (luciatso@gmail.com) é doutora
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gmail.com) é doutora em Letras pela UFF e Lucia (Orgs.). Linguagens na comunicação:
professora do Programa de Pós-graduação em desenvolvimentos de semiótica sincrética.
Estudos de Linguagem desta Universidade; São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009.
Karla Faria (kcafaria@gmail.com ) é doutora p. 145-167.
em Estudos de Linguagem pela UFF. As auto-
ras são pesquisadoras do SeDi-UFF (Grupo de
Pesquisa em Semiótica e Discurso da UFF).

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