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Módulo I – Mecânica da Fratura – Prof.

Bárbara Ferreira de Oliveira

MÓDULO I – MECÂNICA DA FRATURA

1. Mecânica da Fratura ................................................................................... 1


1.1 Griffith – Equação de Griffith ................................................................. 2
1.2 Orowan-Irwin – Modificação da Equação de Griffith ................................. 6
1.3 Fatores de Intensidade de Tensão ........................................................... 8
1.4 Três Modos De Carregamento ............................................................... 12
1.5 Validade da Mecânica da Fratura Linear Elástica ............................... 13
1.5.1 Determinação do tamanho da zona plástica .................................... 13
1.6 Fatores que Influenciam a Tenacidade à Fratura dos Metais ................. 15
1.6.1 Temperatura ..................................................................................... 15
1.6.2 Taxa de Carregamento .................................................................... 16
1.6.3 Propriedades dos Materiais .............................................................. 17
1.7 Exercícios ............................................................................................ 18

1. Mecânica da Fratura

Em geral, componentes mecânicos e estruturas apresentam


descontinuidades, trincas e outros defeitos que podem causar faturas
catastróficas devido à alta concentração de tensões. Desta forma, ainda que as
trincas em materiais de alta resistência mecânica sejam muito pequenas, as
estruturas podem fraturar em tensões abaixo das tensões mais elevadas para
as quais as estruturas foram projetadas.

O campo de mecânica da fratura tem como base os trabalhos de Griffith


e Irwin. É utilizado para tratar problemas de fratura envolvendo trincas de
maneira quantitativa. Este campo é dividido em duas partes: Mecânica da
Fratura Linear Elástica (MFLE) e Mecânica da Fratura Elasto-plástica (MFEP).
Ao longo deste módulo serão abordados os fundamentos da mecânica da fratura
e quais condições devem ser atendidas para que a MFLE seja válida.

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Este material não possui fins lucrativos e tem como base diversas obras já existentes.
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1.1 Griffith – Equação de Griffith

Griffith estudou o comportamento do vidro de sílica, um material muito


frágil. A temperatura ambiente, a curva tensão-deformação para este tipo de
vidro é linear até a fratura. A resistência teórica deste vidro é de cerca E/10, mas
na presença de pequenas trincas, a tensão de fratura é muito inferior à esta
resistência teórica (Teoria de Frenkel) do vidro. A análise de Griffth conseguiu
explicar por que isso acontecia e também forneceu a base para o campo da
mecânica da fratura.

A análise de Griffith é baseada na primeira lei da termodinâmica: num


sistema fechado, a energia é conservada. Dois tipos de energia são
considerados: 1) a energia de deformação e 2) a energia superficial. Considere
duas placas finas submetidas a uma tensão σ, conforme mostra a Figura 1.

Figura 1 – Placas trincada e não trincada submetidas à carga de tração.

A primeira placa possui uma trinca, que possui um comprimento muito


pequeno em relação a espessura da placa e a segunda não tem. Se cada uma
dessas placas é carregada a uma tensão, acontecerá uma pequena diferença
no gráfico carga versus alongamento, conforme mostra a Figura 2. A diferença
mostrada na figura 2 foi exagerada para maior clareza. A energia da deformação
elástica armazenada em cada amostra a um dado alongamento é dada pela
curva correspondente e é igual a ½ PΔ, em que P para a placa trincada é menor
que para a placa sem trinca. Griffith usou esta diferença de energia armazenada
em cada caso para desenvolver a teoria da fratura frágil. Ele argumentou que,
ao passar do estado não trincado para o estado trincado, não existe somente
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diminuição da energia elástica, mas também um aumento da energia superficial


devido à criação de novas trincas superficiais. Ele calculou que, se uma trinca
de comprimento 2𝑎 for criada num corpo sem trincas, a diminuição total de
energia elástica armazenada (por unidade de espessura) será dada pela
seguinte equação:

𝜋𝑎2 𝜎 2
∆𝑊𝑒 = −
𝐸

Onde:

 𝑎 é a metade do comprimento de uma trinca interna;


 𝐸 é o módulo de Young

Sem
Trinca

Trincada

Figura 2 – Carga versus alongamento para placas com trinca e sem trinca.

