Você está na página 1de 102

FOLHA Música

EXPLICA

CAETANO VELOSO
GUILHERME WISNIK
Artista polêmico e camaleônico; Caetano Veloso é uma
dos mais "inexplicáveis" personalidades brasileiras. Também é ver~
dade que, desde o início tropicalista de sua carreira, ao -atacar
a autonomia formal da canção, incluindo nela uma série de outros·
e!em€ntos - encenação, ruídos, cultura de consumo-, contribuiu para
transfonnor a música popular brasileira em um campo onde as coisas
estão todas pqstas em estado de explicação.
A partir daí a canção passa a fazer porte dos debates que
problematizam e explicam a cultura. E, no caso de Caetano,
a composição e· interpretação das canções termina também por
explicar o Brasil. Assim, não·são poucas os explicações que, de
um modo ou de outro, estão pressupostas neste pequeno
livro, que traz també'm uma criterlosa discografia e
cronologia da vida e obro do' artista.

Guilherme Wisnik é arquiteto e ensaísta,


autor de lucio Costa (2001).

PUBLIFOLHA
GUILHERME WISNIK

· GUILHERME WISNIK
CONSELHO EDITORIAL FOLHA
Alcino Leite Neto EXPLICA
Ana Lucia Busch
Antonio Manuel teixeira Mendes
Arthur Nestrovski
Carlos Heitor Cony
Gilson Schwartz
Marcelo Coelho
Marcelo Leit~
Otavio Frias Filho
Paula Cesarino-Càsta

CAETANO VELOSO
GUILHERME WlSNlK

PUBLIFOLHA
© 2005 Poblifolho - Divisão de Publicações do Empresa Folho do Manhõ S.A

Todos os _direitos reservados. Nenhuma' porte desta publicação pode ser


r(!produzrdo, arquivado ou transmitido de nenhuma formo ou por nenhum meio
SUMÁRIO
sem permissão expresso e por éscrito do Pub/ifolho - Divisão de Publicações da
Empresa Falha da Manhã S.A
Editar
Arthur Nestrovski
APRESENTAÇÃO: CAETANO EXPLICA CA.ETANO 1
CAETANO EXPLICA.A FOLHA. .... 7
Produção editorial
Paulo Nascimento Verona
1
Assistência editorial
Julio Duarte
l. ARESTAS INSUSPEITADAS. . .. 13 1
Copo e projeto gráfico
Sílvio Ribeiro 2. O CORPO MORTO DE DEUS VIVO E DESNUDO .. 29
Sobrecapa
Arthur Nestrovski
Produção gráfica
3. ACORDES DISSONANTES PELOS CINCO MIL
Soraia Pauli Scorpo ALTO-FALANTES . . .. 43 ,j
Revisão
Leny Cordeiro
José Munir Jr. 4. TRANSA QUALQUER COISA JÓIA, BICHO. :,,
Editoração eletrônico MUITO CINEMA TRANSCENDENTAL .. 69
Croyon Editorial

Foto do sobrecapa
Dadâ Cardoso 5. LANÇAR MUNDOS NO MUNDO 97 1 ,
I
Fotos
Claudio Freitas (p. 6), Maria Guimarães Sampaio (p. 42, 127, 138, 177 e 200)
CRONOLOGIA 123

Do do, inlcrMcionois de Cotologoçóo no Publicoçóo (CfP) DISCOGRAFIA. 139


(Cêmoro Brasileira do Livro, SP. Bro,H)

Wisnik, Guilherme
Coe!ono Velmo / Guilherme Wisnils. - Silo Poulo
BIBLIOGRAFIA E SITES. ....... 179 1
Publ,folho, 2005. - (Folho Explico)
1;
j,
1
Bibliogrolio.
ISBN BS.7402•692-T

1. Cultura - Brosil 2. Músico Brosil - Histo,io e


rntico 3. Músicos - Brasil - História e critico 4 Veloso,
CoetMO, 1942 - Critko e interpreÍoção 1. Titulo li. Série

05.6000 CDD.927.80981

Índices pora c<Ítólogo sistemático


1 Músicos brosilei,os , Yido e obro 927.80981
/" reimpressão

PUBLIFOLHA
Divisão de Publicações do Grupo Eolho
AI. Barão de limeira, 401, 6º andor, CEP 01202-001, São Paulo, SP
Tel.: (1 lJ 3224-2186/2187/2197
www.publifolho.com.br
APRESENTAÇÃO:
CAETANO EXPLICA CAETANO
CAETANO EXPLICA A FOLHA

O Estrangeiro (Pa/ace, SP, 1989)

'
----
. Aprt'.ielltaç,fo

construtivo, transformándo.a música popular brasilei-


ra ern um campo de cruza111entos onde as coisas estão
todas postas em estado de explicação. Pode-se dizer,
portanto, que a partir daí a canção passa a fazer parte
1
de uma polünorfa explicação da cultura. E ao fazê-lo, 1
de fori11a _sempre heterodoxa e dissonante, termina
tan1bém por explicar o Brasil_.Assim, não são poucas
!
'
as explicações que, de um modo ou de outro, estão
pressupostas neste pequeno livro.
Paralelamente, ao fazer de Caetano Veloso o tí-
tulo de ·um Folha Explica, será preciso len1brar que ele
tem sido um dos artistas que mais discutira1n não só
con1 a crítica musical especializada, mas com a iin-
prensa em geral - na qual a Folha de S.Paulo teve des-
taque, ao lado do Jomal do Brasil e da revista Vcja. A
postura de assumido - ou suposto - cosn1opolitismo
adotada pelo caderno "Ilustrada" nos anos 80, no caso

[ç]
aétano Velo_so é, certa. ment.e, unia das mais
"inexplicáveis" personalidades brasileiras. pàrticular da Fo/ha,levou-a a relativizar ou desqualificar
Não apenas por ser un1 artista polê111ico e freqüentemente valores defendidos e representados pqr
. camaleônico, cuja força sen1pre esteve na artistas da música popular brasileira. Caetano, acusan-
capacidade de escapar às classificaçõés e desautomatizar do nessa posição aquilo que sente como desprezo pelo
chaves convencionais de interpretação, mas ta111bé1n BrJ.sil~ da parte de _un1a certá inteligência paulistana
por se tratar de alguén1 que não cansou de se auto- ciosa de se distinguir e se desincompatibilizar das mar-
explicar ao longo dos seus qliarenta anos de vida_artís- cas paradoxais do país colonizado e periferico, apeli-
tica (iniciada em 1965), a ponto de parecer esgotar dou-a ironicamente de "A Falha de S. Paulo".
tudo o que çie novo,se po_deria dizer a seu respeito. Como se verá,. o roteiro desse livro não segue
Ao 1.::r-1esmo ten1po, continua a atrair para si a aten- un1a cronologia linear. Ante?, propõt un1 certo
ção de un1 público imenso - dentro e fora do país ---,--, em.baralhamento de tempos, que intenta dialogar com
, mantendo-se càmo un1 foco de controvérsias a exigir a prosa poética do artista, essencialm~nte elíptica e
sen1pre novas explicações. Quér dizer: a "explicação", antinarrativa_. O que nãO quer dizer que 'se tenha, aqui,
aqui,não é dispensável ou redundante. NJ verdade,ao descuidado d~ preocupações didáticas. Ao contrário,
atacar a autonomia formal da ca!1çã0, incluindo uma essa opção procura dar n1aior ênfase a questões essen-
série de outros elementos no seu interior -.encena- ciais que atravessam sua obra, visto que esta é n1arcada
ção, ruídos, referências visuais, cultura de consun10 -, , por inúmeros pontos de adens;1n1ento e ruptura em
o tropicalis1110 deu ao' discurso conceitual um papel que o artista Veio, ao longo do tempo, a reinventar-se
10 Cat'/a,w Velo.,o

diante de impasses e desafios renovados, embora nem capítulos: "Acordes Dissonantes Pelos Cinco MilAlto-
sempre com pleriO domínio dos seus de_sígnios. _ Falantes", que trata do tropicalismo (1967-68), e'·Transa
Estrategican1ente, este ensaio se inicia focalizando Qualquer Coisa Jóia, Í3icho. 'Muito Cinema Trans-
o últinJ.o momento de adensan1ento nessa trajetória até cendental'', que aborda os anos 70.
agora: o slw11, Cirrn/ad,1 (1992), em qúe, ao completar 50 Por fini, em "Lançar Mundos no Mundo" se
anos de idade e 20 anós da sua volta dO exílio en1 Lon- discutem temas variados,· como a relaçào de C·aetano
dres, Caetano faz unu releitura de sua carreira situan- com a composição de canções e co111 as diver.sas ci-
do-a em novas bases, como desdobramento vital de um dades do mundo a _partir de Santo Amaro da PurHi-
desconforto apontado em Estrangeiro (1989), na passa- -c1i,·Jo, sua cidade natal, situada no recôncavo baiano.
gem dos anos 80 para os 90, en1 que o artista tematizava Nesse capíti.tlo final é deb:itida também a retomada
o eclipsamento dàs utopias. surgidas !10 ambiente libertá- do Brasil como questão em sua obra a partir de Vi_•/â
rio e contraCultural dos aq_os 60. (198-1-), no ,momento d;;i abr,;-rtül'a política" do país co111
Ao fazer essa revisão, Caetano recupera a expe- a ·campanh,1 pelas "Diretas Já'',-em um percurso -
riência do exílio (1969 a 72) como um dado fundac 'agora sim cro1iológico - que volta a ·e11eontrar o
mental em sua obra. Ç) que, ao mesmo ten1po, ilustra a ponto inicial do livro (1989 a 92). e o ultrapassa, abrin-
sua concepção de que o golpe militar de 64 não signi- do-se para uma breve reflexão acerca da sua produ-
ficou a corrupção de um Brasil puro",_ e sim mna ex- ção nos últimos tempos.
pressão cruel mas verdadeira de sua "geléia geral", fei- Nesta,. uma' longa crise parece explicitar-se, des-
ta de forças antagôniqs e contraditórias em que não locando d foco de inquietaçào da composição de can-
se divisam separações esquemáticas. entre o !Jem e o ções para a vocação ·de intérprete em sentido amplo:
mal. Essa é a _ponte que nos leva, voltando atrás no intérprete-ensaísta do processo de "fornüçào" brasi-
tempo, para o segundo capítulo, dedicado ao exílio e leira, lido pelo prisma de sua singularidade cultural -
à superação da paródia tropicalista, apontando para un1 que se consuma na redação do livro Verdade Ti·opiral
_aprofundan~e,nto· lírico afiado pela cultura nordestina (1997) -, e cantor-leitor de um vasto repertório da
em suas canções. música popular nmndial a partir de unia dicção pró-
A volta do exílio prefigura un1a situação muito pria - ná interpretação dos cancio"nei.ros hispano e
representativa do papel caçia vez mais pregnante da anglo-_americano em Filla Esta11Tpa (1994) e A Foreigll .
cançào popular no Brasil, .cmno mna resistência sub- S01T1Td (2004), além do cruzamento entre canções brasi-
terrânea -à opressão do regiine núlitar que ten1atiza o leiras do período pré-bossa nova e o universo das can-
poder vital da 111úsica e do canto co1110_ superação mito- ções italianas tendo co1110 inspiração. os fil111es de
poética dos conflitos, abandonando a polarização que Fel)ini, feito em 0111aggio a Fcdcrico e Gilllietta (1999).
havia marcado o fün dos anos 60 entre engajan1ento Afirmi].ndo-se, a partii-_ daí. como un1 artista de enor-
político e experin1entalisn10 estétiéo, regionalismo me trinsito internacional, em diálogo-produtivo com
folclóriCo e internacionalismo tecnológico. Esse assunto, -figuras como a dançarina e coreógrafa alemã Pina
que constitui o núcleo do livro, está dividido em dois Bausch - que o convi~ou para tcx.car na festi.;idade de
---
25 anos da Companhia Tanztheater Wuppertal (1998)
-, e o cineasta espanhol Pedro Alr'nodóvar - que in-
clui, em Fale Co111 Ela (2002), uma cena em que Cae-
tano canta "Cucurrucucú · Paloma" no set. lsto é: con-
solidando-se como intérprete do Brasil e divulgador l. ARESTAS INSUSPEITADAS
internacional privilegiado da experiência de sua n1ú-
sica popular, nrnna atitude que aponta para a reversão
artística dos complexos de subdesenvolvimento her:_
dados da colonização.

'

a
-----
Are.ws ln.,r1_;pâtiJda., 15

Com este depoimento, feito no s/1011 Cirm/add 1

(1992), Caetano introduzia a apresentação de "Debai-


xo dos Carocóis dos Seus Cabelos", canção composta
por Roberto e Erasmo Carlos en1 sua homenagem,
entre os anos de 1969 e 70. 1 E, remexendo publica-
mente nun1 capítulo até então tabu de sua vida pes-
soal, tenninava por alinhavar tanto um conjunto de 1

'
outros discursos autobiográficos feitos ao longo do
show quanto o cruzamento oblíquo de sentidos inscri-
tos no diálogo entre as cançõ_es apresentadas _ali.Trata-
i
va-se, certamente, de uma convergência de significa-
ções profundas.
Situado no início dos anos 90, o disco Cirm/11dr:1
(1991) prolonga e complementa aspectos de uma im-
portante mudança na obra cancional de. Caeuno, pro-
cessada no ;1lbum Estra!l'-(!ciro (1989)_. Mudança que se
o ano de !968 Gilhcrto Gil e c.11.f<1111os presos.
1
verifica tanto em te'rmos sonoros, c01:i1 a incorpora-
Fira111(1_ç dois meses na cadeia, depois quatro 111cscs ção das guitarras e teclados eletrônicos de Arto Lindsay
co1!fl11ados 1111 Cídadc do Salvado,; e por ji111 e Peter Sherer, do grupo noVa-iorquino AmbitiÜus
f(}///OS lcuadct,· ao iotcrior de ·11111 auiào de 11ôo Lovers, quanto de discurse:, poético, fundarrdo um pon.-
i11trmaâo11al por a,~mtes da polícia federal para q1-1c dci.~ássc- to de vista novo. marcado por uni estranhamento ra-
111os o Brasil, de 011dc ficamos /011_í?e! exilados, por dois anos e dical em relação ao momento presente.
111ci(\ cm Londres. Isto me e11rhcu de amargura, .s"obretudo por-:- Como está anunciado na canção "O Estrangei-
q11c nás, tropicalistas, acreditávamos q11c a·dit{/dura militar - ro", o sujeito que canta se encontra "menos estrangei-
que qfinal durou vi!lte anos - não tinha sido 11111 acidcwc que ro no lugar que no momento", indício de que as in-
se abatem sobre o_ Brasil, oriundo de Ó11tro pla11áa. l\1ào 116.s1
suspeitadas arestas que aparecem na paisagen1
acreditávamos, e cu ainda acredito, ·que a ditadura militar tinha cartão-postal do Brasil - o Pão de {\-çúcar e a baia de
sido 11111 gesto saído de regiões pnfwzdas do ser do Brasil,
alguma coisa que dizia muito sobre o !!Osso ser íntimo de
brasileiros - 11ocê5 podelll imaginar como a minha dor era 1 A cançfo, gravada por R obnto Carlo.1 L"lll 197 I, foi co1llpúst,1 apó, lllll,l \"Í11ra do
m11ltiplicada por essa certeza. ~\To entanto uma vez 110 exílio)
1 "rn_" :1 CJcuno é Gil t'lll >cu c•.;:í]io londrino. elll JW19. Cierwo. naq11e~1 oc1siào,
)1,w1,1 chor.1do llltllto ao ouvir Robc·rto O!lt;lr '•Na, Cur\"a1 da E,[rad,1 ,fr S.wto,",
d1e,_gavam até nós) saídas de regiões 11ào menos pre:,fi,ndas do
ser do J3rasi( vozes que nos diziam (110.s tentrwam dizer) que fi.m que o ~t'll.Übiliz()u, e pny.:.1vdn1ente o h:vou a co1npor css.i c,mçJO élll sua lio-
ir,enagL'!ll. E1.1a lii.,tória L"1t;Í conc1cü no p_rogr,1ma d.1 TV !Vbix-lwre leitú em l10me-
isso não rra t11do.. Estc1 canção) por cxc111plo) que cu vou cantar n,lgem ,10, .1e111 50 anos, que foi ft'.ll!rllido em Cirw/adâ f.'i,,o (difrç:io:JOI(' Ht•nriqu<:
as:ora)foi composta, para mim) por esta razão. Fomt:c.1 e Walter S,1lbjr., 1992).
Arwras !!lsmpâr,1d11s 17

Guanabara - revelap1 umJ disjunÇào que se open an- No pesadelo impressionista de "O Estrangeiro",sob
tes na circunstância do que no lugar. Isto é, o estra- a áspera n1assa de acordes e111 _arpejos percussivos que
nhamento que se vê na paisagen1 - "urn Pão de Açú- não encontram repouso, o isolamento 'involuntário do
car menos óbvio possível'; - é o espelho de um !
sujeito gÚe canta .revt'la um doloroso amputamento his-
estrangeirismo que não diz respeito à naciona1id::1de
(a etnia, o país -geográfico, ou a cidade), n:as ao mo-
tórico: o fin1 das utopiaS existenci~üs, estéticas, morais,
sexuais, soGiais, políticas de: sua geração. Isto é,· o desapa-
l
mento histórico vivido.
Essa inversão tem importância considerável no
recimento do motor criativo e ideológico.da arte surgida
no ambiente contracuituraJ dos anos- 60, que originou o
l!
contexto de uma obra cttjo fundamento 111aior sem-
movimento hippic, o tropicalismo, a rebeldia do rork e as

l
pre esteve na capacidade de tensionar a ci.Jltura do país
agitações estudantis em maio de 68 em PJris.-1
- o lw~ar - dada J sua adesão m~íxii_iia à contem-
" , Ora, J deflagração do movimento tropicalista foi a
poraneidade do tempo presente, ancorada na exigên- expressão vigorosa e radical de uma situjçàó de choque_
j cia de se defrontar permanentemente con1 as infor- entre a 011da libertária dos anos 60 e o endurecünento da
maçoes~ m~m atuais d~1 modernidade -cultural. E a ditadura militar no país, sob .o pano de fundo de·um·
seqüência dJ canção não deixa dúvidas ém relaÇ-lO crescimento econômico mundial. E mais: Jlimentou-se
a essa passagem histórica, referindo-se diretJmente a de uma situação de aguerr,id'a polarização ideológica no
"Aleuria
b '
Alegria" , hino tropicalista de 1967: "E eu, · campo cultural, no horizonte do fJorescin1ento de uma
menos estranueiro no lugar que no 11101nento/ Sigo cultura pop int_ernacional que embaralhava as noções de
" , .
"originalidade" e"redundância" antes atribuídas de 111odo
mais sozinho ca11iin/11111do rontra o uenro".
Está claro que a solidão, agora, enfatizada na cm- estanque aos campos do erudito e do popular. No con-
çào ("sigo mais sozinho"), se distancia do alheJmento texto "pós-utópico"já mais do que desenhado na passa-
gem dos anos 80 para os 90, era o avesso desse guadro
leve e voluntário do Sltieito daquela outra canção, que
que se havia cristalizado.
cantinha com "os olhos cheios de cores" e "o peito
A canção "O Estrangeiro" reconstrói poetica1neÍ1te
cheio de amores vàos" em meio aos estínrnlos visuais
esse "pesadelo", en1 qÚe o sujeito que canta está isolado
velozes e intransitivos de uma cultura de consun10 nas- numa situação sinistra, postado de costas para un1 ceni-
cente, captados através de uma 1inguagen1 também frag- rio conhecido n1as estranhado, onde o novo e o antigo
111entária, "onde predmninam substantivos-estilhaços da se combinam nas figuras de "um velho,com cabelos nas
'implosào informativa' n1oderna: crimes, espaçonaves, narinas", trajando un1 soturno "terno negro", e "uma
guerrilhas, Cardinales, caras de presidentes, beijos, den- menina ainda adolescente e nluito linda", cujos dentes
tes, pernas, bandeiras, bomba ou Brigitte Bardot" .2 conservan1 uma cor" quase não.:púrpura".

