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A RAZÃO CARGA/MASSA DO ELÉTRON

Bianca Hazt
Departamento de Química – Universidade Federal do Paraná
Centro Politécnico – Jd. das Américas – 81531-990 – Curitiba – PR - Brasil
e-mail: bianca.hazt@gmail.com

Resumo. No presente trabalho, será calculada a carga específica (e/m) do elétron através
experimentos que fazem uso de alguns conceitos de magnetismo e eletrostática. A primeira
abordagem para esta determinação foi realizada por J. J. Thomson em 1897 e gerou grandes
contribuições à atomística. Para a metodologia empregada neste artigo, utilizou-se da proposta
de P. Lenard que analisa a relação direta entre o raio da trajetória de um feixe de elétrons
gerado, sob um campo magnético uniforme com a razão carga/massa desta partícula.

Palavras chave: carga específica, elétron, carga/massa.

Introdução
Medida experimentalmente em 1897, por a gerar uma deflexão no feixe de elétrons para
Sir. J. J. Thomson em Cambridge, na baixo. Os dois campos apresentam a
Inglaterra, a relação carga/massa (e/m) possibilidade de serem ajustados – de modo
confirmou a existência do elétron como uma que a força elétrica que atua sobre o feixe
partícula elementar de carga negativa e equivale à força magnética, e o feixe pode
possuindo massa bem definida. A relação e/m passar pelas placas P e P’ sem sofrer deflexão.
estudada por J. J. Thomson é também O feixe de elétrons sofre a ação de uma
conhecida como carga específica. A medida força elétrica, que é equivalente à carga q – ou
determinou o tamanho do elétron, cerca de carga e, no caso do feixe de elétrons,
2000 vezes menor quando comparada ao íon multiplicada pelo campo elétrico (E), como
H+. descrito na Equação 1.
O procedimento experimental para esta
determinação consistiu em um tubo em baixa 𝐹𝑒𝑙é𝑡𝑟𝑖𝑐𝑎 = 𝑞. 𝐸 = 𝑒. 𝐸 (1)
pressão (vácuo) que, possuindo um cátodo C,
emite elétrons através do efeito termoiônico, O campo magnético citado anteriormente
pelo aquecimento de um filamento metálico. produz a deflexão dos elétrons, que é
Os ânodos A e A’ (mostrados na Figura 1) correspondente da atuação da força magnética
fazem com que o feixe passe por um furo de Lorentz. Esta, por sua vez, é expressa pelo
circular existente no centro do anodo, e seja produto vetorial entre a velocidade (v) com o
colimado em direção a uma tela fluorescente campo magnético (B), de uma partícula
(S). Até chegar à tela, o feixe passa por uma eletrizada com carga q (Equação 2)
região onde existem duas placas condutoras (P
e P’), carregadas por cargas de mesma 𝐹𝑚𝑎𝑔𝑛é𝑡𝑖𝑐𝑎 = 𝑞. 𝑣𝑥 𝐵 = 𝑒. 𝑣𝑥 𝐵 (2)
intensidade, uma negativa e outra positiva.
Assim, o campo elétrico E, homogêneo, Visto que a Equação 1 pode se igualar à
atuando sobre o feixe de elétrons faz com que Equação 2 com o ajuste dos dois campos, a
ele se desloque para cima. Juntamente com as condição experimental coloca que o feixe pode
placas, há um conjunto de espiras que criam atravessar o sistema sem sofrer deflexão.
um campo magnético em B, orientado de modo Assim,

Figura 1: Aparato utilizado na determinação da ração e/m do elétron, por J. J. Thomson


uma região de campo magnético uniforme na
𝑒. 𝐸 = 𝑒𝑣𝐵 (3), região central, onde é colocada a ampola2.
𝐸
𝑣 = 𝐵 (4)

A energia cinética adquirida pelo elétron


quando este é acelerado pelos anodos é
equivalente a eV, pelo princípio de
conservação da energia. A incógnita V
corresponde à diferença de potencial aplicada
entre o anodo e o filamento. Logo, tem-se que:
1
2
𝑚𝑣 2 = 𝑒𝑉 (5)

