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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

  S484

Sergio Bernardes : (1919-2002) / Alfredo Britto ...[et al.] ;


Kykah Bernardes, Lauro Cavalcanti (Org.). – Rio de Janeiro :
ARTVIVA, 2010.
288 p. : il. color ; 28 cm.

ISBN 978-85-99616-09-3.

1. Arquitetos – Brasil. 2. Arquitetura – Brasil – Séc. XX.


I. Bernardes, Kykah. II. Cavalcanti, Lauro.

CDD 927.2

copyright@ 2010, desta edição ARTVIVA Editora


copyright@ 2010, família Bernardes
copyright@ 2010, dos autores

B
Este livro foi impresso na Primavera
de 2010, em papel couché fosco
150g/m2 ( miolo e capa),
na tipografia Franklin Gothic, com
tiragem de 1.000 Exemplares.
A CIVILIZAÇÃO TROPICAL E
O SEU CONTRÁRIO

Guilherme Wisnik
1.
Os rios sempre surgem na história da Huma- sempre exaurir os rios, sugando-os em tudo,
nidade como caminhos naturais por onde se até matando-os, transformando-os em esgotos,
conduziu a civilização. De certa forma, foram em depósitos de lixo. Provocada por esses e
bússolas dos progressos do Homem, indicando- por outros atentados ecológicos, a natureza
lhes direções, apontando-lhes roteiros para a também mexeu com os rios, alterando o curso
exploração da Terra. Através deles, o Homem de muitos deles, gerando as contradições dra-
desbravou o interior dos Continentes, assentou máticas da seca e das enchentes, com suas
povoamentos, fez crescer cidades. Por isso, e multidões de flagelados e desabrigados.1
pelas riquezas que oferecem, os rios são um Com essas sensatas considerações, Sergio
dos mais exuberantes patrimônios universais. Bernardes inicia uma argumentação em favor
Mas a intervenção do Homem sobre a naturali- do seu projeto de potencialização dos recur-
dade dos rios se fez muito mais em sentido pre- sos hídricos do país através das “aquavias”:
datório, do que com o cuidado de protegê-los e 16 anéis de água interligando as principais
de preservar suas potencialidades. Preferiu-se bacias hidrográficas brasileiras ao longo de

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P.121 - Sergio Bernardes apresentando Projeto Brasil.

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Projeto Brasil

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Projeto Brasil

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30 mil quilômetros, de modo a estabilizar o osso atirado ao ar pelo selvagem se transforma
regime de secas e cheias por todo o país, ser- em sonda espacial. Ou, ainda, com a mesma
vindo também como leito para o transporte de naturalidade com que os artistas americanos de
cargas e passageiros. A proposta das aqua- land art relacionavam fatos e símbolos ances-
vias, instrumento da criação de uma “primeira trais à sensibilidade futurista do science fiction.
civilização tropical”, segundo suas palavras, O projeto moderno de Sergio Bernardes é tardio,
integra um conjunto de ideias que formam o e corresponde à intensidade utópica e escato-
chamado Projeto Brasil,2 no qual Bernardes lógica dos anos 60, com seu fervor tecnológico,
extrapola o campo do urbanismo projetando seu temor pelo Armageddon, e sua ambição
o território em escala continental, com ênfase existencial e transcendente. Por isso, Sergio
evidente nas questões de infraestrutura e sus- Bernardes é o arquiteto brasileiro mais próximo
tentabilidade ecológica. Trata-se, certamente, das questões postas pelas megaestruturas
de uma de suas propostas mais ambiciosas, e daquele período, em que se destaca a irreverên-
que hoje assume importância renovada diante cia cáustica do grupo inglês Archigram.
da emergência global da agenda que postulou Heterodoxo também do ponto de vista político,
precocemente – de modo convicto, porém um Bernardes se declarava um antirrevolucionário
tanto quixotesco, e às custas de grande sacri- convicto, acreditando mais no sentido evolutivo
fício pessoal – desde os anos 60. da espécie humana do que na artificialidade
Preferindo a alcunha autoproclamada de “inven- ilusória das rupturas históricas.3 Com base
tor social” à de arquiteto, Sergio Bernardes é nisso, deslocou a análise materialista do con-
uma figura absolutamente singular no panorama flito como o motor da história para a constante
da arquitetura moderna brasileira. Talvez o her- sincrônica da ecologia, na qual as contradições
deiro mais legítimo do visionarismo épico de Le aparecem não em razão de lutas sociais, mas
Corbusier em suas propostas de grande escala de utilizações irracionais da natureza, passíveis
para as cidades latino-americanas (1929), de serem corrigidas através de uma melhor
Bernardes foi também o maior intérprete e tra- conscientização geral e, consequentemente,
dutor local do pensamento técnico-geográfico de uma ação corretiva do Estado: o famigerado
de Buckminster Füller – que chegou inclusive “poder central”.4 Daí que o seu discurso resulte
a ser seu consultor especial no projeto para tão alheio ao teor político que dominou o debate
o Hotel Tropical em Manaus, de 1968. Pois, arquitetônico brasileiro nos anos 60 e 70, ainda
assim como Füller, Sergio Bernardes concebia que carregado de instruções enfáticas para
a atividade do arquiteto em um campo ampliado uma verdadeira política nacional.5 Nada mais
capaz de conectar o menor objeto de design à distante, portanto, de uma poética do subde-
escala do planeta. Mas note-se que não se trata senvolvimento – e sua estética empenhada – do
exatamente da proposta bauhausiana de se que a ontologia a-histórica de Sergio Bernardes,
projetar componentes em série, desde a colher batizada por ele de “terrismo”.6 Acontece que a
até a cidade, através de módulos contínuos e sua atenção para a ecologia como um problema
equivalentes. Pois Bernardes salta da colher sistêmico era também, a seu modo, política. Um
à Via Láctea com o mesmo desembaraço com problema cujas implicações só hoje consegui-
que, no filme 2001: uma Odisseia no espaço, o mos avaliar melhor.