'Augmto de' Campo.,." A Explosão de' AkgriJ,Alegri.1'" ( 1967). élll: 8,1/a!/(<' d,i B,,ss,1 'Cf.jo.12' Miguel Wis111k, "O Som t" ~Visibili<.fade", élll:Artéri,1, n" .f {S,mtos: Secrt·u-
(' 011tr,1s 8')s_,·,1s (S.lo P.wlo: !'er,peniv,1, '.'.OOJ. 5• cdi1)0), p. 1SJ. r.i;1 de Ciiltura dé Snntos.jtmho de !992).
-
18 Cmfa110 Veloso Ãrcsras ll1s11spâtadas 19

,A al~ernância circular entre dois acordes sin1ples alegria e preguiça/ Quem. lê tanta notícia?") con-
obsessivamente arpejados reforçà a sensação de aprisio- . cluídos asce1tdentemente ("Por que não?"), reforçan-
namento em unia estrutura que se move nus não re- do sua atitude de deslocar-se decididamente no
pousa - replicando a sugestão de congelan1en~o tem- espaço.Já em "O Estrangeiro",'a poucà extensão meló-
poral da letra ("em que se passara,passa,passara o raro" dica do canto circunscreve a voz principal em mna
pesadelo")-, num 111oto-perpétuo 9\1e._vai se_ndo ten- altura média colocada muitas ·vezes em registro se-
sionado de modo crescente pela sLueira rmdosa das n1elhante aÜ das notas agudas dos acordes ,pont{-
o-uitarras e pelos motivos dobrados dos
b . .
tecbd_os.
. .
lhisticamente arpejados, não deixando que ela sedes-
· .O ápice dessa estrutura narrativa n11press10msta taque claramente do vasto e labiríntico universo
está na hora e1n que a voz que canta asswne com sonoro que povoa a música.
ironia reatral-1 o papel daquele para quem se recusa a No entanto, mesmo se fundindo com a voz que
olhar - "o Velhó" -, tornando-se· o porta-voz do seu rejeita, o s10eito que canta emerge do pesadel0 enten-
discurso autoritário: "É-chegada a hora da reeduca- d~ndo "o centro do que estão dizendo aquele cara e
ção de alguém/ Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, aquela".A canção é um "desmascaro" que põe a nu a
amém/ O certo é louco tomar eletrochoque/ O certo · realidacie descrita - esse novo consenso conservador
é saber que o certo é certo/ O n~acho adulto bran,co cantado em· um "duplo som", gue ·deixa sem lugar
se111pre no comando/ E o resto e o re~to, ,º _sexo e o histórico a utopia de sua geração. Pois o pesadelo é
corte, o Sexo/ Reconhecer o valor necessano do ato uma construção ("eu não sonhei"), um exercício poé- ,')
'·;
hipócrita/ :Riscar. os índios, nada esperar dos _pre- tico de tornar-se "cego" diante do lugar conhecido ,/
tos". Nesse trecho, à sua voz vem se somar mna ou- para poder enxergar n1elhor ~quilo gue o hábito de '
tra - a da "menina"-, fantasmática e n1etaliza<;ia, cuja quem está preso ao presente constanten1ente impede
presença pareC"e dar renovado alento àqu~le pronun- que se veja, anunciando, por fim, a revelação: "O rei 'i
ciamento sinistro. está nu/ Mas eu desperto porque tudo cala frente ao j
Em "Ale o-ria, Alegria", a eficácia do discurso fato de que o rei é mais bonito nu". · 1
c.ancional est~:a na afirnução .de independência ide- Atitude que se abre para -a percepção do excesso
ológica do eu que canta, que;sob wna ca1na or~ue__s- e da falta que- constituen1 a paisagem cantada. Ou, en1
tral de cordas sintetizadas, soando cd1no un1 orgao outras palavras, para a "ao mesmo ten1po bela e ban-
de igreja, ~un1a marchinha propositalmente ingênua, guela" Guanabara, cuja duplicidade se reatualiza na
podia desenhar claramente linhas .melódicas descen- situação conten1porânea -desse enigma-Brasil.
dentes ("O sol nas bancas de revista/ Me enche de Fica claro, portanto, que o estrangeiramento
no tempo, re_alizado como desrecalgue simbólico
na canç.ào citada, não representa uma fuga da urgên-
'É ~1moin:ítico que cm ,1pre.1~nuçõe1 c~lll míia b,1mb nrai~ ~edu2id,1, ou ,1pc•1w_~ voz
e'violão, Cad~no ~J]tl' u111a oitav,1 par,1 c.u1t,1r o rdr:1o, acem11and(l Jssun o
cia histórica contida na criação artística.Ao contrá- j
rio, significa a atualização de un1 permanente exer-
de1eolam~nto da voz que unta em rebçJo ao re1to da "'"1,.,0, <.: r<"forç,mdo o dím.1'\
musical rderido. cício de lucidez em_ relaçãci ao mundo.Presente, e
i
Arestas /11.,uspât!1d,1s 21
20 Caetmio vdosrJ

ao 111odo como o artista pode vir a tensioná-lo, re- ~or outro l_ado, ·a canção não fixa a representação
do pais nessas mugens unican1ente abonünáveis -
velando suas arestas.
dominantes em outra faixa do disco, "O Cu do Mun-
do"-, n1as estrutura-se em uma construção dual que
alterna essas estrofes catastrofistas a outras que expres-
UM SHOW DE JORGE BENJOR sarn belezas intensamente afirmativas, "pletqra de ale-
DENTRO DE NÓS gria": as coxas de ~una acrobata nmlata, o grupo tea-:-
tral Intrépida Trupe, o cantor e compositor Jorge
No dlsco Cirmladô, o que parece estar deslocado é Benj@r. Terrível e luminoso, o Brasil não está nem in-
novamente o lugàr:- o Brasil, vistó con10 uni estran- c~ufd? na "nova ordem", podendo gozar de seus pri-
aeiro diante do quadro restritivo de uma "nova ordem v1leg10s, nrn1 con1prometido ideologicamente ·com
b '
numdial". O que nã.o quer dizer que o 111al-estar a11:te suas causaS". E é justamente tal ambigüidade que vem
o,neoconservadorismo dos novos tempos tenha sido. determinar~ dificuldade de se encontrar um lugar certo
apaziguado.Ao contrário, o sujeito indetermina.do ("al- para o Brasil nessa ."nova ordem". Ou melhor, o qut'
guma coisa") que. na _canção "Fora da Orde111" apare- está "fora da ordem", na canção, é precisa111ente esse
ce como estando deslocado - em que adivinha1nos a não-lugar que representamos, que parece flutuai; "en-
referência ao Brasil-, nada mais é do que mna. exten- tre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o subli- _,
são coletiva_ (cultural, geográfica) daquele'' eu" da can- 111e" (" Ameri_canos"), não cabendo en1 ordens
ção "O Estrangeiro". Assim, esse novo n1oviinento esquemáticas novas •ou velhas. Daí a babel sonora que
não nega aquele surgido em Estrangeiro.Antes, repre- en1erge da sobreposiçà9 de vozes que canta111 o refrão
·senta uin aprofundan1ento de sua fratura, 1nirando a "A1gun1a çoisa está fora da ordem/ Fora da nova or-
falta de lugar definido para un1 pàís con10 o Brasil no den1 mundial" em diversas línguas (ingles, francês, es-
cenário de uma globalização excl.udente, que o presi- panhol e japonês, além, é claro, do português).
dente americano George Bush (pai) havia chamado Aqui, ao contrário de "O Estrangeiro" a cancão
de "nova ordem n1undial'"'. surge con1 uma sonoridade esvaziada, em -q~e as ü;u-
Contudo, o que aparece tematizado na canção não gens que vão sendó anunciadas seqüencialmente pelo
é exatan1ente a exclusão que os países ricos, alinhados a canto, c01no num noticiário jornalístico, são conduzidàs
essa "nova ordem", impõeri1 àqueles considerados eco- pelo pulso oco e seco -de baixo e bateria. O con1po-
nomicamente pobres, con10 o Brasil, mas a exclusão nente harmônico (Já menor e ré menor), que daria
congênita, intestina, que se auto-alimenta da própria corpo e colorido àquela "construção", desponta ape-
miséria do país: assassinatos, tráfico de drogas, crianças nas nos cornentários de guitarra - n1ais SLtingada e
morando nas calçadas· e brincando con1 arnias, monta- arranhada do que ha-rmônica -, que entram e sae111 de
nhas de lixo nas ruas, esgotos a céu aberto; un1 estado sua cadência contínua, enervando-se abruptan1ente em
precário de eterna construção que não chega a se com- .algm1s n1on1entos, mas logo recuando para dar lugar
pletar, transformando-se logo em ruína. ao pulso principal, repetitivo e desencorpado.
1
:1.,
Assim, o elemento novo que vai surgindo com exílio. Ao longo do slww Cirm/adô, que estreara no
ênfa~e à medida que a canção se torna mais con1pl~xa início daquele ano, essàs informações.biográficas como
que se condensavam pouco a pouco na seqüência de
e exp~e a sua ;:uubigüiçlade .te~nática é o cmnponente
canções apresentadas, que.combinava uma releitura do
rítmico: congas, tamborins, repeniques e surdos, que
tropicalisn10 cóm uma interpretação enviesada do Bra-
sufocam a bateria, como unia "construção" que se er-
sil, ultrapassando o dado biográfico na exata medida
gue por dentro da "ruína", acompanhando o m.ovi--
em que era capaz de fuzer da experiência pessoal a cha-
nJento de uma outra ordem cifra~a na letra dà canção:
ve p;Jra uma nlirada crítica da ~ealidade.
a própria palavra "ordem", que se insinua se1nantica- É como se ao completar 50 anos, aproximando-
meme entre "Benjor" e "dentro", no interior da frase i
"um slw111 de Jqrge Benjor drntro de ·nós".
se de se tornar "O Homem Velho" da canção com-
posta oito anos antes, após a morte de seu pai, C·aeta-
';
Pletora de alegria, a referência a uma ordem- no pudesse agora sentir e representar a slÚl própria
Jorge Benjor que se desenha "dentro de nós" indica histórta como um "farol': diante da migração das coi-
não a "nàva ordem mundial",_ ma~, talvez, a ')LKç,: or- s,1s. E, nesse sentido, retomar e reprocessar artistica-
dem mundial, como uma baliza futura que se le no mente o recalque pessoal do exílio, transformando-o
presente. Em outra ocasião, Caetano já observou que numa senha para algo novo. Estavam se fermentando,
"o artista Jorge Berijor é o homem que habita o país ali, .~s ingredientes que o levàriam a escrever Vi'rdadc
utópico transistórico que temos o dever de construir Thipira/ (1997), seu livro de n1emórias e reflexões so-

e que v1Ve ' , " 5
em nos .· bre as circunstâncias culturaís que envolvem o perío- :;
do db troPicalismo, sua prisão e exílio.r, ,,i',
'd

Situado entre o "desmascaro" revisionista de Es- ·]1


trangeiro (198,9) e a revisão ma~s programática de Ti-opicália ,,
·::
j
2 (1993, em parceria com Gil), o show Cirmladô (1992)
AS COISAS MIGRAM r~aliza o resgate mais denso das circunstâncias históri- '.i'
E ELE SERVE DE FAROL cas que permeiam a carreira musical de Caetano, atua-
lizando problen1atican1ente suas questões. Não por acaso,
En1 1992,duas efemérides se con1pletavan1 sinrnltanea- está loca]izado no intervalo entre os dois principais textos
mente: os 50 anos do artista e os 20 anos de sua volta do escritos pelo artista nos últimos ten1pos: "Cannen

'' Ca.:tarw v'.,·Imo. J i·nfad,· ·n,,pin1I (SJ" P,mlo: Con1pa11hi,1· da.1 lt'tr,1>, )')97). É \ignifi-
'Caet,l!lo·v,..10,0,"Dill·rentc•mente do, Am,..riunos do Norte"' (IV9J),.:rn O .1/Hml,, c\ti.\·o que• a partir d.:.,se monwnw Caetano teu!JJ p;m,ido .1 declarar publiun1enk'

.\',i" /' C/J,11,, (S:io Paulo: Comp.mhi.i da, letr~,, 2.1103), Euêana>l Far.1z (org.). p. r,l. (cm progrJrn.1s como E/J.,•o1i<>,n,1 TV~:ulrur,1, t'jô 011~1' e ,\fri,1,no SHT.por t'xcmplo),
.1 razão qu.: motivou su~ pn~fo: a tknúnci,1 foi ta pdo jornali1t;1 Rondai Juliano. baseada
O tL'.\to é a tran,niçào dL· uma confi:rê·nc1a prntl·ridi no Mmetl deAne Muden1.1
do R.1<1 ,k Janeiro em 2.6/ ]0/J')')J, no conr,:xto do ev,..ll!o Enciclopé,fü tb Virada 11!1 hi.stór1a fo11t,1.1iosa de qu,• Ca.:ta111) e Gil tniam, c!ll mn s/r,>w. cJ!lt,ulo o Hino
N,1cion;1] t'llXc'rtJl!o de pab\"J"Oe,.
do SL·ru!o/ Milênio.
24 Caetano Veloso

Miranda Dada" (1991), 7 publicado no New l:brk Ti!llcs,


dor, nunca havia cantado em público até aquele ano;
e a "Conferência" feit,i no MAM-RJ (1993)," em que
as referências múltiplas aos Estados U11idos, e às rela-
definiu a negatividade do movi111ento tropicalista como
ções entre an1eriónos e brasileiros, apontando p_Jra
uma "descida aos infernos".
Carmen Miranda, a "exilada" da MPB e musa do
É conhecida a habilidade única de Cael1no em cons-
tropicalismo; e a figura ímpar de Roberto Carlos, lí-
truir discursos desconcertantes ah"".:W~s da costura de can-
d.er ·da jovem guarda,)igado ao _caPítulo decisivo do
ções que se coment.1111 mutu,unente ~ suas e .de outros
exílio londrino. To__,das essas infonnações se cruzavam
autores-, gerando sentidos em segundos e terce1ros grans,
subfüninannente naquele denso depoimento feito en1
en1 teias complex,1s de relações cruzadas. Mas a h"Jma ur-
dida no sÍlt111, Cirmf.?dô é digna de menção especial. Ali,'
tom_de Íntima confissão, que preparava a ,1presentação :j
de "Debaixo dos C.1G1cóis qos Seus Cabelos". j
somadas Jo repertório recente, que. incluía "Fora d<-l Or-
Simultaneamente retrospectivo e prospectivo, esse l
dem'' e "Circubdô de Fulô'' (musicalização de um poem~1
em prosa de Haroldo de Campos),outr::is canções pontLla-
di.~curso aparecia com a força persuasiva de uma súbita
revelação, expondo às claras tanto a motiv~1çào real da-
'I
-.:
i
vam momentos nodais de sua trajetória Jrtística, tais como
-quela famÜsa "canção do Roberto", que uma vez reve-
"Alegria,Alegria","Baby", "Os Mais Doces Bároams" e ·/
lada tori1ava cristalinos versos antes obscuros como "você
"Un~ Índio" :de
sua autoria, e "Chega de Saúdade" (Tom
só deseja agora voltar pra sua gente", 1" qLunto a sua ;.,i
Jobim e Vinicius de Moraes)., "Disseran~ Que Eu Voltei 'I
impordncia íntima para o próprio CaetanÜ, aludindo,
· Americanizada" (Vicente Paiva e Luiz Pe1xoto,sucesso de
Carmen Mir~mda), "Debai..\'.o doS·CJfrteóis dos Seus Ca-
também, ).o poder curativo· das can,;ões em sentido
amplo - afinal, tratava-se de um gesto de carinho e
'i
belos'' (Roberto e Erasmo Carlos) e '}okennan" (Bob
cumplicidade, mediado pela canção, vindo de alguém
Dylan), além do mcd!cy "Black or White" (Michael
que era não apenas um ídolo, 1nas um cantor e compo- 1
Jackson)/" Americanos" (Caetano Veloso).
. sitor popular reconhecido como"rei" pelo povo do país.
Evitando e111brenhar-se demasiadamente nessa
Reside aí um aspe_cto fundamental do que foi
teia de relações, podemos apontar a eleição de dois /
exposto con10 verdade intensan1ente vivida no depoi-
momentos particulares em sua carreira: o trop~ca1ismo,
mento de Caetano naquele show: a MPB habita rnna
de l 967, e a criação coletiva de Doces Bárbaros, de 1976.
região profunda do ser do Brasil, 11 daí a presença con-
Ao lado disso, há a presença absoluta de João Gilberto,
centrada do.país na figura do rei Roberto, tão in1por-
através da canção "Chega de Saudade", que Caetano
considera a obrJ-mestra da bossa nova e da música
pop1:ilar brasileira de todos os tempos,' 1 e que, por pu- '" No progrwia lf11s,1/,,, d.i TV Ctiltur,1 ()':.192), Caer:ino ,·onta ljUl' pnuo !:;<:nte co-
nhL·ci.1 a hi1tóri.1 re;il por trá.1 dJ çtnç."io, L' l]llL', ~01110 .1qu~le dq,oimenro llllllel li,1n1
\ido en~.1i.ido.1nesmo o, 1nl1;;1eo, (fa .,u,1 !i,111d,1. ']m: st·mpn· !:;O'\t.1rm1 da c.Hlçào sern
co11ht•cer o ,~u do vital com .1 b1,cória de C.1cc.wo..1e vir,1m 1urpreemlidm no dia d.1
- C1n.uwVdo\o."C.1rnw.n 1\11rand,1 1).1d,1". .Vcwii>rkTimt'-', 20/]!I/ )991. n:pubhudo
de S. !'mil,>, 22/ I!)/ 1991.
<'ln fa//1<1
· A.1 rderida, 1·02c'\ ··s,1íd.1, (k rc•g1õe, n,1o menos prolimd.1,; do ~er do lk1,il" i11clu,·m
'Vc"r noc,1 S.
ccrt;IJllL'lltL'. alé·m ,k Roberto C:ari(h,Jorgc• Ileu. etúa ê,lll\·~o" M.1110 Caenno ", gr,1-
'Cf. i<·n/,u/,. "fii•1!/t,d. op. cir., p. 226-7.
vad.1 por M.iria l.!echánia em 197L IHrnienageia a su,1 í111i11enre·volt,1 .10 país.
-
26 Cr1ctm1a Vdaso

tante naquele momento de tamanha fragilidade pes- consensllais, con10 que ancorada no porito de fuga
soal de Caetano, que, mais tarde, observaria" o seguin- de um olhar estrangeiro. '"
te:"nós sentíamos nele a prese_nça simbólica do Brasil. . Por isso, o traun1a da separação abrupta do país,
Como um rei de fato, ele claramente falava e agia em v10lentame'nte instaurado· com o choque da prisão, e
· nome do Brasil[ ... ]: ele era·o Brasil profundo"." lentamente prolon_gado na agoiiia do exílio, descortina
De maneira cmnplementar, a agudeza crítica de com n;ais nitidez ;1 visão daquelas "arest~1s insuspeitadas''
sua ret1exão sobre.a existência de um nexo necessário na paisagem gue emblematiza o i,ser do Br;isil"
entre a ditadura militar e o ."ser" do Brasil, recusando tematizadas muito nüis tarde em "O Estr;111~eiro'' ~
dernonizá-la como uma manifestação anômala, e por- pes~1delo con;<;~ruído gue pode ser pens,1do, p~rtanto,
tanto estranha à realidade que a produziu, faz com con_lO um ex1ho em casa. Daí O perigo redobrado per-
que esse depoimento pessoal pareça deslizar do regis- cebido na .situaçjo que se desenha a partir do exílio
tro da expe1~iência pessoal para a e.Sfera da crítica dis- consumado: a tr,rnsformação de Caetano e Gil em m.'ir-
tanciada. Essa é, na realidade, uma das qualidades mais tires-heróis da luta polític1, indissociavelmente relacio-
poderosas e penetrantes da pcrS\HW artística de Caeta- nada, n.1quele momento., ao nacionalismo estético e ao
no: a capacidade de combinar de modo produtivo e engaj;~mento combativo da cançjo de protesto.
d~sconcertante as suas experiências pessoais e refle- E como .se as.f(xças diluidoras surgidas por den-
xões públicas, num fluxo em que ambas as esfe'ras se tro da b,~ssa nova 1~os :inos (J(), responsávei.s por inte-
estimulam e p.otencializam reciprocamente. Em sua grar os acordes dissonantes" ao "som doS imbecis"
poética, todas as afinnações são inegavelmente pes- ("S,~udosismo", 1968), contra ,ls guai~ o tropicalismo
soais. No entanto; nenhuma delas é privada. l~avu se Jevantadq, agora os quisessem sacralizar, trans-
No caso, a mesma constatação que poderia bei- tormando-,os em ídolos, e neutralizando sua veia crí-
rar o masoquismo, se 'tomada no plano individual - tica real. E do vírus dessa doença paralisadora · e
~quem te expulsa é o Brasil, aquele que você ama, e acomodatícia 'apelidada por Caetano de "Ipanemia" 13
não o seu inimigo -, é, ao mesmo tempo, a chave "uma espécie de 'o-sistema-engloba-tudo' amadorí~-
que permite descórtinar uma visão n1ais livre da rea- tico ", que ele vai procurar se proteger no mo111ento
lidade social, quando vista a partir do desterro "de de sua volta ao Brasil depois do exílio, en1 que afirma
um mundo tão distante". En1 outras palavras, é comó querer ficar na Bahia um tempão, "nesse so1, nessa
se aquilo que sangra no ·peito· ("mna saudade, um burrice, nessa preguiça". 1-} Daí a sua recusa em levan-
sonho"), no luto do exílio paradoxalmente potenciali- tar a _bandeira _de herói tropicaliSta naquela situação,
zasse a operação de eStrànhamento e desidentificação c?nd1zente -tanto com sua atitude de não enxergar a
já inerente ao tropi-calisn10 - sua programática recu- ditadura como um i_nimigo alheio e externo ao "ser
sa de crenças e tradições culturais cristalizadas e

