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INSTITUTO BATISTA BÍBLICO DA BAHIA

ORATÓRIA HOMILÉTICA AVANÇADA


HERMENÊUTICA AVANÇADA - I.B.B. BA.

DESCRIÇÃO DA MATÉRIA
Este curso trata-se de revisão, instrução e prática dos princípios de interpretação bíblico. Sua
ênfase será dada nas questões mais específicas da abordagem hermenêutica.
PROPÓSITO
Esta matéria visa conduzir o aluno ao aprofundamento das questões hermenêuticas, repensando
seu uso e abuso, oferecendo ferramentas mais adequadas no uso da interpretação das Escrituras.
OBJETIVOS – No final deste curso o aluno será capaz de...
1. Relembrar os mais importantes princípios hermenêuticos;
2. Saber qual é a história da hermenêutica e seus efeitos;
3. Compreender a unidade das Escrituras sabendo lidar com suas particularidades;
4. Usar os princípios de interpretação de maneira ordenada dentro de cada texto;
5. Avaliar as questões hermenêuticas e refletir sobre sua importância para os dias atuais
6. Aplicar corretamente o texto bíblico ao seu uso ministerial.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
INTRODUÇÃO
Definição
Necessidade
1. REVENDO AS BASES DA PREGAÇÃO BÍBLICA
1.1 A Bíblia e Pregação
1.2 A Importância da Pureza da Pregação
1.3 A Diferença da Pregação Bíblica e a Quase Bíblica
2. BASE HERMENÊUTICA
2.1. Método Lítero-Histórico-Gramatical
2.2. Cânon
2.3. História da Interpretação
2.4. Leis Básicas
3. O USO DA HERMENÊUTICA
3.1 Exegese
3.2 Teologia Sistemática e Teologia Bíblica
4. PRINCÍPIOS GERAIS NA HERMENÊUTICA
5. PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS NA HERMENÊUTICA
ATIVIDADES PROPOSTAS
1. Leitura do livro: Hermenêutica Avançada, Henry A. Virkler.
2. Leitura da apostila e fazer exercícios quando sugerido
3. Trabalho para apresentação
Escolha um dos temas abaixo e faça um trabalho contendo:
Introdução; Explicação do assunto; Usos comuns no texto bíblico; Bibliografia usada.
Temas para apresentação em aula:
1. Questões Hermenêuticas nas Epístolas 6. Tipologia na Bíblia 11. Dispensacionalismo
2. Literatura em Provérbios 7. Profecias 12. Uso literário
3. Literatura em Atos 8. Figuras de Linguagem 13. Uso Cultural
4. Literatura Apocalíptica 9. Parábolas 14. Uso Gramatical
5. O emprego do AT no NT 10. Alegorias 15. A aplicação da Palavra
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INTRODUÇÃO

DEFINIÇÃO

A palavra “hermenêutica” deriva do verbo grego {ermhneuw e do substantivo {ermhneia e


significa tradução; interpretação; explicar (1 Co 12.10; 14.28; Lc 24.27; Jo1. 38).

Diz-se que a palavra hermenêutica deve sua origem ao nome de Hermes, o Deus grego que servia
de mensageiro dos deuses, transmitindo e interpretando suas comunicações aos seus afortunados ou,
com freqüência, desafortunados destinatários.1 Hermes era conhecido como o deus-mensageiro de pés
alados da mitologia grega. Cabia a ele transformar o que estava além do entendimento humano em algo
que a inteligência humana pudesse assimilar. Afirma-se que foi ele quem descobriu a linguagem verbal e
a escrita, tendo sido o deus da literatura e da eloqüência, dentre outras coisas.

De forma simplificada podemos afirmar que:

Hermenêutica é a ciência (princípios) e a arte


(tarefa)
de apurar o sentido do texto bíblico.2

NECESSIDADE

A leitura simples de um texto bíblico não significa necessariamente que o leitor compreende seu
significado. A Bíblia sendo um livro divino, pois é inspirado pelo Espírito de Deus; e humano, pois
contém estrutura literária comum; exige redobrada atenção no seu estudo e condições apropriadas para
sua interpretação.

 Condições para a interpretação bíblica:

2 Co 3.14-16 – _______________________

1 Co 3.1-2 – _________________________

1 Co 3.16 – ser habitado pelo Espírito Santo (Jo 16.13; 14.17)

 Motivos para a interpretação bíblica:

2 Pe 3.16 – ___________________________________________

2 Tm 2.15 – ___________________________________________

2 Tm 3.17-18 – ___________________________________________________________

1
Henry Virkler. HERMENÊUTICA, p. 09
2
Roy Zuck. A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA, p. 22
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 Alvo da interpretação bíblica:

 Não é a originalidade, não se procura descobrir aquilo que ninguém jamais viu.

 É, chegar ao sentido claro do texto

 Perigos da interpretação bíblica:


 _______________________________
 _______________________________
 _______________________________
 _______________________________ (ouvir o que quer)
 _______________________________ (não aceitar tudo)
 _______________________________

Invariavelmente o leitor leva


para o texto tudo o que é, com
toda sua experiência, cultura e
entendimento prévio de palavras
e idéias.

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INTRODUÇÃO 2

Rm 10.14-15

“A PREGAÇÃO AINDA É O MAIOR INSTRUMENTO DE AVIVAMENTO ESPIRITUAL”

“... a fé vem pelo ouvir da Palavra...”.

1. Neemias 8. 2-5,8 – A pregação restaura toda uma nação cativa


2. Mt 7.28-29 – A pregação edifica um povo completamente desorientado
3. At 2.40-41 – A pregação converte um mundo totalmente incrédulo (cético)

“A pregação mais profunda é aquela que faz diferença no dia-a-dia das pessoas”
“Quando alguém prega, os céus e a terra aguardam resultado” (M. Simpson).

“O PREGADOR AINDA É O PRINCIPAL INSTRUMENTO DA ENTREGA DA PREGAÇÃO”

“... Como ouvirão se não há quem pregue...”.

1. Esdras – Pregador fala a verdade quando os outros estão calados


2. Jesus – Pregador fala a verdade quando os outros estão mentindo
3. Pedro – Pregador fala a verdade quando os outros estão o impedindo

“Apenas a pregação autenticamente bíblica pode ser realmente relevante; só uma


pregação vitalmente relevante pode ser bíblica” (John Knox).

 Como pregadores somos inadequados para o ministério, porque o ministério – sobretudo da


pregação – está além dos recursos humanos comuns.

 O ministério está além da nossa capacidade de adequação.

 Para ministrar em nome de Jesus, o pregador terá que fazer o que não consegue com aquilo
que não tem.

Aplicação

a) Reconheça sua insuficiência e inaptidão para o ministério da pregação


b) Reconheça sua necessidade da suficiência de Cristo para o ministério da Palavra
c) Busque a dependência plena do Espírito Santo para sua vida como pregador.

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PARTE 1: REVENDO AS BASES DA PREGAÇÃO BÍBLICA

1. A BÍBLIA E A PREGAÇÃO

“O segredo essencial não é dominar certas técnicas, mas ser dominado por determinadas convicções.
A teologia é mais importante do que metodologia” (John Stott)

1.1 TERMOS RELACIONADOS À PREGAÇÃO NA BÍBLIA

Há certo número de palavras diferentes no N.T. que dão a idéia de “passar à diante” recados,
relatórios e instruções. A análise dos principais termos em grego contribuirá para uma percepção da
afinidade entre a Bíblia e a pregação.

1.1.1  – Anunciar


 – mensagem; relatar, anunciar;
 – fazer conhecido, proclamar (em todo redor);
 – proclamar, relata;  - proclamar;
No grego clássico, o uso desses termos, é de modo geral, intercambiável. Acham-se no seu
significado principal, de “trazer novas”, “notificar”, “proclamar publicamente”.
Estas palavras se referem à atividade do mensageiro que transmite um recado, oralmente ou por
escrito, e que, desta forma, representa a própria pessoa que enviou o recado.
No A.T. o termo 5 vezes na LXX, e sua mensagem basicamente torna claro que onde se proclama o
senhorio do Soberano divino, e onde se fazem conhecidos os seus feitos poderosos, não há lugar
para a proclamação do senhorio de outros deuses – (palavra com raiz em  “anjo,
mensageiro”).
No N.T. usualmente, as palavras deste grupo significam “proclamação” num sentido especial e
técnico: “tornar conhecida” a atividade de Deus, a Sua disposição para salvar. Esta proclamação,
cuja autoridade vem de Deus, entra profundamente na vida do mensageiro e faz exigências totais
sobre ele.
A Bíblia usa o termo  como a proclamação pública da ação de Deus em salvar o homem
perdido. (Jo 20.18; Rm 9.17; 1 Jo 1.5, etc.)

1.1.2  – Proclamar (em alta voz), anunciar, tornar conhecido


 – arauto;  – proclamação, anúncio, pregação.
No grego clássico a ênfase estava no “arauto” que poderia anunciar em alta
voz alguma notícia, para assim torna-la conhecida. Mas sua característica é bem
generalizada, sem necessariamente, ter conotações religiosas.
O primeiro aspecto que se nota no N.T. é que, em consonância com a LXX, o substantivo
“arauto” tem pouca ocorrência. No entanto o verbo se acha com relativa freqüência (61 vezes).
A conclusão é que as testemunhas neotestamentárias colocaram-se como proclamadores do
Evangelho de Deus, mas sem que isto se tornasse algo mágico ou filosófico e sim vocacional.
Este termo tem conotações polêmicas devido seu uso no grego clássico e depois por Bultman
no decurso da metade do século vinte. Mas o que interessa é que o termo denota a proclamação do
Evangelho da Graça como o meio de revelar Deus.

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1.1.3  – Ensinar


A raiz reduplicada e o sufixo incoativo transmitem a idéia de estender a mão
repetidas vezes para aceitar algo; a palavra, portanto, sugere a idéia de fazer alguém
aceitar alguma coisa.
Na LXX, “Didaskô” ocorre cerca de 100 vezes, a palavra não denota primariamente a
comunicação do conhecimento e habilidade, mas pelo contrário, significa principalmente “instrução
quanto ao viver” (e.g. Dt 11.19; 20.18), sendo que a matéria aprendida é a vontade de Deus.
No NT, “Didaskô” ocorre 95 vezes. O significado sempre é “ensinar” ou “instruir”, embora o
propósito no conteúdo do ensino somente possa ser determinado mediante o contexto individual.
Em 13 lugares nos Evangelhos, “didaskô” se emprega de modo absoluto como termo
compreensivo para a pregação de Jesus (Mc. 2.13; 6.6; 10.1; 12.35; 14.49; Lc 4.15; 13.22,26; 19.47;
Mt 4.23; 9.35; 11.1). Para Jesus, ‘ensinar’ significava proclamar as verdades do reino e apontar para
Sua messianidade. Para os discípulos, ‘ensinar’ compreendia em transmitir aquilo que haviam
recebido, através da instrução, exortação.
Resumindo: o NT emprega “didaskô” em dois sentidos:
a) (mormente nos Evangelhos e Atos) “proclamar”, “conclamar a uma decisão”, “exortar”
os homens no sentido de ensinar0lhes aquelas coisas que Deus requer do homem total;
b) (mormente nas Pastorais e 2 Tessalonicenses), “Ensinar” no sentido de transmitir um
corpo fixo de doutrina que deve ser dominado e depois conservado inato.
A única passagem que não está de conformidade com este uso é Ef. 4.22. Cp. Porém, 1
Co 15.1-3 onde Paulo vê a pregação do evangelho como entrega de uma tradição.

1.1.4  – Admoestar


O verbo ocorre 9 vezes no N.T. (At 20.31; Rm15.14; 1 Co 4.14; Cl 1.28; 3.16; Ts 5.12,14; 2
Ts 3.15), e o substantivo 3 vezes (1 Co 10.11; Ef 6.4 e Tt 3.10). A palavra significa
literalmente, por em mente. É treinar por palavras, instrução verbal.
Ela contém três elementos básicos:
a) Existe um problema, decorrente do pecado, que precisa ser mudado;
b) O pregador procura efetuar aquela mudança por meio de uma confrontação verbal,
utilizando as escrituras;
c) A motivação do pregador é a de amor para com o ouvinte, visando seu benefício,
ajudando-o a amar a Deus e ao seu próximo.
Este termo não exige uma advertência diretamente do púlpito, tem uma ênfase mais pessoal.
No entanto, foi usado por Paulo com este intuito também.
1.2 A BÍBLIA: UM INSTRUMENTO DE DEUS NA PREGAÇÃO
1.2.1 A Bíblia como instrumento da Revelação Especial de Deus – Sl 19.7-10

1.2.2 A Bíblia como instrumento da inspiração Literal de Deus – 2 Tm 3.16-17

1.2.3 A Bíblia como instrumento da Investigação Pessoal de Deus – Hb 4.12

1.2.4 A Bíblia como instrumento da Suficiência total de Deus – 2 Pe 1.3-4

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2. A IMPORTÂNCIA DA PUREZA DA PREGAÇÃO


“Pregação que é fiel à Escritura converte, convence e amolda o espírito de homens e mulheres, pois
ela apresenta o instrumento da compulsão divina, e não que pregadores tenham em si mesmos
qualquer poder transformador” (Bryan Chapell)

2.1 ALCANCE DA BÍBLICA COMO INSTRUMENTO DE DEUS NA PREGAÇÃO.


No final das contas, a pregação bíblica cumpre seus objetivos espirituais não por causa das
habilidades do pregador, mas por causa do poder da Escritura proclamada.
Quando há fidelidade à pregação das Escrituras, então experimenta-se:
2.1.1 A formação de uma igreja bíblica.
 Bíblica na proclamação – Rm 10.14-15; Mc 16.15.
 Bíblica no crescimento espiritual – 1 Pe 2.2; 1 Co 3.2.
 Bíblica na doutrina – Ef. 4.14; 2 Tm 1.13  – Higiene saudável
 Bíblica na comunhão – Rm 15.4; At 2.42
2.1.2 A formação de um ministério bíblico. 2 tm 4.1,4
 Ministério bíblico depende da Palavra
 Ministério bíblico usa a Palavra
 Ministério bíblico centraliza a Palavra
2.1.3 A formação de um ministro bíblico – Tt 1.9
 Ministro bíblico é apegado à Palavra
 Ministro bíblico ensina pelo reto ensino
 Ministro bíblico é comprometido com a Palavra (Col 1.28-29)
2.2 Fundamentos Teológicos para pregação.
A técnica pode somente nos tornar oradores; se quisermos ser pregadores, é de teologia que
precisamos.
Como implicação dessa primeira parte do estudo, vamos analisar aos 5 argumentos teológicos que
subjazem à prática da pregação e a reforçam, apresentados por John Stott:

1. O tipo de Deus em quem cremos determinará o tipo


de sermão que pregaremos
2. Uma coisa é crer que Deus tem agido. Outra é crer
que Deus tem falado, inspirando os profetas e os
apóstolos a interpretar a ações dele.
3. A igreja é criada por Deus mediante sua Palavra. A
Palavra de Deus é o cetro mediante o qual Cristo
governa a igreja e a comida com a qual ele a nutre.
4. Alimentar o rebanho de Deus é uma expressão
metafórica que significa ensinar a igreja. O pastor é
essencialmente um mestre.
5. Pode haver vários tipos de pregação, mas não pode-se
ser encontrada fidelidade à Palavra em todos eles.
Toda pregação genuína é pregação expositiva.

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3. A DIFERENÇA ENTRE A PREGAÇÃO BÍBLICA E A QUASE BÍBLICA

“A pregação autêntica é aquela que trata da pessoa inteira, em que o ouvinte se sente envolvido e
sabe que foi profundamente tocado e exortado por Deus, através do pregador” (Dr. Loyd Jones).