No entanto, também existe um aumento na energia do sistema devido à


criação de novas áreas superficiais de energia γs por unidade de área. Desta
forma, o aumento total de energia superficial é dado por:

∆𝑊𝑠 = 4𝑎γ𝑠

Onde:

 γ𝑠 é a energia superficial por unidade de área, uma constante do


material.
 O número 4 aparece uma vez que a o comprimento da trinca é 2 e a
trinca possui uma superfície superior e inferior.

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O próximo passo da análise de Griffith verifica em quais condições a trinca


se propaga. Griffith considerou que a propagação poderia ocorrer quando a taxa
da energia de deformação liberada fosse igual a taxa na qual a energia seria
absorvida através da criação da trinca adicional na superfície. Esta condição
pode ser expressa da seguinte forma:

𝜋𝑎2 𝜎 2
∆𝑊 = − + 4𝑎γ𝑠
𝐸

𝑑 𝜋𝑎2 𝜎 2
(− + 4𝑎γ𝑠 ) = 0
𝑑𝑎 𝐸

2𝜋𝑎𝜎𝑐2
(− + 4γ𝑠 ) = 0
𝐸

Logo,

2𝐸γ𝑠
𝜎𝑐 = √
𝜋𝑎

Onde:

 𝜎𝑐 é a tensão crítica necessária para propagar uma trinca frágil.

Note que, para tensões menores que a tensão crítica, a trinca não irá se
propagar, pois a energia que seria liberada pela trinca virtual seria menor do que
a necessária para formar uma nova superfície. A trinca que não se propaga é
chamada de estável a menos que haja um aumento da tensão, caso contrário a
trinca é chamada de instável.

Griffith ensaiou um vidro frágil e o resultado estava de acordo com as


previsões da equação de 𝜎𝑐 , a qual também pode ser escrita da seguinte forma:

𝜎𝑐 √𝜋𝑎 = √2𝐸γ𝑠

As quantidades extrinsícas estão do lado esquerdo e as propriedades


intrínsecas estão do lado direito da equação, isto é, E e γ𝑠 . Já 𝜎𝑐 √𝜋𝑎 é uma
combinação comum de termos encontrados na mecânica da fratura e é
designada por Kc. K em geral é conhecida como o fator de intensidade de tensão,

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e depende do componente de geometria, o nível de tensão e do comprimento da


trinca. Para a geometria de Griffith,

𝐾 = 𝜎√𝜋𝑎

O índice c da tensão é usado para indicar que o valor de K para um nível


crítico para a fratura, ou seja:

𝐾𝑐 = √2𝐸γ𝑠

Onde Kc é corresponde a tenacidade à fratura, uma propriedade intrínseca


do material.

No intervalo linear-elástico, a tensão de tração à frente da trinca é


governada pelo fator intensidade de tensão e pode ser expressa pela seguinte
equação:

𝐾
𝜎𝑦 =
√2𝜋𝑟

Onde 𝑟 é a distância medida a partir da ponta da trinca.

A seguir será mostrado outro método para chegar-se a equação de


Griffith.

Considere uma amostra plana submetida a uma tensão de tração σ. A


placa, conforme mostra a Figura 3, contém uma trinca interna de comprimento
2𝑎, perpendicular à direção da carga. O aumento da energia superficial por
unidade de espessura envolvido no avanço da trinca por uma quantidade 𝑑𝑎 é
igual a 4𝑎γ𝑠 .