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Projeto Brasil

2. De forma mais intuitiva do que erudita, Sergio


Num país continental como o Brasil, as poten- Bernardes recupera com o Projeto Brasil uma
cialidades fluviais são deslumbrantes. Não serve importante tradição de debates e propostas
aplicar aqui modelos concebidos para outros para o Continente, que viam o transporte fluvial
figurinos, se pelo percurso dos rios brasileiros como instrumento essencial para a sobera-
se pode traçar uma alternativa própria e origi- nia sustentável da América Latina. Desde a
nal que desenvolva o país como um todo, não lendária proposta de criação de uma Hidrovia
apenas em parcelas de privilégio e una a sua Norte–Sul, conectando através de barragens
dimensão territorial, superando os desencontros com eclusas e canais artificiais no interior con-
regionais, distribuindo com equidade as riquezas tinental as bacias do Orinoco à do Prata, até
nacionais, acabando com a seca do Nordeste e a construção efetiva de sistemas ferrofluviais
com as enchentes do Sul e ao mesmo tempo interligados, como a ferrovia Madeira–Mamoré
oferecendo oportunidade para baratear o custo (1907–1912), vislumbrou-se a possibilidade
do transporte de carga e de passageiros, para de desenvolvimento econômico do continente
resolver o problema da poluição ambiental e o através da potencialização técnica dos seus
da produção de energia elétrica.7 recursos naturais, de modo semelhante ao

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que outros países de dimensões continentais tico”.12 Será que não podemos interpretar o
vinham fazendo com sucesso.8 Com base nisso petróleo do Pré-Sal, recentemente encontrado
é que engenheiros e intelectuais importantes, na bacia de Campos, como a preciosa muira-
tais como Euclides da Cunha, puderam pensar quitã futura vislumbrada por Sergio com suas
o Brasil – na passagem do século XIX para o ociosas células?
XX – como a “Rússia americana”.9 É interessante notar o quanto o contexto
Pretendendo reverter a ocupação predatória da recente tem atualizado, de modo imprevisto,
natureza pelo homem, Sergio Bernardes procu- muitas das questões colocadas previamente
rou rever as bases do “pacto fáustico” moderno, por Sergio Bernardes – e tidas até pouco
que associou o desenvolvimento industrial à tempo como algo delirantes ou caducas. Misto
multiplicação de ferro e fumaça. Sua resposta, de professor Pardal e profeta de alguma reli-
no entanto, está distante do organicismo topo- gião sem Deus, Sergio Bernardes tornou-se,
gráfico de hoje, reforçando, ao contrário, uma com o tempo, uma espécie de caricatura da
racionalidade geométrica iluminista. Pois, com razão. Ou melhor, de uma racionalidade levada
seus anéis circulando em conjunto – como uma a extremos tão rigorosos e mirabolantes, e ao
nova engrenagem virtuosa que se impusesse ao mesmo tempo com recursos tão humanos e
mapa do Brasil –, Bernardes submete o capri- amadores, que se tornou, ao final, crítica de
cho das águas “ao destino que a gente quer”, si mesmo e, de certa forma, irracionalista. É o
diz ele.10 Daí a imagem que escolheu para o seu que faz de Sergio Bernardes um personagem
projeto: o trópico civilizado. Algo afinal, tão belo tão genuinamente brasileiro, e não um Apolo
e quimérico quanto a “ópera na selva” de Fitz- em luta contra os bárbaros, nem um Descartes
carraldo, mas que também não deixa de estar equivocamente desembarcado no Brasil com a
na base do projeto civilizatório que animou a tripulação de Maurício de Nassau.13
construção de Brasília (1957–60). Os projetos territoriais do arquiteto carioca,
Um pouco à maneira de Le Corbusier, porém de dito “inventor social”, mais do que nos impe-
modo ainda mais exagerado e idealista, Bernar- lirem a decidir se seriam ou não factíveis, têm
des direcionou sua energia criativa para proje- a grande qualidade de trazerem à tona proble-
tos de grande escala e nunca encomendados, mas importantes de modo direto e clarividente.
que ele levava adiante com recursos próprios Hoje, quando a discussão sobre a transpo-
para depois tentar convencer o governo de que sição do rio São Francisco aparece como um
eram urgentemente necessários e plenamente tema nacional importante, o aumento do preço
factíveis, a partir de uma visão estratégica e do petróleo e o aquecimento global impõem
não apequenada sobre o destino grandioso do uma necessária revisão da opção rodoviarista
país.11 Nesse contexto, chega a ser curioso ler, no mundo, e a escassez de água torna inevi-
hoje, toda a sua enérgica – porém vã – defesa tável a despoluição dos rios, o Projeto Brasil
do projeto que criou para a “Célula de Informa- de Sergio Bernardes desponta como exemplo
ção Submarina”, aparelho que rastrearia sem de um pensamento sistêmico e ambicioso
descanso toda a costa brasileira recolhendo sobre a questão, carregando, além disso, uma
dados sobre as profundezas, na forma heroica grande dose de lirismo. Seríamos hoje capazes
de um “novo bandeirantismo, agora aquá- de enxergar essa “civilização tropical” funcio-