'.' Cf "A lp.111t·mi.1'" (l<Jin),e111 O .\/111"/,, .\",;,, É C/1<11,,. op. l"ir.. pp. X:::!~IH.
1
' "/ lí1<"11:t,u'.1c·llk' Aqui'" (1972). em O .\/1//1,_t,, .\"â,, J'." Char,,, op. cit .. p. 11.">.
-
do Brasil'', quanto con1 sua insistência em caracterizar
o show Transa Como descompronüssado, i:i acentuando
o fato de cíue não realizava síntese alguma do que se
havia.passado anteriorn1ente.
"Deita liunia cama de prego e cria fan1a de faquir", 2. O CORPO MORTO DE
diz ironicainente o verso da canção "O Conteúdo" DEUS VIVO E DESNUDO
(1972), feita logo após a sua volta à Bahia. Essa canção,
que trata do medo da morte - JQLmciada numa falsJ.
profecia feita a ele naquele n1on1ento -, repelia o mau
presságio com os seguintes versos:" Minha alma e n1eu
11
corpo disseram: não! E por isso eu canto essa caiição'.' . '
Por isso é que há nesse "não!", dito com todas as forças
do espírito e, sobretudo, d_o corpo, uma contundência
nova, diversa do retórico "não ao não" de "É Proibido
Proibir" (1968), 17 anunciando o caminho fértil do que
se desenvolverá ao longo c;los anos 70.

" Cf. ºQuem é <l C:lfet.1110 ", entn:vi.st.1 .1 H.11nilton Alnieida no jonul Bc>11di11/l,1, 31 /
3 a 13/.J- de 1972, ,·m .·lh:1?ri,1,iilt:i;rfo (Rio de Janeiro: !'edra Q Ronc,1. 1977), Waly
S;1lon1ão (org.), p. lllS.
" ... E .1911<:I<' c:1ra falou qut.· 2 prJ ver k ..-u rüo brinco/ Con1 o ano de mil no,·c-
,~mo, e' ,ctcnta e ~incof Aqudc e.ira na 13;1hi:1 me falou qu,· cll morn:ri.1 dentro de
trt's ·.mm/ Minha alma e mn1 corpo di>.1tra1n: nelo! E por i-so eu r.into c.1s,1 ca11(10 -
Jorg;c .. '
,-j
1· "A 111k eh virg~m diz que nãn/ E o·.mllncio da tckvi·\Jo/ E e,t,1,~t t''>crito 110 .1
port.io/ E ll m,iestro erg;u,:u ·o dedo/ E ,1lém d.1 porr.1 há o porteiro. ,im/ Eu· digo
nào/ Ei.i digo n;'io .m n;l\l/ E c,1 digo/ É pmibido proibir. .. "

-----·------·-·· -
-
O Carpti Mortvdt Deus Vii'o e Dt's11udo 31

qtiando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais


feia que já vi na 1ninha vida. Essa coisa era a minha
própria cara" . 1~
Redigido.sob o forte impacto de estranhamento/
auto-revelação causado pela súbita visão de uma foto
sua e d~ Gil Gá no exílio), na capa da revista Fatos [-r
Fotos, esse artigo expõe de modo cru um procedi-
mento ao n1esmo tempo paródico e sincero de fi.mdir
a auto-observação e o diagnóstico distanciado da rea-
lidade ,·criando .wn curto-circuito entre o masoguis-
nio pessoál e a darividência de uma verdade mais ge-
ral,btente mas encoberta.Assim escreve:"Talvez ~lguns
caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez
tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero
dizer aquele abraço á quem quer que tenha querido me
aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu eqvia-
oltos da prisão na quarta-feira de cinza's de mos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito
1969, Caet;:ino e Gil seguiram para Salva- merecido porque agora sabemos que não e_ra tão difí-
[]] dor, onde ficaram confinados até pa_rtir pai_·~ cil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos
o exílio, e1njulho.Aos 26 anos de 1dJde,Jl morros: Ele está 111ais vivo do que nós". 1'J
como uma emergente estrela da 1núsica pop, Caetan_o Aqui, para além do reconhecimento an1argurado
voltava em silêncio, pela porta dos fundos, à cidade que de aniqui1an1ento individual ("nós estamos mortos"),
tinha lhe descortinado o mundo da vida artística· e cos- su~-ge .a referência tanto a forças novas, vindas do futuro
1nopolita quando lá viveu, entre os anos de 1960 e 65. ("virão outros"), quanto a un1 "Ele", no presente, que
En1 Londres, por un1 período de pouco mais de parece situar-se num estado ta1nbén1 intennediário entre
um ano (setembro de 1969 a dezembro de 70), Caeta- a vida e a morte, estando, no entanto, mais próximo da
no enviav~ artigos para o sen1anário carioca Pasqui111. Vida do que o sujeito que escreve a frase. "Ele" é Carlos
Escritos en1 uma prosa nurcadamente pessoal, esses Marighella, líder da guerrilha urbanà, e dirigente da
'
-~ textos refleten1 tanto a inquietude do seu pensamento Ação Libertadora Nacional (ALN), que havia sido assas-
acerca dos sinais esparsos e estrangeiros que lhe che- sinado pela polícía fazia poucos dias. Sua iniagem, mor-
' gavam fragn1entarian1ente do Brasil quanto o estado
de espírito depressivo en1 que se encontrava. Particular-
mente e111 um deles, escrito em noven1bro de 1969,
elabora uma dolorosa análise de sua situação artística a
-"' partir de un~a observação muito particular: "Hoje '' "Hoje Qu,rndo Eu Acordei '(l 'H)'J). elll O .\l1111dP ;\"</,, /~ C/1<11,,. op. ~·1t, p. J 18 i
,.. Idc-111, p. 3 1<J. Crifo 1101.10. :j
'-1
---
32 Cac1<1110 Veloso

to, aparecia contracenando naquela capa de revista co111 a uma n1elodia simples e de facil empatia, quase toda acom-
a foto de Caetano e Gil, exilados. panhada de acordes maiores, as imagens ameaçadoras de
É conhecida a afinidade que os dois con1posito- "janelas no alto" e de"sangue sobre o châo" (associadà ao
res sentiam com os jovens guerrilheiros da luta arma- "asfalto 1nanglle"),sempre prt'cedidas por um excbn1ativo
da ainda antes.da priSão, e que.já estava sugerida nas aviso de "Atenção", anunciam que algo ("tudo'') é ''peri-
cancões ''Soy Loco Por Ti, América" (de Gil e Capinan, goso", 1nas tamb611, ao mesmo tempo, "divino n1aravi-
gra~ada por Caetano em seu primçiro disc~o indivi,~ual, lhoso" - dualidade gue, para ser percebida, requer "olhos
em 1968 2"), e "Enquanto Seu Lobo Nao Vem (de firmes" tanto para o "sol" quanto para a "escuridão".
Caetano, que fala de ·um desfile carnavalesco-nlilitar Ass,im, se a súbita aproximação_ da imagem .de
subterrâneo, citando a melodia da Internacional Co- Caetano e Gil ao cadáver baleado de Marighella re-
munista). lde;1tificação ·"à. distância, de caráter român- forçava uma identidade entre eles, lançava luz, por outro
tico" - que, no enta11to, o peso trág_ico d_a prisão e_ d_o - lado, sobre J enonne dit"erença da situação em que
exílio parecia reforçar-, e que diferia da mcon~pa_t1?1- a1nbos se encontravam naquele momento.A contun-
lidade 111útua sentida em relação à "esquerda trad1c10::- dência da imagem do corpo morto· do guerrilheiro,
nal e o Partido Comunista" .21 Em canções como "E resistente como a de um Lampião urbano pego em
Proibido Proibir", "Questão de Ordem" (de Caetano emboscada, reforçava, por contriste, o abatimento e a
e Gil, r~spectivamente), e''Divino, ~aravil~o~o'' (par- ~inércia figurados na-imagem-espelho de Caetano e
c·eria dos dois, todas de 1968), havia explicitamente Gil, em seu ostracismo melancólico. Ao mesmo tem-
uma aproxin1açào do tropicalismo ao n1undo hippic e po, aludia também, ironicamente, ao estandarte Seja
ao ideário dos estudantes parisienses de maio de 68, 1'1m;~Í!la/, Sc:_ja Herói, do artista plásticO Hélio Oitici~a
com seu "imbricamento de esquerda c·om hippisrno, - ~ estampado com a itnagem em alto-contraste do "ban-
de militância clássica com militância contracultural" .22 dido" Cara de Cavalo estendido no chão -, imagem
Poré1n, un1a vez consumado o exílio dos dois,. o ca- esta que, com sua transgressão inocente - n1ais anár-
ráter violento da cena poeticamente construída na canção quica do que política -, estivera na origem das razões
"Divino Maravilhoso" - "É preciso estar atento e forte/ gue levaram Caetano e Gil à prisão.?..>
Não ten;os ten1po de temer a morte" - p~receu dominar
0 sentido discursivo da canção como tm1 todo,obliteran<l:o
a ambigüidadé daquele campo indetermina1o entre_ o !' Em J<J68, JpÓ.1 .1 desd;Mifica,;,in da., caoi,\ks "Qunüo <.k Ordrn1" e "É Proibido
engajan1ento e a alienação, com o qual brmcava a cançao; l'roibir.. d!) Fc•,;ti\';il lutc·n1acional da Can,;ào. G11 ,: C.!elano, .1co1np,wli,1do, pdo~
pouco antes da prisão de seus autores. Na sua letra, colada Mutmtt.'S. rc·:dizara1n uma .,~qlfrncia d-: ,1pn.'1L'!lt.1çÔc\ 11,1 Bo.1te Suc,1ü. no Rio de·
Ju1c'iro. Ese .,/10!1'. qu,11Jtic,1do por C,1eo110 como "a m,1i1 lw111-1urc,füfa pc•ç.1 do
cropioli\mo•·. incluí.i o rc/0:nd() c·1t,l11danc· de HL'lio Oiticic;I (OlllO tu-11 <.'!t•n1emo
· emre 011tm1 do C<'ll,írio. Na oca,i:1o.umjuii d,• din:ito indignotHc· com o e1tJn,far-
, .. c;ravado e finaliz,H.!o t'rn 1967.o di.1rn foi lanpdn .1pena, e!ll 19()8_ tc'. rnii,,,guim!o ,uspender o .</1011• e· fechar a boate. Algum 1m·,c, dcpúÍ.1,j;1 hj ,1lgtllll
:, [1.•rdadc "ih>pi(a/, op. Clt., p. 4?.7. trn1po na pri,:lo, l· que Caetano veio ,l ,aber. ;1tr,1vé.1 do major Hihon. que aqu<.'!c·
~, Gilberto Gil, Gi/bnto Gi/-"Jê,das ,1.r Lctr.i,;, ed. revi1t,1 e ampli.1d~ (São !'Jtilo:Coni- epi1ódio se deadobr.ir:i em unia denÚn(ia frita Jfrlo jornalilt,1 R,rnJ.11 Juliano. p,•din-
pa11hia d.11 Lc•tr.is, 21HJJ). C1rlo> Rcnnó (org;.), p. 111). do" pri1,1o do\ do1, (ver nota 6). C:f í i·rd11,fr 'fropir,1/, <Íp. (it .. p. JIJ./-7 e 3%-7.
-
No mês seguinte, mas já no anó de' 1970, Caeta- baião,. afoxé, rcg_~ac, blues :f<,/k e rock'll' ro/1, Essa explosão
no envia um novo artigo ao Pasq11i111, em que con1- do formato tradicional da canção - em duraçào,
plementa e remata aquelas ~firmações anteriores:"Que- lrneandade d1scursiva e homogeneidáde de gênero
ro dizer que se eu falej que morri fo.i por9,úe eu musical - tambén1 inclui un1a incorporação da poesia
constatei a falência irre1nediável da image1n pública barroca de Gregório de Matos ("Triste Bahia"), além
que eu mesmo escolhi aí no BrasiL Quando eu 1ne d<:- uma mterpretação-recriaçào do samba "clássico" de
congratulei __ com aqueles qpe me frzer_a111 sofrer, eu Monsueto Menezes ("Mora na Filosofia"), e um tlerte
estavJ querendo dizer que, dando motivo para crescer com a antes renegada fase expressionista da bossa nova
uma c01npaixão unânime por 1nim, que vira prêmios de Elis Regina e Edu Lobo ("You Don 't Knów Me").,'.
e homenagens e capas de revistas muito significativas,. De volta daquela "long muLwindi11x, road" ("It's a
eles conseguiram realmente aniquilar o que poderia LongWay''), soprada por unia "o/d Bcatlc so,~e" ,'3.r, Cae-
tano conserva o peso da morte anteriormente decla-
restar de vida no n9sso trabalho" .2-1
rada (" 11'l''rc 11ot that stro11R, 111y Lord/ Yciu k11011, 1/le tlin 't
tfzat strong''),111as afirmando agora veementemente em
,i
resposta: "l'm alive". Ou melhor: "!'111 aliuf a11d vivo
YOU DON'T KNOW ME AT ALL , muito vivo" ("Nine Out o,f Ten''),
· Essa descontração nova, associada à alegria de
cantar, vem embaJada pela exaltação dos sentidos mais
li
j
Na volta de Londres, no. míc10 de 1972, Caetano e
imediatos; tais como chorar coni as estrela,s de cinema
Cil chegam con1 espetáculos catárticos e viva111ente 1
musicais. O disco Th111-~a, cujo :;/w11 já fora apresentado 1
("N!11e out t?{ten movie stars make me rry/ l'm afipe"), o·u
no Queen Elizabeth Hall, em Londres, no ano anterior, s~ntrr a pancada do son1 no estô111ago ("!'111 alivc and
caracteriza um n10mento de virada muito significati- vivo n1uito vivo, vivo, vivo/ Feel the -~01111d of 11111sic
vo na carreira musical de Caetano, que equivale em b~nghzg in my bclly"). Impulso.s vitais que a mús-ica dos
intensidade artística a essa passagem tão decisiva em n~gros, o rcJ!.Rae, faz acordar, na paisagem antes cinza e
so peacef11/ ("London, London") das ruas de Londres.
s~1a vida.
Muito mais desinibido como cantor e instnunen-
tista, e interessado cada véz mais iu "transa" expressiva
'
de palco, ele cria longas canções-rituais que fundem '' "Fazendo o ~egu11do disco na lngfaterra, e taznbt'm fozt·ndr> o 41,,r,,, pc•nsei niuito
111s_10, porque ,1 ç<'gtu1<.fa fa1e d:i bo1s,1 nova tem 11witJ coisa -.i.1iim, cxpreiiionist.i,
con1posíções inéditas a uma müíade de outros cantos,
cor.1.1s abando11.1d,1s pela bo1s;1 nova_ com a re~oluç.io e,,,,/
de Jo.io. e que voltarwi
como _sambas de roda, temas de capoeira, cânticos de ne 11a fa~e. Porque cu ljll<'rl.l fazcr nm,1.1 de· p.1ko, coisa,, d<' efeito, t' l!le ÍJJtere-.~•i por
igreja, at~avessados por ritmos também diversos, como "-'.º
1 muito mrndt'ntememe. S.'.1(om<'.? E11 \'oltei .1 ficar p~;nsando ní1,o e, nonu tfai
r111nha1 ml1.1ic,1s no ,how, <'li canto um p<'dai;o do J.ii,1L1daia. do 'Rez:i', do Edu, nus
mdu com muito carin.ho. E ultim,1111cnte tô pe11,;a11do muito <'lll Efo" ("Qucni É 0
C1retanu", 19T2. cm .-·!11:1;rio1,.-:!l,:~ria, op. cit .• p. IJH).
'' /',1.,q11i1JJ, ti-1.// 1/ l '-J7í!,em :{h:fri,1,.-:!lc~n<1, op. cic .. p. 53. Nc·,se 11w,n10 .1rtigo, Cac·-
.''·Vcr10 de"{t'.1 ,1 lo11g-Way" '·The lo11;.: .1nd Wi11lli;1~ Ro~d", por 1u.1 wz.,: 0 títuJ,')
taiw n:b.ite ;11 e.irra~ de apoio que vu1h;1 n,cebendo, explic.md(l eufotic,lillc'11te:· eu
• de• tuna ouç'1o dm Ul',itks, do ,ílbum L,·t It fü ( l'J7(!).
qui, dizn que e·it;iva uiorto ~ H}o tri1t,:", lden1, p. 5 J.
-
;6 Caetano Veloso O co,po Morro de Deus Vívoe Desnudo 37