A equação 6 foi utilizada por Thomson para


a determinação da carga específica do elétron.
Nela, a igualdade entre a velocidade do elétron
e a razão entre os campos elétrico e magnético
aparece.
𝑒 𝐸2
= (6) Figura 2: linhas de campo magnético
𝑚 2𝐵2 𝑉
para as bobinas de Helmholtz.
Assim, é notório que a razão carga/massa
do elétron pode ser medida de maneira indireta O campo magnético uniforme gerado
através da medida de três outras grandezas, que pela bobina de Helmholtz (mostrado na Figura
podem ser controladas experimentalmente. 2) tem a sua magnitude dada por:
(0,7155.𝜇0 .𝑁.𝑖)
Thomson provou que a razão em questão 𝐵𝐻𝑒𝑙𝑚ℎ𝑜𝑙𝑡𝑧 = 𝑅
, (7)
independe do material de constituição do
cátodo ou do tipo de gás presente dentro do onde 𝜇0 corresponde à permeabilidade
tubo. Desta maneira, a razão e/m foi provada magnética do vácuo e i corresponde à corrente
universalmente1. elétrica.
O método utilizado em laboratório na O raio da trajetória descrita pelo feixe de
disciplina de Laboratório de Física Moderna elétrons pode ser calculado visto que a força
para determinar a razão e/m foi primeiramente magnética que atua (Equação 2) é igual à
pensado por Pilipp Lenard em 1902. O força centrípeta (Equação 8).
procedimento utilizado consistiu em um feixe
de elétrons que foi acelerado por um potencial (𝑚𝑣 2 )
(V), aplicado em um filamento, que sofre a 𝐹𝑐𝑒𝑛𝑡𝑟𝑖𝑝𝑒𝑡𝑎 = 𝑟
(8)
ação de um campo magnético B. O conjunto
encontra-se dentro de uma ampola contendo
argônio, no estado gasoso, sob baixa pressão. A equação descrita por Lenard foi utilizada
Os elétrons disparados do ânodo colidem os neste trabalho, e esta foi desenvolvida
com átomos do gás argônio, induzindo-os à pensando nas relações feitas anteriormente, tais
luminescência. como o princípio de conservação de energia.
É obtida a trajetória descrita pelo feixe de
𝑒 2.𝑉
elétrons, em formato circular. No experimento = (𝑟2 𝐵2 ) (9)
𝑚
realizado, a bobina de Helmholtz foi utilizada.
Esta consiste em um par de bobinas comuns de
Procedimento Experimental
mesmo raio R, alinhadas paralelamente uma a
outra com os eixos coincidindo, e afastadas Para que a determinação da relação
entre si de uma distância igual ao raio R. Tal carga/massa do elétron fosse determinada, pelo
arranjo é mostrado esquematicamente na figura método de Lenard, foram utilizados dois
abaixo (Figura 2). As duas bobinas são equipamentos distintos.
arranjadas de maneira paralela, produzindo Inicialmente, o equipamento da PASCO
(Figura 3) foi utilizado. As conexões elétricas
necessárias foram realizadas, e o filamento do
bulbo foi ligado a uma fonte AC (limitada em
7V). As placas de aceleração foram ligadas à
fonte de corrente direta DC. A bobina de
Helmholtz foi ligada à fonte DC e a um
multímetro externo (em série), no modo de
leitura de corrente. O aumento da voltagem da
fonte AC foi o responsável por aquecer o
filamento e emitir elétrons, que são acelerados
e, com o aumento de potencial da fonte, se Figura 4: Equipamento CENCO
observa uma trajetória linear, evidenciada pela utilizado no experimento.
ionização do gás no interior no bulbo.
Resultados e Discussão
O potencial foi fixo em 116 V, e os
seguintes dados foram obtidos:
Tabela 1: Dados experimentais obtidos para
o potencial fixo no equipamento da PASCO.
i (A) Campo Raio R2 1/B2
magnético da órbita
(Wb.A/m2) (m)
1,53 1,1934 x 3,95 x 1,56 702146,
10-3 10-2 x 10-3 8
Figura 3: Equipamento da PASCO 1,36 1,0608 x 4,40 x 1,94 888654,
utilizado no experimento, com multímetro, 10 -3
10 -2
x 10-3 6
fonte AC e fonte DC. 1,24 9,672 x 4,50 x 2,03 106897
Pelo do controle da corrente e voltagem da 10-4 10-2 x 10-3 5
fonte DC, o campo magnético é variado no 1,06 8,268 x 5,20 x 2,70 146284
10-4 10-2 x 10-3 8
interior da ampola, almejando obter-se uma
trajetória circular. O diâmetro do círculo 0,95 7,41 x 5,55 x 3,08 182122
descrito pelos elétrons pôde ser medido 10-4 10-2 x 10-3 5
utilizando uma escala espelhada no fundo do
bulbo. As medidas realizadas foram feitas com No software Origin, os dados foram
o potencial de aceleração fixo (V) e a variação analisados utilizando as equações previamente
do campo magnético (B), através da variação descritas, e um perfil linear foi observado ao
da corrente (i) e medidas com o campo plotar os dados que se adequem à equação da
2Vm 1
magnético fixo e o potencial de aceleração reta R2 = e B2. Com esta, o valor da razão
variável. Os dados obtidos foram tratados e carga/massa pode ser encontrado através do
analisados com o software Origin, de forma a valor do coeficiente angular da reta.
ser feita a determinação gráfica da razão e/m, Potencial fixo
de acordo com a Equação 9. -3
3,2x10

Após a primeira parte, a determinação da -3


3,0x10

relação foi feita utilizando um equipamento da -3


2,8x10

CENCO. As conexões elétricas necessárias -3


2,6x10
foram feitas, e a variação da voltagem de -3
2,4x10
aceleração e da corrente que passa pela bobina
2
r