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nando, num futuro próximo, com seus anéis aos municípios sobre a expectativa social etc. Ver Lauro Caval-
girando e trocando água como numa engrena- canti. Op. cit., p. 78-79.
gem perfeita? Ou seria esse projeto, se tivesse 6  “Ao pretender a Terra como bem de capital do povo, adminis-
sido construído, um enorme fóssil dos tempos trada não em sua posse mas em sua produtividade, revertendo
de “Brasil grande”, abandonado na floresta, os benefícios diretamente para o Homem organizado em comuni-
afundando no charco do pantanal, e craquelado dades autônomas, traçamos o caminho para implantação de uma
sob o sol do sertão? Não é preciso decidir. A sociedade aberta capaz de gerar, por si própria, os mecanismos
história é cambiante, e os projetos verdadeira- de alteração do poder.” Sergio Bernardes, “Terrismo”, in Módulo
mente fortes são aqueles capazes de nos fazer Especial, op. cit., p. 10.
entender melhor a realidade, tanto pelo que 7  Sergio Bernardes. “Os caminhos da primeira civilização tropi-
afirmam quanto por aquilo que negam. B cal: um continente se transforma em país; o Brasil inteiro ligado
através de aquedutos”. Módulo Especial. Op. cit., p. 25-26.
1  Sergio Bernardes. “Os caminhos da primeira civilização tro- 8  Além de exemplos notórios como o da Holanda, a Rússia é
pical: um continente se transforma em país; o Brasil inteiro um país que, ao longo dos séculos 19 e 20, construiu impor-
ligado através de aquedutos”. Módulo Especial: Sergio Bernar- tantes canais artificiais de navegação interligando grandes rios,
des. Rio de Janeiro: outubro de 1983, p. 25. A revista é o catá- como o Volga-Don, e o Mar Báltico–Mar Branco.
logo oficial da exposição “Sergio Bernardes”, ocorrida no Museu 9  Ver João Marcelo E. Maia. “Espaço e pensamento brasileiro:
de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre outubro e novembro a Rússia americana nos escritos de Euclides da Cunha e Vicente
de 1983. Licínio Cardoso”. Dados – Revista de Ciências Sociais n. 1. Rio
2  A designação abarca projetos que o arquiteto fez para a totali- de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro,
dade do território do Brasil. Num primeiro, feito entre os anos 60 2007. <?>  Ver João Marcelo E. Maia. “Espaço e pensamento
e 70, depois de sobrevoar o país por “milhares de horas”, propôs brasileiro: a Rússia americana nos escritos de Euclides da Cunha
um rearranjo do território nacional criando 17 “ilhas” dominadas e Vicente Licínio Cardoso”. Dados – Revista de Ciências Sociais
por rios importantes, que seriam interligadas por vias fluviais n. 1. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de
de navegação, criando uma nova divisão político-administrativa Janeiro, 2007.
para a nação. O segundo, dos anos 70, é a proposta já descrita 10  Sergio Bernardes. “Os caminhos da primeira civilização
das aquavias. Ver Lauro Cavalcanti. Sergio Bernardes: herói de tropical: um continente se transforma em país; o Brasil inteiro
uma tragédia moderna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004, ligado através de aquedutos”. Módulo Especial. Op. cit., p. 26.
p. 55-56, e 82-83. 11  Antipragmático por excelência, Sergio Bernardes foi cada
3  “Evolução é a naturalidade do Homem. Revolução é a falta vez mais se desinteressando do seu bem-sucedido escritório de
de naturalidade para receber a evolução”. Citada na abertura da projetos, e dedicando-se às ousadas propostas que ele mesmo
revista Módulo Especial, essa frase também aparecia na expo- inventava. Por isso, criou em 1979 o LIC: Laboratório de Investi-
sição do MAM, em ambos os casos acompanhada da palavra gações Conceituais, que financiou do próprio bolso, dilapidando
“revolução” com o R cortado. em nome do idealismo quase toda a fortuna familiar.
4  Sergio Bernardes se dirige sempre à autoridade, ao governo, 12  Sergio Bernardes. “Célula de Informação Submarina”.
ao “poder central”. Ver a esse respeito o seu livro Cidade: a Módulo Especial. Op. cit., p. 24.
sobrevivência do poder. Rio de Janeiro: Guavira, 1975. 13  Ver Paulo Leminski. O catatau. Curitiba: Travessa dos Edito-
5  Uma política nacional de forte cunho protecionista, pregando res, 2004 (a edição original é de 1975).
o bloqueio da entrada no país de moeda estrangeira, a proibição
da importação de produtos acabados, a cobrança de um tributo

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SERGIO BERNARDES E O RIO

Alfredo Britto

Depois de um período inicial de experimentação “cidade planejada pela própria natureza e


construtiva e belas soluções arquitetônicas que esbandalhada por burocratas incapazes, o Rio
lhe renderam láureas e prestígio, Sergio Bernar- tem uma vocação universal e é planejada dentro
des abre, na década seguinte, seu olhar para a da maior mediocridade”,2 indignava-se.
complexidade da vida urbana. Para melhor desempenhar esse desafio cria o
Planejar me dá prazer. O mal-estar de viver no Laboratório de Investigações Conceituais – LIC,
feio me faz produzir coisas belas.1 em junho de 1978. Quer dizer, cria formal e
A partir do final dos anos 50, “o mal-estar de legalmente; porque, como acentua ele, o LIC já
viver no feio” foi provocando aquele jovem cole- existia, desde 1959, “como comportamento”.3
cionador de prêmios a direcionar sua inquieta- Aprofunda investigações e propostas inusitadas
ção e invenção para a vida de seus semelhantes para melhorar a qualidade de vida dos cariocas,
na cidade. E o Rio de Janeiro, a cidade natal, para melhor incorporar a paisagem privilegiada
vai se tornando objeto de indissolúvel paixão: da cidade ao cotidiano das pessoas, para tornar

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Plano de Sergio Bernardes para o município do Rio de Janeiro, 1983.

mais eficazes os sistemas de circulação e trans- 17 abril 1965). As propostas iam se sucedendo
porte, impactados pela crescente velocidade – O Aeroporto Livre Intercontinental; a Ponte
gerada por novas tecnologias. Foram mais de Píer, interligando o Caju no Rio a São Lourenço
quarenta anos (1959-2002) estudando a cidade, em Niterói; o Centro de Equilíbrio da Cidade,
formulando soluções, explorando rupturas do abrigando o Conjunto dos Três Poderes (judici-
convencional e do estabelecido, para devolver o ário, executivo e legislativo) na Baixada de Jaca-
sentido produtivo e alegre do viver carioca. repaguá; os Bairros Verticais – imensas torres
Uma seleção dessas propostas veio a público de um quilômetro de altura; o Palácio das Sete
pela primeira vez, de forma articulada e contun- Artes; os Centros Esportivos e Educacionais; a
dente, por iniciativa da antiga revista Manchete, Ponte Turística entre Rio e Niterói apoiada em
semanário de grande circulação nacional (“Rio nove hotéis; os Anéis de Equilíbrio.
do futuro – antevisão da Cidade Maravilhosa no
século da eletrônica”, edição especial n. 678 de

