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Rogério Rauber

Quem sou eu terça-feira, 8 de janeiro de 2013 Seguidores

Campo expandido: arte em mestiçagem?


Este artigo aborda a complexidade na arte sob as perspectivas da crítica de
processos em Cecilia Salles (2006, 2010), da mestiçagem em Laplantine &
Rogério
Nouss (2002) e Amálio Pinheiro (2007), junto ao conceito de campo expandido
Artista visual, de Rosalind Krauss (1984). Focalizaremos a complexidade da criação artística
pesquisador das
configurações como sistemas abertos, processos que utilizam movimentos tradutórios
pictóricas no campo intersemióticos e, deste modo, interdisciplinares, interlinguísticos, em redes da
expandido. Individual Arquivo do blog
mais recente: Galeria criação e de alteridade.
Arte&Fato, Porto ▼ 2013 (2)
Alegre, em 2012. ► Outubro (1)
Doutorando no Uma questão reincidente na arte contemporânea é aquela conceituada como
▼ Janeiro (1)
Programa de Pós- campo expandido[1], um dos lugares onde se evidencia a complexidade do fazer Campo
Graduação em Artes
expandido:
do Instituto de Artes artístico. A problematização deste campo é aqui feita consonante à noção de
arte em
da UNESP. Mestre em mestiçagem?
unidade complexa, um todo que não é redutível à soma de suas partes
Artes Visuais pelo
Instituto de Artes da constitutivas (MORIN, 2005) organizado múltipla e não linearmente, sob a ótica
► 2012 (5)
UNESP. Graduado em
de redes processuais da criação (SALLES, 2006).
Arquitetura e ► 2011 (10)
Urbanismo pela ► 2009 (1)
Universidade do Vale
Experiências recentes tensionam as fronteiras artísticas, tanto em suas
do Rio dos Sinos
(1988). Recebeu o múltiplas linguagens quanto em seus processos de criação em redes. Seria o
prêmio Novíssimos
espaço pictórico um campo cognitivo ainda fértil? Pergunta pertinente, já que a
IBEU 2005, no Rio de
Janeiro. Pesquisador ideia de esgotamento da pintura foi precedida, durante toda a primeira metade
do grupo de pesquisa
do século XX de várias “últimas pinturas”. Seguiram-se contínuos anúncios de
GIIP. Vive e trabalha
em São Paulo. óbito. E, a partir dos anos 1980, afirmações de renascimento. Pois foi nesta
Visualizar meu perfil linguagem, a pintura, que se fizeram sentir mais fortemente os fluxos e refluxos
completo
da “morte da arte”, prognosticada por Hegel:

Quando damos à arte esta posição elevada, é necessário, entretanto, lembrar que a

arte não seria, nem segundo o conteúdo, nem segundo a forma, o modo mais elevado

e absoluto de trazer ao espírito a consciência de seus verdadeiros interesses. Pois,

exatamente devido a sua forma, a arte também está limitada a um conteúdo

determinado. Apenas um certo círculo e nível da verdade é capaz de ser exposto no

elemento da obra de arte. Contudo, para ser autêntico conteúdo da arte, há de

pertencer à determinação própria desta verdade transitar em direção ao sensível e

poder nele ser adequada a si, como é o caso, por exemplo, dos deuses gregos. Em

contrapartida, há uma versão mais profunda da verdade, na qual ela não é mais tão

aparentada e simpática ao sensível para poder ser recebida e expressa

adequadamente por meio deste material. A concepção cristã de verdade é desse tipo,

e, sobretudo, o espírito do mundo atual, ou melhor, o espírito de nossa religião e de

nossa formação racional se mostra como tendo ultrapassado o estágio no qual a arte

constitui o modo mais elevado de o absoluto se tornar consciente. A maneira peculiar

da produção artística e de suas obras já não satisfaz nossa mais elevada

necessidade. Nós nos elevamos sobre o nível de poder venerar e adorar obras de arte

divinamente. (HEGEL apud trad. GONÇALVES, 2004, p. 49).

As reflexões hegelianas sobre a morte da arte reverberaram em teses similares


de outros pensadores: Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Walter Benjamin, Theodor
Adorno e, recentemente, naquelas enunciadas por Arthur Danto e também por
Hans Belting. Quanto à pintura, uma piada do meio artístico diz que faltou
“combinar o jogo” com o cadáver, pois este nunca se aquietou. Ao contrário, a
produção de pinturas se acelerou nas últimas três décadas, sem quaisquer
evidências de despotencialização.