3.1 ELEMENTOS DA PREGAÇÃO BÍBLICA

3.1.1 Glorifica a Deus – Rm 11.36


3.1.2 Ressalta a autoridade de Deus – Mt 7.28-29
3.1.3 Transforma vidas a imagem de Cristo – Rm 8.29; 2 Co 3.18
3.1.4 Santifica a igreja – Ef 4.11-16 ( v.11 => Pastores Mestres => 
3.1.5 Produz servos de Cristo – Ef 4.11-16

João Crisóstomo, um grande pregador de sua época, que recebeu a alcunha de “O Boca de Ouro”,
definiu quatro características principais da sua pregação.
1ª Era bíblica
2ª Sua interpretação das Escrituras era singela e direta
3ª Suas aplicações morais eram aplicáveis à vida diária prática
4ª Era destemido nas suas condenações – Chama pecado pelo nome, não faz arrodeios.

3.2 CARACTERÍSTICAS DE UMA PREGAÇÃO QUASE BÍBLICA

Uma mensagem quase bíblica tem pregador, púlpito, Bíblia, auditório, audiência, mas...

3.2.1 _______________________________________
 Normalmente oferecem meros comentários de assuntos diversos
 Uma coxa de retalhos

3.2.2 _______________________________________
 No Evangelho usa as histórias fora do contexto
 Não se preocupa com o porque daquela história naquele lugar
 Tem crise com problemas sinóticos

3.2.3 _______________________________________
 Quando o texto está fora do contexto
 Quando um assunto aparece sem que o texto o apresente

3.2.4 _______________________________________
 Auto-estima
 Temperamentos Não são bíblicos, não tem na Bíblia.
 Neurologia, Etc.

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3.3 PERIGOS COMUNS AOS PREGADORES


O que leva um pregador que é zeloso pela Palavra a cometer tais erros:

3.3.1 Orar pouco pelo sermão

3.3.2 Ler e estudar de forma insuficiente a Bíblia

3.3.3 Usar idéias de outros sem conhecer sua formação e posição teológica

3.3.4 Extrair muitos sermões de livros e não da Bíblia

3.3.5 Ter coleções de livros de esboços de mensagens

3.3.6 Começar um sermão por uma idéia e não por um texto bíblico

3.3.7 Iniciar o preparo da mensagem perto do momento de prega-la

3.3.8 Gostar somente de narrativas

3.3.9 Dar preferência a uma porção somente das Escrituras (NT e VT)

3.3.10 Ter interesse exagerado em querer agradar as pessoas (Toda profecia tem dois elementos: exortação depois
consolação) (Jesus aponta o pecado depois a solução)

PARA REFLETIR

“Os pregadores não são preletores que podem discursar


sobre temas relacionados com suas experiências,
preocupações e crenças; são pessoas que têm um
compromisso com a própria mensagem pregada.
Portanto, os pregadores devem ser, dentre todas as
pessoas, as mais sinceras”.

“Os pregadores corajosos são a necessidade urgente


nos púlpitos do mundo atual. Pregadores semelhantes
aos apóstolos da igreja primitiva, que eram” cheios do
Espírito Santo e anunciavam corajosamente a Palavra
de Deus”. (At 4.31).

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Continuando...

A palavra de Deus, infalível e terna, é o livro que o guiará por toda a vida. Vamos ver três
habilidades que podem ser usada para uma melhor compreensão da Palavra de Deus: observação (O
que vejo?), interpretação (O que significa?) e aplicação (O que faço?).

_________________________ [Descubra o que o texto diz!] A observação lhe ensina a ver


exatamente o que a passagem está dizendo. É a base da interpretação precisa e da aplicação correta.
A observação responde à pergunta: “Que diz a passagem?”.

_________________________ [Descubra o que o texto significa!] A interpretação responde à


pergunta: “Que significa essa passagem”.

_________________________ [Descubra como o texto se aplica] A aplicação responde à pergunta:


“Que significa essa passagem para mim? Que verdades posso pôr em prática? Que mudanças devo
efetuar em minha vida?”.

Observação
(Descubra o que o texto diz!)

PRIMEIRO PASSO

COMECE COM ORAÇÃO

Com muita freqüência a oração é o elemento que falta no estudo da Bíblia. Você está
prestes a aprender o método mais eficaz de estudo bíblico que existe. No entanto, a não
ser pela obra do Espírito Santo, o que lhe apresentamos não passa disso – um método. É
o Espírito Santo que habita em nós quem nos guia em toda a verdade, quem toma o que
vem de Deus e nos revela. Peça sempre a Deus que o ilumine e lhe ensine, antes de abrir
as Escrituras.

SEGUNDO PASSO

FAÇA AS SEIS “PERGUNTAS-CHAVES”

Quando estiver estudando uma passagem das Escrituras, qualquer passagem, qualquer livro da
Bíblia, forme o hábito de perguntar a si próprio constantemente: Quem? Quê? Quando? Onde? Por
quê? Como? Essas perguntas são o alicerce em que se apóia a observação precisa, por sua vez
essencial para uma interpretação exata. Muitas vezes as Escrituras são mal-interpretadas porque o
contexto não foi examinado com o devido cuidado: a observação foi falha.
Quando nos apressamos em fazer a interpretação do texto, sem primeiro lançar o alicerce
fundamental chamado observação, nossa compreensão é contaminada por nossas pressuposições –
nosso modo de pensar, nossos sentimentos ou o que as pessoas dizem. Tenhamos o máximo cuidado
de não distorcer as Escrituras para nossa própria ruína (2Pe 3.16).
As respostas exatas às seguintes perguntas nos ajudarão a obter interpretações corretas.

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__________ está falando? Fala a respeito de quem? Quem são as principais personagens? Como
exemplo, examine a passagem que nos serve de modelo, tirada de 1 Pedro 5 (v. p. 21). No capítulo
em questão, o pronome “eu” revela quem fala. O versículo 1 diz-nos que esse “eu” se refere a um
presbítero, companheiro dos demais, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória
que há de manifestar-se. Ao ler esse capítulo e os anteriores (que são o contexto), você verifica que o
pronome “eu” se refere a Pedro, o autor da carta.
Então, a quem Pedro está falando? O versículo 1 refere-se “aos presbíteros”; o 5, aos “jovens” e o
6, aos leitores da carta (“humilhai-vos”; “vos exalte”).

__________assunto se discute? De que trata o capítulo? O que você aprendeu a respeito de alguma
pessoa, de algum acontecimento, ou qual é o ensino do texto? Que instruções nos são passadas? Em
1 Pedro 5.2, o apóstolo Pedro instrui os presbíteros a que pastoreiem o rebanho e exerçam boa
supervisão.

__________ ocorrem ou vão ocorrer esses fatos? Quando é que algo especial aconteceu ou vai
acontecer na vida de determinada pessoa, povo ou nação? Quando? é uma pergunta-chave para
apurar o progresso dos acontecimentos. Em 1 Pedro 5.4, ficamos sabendo que, “quando aparecer o
Sumo Pastor”, os presbíteros receberão “a incorruptível coroa da glória”.

__________aconteceu ou vai acontecer esse fato? Onde está escrito isso? Em 1 Pedro 5, a única
referência a lugar encontra-se no versículo 13, em que lemos sobre uma saudação de alguém que
está “em Babilônia”.

___________ esse fato ou essa pessoa estão sendo mencionados? Por que isso aconteceu ou vai
acontecer? Por que nessa ocasião? Por que envolver essa pessoa? A passagem de 1 Pedro 5.12
explica por que e como Pedro escreveu essa carta, e dá-nos seu propósito: exortar aqueles irmãos,
testemunhando que essa é a verdadeira graça de Deus, e que permaneçam firme nela.

___________esse fato aconteceu ou vai acontecer? Como se fez isso? Como ficou ilustrado esse
ensino? Em 1 Pedro 5.2, observe como os presbíteros deverão exercer sua supervisão: de modo
voluntário e de ânimo pronto, de acordo com a vontade de Deus.

Sempre que estiver estudando uma passagem da Bíblia, tenha em mente as “seis pertuntas-chave”.
Não fique preocupado demais se em cada caso você não encontrar as respostas adequadas. Lembre-
se de que a Bíblia se compõe de muitos tipos diferentes de escritos, e nem sempre as mesmas
perguntas são aplicáveis. Depois de fazer as perguntas Quem? Quê? Quando? Onde? Por quê? e
Como? Faça anotações nas margens de sua Bíblia. Medite nas verdades que Deus lhe revelou. Pense
em como elas se aplicam a você. Esse exercício impedirá que seu estudo bíblico se torne uma
espécie de busca intelectual só do conhecimento e de nada mais.

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Descobertas (novos entendimentos) sobre a aplicação das escrituras

Quando estiver aplicando as Escrituras à sua vida, as seguintes perguntas poderão ser úteis:

1. O que a passagem está ensinado? É genérica ou específica? Aplica-se apenas a pessoas


específicas? A um problema cultural da época? A determinado período da história? Seu ensino teria
sido substituído por outro, mais amplo e profundo? Por exemplo, no Antigo Testamento os judeus
não tinham permissão para comer certos alimentos, nem usar certas combinações de fios num tecido.
São essas proibições aplicáveis aos cristãos hoje?

2. Essa passagem das Escrituras desmascara algum erro em minhas crenças ou em meu
comportamento? Haveria algum mandamento a que não estou obedecendo? Existem em mim
atitudes ou motivos errados, trazidos a luz pelas Escrituras?

3. Quais são as instruções de Deus para mim na condição de filho? Há novas verdades em que
devo crer? Novos mandamentos a que devo obedecer? Novos entendimentos que devo explorar
melhor, e a eles atender? Existiam novas promessas que devo receber?

4. Quando você estiver aplicando as Escrituras, tome cuido com o seguinte:

Não aplique padrões culturais no lugar de padrões bíblicos.


Não tente fortalecer uma verdade legítima mediante o uso errado das Escrituras.
Não aplique as Escrituras por mero procedimento recebido em estudos ou cursos anteriores.

Uma das grandes preocupações do apóstolo Paulo a respeito de Timóteo, seu filho na fé, era que o
jovem aprendesse a manejar bem a palavra de Deus, de modo que agradasse a Deus (2Tim 2.15).
Um dia também desejaremos prestar contas de nossa mordomia da Palavra de Deus. Será que temos
manejado de modo correto? Temos dado honra àqueles a quem Deus chamou a fim de conduzir-nos
e pastorear-nos, enquanto pesquisamos as Escrituras por nós mesmos para entender suas verdades?
Por acaso temos permitido que a Palavra viva e operante de Deus mude nossas vidas?
A observação, a interpretação e a aplicação conduzem-nos à transformação. Esse é o objetivo de
nosso estudo da palavra de Deus. Mediante a Bíblia somos transformados de glória em glória, até
alcançarmos a imagem de Cristo.
Interpretação
(Descubra o que o texto significa!)

observação nos conduz a uma compreensão exata do que a Palavra de Deus diz. A

A interpretação dá um passo adiante e nos ajuda a entender o que sua Palavra significa.
Quando se interpreta com exatidão a Palavra de Deus, torna-se capaz de pôr suas verdades
em prática com toda a confiança na vida diária.
À semelhança de muitas outras pessoas, você pode ter sido levado a crer em determinado sistema de
crenças, sem jamais ter estudado a Palavra de Deus por si mesmo. Talvez você tenha formado suas
opiniões a respeito dos ensinos da Bíblia antes de examina-la você mesmo com o máximo cuidado.
Todavia, à medida que for manejando a Palavra de Deus com detença, você vai-se tornando capaz de
discernir suas crenças estão em harmonia com as Escrituras. Caso seja esse seu desejo, se você se
chegar à Palavra de Deus com um espírito aberto ao aprendizado, Deus o orientará e o conduzirá a
toda verdade.
Se deseja realmente interpretar a Bíblia com a máxima precisão, as seguintes orientações lhe serão
de grande utilidade:

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1. Lembre-se de que o contexto é que manda.
A palavra contexto significa “o que está junto ao texto”. Se você quiser entender o contexto,
precisará familiarizar-se com a Palavra de Deus. Se estabelecer o alicerce sólido da observação,
estará preparado para estudar cada versículo à luz:

dos versículos adjacentes;


do livro em que esse versículo se encontra;
de toda a Palavra de Deus.

Quando estiver estudando a Bíblia, pergunte-se a si mesmo: “Minha interpretação de um


trecho específico das Escrituras está em harmonia com o tema, o propósito e a estrutura
do livro em que esse trecho se encontra? Minha interpretação tem coerência com os
demais versículos a respeito do mesmo assunto, ou nota-se grande diferença? Estou
considerando o contexto histórico e cultural que está escrito?”. Jamais leve em conta um
trecho das Escrituras fora do seu contexto, levando as palavras a dizer o que você quer
que digam. Descubra o que o autor está dizendo e nada acrescente ao seu significado.

2. Procure sempre o conselho intergral da Palavra de Deus

Quando tiver conhecido muito bem a Palavra de Deus, você não aceitará determinado ensino só
porque alguém tomou um ou dois versículos isolados como apoio. Esses versículos poderão estar
isolados de seu contexto. Outras passagens importantes poderão ter sido desprezadas ou mal-
estudadas, e o resultado foi a má interpretação. Quando estiver lendo a Bíblia com regularidade e
com grande dedicação, ficará mais e mais familiarizado com todo o conselho da Palavra de Deus e
estará adquirindo capacidade de discernir se determinado ensino é bíblico ou não.
Revista-se da Palavra de Deus; ela é sua salvaguarda contra as falsas doutrinas.

3. Lembre-se de que as Escrituras jamais contradizem as Escrituras.

O melhor intérprete das Escrituras são as Escrituras. É preciso lembrar-nos de que as Escrituras são
integralmente inspiradas por Deus; Deus como que as “soprou” nos autores, ou seja, nos escritores.
Essa é a razão por que jamais podem contradizer-se.
A Bíblia contém toda a verdade de que vai precisar em quaisquer situações de sua vida, pois Ela não
contem a palavra de Deus, Ela é a própria Palavra de Deus. Todavia, há ocasiões em que poderá
julgar muito difícil conciliar duas verdades aparentemente contraditórias, as quais são ensinadas pela
Bíblia. Exemplo disso é a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Quando duas ou mais
verdades claramente ensinadas na Bíblia parecem entrar em contradição, lembre-se de que nós, seres
humanos, temos mentes finitas. Não leve nenhum ensino a um extremo a que nem o próprio Deus o
levou. Simplesmente se humilhe em seu coração, em fé, e creia no que Deus está dizendo, ainda que
não consiga entender o assunto de modo completo, nem consiga conciliar as partes no presente
momento.

4. Não baseie suas convicções numa passagem obscura das Escrituras.

Passagem obscura é aquela cujo sentido não se pode entender com facilidade. Visto que tais
passagens são difíceis de entender, ainda quando se empregam os princípios mais sadios de
interpretação, elas não devem ser utilizados como textos doutrinários básicos.

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5. Interpreta as Escrituras literalmente.
A Bíblia não é um livro de significados ocultos. Deus falou conosco a fim de que pudéssemos
conhecer a verdade. Portanto, aceite a Palavra de Deus pelo que ela ensina, com palavras de sentido
claro, em seu sentido natural. Em primeiro lugar você deve buscar o ensino claro das Escrituras, e
não algum sentido normal. Entenda e reconheça as figuras de linguagem, e interprete-as
adequadamente.
Examine o que está escrito à luz do estilo literário. Por exemplo, você vai encontrar mais símiles e
metáforas nos escritos poéticos e proféticos do que nos livros históricos ou biográficos. Interprete as
partes das Escrituras de acordo com seus gêneros literários.
Eis alguns dos estilos literários da Bíblia:
Histórico – Atos
Profético – Apocalipse
Biográfico – Lucas
Didático (ensino) – Romanos
Poético – Salmos
Epistolar (cartas) – 2 Timóteo
Proverbial – Provérbios
6. Procure o sentido único da passagem.
Procure sempre entender o que o autor do livro tinha em mente ao escrever, quando estiver
interpretando certa parte da Bíblia. Não torça o sentido dos versículos a fim de sar apoio a um ensino
que não transparece com clareza. A menos que o próprio autor de certa passagem afirme existir
outro sentido para suas palavras, deixe que o texto fale por si mesmo.