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Anéis de equilíbrio
Surgida pela primeira vez, ainda que embrio- cipa uma constatação fundamental para a
nariamente, na edição da Manchete (1965), engenharia de transportes da cidade:
esta proposta permanece sendo investigada A prática tem mostrado que, a cada vez que se
e detalhada. une um bairro a outro, por sistema de viaduto ou
Quatorze anos depois (1979), o LIC, já formal- túnel, não se resolve o problema dos bairros em
mente instalado, edita um tablóide inovador torno, mas apenas transferem-se os congestio-
denominado Ecologia. Na capa da edição namentos de um ponto para outro. Os anéis de
de estreia – Os Anéis de Equilíbrio do Rio equilíbrio complementam tudo que a cidade fez
de Janeiro – Sergio Bernardes e Pedro Paulo até agora no sentido de facilitar sua circulação
Lomba, este um especialista em florestas tro- (túneis, viadutos, vias expressas, metrô). Os anéis
picais, parceiro de Sergio nessa proposição. são sistematizadores do conjunto da circulação
Em sua apresentação Sergio esclarece: linear. Embora não seja uma cidade linear, o Rio
Um sistema circulatório com grandes anéis tem sido tratado até agora como se o fosse. Hoje
de equilíbrio passando na altura da cota 100 essa cidade linear se ressente de uma falta de
em torno dos maciços da Tijuca e da Pedra sistema. Os anéis de equilíbrio viabilizam a circu-
Branca, através do qual se possa fazer o lação estrangulada e fazem também com que as
transporte de massa, o transporte viário e soluções parciais já construídas (ou que virão a
pesado, a distribuição de energia, água, gás, ser construídas) se integrem nele. Gerarão uma
telefone, coleta e armazenamento de águas nova ecologia urbana.
pluviais. O anel da Tijuca terá cerca de 45 km Por ocasião do lançamento deste tablóide, um
de extensão, o da Pedra Branca, cerca de 47 confiante Sergio declarava ao Jornal do Brasil
km e eles serão unidos por um anel menor, (1º outubro 1979): “transformar em positivo
o do Engenho Velho, aproximadamente com aquilo que é considerado negativo na cidade –
17 km. [...] Tendo um anel de equilíbrio cer- o seu relevo”.
cando o núcleo da floresta tropical, a cidade Os “anéis de equilíbrio”, ainda retornam a público
se ordenará então em dois movimentos: um em 1983, integrando um notável momento da
centrífugo (de dentro para fora) em direção vida cultural carioca: uma mega exposição da
aos vales e ao mar, e o outro centrípeto (de obra e pensamento de Sergio Bernardes no
fora para o núcleo), com as pessoas atraídas Museu de Arte Moderna MAM.4 Nela percorria-
por uma melhor circulação, uma circulação se “uma cidade sobre a linha de trem”. O espaço
espontânea, fluida em todos os sentidos, ocupado pela malha ferroviária da cidade do Rio
distendendo-se ao redor da floresta sempre de Janeiro surgiu para Sergio Bernardes como
verde com todo o prazer que isto proporciona. uma oportunidade de reorganização urbana,
Circular pelo Rio, hoje, é sinônimo de tensão, especialmente, para minorar uma grande dívida
impedimento, dificuldade. Com os anéis, do país – o deficit de habitação de caráter social.
passará a ser sinônimo de descontração, Ele assim descrevia o projeto:
passeio, curtição, desfrutar da paisagem. Sobre o leito dos 105 quilômetros de estradas
A partir dessa reflexão Sergio Bernardes ante- de ferro que cortam a cidade do Rio de Janeiro,

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ocupando faixas de terra que variam e 25 a Sergio fazia questão de afirmar: “Este não é
40 metros de largura, poderia ser edificado um um projeto de remoção de favelas”. E comenta:
mundo novo para a população favela – módulos É uma proposta que vai muito além da simples
em que se integrariam a habitação, a educação, substituição do barraco por conjunto habitacio-
o trabalho, o lazer, os serviço e o transporte. nal. É um exemplo prático de como se podem
Esse eixo polivalente brotaria em estrutura de alterar estruturas e implantar uma nova filoso-
aço, formando telheiros como se fossem um fia de vida, de trabalho e de desenvolvimento
grande abrigo e alcançando 45 metros de altura, urbano, pois além de resgatar da lama parce-
correspondente à de um edifício de 14 andares. las numerosas da população, abre-lhes também
Há espaço sobre a linha férrea para a constru- perspectivas de promoção social, fazendo-as
ção de 105 módulos, cada um com 660 metros crescer junto com a cidade, sem degradação.
de extensão, separados 210 metros um do Ninguém seria obrigado a se mudar para essas
outro. É uma área, em toda extensão da estrada habitações, que também poderiam ser cons-
de ferro, de 3,15 quilômetros quadrados, que truídas com perfil arquitetônico diferente, mas
corresponde quase à metade de Copacabana. com a mesma estrutura de serviços, em outros

Na próxima, Uma cidade sobre a linha férrea, Rio de Janeiro, RJ.

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pontos da cidade, atendendo a favelas fora do capital, o Porto Canal atravessaria os municí-
eixo ferroviário. pios de Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João
O eixo polivalente, como uma verdadeira cidade de Meriti, Nilópolis, Rio de Janeiro e Itaguaí.
sobre a linha de trem, representaria também Estes municípios da Região Metropolitana se
uma iniciativa de elevada significação social: a tornarão cidades portuárias do Atlântico Sul.
redenção de pelo menos um terço da população A mudança geoeconômica se refletirá em novo
que hoje é favelada no Rio estilo a seus mercados de trabalho, a seus
Na exposição viajava-se pelo Porto Canal, par- setores industrial, comercial e de serviços e a
tindo de uma análise histórica do papel do suas próprias culturas locais.
porto na estruturação e desenvolvimento da
cidade, Sergio Bernardes afirma: Lagocean I
nenhuma vocação econômica da cidade subs-
tituiu a de cidade portuária. E esta vocação é O problema da renovação das águas das lagoas
geograficamente evidenciada: raro é o sítio que, Rodrigo de Freitas, da Tijuca, de Jacarepaguá
como o Rio de Janeiro, possui duas baías apro- e de Marapendi, provocando frequente mor-
veitáveis separadas por apenas 61 km: a da tandade de peixes e grave estado de poluição
Guanabara e a de Sepetiba. hídrica, incentivou o arquiteto a ir ao encontro
O Porto Canal propunha a interligação das de criativa solução
duas baías tendo por suporte os canais já – o Lagocean, ligação permanente das lagoas
existentes de Sarapuí, do Guandu e o de São ao oceano.
Francisco. Uma nova hidrovia com vinte metros A primeira abordagem apresentada na grande
de profundidade e 140 metros de largura, pas- exposição do MAM e denominada “Lagocean I”
sando entre o maciço de Gericinó e a Serra do objetivava a lagoa Rodrigo de Freitas.
Quitungo. Uma plataforma de 240 m de diâmetro locali-
Em cada margem haveria reserva de uma faixa zada na boca do canal do Jardim de Alá, no limite
de 300 metros de profundidade destinada às entre Ipanema e Leblon; adentrando de 240
atividades portuárias e retroportuárias. a 300 metros no mar, aumentaria a praia em
Paralelamente às duas margens, a norte e a mais de 72 mil metros quadrados, oferecendo
sul, serão destinados 1.000 metros a corredo- em sua superfície uma marinha para atracação
res industriais (5.800 ha). Entre as duas faixas, de cerca de trezentos barcos e dois helipontos.
haverá outra faixa de equipamentos com siste- Em três pavimentos subaquáticos seriam ins-
mas de despoluição. talados espaços e lojas comerciais, jardins e
O texto de apresentação ainda acentua o papel de cerca de dezesseis salas de espetáculos de
redinamização da função portuária do Rio, teatro, música, cinema, literatura, dança e
mediante formação de uma zona polarizada artes plásticas.
internacional, baseada na implantação e desen- Complementado o complexo,
volvimento de um porto livre. Este porto livre seria construído na praia espaçoso estaciona-
será destinado a 12 países sul-americanos e 30 mento subterrâneo com capacidade de cerca de
países extracontinentais. 8 mil carros, um alívio na neurotizante busca de
No âmbito do estado do Rio de Janeiro, além da vagas para veículos em dias de sol.