A variação correspondente de energia elástica é igual a:

𝑑 𝑑 𝜋(𝑎 + 𝑑𝑎)2 𝜎 2 𝜋(𝑎)2 𝜎 2


(∆𝑊𝐸 ) = − ( − )
𝑑𝑎 𝑑𝑎 𝐸 𝐸

𝑑 2𝜋(𝑎𝑑𝑎) 𝜎 2
(∆𝑊𝐸 ) = − ( )
𝑑𝑎 𝐸

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A trinca irá avançar quando a energia requerida para formar um novo


elemento de superfície, 4𝑑𝑎γ𝑠 , for fornecida pelo aumento da energia de
deformação, isto é, quando

2𝜋(𝑎𝑑𝑎)2 𝜎 2
4𝑑𝑎γ𝑠 = − ( )
𝐸

Logo,

2𝐸γ𝑠
𝜎𝑐 = √
𝜋𝑎

Variação de
energia

Aumento do
comprimento da
trinca

Figura 3 - Vista alternativa variação da energia.

1.2 Orowan-Irwin – Modificação da Equação de Griffith

Orowan e Irwin verificaram que os valores experimentais para γ𝑠 de um


aço possuía uma ordem de magnitude maior que a esperada. Isto ocorreu pois
durante a fratura nominalmente frágil do aço, ocorreu deformação plástica,
ultrapassando o valor da energia superficial. A fim de preservar o formalismo
linear-elástico de Griffith, √2𝐸γ𝑠 foi reestricto como √2𝐸γ𝑝 , onde γ𝑝 é o trabalho
plástico feito por unidade de área durante a fratura.

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Antes tínhamos que:

2𝜋𝑎𝜎𝑐2
(− + 4γ𝑠 ) = 0
𝐸

Agora temos que:

2𝜋𝑎𝜎𝑐2
= 2γ𝑝 = 𝐺𝑐
𝐸

Onde 𝐺𝑐 é taxa crítica de energia de deformação na ponta da trinca.


Tratando-se de fratura de polímeros, 𝐺𝑐 em vez de Kc é considerado a tenacidade
à fratura. De um modo geral, G também pode ser expressa da seguinte forma:

∆𝑊 − ∆𝑈
𝐺=
𝐵𝑑𝑎

Onde W é o trabalho externo, U é a energia interna (deformação) e B é a


espessura. Para condições de alongamento fixos, W = 0, então G pode ser
escrito como:

𝑑𝑈
𝐺= −
𝐵𝑑𝑎

No estado plano de tensões, Kc e Gc são relacionados:

𝐾𝑐 = √𝐸𝐺𝑐

𝐾𝑐2
𝐺𝑐 =
𝐸

Os fatores de intensidade de tensão para o estado plano de tensão e para


o estado plano de deformação são os mesmos e são independentes da razão do
coeficiente de Poisson. No entanto, KIC, o valor da tenacidade à fratura para o
Modo 1 de carregamento (Figura 9), depende do coeficiente de Poisson e é dado
pela seguinte equação:

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𝐸𝐺𝐼𝑐
𝐾𝐼𝑐 = √
(1 − 𝜈 2 )

Isso ocorre porque o módulo de Young efetivo no estado plano de tensão


𝐸
é igual a (1−𝜈2 ).

1.3 Fatores de Intensidade de Tensão

Até agora, o único tipo de geometria da amostra tratado foi de uma placa
ampla contendo uma pequena trinca. Quando o comprimento da trinca é
apreciável no que se diz respeito para a largura, é necessário introduzir um
parâmetro Y ou função adimensional, que depende tanto do tamanho quanto da
geometria da trinca e da amostra, assim como do modo de aplicação da carga
(Figura 9). A Figura 4 mostra um gráfico do fator de correção para uma placa
com uma trinca no centro. Para este caso, o fator intensidade de tensão pode
ser expresso como:

𝜋𝑎
𝐾 = 𝜎√𝜋𝑎. √𝑠𝑒𝑐
𝑊

A Figura 5 mostra uma trinca semicircular superficial, um tipo importante


de falhas quando liga-se com vasos de pressão. O fator intensidade de tensão
para esta falha varia de acordo com a sua posição ao longo da falha. O fator de
intensidade de tensão na curva, onde a falha encontra a superfície, é dado por:

2
𝐾 = 1,12 ( ) √𝜋𝑎
𝜋

No ponto máximo de profundidade da trinca, o fator intensidade de tensão


é um pouco menor, isto é:

2
𝐾 = ( ) √𝜋𝑎
𝜋

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Figura 4 – Parâmetro Y de correção para um fator de intensidade de tensão de


uma trinca no centro de uma placa.