Aplicação
(Descubra como o texto se aplica!).

N ão importa muito quanto você conheça a respeito da Palavra de Deus: se não aplicar o que
aprendeu, as Escrituras jamais beneficiarão sua vida. Ouvir a Palavra de Deus sem pô-la em
prática é enganar-se a si próprio (Tg. 1.22-25). Esse é o motivo por que a aplicação é de
vital importância. A observação e a interpretação constituem o “ouvir” a Palavra de Deus. Mediante
a aplicação, você se transforma na imagem de Cristo. A aplicação é a assimilação da Palavra, a
incorporação da verdade, a “execução” da Palavra de Deus. Esse é o processo pelo qual Deus opera
em sua vida.
Em 2 Timóteo 3.16,17 lemos: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar,
para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e
perfeitamente instruído para toda a boa obra”. Aqui temos a chave da aplicação: aplique as
Escrituras à luz de seu ensino, repreensão, correção e instruções sobre a vida.

Ensino (doutrina) é o que a Palavra de Deus diz a respeito de certo assunto. Esse ensino seja qual for
o assunto, sempre é certo. Portanto, tudo quando Deus diz na Bíblia acerca de determinado assunto é
a verdade absoluta.
O primeiro passo na aplicação é descobrir o que a Palavra de Deus diz a respeito de todo e qualquer
assunto. Isso conseguimos mediante observação cuidadosa e interpretação exata do texto. Desde que
você saiba o que a Palavra de Deus ensina, estará obrigado, perante Deus, a aceitar essa verdade e
por ela viver. A partir do momento que tiver rejeitado um falso ensino, no qual cria até então, ou
tiver feito nele os acertos necessários, sendo abraçado a verdade revelada na Palavra de Deus, terá
aplicado o que acabou de aprender.

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Repreensão é o texto que expõe as áreas de seu pensamento ou comportamento não enquadradas na
Palavra de Deus. Pela repreensão você descobre que não está fazendo o que Deus considera justo.
Aplicar a repreensão significa aceita-la, concordando com Deus, reconhecendo que você está errado,
seja no pensamento, seja no comportamento. É dessa forma que você é liberto da incredulidade, isto
é, do pecado.

Correção é o passo seguinte no processo da aplicação, em geral mais difícil. Muitas vezes você
consegue ver o que está errado em sua vida, mas permanece relutante em tomar as providências
necessárias para corrigir o erro. Deus jamais o abandonou sem ajuda alguma ou sem as respostas
concernentes a esse passo corretivo. Noutras circunstâncias, torna-se difícil encontrar as respostas,
ainda desejoso de sempre à disposição, de modo que qualquer filho de Deus desejoso de agradar a
seu Pai, saberá, pelo Espírito Santo, como faze-lo.
Muitas vezes a correção advém pela simples confissão dos erros e pelo abandono do
pecado. Noutras ocasiões, Deus nos mostra claramente que passos haveremos de dar.
Exemplo disso encontramos em Mateus 18.15-17. Nessa passagem, Deus nos mostra
como chegar a um irmão que pecou. Quando você aplica a correção a suas ações e
atitudes, Deus começa a operar em você, de modo que passa a agrada-lo (Fp. 2.13).
Depois da obediência virá a alegria.

PARTE 2 - BASE HERMENÊUTICA


2.1 O MÉTODO LÍTERO-HISTÓRICO-GRAMATICAL

O método hermenêutico proposto neste curso é: O MÉTODO LÍTERO-HISTÓRICO-


CRÍTICO-GRAMATICAL.

LÍTERO  porque trata-se de uma proposta a uma análise literal do texto bíblico,
compreendendo que o autor original tinha somente um propósito em mente na sua transmissão
da revelação divina.

HISTÓRICO  porque a Bíblia sendo um livro que relata acontecimentos no passado e dentro
da história, exige uma análise histórica dos fatos e argumentos que envolveram sua revelação.

CRÍTICO  porque a hermenêutica não se encontra isolada de outros campos de estudo


bíblico. Ela se relaciona com o estudo do cânon, da crítica textual, da crítica histórica, da
exegese, e da teologia bíblica bem como da sistemática.

GRAMATICAL  porque a Bíblia sendo um livro com estrutura literária comum requer uma
análise gramatical de seu conteúdo escriturístico.

2.2 O CÂNON E A INTERPRETAÇÃO

A palavra cânon tem raiz na palavra “cana”, “junco” (do hebraico geneh, através do grego kanon).
O ‘junco’era usado como uma vara para medir e, por fim, veio a significar “padrão”.
Orígenes empregou a palavra “cânon para indicar aquilo que chamamos de ‘regra de fé’, o
padrão pelo qual devemos medir e avaliar...” Mais tarde teve o sentido de “lista” ou “rol”. Aplicada às
Escrituras, a palavra cânon significa “uma lista de livros oficialmente aceitos.”
Deve-se ter em mente que a igreja não criou o cânon nem os livros que estão incluídos naquilo
que chamamos de Escrituras. Ao contrário, a igreja reconheceu os livros que foram inspirados desde o
princípio. Foram inspirados por Deus ao serem escritos.

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2.2.1 Testes para a inclusão de um livro no cânon3
Não sabemos exatamente quais foram os critérios que a igreja primitiva usou para escolher
os livros canônicos. Possivelmente houve cinco princípios orientadores, empregados para determinar se
um livro do Novo Testamento era ou não canônico, se era ou não Escritura. Geisler e Nix registram
esses cinco princípios:

01. Revela autoridade? – Veio da parte de Deus? (Esse livro veio com o autêntico “assim diz
o Senhor?”).
02. É profético? – Foi escrito por um homem de Deus?
03. É autêntico? (Os pais da igreja tinham a prática de ‘em caso de dúvida, jogue fora’. Isso
acentua a validade do discernimento que tinham sobre os livros canônicos.).
04. É dinâmico? – Veio acompanhado do poder divino de transformação de vidas?
05. Foi aceito, guardado, lido e usado? – Foi recebido pelo povo de Deus?

Pedro reconheceu as cartas de Paulo como Escrituras em pé de igualdade com as Escrituras do


Antigo Testamento (2 Pe 3.16)

2.2.2 O cânon do Antigo Testamento


Existem dois fatores determinantes da necessidade do cânon do AT:

a) A destruição de Jerusalém e do templo, em 70 a.D., acabou com o sistema sacrificial


judaico. Muito embora o cânon do AT estivesse fixado na mente judaica bem antes
de 70 a.D., era necessário algo mais definitivo. Os judeus encontravam-se espalhados
e precisavam definir que livros tinham a Palavra oficial de Deus devido à existência
de muitos textos extra-escriturísticos e à descentralização. Os judeus se tornaram o
povo de um Livro específico, e foi esse livro que os manteve juntos.

b) O cristianismo começava a florescer e muitos textos, de autoria de cristãos,


principiavam a circular. Os judeus necessitavam desmoralizar de modo marcante
esses textos, bem como impedir que fossem aceitos junto com os seus próprios
escritos e usados nas sinagogas.

O cânon hebraico era assim apresentado:

A LEI OS PROFETAS OS ESCRITOS


(Tohah) (Nebhim) (Kethubyim ou Hagiographa)
------- Anteriores Posteriores Poéticos 5 Rolos Históricos
Gênesis Josué Isaías Salmos Cântico dos Daniel
Cânticos
Êxodo Juízes Jeremias Provérbios Rute Esdras-
Neemias
Levítico Samuel Ezequiel Jó Lamentações Crônicas
Números Reis Os doze Ester
Deuteronômio Eclesiastes

3
Josh McDowell. EVIDÊNCIA QUE EXIGE UM VEREDITO, pp.37-38
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O Tanakh é composto de:

 (Torá) = Lei – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio


 (Nevi’im) = Profetas – Josué, Juízes, I Samuel, II Samuel, I Reis, II Reis, Isaías,
Jeremias, Ezequiel, Os Doze Profetas Menores – Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas,
Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, e Malaquias.
 (Ketubim) = Escritos – Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute,
Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, I Crônicas, e II Crônicas.

Como você pode ver o Tanakh, tem os mesmos livros da nossa Bíblia e a mesma quantidade, a
única diferença é a ordem cronológica ou seja enquanto que na Bíblia Hebraica termina com
Segunda Crônicas, a nossa termina com Malaquias mas isso não muda nada em questão, um
bom exemplo seria por exemplo quando Jesus disse:

“Para que sobre vós caia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o
sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste
entre o santuário e o altar.´´ (Mateus 23:35). Aqui Jesus nos diz da morte de Abel (Gn
4) que era reto perante Deus, quando foi morto pelo seu irmão Caim, até a morte do filho de
Baraquias o equivale ao Profeta Zacarias (Zc 1:1). Isso poderia ser feita com uma comparação
bíblica como de (Gênesis até Malaquias) ou (Abel até Zacarias) que equivaleria o mesmo. E aqui
nós o entendemos, procurando apenas em aumentar o nosso entendimento a Luz da Palavra do
Senhor.

Uma coisa interessante é que na Bíblia Hebraica existe 24 Livros, mas que são exatamente
aqueles que estão na Bíblia Protestante, a onde começa o derramamento do sangue inocente de
Abel (Gênesis), e Zacarias (Malaquias); veja em Segunda Crônicas, “O Senhor enviou-lhes
profetas que deram testemunho contra eles para que se convertessem a ele, mas
não lhes deram ouvidos. Então o Espírito de Deus revestiu Zacarias, filho do
sacerdote Joiadá que, apresentando-se diante do povo, lhes disse: «Assim diz
Deus: Por que transgredis os mandamentos do Senhor? Não tereis êxito, pois, por
ter abandonado o Senhor, ele vos abandonará a vós». Mas eles conspiraram
contra ele, e por ordem do rei, o apedrejaram no átrio da casa do Senhor.” 2
Crónicas 24:17-214

4
Extraído de: https://emdefesadabiblia.wordpress.com/2015/05/15/o-canon-hebraico-na-epoca-de-cristo/
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2.2.3 O cânon do Novo Testamento
O fator básico para determinar a canonicidade do NT foi à inspiração divina, e o principal
teste da inspiração foi a apostolicidade.
Geisler e Nix detalham a respeito: “Na terminologia do NT, a Igreja foi edificada ‘sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas’ (Ef 2.20), os quais Cristo prometera que, pelo Espírito Santo,
iriam guiar ‘a toda a verdade’ (Jo16. 13). Atos 2.42 diz que a igreja em Jerusalém perseverou ‘na doutrina
dos apóstolos e na comunhão’. A palavra apostolicidade, conforme empregada para designar o teste da
canonicidade, não significa obrigatoriamente ‘autoria apostólica’ nem ‘aquilo que foi preparado sob a
direção dos apóstolos...’.
Uma idéia mais apropriada para o teste básico da canonicidade é a autoridade apostólica, ou a
aprovação apostólica, e não simplesmente autoria apostólica.
Há três razões que mostram a necessidade de se definir o cânon do NT:
a) Um herege, Marcião (cerca de 140 a.D.), desenvolveu seu próprio cânon e começou a
divulgá-lo. A igreja precisava contrabalançar essa influência decidindo qual era o verdadeiro
cânon das Escrituras do NT.
b) Muitas igrejas orientais estavam empregando nos cultos livros que eram claramente espúrios.
Isso requeria uma decisão concernente ao cânon.
c) O edito de Diocleciano (303 a.D.) determinou a destruição dos livros sagrados dos cristãos.
Quem desejava morrer por um simples livro religioso? Eles precisavam saber quais eram os
verdadeiros livros.
O testemunho dos pais da igreja confirmam essa formação do NT:
a) Justino Mártir (100-165 AD), ao fazer menção sobre as reuniões dominicais, refere-se à
leitura dos apóstolos e profetas como autoridade eclesiástica.
b) Irineu (180AD), educado aos pés de Policarpo, discípulo de João, foi bispo de Lion, na
Gália, seus escritos reconhecem como canônicos os 4 evangelhos, Atos, Romanos, 1 e 2
Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicences, 1 e 2 Timóteo,
Tito, 1 Pedro e 1 João e Apocalipse.
c) Atanásio de Alexandria (367 A. D) nos apresenta a mais antiga lista de livros do NT que é
exatamente igual à nossa atual.
d) Jerônimo (340-420 AD) e Agostinho (354-430 AD) definiram o cânon de 27 livros.
e) Os concílios da igreja. Quando finalmente um Concílio da Igreja, o Sínodo de Hipona (393
a.D.) elaborou uma lista dos 27 livros do NT, não conferiu-lhes qualquer autoridade que já
não possuíssem.
2.2.4 Implicações do Cânon para a Hermenêutica
 O fato do cânon da Bíblia estar fechado contribui para uma formulação completa do
método hermenêutico que mais se aproxima de uma interpretação exata das
Escrituras.
 A formação do cânon contribui para a compreensão da revelação progressiva, onde a
Palavra de Deus é exposta de maneira exata e contínua.
 A formação do cânon contribui para a relação entre o A.T. e o N.T.
 A formação do cânon contribui para a unidade do A.T.
 A formação do cânon contribui para a unidade do N.T.

 A formação do cânon contribui para uma averiguação dos métodos hermenêuticos


usados durante a história da igreja.

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2.3 A HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO5

No transcurso dos séculos, desde que Deus revelou as Escrituras, tem havido diversos métodos
de estudar a Palavra de Deus. Os intérpretes mais ortodoxos têm encarecido a importância de uma
interpretação literal, pretendendo com isso interpretar a Palavra de Deus da maneira como se interpreta
a comunicação humana normal. Outros têm empregado um método alegórico, e ainda outros têm
examinado letras e palavras tomadas individualmente como possuindo significado secreto que precisa
ser decifrado.
Uma visão geral histórica dessas práticas proporcionará um entendimento dos pressupostos de
outros métodos e a validação daquele que será escolhido como o método que mais se aproxima de uma
interpretação exata.

2.3.1Judaica Antiga
Um estudo da história da interpretação bíblica começa, em geral, com a obra de Esdras.
Ao voltar do exílio na Babilônia, o povo de Israel solicitou a Esdras que lhes lesse o Pentateuco.
Neemias 8.8 lembra: “Leram [Esdras e os levitas] no Livro, na lei de Deus, claramente,
dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia”.
Visto que, durante o período do exílio, os israelitas provavelmente tenham perdido sua
compreensão do hebraico, a maioria dos eruditos bíblicos supõe que Esdras e seus ajudantes traduziam
o texto hebraico e o liam em voz alta em aramaico, acrescentando explicações para esclarecer o
significado. Assim, pois, começou a ciência e arte da interpretação bíblica.
Os escribas que vieram a seguir tiveram grande cuidado em copiar as Escrituras, crendo que
cada letra do texto era a Palavra de Deus inspirada, levando os rabinos a pressupor que sendo Deus o
autor das Escrituras,

(1) o intérprete poderia esperar numerosos significados em determinado texto, e


(2) cada detalhe incidental do texto possuía significado.

O rabi Akiba, no primeiro século da era cristã, finalmente entendeu que isto sustentava que toda
repetição, figura de linguagem, paralelismo, sinônimo, palavra, letra, e até as formas das letras tinham
significados ocultos. Esse “letrismo” foi levado a tal ponto que o significado que o autor tinha em
mente era menosprezado e em seu lugar se introduzia uma especulação fantástica.