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Porto Canal – Recuperação ecológica das baías, Rio de Janeiro, RJ.
Lagocean, Canal Jardim de Alah – Ipanema e Leblon, Rio de Janeiro, RJ, 1984.

Depois seriam construídos o Lagocean II e o Aceita o convite do prefeito de Nova Iguaçu,


Lagocean III nas praias da Barra da Tijuca, Paulo Leone (PDT) e assume em 24 de maio
seguindo o mesmo modelo e acrescentando a de 1984 a Secretaria de Planejamento e Coor-
vantagem de se ampliarem as linhas de ligação denação Geral do município, a época com 1,7
da cidade através do transporte marítimo. milhões de habitantes e o mais alto índice de
criminalidade do país.
Sergio prefeito Ele já vinha há dois anos preparando um plano
geral para a área e levou para o novo posto um
A visão cada vez mais abrangente dos desafios conjunto de propostas inovadoras. Ao anunciá-
de sua cidade e do próprio país o estimulou a lo em sua posse, causou grande impacto divi-
colocar a mão na massa. dindo as opiniões e criando, de imediato, defen-
sores e detratores. “O pessoal de esquerda diz tempo, maior usufruto da beleza em sua cidade.
que meu plano é fascista; e a direita o acusa Por vezes ele deixava-se trair pelo prazer irre-
de comunista”.5 freável de um jogo de palavras8 ou tiradas de
Seu objetivo era implantar o Plano Político Admi- efeito;9 para a época com menor rigor crítico
nistrativo Municipal – PPAM, resultado de pes- isso, certamente, funcionava.
quisas e dados coletados pelo satélite Landsat Mas na história da arquitetura e urbanismo do
entre 1972 e 1984, com ênfase na divisão do Brasil do século 20 não se tem notícia de um
território em “430 propriedades comunitárias. pensamento tão inquieto, inventivo, generoso e
Colocarei em prática um sistema de descen- produtivo, em busca de melhores condições de
tralização administrativa, baseado na participa- vida para seus semelhantes no espaço urbano.
ção da população”6 B
“Quero a comunidade gerenciando a própria
vida administrativa / financeira”. Sergio Bernar- 1  SB em Jornal do Brasil/Revista de Domingo, Rio de Janeiro,
des antecipava em alguns anos o orçamento 24 agosto 1997.
participativo adotado pelo PT em seus gover- 2  Em O Globo. Rio de Janeiro, 19 outubro 1970.
nos municipais. 3  Em entrevista ao Jornal de Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro,
A experiência na administração pública em 1º outubro 1979.
Nova Iguaçu, de curta duração, despertou seu 4  A revista Módulo lançou na ocasião uma edição especial que
desejo de transformar seu Rio de Janeiro, a se transformou no catálogo da exposição.
partir de sua presença no comando da máquina 5  SB em O Globo, Rio de Janeiro, 4 junho 1984.
político / administrativa. 6  SB na revista Veja, junho 1984.
No ano seguinte, 1985, apresenta-se como 7  Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 4 agosto 1985.
candidato a prefeito do Rio pelo Partido da 8  “tenta-se fazer a convivência do homem predador da Natureza
Mobilização Nacional (PMN) e anuncia o ponto com a Natureza predador do ser humano”. (Anéis de Equilíbrio,
fundamental de sua plataforma: a reorganiza- item 1, das Vantagens básicas, 1979).
ção do município em 450 conselhos comunitá- 9  “quem estiver no Grajaú e quiser ir a Copacabana andará
rios dotados de recursos próprios.7 15 minutos de carro e chegará ao local desejado, sem ter que
No final da década inicial do século 21, alguns passar por dentro de qualquer outro bairro”. (Sobre os anéis de
problemas crônicos e estruturais da cidade do equilíbrio. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 1º outubro 1979).
Rio de Janeiro – transporte público, despoluição
da lagoa Rodrigo de Freitas e da baía de Gua-
nabara, desfavelização, reaproveitamento da
área portuária – adquiriram prioridade na ação
político-administrativa dos governos municipal
e estadual. Trinta, quarenta anos antes, Sergio
Bernardes apontava sua gravidade e oferecia
caminhos, diretrizes e soluções.
Soluções grandiosas, generosas, impactantes,
sempre buscando garantir a seus habitantes
melhores condições de vida, maior economia de

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FILOSOFIA URBANA

Nos Estados de regime político-econômico crática ou democrática, e ainda nos regimes


autocrático, as nações, assumindo todo o mistos, a base do desenvolvimento é o indiví-
poder, devolvem a colheita da poupança dos duo com sua força de trabalho e seu tributo. A
indivíduos de maneira neutra e impessoal, contribuição individual é solicitada ou imposta
distribuindo-a pela média das necessidades de forma pessoal e direta: “Você precisa con-
coletivas. tribuir, o desenvolvimento depende de você”.
Nos Estados de regime econômico democrático, Mas a resposta do Estado, qualquer que seja
o desenvolvimento está condicio­nado às micro- sua forma, é geral, neutra, indefinida, desapa-
ditaduras econômicas representadas pelas recendo o indivíduo em nome da riqueza nacio-
grandes empresas nacionais, estrangeiras ou nal. A pessoa do contribuinte, tão enfatizada na
multinacionais, cujos intérpretes e agentes, hora da colheita, transforma-se em abstração
junto ao Governo, estão na classe política. Na estatística na hora da prestação de contas.
melhor das hipóteses, o Estado tem sob sua Há sempre uma permanente insatisfação dos
responsabilidade os empreendimentos de base cidadãos e, portanto, da sociedade, em relação
ou de segurança nacional. ao Estado, impossibilitando o atendimento das
Mas esse desenvolvimento é lastreado na necessidades individuais, que se avolumam
poupança dos cidadãos, recolhida através de rapidamente. A ânsia de progredir, de se liber-
impostos e convertida em obras que satisfa- tar economicamente é enorme, e o indivíduo vê
çam a média das aspirações coletivas. Tanto no Estado o empecilho fundamental às realiza-
na primeira como na segunda forma, auto- ções pessoais.