É importante notar que o ritmo de reggae, que en1 Nordeste, que reaparece em sua obra entronizada na fir-
,"Nine ,Out ofTen" se anuncia ém uma pequena 1neza de un1J.- voz vibrando sob o fio tenso de notas
vinheta tocada apenas no 'início e no fim da 1núsica, longarnente sustentadas, e não mais ternarizada na "nos-
retÕrna, na regravação da canção em Velô (1984), ~omo talgia de tempos e lugares'', de algumas cancões iniciais. 11!
o pulso principal do arranjo, transformando-se, ao fi- "Asa Bi-anca", em particular- a n1ais,pe1feita can- i
nal, em batucada de escola de samba.
O disco, com arranjos de Jards Macalé, Tutti
ção do exílio, que fala de alguém que se vê forçado a
abandonar o sertão castigado pela seca, deixàndo guar- !
dado ali seu _coração como promessa de·volta -, n1arca
írri1·.í,
Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa, além
do próprig Caetano, é o primeiro "trabalho de grupo" o n101nento inaugural de sua hoje tão consagrada vo-
em sua carreira - orgânico e espondneo, gravado quase cação de íntérprete criador. Pois, se já havia uma inegá-
como um show ao vivo. 2-7 Como num longo transe, as vel inteligência paródica, somada a mna destreza vocal
canções parecem fundir-se e1n uma 111úsica contínua em nmitas das suas ·interpretações tropicalistas, con1~
que vai se transformando sem perder seu pulso sub- em "toração Materno" (Vicente Celestino), ou na
terrâneo, nas conduções de violão, baixo e bateria/ imitação de Orlando Silva em "Paisagem Útil", é. evi-
percuss.ão. Reforçando essa cadência contínua, o can- dente que a gravação de "Asil Branca" significa um sal-
to multiplica a entoação de células sonoras _repetidas . to para outro patamar criativo. Un1 salto que implica
(" long'l' /ong'l' long' long"), feitas de espelhamentos in~ tanto a criação de un1 estilo pessoal de interpretação, na
ternos ("laialadaia"), ou distendidas melodicamente a poderosa integração formal entre os 1nodos de cantar e
pa'rtir de um motivo inicial (" eeeeeeeeeu vou lhe dar de tocar violão/SI envolvendo experin1entações silábi,..
a decisão"; "woooowooooke up this morning";"triiiiiiiiiiste co-sonoras que parecem mástigar antropofagica1nente 30
recôncavo, ó quão dessemelhante triiiiiiiiiste "), realizan- os antigos exercícios n1entais, quanto a amplificação de
do musicalmente o perpétuo jogo de passagem e per- un1a perspicácia definitivamente aguçada na capacida-
n1anência cantado em "It's a LongWay":"A água com , de lírica de extrair sentidos exponencialn1ente novos
areia brinca na beira do mar/ A água passa e a areia do cruza1nento de elen1entos dados .., 1
fica no lugar".
A originalidade de sua perfomiame musical em Tran-
sa, por -sua vez, representa o aprofundamento de um ca- Na contracapa do disc~ D,,minl" (1967), Cactano diz o St!!;,'l.!Íntc:"A° minha inspi-
.!J<

raçfo não qucr mais viv,;r da nosralgia de tempos c lugares, ao co11trário, qt1cr incor-
minho aberto no disco anterior (Caetano Veloso, 1971), porar essa saudade nun1 projeto de futuro".
sobretudo nas interpretações altamente pessoais das faixas !°' Foi e111 Londres qut! Caetano ganhou fluência e confiança ao tocar violão, muito
"Maria Bethânia" (Caetano Veloso) e "Asa Branca" (Luiz embora não tenha ·se tornado em ei.:ín1io violonista, nem tenha pretcndido isso.
·"' Cf. Augusto de Campos, "Balanço do ·J3afanço ", em Bafm1ço da 80,sa e Omm_,
Gonzaga ~ Humberto Teixeira), terminadas em longos Bossa,·. op. cit.,_p. 342.
lamentos vocais afiados no lirismo cortante da cultura do ,,, Um exemplo é a sutil. substituição, t!nl .sua versão de "Asa Branca", do refrão
in.1trmnentál da canção. composto por illrervalo., de terças t!lll llJOVÍ!lleuto de.scen-
dente, pdo equivalente instnunental dt! outr; canç~o: "Assum Preto" {dos mesmos
compositores), e ajo caminho melôdico rambêm descendente, porém menos Jihear, ê
"7 Cf. Entrt:vista a Márcia Ct!Zimbra,Jomal do Brasil, Jó/5/1991. semivelmt!nte mais profundo e mdancó!ico.
~-------
O Co1po Aforto de Deus Vll'ot' Dcs1111d(1 3~

THE AGE OF MUSIC IS PAST antes de sua morte-, e a apatia da platéia diante dele
dividida entre a perplexidade e a animação nostálgica'.
Significativamente, esse encontro pleno con1 a músi- Segundo Caetano, em n1atéria escrita para o Pas-
ca, na carreira de Caetano, se dá sob o pano de fundo quim, Hendrix entrou no palco, naquele dia, com um
niais geral de uma desestruturação daquilo que se cha- projeto difici1 em mente: ligar a multidão sem recor-
n1Qu a ·"era da canção", iniciada con1 os Beatles - rer às pcrfor111a11rcs e ao repertório que o celebrizaram.
rematizada explicitamente em "Nine Out ofTen": E, nesse percurso, diante de um público "frio e assus-
" ... thc age ,!fy,old / thc age ,:f nlllsic ís pastl I hcar thc111 tado", acabou tomando pMtido das dificuldades téc-
talk as I 111alk ycs I hcar the111 ta!kl I hcar thcy say: 'c.\pcct n_icas surgidas com a regulagem dos amplificadores,
t/1c {,11al /,/ast"'. fazendo um espetáculo que era um indefinido mix' de
· • Na Inglaterra, durante o exílio, Caetano e Gil s//011 1 e passagem de som em gue, entre caretas e mi-
assistiram a Lfestivais de música cjue marcara1n época, crof~n"ias, não era possível distinguir o improviso e o
como o de Glastonbury Uunho de 1970), e da ilha provisório. "Tudo aquilo estava no passado, e no entanto
de Wight (agosto de 70), em qtre rock, psicode1ism?, ele estava,presente, novo em folha, saudável". ,rn~ta.
Jstrologia, ácidos lisérgicos e profecias escatológicas "E o seu olhar quebrou o espelho.""
se combinavam em um clima de simultâneo ápice e Vivendo em uma cidade gue estavJ, então, no
declínio das energias criativas que os haviam torna- centro dos acontecimentos artísticos de vanguard~1,
do possíveis. Nesse contexto, é importante,.. notar Caetan~ registra com lucidez, em alguns desses arti-
como tanJ;_o Gil _qu;_rnto Caetano puderam flagrar essa gos enviados ao Pasq11i111, a gravú-1Jde da situação pre7
situação de crise e transição no calor da hora, tendo sente. Particubrmente em mais um deles, escr{to no
justamente a experiência das duas "cidades-festival" raiar dos_ anos 70, anota com argúcia o te-mor de gue
como baliza. aquela viesse a ser ''a ~écada do silêncio", e rdêre-se à i

No caso de Gil, elaborando uma versão pessoal capa da revista Ti111c,que abria a década homenacrean- 'i
!j
.

do ,1lerta de John Lennon em "God" ("thc drcam is ~o "a maioria si1enciosa"·' 4 - expressão usada peli pre- : i

oucr''), através da canção "_O Sonho Acabou", que se sidente americano Richard Nixon agradecendo à ca- 1
reporta à sua visão do últin10 amanhecer en1 lada a~eitaçào, pela população, da guerra do Vietnã. i '
Glastonbury, com as ·barracas sendo desn1ontadas, e-a '! j
E evidente a sua percepção, nesse momento, da !
cidade-acampamento·abandonada:' 2 No caso de Cae- e1üergência d'e mna nova sociedade de massas - mais
tano, decodificando o abissal descompasso entre a es- informe e n10vediça -, crescendo pÜr dentro daquela
tranheza viva de u111 novo Júni HeDdrix surgido ful- o~tra, para quem a cultura pop e o tropicalismo pe-'-
gurantemente no palco da ilha de Wight - 18 dias ?1~m.sunpatia. Uma "i'naioria silenciosa" gue, com sua
meroa nrnda, obsoletava o Ílnpeto transgresSO\ daquela

'' Cf. Gil/mio c;i/- li,d<1., "-'" f.,:•rnrs, op. cir..p. 1-l-5. 'Wc• (;ct H1gh. We Ncn-r l )ic" (19711). c111 () .\ftJ11d,, .\;;,, i,· C/1,11,,. op. cit. p. 12').
·o Som do, 7(1'" {197(1). cm () .\l,1111!,, .\\fo /" Clw,,. op. (it., p. IJX.
3. ACORDES DISSONANTES
PAULO LIMA· E PELOS CINCO MIL
ROBERTO SANTANA ALTO-FALANTES
.APRESENTAM
CAETANO VELOSO E
GILBERTO GIL
NO TEATRO
CASTRO ALVES
20 21 JULHO 1969

,' i
i.' j
: / ...
.'
•i
1
i .
1
' l ' ,
Çartaz do show em Salvador, antes do exílio
que estreou e1n maio; a própria canção "Tropicália",
con1p?sta por Caetano entre agosto- e seten1bro; a peça
O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada pelo
grupo Oficina a partir de ,setembro; a apresentação de
"Alegria,Alegria" e "Domingo no Parque" (de Cae-
tano e Gil, respectivamente) no III Festival da MPB,
em outubro; e o ron1ance Panamérira, de José Agrippino
de Paula, lançado no mesmo ano. J' 1
Tais npturas significavam unia floração cultura]
preparada por duas décadas de regiine democrático
no país, mas que só poderia desabrochar diante do
violento corte de perspectivas ,representado pelo gol-
pe militar em 64, e pelo endurecin1ento que prepirou
o Ato Institucional n" 5 (AI-5), em dezembro de 68. ·
Nesse sentido, elas· concentravam as energias de tra'ns-
formação fern1entadas .nas agitações revolucionárias
dos anos 60, que faziam da América Latil1a o epicentro
·~·. .;,.·. .
·.·.. · n~es de despo~1tar, en1 1:68, com? uni 1110-:- de acontecimentos significati_vos eái escala mundial.
l1~~, v1mento de mtervencao orgamzado por
,-f_.\L artistas da área de mú~ica popular - Cae- Por outro lado, só teriam sua ignição disparada no
... ,.· tano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom contexto explosivo ~dp biênio 196 7-68, e flas contra-
Zé,Torquato Neto,José Carlos Capinan, Os Mutantes~;" dições que ali se explicitavam.
remetendo-se a um conjunto razoavelmente a1nplo Flagrando um país s,ituado à n1argen1 do" avanço
de manifestações art,Ísticas de vanguarda - teatro, ci- econônüco " - 1nargen1 que não significava alhean1ento
nema, artes plásticas, artes gráficas, literatura -, o ao sisten1a, mas inclusão por"migalhas" e "estilhaços"·
tropicaiismo resultou de rupturas que edodiran1 e1n ("Super~acana") -, essas manifestações de ruptura par-
múltiplas frentes ao longo do ano anterior.. tiram de un1a autocrítica da ilusão de desenvolvimen-
Estão entre elas a instalaç3o Tropicália,_do artista to do período anterior, propondo-se assun1ir as con-
plástico Hélio Oiticica, gue integrava a 1nosi:ra Nova tradições da modernização em curso pela expos1çào
Objetividade Brasileira, inaugurada no Rio em abril crua de suas entranhas.
de 1967; o filine Tcrm em Transe, de Glauber Rocha,

"() di,rn 'Ji-c,pi,-á/i,r ,>11 l',wis ü Cir.-i'ltri.,·. qw: d;Í nome .10 movimento, foi l.tnç:ido l'lll "'Cf. Hora Sü1sekind, "Choru,, Comr,1ne,. /v!as.1e1:The Tropic,1li.,t Experic>nce .111d
julho dr l'H,l"i. Além do, anisca, rdi:-ridos. o di,~·o te111 arranjo1 d~ Roi;t."rio !)uprac Ur.1~il in the.bte Sixtic-~", 'frvpi,,íli,1;<1 Fl.ci-o/1ui,,r1 iH Bm:::i/i,111 C,r/111r1·, /967-JY72 {Sfo
Jt"1lio Medagh:1 e !\uniano Conell.1 ..1lt."rn da p,mieipa(io de Nar. ~do. Paulo: Co,.ic· Naify. 211(15). C:u·lo.1 Ua,ui!do (~d.).
Acon/i:s Dis.>0111mrts Pdos Ci1Jct1 Afí/ A/r1,- F11/,11Jtt'.i -,,-

O crítico literário Roberto Schwarz, num texto


É nesse quadro de· radicalização combativa qu.e em que reflete sobre o in1bricamento entre cültura e
se compreen_dem tanto a "estética da fome", de política nesse período,-+:! observa que a matéria-prima
Glauber Rocha, que elege o subdesenvolvimento co-
da. º~;raçfo de desmistificação tropicalista era o pró-
1110 arma de guerrilha estética, quanto a violência
prio espetacul? de. anacronismo social", explicitado
antropofigica da encenação do Oficina, cujo eft'ito pelos con1pron11ssos ideológicos da ditadura militar ins-
de choque estava no ataque ao "espectador" de tea- talada no país. Ou 111elhor, a "cotidiana fantasmagoria"
tro, obrigando-o a despir-se da. passividade cínica e . resultante da combinação produtiva entre o alinhamento
~rntoprotegida da cµltura burguesa. . ao imperialisn10 norte-americano "avançado" e a al.tanca i
Nas pabvras de Zé Celso Martine_z Corrêa, · c?m os setores mais "atrasados" e conservadores"da s~-
aquela revoluç;lo cultural guiou-se.pela intenção de e1edade brasileira~ rurais, tradicionais, católicos.
destruir uni "Brasil de papelão, pré-americano", no · O tropicalismo· não evitou enfrentar tais
sentid'o do "reencontro da participação coletiva", e aberrações. Ao contrário, incorporou acintosamente
da "procura da Outra História do Brasil, da que vi- as renitências líricas, caricatas e sinistras do velho Brasil
nha das resistências dos escravos, dos índios, dos imi- filtrando-as parodicamente "J luz branca do ultram·o~- _
grantes. dos seus auditórios loucos para partici- der~10", do olhar_estrangeiro, da tecnologia de ponta.
par. .. " _-ii, N_a mesnu direção, Hélio Oitidca falava Assun, numa operação antropotãgica desnüstificadora
em "dissecai: as tripas dessa diarréia" Brasil. Isto é: trouxe à tona,como um segredo subitamt'nte revelado'
"merglllhar na merda", expor ostensivamente o "ca- esse cal?o de cultu_ra recalcado pela estética idealizant_~
fona"· para desbloque..ar a eterna "prisão de ventre do penodo antenor: o desbragado sentimentalismo
1
n~1cional": o i,cl/w-guardis1110, o "bom gosto" _--1 do universo rural, o Óficialism~ da retórica bachare-
No caso da música popular, o mesmo espírito de lesc"a, o exotismo da paisage1ntropical, o kítsc/1 da vida
negatiyidade a1i111entou o assim chamado tropicalismo, suburba_na, a estreiteza de horizontes da pequena
na incorporação da música comercial "cafona", dos burguesia católica "em volta da· mesa" ("Eles") "na
· instrumentos eletrônicos ''importados" e do ruído sala de jantar" (" Panis Et Circenses", parceria com Gil),
dissonante, na colagem heteróclita de referências vá-, ~ o glamour vulgar .dos bens de consumo -:- a
rias con1 vistas à dissolução dos gêneros nlusicais, e na ~~rgarina", a "gas?lina" ("BaJ:,y") -, e das paisagens/
construção paródica e alegórica de imagens sincréticas cnadas pelos, logotipos, con10 "a lua oval da Essa"
do Brasil, en1 que se justapõem modernidade interna- ('Paisagem Uúl"). E o fez .inventariando oposições
cional e arcaísmos patriar<=:ais. .simples (arca1ço-n1oderno, local-:-universal, s·ério-

,,, Z~ Ci:lsu /\.·\artill<'l (:orrt°a, ' Lo11ge do Trópi(o 1)e.1pón<:;-, ! t 977j ,e111 /'riJJlân> .clr,, -
0
'~ Cf. Roberto Sd1war2. "Cultural' i'olic1ca. 196--1-19<,9"'. () A1i ,Ir f, 1111í/ia,. ()urn•s
C.1,l,,,-11,,.<, Dcl',,imclll<'.<, Elill1'!'Í.<f<1s / i9515- / 97.JJ (S.'io 1',ado: Edito1~t J-1. \ <J'J8). p. 12(,. .E-'l'.rd,,., (Sfo l'aulo: P.12 eTerr,1.1978/1992). Reeditado 110 livro de boho C 11 /tur,i ,·
'' Cf. Hl·lio ()1ticíca, "'Br.isil J)iarréb .. <:111 Hili<> 01riâ.-,1 (ll...io de J.mcim: Centro de A•/111.-a (Sfo i',1ulo: i'.12 e Terra, 21/(JJ).
Arte Hélio Oitici<:,1. i '>%). p. 19.
48 · Caetano Veloso Acordes Dissonantes'Pelos Cínco Mil Alto- Falantes 49

derrisivo, miragem revolucionária-molecagem car- das nossas mazelas, co!llo a marchinha de carnav:il "Yes,
navalesca) para devorá-las antropofagicamente, como Nós Temos Banana" (cle João de Barro e Alberto Ri-

r
que a realizar a n1áxima oswaldiana de transformar o
"tabu e1n totem".
beiro) - ela própria uma sátira de músicas americanas.
Nessa canção, reinterpretada por Caetano em 67,a "cri-
l
.P Essa justaposição do "·cafona" ao industrialmen- se" é assumida como.condição de um país condenado a
' 1
te avançado é que ven1 a cmnpor, segundo a ótica ser eterno exportador de gêneros primários,,, como café,
i tropicalista, "a geléia geral brasileira", +3 referida em uma_ algodão, n1ate e banana. Mas, na sua -ironia provoca-
.:!
! parceria de Gil e Torquato Neto ("Geléia Geral"). tivamente ingênua, essa condição não representa um
i:
\: Nessa canção, que se inicia com o anúncio da "maqhã fardo, mas uma afirmação agressiva: "Somos da crise/
r
ii
tropical", imagens insólitas e contrastantes ("doe.e
n1ulata nialvada", "elepê de SinatÍa", "santo barroco
Se ela vier/ Banana para quem quiser".
Evidenten1ente não há, nessas reversões paró-
baiano'", "formiplac e céu de anil") aparecem con10 · diC:as, a aceitação ou legitinução de Um vale-tudo
índices erráticos das "relíquias do Brasil", que se caótico-tropical, nem a fixação da in1agem do país
l condensan1 no refrão exempla,.r: "Ê bmnba iê, iê bç>i/
Ano qlle ven1, mês que foi/ E bun1ba iê, iê, iê/ E a
co1110 mn absurdo non sense. AO contrário, tais pro-
vocações revitalizadoras são apontamentos agudos do
mesma dança, meu boi" ("Geléia Geral"). Folclore absurdo-caricato que povoa a nossa vida social, e in-
brasileiro tradicional e folclore urbano internacional: vesten1 ruidosamente na 111ovimentação desse estado
1
bumba-meu-boi e iê-iê-iê, ou "baobá" e 'yêyê" de cOisas, no sentido de sua superação. Investem contra
("Batmakun1ba", Caetano e Gil); unia auspiciosa con- os travos provincianos arraigados na cultura dessa ex-
vergência de danças. . , colônia (a tradição, "as glórias naCÍonais"), assun1in-
Trata-se, é claro, de um ataque frontal ao purisn10 do como libertadoras as _conseqüências de uffia mo-
conservador do ideário nacional-popular reinante, à sua dernização vindoura. Mas, para tanto, não bastaria ao
defesa maniqueísta de uma autenticidade folclórica bra- Brasil aceitar passivan1ente tal modernização. Seria
sileira por oposição à invasão imperialista e alienante necessário forjar mna nova identidade criativa na
do rock, da cultura de consumo, da indústria cultural. E, transfórmaçào, perder-se para encontrar-se em um
para tanto, nada melhor do que a exaltação de um "mundo que roda", e ir ao encontro da ·sua verdade,
primitivis1no k_itsch, de mau' gosto, ou de uma bem- sua originalidade própria, singular, distinguindo-se
humorada, estilizada e auto-indulgente reversão paródica das demais nações, das demais culturas.
Esse é o ambicioso projeto estético do tropica-
lismo, que requer a violação do baú das "relíquias do
Brasil", que guardava a sete chaves o acervo dos nos-
'·' Expres.,Jo cri;1da por Décio Pigmtari respondendo a Cassiano Rirnrdo, "um ex- sos tesouros e nossas vergonhas. Por isso é que Caeta-
modernist.1 que chegara. a co!Jborar" com os concn:tos.·'mas at,,ora ilizia esperar que
eles 'afrouxassem o arco"'. Como descreve Caetano, Décio terminava o artigo insistin-
no recupera Carmen Miranda como musa do movi-
do que eles, "m conCretos,manteriam 'o arco sempre teso' poi5 'na geléia b't'ral brasileira mento,' tomando-a tan~o como caricatura quanto
alguém tem de ra·zer o papel de medula & de os.10"'. VcrdadcTropiml. op. cir., p. 216. radiografia .do Brasil. "A alegria é a prova dos ,nove",
50 Caetmw Ve/Oio
-
Acordes Dissonantes Pelos Cinco Mil Alto- Falantes 51