Figura 5 - Uma trinca semicircular na superfície de uma placa infinita, um


importante tipo de falha quando se liga com vasos de pressão.

Se a superfície da trinca tem forma semielíptica em vez de circular, o fator


intensidade de tensão na superfície é de:

1,12 𝑎
𝐾= (√𝜋𝑎)√
𝐼2 𝑐

Onde 𝑎 é a profundidade máxima da trinca e 𝑐 é a metade do comprimento


da trinca ao longo da superfície, o fator intensidade de tensão na parte mais
profunda pode ser dado como:

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1,12
𝐾= 𝜎√𝜋𝑎
𝐼2

Nas duas equações I2 é a integral elíptica de segunda espécie (constante)


e é dependente da proporção de 𝑎/𝑐. Na Tabela 1 são mostrados valores de I2
de acordo com a/c.

Tabela 1 - Valores de I2.

a/c 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0
I2 1,000 1,016 1,1051 1,097 1,151 1,211 1,277 1,345 1,418 1,493 π/2

Para uma placa larga contendo uma pequena trinca superficial na borda
(Figura 6), o fator intensidade de tensão é:

𝐾 = 1,12𝜎√𝜋𝑎

Figura 6 -

O fator de intensidade de tensão para um corpo de prova de flexão de 3


pontos com a distância S entre os apoios é dado pela ASTM E 399:

𝑃𝑆 𝑎
𝐾= 3𝑓 ( )
𝑊
𝐵𝑊 2

Onde P é a carga aplicada e f(a/W) é dada como:

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𝑎 1/2 𝑎 𝑎 3,93𝑎 𝑎 2
𝑎 3 (𝑊 ) {1,99 − (𝑊 ) (1 − 𝑊 ) [2,15 − 𝑊 + 2,7 (𝑊 ) ]}
𝑓( ) = 3
𝑊 𝑎 𝑎 2
2[1 + 2(𝑊 ] (1 − 𝑊 )

Figura 7 - Dimensões do corpo de prova de flexão de 3 pontos.

O fator intensidade de tensão para um corpo de prova do tipo “Compact


Tension”, mostrado na Figura 8, é dado pela ASTM E 399 como:

𝑃𝑆 𝑎
𝐾= 1 𝑓 ( )
𝑊
𝐵𝑊 2

Onde P é a carga aplicada e f(q/W) é dada por:

𝑎 𝑎 𝑎 2 𝑎 3 𝑎 4
𝑎 (2 + 𝑊 ) [0,886 + 4,64 (𝑊 ) − 13,32 (𝑊 ) + 14,72 (𝑊 ) − 5,6 (𝑊 ) ]
𝑓( ) = 3
𝑊 𝑎 2
(1 − 𝑊 )

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Figura 8 - Corpo de prova do tipo "Compact Tension".

Outras informações sobre fatores de intensidade de tensão para uma


variedade de geometrias e condições de carga podem ser encontradas na
seguinte literatura:

 H. Tada, P. C. Paris, and G. R. Irwin, The Stress Analysis of Cracks


Handbook, 2nd ed.,Paris Productions, Inc., St. Louis, 1985.
 G. C. Sih, Handbook of Stress Intensity Factors, Institute of Fracture and
Solid Mechanics, Lehigh University, Bethlehem, PA, 1973.
 D. P. Rooke and D. J. Cartwright, Stress Intensity Factors, HMSO, London,
1976.
 Stress Intensity Factors Handbook, ed. by Y. Murakami, S. Aoki, N.
Hasebe, Y. Itoh, H. Miyata, H. Terada, K. Tohgo, M. Toya, and R. Yuuki, Society
of Materials Science, Kyoto, Japan, 1987.