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O que, neste trabalho, se apresenta são as dire- tar ao homem a conquista dos instrumentos de
trizes básicas para uma nova organização social segurança e liberdade econômica.
das populações das cidades, possibilitando Aceitando, passivamente, a definição de “arte
que elas se autodesenvolvam pela melhoria do e técnica de organização e racionalização das
padrão econômico de cada um de seus habi- aglomerações humanas, tendo por finalidade
tantes; as diretrizes para a minimização admi- facilitar as relações e as funções, sob o ponto
nistrativa do Estado, solicitado apenas para a de vista social, econômico e político das popu-
implantação da macroinfraestrutura, cabendo lações das cidades”, o urbanismo tem se
às populações, organizadas em sociedades mostrado convencional, conservador, tímido e
anônimas, a administração e realização dos desarmado para enfrentar e resolver a questão
serviços de microestrutura urbana. Trata-se de que o mundo moderno coloca à sua frente:
uma oportunidade para que o político realize criar e replanejar cidades para um mundo novo.
mais, em menos tempo, para mais pessoas. E, O desastre urbano continuará sendo fatal
principalmente, a valorização direta e concreta enquanto o urbanismo se considerar e for visto
da capacidade de autorrealização do homem, como intérprete e consequência dos pontos de
que poderá ver a aplicação de sua poupança vista formulados pela Economia, pela Política,
revertida em seu benefício pessoal e, como pela Sociologia; enquanto não se sentir com
consequência, em benefício da coletividade. autoridade suficiente para questionar o conhe-
Eis a diretriz para o urbanismo – aquele que cimento contemporâneo e exigir daquelas e de
não é paternalista, mas que pretende possibili- outras ciências uma total revisão de valores,

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conceitos e atitudes. urbano – sobre o conceito de tempo, atuando
Exigir, principalmente, uma posição de maior no mesmo momento em velocidades diver-
humildade, humildade muito justificada pelo sas e ocasionando, com isso, a turbulência
fracasso na resolução a que se propuseram acionadora do permanente desentendimento
aquelas ciências de, pelo menos, equacionar entre componentes da sociedade em qualquer
os graves problemas que afligem o mundo de espaço físico que se localizem.
hoje, colocado à beira de catástrofes fatais. Assim, o espaço físico, preocupação primeira
É natural que o urbanismo, sujeito a se movi- do urbanismo convencional, passa a uma
mentar condicionado por uma visão estreita de importância de segundo grau. A tecnologia que
leis econômicas, políticas, sociológicas, gere ele necessariamente invoca é uma considera-
cidades que, como aquelas leis, envelheçam ção a ser enfocada só depois de traçadas as
precocemente. diversas diretrizes conceituadas que o urba-
Chamado a corrigir erros causados pelo cres- nismo requer para se libertar dos limites a ele
cimento desordenado dos grandes centros, o impostos por ainda não ter conquistado sua
urbanista tem comprometido sua posição ao autonomia teórica. Pode-se detectar, de ime-
aceitar a encomenda que lhe fazem de colocar diato, a existência de três tempos correndo em
remendos na paisagem – implantar tecido novo velocidades próprias.
num organismo em decomposição. O entendimento desses tempos pode fazer
A posição intelectualmente subalterna do com que cessem os atritos, e o processo do
urbanista faz com que, nas melhores das desenvolvimento flua em sua velocidade ideal.
in­tenções, passe a considerar o homem uma Chama-se Nominal ao tempo do indivíduo;
peça facilmente substituível do automóvel e Escalar, ao do Poder; e Vetorial, ao das nações.
risque projetos partindo do traçado de pistas O Tempo Escalar é político, administrativo, buro-
de alta velocidade; ou, cedendo à teoria de crático, estatal, conservador, cessa de correr
que o Homem nada mais é que um instru­ ao fim de cada expediente, tem prazo certo de
mento de consumo, faça seu projeto nascer e extinção, limita sua velocidade pela satisfação
partir do shopping-center. que tem a dar a cada atitude tomada, herme-
Vale ressaltar a incorreta orientação adminis- tiza-se na resolução de problemas, baseia cada
trativa do Poder como incluída no rol de entra- passo em conceitos preconcebidos e deles não
ves que detém qualquer atividade humana. sai. Já o Tempo Nominal pertence ao indivíduo,
Vê-se que é preciso uma reformulação global de à sociedade, à tecnologia, não interrompe seu
conceitos, princípios e métodos que regem as fluxo ao fim de cada expediente, joga com toda
ciências e o mundo de hoje. E nessa reformula- uma liberdade, sem futuro.
ção é da maior importância reposicionar o urba- E enquanto não ocorre o acordo entre ambos,
nismo e o urbanista. Antes, porém, cabe pro- não se pode estabelecer o Tempo Vetorial,
curar as razões mais profundas que – gerando que impulsiona as nações. O fenômeno ocorre
os desentendimentos – afetam as estruturas em qualquer país, desenvolvido ou não, sob o
sociais sobre as quais o urbanismo se assenta. ponto de vista político, cultural ou econômico,
Detenham-se esses primeiros raciocínios – desde que exista uma legislação pouco ágil
para uma possível teoria do conhecimento dificultando a agilidade e independência dos