2.3.2 Judaica no Tempo de Cristo


No tempo de Cristo, a exegese judaica podia classificar-se em quatro tipos principais:

(1) Literal
O método literal de interpretação, referido como peshat, servia como base para
outros tipos de interpretação. Há para este método uma relativa infreqüência das
interpretações literalísticas da literatura talmúdica, isto é explicado porque este tipo de
comentário devia ser conhecido por todos; e uma vez que não havia disputas a seu
respeito, não era registrado.

(2) Midráshica
Incluía uma variedade de dispositivos hermenêuticos que se haviam desenvolvido
nos tempos de Cristo.
O rabi Hillel, cuja vida antedata a ascensão do Cristianismo por pelo menos uma
geração, é considerado como o elaborador das normas básicas da exegese rabínica que
acentuava a comparação de idéias, palavras ou frases encontradas em mais de um texto, a

5
Virkler, pp 35-55
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relação de princípios gerais com situações particulares, e a importância do contexto na
interpretação.
Contudo, teve continuidade a tendência no sentido de uma exposição mais
fantasiosa em vez de conservadora. Isto resultou numa exegese que (a) dava significado a
textos, frases e palavras sem levar em conta o contexto no qual se tencionava fossem
aplicados; (b) combinava textos que continham palavras ou frases semelhantes, sem
considerar se tais textos referiam-se à mesma idéia; e (c) tomava aspectos incidentais de
gramática e lhes dava significação interpretativa.

(3) Pesher
Esta interpretação existia particularmente entre as comunidades de Qumran. Esta
forma emprestou extensivamente das práticas midráshicas, mas incluía um significado
enfoque escatológico. A comunidade acreditava que tudo quanto os antigos profetas
escreveram tinha significado profético velado que devia ser iminentemente cumprido
por intermédio de sua comunidade do pacto.

Muitas vezes a interpretação pesher era denotada pela frase: “este é aquela”,
indicando que “este presente fenômeno é cumprimento daquela antiga
profecia”.

(4) Alegórica
Esta interpretação baseava-se na idéia de que o verdadeiro sentido jaz sob o
significado literal da Escritura. Historicamente, o alegorismo foi desenvolvido pelos
gregos para reduzir a tensão entre sua tradição de mito religioso e sua herança filosófica.
No tempo de Cristo, os judeus que desejavam permanecer fiéis à tradição mosaica,
mas adotavam a filosófica grega, defrontavam-se com uma tensão semelhante. Alguns
judeus a reduziam alegorizando a tradição mosaica. Filão (c. 20 a.C. – c. 50 d.C.) ficou
bem conhecido neste aspecto.
Filão acreditava que o significado literal da Escritura representava um nível imaturo
de compreensão; sendo o significado alegórico para os maduros. Ele formulou algumas
normas para se usar o método alegórico:

(a) se o significado literal diz algo indigno de Deus,


(b) se a declaração parece ser contraditória a outra declaração da Escritura,
(c) se o registro alega tratar-se de uma alegoria,
(d) se as expressões são dúplices ou se há emprego de palavras supérfluas,
(e) se há repetição de algo já conhecido,
(f) se uma expressão é variada,
(g) se empregam sinônimos,
(h) se for possível um jogo de palavras,
(i) se houver algo anormal em um número ou tempo (verbal), ou
(j) se há presença de símbolos.

2.3.3 Patrística (100 – 600 d.C.)


A despeito da prática dos apóstolos, uma escola de interpretação alegórica dominou a
igreja nos séculos que se sucederam. Esta alegorização derivou-se de um propósito digno – o desejo de
entender o Antigo Testamento como documento cristão. Contudo, o método alegórico segundo
praticado pelos pais da igreja muitas vezes negligenciou por completo o entendimento de um texto e
desenvolveu especulações que o próprio autor nunca teria reconhecido. Uma vez abandonado o sentido
que o autor tinha em mente, conforme expresso por suas próprias palavras e sintaxe, não permaneceu
nenhum princípio regulador que governasse a exegese.

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(1) Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215)
Exegeta renomado, Clemente acreditava que as Escrituras ocultavam seu verdadeiro
significado a fim de que fôssemos inquiridores, e também porque não é bom que todos a
conheçam. Ele desenvolveu a teoria de 5 sentidos ligados à Escritura (histórico,
doutrinal, profético, filosófico, e místico)
(2) Orígenes (185? – 254?)
Orígenes foi o notável sucessor de Clemente. Ele cria ser a Escritura uma vasta
alegoria na qual cada detalhe é simbólico, e dava grande importância a 1 Coríntios 2.6-6
(“falamos a sabedoria de Deus em mistério”).
Ele acreditava que assim como o homem se constitui de 3 partes, da mesma forma a
Escritura possui 3 sentidos: corpo= literal; alma=moral; espírito=alegórico ou místico.
(3) Agostinho (354 – 430)
Em termos de originalidade e gênio, Agostinho foi de longe o maior homem de sua
época. Mas apesar de ter formulado várias regras para a exposição bíblica, na prática, ele
renunciou à maioria de seus princípios e inclinou-se para uma alegorização excessiva.
Ele justificou suas interpretações alegóricas em 2 Coríntios 3.6 (“porque a letra mata,
mas o espírito vivifica”.), querendo com isso dizer que uma interpretação literal da Bíblia
mata, mas uma alegórica ou espiritual vivifica.
Agostinho cria que a Escritura tinha um sentido quádruplo (histórico, etiológico,
analógico, alegórico).
(4) A Escola de Antioquia da Síria
Um grupo de eruditos em Antioquia da Síria tentou evitar o “letrismo” dos judeus e o
alegorismo dos alexandrinos. Eles, e especialmente um de seu grupo, Teodoro de
Mopsuéstia (c. 350 – 428), defendiam com o maior zelo o princípio da interpretação
histórico-gramatical, isto é, que um texto deve ser interpretado segundo as regras da
gramática e os fatos da história.
Evitavam a exegese dogmática, asseverando que uma interpretação deve ser justificada
por um estudo de seu contexto gramático e histórico, e não por um apelo à autoridade.
2.3.4 Medieval (600-1500)
Pouca erudição teve origem na Idade Média; a maior parte dos estudantes da Bíblia
devotava-se a estudar e compilar as obras dos Pais primitivos. A interpretação foi amarrada pela
tradição, e o que se destacava era o método alegórico.
O sentido quádruplo da Escritura de Agostinho era a norma para a interpretação bíblica. Esses 4
níveis de significação eram tidos como existentes em toda passagem bíblica:
 A letra mostra-nos o que Deus e nossos pais fizeram;
 A alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé;
 O significado moral dá-nos as regras da vida diária;
 A anagogia mostra-nos onde terminamos nossa luta.
Durante esse período, aceitou-se geralmente o princípio de que qualquer interpretação de um
texto bíblico devia adaptar-se à tradição e à doutrina da igreja. A fonte de teologia dogmática não era só
a Bíblia conforme a tradição da igreja a interpretava.
Embora predominasse o método quádruplo de interpretação, durante o último período
medieval, outros tipos de exegese ainda estavam sendo desenvolvidos. Entre alguns grupos, porém,
podia ser encontrado um método de interpretação mais científico. Os judeus espanhóis dos séculos XII
e XV incentivaram o retorno a um método de interpretação histórico-gramatical. Nicolau de Lyra (1270?
– 1340?) foi um homem que causou significativo impacto sobre o retorno à interpretação literal.
Embora concordasse em que há 4 sentidos relacionados com as Escrituras, ele deu indiscutível
preferência ao sentido literal e insistiu em que os demais sentidos se alicerçassem firmemente no literal.

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2.3.5 Reforma (Século XVI)

Nos séculos XIV e XV predominava profunda ignorância concernente ao conteúdo da


Escritura: alguns doutores de teologia nunca haviam lida a Bíblia toda. A Renascença chamou a atenção
para a necessidade de conhecer as línguas originais a fim de entender-se a Bíblia. Erasmo facilitou este
estudo ao publicar a primeira edição de crítica ao Novo Testamento grego, e Reuchlin com sua tradução
de uma gramática e léxico hebraicos. O sentido quádruplo da Escritura foi, aos poucos, deixado de lado
e substituído pelo princípio de que a Escritura tem apenas um único sentido.

(1) Lutero (1483 – 1546)


Lutero asseverava que a Bíblia devia ser vista com os olhos inteiramente distintos
daqueles com os quais vemos outras produções literárias. Ele também sustentava que a
igreja não deveria determinar o que as Escrituras ensinam; pelo contrário, as Escrituras é
que deveriam determinar o que a igreja ensina. Rejeitou o método alegórico de
interpretação, chamando-o de “sujeira”, “escória”, e “um monte de trapos obsoletos”.
De acordo com Lutero, uma interpretação adequada da Escritura deve proceder de
uma compreensão literal do texto, considerando suas condições históricas, gramaticais e
contextuais.

(2) Calvino (1509 – 1564)


O maior exegeta da Reforma foi, provavelmente, Calvino, que concordava, em geral,
com os princípios articulados por Lutero. Ele também considerava a interpretação
alegórica como uma artimanha de Satanás para obscurecer o sentido da Escritura.
“A Escritura interpreta a Escritura” era uma sentença predileta de Calvino, a qual
aludia à importância que ele dava ao estudo do contexto, da gramática, das palavras, e de
passagens paralelas, em lugar de trazer para o texto o significado do próprio intérprete.

2.3.6 Pós-Reforma (1550 – 1800)

(1) Confessionalismo
O Concílio de Trento reuniu-se em várias ocasiões de 1545 a 1563 e elaborou uma
lista de decretos expondo os dogmas da igreja católica romana e criticando o
protestantismo. Os protestantes reagiram com o desenvolvimento de credos que
definiam sua posição.
Os métodos hermenêuticos durante este período eram deficientes porque a exegese
se tornou uma criada da dogmática, e muitas vezes desegerou-se em mera escolha de
texto para comprovação.

(2) Pietismo
O pietismo surgiu como reação à exegese dogmática e muitas vezes amarga do
período confessional. Philip Jakob Spener (1635 – 1705) é considerado o líder do
reavivamento pietista. Num folheto intitulado Anseios Piedosos ele pedia o fim da
controvérsia inútil, o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas obras; melhor
conhecimento da Bíblia por parte dos cristãos, melhor preparo espiritual para os
ministros.
O pietismo fez significativas contribuições para o estudo da Escritura. Nos seus
mais sublimes momentos os pietistas uniram um profundo desejo de entender a Palavra
de Deus a apropriar-se dela para suas vidas com uma excelente apreciação da
interpretação histórico-gramatical. Contudo, muitos pietistas mais recentes descartaram a
base de interpretação histórico-gramatical, e passaram a depender de uma “luz interior”
ou de “uma unção do Santo”. Isso os afastaram de um significado correto do texto.

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(3) Racionalismo
Esse movimento sustentava que o intelecto sabe discernir o que é verdadeiro e o que
é falso. Portanto, a Bíblia está certa se corresponde à razão humana, e o que não
corresponde pode ser ignorado ou rejeitado.

O judeu Baruch Spinoza (1632 – 1677) foi um filósofo holandês que ensinava que a
razão humana está desvinculada da teologia. A teologia (revelação) e a filosofia (razão)
pertencem a campos distintos. Assim sendo, ele contestava os milagres bíblicos. O que
determinou foi que a razão é o critério absoluto para julgar qualquer interpretação de
uma passagem bíblica: “A regra da exegese bíblica só pode ser a luz da razão, para todos.” ··.

2.3.7 Moderna (1800 até o Presente)

(1) Liberalismo
O racionalismo filosófico lançou a base do liberalismo teológico. Ao passo que nos
séculos anteriores a revelação havia determinado o que a razão devia pensar, no final do
século XIX a razão determinava que partes da revelação (se houvesse alguma) deviam
ser aceitas como verdadeiras.
Alguns pressupostos determinaram o rumo da Hermenêutica neste período:
(a) o foco na autoria humana (graus de inspiração);
(b) a negação do caráter sobrenatural da inspiração;
(c) naturalismo consumado, ou seja, rejeitavam tudo o que não estivesse conforma à
“mentalidade instruída”; etc.
Cada um desses pressupostos influenciou profundamente a credibilidade que os
intérpretes davam ao texto bíblico,e desse modo, teve importantes implicações para os
métodos interpretativos. Era freqüente a mudança do próprio foco interpretativo: A
pergunta dos eruditos já não era “Que é que Deus diz no texto?”, e sim, “Que é que o texto me
diz a respeito do desenvolvimento da consciência religiosa deste primitivo culto hebraico?”.

(2) Neo-ortodoxia
A neo-ortodoxia é um fenômeno do século XX. Ocupa, em alguns aspectos, uma
posição intermediária entre os pontos de vista liberal e ortodoxo. Os que se encontram
dentro desses círculos geralmente crêem que a Deus é o testemunho do homem à
revelação que Deus faz de si próprio. Sustentam que Deus não se revela em palavras,
mas apenas por sua presença. Quando alguém lê as palavras da Deus e reage com fé à
presença divina, ocorre a revelação.
A revelação não é considerada como algo ocorrido num ponto histórico, o qual
agora nos é transmitido nos textos bíblicos, mas uma experiência presente que deve
fazer-se acompanhar de uma reação existencial pessoal.
A principal tarefa do intérprete é, pois, despir o mito de seus envoltórios históricos a
fim de descobrir a verdade existencial que ele contém.

(3) A Nova Hermenêutica


A “nova hermenêutica” tem sido, antes de tudo, uma criação européia a partir da II
Guerra Mundial. Emergiu basicamente da obra de Bultmann e foi levada adiante por
Ernest Fuchs e Gerhard Ebeling. Muito do que foi dito com vistas à neo-ortodoxia
aplica-se também a esta categoria de interpretação.
A linguagem, dizem eles, não é realidade, mas apenas uma interpretação pessoal da
realidade. O uso que fazemos da linguagem é, por uma hermenêutica – uma
interpretação.

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(*) Durante os últimos 200 anos continuou a haver intérpretes que criam que Deus
representava a revelação que faz de si próprio – de suas palavras e de suas ações – à
humanidade. A tarefa do intérprete tem sido procurar compreender mais plenamente o
significado intencional do primitivo autor.

2.3.8 Conclusão
Além do método literal de interpretação da Escritura, quatro outros métodos
predominaram em várias fases da história da igreja: o alegórico, que praticamente deixa de lado o literal; o
tradicional, que em grande parte abandona o individual; o racionalista, que descarta o sobrenatural e o
subjetivo, que desconsidera o objetivo.
Essa breve retrospectiva da história da hermenêutica mostra a importância de os evangélicos
continuarem a enfatizar a interpretação histórica, gramatical e literária da Bíblia. Somente esta capacita
os cristãos a entenderem a Palavra de Deus corretamente, como fundamento que é uma vida piedosa.

A história mostra que a utilização de princípios errados


prejudicou o trabalho exegético de grandes homens, alguns dos
quais foram santos extraordinários. Este fato deve servir de alerta
para nós contra a interpretação descuidada. Temos ainda menos
desculpas pelo fato de podermos aprender com as lições do
passado.

A INTERPRETAÇÃO COMO RISCO


Quando falamos sobre o conceito de hermenêutica, afirmamos que ela é a ciência da
interpretação. Evidentemente, o que dissemos nos coloca diante de um problema. Por um lado é
obvio que não podemos prescindir da interpretação hermenêutica, e por outro lado existem
possibilidades de que a interpretação seja incorreta, que no lugar de esclarecer possa criar confusão.
A tarefa de interpretação se nos apresenta como uma faca de dois gumes.

Os problemas existentes entre judeus e cristãos, sem dúvida, começam pela forma de
interpretar o Antigo Testamento. As diferenças confessionais dentro do próprio cristianismo são
essencialmente diferenças de interpretação. O que separa protestantes de católicos é, em sínteses,
uma discrepância exegética em torno do texto de Mateus 1.18.