diz o lema oswaldiano teapropriado por Caetano e A canção "Tropicália", matriz estética do 1novi-
GiL Mas a compreensão do tropicalismo só se com- mento, incorpora esse estrolldoso deslocamento numa
pleta pelo avesso da moeda, abarcando-se a sua montagem sincrônica de contextos en1 desarticU:la-
negatividade fundamental. Pois, situada no pólo opos- ção, construindo urna imagem "grotesca1nente
to da "triagem" estética bossa-novista, a "mistura" monumentalizada" do Brasil (na "alternância de festa
tropicalista...i representoµ mna "descida aos infernos", e degradação")," que ocupa o cenário moderno da
um "comecar a mexer no lixo", -t 5 en1 sinto'nia con1 o sua capital-mollumento recém-inaugurada e tornada
que dizia· Zé
Celso acerca do caráter masoquista de centro do poder abominável da ditadura militar: "So-
sua estética, e com a ostentação batroquizante das nos- bre a cabeça os aviões/ Sob os n1eus pés os caminhões/
sas-falências em Terra em Transe. Aponta contra os chapadões/ Meu nariz/ Eu organi-
zo o movin1ento/ Eu oriento o carnaval/ Eu inaugu-
ro o monumento no planalto central/ Do país".
A visão algo cubista que aí se n1onta é forn1ada
QUARTA-FEIRA DE CINZAS NO PAÍS
de unu intrincada rede de associações em contraste,
tais co1no a bossa e a palhoça (a bóssa nova, O Fino da
Caetano é categórico ao afirn1ar que nada do que veio Bossa, de Elis Regina, e a cabá.1-ia rural), Ipanema e
a se chamar de "tropicalisn10" teria tido lugar sen1 a Iracema (a praia tupi que virou canção, e a índia de
hecaton1be de Terra em Transe. Pois a visão potente e José de Alencar, que é um anagrama de América), e
tragicô1nica que ali se. expunha do povo brasileiro_- "A Banda" e Carmen Miranda (a marchinha de Chico
captado em seus paradoxos indefinidamente sugesti- Buarque e o nome da cantora "a1nericanizada" que
vos ou desesperantes - liberava a 1nente para enqua- virou tabu, cuja repetição da últin1a sílaba evoca o
drar o país em perspectivas n1ais amplas que o ideal movimento dadá), dupla imagem final para a qual tudo
reinante de emancipação social através da crença nas converge, após a incorporação do grito de Roberto
energias libertadoras do "povo" .46 Isto é, decretava-se Carlos: "Que tudo mais vá pro inferno". ·
num só golpe, em um escândalo de grandes propor- Musicalmente, tambén1, essas oposições se arma1n
ções, a morte do populismo de esquerda. · na própria estrutura dos versos, que alternam. frases
111uito longas, que parecem ron1per a quadratura
estrófica, e resoluções curtas ("E nos jardins os urubus
passeiam a tarde inteira e.1:tre os/ Girassóis" 48). Sendo
'"'Cf.LuizTatit,"A Triagem e a Misiura", em O Sémfo da Caução (São Paulo:Atdié
Editorial, 200--1-), p. 91-110.
"Caetano Veloso, ''Conforêne-ia no MAM", op. óc.;p. J t-1:
"' O ponto crítico dessa const~t_ação,no filme,é o momento em que a personagem
,; Celso FavJretto, Tropicália -Aleg!>ria, Ah:!;ri,1, op. cit., p. 56. •
principal - o poeta Paulo Martins-, em meio a um comício, tapa v1olent.1mente a
'"Adotou-se, nesse caio e1pedfico, uma divisào dos venos confo~me o canto, e nfo
boca de um operário e berr.:i para todos:" fsto é o !';:;,;c-1 !_hn 2,1\becil,1.1111 analfabeto,
segundo a m<:trica poé-tica, como·está em Caetano Veloso, Lcrm Só (São Paulo: Com-
um de~politizado!".
panhia das Letra1. 201JJ), Eucanaà Ferraz (org.).
-
Aconh Dfrso11a11re.i Pc/i1s (i11,o Mil Alt11-Fa/a11tt·s .'J

que O princípi~ da n1ontagem ~incrôr~i~a foi exe1~1- sua vez, expressa·elementos de un1a vitalidade urbana
plarníente explorado pelo arranJo.de Juho Medagl1a, nova, reafricanizada e neopopizada. Sobre isso, diz
no contraste entre a "n1archa strav111s_k1ana de abertu- Caetano:''. Tínhamos, por assim dizer, assuniido ·o hor-
ra" e os "ruídos tropicais" percussivos, an1bos cri:md.à ror da ditadura como um gesto nosso, um gesto
uma atmosfera de suspense resolvida no "baiào-estn- revelador do pais, que nós, agora tomados con10 agentes
bÍlho, que metamorfoseia o suspeitoso 'movimento' semiconscientes, deve1Ían10s transformar em su_i;rema
num hino festivo à bossa e à palhoça".~') · violência regeneradora". 50
No entanto, tudo o que há de exaltação festiva Há aí, portanto, uma negatividade combativa to-
na cancào otHnesn10 de ufanis1no irônico ("Eu orga- mada de e111préstimo ao cinema novo, num mmnento
nizo o 'm~vimento/ Eu oriento o carnaval/ Eu inau- e111 que a equação político-social que havia tornado
guro O monu1nento"), não oblitera o seu sinal negati- possível a ezüergência da bossa nova já estava. ultrapas-
vo fundamental, a enorn1e carga de dor se1n esperança sada. Como diz uma canção feita mais tarde por Cae-
explícita na imagem sinistra de urubus paira~do ~~1tre tano e Gil, a bossa noya "nos salvou na dimensão da
as flores, de unia direita populista que co1!t111ua au- eternidade" ,já tendo adquirido, naquele m01nento, a
tenticando ete1~na priinavera" ,· e da representação do condição de 1nito:"Porém aqui en1baixo 'a vida', mera
país como um monumento fecha1o, sem porta, s_itua- 'metade de nada'/ Nem morria nem enfrentava o
do no ermo, e sobre os joelhos do qual "unia cnança problema/ Pedia soluções e explicaçoes> E foi por
Sorridente feia e morta estende a mão·". isso que as itnagens do país desse cinema/ Ei1traram
Segt.i;1do Caetano, a atitude tropic,al.ista_ se ali- nas palavras das canções" (''Cinema Novo'').Ou,como
n1entou da percepçJo de que era necessano hvra1:-~e diz o texto na contracapa do seu primeiro disco indi-
do Brasil formado pelo pacto populista, "com seu ;e1- vidual: "os acordes dissonantesjá não bast,.1111 para co-
tinho e seu Carnaval". Isto é: atacar a ilusão de umda- brir nossas vergonhas, nossa nudez transatlântica". 51
de nacirni.~: e: ''pulverizar a imagem ·do Brasil cariD- "Janelas Abertas n" :2'', composta no exílio lon-
d
ca", enxergando-o nun1a mirada en1 que este _su.rgisse drino, é uma callçào que expressa essa relação de for- i
1
"a un1 'tempo super-Rio internacional-pauhsnza~o, 1~1a corrosjva, construindo um labirinto sombrio no
pré-Bahia arcaica e pós-Brasília futurista". Um P~Je- qual o ato de 111atar a família - que aqui pode111os
to que, de fato, veio a se realizar e~11 ~rande 111ed1da, interpretar como a vocação nusoquista e parricida do
não diretan1ente pela n1à0 dos tropicalistas, n1as ~er.t~- tropicalisn10-:- llão chega a ser uma escolhJ voluntá-
1nente através do seu in1pulso, e cujo resultado e v1s1- ria, mas a antecipação de. algo "que aconteceria de
veJ, por exemplo, no novo carnaval baiano" eletrifica- qualquer jeito". Sabidamente uma paródia de ''.Janelas
do, rockificado, cubani_zado,ja1naican,izado", que, por Abertas" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), canção

ª'' Augusto de C.unpm,"Viva .1 Bahia-b-l.1" Ba/,mço da Bt>s,'11 e O,ma., B,,;,i<!>',Op. cit., ;., 1 (·rd,ulc Tropi,,il. op. cit., p. 511-51.
"Cont1oir;tp~ do d1ico C.//'/<111,, J-í'lo.,·,, {JW18).
P·. H,-1.
-
Aprendemos com João/ Pra sempre/ À ser desafina-
bossa-novista em que a ambiência melancólica e in- dos/ ~er desa.fina~,~s/ Ser desafinados/ Sér").
trÜs.pectiva é contradita, ao final, pela abertura solar de _Saudos1sn_10 e exemplar como composid.o de un1
letra e música ("Mas quero as janelas abrir/ rara que ex-as~1rante a bossa-novista virado do avesso, 9ue prestá
o sol possa vir/ Ilmnina1· nosso atnor"), a canção de h~mena?e~1~ ao seu legado eterno seq1 deixar de enE1tizar
Caetano, ao contrário, propõe a· abertui·a das janelas, , a unposs1bilidade de continuá-lo fornulmente, alterando
ao final, não em busca de luz, e sim como um ato de o s~eu _andamento por dentro, e truncando J sua natural
violência regeneradora:" Mas e_Li"prefiro abrir as jane- t1uenc1a h~1r111ônica com següências de acordes paralelos
las/ Pra que entrem todos os insetos". ~1ue, nL:n~ 1s?n~orfismo, deixam a canção parada, aludindo
Contudo, a composição de C;ieerno que 1pais ex- a _r:-p_e~çao ms1stente de um disco riscado: "A felicidade/
plicitamente sintetiza a sua relação com a bossa nova é A tehodade (. · .)/ Lobo lobo bobo/ Lobo lobo bobo (. .. )/
''Saudosismo'', uma declaração de an1or e humor a ela: Chega de saudade/ Chega de saudade ... ". .
"Eu, você, nós dois/ Já temos um passado,. meu ·amor/ N_esse sentido, a oposição do tropiG11ismo à boss"a
Um violão guardado/ Aqüela flor/ E outras mlununhas nova :1a_o representa uma negação real desta, mas, ao
mais/ Eu, você,Joào/ Girando na vitrola sem parar/ E c01:tra_~10, a tentativa de s~r o mais fief possível J sua
'i.' o mundo dissonante que nós dois/ Tentamos inventar essen~:a .revotucionária, violenta. Pois, como diz Cae-.
tentamos inventar/ Tentan10s inventar tentan1os". tano,
, mnguem
._ compüe 'Cheg·1, de S·1"L,d·a d e , , n111-
.
Construída aparentemente em compasso ternário, g~iem chega à(Juela batida de violão, sem conhecer
a .canção des~nvolve-se;. na verdade, nmna sutil con- nao apenas os• esple11dores. n1as t am b'e111 as nusenas• , ·.
traposição de· te111pos - quatro contra três, a chamada da alma humàrp". E completa:"O otimismo da bos~
hemiólia -, o que parece, no caso, introduzir uma ines- s: r.1ova é o otimismo que parece inocente de tão
perªda marcha dentro do ambiente hannônico da bossa sab~o: nele estão.- resolvidos provisória mas satisfa-
nova, aceleran-do o seu andamento. A partir dessa es- tona111ente - toáos os inales do n1undo".":ê .
trutura musical - que se tornou característica do sell Quer .di~er, 0 que se procurava atacar, na verda-
e.stilo de compor, ganhando o apelido de "marcha de, era a ddrnção da bóssa nova na at111osfera bem-
caetaneada" -,"Saudosismo" revisita uma série de can- pensante do an1biente de n1úsica popular de _111eados
ções interpretadas por João Gilbeí-to, cmno "Fotogra-
fia" (Tom Jobim), "Marcha da Quarta-Feira de Cin-
~os anos 60, que insinuava que os grandes talentos ,,1
Jovens se resguardassem nun1a produção sofisticada e i
zas" (Carlos Lyra eVinicius de Moraes),"A Felicidade" '.~
,,
·i!
(Tom Jobim e Vit~icius de Moraes), "Lobo Bobo"
(Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), e, como nào pode- )'
'>•l)ifercnten1t:nte
f,;. · .,' , do~ Aniericauo, do Norre .. ' em () ·\fi,,,d,'.~,i,
, .. , E' CI1<11,>,op.ctt. .. p.:iO.
.
ria deixar de ser, "Chega de Saudade", a mãe de todas. l~;,\r~;:~'t e w~.r~nt,• com O miporuntc depo_imemo dado por Catt,mo .tinda cm
Revisão que incorpora suas lições conStrutivas: a re- ui _ , · '."_qu<' 10 •1 1"<'tolll.ab da lmln evolut11".1" de João Gilberto "pode 1101 d.ir
B n._1_7rg.mili1.fode ~ara '"·kcion.1re ter umjulg:unenco lk cri.1çào'',R,n"s1i1 Ch,ili::,i{â,,
cusa do saudosismo nostálgico ("chega de saudade"),
i Um
. "'·'h1:•nau. 7 • '.1 d_~ 19 66. E, em f('rrf,1,fr Trapit,1', de diz: "Que !llinha nni.,tca'
e a atitude provocativa de desafinai~ cónsensos como ,. por ~. 11 9llJlltO o 1l\'fO 9LI<' po%o t'ICíl'Vt'f ,obre de".p. 5()2
' ,.u1 • ~strn <' erratica 1,•,·i
modo de afirmar o próprio ser ("A. realidade é que/
56 Caetano ve/oso Acordes Díssonantes Pefvs Cí11co Míl Alto-Falantes 57

de bom goSto. Uin m·omento de regress~o estética e É sob esse prisma que consegue contrabandear re-
políticà que Caetano traduzi~ nos s~gmntes ve_rsos: gistros múltiplos e dissonantes para o interior do res-
"Eu, você, depois/ Quarta-feira de cmzas no pais/ E guardado campo dà MPB. O elenco dess;s operações
as notas dissonantes ·se integraram ao som ·dos 1mbe--: profanadoras é grande, e renderia um livro inteiro dedi-
eis/ Sim, você, nós dois/ Já ten1os um passado, n1eu cado ao assunto. Contudo,a título de éxemplo, podemos
amor/ A bossa, a fossa, a nossa grande dor/ Como. citar o namoro cmn o brega 1nais escandaloso na_ inter-
dois quadradões" ("Saudosismo"). pretação de "Vou TirarVocê Desse Lugar'', com o cantor
e compositor OdairJosé,no evento Phono'73,na incor-
poração de versos de Waldick Soriano em "Pecado Ori-
ginal'' ('Eu não sou cachorro não"),ou,ainda,na citação
l'YE GIYEN UP ALL de "Tapinha", do coajunto de funk carioca Bonde do
ATTEMPTS AT PERFECTION Tigrão, no disco Noites do Norte ~o Vivo (2001).Em regis-
tro semelhante, é importante len1brar sua adesão ao pop
l
J

Aparentt;mente,o tropicalismo é menos,,filho da.bossa romântico de Morris Albert, com "Feelings" (A Foreign
nova do que "filha da Chiquita Bacana . Sua atitude, · Sound, 200.4), e Peninha, com "Sonbos" (sucesso do dis-
alinhada à do rock, tem por base a recusa de toda per- co Cores, Nomes, de 1982) e "Sozinho'' (hit responsá~el
feição - daí a graça da citação de B~~ Dylan, refen~~ por alavancar a vendagem de Prenda Minha, de 1998, à
do-se a João Gilberto, no final de O Estrangeiro . 1narca histórica de mais de mn milhão de cópias).
"Some may like a.soft Brazilian singer. But I've given up ali Por outro lado, Caetano é certa1nente o compo-
attempts at perfection" ("Talvez algumas pessoas ?ostem sitor que mais dialogou, em sua obra, com os poetas e
da suavidade de um cantor brasileiro. Mas eu Jª des1sn . escritores do can1po literário erudito, con10 Gregório
53
de fazer qualquer tentativa de atingir _a_perfeição''.). de Matos ("Triste Bahia"), Sousândrade ("Gilberto
Caetan9 sempre foi um desestab1hzador de. con- Misterioso"), Oswald de Andrade ("Escapulário"),
sensos, de certezas cristalizadas, agindo c01n a u~de- Augusto de Campos ("Pulsar" e "Dias, Dias, Dias"),
pendência de quem pode entrar e ·sair de todas as :~- Maiakóvski ("O Amor"), Haroldo de Campos
truturas como bradou violentamente contra a plateia ("Circuladô de Fulô"), Castro Alves ("O Navio Ne-
. universi~ária na apresentà.ção de "É Proibido Proibir", greiro"), Jo.aquim Nabuco ("Noites do Norte"),
em 1963. Como explica Luiz Tatit, Caetano. é um ar- Camões ("Tão Pequeno"), sem falar na densa leitura
tista da iriÚpendência ("poder não fazer"), mais que de Guimarães Rosa ("A Terceira Margem do Rio"), e
-da liberdade ("poder fazer")." _ nas illúmeras citações de poetas, romancistas e filóso-
fos, como Lorca, Keats, Stendhal, Nietzsche, Sartre,
Lévi-Strauss e muitos outros. Atitude que se afina ao
;;i Mencionado inuiras vezes p0 ~ Ca<:tano ao longo dos ;nos e citado textualmente
seu apreço por Walter Smetak; e à parceria tropicalista .
por ele.nas notas do encarte do disco A Foreit11 S011!1~1 (2004). . _ l .
-',' Cf. LuizTatit, O Concio11isra - Composição de Cm1çocs iw Bmsd (Sao I aulo. Edusp, com n1úsicos eruditos, como Rogério Duprat,Júlio
1995), p. 264. Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen.
capaz de colocar em jogo a pergunta fundamental so-
Na realidade; Caetano age quase sempre e111 re-
bre o lugar da ca_nçào popular no Brasil e no nwndo
gistros diversos, extrain~o sentidos novos dos seus cru-
atual, e seu poder de movünentar as coisas.
zamentos inesperados. E b que ocorre, por exemplo,
na recuperação-recriação "sincera e sóbria" da n1elo-
dramática wCoracão Materno", de Vicente Celestino,
na fabricada pre~ariedade Sonora de "Tu· Me Acos- · NADA NO BOLSO OU NAS MÃOS
tumbraste" (F. D01ninguez), que simultaneamente
amplific.:i e descola, pela ironia, o li1:ismo do canto em Alinhado ao procedimerito essencialmente reflexivo e
falsete, ou na interpretação "estranhável" de "Caroli- dessacralizador dos princip~is movimentos de vanguar-
na" (Chico Buarque). Em todas elas, a novidade da d~1 ~1as artes em geral, o tropicalismo funda o seu prin-
interpretação ven1 ilmninar aquilo que, nes~as canções, c1p10 na auto-exposição dos meios expressivos, fundin-
por diferentes motivos.já parecia opaco. do gêneros poético-musi~ais. Como mostra Antonio
Tal operação surge também no cruzamento su- Cícero;~-~ o antiformalismo expresso nas cancões
gestivo da sonoridade atonal com a guitarra pop de tropicalistas procura ~1lcançar eficácia artístic1 n}o, por
Arto Lindsay ("Ela Ela"), ou do talmo-dancc de dis- uma evoluÇio interna Ú forma da canção, com vistas a
coteca com o dodecafonismo ("Doideca"), aludindo uma complexificação técnica, como no caso da bossa
a situações em que os procedimentos de vanguarda nova, mas em uma explicit;.1ç}o conceitua! da forma-
vão ao encontro do pop-rock, ou do eletrôniço, nas crnç."'lo. 'Essa operação sintética está claramente
frànjas daquilo que se poderia chamar de cultura de exemplificada na descrição que Caetano faz do arran-
uma "n,linoria de _massas" - experimentalismo que jo de "Alegria,A.legria", que recusa qualquer tentativa
foi radicalizado em Ara(á Aznl (1973), segundo o de forjar um som homogêneo, uma nova síntese mu-
mote: "tenho direito ao avesso, botei todos os fracas- . 1 A o contrario,
s1ca__ - · procura usar a sonoridade rec.o-
sos nas paradas de sucesso" ("Épico"). Essas contami- nhecível da música comercial fazendo um arranjo que
nacões múltiplas entre o erudito e o popularesco, o se chague com ela, sar.npleando retalhos musicais di-
sóbrio e o sentin1ental, o cultivado e o lixo cultural, versos, tomJdos con10 rcady-111adcs.·' 1'
acabam surpreendendo novidades imprevistas em· O resultado, como observa Cícero, é a abertura
~cada uma das canções, renovando a nossa capacidade sem preconceitos "não só a toda contemporaneidade
de ouvi-las com ouvidos livres. mas també111 a toda tradição'', con1 mna liberdade que,
Em que pesem as diferenças de contexto e n10- naq~1ele momento, afrontava o tradicionalismo puris-
mento histórico, que evidentemente alteram a-eficá- ta da canção de protesto, fundado na te-111ática social
cia das operações empreendidas em cada situação,
Caetano é sen1pre um atravessador dos lugares-comuns,
fazendo conientários transversais aos gêneros e estilos, "':OTrop1c1Jismo <' .1 MPB ·. h11<1/id,1,fc_; Sem Fi111 (.)Jo l'aulo:Con1p,mhia da, Letr,1,,.
].1)(1:Í).
-que ro111pem exclusividades de gosto, segmentações
,.. Cf I i·1d,1dc ·!h,pin1/, np. ,ic ,p. 168...<,'.J
de classe e faixas de 111erc:ido. Transgressão fecui1da,
Acordes Dissonantes Pelos Cinco lvfil Alto-Fa/a11tcs 61
60 Caetano Veloso