Tal persistência pode nos indicar que, ao exigir uma específica postura espacial
e temporal, tanto para a própria fatura como para a sua fruição, a pintura se
qualifica como um campo de experiências capaz de apresentar uma alternativa
aos problemas oriundos da saturação sensorial, tal como denunciada por Paul
Virilio[2]. Segundo este filósofo e urbanista francês, estudioso das implicações
dos meios de comunicação de massa, a superabundância informativa e
superexcitação sensorial conduz o sujeito contemporâneo a uma desorientação.
E tal desorientação, por sua vez, pode levar a refúgios em fundamentalismos, a
fim de evitar um possível desconforto que se sente perante o sublime. Parece
ser o que sugere o curador, crítico, professor de história da arte e pesquisador
Paulo Sérgio Duarte:

Muitas vezes o papel da obra de arte é apontar algo que falta em mim mesmo. A obra

não vai me preencher, mas apontar que não estou completo, pois sequer eu

imaginava que essa experiência seria possível. Ou seja, não sou completo como

pensava que era. Estou cheio de vazios e a obra está lá para mostrá-los. A graça da

arte é apontar para nossas incompletudes e isso independe do meio: pode ser uma

estátua de mármore grega ou um jogo de videogame. Se tiver força poética, a obra vai

permitir essa experiência. (DUARTE, 2009).

O caráter falacioso da conhecida alegação de finitude da pintura é evidenciado


na numerosa produção recente nesta linguagem no sistema de arte. Pensamos
ser oportuna uma renovada reflexão a respeito deste campo linguístico,
tradicionalmente demarcado por um repertório já estabelecido. Pois novas
experimentações problematizam recursos gramaticais desta linguagem que, na
tradição, é majoritariamente planar, enfatizando configurações que saem do
espaço pictórico tradicional, rumo àquele campo expandido definido por
Rosalind Krauss. E como, já em 1961, refletia Hélio Oiticica:

Para mim, a dialética que envolve o problema da pintura avançou, juntamente com as

experiências (as obras), no sentido da transformada pintura-quadro em outra coisa

(para mim o não-objeto), que já não é mais possível aceitar o desenvolvimento “dentro

do quadro”, o quadro já se saturou. Longe de ser a “morte da pintura”, é a sua

salvação, pois a morte mesmo seria a continuidade do quadro enquanto tal, e como

“suporte” da “pintura”. Como está tudo tão claro agora: que a pintura teria de sair para

o espaço, ser completa, não em superfície, em aparência, mas na sua integridade

profunda. (OITICICA: 1986, p. 26-27).

Relacionado à esta expansão da linguagem pictórica, o conceito de mestiçagem


nos instrumenta para a compreensão do seu âmbito cultural, onde o
pesquisador se contamina pelo objeto (obras) e ambiente de criação (atelier e
sistema de arte) e vice-versa, num trânsito aberto às proposições da alteridade
(artista/matéria e artista/público/crítica) inscrita num vaivém onde é perceptível a
integridade do artista e da matéria na obra que emerge, sem fusões e sínteses
redutoras:

Trata-se, contrariamente à mistura e ao misto, de um pensamento da tensão, ou seja,

decididamente temporal, evoluindo através das línguas, dos gêneros, das culturas,
dos continentes, das épocas, das histórias e das vivências. Não é um pensamento da

origem, da matriz, nem da filiação pura, mas da multiplicidade nascida do encontro. É

um pensamento dirigido para um horizonte imprevisível que permite restituir toda a

dignidade ao futuro. (LAPLANTINE & NOUSS: 2002, p. 84, grifo nosso).

Esta multiplicidade nascida do encontro como postura relacional é assumida


aqui como perspectiva válida para os desafios onde a arte, fazer humanista por
excelência, ocupa papel estratégico.

(...) a mestiçagem se constitui como uma trama relacional, conectiva, cujos

componentes não remontam saudosa e solitariamente a instâncias autorais perdidas,

mas sim festejam o gozo sintático dessa tensão relacional que se mantém como

ligação móvel em suspensão. (PINHEIRO: 2007, p.10, grifos nossos).

A trama relacional, mantida como ligação móvel em suspensão, referente ao


trabalho em sintaxes contínuas com o material em campo expandido e aberto à
retomadas criativas, é problematizada também na abordagem sobre o processo
criativo na ótica de redes da criação (SALLES, 2006) compreendendo a criação
como processos em rede:

(...) é possível afirmar que a criação pode ser discutida sob o ponto de vista teórico,

como processos em rede: um percurso contínuo de interconexões instáveis, gerando

nós de interação, cuja variabilidade obedece a alguns princípios direcionadores. Essas

interconexões envolvem a relação do artista com seu espaço e seu tempo, questões

relativas à memória, à percepção, à escolha de recursos criativos, assim como aos

diferentes modos como se organizam as tramas do pensamento em criação.

(SALLES: 2010, p. 17, grifos nossos).

Quanto ao campo expandido, tais nós de interação podem ser enfocados, sob a
luz da crítica de processos, a partir das seguintes perspectivas (Salles, 2010):
projeto poético (tendências observadas como atratores conectadas a princípios
éticos e estéticos do criador), tempo da criação (pluralidade e imprecisão quanto
a início e fim: um contínuo; ritmos de trabalho, maturação, hesitação, dúvidas,
rupturas, continuidades, bloqueios), criação como transformação (processo em
rede, a partir das singularidades operadas), relação artista/matéria (intercâmbio
de propriedades e potencialidades), espaço da criação (artista imerso na rede
cultural; espaço de trabalho com filtros mediadores de memória e imaginação;
suportes para armazenamento de informações, como cadernos, máquinas
fotográficas, gravadores etc), experimentação (levantamento de hipóteses,
inferências indutivas e dedutivas, testes, seleções e opções), movimento
tradutório (registros intersemióticos em outras linguagens daquela em que será
construída a criação artística), redes culturais (o sujeito histórica e culturalmente
sobredeterminado) ato comunicativo (carrega as marcas singulares do projeto
poético que a direciona, que faz parte de complexas redes culturais; envolve
também uma grande diversidade de diálogos de naturezas trans, inter e
intrapessoais: do artista com a obra em processo e com futuros fruidores).