A Igreja Católica, de alguma forma, resolveu tradicionalmente o problema mediante a


autoridade do seu colegiado. É ele que decide a interpretação correta, infalível das escrituras. A
partir do Concílio Vaticano II, esta postura foi amenizada. Foi concedida uma maior liberdade para a
interpretação das Escrituras, permitindo aos católicos fugir dos rígidos moldes dogmáticos da Igreja,
e chegarem a interpretações similares aos protestantes. Entretanto, oficialmente, dentro do
catolicismo é o colegiado da Igreja quem tem a última palavra na determinação do significado do
texto bíblico.

Já os reformadores do século XVI diziam que a autoridade final da interpretação das


Escrituras não é a Igreja, mas a própria Escritura. Nenhuma passagem bíblica deveria submeter-
se à tradição, ou ser interpretada isoladamente, fora do seu contexto.

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A NATUREZA E A CARACTERÍSTICA DA BÍBLIA

Todo intérprete, antes de iniciar o seu trabalho, há de ter uma idéia clara das
características do texto que vai interpretar. Ao ocupar-nos da interpretação da Bíblia, temos
que fazer algumas perguntas: Que lugar ocupa estes livros na literatura universal? São
produções comparáveis aos livros sagrados de outras religiões? Constituem simplesmente o
testemunho da experiência religiosa de um povo moldado pela agilidade de seus legisladores,
poetas, moralistas e profetas? Obviamente, as respostas a estas perguntas desempenham um
papel importante e decisivo na interpretação das Escrituras.

O TESTEMUNHO DA PRÓPRIA BÍBLIA

Não se pode negar que a Bíblia, em seu conjunto, é de origem divina, recolhe a mensagem
de Deus dirigida aos homens e mulheres de modos diversos, em diferentes épocas. São abundantes
os textos bíblicos que testificam que a Bíblia tem uma revelação especial de Deus.

Uma das frases mais repetidas no Antigo Testamento é: “E disse Deus”; ou “... a Palavra
de Deus”. Esta palavra de Deus é criadora e normativa desde o princípio da história de Israel (Êxodo
4.28; 19.6; 20.1-17; 24.3; Números 3.16, Deuteronômio 2.2,17; 5.5-22; 29.1-30). Israel adquire
plena consciência de sua entidade histórica sob a influência dos grandes atos de Deus, e da
interpretação verbal da boca dos profetas.
Além disso, a Palavra de Deus está entrelaçada com a história do povo israelita, não só no
seu começo, mas ao longo dos séculos.

A riqueza do conteúdo da Palavra de Deus e a coerência harmônica de sua mensagem não


se detêm como uma simples acumulação de fatos, idéias e experiências religiosas, porém como um
processo seguido por uma finalidade, como um conjunto em que as partes se encaixam entre si, e
respondem a esta finalidade.

A História de Israel, como aparece nas Escrituras, é um todo orgânico, e não um conjunto
de histórias. Não é fácil explicar esta característica da Bíblia em geral, se não admitimos a realidade
da ação de Deus, tanto na revelação como preservação e ordenação das Escrituras.

Quando passamos ao Novo Testamento, observa-se igualmente o lugar preponderante da


Palavra de Deus. Os evangelistas testemunham de tudo o que disse e fez Jesus (1João 1.1-3), vêem
em Cristo a culminação da revelação de Deus. Ele foi a Palavra de Deus encarnada (João 1.14,18). A
comunicação divina não se extingue com o ministério de Jesus, se complementaria como o
testemunho e o magistério dos apóstolos sob a direção do Espírito Santo (João 14.26). é assim que
atribuímos à Bíblia a função de testemunhar do registro da revelação de Deus ao ser humano.

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A CREDIBILIDADE DA REVELAÇÃO

A credibilidade da revelação bíblica é avaliada por sua unidade essencial na


diversidade de suas formas, e em seu caráter progressivo. Seus variados elementos
teológicos, éticos, rituais ou cerimônias, constituem um todo harmônico que mantém tanto
os atributos e as obras de Deus, como o relato da condição moral do homem, a sua
relação com Deus, o culto, a conduta etc. no centro de tudo isto está Deus.
Paulatinamente, deste centro vai emergindo a figura do Messias redentor, em quem
culmina todo o processo da revelação.

INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

Este é um dos pontos mais controvertidos da teologia cristã. Ainda que a revelação dê
origem às Escrituras, fica por determinar até que ponto e com que grau de fidelidade, e
fidedignidade, o escritor bíblico expressou o revelado por Deus.

Anteriormente, falei da humildade que precisa ter o hermeneuta. Quero voltar ao


tema para esclarecer o seguinte: somos elementos indispensáveis, porque Deus nos quis
usar como testemunhos de sua Palavra.

Assim, somos indispensáveis neste processo hermenêutico. Acompanhados pelo Espírito


Santo, o segundo elemento neste processo de interpretar a Palavra de Deus.

O que temos que entender é que a inspiração da Palavra de Deus é uma obra de
Deus, e do seu Espírito Santo, que trabalha neste processo desde o princípio, até que o
homem dê forma a esta Palavra, para que ela seja inteligível razão humana.

DIMENSÕES DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Não é finalidade única da hermenêutica bíblica orientar-nos para captar o significado


original de um texto. Isto pode ser suficiente quando interpretamos outras produções literárias. Mas
se aceitamos a Bíblia como veículo de verdades transcendentais, a missão da exegese não chega ao
seu fim enquanto não se chega à compreensão destas verdades.

Temos que entender que não podemos chegar à compreensão profunda, e ao


mesmo tempo correta de um texto, sem uma análise cuidadosa que nos permita chegar a
descobrir o que o escritor intentava, e a aplicação de sua mensagem ao nosso próprio
contexto. Se fazemos caso omisso deste objetivo primário, podemos converter a
hermenêutica em mera especulação, e a interpretação se converterá em adulteração.

Isto nos leva ao campo da contextualização, isto é, à determinação de relações existentes


entre o texto da Escritura e o contexto existencial; ou situação vital, tanto do escritor como do
intérprete, qualquer que seja o lugar, a época e a circunstância histórica em que este viva.

É necessária uma comunicação entre o autor bíblico (e o seu mundo) e o intérprete (e o seu
mundo), e isto nos leva ao “diálogo”. Neste diálogo, o intérprete inicia sua tarefa com sua
compreensão prévia do texto, a qual é confirmada ou pode ser modificada pela luz que o texto lança
sobre ela.

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Ao que foi dito anteriormente quero agregar uma observação sobre aqueles textos a que se
pode atribuir mais de um significado válido. Não nos referimos às inúmeras interpretações
alegóricas que se pode fazer de muitas passagens, mas à pluralidade de sentidos de alguns destes
textos. Além do que se passou na própria mente do autor, entretanto, também existe um sentido
diferente, mais profundo, que estava na mente de Deus, que sem contradizer o primeiro, o
transcende.

É o que se tem chamado de Sentido Pleno, plena sensibilidade da Escritura. Por exemplo, o
texto de Isaías 7.14, relativo ao Emanuel, se referia a um acontecimento próximo à profecia, mas o
alcance pleno do seu significado, ao menos na expectativa messiânica que nos oferece o novo
Testamento, será encontrado posteriormente em Mateus 1.23.

OS REQUISITOS DO INTÉRPRETE

_____________________________. É obvio que no trabalho do exegeta influem vários


fatores conscientes ou inconscientes. O intérprete atua soa a ação de condições filosóficas,
históricas, psicológicas, e, inclusive, religiosas. Isto acontece não só na interpretação de fatos
históricos, ou na forma de pensar. Assim, temos que ser muito objetivos em nossa interpretação.

________________________________. Modos diferentes de nos acercarmos da Bíblia


são-nos apresentados, primeiro de forma devocional, e, em segundo lugar, de forma racional. O
primeiro modo nos leva ao texto em busca de lições espirituais, tirando do intérprete o desejo de
conhecer o pensamento do escritor bíblico.
O segundo modo, com toda a sua diversidade e tendências, analisa a Escritura
submetendo-a à pressão de rígidas interpretações. Tanto no primeiro como no segundo caso, se dá
pouca importância ao significado original do texto que se está examinando. Não se pesquisa o que o
autor quis expressar. Em ambos os casos faltam o rigor científico.

O exegeta deve estar consciente e capacitado para aplicar ao seu estudo da Bíblia os
mesmos critérios que segue na interpretação de qualquer texto literário, preocupar-se com a crítica
textual, análise lingüística, fundo histórico e tudo quanto possa contribuir e esclarecer o significado
do texto (arquielogia, filosofia, antropologia etc.). o intérprete deve saber manejar cientificamente o
texto bíblico.

________________________________. Nunca saberemos tudo sobre o texto. Não somos


infalíveis. Devemos ser prudentes nas conclusões e significados em nosso processo hermenêutico.
Além dessas características gerais, outras mais específicas são esperadas dele, que serão
apresentadas a seguir:

_________________________________________. (1Coríntios 2.14; Salmo 119.18).

________________________________________. O verdadeiro intérprete das Escrituras


não se limita ao estudo frio da Bíblia, como se fosse um trabalho de laboratório. Por grande que seja
sua erudição, isso não suficiente para fazer reviver o espírito e o propósito originais da revelação.
Tampouco basta uma atitude pietista, se ela está desencarnada da Palavra de Deus. Devemos
encarnar a Palavra de Deus dentro do nosso entendimento e contexto social, moral, político ou
mesmo religioso.

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________________________________________________. Em última análise, a missão


do intérprete é servir de ponte entre o autor do texto e o leitor. Como já comentamos, não podemos
pensar na mensagem profética de Amós, suas denúncias sobre a injustiça social de seus
contemporâneos, e ficarmos somente com uma interpretação histórica dos acontecimentos do seu
ministério ou uma análise lingüística do seu discursos, como se essas coisas esgotassem os nossos
esforço hermenêutico.

Falta ainda a tomada de consciência dos problemas em Amós e aplica-los aos problemas
do mundo em que vivemos. Temos que descobrir os paralelos existentes entre os dois mundos: o do
autor bíblico e o nosso próprio mundo. Isso fará a interpretação de Amós mais atrativa e
diferenciada.

Em nossa época, tem-se obscurecido a relação viva com a Palavra. Não obstante, devemos
fazer o esforço de interpretar os sinais de nossos dias. É verdade que os nossos conhecimentos
filológicos, arqueológicos e filosóficos, bem como sociais, progrediram muito, na ajuda da
interpretação bíblica. Nossa inteligência teórica das Escrituras tem, na atualidade, uma precisão
metódica sem precedentes, capaz de abarcar as informações com uma força sistemática inigualável.

A idéia direta que nós queremos forjar da realidade bíblica é mais que científica; ela é
também determinante para a vida dos homens. Às vezes perdemos o caminho das origens e da
eternidade, onde cada qual pode encontrar o que pessoalmente quer. E não temos deixado a voz de
Deus falar. A responsabilidade do intérprete é fazer a voz de Deus ser ouvida novamente.

INFALIBILIDADE E INERRÂNCIA

Ambos os conceitos, aplicados à Escritura, são amplamente aceitos com as devidas


observações. Ambos os conceitos se desprendem da inspiração da Escritura. Entretanto, os termos
são mais teológicos que bíblicos. Por este motivo, temos que ser cautelosos em toda formulação
dogmática sobre estas características da Bíblia.

O antônimo de infalibilidade é falibilidade, que se deriva do latim falíeri, que quer dizer
enganar, induzir ao erro, ser infiel no cumprir, trair-se.Neste sentido, se pode dizer que a Bíblia é
infalível. A Bíblia não nos induz a erros, a enganos, não nos trai. Já o vocábulo “inerrância”, que é
um neologismo teológico, indica a ausência de erros nos livros da Bíblia.

Que amplitude deve dar-se a estes conceitos? A tendência mais generalizada em credos e
declarações de fé tem sido a de aceitar a infalibilidade das Escrituras em todo o concernente às
questões de fé e conduta, enquanto que a inerrância se tem aplicado especialmente aos fatos
históricos em sua relação com a obra redentora.

Mais além destas posições há quem defenda a inerrância levando-a a


extremos, afirmando com veemência que na Bíblia não existe nenhuma classe de erros,
nem sequer os derivados das cópias durante a história.

Em sentido oposto, tampouco faltou quem só reconhecesse a fidedignidade da Escritura no


tocante a matérias doutrinárias e éticas, enquanto negam a inerrância no tocante a relatos históricos.
Ambas as posturas são de alguma forma inconvenientes. A primeira padece de falta de objetividade;
a segunda, de excesso de objetividade.
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Ao falar de infalibilidade e inerrância, não podemos perder de vista que a finalidade


da Escritura não é servir de enciclopédia, à qual recorremos em busca de informação sobre
qualquer tema. Nenhum de seus livros foi escrito para ensinar cosmologia, biologia, antropologia,
ou mesmo a história em um sentido científico. A revelação, e, por conseguinte, a Escritura, tem
por objetivo dar ao homem o conhecimento de Deus, de si mesmo e de sua salvação, entendidas
estas em suas dimensões individuais e sociais, temporais e eternas.

O PERMANENTE E O TEMPORAL DA ESCRITURA

Uma questão importante ao interpretar a Bíblia é a determinação dos elementos que


têm um caráter invariável e geral (universais) e dos que somente foram transitórios ou
particulares (contextuais). Atribuir a todos os textos indiscriminadamente uma vigência
universal nos levaria a grandes erros de hermenêutica.

PONTOS CLAROS E PONTOS OBSCUROS

Paralelamente sobre aquilo que é essencial e secundários na Bíblia, podemos referir-nos ao


fato inegável de que nem todas as partes da Bíblia apresentam idêntica claridade. Tanto os eventos
mais sobressalentes na história da salvação, como as verdades básicas relativas a Deus e a sua obra
redentora, aparecem na revelação com clareza.
É claro, entretanto, que de algum modo os pontos mais obscuros são os menos importantes
e relevantes. Isso não deve nos impedir de estuda-los com profundo interesse.

A este fato nem sempre se conforma o teólogo, tão dado a ligar tudo solidamente em seu
ideal sistematizador. O intérprete da Bíblia há de recordar a cada momento, e com humildade, que
“somente em parte conhecemos e em parte profetizamos” (1Coríntios 13.9).

A PRÁTICA DA HERMENÊUTICA

A interpretação hermenêutica está vinculada a duas coisas importantes. Primeiro, à hermenêutica de


autor; em segundo lugar, à hermenêutica de texto.

A HERMENÊUTICA DE AUTOR

Quando nos enfrentamos com um texto, o que queremos entender e explicar? A


experiência do autor? O texto e sua objetivação? A minha existência? Este é um problema sério, que
divide as opiniões dos hermeneutas e exegetas.

Schleiermacher é um teólogo que insiste no autor, tanto que chega a dizer que para
compreender um texto devemos entrar na mente do autor, identificar-nos com ele. Dilthey fala de
chegar à experiência total; repetir em nós a globalidade da experiência do autor, entrando em seu
sentir total (emotivo e passional). Gunkel convida o intérprete a interpretar e a entrar na mente do
autor.

Deste ponto de vista, o sentido do texto vem definido pela intenção do autor. O leitor, para
entender o texto, deve encontrar-se com a intenção do autor. Para compreender o texto devo
compreender aquilo que quis dizer o autor, porque a chave da interpretação está na intenção do
autor.

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Se aceitamos esta proposição, pode-se enunciar como primeiro princípio hermenêutico a


intencionalidade do autor. Entretanto, este não é o único princípio para compreender um texto. A
intenção do autor não suficiente. Ela me facilita a totalidade do sentido do texto e assegura-me sua
objetividade. A intenção do autor é um grande princípio, mas de nenhuma maneira é o único.