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indivíduos. Deve-se deter agora na considera- As cidades podem ser feitas ou refeitas utili-
ção dos tempos em relação ao urbanismo, que zando-se a poupança individual aplicada, dire-
é a relação dos indivíduos e da sociedade com tamente, na organização das populações em
o Estado. É preciso surpreendê-los em suas sociedades anônimas que autopromovam o
velocidades díspares e fazer com que ambos desenvolvimento da co­munidade e a liberação
compreendam a natureza um do outro. A ótica econômica dos seus membros.
do Poder tem que ser mudada. O Estado precisa A aplicação desse sistema permite corrigir-se
passar a ser a sociedade como o somatório e a dicotomia apontada entre o tempo escalar
não a média estatística e fria dos indivíduos. da administração estatal e o tempo nominal
Disso, os próprios indivíduos têm de se conven- da sociedade, dos indivíduos. Isto quer dizer: o
cer. E também de que o Estado não dispõe dos perfeito equilíbrio entre a força e a velocidade
instrumentos para atender à veloz pletora de de ambos.
solicitações de toda a população. Tanto para É conveniente ratificar: o urbanismo conven-
o Estado quanto para os indivíduos, é preciso cional se tornou incapaz de resolver os proble-
ficar bem claro que o Estado – entenda-se, o mas que lhe foram apresentados porque se
Poder – deveria apenas traçar os parâmetros converteu em vítima despreparada do choque
e fornecer a macroestrutura sobre a qual a causado pela velocidade do seu tempo com
sociedade terá de erguer sua organização. O a do Estado e, mal refeito, procurou soluções
Estado, canalizando assim o poderoso e veloz paliativas e acomodatícias, sem nunca atingir
influxo realizador da sociedade para os proje- o vértice do problema. Isso, aliado à aceitação
tos de transformação urbana, e não represando de definições parciais de suas funções, resul-
seu potencial criativo, estará dando o passo tou em sua impotência atual.
decisivo. Menos solicitado, terá de atender às É preciso compreender que, sem redimensio-
macrodemandas essenciais formuladas pela nar o urbanismo e reposicionar o urbanista no
filosofia dos parâmetros políticos, econômicos, quadro das atividades do mundo moderno, não
realistas. De fazer mais por menos, em menor será possível, mesmo com a detectação dos
prazo, para mais gente. motivos que geraram sua quase falência, dar
O urbanismo é sempre resultado de macropla- nenhum passo. Pode, à primeira vista, parecer
nejamento, exigindo soluções a curto prazo. disparatado colocar o urbanismo no âmbito
Essa constatação torna óbvia a necessidade das ciências biológicas e considerar o urba-
de estabelecer o equilíbrio entre as forças e nista um profissional da Ecologia. No entanto,
velocidade dicotômicas, expressas, na fla- o objeto de seu estudo é o homem, suas rela-
grante disparidade entre a agilidade individual ções e integração no meio ambiente; ciência,
de realização e a agilidade estatal. Torna-se arte e técnica são meros instrumentos que o
óbvia a necessidade de criar o modelo que vai urbanista manipula para cumprir sua tarefa e
permitir às entidades promotoras do giro de não podem definir suas atividades. Se o objeto
capitais uma ação de retorno mais eficiente do urbanista é o Homem e a criação de seu
pela rapidez. Então será possível encontrar-se habitat, o urbanismo não pode ser condicionado
a forma de acumulação de capital permissora por mecanismos econômicos e políticos, mas
de viabilização dos projetos urbanos. deve ser a condicionante desses mecanismos.

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Pode-se facilmente concordar com essa tese À proporção que se deixava dominar pelo racio-
se atentarmos para a necessidade do mundo nalismo, a Natureza circundante passava a ser
moderno de encontrar uma solução imediata vista como um objeto do qual, psicologicamente,
para salvaguardar o homem da ameaça fatal o Homem se desligava. Tornou-se impossível,
que pesa sobre ele, causada pelo desequilíbrio para a maioria das pessoas, a percepção da
ecológico em todo o mundo. O gerador desse grande unidade e, mais remota ainda, a ideia
desequilíbrio são as cidades, com sua insa- de que, ao cortar uma árvore, comete-se uma
ciável sede de expansão e consumo. É nelas autodecepação. Esse isolacionismo cresceu
que o progresso acontece e é em nome do pro- a ponto de o Homem deixar de perceber seus
gresso que se violenta a Natureza, violentando liames com os semelhantes, os quais, como
o próprio Homem, ameaçando a sua própria objetos da Natureza, também passaram a ser
existência. De imediato se percebe a respon- vítimas de sua agressão.
sabilidade do urbanista. Essa responsabilidade Essas considerações soam muito alto e como
tem que ganhar autoridade e poder decisório, necessárias à compreensão de que o urba­nista
pois o que poderíamos chamar de “urbeco- tem à sua frente a mais digna das tarefas: res-
logia” passa a ser o estudo capaz de tornar tituir ao Homem a possibilidade de restaurar,
viável a vida em nosso planeta. Evidentemente, através do meio ambiente, criado para ele viver,
essa inversão posicional somente será válida a visão do mundo e da Natureza, da sociedade
enquanto, sob o aspecto jurídico, econômico, e de si mesmo, como um todo indivisível. A
financeiro, administrativo e político, o con- cidade é a mais complexa, requintada e inte-
texto global não for levado a uma reciclagem gral extensão do Homem. Por isso podemos
conceitual capaz de acionar a segurança das considerá-la como um ser vivo que nasce, se
populações, quando o urbanismo, então poderá desenvolve, consome suas próprias energias,
assumir o lugar correto, passando a ser uma até entrar em um processo de autorrejeição,
resultante, executando a arte-final no complexo quando o crescimento cessa. Assim, não só
de atividades que estabelecem as infraestrutu- o processo de nascimento e crescimento das
ras nacionais. cidades precisa ser previsto, mas também o
Mas, como continuar na posição de arte-fina- seu momento crítico.
lista de proposições político-econômicas que Como a Biologia procura dar condições para
se comprazem em jogo desligado da verdade que o tempo de vida humana não tenha sua
humana da sociedade? duração reduzida por fatores degenerescentes,
Desde que o Homem, condicionado pelo Poder, precisamos planejar as cidades desde o seu
começou a destruir a Natureza, na suposição momento de fecundação para que tenham uma
de que a sobrevivência dependia disso, a vida mais longa e saudável, atenuando ou, na
Natureza se viu forçada a se voltar contra ele, hipótese ideal, anulando a possibilidade de
na tentativa de destruir essa doença que rói autorrejeição.
suas entranhas. Para enfrentar a Natureza, a O homem e seus complementos tecnológicos
primeira medida foi criar extensões do corpo devem estar integrados ao meio am­biente de
humano capazes de tornar suas forças e seu tal maneira que jamais apareçam como indese-
raio de alcance mais fortes e poderosos. jáveis e intrusos destruidores, para que o meio

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ambiente, por ele mesmo criado, não se revolte,
não o combata, não o expurgue, não o destrua.
Um dado importante para a criação de cidades
sadias do modo mais permanente possível,
atravessando tranquilamente todas as fases
de seu crescimento, é lembrar que enquanto o
espaço urbano é sempre estático e limitável, o
tempo urbano é sempre vetorial. Um é passivo
e o outro se acumula sobre ele.
É da perfeita relação desse espaço-tempo,
nômino-escalar-vetorial, que pode nascer a
maior duração da cidade.
A limitação demográfica, dentro de espaços
específicos, é uma emergência. E tanto as lide-
ranças como o povo precisam ser conscientiza-
dos e informados das diretrizes para enfrentá-
la. A segurança e o controle urbanos foram
perdidos. O muro que cercava a cidade medie-
val – protegendo-a e limitando seu crescimento,
possibilitando um total controle administrativo
– precisa ser reerguido. Não mais um muro
de pedras, mas aquele que um novo conceito
urbano pode criar auxiliado pela tecnologia con-
temporânea que permite índices mais eleva-
dos de concentração, através da verticalização
construtiva, abrindo espaços para a dispersão
horizontal, desenvolvimento agroindustrial e
restauração das áreas verdes. O certo é que a
cidade não pode se expandir além do alcance
do braço administrativo, mesmo o ciberneti-
zado. Mas é preciso compreender a similitude
Homem-Cidade para que a tecnologia a ser
desenvolvida e aplicada se faça em termos da
mais alta humanização. A
Originalmente publicado no livro Cidade – A Sobrevivência do
Poder, Guavira Editores, 1975.