1.4 Três Modos De Carregamento

Um componente contendo uma trinca pode ser carregado em três modos.


Estes modos são ilustrados na Figura 9. O modo I é o modo de abertura sob
tração e o fator intensidade de tensão é chamado de K I. O modo II é o
deslizamento no plano e o fator intensidade de tensão é designado como K II. O
modo III é o modo de ruptura fora do plano, por vezes chamado de modo de
rasgamento e o fator intensidade de tensão é chamado de K III.

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Modo Modo II Modo


I III
Figura 9 – Os três modos de carregamento. Modo I – Modo de abertura, Modo II
– Modo de cisalhamento, III – Modo de rasgamento.

1.5 Validade da Mecânica da Fratura Linear Elástica

1.5.1 Determinação do tamanho da zona plástica

Irwin mostrou que a mecânica da fratura linear elástica, que foi iniciada
por Griffith, pode ser utilizada mesmo na presença de deformação plástica. No
entanto, devem ser impostos limites para o uso da MFLE dependendo do grau
de deformação plástica. Caso contrário, a abordagem de uma falha pela MFLE
pode não ser válida. Exige-se que o tamanho da zona plástica que se desenvolve
num metal na ponta da trinca deve ser pequeno em relação ao comprimento da
trinca. A primeira estimativa do tamanho da zona plástica num plano de tensão
na ponta da trinca pode ser obtida pelo rearranjo da seguinte equação:

𝐾
𝜎𝑦 =
√2𝜋𝑟

𝐾²
𝑟=
2𝜋𝜎𝑦2

Então, considerando que 𝜎𝑦 é igual a 𝜎𝑌 (tensão de escoamento), o


tamanho da zona plástica 𝑟𝑧𝑝 , é:

𝐾²
𝑟𝑧𝑝 =
2𝜋𝜎𝑌2

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Numa análise detalhada, Dugdale derivou a expressão para uma trinca no


centro de uma placa sobre tensão, encontrando:

𝜋 𝜎
𝑟𝑧𝑝 = 𝑎 [sec ( ) − 1]
2 𝜎𝑌

Quando a tensão aplicada for muito menor que a tensão de escoamento,


teremos que:

𝜋2 𝐾2
𝑟𝑧𝑝 = ( )
4 2𝜋𝜎𝑌2

A ASTM E 399 diz que o comprimento da trinca deve ser 16 vezes maior
do que 𝑟𝑧𝑝 para atender as condições de análise pela MFLE. Caso contrário, a
mecânica da fratura elasto-plástica deverá ser usada na análise. Sendo assim,
considerando uma trinca interna, as condições da MFLE são atendidas quando:

16 (2𝑎) > 𝑟𝑧𝑝

De acordo com Irwin, para manter uma estrutura própria para análise
linear elástica, o comprimento da trinca deve ser pequeno em relação ao
tamanho da zona plástica. Desta forma, o comprimento da trinca deve ser
aumentado em metade do tamanho da zona plástica. Se o valor estimado de
Dugdale for utilizado para calcular o tamanho da zona plástica, o comprimento
efetivo da trinca (𝑎𝑒𝑓 ), de acordo com a proposta de Irwin, deverá ser igual a:

𝟏 𝛑 𝛔 𝑎 𝜋 𝜎
𝑎𝑒𝑓 = 𝑎 + 𝟐 𝐚 [𝐬𝐞𝐜 (𝟐 ) − 𝟏] = [sec ( 2 ) + 1]
𝛔𝐘 2 𝜎𝑌

Desta forma, para situações em que a zona plástica é grande em relação


ao comprimento da trinca, o fator intensidade de tensão pode ser expresso como:

𝐾 = 𝑌𝜎 √𝜋𝑎𝑒𝑓

Onde 𝑌 é determinado pela geometria particular sob consideração.