-3
2,2x10
foi realizada. Os valores foram registrados e -3
2,0x10
analisados posteriormente. Equation y = a + b*x
-3
1,8x10 Adj. R-Square 0,98216
Value
-3
1,6x10 Intercept 6,49858E-4
Slope 1,35539E-9
-3
1,4x10
5 5 6 6 6 6 6 6
6,0x10 8,0x10 1,0x10 1,2x10 1,4x10 1,6x10 1,8x10 2,0x10
2 2
1/B (Wb.A/m )

Figura 5: Gráfico de r2 (m2) x 1/B2


registrado para os dados obtidos com estão na Tabela 3, juntamente com o valor da
potencial fixo. razão e/m.
Para tais dados, o coeficiente de Tabela 3: valores experimentais obtidos no
determinação R2=0,98216. A equação obtida é equipamento da CENCO.
r² = 1,35539.10-9(1/B²) – 6,49858.10-4. V/V r/m B / Wm-2 e/m / C kg-1
As medidas realizadas no equipamento
90 1,95.10-2 2,743x10-3 4,058x1011
PASCO foram feitas mantendo o campo
magnético fixo, pela aplicação de uma corrente
de 1,88 A (1,4664 x 10-3 Wb.A/m2), com a 90 1,45.10-2 3,726x10-3 6,2906x1010
variação do potencial de aceleração dos
elétrons. Os dados obtidos são apresentados na Com um valor oficial de 1,758.1011 C kg-1,
Tabela 2, na qual é observável o aumento do os erros relativos associados às diferentes
raio com o aumento da voltagem aplicada. medidas da razão carga/massa do elétron
Tabela 2: dados experimentais obtidos no realizadas foram calculados. Para o campo
magnético fixo, obteve-se um valor de
equipamento da PASCO com aplicação de
campo fixo. 7,0009.1010C.kg-1, com um erro
correspondente de 60,2%. Para o potencial
Potenc Raio da R2 V
fixo, o erro obtido foi de 2,7%, já que a razão
ial (V) órbita (m)
carga/massa obtida foi igual a
168 3,65 x 10-2 1,33 x 10-3 168 11
1,71168.10 C.kg . -1
-2
185 4,15 x 10 1,72 x 10-3 185 O principal erro pode estar associado à
-2 -3
200 4,25 x 10 1,81 x 10 200 grande variabilidade que a posição de
217 4,35 x 10-2 1,89 x 10-3 217 observação possui. Além disso, o
230 4,75 x 10-2 2,26 x 10-3 230 posicionamento impreciso entre as bobinas e a
243 4,90 x 10-2 2,40 x 10-3 243 desconsideração do campo magnético pode dar
origem aos erros encontrados na determinação
De maneira semelhante, os dados obtidos no equipamento da PASCO.
experimentalmente foram analisados com o
auxílio do software Origin. Um gráfico de Conclusão
perfil linear, descrito por uma equação de reta
2m A razão e/m, ou carga específica, foi
da forma 𝐑𝟐 = 2 𝐕 foi obtido, com
eB determinada através do método desenvolvido
coeficiente de determinação R² = 0,93514. O por Lenard. Erros básicos como a utilização de
coeficiente angular foi igual a 1,32852.10-5 uma órbita pequena precarizam a medida,
enquanto o linear foi igual a -8,50539.10-4. O sendo desejáveis órbitas maiores para maior
gráfico correspondente está apresentado na precisão da medida. Os erros experimentais
Figura 6. encontrados podem ser atribuídos à falhas de
Campo magnético fixo
realização do experimento.
-3
2,4x10

-3
2,2x10
Referências
-3
2,0x10
[1] MEDIDA DA RAZÃO
r (m )
2

-3
1,8x10 CARGA/MASSA DO ELÉTRON. Disponível
2

-3
em http://fisica.ufpr.br/evaldo/em-r.pdf.
1,6x10
Equation
Adj. R-Square
y = a + b*x
0,93514
Acesso em 21/11/2017.
-3
1,4x10 Value [2] DETERMINAÇÃO DE CAMPO
Intercept -8,50539E-4
Slope 1,32852E-5 MAGNÉTICO. Disponível em:
-3
1,2x10
160 170 180 190 200 210 220 230 240 250 http://www.if.ufrgs.br/fis01202/Lab6.pdf.
V (Volts) Acesso em 22/11/2017.
Figura 6: gráfico de r2 x V (em m2 e volts, [3] HALLIDAY, David. Fundamentos de
respectivamente) obtido para os dados da Física. vol. 4, 7ª ed. LTC, 2006.
Tabela 2. [4] VARALDA, J. “UFPR Roteiro de
Na última parte do experimento, foram Laboratório de Física Moderna, A razão
realizadas as medidas utilizando o carga/massa do elétron” 2017.
equipamento da CENCO. Os dados registrados