Segundo esta primeira abordagem hermenêutica, é importantíssimo chegar à intenção do


autor, ou ao menos à sua escola literária, e à sua época contextual. Este tipo de hermenêutica,
aplicada de forma exclusiva a um texto literário, nos leva às seguintes conclusões:

- Neutralidade. À força de evitar prejuízos, paixões e fantasias, um texto rico em si é


convertido em um texto irrelevante. A imparcialidade total desemboca em uma exegese asséptica,
clínica;

- Distanciamento. No campo bíblico, terminado a exegese, em um segundo ato, o líder da


igreja o aplica à comunidade. O estudo científico corre o perigo de distanciar-se da vida. A exegese
científica não serve à comunidade porque ambos constituem dois mundos separados.

A HERMENÊUTICA DE TEXTO

Vimos que a hermenêutica de autor se revela como insuficiente para uma compreensão e
interpretação adequada da obra literária. Existe outro caminho, uma outra teoria que facilita a
interpretação e que tem em conta os diversos fatores implicados nela: uma hermenêutica de texto.
Há três fatores importantes nesta interpretação hermenêutica: autor, obra e receptor.

Autor. Queremos conhecer o autor, com sua complexidade e riqueza. A obra é só


mediadora, pois queremos compreender por ela o autor. O importante não é a obra, mas o autor e sua
experiência concreta. Esta é uma visão de tipo psicologista. Nesta teoria, o texto praticamente
desaparece, é só um trampolim para chegar à experiência do autor e à sua vivência contextual.
Contudo, já explicamos que esta não é a única forma da interpretação hermenêutica.

A obra. Esta é a tendência mais objetiva e atual. A obra literária nasce de um autor, mas
não deixa de ser uma realidade autônoma, isto é, ela é adulta. A obra é um sistema preciso de
palavras, ordenado e significativo; é uma estrutura ou um sistema de estruturas. Como estrutura
feita, é um ato realizado e ao mesmo tempo uma potencia que pede para ser atualizada. A obra está
aí, à nossa disposição, convidando a entrar nela e a ser descoberta em suas múltiplas facetas e
possibilidades de comunicação. Deste ponto de vista não cabe o exclusivismo do texto. Faz-se
necessária a presença do sujeito, do intérprete, do leitor.

O leitor. O leitor é provocado pela obra para conhecer-se a si mesmo, em sua


autenticidade ou em sua falsidade. A Bíblia é lida para o leitor auto-entender-se, reformar-se e
transformar-se; para passar da falsidade à autenticidade existencial. O texto não é mais que uma
“revolução” provocando o leitor para enfrentar-se consigo mesmo. A obra serve para desmascarar,
para confrontar, para encontrar a verdade existencial do leitor.

PROF. PR. FÁBIO REIS 31


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A obra literária é o produto de um autor dirigido a um leitor. Esta comunicação realiza-se
sobre um tema em uma linguagem concreta. O objeto da interpretação literária pode ser o autor, a
obra, ou minha compreensão como leitor, relacionando os três fatores, sem exclusivismo.

Finalmente, o grande problema no processo da interpretação bíblica é a questão da pratica.


Hoje, tanto o religioso como o não-religioso estão lutando com esta questão. Por quê? Porque tanto
no cristianismo ou fora dele a verdade deveria ser algo encontrado em nossas atitudes diárias.

O conceito hebreu da palavra “verdade” significa muito mais que a simples coerência
teórica, ou exatidão empírica. Significa fidelidade, integridade e autenticidade. O contrário é
falsidade e engano. Deus é verdade, faz a verdade, diz a verdade e conhece a verdade. Deus não
engana, nem atua nunca com falsidade.

Não é nada fácil interpretar com exatidão a Bíblia e anunciar com nitidez a verdade de
Deus. Por isso o apóstolo exortou seu amado discípulo a que procurasse com diligência apresentar-
se como obreiro aprovado por Deus, que não tivesse de que se envergonhar, e que usasse com
responsabilidade a Palavra da verdade (2Timóteo 2.15). o discípulo tem que deixar as fábulas e
ocupar-se em ler, e pensar que sua tarefa hermenêutica é fundamentalmente a interpretação da
Palavra de Deus no exercício do seu ministério.

2.4 AS LEIS BÁSICAS DA HERMENÊUTICA6

 _________________________________________________.
O que a Bíblia diz, Deus diz. Por isso, a Bíblia possue suprema autoridade.
Ex.: 2 Tm 3:16-17

 __________________________________________________.
A Bíblia é o seu próprio ( e melhor) intérprete, ela não se contradiz.
Ex.: 1 Co 7.20

 __________________________________________________.
A Bíblia é literatura como qualquer outro livro e conseqüentemente, suas palavras devem ser
entendidas de forma literal ( a menos que o autor esteja usando uma figura de linguagem).
Ex.: Arca de Noé

 ___________________________________________________.
As palavras das Escrituras devem ser interpretadas no seu sentido natural, literal, de acordo
com as regras comuns da gramática:
 Uma palavra tem somente um sentido literal quando usada numa sentença
 O sentido de uma palavra é ligada à sentença por meio de regras gramaticais
 O sentido da palavra deve ser derivado do seu contexto
Ex.: Ef 1.7

 _____________________________________________________.
A Bíblia foi escrita (completada) há dois mil anos atrás. É um registro histórico de eventos
que de fato aconteceram -- e não mitologia criada na imaginação de alguém. Desde que se
originou num contexto histórico, só pode ser compreendida à luz das história bíblica.
Ex.: At 2
*** Estas leis básicas se aplicam a todos os gêneros, estilos e princípios da hermenêutica.

6
Davi Cox Jr. Apostila de MÉTODOS DE ESTUDO BÍBLICO, p.33
PROF. PR. FÁBIO REIS 32
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CAPÍTULO 3 - O USO DA HERMENÊUTICA
3.1 EXEGESE
Exegese é a aplicação dos princípios da hermenêutica para chegar-se a um entendimento correto
do texto. O prefixo grego ex (‘fora de’, ‘para fora’, ou ‘de’) refere-se à idéia de que o intérprete está
tentando derivar seu entendimento do texto, em vez de ler seu significado no (‘para dentro’) texto
(eisegese).

“A exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para


descrever o significado original que foi pretendido. A exegese é
basicamente uma tarefa histórica. É a tentativa de escutar a Palavra
conforme os destinatários originais devem tê-los ouvido; descobrir qual era
a intenção original das palavras da Bíblia”.7
(Entendes o que lês?)

A chave à boa exegese, e, portanto, a uma leitura mais inteligente da Bíblia, é aprender a ler
cuidadosamente o texto e fazer as perguntas certas ao texto. Há duas perguntas básicas que devemos
fazer a cada passagem bíblica: aquelas que dizem respeito ao contexto e aquelas que dizem respeito ao
conteúdo. As perguntas sobre o contexto também são de dois tipos: históricas e literárias.8

3.1.1 Contexto

(1) Contexto Histórico


O contexto histórico, que diferirá de livro para livro, tem a ver com várias coisas: a
época e a cultura do autor e dos seus leitores, ou seja; os fatores geográficos, topográficos e
políticos que são relevantes ao âmbito do autor; e a ocasião do livro, carta, salmo, oráculo
profético, ou outro gênero. Todos os assuntos deste tipo são especialmente importante
para a compreensão.

Ex.: Livro de Atos – época


Livro de Juízes – cultura
Epístola de Judas – ocasião

A questão mais importante do contexto histórico, no entanto, tem a ver com a


ocasião e o propósito de cada livro bíblico e/ou das suas várias partes. Aqui, desejamos ter
uma idéia daquilo que estava acontecendo em Israel, ou na Igreja, que ocasionou o
surgimento de semelhante documento, ou qual era a situação do autor que o levou a
escrever.

(2) Contexto Literário


Essencialmente, o contexto literário significa que as palavras somente fazem
sentido dentro das frases, e, na sua maior parte, as frases na Bíblia somente têm
significado em relação às frases anteriores e posteriores.
A pergunta contextual mais importante que você poderá fazer deve ser feita
repetidas vezes acerca de cada frase e de cada parágrafo, é: “Qual é a razão disto?”
Devemos procurar descobrir a linha de pensamento do autor. O que o autor está
dizendo e por que o diz exatamente aqui? Tendo ensinado esta lição, o que ele está
dizendo em seguida, e por quê?
Ex.: Jo 11:35

7
Fee e Stuart. ENTENDES O QUE LÊS? p.19
8
Fee e Stuart, p.22
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3.1.2 Conteúdo

A segunda categoria maior de perguntas que a pessoa deve fazer a qualquer texto tem a
ver com o conteúdo real do autor. “Conteúdo” tem a ver com os significados das palavras, com
os relacionamentos gramaticais nas frases, e com a escolha do texto original onde os
manuscritos têm textos variantes. Inclui, também, certo número dos itens mencionados supra
em “contexto histórico”:·

Ex.: o significado de “denário”


“ Uma jornada de um sábado”
“ Lugares altos”

Na sua maior parte, estas são as perguntas normais quanto ao sentido, que fazemos
comumente ao texto bíblico.

Ex.: Quando Paulo diz em 2 Coríntios 5.16: “ Se antes conhecemos a Cristo segundo a
carne, já agora não o conhecemos deste modo,” iremos querer saber: Quem estava “segundo
a carne”, Cristo, ou a pessoa que conhecia a Ele? Faz uma diferença considerável
quanto ao significado saber que já não conhecemos a Cristo “de um modo de vista
mundano”, que é o que Paulo quer dizer, e não que já não conhecemos a Cristo
“na Sua vida terrestre.”

Neste ponto talvez o estudante bíblico sinta necessidade de ajuda externa para chegar a
uma conclusão certa do texto. Na maior parte das vezes, portanto, você pode fazer boa exegese
com uma quantidade mínima de ajuda externa, posto que tal ajuda seja da mais alta qualidade.
Há quatro ferramentas básicas de auxílio para o estudante de hermenêutica e exegese:

 Um bom dicionário da Bíblia


 Um bom manual bíblico (ou introdução à Bíblia)
 Uma boa tradução da Bíblia
 Bons comentários bíblicos.

Ps.  Para uma leitura complementar sobre “ajudas externas” ler apêndice 1 do livro
ENTENDES O QUE LÊS? Fee & Stuart, Ed. Vida Nova.

3.2 TEOLOGIA SISTEMÁTICA E TEOLOGIA BÍBLICA

3.2.1 Definições
Seguindo a exegese estão os campos gêmeos da teologia bíblica e da teologia sistemática.
Teologia bíblica é o estudo da revelação divina no Antigo e no Novo Testamentos. Donald Carson a
define como: “um ramo da teologia cuja preocupação é estudar cada segmento das Escrituras individualmente,
especialmente quanto ao seu lugar na história da revelação progressiva de Deus.”9 Ela indaga: “Como foi que esta
revelação específica contribuiu para o conhecimento que os crentes já possuíam naquele tempo? Tenta
mostrar o desenvolvimento do conhecimento teológico através dos tempos do Antigo e Novo
Testamento.10

Contrastando com a teologia bíblica, a teologia sistemática organiza os dados bíblicos de uma
maneira lógica antes que histórica. Tenta reunir toda a informação sobre determinado tópico (e.g., a
natureza de Deus, a natureza da vida no além, o ministério de anjos) de sorte que possamos entender a
totalidade da revelação de Deus a nós sobre esse tópico. Carson a define como o ramo da teologia que visa

9
Donald Carson. TEOLOGIA BÍBLICA OU TEOLOGIA SISTEMÁTICA? , p. 27
10
Virkler, p.11
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elaborar o todo e as partes da Escritura, demonstrando suas conexões lógicas (não apenas históricas), dando pleno
reconhecimento à história da doutrina, ao clima intelectual e às categorias e indagações contemporâneas, tendo sua base de
autoridade final nas Escrituras, propriamente interpretadas. Teologia Sistemática lida com a Bíblia como um
produto pronto.11
A teologia bíblica e a sistemática são campos complementares; juntas elas nos proporcionam
maior entendimento do que qualquer uma delas isoladamente.

3.2.2 Implicações do uso da hermenêutica para as teologias

(1) O lugar da hermenêutica com outros campos de estudo bíblico


Henry Virkler sugere qual é o papel decisivo e central que a hermenêutica
desempenha no desenvolvimento de uma teologia adequada. No diagrama abaixo ele
resume essa discussão.12
Teologia Bíblica

Estudo Crítica Crítica Hermenêutica


Do Cânon Textual Histórica (exegese)

Teologia Sistemática

Olhando não tanto para uma perspectiva de um teólogo, mas sim de um mestre preocupado com a
formação acadêmica, Davi Merkh e Davi Cox Jr, propõe o seguinte diagrama: 13

M.E.B Teologia Teologia Exposição


Exegese
Hermenêutica Bíblica Sistemática Bíblica

(2) A unidade bíblica


A hermenêutica moderna discute a veracidade do texto bíblico, e o grande tema de
debate é a unidade e a diversidade da Bíblia. Há um crescente número de estudiosos que
não mais aceitam a inerrância bíblica e com isso pervertem o uso hermenêutico correto
no seu estudo.
As teologias como resultado de uma exegese correta cooperam para a preservação
de uma interpretação correta e um uso adequado da Escritura. Seguir um cronograma
apropriado de estudo bíblico colabora também, para a preservação da unidade do
Antigo e Novo Testamento impossibilitando as críticas quanto ao relacionamento
discordante entre os autores bíblicos.

11
Carson, p. 27
12
Virkler, p. 11
13
Davi Merkh e Davi Cox Jr. HERMENÊUTICA, p.12
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CAPÍTULO 4 – PRINCÍPIOS GERAIS NA HERMENÊUTICA
A hermenêutica apresenta pelo menos duas categorias gerais de princípios de interpretação: 14

 Hermenêutica geral – em que princípios gerais de interpretação da Escritura são


estudados. Estes princípios se aplicam à Bíblia inteira, a todos os seus gêneros literários.

 Hermenêutica especial – em que princípios especiais de interpretação de gêneros literários


diferentes e/ou situações especiais são estudados. As regras de hermenêutica especial não
entram em conflito com os princípios gerais, mas são mais técnicas no seu tratamento de
problemas interpretativos e tipos de literatura diferente.

Vamos primeiro analisar os princípios gerais de interpretação, através de verificação simples


de uma lista desses princípios; e em seguida analisar alguns passos básicos para a interpretação de
textos.

4.1 OS PRINCÍPIOS GERAIS: 15

a) Contextualmente i) Comparando Escritura com Escritura


b) Literalmente j) Cristologicamente
c) Historicamente k) Dentro das línguas originais
d) Culturalmente l) Teologicamente
e) Gramaticalmente m) Respeitando os destinatários originais
f) Conforme seus gêneros literários n) Prioritariamente
g) Ciente do progresso da revelação o) Cientes das figuras de linguagem
h) Conforme o propósito do autor p) Com humildade e oração
naquele livro

É preciso destacar que cada um desses princípios gerais são importantes para o estudo bíblico e
devem ser analisados cuidadosamente. Isto não será feito neste material porque em primeiro lugar
pressupõe-se que seus alunos já tenham gastado tempo neste estudo, em segundo lugar esta matéria se
propõe a investigar áreas mais específicas da Hermenêutica.

Os princípios gerais de interpretação


apontam para áreas diferentes a serem analisadas,
porém, os passos no estudo dos textos são
basicamente os mesmos, atentando com mais
atenção para este ou aquele detalhe dependendo
daquilo que estiver sendo estudado.