A equação pode ser reescrita como:

𝑎 𝜋 𝜎
𝐾 = 𝑌𝜎√𝜋 [sec ( ) + 1]
2 2 𝜎𝑌

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1.6 Efeito da espessura na tenacidade à fratura

A tenacidade à fratura de um material é geralmente determinada


utilizando uma pré-trinca de fadiga (Figura 8), designada pela norma ASTM E
399. Um importante fator que afeta a magnitude da resistência à fratura, é a
espessura do corpo de prova.

A Figura 10 mostra uma variação típica da tenacidade à fratura de um aço


em função da sua espessura. Para espessuras 16 vezes maiores que o tamanho
𝐾2 𝐾2
da zona plástica no estado plano de tensão, isto é 16 (2𝜋𝜎2 ) = 2,5 (𝜎2 ), a
𝑌 𝑌

amostra está em condição de estado plano de deformação e a tenacidade a


fratura é uma constante independente da espessura, mas possui um valor
mínimo.
Tenacidade a Fratura

Estado plano
de tensão
(Kc)

Estado plano de
deformação

Espessura, B

Figura 10 – Tenacidade à fratura em função da espessura.

1.6 Fatores que Influenciam a Tenacidade à Fratura dos Metais

1.6.1 Temperatura

O efeito da temperatura na tenacidade à fratura é maior nos aços


estruturais de baixa resistência mecânica. Ligas não-ferrosas e aços de
resistência muito elevada apresentam, normalmente, pequenas variações de KIC
com a temperatura. Na Figura 11 é mostrada a influência da temperatura em KIC
e 𝜎𝑌 de um aço A 533 B Classe I (0,23% de C, 1,35% de Mn, 0,5% de Ni, 0,5%
de Mo).

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Tenacidade à fratura - ksi (pol1/2)

Tensão de escoamento (ksi)


Tenacidade à
Fratura

Tensão de
escoamento

Figura 11 – Variação de KIC e 𝜎𝑌 com a temperatura para um aço A 533 B


classe I.
1.6.2 Taxa de Carregamento

Variações moderadas de velocidade de deformação provocam efeitos


muito pouco pronunciados em KIC para uma aço semi-acalmado.

Um aumento da velocidade de carregamento de uma ordem de magnitude


provoca diminuição de ~10% em KIC. Uma possível causa para isso é que os
materiais mais suscetíveis à influência da velocidade de carregamento, como
aços estruturais de baixo-carbono, normalmente não são testados para a
determinação de KIC.

Quando a velocidade de carregamento é muito elevada, pode acontecer


que a deformação ocorra tão rapidamente que não há tempo para dissipação de
calor gerado pela deformação. Nesse caso, a temperatura pode subir
substancialmente na ponta da trinca. Assim, nesta condição adiabática, a
tenacidade pode aumentar bastante.

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Se um corpo de prova para a determinação da tenacidade à fratura em


deformação plana for carregado rapidamente, isto é, com taxas de carregamento
na faixa do carregamento por impacto, a tenacidade normalmente é diferente
daquela quando o corpo de prova é carregado lentamente.

1.6.3 Propriedades dos Materiais

Uma propriedade que afeta a tenacidade dos materiais de forma


pronunciada é a resistência mecânica dos mesmos.

Tratamento térmico e mecânicos causam variação da resistência de ligas.


A tenacidade à fratura geralmente é inversamente proporcional a sua resistência
à tração ou a tensão de escoamento. A situação mais desejável é a de elevadas
resistências mecânicas e tenacidade à fratura.

Entre os vários produtos de transformação dos aços, a martensita


revenida exibe alta tenacidade, seguida pela bainita e de microestrutura ferrita-
perlítica. Um exemplo típico é da variação de KIC com a tensão de escoamento
para aços é mostrado na Figura 12.

Figura 12 – Variação da tenacidade à fratura com o limite de escoamento para


vários aços de alta resistência.