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A CIDADE É UMA AMEBA.
NÃO CRESCE, SE ESPALHA

A cidade é como uma ameba. Não tem forma das cidades?), para cada qual trabalhar, descan-
definida, nem especificidade funcional. Como sar, ter o lazer.
um ser sem destino, não cresce, espalha-se ao Não se pode aceitar, pois, a cidade como uma
sabor das influências ambientais. célula gigante, nem como um aglomerado de
Não vive, sobrevive. células. Há que se pensá-la constituída de uni-
Mas a cidade, resultado da necessidade do dades sim, mas composta de órgãos, todos
Homem de agregar-se, para distrair a sua solidão, básicos para a vida comum.
e de fixar-se, para melhor viver, não pode ser O desafio é buscar não o seu planejamento ou
uma célula hipertrofiada e sem razão. A exemplo sua ordenação através de planos urbanísticos,
do Homem que a formou, a cidade tem de ser mas, sim, definir um marco conceitual para sua
um organismo, isto é, tem de ser composta de organização, propor um novo modelo urbano
órgãos que funcionem de forma harmoniosa e que, aceitando o real, o modifique, tornando-o
interdependente. Tem de ter um objetivo defi- funcional e, por isso mesmo, mais bem ajustado
nido, qual seja o de assegurar a qualidade de às necessidades do Homem.
vida dos que a constituíram e a mantêm. Ao observar uma cidade, não importa qual
A cidade tem de ser fisiológica, isto é, funcionar seja, pois todas, de regra, se assemelham,
de acordo com processos que asseguram a sua pode-se perceber que a malha urbana, hiper-
vida e que são regulados de tal forma a manter- trofiada ao longo do tempo, acaba por perder
se em equilíbrio. sua organicidade.
Não pode ser imutável porque, se resulta da Abastecimento, circulação, serviços, comunica-
vida, transforma-se continuamente. Mas, como ções se tornam problemas de difícil abordagem
a vida, se renova, mantendo a sua integridade e e solução. As ruas somam tráfegos que acabam
harmonia funcional. obstruindo a circulação, como se produzissem
Não sendo organismo, mas uma célula distró- verdadeiras tromboses vasculares.
fica, a cidade sofre. Agoniza frequentemente. E O espalhamento urbano torna precária, senão
ao fazê-lo, torna infelizes os seus habitantes. inviável, a administração de serviços indispensá-
O repensar da cidade indica a necessidade de veis para assegurar a qualidade de vida humana.
se aceitar o seu objetivo de assegurar condições Os bairros, mal definidos, não constituem uni-
para cada qual ter aí uma vida produtiva e feliz. dades funcionais da cidade, mas réplicas delas
Para cada qual participar na vida da comunidade mesmas, como se fossem brotos endógenos
(afinal, não é este desejo de participar, de parti- de ameba.
lhar, de dar, que justificou a própria constituição Mas o Homem, ser cujo limite é o próprio planeta,

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não se adaptando especificamente a uma deter- cionais propostas. Tais unidades deverão ter
minada situação ou condição de vida, está adap- limites muito bem definidos através de instru-
tado a todas as situações e condições de vida do mentos jurídicos precisos, de modo a configurar
planeta. Por isso mesmo não se sente inadap- uma comunidade que se autoadministrará. Cada
tado à cidade-ameba. Sente-se incomodado, unidade deverá organizar seus serviços, sua
mas sobrevive com a ameba. Não é feliz, mas vida comum. À administração municipal central
luta por sua felicidade. Ao usar sua criatividade, da cidade competirá oferecer as pontas de ser-
estabeleceu extensões, como o automóvel, o viços. Como se fora um organismo, aí estarão
telefone, o rádio, a televisão, procurando assim as terminações das artérias, veias, linfáticos,
melhorar a sua produtividade, a sua compreen- neurônios, ou seja, acesso viário, energia, água,
são do meio que o cerca, a sua qualidade de dutos de informação etc.
vida. Ao mesmo tempo, alargou a dimensão do Mas não basta criar um sistema viário e de
seu espaço, do seu intercâmbio com o mundo e serviços na cidade. Há que se caracterizar as
seus habitantes. comunidades – como uma mórula, ou seja,
Com a compreensão plena dessa situação, há conjunto de células embrionárias com carac-
que se propor um novo marco estrutural para a terísticas comuns – para dominar a ameba. A
cidade, constituída agora por comunidades que ameba, que se expande livremente no ambiente,
se organizarão de acordo com os desígnios de é bloqueada quando penetra em um tecido
seus habitantes. Como partes de um mesmo animal qualquer e, para sobreviver, encista-se. A
organismo, terão diferentes destinações que comunidade fará a ameba se encistar, tornando-
se complementarão de modo natural, uma vez a inofensiva. A caracterização de instrumentos
que cada habitante existirá na decorrência de que definam seus limites evitará que a ameba
seu relacionamento com o mercado de trabalho. possa novamente movimentar-se.
Mas para que façam parte desse todo, há que Cada comunidade ou mórula organizará a sua
se prever mecanismos de comunicação, de cir- vida e administrará seus serviços de acordo
culação, de coordenação, de abastecimento. Há com os desejos de seus habitantes e com o
que se prever, portanto, vias de comunicação ajustamento de suas atividades ao seu poten-
geral e vias de acesso a um conjunto de comu- cial produtivo. Desenvolver-se-ão novas lideran-
nidades. A cada comunidade ofertar-se-ão no ças, criar-se-ão novos modelos de vida menos
seu epicentro os serviços necessários ao seu dependentes de um poder central; dar-se-á opor-
funcionamento, cabendo a cada uma organizar tunidade à criatividade humana e conciliar-se-á o
a sua utilização. desejo de o Homem ser livre.
Para isso, é preciso inserir na ameba gigante e A administração central, por sua vez, liberta da
disforme o sistema arterial que assegurará a dis- responsabilidade de responder a tudo e a todos,
tribuição harmoniosa dos nutrientes requeridos, deixando de ser perseguida pelas pressões do
o sistema nervoso que se responsabilizará pela ter de fazer, poderá, então, oferecer o mais racio-
coordenação funcional. O sistema venoso que nal, a tecnologia melhor e mais apropriada. A
garantirá a eliminação de excretas – o sistema Original datilografado, 1979.
nervoso que se responsabilizará pela coorde-
nação funcional, constituindo as unidades fun-

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