O processo de criação acontece no campo relacional ou nas interações: toda ação

está relacionada a outras ações de igual relevância. É um percurso não linear e sem

hierarquias. A interatividade, como motor do desenvolvimento do pensamento, é

observada em níveis diversos: relação entre indivíduos, diálogo com a história da arte

e da ciência e nas redes culturais. As interações são responsáveis pela proliferação de

novas possibilidades: ideias se expandem, percepções são exploradas, acasos e erros

geram novas possibilidades de obras. (SALLES: 2010, p. 156).

O aspecto relacional, indicado na crítica de processos, expandindo ideias e


percepções, também se verifica na mutualidade entre artista e matéria, que se
modificam reciprocamente, como na citação acima de Paulo Sergio Duarte. A
qualidade deste trânsito relacional em processos de criação, interrelacionada à
alteridade da mestiçagem, envolve também a complexidade do campo
expandido, em sintaxes múltiplas e interconexões que não se reduzem à soma
das partes.

Notas:

[1] Este termo se refere ao texto de Rosalind Krauss cujo título original é Sculpture in the Expanded

Field, e que teve sua primeira tradução publicada no número 1 da Revista Gávea, em 1984, com o título

“A escultura no campo ampliado”. Optamos por usar aqui o termo expandido por considerá-lo mais

próximo ao original e por evidenciar melhor a poética em questão.

[2] Referindo-se aos meios de comunicação contemporâneos: “O aspecto negativo destas autoestradas

da informação é precisamente essa perda da orientação no que se refere à alteridade.” (VIRILIO, 1995).

Referências bibliográficas

BELTING, Hans. O fim da história da arte: uma revisão dez anos depois. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

DANTO, Arthur C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo:
Odysseus Editora/Edusp, 2006.

DUARTE, Rodrigo. O tema do fim da arte na estética contemporânea. In: PESSOA, Fernando (Org.).
Arte no pensamento. Seminários Internacionais Museu Vale do Rio Doce, Vitória, 2006.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Vorlesungen über die Ästhetik. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1989-

1990. Apud tradução de GONÇALVES, Márcia. A morte e a vida da arte. In: Kriterion. Belo Horizonte, v.

XLV, no-109, 2004. p.47-56.

HEGEL, G.W.F. Cursos de estética. Trad: Marco Aurelio Werle. São Paulo: EDUSP, 2001, vol.1. 2000,

vol. II, 2002, vol. III, 2004, vol. IV.

KRAUSS, Rosalind. A escultura no campo ampliado (Tradução de Elizabeth Carbone Baez). Gávea:

Revista semestral do Curso de Especialização em História da Arte e Arquitetura no Brasil, Rio de

Janeiro: PUC-RJ, n. 1, 1984 (Artigo de 1979), p. 92-93.

LAPLANTINE, François; NOUSS, Alexis. A mestiçagem. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.

OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1986.

PINHEIRO, Amalio. Mídia e mestiçagem. In: Amálio Pinheiro (org.). Comunicação & Cultura. 1ª Ed. Mato
Grosso do Sul: UNIDERP, 2007, v. 1, p. 17-31.

SALLES, Cecilia. Arquivos de criação: arte e curadoria. Vinhedo: Editora Horizonte, 2010.

SALLES, Cecilia. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação
artística. 3ª ed. revisada. São Paulo, EDUC, 2008.

SALLES, Cecilia. Gesto Inacabado: processo de criação artística. 5ª. ed. revista e ampliada. São Paulo:
Intermeios, 2011.

SALLES, Cecilia. Redes da criação. Vinhedo: Editora Horizonte, 2006.

WERLE, Marco Aurélio. Hegel e W. Benjamin: Variações em torno da crise da arte na época moderna.
In: Kriterion. Belo Horizonte, v. XLV, no. 109, 2004. p. 33-45.

ZAMBONE, Silvio. A pesquisa em arte: um paralelo entre arte e ciência. 3. Ed. Campinas: Autores
Associados, 2006.

Internet
DUARTE, Paulo Sérgio. A arte aponta aquilo que falta em você. Entrevista concedida à revista
Continuum. Março/2009. Disponível em http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?
cd_pagina=2720&cd_materia=848. Acesso em 15/10/2011.

VIRILIO, Paul. Velocidade e Informação: Alarme do ciberespaço! Trad. Patrice Riemens, disponível em
http://fortunecity.com/campus/spanish/437/comunic/alar_cib.html acessado em 8/10/2011.

Postado por Rogério às 13:30


Marcadores: Amálio Pinheiro, campo expandido, Cecilia Salles, complexidade, crítica de
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