étnico-regionalista. Isto é, uma demonstração corro- círculo do bom gosto que a fazia recusar como .inferio-
siva.- porque vinda de dentro da MPB - cfe que a res ou ~quivocadas as demais manifestaçõ~s da música
música popular não tem uma essência prefixada. - comernal, e filtrar a cultura brasileira através de um
Entre 1967 e 68, os festivais de MPB representa- halo estético-político idealiz;nte, falsamente 'acima' do
ran1 a arena de acontecimentos cruçiais e inéditos na mercado e das condições de classe", devolvendo-a a~
história cultural e política do país. Dominados pela seu ~eio real, a "'geléia geral" brasileira. "No fermento
radicalização político-doutrinária do meio estudantil de de cnse que espalha ao vento, o tropicalismo capta a
esquerda (UNE, CPC),foram o palco de embates ideo- vert1gmosa espiral descendente do impasse institucional
lógicos de grande envergadura, cuja dinàmica foi brus- que levaria ao AI-S." 59 •

camente interron1pida pelo trauma histórico do AI-5.


Por isso, con10 observa José Miguel Wisnik, representa-
ram algo 1nuito maÍs profundo do que a n1era oposiçào QUEM VEM LÁ SOU EU
entre a viola sertaneja e a guitarra elétrica, ou ó didatisn10
militante e o experimental.is1110 estéti.co. Significaram, Como disse Zé Celso Martinez Corrêa , "68 iCc0 1,· aCl-
·
antes, un1 confronto entre duas perspectivas de leitura Illa de tudo, mna revolução cultural que ba. teu no cor-
do Brasil: a "visão épico-dranlática e nacional-popular ,, 60 e. ·
P,? , re1enndo-s~ .tar~.to à agr:ssão sofr.ida nas pri-
da história e do Brasil" e a "visão paródico-carnavales- soes, torturas e ex1hos quanto a revolução libertária
57
ca, n1esmo que trágica, do Brasil e do mundo". comportamental defla~rada ali, .à· inclusão do corpo
Apresentando a cultura ·brasileira como o "foco no centro da cena art1st1ea, assumindo os riscos de
de choques" entre o "industrial e o artesanal, o elétrico e protagonizar u?1a situação d~ ruptura sem pfeceden-
o acústico, o urbano, o rural e o suburbano, o nacional tes. Sob esse p~1s1na, é muito interessante ª':ompanhar
e o estrangeiro; a arte e a mercadoria, o tropicalismo a. tra12-sformaçao da persona artística de Caetano em
veio denunciar a pretensão à pureza expressa na canção direçao ao olho do furacão de 68.
de protesto, e ·o esquematismo da sua promessa de re- !nteressad_o em pintura quando jovem, fascinado
denção salvadora. Pois, na representação tropicalista, "â por cinema a partir da a~olesCência - chegando a es-
história apàrece como lugar de deslocamentos sem crever textos criticas sobre o assunto em jornais de
línearidade e sem teleologia, lugar de uma sirnultanei- Santo Amaro e Salvador (1960 a 63), e a dirigir um
dade complexa en1 que o sujeito não· se vê _como por:- longa~metragem (O Cinema Falado, 1986) - e aluno
58
tador de verdades ('nada no bolso ou nas mãos')" . do curso de filosofia da Universidade Federal da Bahia
Assim, o tropical.ismo arranca a MPB universitária" do ·

_;; José Miguel Wisnik, "Algumas Questões de Música e Política 110 Brasil" [ 1987], ;, !0sê Migu~! Wi.,nik, "O IvÍinuto e o Milênio - ou Por Favor, Professor, Uma
Decada de Cada Vez" [1979), em Sem Reccira,op. dt., p. 181.• , •
em: Sem Receita - E1m1ios e Gl/lf(lrs (S:io Paulo: Publifolha, 2()04), p. 2-10.
"'?,é Celso Martinez Corrêa, op. cit., p. 125.
'" Idem, p. 209.
62 C,1ctaM vclvso

na maioridade, Caetano desenvolveu talentos 1núlti- ta criador. Isto é, devido à destacada participação que
plos no campo artístico, e den1or~~ _a adn1itir a c~rrei~ teve no programa televisivo Esta J.\Toite se I111pn)l)isa,
ra musical como seu destino criativo e profiss10nal. da rede Record, em que os participantes tinham que
Nessa área, iniciou a carreira fazendo apresen~ações adivinhar canções a partir de palavras dadas. Caeta-
caseiras em bares de Salvador, e con1pondo _a trilha no, assün como.já tinha .
acontecido con1 Chico Buar-
sonora para montagens locais de teatrn (ainda e'.n _63), que pouco tempo antes, tornou-se um campeão em
para depois - juntamente com Gal, Gil e Bethama -, acertos, amealhando uma pequena fortuna para seus
en1 64, estrear o sho11) ]\lÓs, Por Exemplo ... , no Teatro padrões de então, e atraindo a simpatia do público e
Vila Velha, em Salvador, onde tan1bén1 faüun o show da mídia, compungidos con1 a ternura de sua ima-
Nova Bossa T/elha, Velha Bossa N{)ua, acompanhados de gem "serena''. e seu "jeito de santo", cuja dignidade
Tom Zé, no mesmo ano. ficava dramatizada pela magreza física, e por um cer-
Depois disso, acon1panhando a in~là _Maria to "tom triste no rosto". 1,1
Bethânia, gue havia sido convidada a subst1tu1r N a~·a Digamos que at_é a apresentação de "Alegria,
Leão no sho1/I Opiniào,dirigido por Augusto Boal, partm Alegria", em setembro de ú 7, n.J gu:11 Caetano e Gil
parJ O Rio no-início de 1965. Ali, teve a canção "D~ resolveram deflagrar o movimento de intervenç,lo
Manhã" incluída no,lado B do "compacto b~st-scllcr que ·tinham em mente - ·e que só depois veio a se
de Bethânia, que trazia o sucesso "Carc~rá" _Qoão do chamar tropicalismo -, essa imagem não muda em
Vale e José Cândido)·, e gravou o seu pnmelfO com-
pacto, contendo "Samba em Paz" é "Cavaleiro" - ~sta
substância. Apes~i;· da parafernália de_ guitarras elétri-
cas dos Beat' Boys, grupo de nick ;1rgentino que o
l
última, uma canção eni ton1 romanesco que anunna a acompani1ava, e mesmo dos ·acordes dissonantes na l
i
',
. chega.da de quem canta ("Quem _ven~ l~ sou,,eu "), de-
clarando planos grandiosos e emgniat1cos: Sou eu/
introdução da canção, J figura de Caetano no palco
ainda permanecia con1portada e um tanto cons- i
Vin1 chamar o meu povo/Trago tudo de novo/ V.1- trangida. Vestindo um terninho xadrez e wna blusa 1
mos tudo acabar''. E ainda, em seguida, no ano de ~6, laranja com gola tu]ê, ele ensaia ali uma libertação
teve algumas composições suas apresentadas e premia- da própria timidez, e urü afrontamento do padrão
das em festivais. televisivos, con10' rBoa Pa1avra "( qum-
. estético-político consagrado nos festivais. Mas o re-
to lugar no Festival Nacional da Música Popular, da sultado dessa atitude ainda tateante não foi exata-
TV Excelsior), e "Um Dia" (melhor letra no II Festl- ·mente · o confronto co111 o· ét/10s ideológicÓ-com
val de Música Popular Brasileira, da Record). portan1ental do público universitário de classe mé-
Mas foi apenas em 67, após um período de re- dia.j\o coÍ1trário,sua própria timidez carismática (ain-
fluxo, em que chegou a reto;:-nar a Sal_vador, em cnse da pouco espalhafatosa) colou-se à imagem da per-
con1 os caminhos profissionais a segmr, que Caetano sonagen1 da canção - mnjovem desgarrado e "à toa
~urgiu de fato con10 figura pública. Tal se deu_ ant~s
pelo vasto conhecimento a_cun1ulado do canc10n~1-
ro popular brasileíro, do que por seu talento de art1s- . Fer11a11do Lobo. roluiw ··1 J,· Olho na TV" ,J.,wa/ d,,_, C,pMtc.,·. 15/8/1 <J(,7.
64 C.1cta,w Vdúso
Acordes Dísso11Lmtes Pelos Cinw Míl Alt11-F,1/,mtci 65

n; vida"r,.?. - que bo:a parte da platfia estava, na ver- com ~111: figurino protop1111k, combinando uma roupa
dade, disposta a acolher. Resulta daí o irremediável de plast1co a colares feitos de fios elétricos, correntes
sucesso de "Alegria, Alegria'', unia "canção de cir-. grossas e dentes de ãnimais grandes, como um ade-
cunstância" transforn1ada em hino de uma época, reço_ de n1acmnba futurista, um ano inteirO se pas-
obliterando a "fenda irônica" que o autor iinaginava sou. Nesse arco de tempo está con1preendida quase
injetar tanto na construção da personagen1 quantO toda a curta porén1 intensíssima história de vida do
no mod.o de apresentá-la. tropicalismo - que se estenderia ainda até dezen1bro,
À partir daí suâ entrada e111 cena na arena dos quando Caetano e Gil foram presos,
novos artistas da MPB ê imediata. Consultando as
matérias dé jornal desse Período, saltam ·à vista inú-
nieros exemplos de uma aceitação paternalista: por
parte da crítica, do moço humilde e despro_tegido che-
TERCEIRO SEXO, TERCEIRO MUNDO
TERCEIRO MILÊNIO '
gado do Nordeste. Mesmo cronistas francamente an-
tipáticos às suas canções espelham essa atitude geral,
reputando o rápido sucesso de sua carreira ao irresistível ·Vi~to de un1 ponto' ao outro, o hiato. é radical. GiÍ e Cae-
apelo carismático do seu sembl1nte "magro, despen- tano inscreverain-se no Festival Internacional da Cancão
teado e displicente" .1' 3 Outros, mais receptivos ao se~ para ccinsuinar a revolução tropicalista, num moment~ já
trabalho, reclamam do deslumbramento de Caetanó bastante avançado do processo de decon1posiçào da for-
com o sucesso instantâneo, Jcusando uma perigosa 11~1-c~nçào "~111 instabilidades próprias da linguagen1 coti-
con1ercialização· de sua figura desprotegida - que lhe diana , gue vmham pondo em 1narcha.r,.~ Gil, dissolvendo ·
rendera o apelido de "IvÍarcha da Fome"-, e1:n prol de a melodia em falas e gritos, com dara inspiração hendri.>ciana,
uma suposta "música universal". r,.J. e Cae_tano, interron1pendo o canto para declamar un1 poe-
Da iniciática porém vacilante apresentação de 1na de Fernando Pessoa ("D. Sebastião", de J'v!msq_(!cm),
"Alegria, Alegria" à "ira santa" do happe1li1;g de "É que na segunda apresentação.já na semifinal, se transfor-
Proibido Proibir", en1 que Caetano subiu ao palco 111ou en1 uni longo e violento discurso de con'tra-ataque
(ou contra-contra-ataque) à platéia que o vaiava, xingava
e, a essa altura, postava-se ~e costas para o palco.
,.~ A 111<1rc/1,1 ,1/r1,1n•"Alq;ria,Alegria", como dt'cbra Caetano. foi dccalCJda na c,m(io Dada a sua violência, que levou a termo os anta-
•'A Uanda".dt Chico Uuarqu,:. vencdor,1 do li ft'stival da R,•cord, Clll 1966. Cf
gonisn10s en1 disputa, essa apresentação marca o clín1ax
1i·rdadc Tmpica/, op. cit .. p. 174-7(,_ Na prim,•1rn estrofo. t: pos~ivel ontar a ktrJ de
unm rorn a mdodia da outr.l e vice-versa. da estratégia, de intervenção vangllardista do tropicalisn1o,
,,, Cf. Mister Eco. "Coit,1dinho", O S,,1. ! 1/ 12/1%7. e,ª.º n:esn~o ten1po, o limite final do n1ovimento - que
'"' Cf Eli Halfoun,''Cao:tano:Jâ Ê Alegria De1mil'", em ( 1/rim,1 Hóm. 2/12/1%7. No
sena ntuahzado logó en1 seguida com un1 ·enterro sün-
cnramo, apesar dis,o, o oitico con,iqera ·· Alegria,Alt'wi,l .. unia música boJ e en; linha
dê' rnnt;nuidadc con1 "Um l)iaº'."iloa·!'abvra"."!k Man]l.\"' t''•Rt'mdexo"'.•'E sim-
plern1c•11te tuna marcha exc<.:uta<b por guit.1rr:1s. 'IU<' t'stào 11.1 111otb ",pondera.E "11i11-
!,;Ué111 hJ de desconhecer também que no Recitt' ~e faz carnawil na b.1se da guicarr.1". '' Luiz TJtir. O S(:m/,, ,/,1 Cmrào, op. cic, p. 2<)6.

'
Acordes DissaJ11111tt:i Pdas Cí11ca lvfí/ Afta- Falantes 67

bólico do tropicalísino no progrania Divino, Ma~avilho- A inclusão do -público na experiência cognitiva


so, na TV Tupi. Nesse estopin1 catártico, para alem das do trabalho de arte é uma conquista desse mesn10 mo-
implicações políticas que atravessavan1 as que_:elas mu- vin1ento. No Brasil, o deslocamento do foco artístico
sicais em questão, encenava-se wna revoluçao. moral, do plano da obra para o do receptor foi conduzido
existencial, comportan1ental, que acusava, naquele m~- principalmente por Lygia Clark e Hélio Oitjcica, com
mellto, reCalques tanto sexuais quanto religiosos e_,,e5p1- suas obras sensoriais e ambientais, e1n que a tensão está
rituais, reprimidos na sociedade. . . posta tanto no· compartilhamento d_e "autoria" com o
Eram essas barreiras que estavain sendo dmarrnta- espectador-atuante quanto na den1onstração de que a
das 110 Jiaj)pmiuj; ritualístico e na dissolução da form~- existência da obra de arte se dá unis:an1entc; na experiên-
canção ali operada. E foi somente a partir.des~a ruptura cia presente·, no nrnmento em que ela é penetrada, ma-
que Caetano pôde reCompor·e multiplicar a h,nguagern nipulada_ ou vestida pelo público.
expressiva e passional da canção duraúte e <lpos a expe- No entanto, é interessante perceber como essa
riênci; do exílio,sobretudo a partir da gravação de "Asa intimidade da relação participativa, que no resguardo
Bra~1ea", como vimos no capítulo anterior. E, de modo do nmseu ou da galeria ainda conserva muito .daquele
complementar,• foi também somente a partir daí que contato pessoal e quase 1nístico da relação con-
ele pôde associar a sua ambigüidade sexual - de "maca- · ten1plativa, no campo da música popular é necessaria-
co complexo", "sexo equívoco", "mico-leão" ("~r~n- 1nente transtornada.Expostos à voracidade dos auditó-
quinha ") ,... a um modo afinnativa1nente desrepn~11_1do rios e da massificação televisiva, os 111.úsicos são artistas
de ver e ler o Brasil, o mundo e o tempo ~1stonco, da mídia e.do grande mercado, e suas obras d.e arte
desdobrando-o por ·dentro das canções ao longo dos estão inevitavelniente inseridas no can1po da repro-
anos 70 e 80, numa 1nirada que· se desnuda e des~rma dutibilidade téçnica e comercial. Nesse aspecto,é muito
teias de prisões morais, culturais, transcendentais, .ªº interessant~ a descrição apaVorada que Hélio Oiticica
colocar-se inteira1nente em cena: "Totalmente terceiro faz da "curra ".sofrida· por Caetano na saída de um
sexo/ Totalmente terceiro mundo/ Terceiro mil~nio/ programa do Chacrinha. Ali; a perda de controle do
Carne nua, nua, nua, nua, nua" ("Eu Sou ·Neguinha?"). artista perante a "fúria da relação participativa" não é
Está aí a veia niâis stlbversiva do tropicalismo: a sentida co1n_o criadora, mas destrutiva - Un1a antropo-
exposição desta.buizada do corpo, da pre·sen5a. carnal, fagia às aVessas, o outro lado daquela 'inédita
aludindo a mna sexualidade 1núltipla e androgma, que dêsrepressão co_mportamen'tal que se desencadeava. Mas
· se expõe à devor;_içãó coletiva. Não à toa, há mna liga- Caetano, observa Hélio, "reagia passiva1nente, refax". 67
ção fundàn1ental entre a prisão de Gil e Ca~tano e _o .
espancamento dos atores de Ro,da Viva,do ~fiei~~• co:,~10
lhe revelou un1 sargento n.o carcere da Vila Milita~.
., Cf L>:~ia U,1rk-Hr!i,> Oi1íri1<1; C11rt<1.< 1%-1- i.J.(Rio deJaJ1e1rn: Editora UF!\f, 1998),
lu(iano F1t,•1.1eiretlo (urg;.), p, 711-72. !)iz Hélio, 11urn.1 çnrta a lygia:"a cois,1 me apavo-

,,,. Cf. 1ád,1d1" "fh,pii<i/, up. cit .. p. 382-86.


rou tal a fúria rnlet1va em upmi(io ~, nubrt;', e ddi(adas inteo,;àes de Cic·t.1110: 1.11n
poda, semibili.,simo, de repeme t' jogado ~umo nu111.1 arena de fera~". lde111, p. 71. 1
68 Caetano Veloso

"Cinema Olympia", uma das últimas canções da


fase tropicalista, anuncia explicitamente essa vontade
de abertura para a impessoalidade dos grandes auditó-
rios, das massas, do mercado de pulgas, do rock'n' rol/ e
do carnaval de rua:"Não queio mais essas tàrdes mor- 4. TRANSA QUALQUER
nais, normais/ Não quero mais/ Video-tapes,
mormaço, março, abril/ Eu quero pulgas mil na ge- COISA JÓIA, BICHO.
"'
ral/ Eu quero a geral/ Eu quero ouvir gargalhada ge-
ral/ Quero um lugar para mim, pra você/ Na matinée
MUITO CINEMA l1
do Cinema Olympia". TRANSCENDENTAL 'l
Apresentada em Salvador, no show que antecedia l
a sua partida rumo ao exílio - cuja gravação resultou
no disco Barra 69 -, essa canção de despedida da ado 0 í
lescência_ em ritmo de rock foi cantada como um grito
l
desesperado de libértação. Libertação do peso da opres- 1
são momentânea, vivida como perda da inocência,
corte ritual com o. mundo afetivo do passado. Visivel-
mente comovido, Caetano multiplica na voz em-
bargada a sensação de distanciamento emocional ao
recusar aquele passado protegido mas morno, vivido
ali mesmo na Bahia. Como que o expulsando de si,
espalha pulgas na "geral" da platéia, na forma de uma
colagem vital de fragmentos daquelas matinées: "Tom
Mix, Buck Jorres/ Tela e palco/ Sorvetes e vedetes/
Socos e coladas/ Espartilhos,pernas e gatilhos/ Atilhos
e gargalhada geral/ Do' meio-dia até o anoitecer/ Na
matinée do Cinema Olympia".