14
Davi Merkh. HERMENÊUTICA, p. 01
15
Idem
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4.2 PASSOS PARA A INTERPRETAÇÃO
Os passos apresentados abaixo são proposições apresentados no livro “Hermenêutica” de
Henry Virkler:16
4.2.1 Análise Histórico-Cultural e Contextual:
(1) Determinar o ambiente geral histórico e cultural do escritor e de sua audiência.
a. Determinar as circunstâncias históricas gerais.
b. Estar atento às circunstâncias históricas gerais.
c. Discernir o nível de compromisso espiritual da audiência
(2) Determinar o propósito (ou propósitos) do autor ao escrever um livro.
a. Observar as declarações explícitas ou frases repetidas.
b. Observar as seções parentéticas ou hortativas.
c. Observar os problemas omitidos ou os enfocados.
(3) Entender de que forma a passagem se enquadra no contexto imediato.
a. Localizar os principais blocos de material no livro e mostrar como se encaixam
num todo coerente.
b. Mostrar como a passagem se ajusta à corrente de argumento do autor.
c. Determinar a perspectiva que o autor tenciona comunicar – numenolóca
(a realidade das coisas) ou fenomenológica ( a aparência das coisas).
d. Distinguir entre verdade descritiva e verdade prescritiva.
e. Distinguir entre detalhes incidentais e ponto central do ensino de uma passagem
f. Localizar a pessoa ou categoria de pessoas às quais a passagem é dirigida.
Exercício: 17
Analise a questão do lava-pés. Esse costume é mencionado 19 vezes na Bíblia (Gn 18.4;
19.2; 24.32; 43.24; Ex 30.19; 40.31; Jz 19.21; 1 Sm 24.41; 2 Sm 11.8; Ct 5.3; Lc 7.44; Jo 13.5, 6, 8-
10, 12, 14 e 1 Tm 5.10).
 Procure esses versículos e veja se consegue dizer como esse costume era praticado e
qual seu significado nas épocas do AT e NT.
 Depois, pense nas seguintes questões:
 O lava-pés é tão necessário hoje quanto nos tempos bíblicos? Justifique.
 As Escrituras nos mandam praticar o lava-pés como uma ordenança da
igreja? Justifique.
 A quem Jesus dirigiu suas palavras em Jo 13.15?
 Os cristãos modernos devem segui-las? Justifique.
 Que razões Jesus deu em Jo 13 para praticá-lo com os discípulos? Veja
principalmente os versículos 1, 7, 12 e 16.

4.2.2 Análise Léxico-Sintática

(1) Apontar a forma literária geral.

(2) Investigar o desenvolvimento do tema e mostrar como a passagem sob consideração


se enquadra no contexto.

(3) Apontar as divisões naturais (parágrafos e sentenças) do texto.

(4) Indicar os conectivos dos parágrafos e sentenças e mostrar como auxiliam na


compreensão da progressão do pensamento.
16
Virkler, 67; 84; 116
17
Zuck, 110
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(5) Determinar o que significam as palavras tomadas individualmente.


a. Apontar os múltiplos significados que uma palavra possuía no seu tempo e
cultura.
b. Determinar o significado único que o autor tinha em mente em dado
contexto.
(6) Analisar a sintaxe para mostrar de que modo ela contribui para a compreensão de
uma passagem.
(7) Colocar os resultados de sua análise em palavras não-técnicas, de fácil compreensão,
que comuniquem com clareza o significado que o autor tinham em mente.
Exercícios:
A maioria das pessoas supõe que a menina citada em Mateus 9.18-26 estava
morta, mas há um motivo para se crer que estava em estado de coma e não morta.
 Que fatores léxico-sintáticos você consideraria ao tentar responder a esta
questão?
 Que fatores sugerem que ela estava morta? Avalie a força desses fatores.
 Que fatores sugerem que ela se achava em estado de coma e não morta? Avalie a
força desses fatores.
 Você acha que ela estava em estado de coma ou morta?

4.2.3 Análise Teológica

(1) Determinar seu próprio ponto de vista da natureza do relacionamento de Deus com
o homem.
A coleta de provas, a estruturação das perguntas, e a compreensão de
determinados textos afetam o resultado desse estudo.

(2) Descobrir as implicações deste ponto de vista para a passagem que está sendo
estudada.
Por exemplo, uma posição sobre a natureza da relação de Deus com o homem,
basicamente descontínua, verá o AT como menos pertinente aos nossos
contemporâneos do que o NT.

(3) Avaliar a extensão do conhecimento teológico disponível às pessoas daquele tempo.


Que conhecimento prévio haviam elas recebido? Bons textos de
teologia bíblica podem revelar-se muito úteis a este respeito.

(4) Determinar o significado que a passagem possuía para seus primitivos destinatários à
luz do conhecimento que tinham.

(5) Descobrir o conhecimento complementar acerca deste ponto que hoje temos
disponível em virtude de revelação posterior.
Exercício:
Procure fazer uma ‘teologia bíblica’ de Mc 5.1-20 usando as categorias de
‘demonologia’, ‘cristologia’ e ‘antropologia’.
 Aliste tudo que este texto ensina sobre demônios,
 Aliste tudo que este texto ensina sobre Cristo,
 Aliste tudo que este texto ensina sobre a natureza do homem.

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CAPÍTULO 5 – PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS NA HERMENÊUTICA
Há pelo menos 20 gêneros literários diferentes na Bíblia. E nesta parte de nosso estudo, vamos
atentar para alguns estilos literários mais usados dentro das Escrituras que exigem alguns cuidados
específicos na análise de suas características no momento de sua interpretação.

5.1 NARRATIVAS
A Bíblia contém mais do tipo de literatura chamado “narrativa” do que de qualquer outro tipo
literário. Por exemplo, mais de 40% do AT é narrativa. Posto que o próprio AT compõe ¾ do volume
da Bíblia, não é surpreendente que o tipo mais comum de literatura na Bíblia inteira, individualmente, é
a narrativa.

5.1.1 Considerações sobre as narrativas


Ao falar sobre as narrativas do AT, Fee e Stuart dizem o que elas não são:18
 Não são apenas histórias acerca de pessoas que viviam nos tempos do AT. São, antes de
tudo, histórias acerca daquilo que Deus fez para aquelas pessoas e através delas. Em
contraste com as narrativas humanas, a Bíblia é composta especialmente de narrativas
divinas.

 Não são alegorias, ou histórias cheias de significados ocultos. Pode, no entanto, haver
aspectos de narrativas que não são de fácil compreensão. Noutras palavras, as narrativas não
respondem a todas as nossas perguntas acerca de uma determinada questão. São limitadas no
seu enfoque, e nos oferecem uma só parte do quadro global daquilo que Deus está fazendo
na história.
 Elas nem sempre ensinam de modo direto. As narrativas dão um tipo de conhecimento
mediante contato direto com a obra de Deus no Seu mundo, e embora este conhecimento
seja secundário ao invés de ser primário, não deixa de ser um conhecimento que pode ajudar
a moldar seu comportamento.
 Cada narrativa ou episódio individual dentro de uma narrativa não possui necessariamente
uma lição moral individual. Elas não podem ser interpretadas atomisticamente, como se cada
declaração, cada evento, cada descrição pudesse, independentemente das demais, ter uma
mensagem especial para o leitor.

5.1.2 Princípios para a interpretação de narrativas

(1) Não devem ser tomadas como fonte de ensino objetivo de doutrina cristã apostólica.

(2) Ilustram e exemplificam uma doutrina(s) ensinada(s) objetivamente em outras seções


literárias.

(3) Apontam para uma verdade ou lição principal. Procurar um significado mais
profundo ou “espiritual” sem outras dicas no texto é abusar o texto.

(4) Registram, apenas o fato em si, não exigindo, necessariamente a presença de uma
“moral da história”

(5) Apresentam personagens humanos distantes da perfeição, muitas vezes, inserido sem
exemplos mais negativos do que positivos.

18
Fee e Stuart, pp.66-68
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(6) São seletivas e incompletas, descrevendo aquilo que o autor bíblico preferiu incluir ou
deixar de fora (Jo 21.25). Devem ser julgadas com base no conjunto de verdades
expostos objetivamente nas Escrituras.

(7) Têm propósitos muito particulares, deixando certos assuntos ou temas levantados
para serem abordados em outras partes das Escrituras.

(8) Ensinam objetivamente (nitidez e clareza) ou subjetivamente (parcial e


implicitamente), apesar de não serem determinantes doutrinárias.

(9) Devem ser interpretadas à luz de seus elementos culturais: política (nacional e civil),
religião, economia, leis, agricultura, arquitetura, vestimentas, vida doméstica,
geográfica, organização militar, estrutura social, uma análise histórico-cultural.19

5.1.3 Exercício
À luz desses princípios de interpretação analise o texto de Atos 19.1-7 e determine qual o
significado dessa narrativa para nossos dias.
A pergunta que deve permear sua análise é: Receber o Espírito Santo após a salvação é para
nossos dias?
Use este espaço para apresentar seus argumentos.

5.2 PARÁBOLAS
“Parábola”, do vocábulo grego  “parabolh” (para = lado a lado + ballw = jogar,
trazer, colocar) literalmente quer dizer “colocar lado a lado com”, “manter ao lado”, “jogar para”,
“comparar”.

Algumas definições:

“Parábola é um quadro em palavras de algum trecho da experiência humana, concreto ou imaginado”


(T.W. Manson, O ENSINO DE JESUS, ASTE, p. 95)

“A parábola é um gênero literário que, formalmente, consiste de uma história típica, tirada da realidade cotidiana
do ouvinte oferecendo um exemplo de comportamento ao qual reagir”

“Parábola é uma narrativa de acontecimento real ou imaginário em que tanto as pessoas como as coisas e as ações
correspondem a verdades de ordem espiritual e moral”
(Antonio Almeida, MANUAL DE HERMENÊUTICA SAGRADA, Cep, p. 39)

“As parábolas de Jesus são uma forma concreta e dramática de linguagem teológica que força o ouvinte a reagir.
Elas revelam a natureza do reino de Deus e/ou indicam como um filho do reino deve agir, e no que deve crer”
(Keneth Bailey, A POESIA E O CAMPONÊS, Vida Nova, p. 14)

19
Emerson S. Pereira. HERMENÊUTICA – NARRATIVAS (não publicado)
PROF. PR. FÁBIO REIS 40
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5.2.1 Considerações sobre as parábolas20

Julio Zabatiero sugere 3 elementos essenciais na parábola:21


 Um ponto de contato com a realidade do ouvinte;
 Uma resposta (ou reação) do ouvinte;
 Um conjunto de temas teológicos inter-relacionados.
Herbert Lockyer, em seu livro “Todas as parábolas da Bíblia” fala sobre o valor das Escrituras.22
 É atraente e, quando completamente compreendida, é mais fácil de lembrar.
 Estimula os afetos e desperta as consciências, como quando o inferno, numa
parábola, é mostrado como uma fornalha de fogo e a consciência como um verme
roedor.
 Chama e prende a atenção. Atentos às parábolas de Jesus, os ouvintes se mostravam
maravilhados.
 Preserva a verdade.
 Alcança a todos.
Há ainda uma 7 benefícios do uso das parábolas em Mateus 13.
 Revelar a verdade de forma interessante e despertar maior interesse (v.10,11,16);
 Tornar conhecidas novas verdades a ouvintes interessados (11,12,16,17);
 Tornar conhecidos os mistérios por comparações com coisas já conhecidas (11);
 Ocultar a verdade de ouvintes desinteressados e rebeldes de coração (12)
 Acrescentar mais conhecimento da verdade aos que a amam e anseiam mais dela
(12);

 Afastá-la do alcance dos que a odeiam ou que não a desejam (12);


 Cumprir as profecias (14-17, 35)

5.2.2 Princípios para a interpretação de parábolas23

(1) Atentar para o significado natural da história

(2) Identificar o problema, a pergunta ou a situação que originou a parábola.

(3) Identificar a principal verdade que a parábola ilustra

(4) Confirmar o tema principal da parábola por meio de um ensinamento bíblico


explícito.

(5) Reparar na reação explícita ou implícita dos ouvintes.

(6) Determinar o auditório.

(7) Examinar o contexto.

20
Esta seção foi inspirada no trabalho acadêmico não publicado de José Humberto de Jesus F. Oliveira, apresentado em
sala de aula no Programa de Mestrado do SBPV.
21
DITNT, Vol III, p. 452
22
Herbert Lockyer. TODAS AS PARÁBOLAS DA BÍBLIA, p. 17-18
23
Roy Zuck, pp. 238-253
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5.2.3 Exercício
Determine o propósito central das parábolas contadas em Lucas 15. Verifique os pontos
de similaridade entre elas.
Use este espaço para apresentar seus argumentos.

5.3 FIGURAS DE LINGUAGEM24

Uma figura de linguagem é meramente uma palavra ou frase colocada de forma diferente de seu
emprego ou sentido original e simples, ela é utilizada para comunicar um sentido diferente do literal,
verdadeiro.

5.3.1 Considerações sobre Figuras de Linguagem

Por que se utilizam figuras de linguagem?


 Elas acrescentam cor e vida (Sl 18.2)
 Elas chamam a atenção (Fp 3.2)
 Elas tornam os conceitos abstratos ou intelectuais mais concretos (Dt 33.27)
 Elas ficam mais bem registradas na memória (Os 4.16)
 Elas sintetizam uma idéia (Sl 23.1)
 Elas estimulam a reflexão (Sl 52.8)
Como saber se uma expressão apresenta sentido figurado ou literal?
 Adote sempre o sentido literal de uma passagem, a menos que haja boas razões para
não fazê-lo. ((Ap 7.4-8)
 O sentido é o figurado se o literal implicar uma impossibilidade. (Jr 1.18)
 O sentido é figurado se o literal for absurdo. (Is 55.12)
 Adote o sentido figurado se o literal sugerir imoralidade. (Jo 6.53-58)
 Repare se uma expressão figurada vem acompanhada de uma explicação literal.
(1 Ts 4.13-15)
 Às vezes uma figura é ressaltada por um adjetivo qualificativo. ((Jo 6.32)
 Outras vezes uma locação adjetiva indica que o substantivo anterior não deve ser
considerado no sentido literal. (Ef 6.17)
5.3.2 Princípios para interpretação de Figuras de linguagem
(1) Descobrir se existe alguma figura de linguagem
(2) Descobrir a imagem e o objeto na figura de linguagem
(3) Especificar o elemento de comparação
(4) Não presumir que uma figura sempre signifique a mesma coisa
(5) Sujeitar as figuras a limites ou controles legítimos por meio dos princípios da lógica e
da comunicação

5.3.3 Exercício
Fazer os exercícios sugeridos por Roy Zuck no livro A Interpretação Bíblica, p. 194-195.
Use a lista da próxima página.