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1.7 Exercícios
1) Um compósito de matriz cerâmica contém trincas internas de 0,001
centímetros de comprimento. Sua tenacidade à fratura em deformação plana é
45 MPa √m e seu limite de resistência é 550 MPa. Mostre se esta trinca é capaz
de causar uma falha antes que seja alcançado o limite de resistência do material.

2) Uma placa de aço possui tensão de escoamento de 1000 MPa. Como a placa
rompeu-se quando foi tracionada a 800 MPa, supuseram a existência de uma
trinca superficial. Se a tenacidade a fratura para este aço é de 60 MPa √m, qual
seria o valor aproximado da trinca?

3) De acordo com a norma ASTM E399, Standard Test Method for Plane-Strain
Fracture Toughness of Metallic Materials, o fator intensidade de tensão, 𝐾𝐼 , para
o corpo de prova altamente usado (compact speciment), com entalhe de
profundidade 0,2 W é igual a:

𝑃𝑆 𝑎
𝐾𝐼 = 1𝑓 ( )
𝑊
𝐵𝑊 2
𝑎
Onde 𝑓 (𝑊) é dada como:

𝑎 𝑎 𝑎 2 𝑎 3 𝑎 4
𝑎 (2 + 𝑊 ) [0,886 + 4,64 (𝑊 ) − 13,32 (𝑊 ) + 14,72 (𝑊 ) − 5,6 (𝑊 ) ]
𝑓( ) = 3
𝑊 𝑎 2
(1 − 𝑊 )

𝐾𝐼
Plote um gráfico 𝑃 para valores de a/W entre 0,25 e 0,75.
1
𝐵𝑊2

4) 𝐾𝐼 para uma placa com uma trinca no centro é dada por:

𝜋𝑎
𝐾𝐼 = 𝜎√𝜋𝑎. √𝑠𝑒𝑐
𝑊

Para o mesmo valor de B, compare as cargas necessárias para obter o mesmo


valor de 𝐾𝐼 para o “compact specimen” (W = 50 mm, a/W = 0,5) e uma trinca no
centro da placa (W= 200 mm, a/W = 0,25).

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5) Determine o diagrama de resistência residual (Tensão crítica versus a/W) para


uma placa de liga de alumínio cuja tensão de escoamento é de 350 MPa, 𝐾𝐼𝐶 é
50 MPa √𝑚, W= 0,254 m para valores entre 0,25 e 0,75.

6) O fator intensidade de tensão para uma trinca semicircular de 𝑎 = 0,01 m para


um suposto vaso de pressão cilíndrico é dado por 0,71 𝜎√𝜋𝑎. A pressão interna
é igual a 15 MPa. O volume total do vaso de pressão é de 1000 m³. Três aços
estão disponíveis e suas características são dadas na Tabela 3. O peso
estrutural e a segurança devem ser as considerações primárias. A tensão
máxima deve ser ½ da tensão de escoamento e o fator de segurança deve ser
maior que 1,1. Qual dos aços deveria ser escolhido?

Tabela 3

Aço Espessura (m) 𝜎𝑌𝑆 , MPa KIC, MPa (m)1/2


A 0,08 965 280

B 0,06 1310 66

C 0,04 1700 40

7) Uma trinca fina de diâmetro de 2,5 cm encontra-se incorporada num sólido.


A fratura catastrófica ocorre quando a tensão de 700 MPa é aplicada.

a) Qual é a tenacidade a fratura deste material?


2
𝐾𝐼𝐶 = 𝜎 √𝜋𝑎
𝜋 𝑐

b) Uma chapa deste material é preparada para medição da tenacidade à fratura


com 𝑤 = 30 cm, uma trinca central de 2𝑎 = 7,5 cm e 𝐵 = 0,75 cm. Esta geometria
seria válida para calcular a tenacida de à fratura?

c) Qual seria a espessura suficiente para determinar 𝐾𝐼𝐶 ?

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