J
Transa QpalquerCoísajóía,Bícho.Muíto Cínema nwscendental 71

ao tonur como mote a en1oçào de un1a experiência


vivida ainda na cadeia - portanto alguns meses antes
daquele show-, percorre um caminho simbólico que
inclui o significado profundo do que se passou tam-
bém ali: o nexo fundamental entre o "passo" indivi-
dual e o "salto" coletivo, ou o exílio pessoal e odes-
garra1nento humano. "Quando eu me encontrava
preso/ Na cela de uma cadeia/ Foi que eu vi pela
primeira vez/ As tais fotografias/ Em que apareces
inteira/ Porém lá não estavas nua/ E sim coberta de
nuvens/ Terra, Terra/ Por mais distante o errante
navegante/ Quen1 ja1nais te esqueceria?".
Essa música, unia das n1ais famosas de Caetano,
tem o poder de concentrar uma enorn1e quantidade
de significados importantes contidos en1 suas canções,
o que pern1ite considerá-la, sob certo ponto de vista,
ealizado nos dias 20 e 21 de julho de

00
un1 dos centros gravitacionais de um período extenso
1969, o show de despedida de Caetano e de sua obra. O n1ote que a inspira refere-se a uma
Gil coincidiu con1 o exato momento em situação real: o fato de Caetano ter recebido, na pri-
que o astronauta Neil Armstrong pisava são, uma revista qu'e continha as prin1eiras fotografias
pela primeira vez na Lua, dando mn "passo" que ,en- do planeta tiradas de fora da atn1osfera.Assin1, confi-
traria para a história como" um gigantesco salto para nado no umbigo de uma_cela minúscula, ele vê o pla-
a hmnanidade", em suas palavras. 68 neta desde um pontO de vista radicahnente distancia-
Avesso aos misticismos em voga naquele n10- do. Nesse inédito descolamento espacial - que é
mento, e rnais atento ao que acontecia na "rua" do tan1bén1 existencial -, a Terra aparece aos olhps do
que na "Lua" ,69 Caetano diz não ter d~do muita im- artista (preso) na imagém de uma mulher ambigüa-
portância a essa coincidência, na ocasião. Contudo, mente sexu~izada e maternal: nudez intt?rdita ("co-
nove anos depois, lançava "Terra" (1978), canção que, berta de nuvens") e comunhão carinhosa com a car-
ne.Esse enraizamento ("Terra para o pé,firmeza/Terra
para a mão carícia") espelha un1 reencontro com o
'"' O s/w11, teve três apresentações ao todo:duas no domingo (20/7/69, de nianhà e à útero (na capa do disco, "dentro da estrela azulada",
noite), e tl!llJ na segunda-feira (21/7, à noite). A chegada de Nril Ar111strong à Lua
ocori-eu no dia 20,às 23h56 (hÓrário de Brasília).
Caetano está deitado no colo da mãe), aparecendo
''''"Quemjá e~teve na Lua viu/ Quen1já esteve na ma tambérn viu/ Q_uanto a nuni,a como contraponto carnal ao vazio desolado do cos-
iiso e aqllilo/ Eu esto_u muito trJnqfü!o/ Pousado no meio do planeta/ Gm1ndo ao n:dor mos: "De onde nem tempo nem espaço/ Que a força
do Sol" ("A Voz do Vivo", Caetano Veloso,grJvada por Gil 1;m Gilberlo Gil, de !969).
mande coragem/ Pra gente te dar carinho/ Durante
72. Caetano Veloso
Transa qualquer Coúa]óía, Bicho.Muito Ciliema Tramcardenral 73

toda a viagem/ Que r~alizas no nada/ Através qo qual -Assim, esse desgarramento - que é um novo
carregas/ O nome da tua carne". enraizamento - dá-se como reencontro de uma Bahia
Abrindo.o disco M11.ito (Dentro da EstrelaAzulada}, mítica fundadora, a "velha São Salvador", porto segu-
• primeiro trabalho de Caetano com A Outra Banda da ro do "errante navegante" estrangeiro que avistou a
Terra, 70 essa canção tem um clima ao mesmo ~empo "Terra" do mar. Urna Bahia. gue é ao mesmo tempo
oriental e nordestino, o que dá um acento 1nuito parti- mãe, a "estação primeira do Brasil", e estrangeira -
cular à-travessia existencial cantada em sua letra.Tal com- africana e oriental-, por ter permanecido isolada du-
binação se deve sobretudo ao fato de ela assentar--se em rante séculos do eixo econôn1ico e cultural mais vital
uma escala n1odal, e não tonal.Assim,o seu acento orien- da CÓlônia, e depois do Império e da República. 71
tal inconfundível, que já aparece na estranheza da pri- Esse tema, explicitamente recorrente na obra cancional
meira nota (lá, que é o segundo grau da fundamental, de Caetano ("Bahia, Minha Preta", "A Verdadeira
so•, destaca-se ainda mais no uso do quarto grau au- Ba.iana" ,"Onde o Rio É Mais Baiano", "Reconvexo",
n1entado, posto e1n un1a nota chave da melodia, que "Rock'n' Raul"), surge, digamos, corno um pano de
-coinCide con1 a cabeça do acorde ("Quando eu me en- fundo em· "Terra", cruzando-se ao orientalismo eso-
contrava preso'.'). De modo con1plen1entar, o desenho térico presente tanto nos Beatles (''Within You Without
melódico da canção descreve um movünento de notas You") quanto em canções brasileiras dos anos 70, corno
áscendente e mn tanto espiralado, que sàb a "ca1na'' •:oriente", de Gil, "Blues" ("O pé da Índia, a 1não da
harmônica estática e uniforn1e (un1 único acorde de Africa/ O pé no céu, a mão no mar"), de Péricles
sol maior repetido insistentemente) dá a sensação de 1
Cavalcanti, ou na 'pena de pavão de Krishna", em
uma subida sem deslocamento, como uma levitação. aliteração e meia-rima "riquíssima" com a expressão
Ao n1esmo tempo, tanto os versos con1postos baiana "vixe Maria", em "Trilhos Urbanos" .Aliás, esse
predominantemente por sete sílabas quanto a inclu- cruzamento é semelharite à operação musical feita na
são da sétima menor·na 1nelodia ("em que apareces_ última estrofe de "Terra", ém que os versos litorâneos
inteira") fazen1 com que a sonoridade e a dicção da de Caymmi são ínCorpOrados ·à melodia mais sertane-
canção se aproximem do universo_ p·oético-musical ja da canção, sob a vibração estridénte e microtonal
nordestino: o canto falado, a poesia oral popular do de uma cítara indiana. 72
repentista, do "circuladô de fulô", os versos de João Portanto, na trilha que nos leva do show de 1969
Cabral de Melo Neto, e a melancolia retesada da es- à canção de 78 e_ além, pode-se dizer que urna fron-
trutura melódico-harmônica modal, a partir, da qual teira vivencial impossível de ser mensurada pela n6s-
Caetano já havia feito algumas catlções, sobretudo no í
disco ]6ia (1975).
11
Ver Antonio Risério, Ava11t-G,1rde 11a Bahia (São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M.
Bardi, 1995). ,
7
i "Nas sacadas dos sobrados/ Da velha Sào Salvador/ Há lembranças de donze!a.1/
7
uForn1ada pelos músicos Arnaldo Brandão, Vinicius Cantuária, Bolão, Zé Luís t: Do tempo do impe:rador/Tudo is.10 na Bahia/ Faz a gente querer bem/ A Bahia tem
Tomaz lmprota ..
um jeito/ 9ue: nenhuma te:rra tem" ("Voct' Já Foi ii Bahia?", Dorivn! Caymmi).
74 Caet1mo Vdoso Trm1sa Q1wfq11er Coísa}ÓÍ!I, Bíd10. Muito Cinema Trm15cc!1dcntal l5

sa vã filosofia foi definitivamente cruzada. A bordo, OUTRA ALEGRIA .


talvez, de uma "interestelar canoa", de um "tapete
nügico", de mn trole ou um bonde puxado a burro, DIFERENTE DAS ESTRELAS
de un1 .trem prata -vindo de "trás da n1anhà", ou
seguindo a itinerância cósmica de uma "tribo bli1c Se para Gil a experiência do cárcere resultou ern mna
non1adismo", "circà transcendental" que se arn1a e pmfunda transformaÇão fisica e ·espiritual em direção ao .
desarma no lugar-nenhum das utopias. Nesse. arco esoterisnio (conversão à niacrobiótica, interesse tanto pela
de tempo, que compreende quase toda a década de cibernética quanto pelas religiões orientais e ciências ocul-
70, está concentrada boa parte da produção n1usical tas)?'- no caso de Caetano,.a ameaça de se perder em um
1nais intensa de .Caetano (13 discos lançados), 7·' que, buraco negrn da existência converteu_-:-se,ao longo da "maré
como vimos, ir~ reincorporar, após a prisão e o exí- da utopia" dos .anos 70, tanto en1 uma espiritualidade leve
lio, o lirismo antes renegado ,Pela "111áscara anti- e cambiante.- "Logo eu que a-i que não crer era o vero
bossanovista" do tropicalismo:"As vésperas de aconte- crer/ Hoje ofü sobre patins" - quanto em un1 apego ao
cin1entos violentos, nossa .poesia queria aniquilar o valor íntin10 e transcendente daquilo que "por üm n10-
liri~mo para dar luga.r a uma saúde feroz. Mas isso é !11ento" se ".compactua" entre o eu e o universo, os seres
muito mais profundo, essa história da aln1a lírica_", vivos e os inanin1ados. Que passa pelo "Deus dos fetos, das
reconheceu Caetano, numa carta escrita en1 Lon- plantas pequenas", e chega à "força estranha" da "voz de
dres. 7+ "Eu sou brasileiro, os meus olhos costmnam
í
alguém" na imensidão. "Tudo é filtrado ali": "num claro j
. se encher de água, eu sou humilde e miserável, es_tou instante" en1 que a história humana e a hist6ria natural se
na janela e na rua. Na janela. Como na Alfan1a, em
Santo Aniaro, Évora, Cachoeira. Eu sou amável e ter-
cruzam, "num ponto eqüiclistan_te entre o Atlântico e o
Pacífico", "num outm 1úvel de vínculo".
!
no, medroso. Eu sou lírico como Vinicius de Moraes, Suas canções desse Período estão profundan1ente
con10 Erasmo -Carlos. Eu sou manhoso e dengoso. marcadas pelas reflexões sobre "o ser e o ·tempo", e so- /
Não há salvação para n1im". 7:i bre"o ser e o nada". Quer dizer, sobre questões in1por-
tantes postas pelo existencialis1no sartriano, tais como a
responsabilidade da ação individual en1 meio à coleti-
í
vidade e a condenação à liberdade. 77 Ao mesmo ten1po,

-., Caezan,, lí:fo.so (1969), C.1ct,11n' Vi·lvw (1971). Tra11.,·,1 (1972), B,1rm 69 {1972. crnu
Gil), Cwr,m,, e Chi.-,,Ju!llos eAo l i'i•,i (1972.com Chico Uu,1rquc),Ar,1pí.·l.::-ul (1973). ·,,_ Duas ranrões de Gil, eni p~rtirular, revelarn essa pas1Jgc-111: "Có:rebro Eletrônico".
Ti:mJ'c>ri1d,1 dl' Vi'F<io (1974, com Gil e Gal), Q11,1/q11,T C"is,1 (1975),Jóia (1975), D1>,n c01npo.1ta-11a cadeia.e '"AI/omega", gr,1vada por Cac-tano en1 1e11 disco de,l 9/i9, tt'ito
Bârl!<!n>s, (1976, com Gil, Gal e lkth~niJ). 8id1<1 (l'J77) • .\/11ito., Cmi,mlis ... (1977) e 11.1 ilahi,1.
Mui1i, {1978). ·, Caetano com:i que ficou muitÓ m1pressionado quando, aos sei.1 ou iete a11m de
·, CartJ a Lt1iz Ctrlm Macid (set./out. 1969),em luiz Cariai M,icid. Gm1ç,J,, c111'lh111.«· · idadtc, ouviu dtc "'Minha Daia" (uma prÍllla mais velha guc lllOrava t'rn sua casa) a
'-- ,\fomirfos dt> 1i'1!1p,, do 1h>pica/iw1<> (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1(JJ6), p. 2.11!: s,;guink' defini,;ào: "O, c-xisttcnciali,tas s,1o filómfo.1 qt!<c •ó fazem o que- qt1L·re111,
""No%a Carolina e!ll Londres 70", texto enviado junto co111 a rc-fi:rid,1 c:rrta. fazendo tttdo o que têm de fazer.Eu queria vÍl'er como des,longl'. desia vida tacanha
idem, p. 23.1. de Santo Amaro". 1í:rdadc "Tr<!piral, op. cir .. p. :?:+.
fra11sa Ql11rlquerCofo1Jóia, Bi,'10.1Huíto Ciu~ma Tm11sm1dental 77

encarnam a_ força radiosa do que é belo e vital como Essa ques~ão crucial, que ·se desenvolve nos anos
afirmação de uma Vontade potente e soberana, de fun- 70, parece ter origen1 en1 uma canção feita ainda no
do nietzschiano, ligando a-experiência do ser- ao pacto exílio ("If You Hold a Stone", 1971), em homena-
sagrado (e anti 0 religioso) con1 o poder imenso daquilo . gem ao trabalho Ar e Pedra, da artista plástica Lygia
que está fora çie si, "longe, muito longe", nias que, por Clark. Esse trabalho, gue faz parte de uma série cha-
isso mesn10, está guardado Vivo "bem dentro aqui", dan- • mada "nostalgia- do corpo", consiste en1 segurar um
do concretÜde à existência individual: "Marcha o ho- saco plástico inflado de ar, sob,re o qual é colocado
mem sobre o chão/ Leva no coração un;a ferida acesa/ mn seixo que o pressiona e desestabiliza, dando à
Dono· do sün e do não/ Diante da visão da infinita obra o aspecto de· um organismo vivo.Aprofundantlo
beleza" ("Luz do Sol"). bu, ainda:"Há muitos planetas a diluição da fronteira entre arte e vida, a obia con..:
habitados/ E o vazio da imensidão do céu/ Bem e mal, súma"-se apenas nos moment~s únicos e intransferíveis
e boca e mel/ E essa voz que Deus me deu/ Mas nada em que cada pessoa a está Vivenciando sensorialmente:
é igual a ela e eu" ("Ela e.E_u"). "Ifyo11 ho/d a stone, hold it inyo11r h~ndl Ifyoufeel the
Pode-se dizer que o que há de mais afinnativa- weight, yo11'll never be late to tmderJtand" (em tradução
mente narcisista em Caetano - tematizado muitas ve- direta: "se você pegar mna pedra, pegar unia pedra
zes de modo explí'cito, como, por exe1nplo, nas fotos na n1ão/ Se você sentir o peso, jamais vai den1orar
do Qisco Araçá Azul, em que aparece diante de um para entender") diz a letra da canção, sobreposta à
espelho, con1 o umbigo e111 destaque - não deixa de _ melodia-mantra de "Marinheiro Só".
; desdobrar traços dessa afinidade filosófica fundamen-
tal. Afinidade que se abre nmna pulsão desejante erh
Ah, todo o "peso" da decisão individual de se carre-
gar a pedra na n1ão dialoga con1 o simultâneo· anu-
relação ao 111undo, ao êxtase fenomenal da vida, pro- Ia1nento da identidade decorrente da troca perceptiva,
curando sen1pre que possível criar condições propícias do apoio instável que, na experiência da obra, dá a sen-
para se poder entrar genuinan1ente "no swing das coi- sação de uma "cópula da qual se participa". 78 O ente.,n-
sas" - usando un1a expressão sua, da época. dünento inllnente ("you'll 11ever be ldte to understand'~) é
Portanto, túdo o que há de "infinitivan1ente pes- o que, na canção, identifica o salto perceptivo que na
soal" em Caetano se afünenta da incorporação genero- obra de Lygia se dá pelo encontro entfe o hun1ano, o
sa e criativa do outro, en1 movin1ento de 1não dupla: do inineral e o plástico numa relação orgânica e recíproca,
eu para o mundo, fazendo com que o "brilho definido" fundidos como numa "pedra vida llor" ("Cá Já''), com
do espírito "espalhe beneficioS", e do outro para si, diante a mesma capacidade alguímica que a folha tem de tra-
da "presença" que "desintegra e atualiza" a sua-.A1nbos gar a luz dó sol e traduzi-la '_'em folha, em graça, em
os 1novin1entos, n1ais uma vez,_são exen1plarmente sin- vida, em força, em luz" ("Luz do Sol").
tetizados na rotação, de '!Terra": "Eu sou _un1 leão de
r fogo/ Sem ti me consunüria/ A mim nl.esmo eterna-
mente/ •E de nada valeria/ Acontecer de eu ser gente/
E gente é outra alegria/ Diferente das estrelas". ,, M;1ria Alire Mil!iet, L):l!i,1 Clark:Ulm1-·r;afft~ (Sfo Paulo: Edu\p. l<J<J2). p. J lO.
78 Caetano Veloso Transa QualquerCoísa]óia, Bíd10. Muito CÍl/ema Transündent~l 79