24
Roy Zuck, pp. 167-196
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5.3.4 Tipos de Figuras de Linguagem

Nº NOME EXPLICAÇÃO EX.:


FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM COMPARAÇÃO
1 SÍMILE Comparação em que uma coisa lembra outra explicitamente 1 Pe 1.24
2 METÁFORA Comparação em que um elemento é, imita ou representa outro. Is 40.6
3 HIPOCATÁSTASE Comparação em que a semelhança é indicada diretamente Sl 22.16
FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM SUBSTITUIÇÃO
4 METONÍMIA Substitui uma palavra por outra Jr 18.18
5 SINÉDOQUE Substituição da parte pelo todo, ou do todo pela parte. Lc 2.1
6 MERISMA A totalidade ou o todo é substituído por 2 partes opostas Sl 139.2
7 HENDÍADE Substituição de um único conceito por 2 termos coordenados Fp 2.17
em que um dos elementos define o outro
8 PERSONIFICAÇÃO Atribuição de características ou ações humanas a objetos Is 35.1
inanimados, a conceitos ou a animais.
9 ANTROPORMOFISMO Atribuição de qualidades ou ações humanas a Deus Sl 8.3; 31.2
10 ANTROPOPATIA Atribui emoções humanas a Deus Zc 8.2
11 ZOOMORFISMO Atribui características animais a Deus (ou a outros) Sl 91.4
12 APÓSTROFE Referência direta a um objeto como se fosse uma pessoa, ou a uma Sl 114.5
pessoa ausente ou imaginária como se estivesse presente.
13 EUFEMISMO Substituição de uma expressão desagradável ou injuriosa por At 7.60; 1
Ts4.13-15
outra inócua ou suave
FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM OMISSÃO OU SUPRESSÃO
14 ELIPSE Omissão de uma palavra cuja falta deixa incompleta a 1 Co 15.5
estrutura gramatical
15 ZEUGMA Associação de 2 substantivos a um mesmo verbo Lc 1.64
16 RETICÊNCIA Interrupção repentina do discurso, como se o orador não tivesse Ex 32.32
podido terminá-lo.
17 PERGUNTA Aquela que não exige resposta; seu objetivo é forçar o leitor a Gn 18.14
RETÓRICA respondê-la mentalmente e avaliar suas implicações.
FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM EXAGERO OU ATENUAÇÕES
18 HIPÉRBOLE Afirmação exagerada em que se diz mais do que o significado Dt 1.28
literal com o objetivo de ênfase
19 LITOTES Frase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação At 21.39
20 IRONIA Forma de ridicularizar indiretamente sob a forma de elogio 2 Sm 6.20

21 PLEONASMO Repetição de palavras ou no acréscimo delas semelhantes Jó 42.5


FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM INCOERÊNCIAS
22 OXÍMORO Combinação de termos opostos ou contraditórios Rm 12.1
23 PARADOXO Afirmação aparentemente absurda ou contrária ao bom senso Mc 8.35
FIGURAS DE LINGUAGEM QUE ENCERRAM SONORIDADE
24 PARONOMÁSIA Emprego das mesmas palavras para produzir sentidos diferentes Mt 8.22
25 ONOMATOPÉIA Palavra cuja pronúncia imita o som da coisa significada (percebe-se Mq 1.2
melhor no hebraico)

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5.4 PROFECIAS

O termo profecia vem de duas palavras gregas que significam “falar por, ou antes”. Assim sendo,
profetizar é falar e escrever sobre acontecimentos futuros. Em ambos os Testamentos, “profeta é um
porta-voz de Deus que declara a vontade de Deus ao povo”25

5.4.1 Considerações sobre Profecias

A profecia, segundo Virkler, refere-se a 3 coisas:26


 Predizer eventos futuros
(Ap 1.3; 22.7,10; Jo 11.51);
 Revelar fatos ocultos quanto ao presente
(Lc 1.67-79; At 13.6-12);
 Ministrar instrução, consolo e exortação em linguagem poderosamente arrebatada
(Amos; At 15.32; 1 Co 14.3,4,31)

Por outro lado, no que diz respeito à linguagem da profecia, especialmente no seu
significado quanto ao futuro, deve-se observar o seguinte, sugere J. Dwight Pentecost:27
 Os profetas freqüentemente falam de coisas que pertencem ao futuro como se
fossem presentes a seus olhos ( Is 9.6)
 Eles falam de coisas futuras como se fossem passadas (Is 53)
 Quando o tempo exato de certos acontecimentos não era revelado, os profetas os
apresentavam como contínuos. Viam o futuro mais propriamente no espaço que no
tempo; o todo, então, aparece em perspectiva reduzida; e é levada em conta a
perspectiva, e não a distância real. Eles parecem, muitas vezes, falar de coisas futuras
como um leigo observaria as estrelas, agrupando-as da maneira que aparecem, e não
de acordo com suas verdadeiras posições.

Por que estudar profecia?28


 Ela consola
( 1 Ts 4.18)
 Ela acalma
(Tt 2.13)
 Ela converte
(1 Pe 3.12-26)
 Ela purifica
(Tt 2.14)
 Ela compele
( 1 Co 15.52)
 Ela esclarece
(1 Co 14.3-4)

25
Henry Virkler, p. 146
26
Idem
27
J. Dwight Pentecost. MANUAL DE ESCATOLOGIA, p. 74
28
Zuck, pp. 263-264
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5.4.2 Princípios para interpretação das profecias


(1) Seguir os princípios normais da hermenêutica conhecidos como interpretação
histórica, gramatical e literária
(2) Considerar o sentido normal, gramatical das palavras proféticas.
(3) Examinar o aspecto literário, que prevê o emprego de linguagem figurada e
simbólica.
(4) Perceber a ênfase das profecias no Messias e no estabelecimento de seu reino
(5) Entender o princípio da “perspectiva”
(6) Procurar a interpretação divinamente embutida no texto.
(7) Comparar passagens paralelas
(8) Procurar as profecias que já se cumpriram e as que ainda estão por cumprir-se.
5.4.3Exercício
Muitos estudiosos da Bíblia têm entendido as sete igrejas dos capítulos 2 e 3 de
Apocalipse como as igrejas históricas do tempo de João bem como as sete épocas sucessivas da história
da igreja. Você concorda ou discorda? Argumento usando princípios hermenêuticos que justifiquem sua
resposta.
5.5 TIPOS29
O termo “tipo” do grego ‘tupos’, que aparece 15 vezes no NT ganhou diversas traduções em
seus usos como: sinal, forma, figura, prefiguração, padrão, modelo e exemplo. A idéia comum entre
estas traduções é de uma correspondência ou semelhança.
Conforme Virkler, tipo é uma relação representativa preordenada que certas pessoas, eventos e
instituições têm com pessoas, eventos e instituições correspondentes, que ocorrem numa época
posterior na história da salvação.30

5.5.1 Considerações sobre Tipos

Quando o tipo é tipo?


 Quando há semelhança, similaridade ou correspondência com o antítipo.
 Quando os personagens, os fatos ou os elementos do AT que são tipos de coisas no
NT possuem realismo histórico.
 Quando o tipo contém traços de predição, de simbolismo. Quando ele antevê e
chama a atenção para o antítipo. (Prefiguração)
 Quando o antítipo é maior que o tipo e a ele superior (Elevação)
 Quando as semelhanças são planejadas por Deus e não meras analogias ou
ilustrações a que os leitores da Bíblia dão atenção.
 Quando o NT especifica de alguma forma o tipo e antítipo.
Com base nesses critérios, quais personagens, fatos ou elementos do AT são tipos?
(tabela próxima página)

29
Esta seção é baseada no capítulo 8 do livro A INTERPRETAÇÃO BÍBLICA, de Roy Zuck
30
Virkler, p.141
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5.5.2 Princípios para interpretação das profecias

(1) Descobrir o sentido literal do tipo.

(2) Reparar no ponto ou nos pontos de correspondência ou semelhança entre o tipo e o


antítipo

(3) Reparar nos elementos de contraste ou de diferenças, para evitar caracterizá-los como
aspectos do tipo.

(4) Atentar para as afirmações explícitas no NT que atestem a correspondência


tipológica.

5.5.3 Exercício
Preencher a lista de tipos confirmando sua posição, na página 212 do livro A
INTERPRETAÇÃO BÍBLICA, Roy Zuck.

TABELA DOS TIPOS:


TIPO ANTÍTIPO PASSAGEM

1. Melquisedeque O sacerdócio eterno de Cristo Hb 7.3, 15-17


2. Arão O ministério sacerdotal de Cristo Hb 5.4,5

3. Festa da Páscoa Cristo, nosso sacrifício 1 Co 5.7


4. Festa dos Pães Asmos O caminhar santificado do cristão 1 Co 5.7,8
5. Festa das Primícias A ressurreição de Cristo, garantia da 1 Co 15.20-23
ressurreição dos crentes
6. Festa de Pentecoste A vinda do Espírito Santo Jl 2.28; At 2.1-47
7. Festa das Trombetas O reagrupamento de Israel Mt 24.21-23
8. Dia da Expiação Conversão de Israel pelo sangue de Cristo Zc 12.10; Rm
11.26,27; Hb 9.19-28
9. Festa dos Provisão divina para as necessidades Jo 7.2, 37-39
Tabernáculos humanas (Israel no reino)
10. Sábado Descanso espiritual do cristão Cl 2.17; Hb 4.3, 9,11

11.Tabernáculo Cristo – o acesso do crente a Deus e a base Hb 8.5; 9.23,24


da comunhão com ele
12. Cortina do Cristo – o acesso do crente a Deus Hb 10.20
Tabernáculo
13. Holocausto O sacrifício perfeito de Cristo Lv 1; Hb 10.5-7; Ef 5.2

14. Oferta de Manjares O sacrifício perfeito de Cristo do mais Lv 2; Hb 10.8


elevado grau
15. Sacrifícios Pacíficos O sacrifício de Cristo, base de nossa Lv 3; Ef 2.14; Cl
comunhão com Deus 1.20
16. Sacrifício pelos A morte de Cristo pelo pecador em relação Hb 13.11,12
Pecados à condenação do pecado
17. Sacrifício pelo A morte de Cristo como expiação da Hb 10.12
Sacrilégio transgressão do pecado

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5.6 O USO DO AT NO NT31

“Mais indiretamente, a unidade da Escritura é provada pelo fato de os autores


do Novo Testamento, citando o Antigo Testamento, alterarem de certo modo, as
passagens citadas, ou as aplicarem num sentido que não é evidente no AT.” · (Louis
Berkhof)

Usos e Citações:

Citações distintas: 295


Usando expressão: “Como está escrito…” 224 vezes
Paráfrase ou síntese 19 passagens
Sem explicação que é do AT 45 vezes
Citações ocupam no N.T 352 versículos
Livros citam AT (exceção Fl, 1-3 Jo) 23 livros
Maior volume de citações Mt, At, Rm, Hb
Textos citados do A.T. 278 versos
Texto mais citado Sl 110.1
Citações do Pentateuco 94 versículos
Citações dos profetas 99 versículos
Citações dos históricos (exceto Rt,Ed,Ne, Et, Ec, Ct) 85 versículos

O uso das Alusões

Alusões: são inclusões de referências à terminologia ou a expressões do A.T., bem como


a fatos históricos e a personagens. Ex.: Rm 5.12-14 faz uma alusão clara, mas não cita, a queda de Adão
e Eva no pecado, registrada em Gn 2 e 3.

o Todos os livros do NT fazem alusões do AT.


o O livro de Apocalipse faz 331 alusões ao AT, mas
nenhuma citação direta.
o Mais de 10% do NT é composto por citações ou
alusões

31
Zuck, pp. 289-322
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5.6.1 Considerações sobre o uso do AT no NT


Alterações no texto das citações. As citações sofreram vários tipos de alterações no texto. A
gramática é um dos fatores mais mudados:

 Alterações

Substituir substantivo por pronome – Mt 3.3 / Is 40.3

Substituir substantivo plural por singular – Mt 13.35 / Sl 78.2

Modificar pronomes – Mt 1.23 / Is 7.14

Mencionar quem fala na citação – Jo 1.23 / Is 40.3

Discurso direto passar a indireto - Rm 9.25 / Os 2.23

Discurso indireto passar a direto – Rm 9.20 / Is 29.16

Modificação forma verbal (ligeiramente) – Jo 19.36 / Ex 12.46

Reproduzir livremente o sentido de passagens por meio de paráfrases – Mt 13.35 /
Sl 78.2
 Omissão
 Abreviar versículos – Mc 4.12 / Is 6.10
 Citações parciais – Lc 4.18-19 / Is 61.2
 Emprego sinônimos
 Substantivos – Mt 3.3 / Is 40.3
 Usando a LXX – Hb 10.5 / Sl 40.6
 Novos aspectos da verdade
 Explica o sentido real do texto – Ef 4.8 / Sl 68.18
 Enquadra o uso no sentido do NT – Rm 9.24 / Os 2.23 (revelação progressiva)
 Aplica à nova dispensação – Ef 6.2,3 / Dt 5.16

Objetivos das citações:

 Para ressaltar o cumprimento de uma predição do AT – Mt 1.22,23 / Is 7.14


 Para confirmar que um acontecimento do NT está de acordo com o AT – At
15.15 / Am 9.11-12
 Para explicar uma proposição do NT – At 2.16-21 / Jl 2.28-32
 Para confirmar uma proposição – Mt 22.32 / Ex 3.6
 Para ilustrar uma verdade do NT – Rm 10.16 / Is 53.1
 Para aplicar o AT a um acontecimento do NT – 1 Co 9.9 / Dt 25.4
 Para sintetizar um conceito – Nazareno (Mt 2.23) / (nazireu)Jz 13.5 / Is 11.1
(nezer - tronco)
 Para utilizar a terminologia do AT (usou expressão e não sentido) – Mt 27.46
/ Sl 22.1
 Para traçar paralelo de acontecimentos – Rm 11.5 / ! Re 19.18
 Para associar com Cristo uma situação do AT – Mt 13.13,14 / Is 6.9,10

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Questionamentos nos usos:
 Os autores compreendiam tudo o que escreviam?
 Nem sempre compreendiam plenamente – Dn 12.8-9 / (Jo 11.50)
 A compreensão incompleta relaciona-se com o caráter progressivo da revelação –
Gn 3 a serpente não é chamada de Satanás, mas Ap 12.9 a identifica.
 A natureza profética de certas passagens pode não ter sido percebida até que se
tenham cumprido – muitas profecias só foram identificadas como ‘profecia’ quando se
cumpriram, isso revela que provavelmente seus leitores originais também tiveram dificuldades na sua
compreensão original.
 As alusões a Cristo nem sempre foram claras quando ditas originalmente, recebendo
maior nitidez no NT.

 A forma como o NT usou o AT não sugere significados múltiplos para cada texto?
Há 4 concepções a respeito dessa pergunta:
a) Cada passagem tem um e apenas um significado, o qual os autores compreendiam.
b) Os leitores podem encontrar em qualquer passagem bíblica uma série de sentidos
independentes.
c) Certas passagens podem ter sentido mais completo do que o planejado ou compreendido
pelo autor, sentido esse, pretendido por Deus. (sensus plenior – escritor católico Andrea Fernandez,
1925)
Alguns problemas: essa interpretação que transcende o sentido literal, na maioria das vezes usa o método
alegórico que não tem estrutura definida; a interpretação oficial dependente da revelação do NT, dos pais da igreja
e das declarações oficiais da igreja católica.
d) Cada texto bíblico possui um só significado, embora alguns possam ter implicações
relacionadas. Ex.: Sl 78.2 tem um só significado, mas tem dois referentes, Asafe e Jesus .
Motivos para aceitar essa posição: a interpretação histórica, gramatical requer a existência
de um único significado (declaração de Chicago sobre Hermenêutica Bíblica); a idéia de que um só
sentido pode referir-se a mais de um elemento condiz com a forma de emprego do AT no NT;
essa concepção está de acordo com o aspecto progressivo da revelação; os significados
relacionados não dão margem a alegorização.

5.6.2 Princípios para interpretação desses usos


(1) Investigue o contexto do NT onde a citação ou alusão ao AT é feita.
(2) Investigue o contexto no AT da passagem citada ou aludida. Cuide para não
aplicar aos leitores do AT o que agora se pode saber sobre o texto.
(3) Repare nas diferenças, se houver.

(4) Descubra como a passagem do NT faz uso da passagem do AT


(5) Estabeleça a relação dessas conclusões com a interpretação da passagem no NT
(6) Quando necessário verifique a ocorrência da passagem do AT no NT, certifique-se
que o autor fez uso dela ou não, e como.

PROF. PR. FÁBIO REIS 49


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BIBLIOGRAFIA

Virkler, Henry A. HERMENÊUTICA. Traduzido por Luiz Aparecido Caruso.

Editora Vida. São Paulo, 1990.

Pires, Carlos Alberto. O QUE É HERMENÊUTICA.

Editora MK Rio de Janeiro 2005.

BÍBLIA DE ESTUDO INDUTIVO

HERMENÊUTICA AVANÇADA / S.B.B. EMAÚS - Pr. Walace Juliare


(com autorização do mesmo)

PREGAÇÃO PARA PREGADORES APERFEIÇOAMENTO HOMILÉTICO


(Apostila do III Simpósio Nacional da AETBB) Pr. Walace S. Juliare.

Chapell, Bryan, PREGAÇÃO CRISTOCÊNTRICA. Tradução de Oadi Salum. Editora Cultura

Cristã, São Paulo, SP, 2002.

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