Essa multiplicidade do "um" aparece em inúme- dentro, acompanhou uma introversão da arte ao interior
ras canções suas, mas ocorre de modo 1nuito próximo piotegido e intimista de "ninhos"," casulos" e" ovos" .80
ao que estamos descrevendo em pelo menos mais duas:
"Gravidade" e "Gente". Na prin1eira, à frase inicial
("Asa asa asa asa"), que descreve um caminho melódi- A GENTE VAI LEVANDO ESSA CHAMA
co ascendente, vêm se contrapor as frases seguintes
("Não ter asa/ Pedras no fundo do azul"), cantadas O que os. anos 70 vêm a testemunhar, na obra dos
em uma cadência de movirnêntos melódicos descen- principais artistas da MPB, é·o inverso do temor re-
dentes, reforçada por acordes que acentuam a descida gistrado por Caetano, em Londres, de que aquela viesse·
em degraus mudando a cada µieio compasso. Ali, a a _ser a "~écada do silêncio". TJnto em suas canções
imagem plácida de pedras ill1óveis sob uma camada desse penado quanto nas de Gil, Chico Buarque,Tom
de água transparente dispaí-a, na equi~alêhcia fenomenal Jobim,Roberto Carlos,Milton Nascimento,Jorge Ben,
entre o micro e o macro, uma reflexão poética sobre o DJavan e ~mtos outros, o que se vê é a afirmação do
atavis1no humano, sua condição de "bicho mergulha- poder res1ste?te ~ indomável do canto e da canção,
do" ,79 incapaz de voar: "Asa· asa asa asa/ O vento entra uma força m1stenosa que não se esgota, pois se desco-
pela casa/ Pedra de sono na cama/ Sonho no fundo bre per~anentemente viva naquilo tudo que "não
do leito/ Brasa debaixo da cinza/ Anjo no peito da pode mais se calar" ("Muito Romântico").Algo que
terra/Asa no fundo do sonho". se concentra, por si só, na simples emissão sonora da
A pedra, o seixo, em sua inteireza abarcável, é, a voz de Milton Nascimento:"Solto a voz nas estradas/
seu n1odo, o "un1" pelo q:ual pergunta a canção "Gen- Já não quero parar" ("Travessia", parceria con1
te": "Gente olha pro céu/ Gente quer saber o. um/ Fernando Brant, 1967), voz que se anuncia ao surgir,
Gente é o lugar de se perguntar o um/ Das estrelas se parecenclo trazer contida em si a transição do éthos
perguntaren1 se tantas são/ Cada estrela se espanta à épico-dramático da canção de protesto para o páthos
própria explosão".Aqui, a unidade irredutível "gente" da pura celebração do canto.
- "Maurício, Lucila, Gildásio, lvonete, Agrippino, Também na obra de Caetano, desde 1967, a ima-
Gracinha, Zezé".etc. - se mede na multiplicidade das gem do poder mágico da música_ - como uma
estrelas, que "tantas são". oposição que não significa reatualização do mito de Orfeu - aparece com força
mútua exclusão, mas, ao contrário, a possibilidade de capaz de. fazer nascer o dia: "Qualquer canção, quase
que um se pergunte e encontre no outro ("gente espe- nada/Vai fazer o sol levantar/Vai fazer o dia nascer"
lho de estrelas, reflexo do esplendor"), pois a experiên- ("Avarandado"), "E eu corri pra o violão num lamen-
cia de descolam_ento da Terra, de ver-se de fora estando

"" Re!erências a_cltulos de trabalhos de Hélio Oiticica e Lygia Clark. Cabe lt>mbrar,
,., Cf."Onde Medra a·Magia", depoimento a LuizTenório de Lima, Alclria,Alc}!ría, ta1_ubem, os segum_tes versos de G~:"Agui, ond<:' a cor é clara/ Agora que ê tudo escuro/
op.cit.,p.211.
Viver em Guadalapra/ Dentro de um figo maduro" ('Aqui e Agora", R~fàlJl'/a, 1977).
• '
80 Caermw Veloso Transa QJ1alq11er Coísa Jóía, Bídio. Muíro cinema Tra11sce11denral 81

to/ E a 1~anhã nasceu azul/ Como é bom poder tocar maturidade social. isto é, passa a ocupar um lugar
um instrumento" ("Tigresa"). mais definido no conjunto da sociedade, numa situa-
· É claro que essa distensão expressiva da canção ção de protagonismo criada e exponenciada pelos
não ocor,re como espelha1nento de um contêxto -de festivais e pela explosão da cultura cje massas (rádio,
liberdade democrática, de respeito aos direitos civis e televisão, indústria do disco), dando-lhes a condição
otimismo em relação aos rumos do país.Ao contrário, ambígua de apresentarem-se tanto como artistas-in-
se dá no refluxo dos ''anos de chumbo" do governo térpretes de anseios profundos - qüase inte1e~tuais 82
Médici (1969-74), e desdobra-se ao longo da lenta. e - quanto como superstars do glamóur m~diático, sujei-
instável abertura promovida por Geisel (1-974-79), tos-alvo do assédio da imprensa 1nais rasteira e vul-
como resistência afirmativa contra toda castração de gar. Posição que,nos anos 80, Caetano registraria pro-
liberdade:"Peixe no aquário nada" ("Os Mais Doces vocativa~mente em "Língua":"Se você tem uma idéia
Bárbaros"). Resistência que tensiona o endurecimen- incrível é melhor fazer uma canção/ Está provado
to político con1 armas que não são mais nem as da que só é posslvel filosofar ein alemão".
canção de protesto, buscando resgatar as tradições fol- De qualquer maneira, fica claro que a partir desse
clóricas nacionais, ne1n as que forçavam uma 1noder- momento o composito'r era já um personagem defini-
nização ruidosa e internacionalizante. tivamente inserido na "correria da cidade". Embora, ao
Assim, a velha oposição entre alienação e enga- mesmo tempo, capaz d~ colocar-se provocativJ.mente à
jamento, aplicada à produção artística, apesar de mui- margem da sua lógica produtiva, subvertendo-a. Tema
tas vezes reeditada pela crítica naquele período, não que está presente em '~Samba e An1or", canção composta
era mais capaz de d~screver o novo campo de forças por Chico Buarque {1970) e '.'transcriada" por Caetano
que se desenhava. Noutras palavras, representava un1 Veloso em Qualquer Coisa (1975). Nela, o "compositor
esquema antigo, como diz a canção "Muito Român- popular" apresenta-se como alguém cujo trabalho
tico":"Não tenho nada com isso, nem vem falar/ Eu (''samba'') tem como matéria o ócio, o prazer (''amor''),
não consigo entender sua lógica/ Minha palavra can- atributo que, paradoxalmente, lhe garante uma distinção
tada póde espantar/ E a seus ouvidos parecer exótica/ social, e portanto uma autonomia profissional afirn1ativa:
Mas acontece que eu não posso me deixar/ Levar por
um papo que já não deu". 81
Pode-se dizer que a figura do cantor e compo-
sitor popular no Brasil, nesse momento, atinge a sua •!Entre muit.J.s polêmicas acercJ desse tema, particularmente uma, envolvendo Cae-
tano e o ensaísta e diplomata José Guilherme Merquior. apresenta a quesqo de
modo claro. Em réplica a uma resposta de Caetano, diz Merquior:"Niio são os ensaístas
como eu que estio querendo invadir a_ área do esPetácuio. São os Caetanos da vida
que- tentam há vários anos usurpar a área do pensamento. A meu ver, com as n1ais
"' '"Muito Romântico' ê uma espêcie de resposta que eu dou.Eu dis.1e para o Roberto desastrosas conseqüências.já que se tr.:Jta de pseudo-intelectuai., de miolo móJt. cujo
Car!Os - eu fiz essa canção para ele - eu disse: 'Roberto, essa é uma canção de principal defeito é serem deslumbrado, diante dos initos"da contracultura, isto é:, o
protesto; um protesto nosso, dos românticos contn os realistas-racionalista~• .""Cae- elemento de sub-romantismo mais sovado e furado da ideologia contempor.lnea."
tano Muito Romântico", 1Vlovimento, 28/8/1978 . "De Cae a Mer:ciuior, e Vice-Vwa", Isto É, 2413/196_2.

- o. ;_; .... Y_ . · :,'.·- '


82 Caetano Veloso Transa Qiialquer Coísa]óía, Bicho. Muíto Cinema Transcendental 83

"Eu faço samba e amor a noite inteira/ Não tenho a


quem prestar satisfação". O'' cancionista", portanto, é u~
O FOGO DAS CO!~AS QUE SÃO
"desespecialista" máximo em tempos de segmentaçao
profissional, alguém que trabalha a par.nr de uma_ mul- Por mais gue o "compositor popular" retratado nessas
tiplicidade de estímulos, ao mesmo tempo certeiros e canções pudesse ainda manter resgus1rdado o seu ato
desencontradoi:"A gente não sabe o lugar certo de colocar criador• ("Não sei se preguiçoso ou se covarde/ De-
o desejo" ("Pecado Original")." baixo do meu cobertor de lã/ Eu faço samba e amor
,"Samba e Amor" é a n1atriz de uma outra can- até mais tarde/ E tenho muito sono de manhã"), ele
ção, chamada "Festa Imodesta", que Caetano compôs já se definia como um profissional da indústrTa do en-
para Chico gravar, no período em que todas as com- tretenimento, um artista exposto à "roda-viva" da
posições de sua autoria eram censuradas (v~r ~ d1s~o devoração pública. Por outro lado, o declínio dos fes-
Sinal Fechado, de 1974). Esta canção, ela propna feita tivais nos anos 70 acompanha uma situaçãó·em que os
de referências à n1alandragem que atravessa sambas grandes acontecünentos musicais já não Se dão mais
antigos, é uma exaltação "imodesta" da -'figura_ í~p~r na arena de eventos excepcionais e explosivos-, onde a
daquele que "se presta" à "oçupação''. de constrmr,, co~- canção procuráva e:Xplicitar formal e tematicamente a
sas pra se cantar". "Salve_ o co::1pos1t~~,~~pular! , d1z sua função crítica. Bem sedimentada no solo da in-
0 refrão, ecoando o bordao de Alegna : Salve o _pra-
dústria de consumo, gue a1nplificou significativan1en-
zer!/ Salve O prazer!" (Assis Valente e Durval Maia). te o seu alcance, a canção se di~tende e· penetra nó
Isto é, a canção popular é uma "fresta" por onde tecido social en1 registros novos,menos evidentes porém
passam a ginga, a síllcopa, _a batuca~a, a "embaixada" mais pregnantes do gue na "era dos festivais". Há,nes-
do samba, 0 desacato. Um bem social que, entre. ou- sa passagem, como diz José Miguel Wisnik, uma "su-
tras coisas se mostra humoradamente capaz de driblar peração initopoética dos antagonismos" gue marca-
a açâo re~ressiva da censura, filtrando o liris1:1~ e o ram o fin1 da· década anterior, numa celebração "do
prazer resistentes na cultura popular (~orno un_:a ch~- princípio que habita tudo o gue vive para sen1pre":.
"festa, dança, carnaval, alegria". 84 ·
ma", ou umà "guia", que passa de mao em mao) pªra
lançá-los, amplificados, na arena da cultura de massas. Nesse sentido, a segunda metade dos anos 60 pode
Na parceria que fizeram ("Vai Levando", 1975), e que ser vista como o momento de consumação de uma
completa essa trinca de canções, Caetan_o ~ C?1co. crise, gue, por sua vez, engendra um novo nascimento,
anunciam que, mesmo com todas ~s. contmgenc1as .-. a partir do qual o lirismq bossa-novista pôde retornar
que estão entre as banalidad~s cot1d1anas e as re~~n- transfigurado. Já não mais como vago abandono ao
çõ,es interditas-, "A gente vai levando '.'ssa chama ;,E fluxo da vida, mas como urgente presentificação de
avisam: "Não tem mais jeito,. a gente nao tem cura . um princípio ~íclico e vital êm que "tudo ganha con-.

K'Ver LuizTatit, O Ca11cio11ísta, op. cit., p. 273-74. "4 José Migud Wimik, '"O Minuto e o Milênio", op. cit., p. 185.
Transa Qmilq11aC01SaJói,1, Bi(ho.,'v/aito Cinema TJ,,llliú'll!fenral 85

diçào participante". 8 ~ Reatualização niítica do instan- Esse princípio de un.ifiçação das coisas reaparece
te cóstnico en1 que as coisas são, porque estão presen- como enigma e1n uma outra canção fi.mdamental do
tes no presente: "É pau, é pedra, é o fim do ca~ünho período:"O Que Será (À Flor da Terra)", de Chico
[... ]/ São as águas de março fecha_ndo o verão/ E pro- Buarque (1976), cifrado no rastro de vozes que sussur-
messa de vida no teu coração" ("Aguas de Março", de ram à noite (nas alcovas,nos mercados,nos botecos) algo
Tom Jobim, 1972). , iilom..inável, que, no entanto,·atraVessa igualmente o dia-
Como observa Lorenzo Manuni, con1 "Aguas a-dia e as profecias mais delirantes. Esse v·q11ê destituído
de M;rço" Tom Jobim finalmente "volta para casa". E de tan1anho, sentido, cens~ra, decência, governo, juízo,
o rito de passagen1 que pernüte essa Volta, em sua vergonha, pelo qual pergunta a canção, não está e111 ne-
análise,é realizado nas três p:rcerias que fez com Chico nhun1 fogar d~termiflável, e, no entanto, "está na nature-.
Buarque em 1968 ("Pois E", "Retrato em Branco_ e za, será que será". Isto é: difuso en1 uma natureza não
Preto" e "Sabiá"), nas quais a impossibilidade de re- apenas ecológica, mas essencialmente hmnana: histórica,
torno ao clin1a de redenção afetiva da bossa nova se erótica, política.Assim, a pergunta sobre "o que será que
explicita - vale· dizer, pdo encontro entre o "afundar será?" na verdade não inquire o fütuço, o-que vai aconte-
en1 uma idéia sempre n1ais introspectiva de nature- cer um d!a, e siln o que estás~ passando no presente.Ao
za" ,8(' que já se esboçava nas novas canções de Jqbim,e pé da letra,seria possível traduzi-la sin1plesmente c01no o
a dicção poética cortante e in1paciente do parceiro, que é?._ Ou melhor: o q11e será que é?.
filho dileto (embora recalcitrante) dos novos tempos. Na obra de Caetano, con10 viinos, essa supera-
"Águas de Março", cümo se sabe, é não apenas ção n1itopoética dos antagonis1nos na forma de mna
lun "divisor ·de -águas" na história da MPB, mas tam- urgente presentificação aparece en1 inúmeras canções
bé1n um"a -referência na história da canção popular. dos anos 70 e 80. E define um núcleo central que se
Contudo,mesn10 o que nela soa.como genuinamente explicita _mais diretan1ente en1 "Terra" (1978,já co-
universal - ··a concretude das irnage_!)S, que se rebate mentada),"Um Índio" (1976, a ser analisada mais adian-
con1 naturalidade na acentuação rítmica bem marcada te)," Força Estranha" (1 979), "Cá Já''. (1978) e "Luz do
· ena cadência circular - não deixa de representar unia Sol" (1982). Há, nessas três canções, um estancar do
resposta históri_ca .a esse contexto particular: uma aposta ten1po.diante de visões significantes:"Eu vi o 1nenino
na força do ciclo natural da vida cmno forma de rege- c'orrendo/ Eu vi o te1npo/ Brincando ao redor do
neração daquilo que parecia truncado, sen1 saída. Daí• canünho daquele menino [... ]/Eu vi a mulher pre-
a presentificação total que estrutura .a canção, em que parando outra pessoa/ O tempo parou pra eu olhar
tudo é: "promessa de vida" e "n1istério profundo". para aquela barriga'' ("Força Estranha");"Esteja cájá/
Pedra vida flor/ Seja cájá/ Esteja cá já/Tempo bicho
dor/ Seja cájá/•Doce jaca já/ Jandaia aqui agora" ("Cá
Já"); "Luz do sol/ Que a folha tragn é traduz/ Em
'' Archur Ne,trovski:'·() SambJ Mnis Uonito do Mundo•·. c·m: l. MJ1111ni,A. Nc·strov~ki
e l.T.itit. 7h'.< Cc111rl1•., de Y.>111 fo/,i111 (S:io P,iulo: Co,ac NJi/}·, 200.J.);p. 37. verde novo/ Em folha, e1n graça, e1n vida, et11 força,
'"' loreuzo M.unml,'·Ca11ç},; do Exílio'',elll T,h C111r>;,., dc"li>mJ_,•bi11i, op. c1t., P· 27. em luz" ("Luz do Sol").
7hl11S1l Qu,1fq11ff Coi_;aJâia, Bid10.M11iro Cí11cm11 Tr11ll.(Ct'!1denra{ S;
Um estancar que ü11plica penetrar no princípio
contínuo que rege o ser das coisas, o seu sendo se1npre Assim, o encontro,- na estrada, com a pergunta
, presente e se1npre ern n1ovimt'nto: o instante mágico drm11111ondiana sobre o enigma da vlda se desdobra
na concretude plena das in1agens ("É o sol, é a es-
da fotossíntese - fugaz e permanente-, e!n que toda a
vida é criada pela transformação de "luz" e111 "luz"; o trada, é o tempo, é o pé e é o chão"), deslocando a
chamamento à presença plena ("Seja cá já/ Esteja cá pergúnta totalizante sobre o insondável para o pla-
no do sensível: pec;lra vida flor, c'ajá, jaca, cajuína,
já") a partir de un1a sono6dade que -a_l~de ~ _innge~11
folha, graça, vida, força, luz, sol, estrada, tempo, pé,
mais que concreta de duas frutas, o CaJa : a JaC9": cu~o
chão, pau, pedra, fim, ca111inho.
aroma é de tal n1aneira in1pregnante que e ele proprzo
unia mate~ialidade; e o olhar parado de unia barriga
"preparando outra pessoa"--: etern? inacaham~ntq ~a
existência hun1ana en1 flash rnstantaneo. Tudo, mclus1- NA AMÉRICA, NUM CLARO INSTANTE
ve o ten1po, pode par;r para que ?gtiela ~e_na se dê,
menos a gestação, que continua se dando m1_nterru~,- Ó altíssimo grau de liberdade artística alcançado por
ta111ente a despeito de tudo. "Mo111ento movunento , Caetano, Gil, Gal e I3ethânia nos anos 70 encontrou
nmn ,'sempre agora "("C'J'")
a a . unia exPressào concentrada no shou Doces Bárbaros 1

Diferenten1ente deHCá Já" e "Luz do Sol", que se (1976). Visto hoje, retrospectivamente, este slww pare-
desenvolvem en1 um universo harn1ônico-melódico de cé ser um ímã para onde as suas car_:re_iras conyergem,
matriz bossa-11ovista, "Força Estranha" é uma balada iluminando o período como um todo. Se as precárias
· romântica feita para (e à moda de) Roberto Carlos, tendo gravaç~es feitas ao vivo, que resultaram no LP, s}io in--
con1o 'rema o próprio poder do canto: "Por isso un~a suficientes diante da força viva do que se produziu en.1
força·me leva a cantar/ Por isso essa força e~tranha/ Por cena, as i,magens do filme-documentário feito porJ0111
isso é que eu canto, não posso parar/ Por isso essa voz Tob Azulay, recentemente restàurado e veicnlado em
tan1anha". Aqui, o enigi.na da arte - a voz de. que1n circuito comercial (2004 ), consegue111 resgatar a im-
canta -·aparece como manifestação sensível da pergun- pressionante combinaç·ão entré serenidade e violência
ta fundâmental sobre a razão de existir, assim como en1 pulsante, ali, e1n uníssono.
"Cajuína" ("Existirmos: a que será que se. destina?"). Tendo suas carreiras individuais já n1ais. do que
Mas enquanto a "matérja vida", nesta, ~e destila na t~~ns~ consolidadas, "os quatro cavàleiros do após-calipsoi•
parência da bebida cristalina, em "Força Est,ran~~ v~1 ("Chuck Berry Fields Forever") reuniam-se novamen-
ser buscada "no fundo de cada vontade encoberta . P01s te em un1 trabalho conjunto, em situação semelhante
o homemcartis'ta ("Aquele que conhece ojogo/ Do ao que fizeram doze anos antes, no inicio de suas car-
fogo das coisas que são") é alguém que, por não preten- reiras, no shciw Nós, Por Exernplo .. . , no Teatro Vila Ve-
der alcançar um além 111etafisico (como no" eterno re- lha, em Salvador (1964). O nome do show, tornado de
torno" de Nietzsche), vive intensamente a dor e o pra- uma canção feita por Caetano para o grupo ("Os Mais
zer de existir, e "nunca envelhece". Doces BárbaroS"), representa uma resposta hmnorada
88 Caetano Veloso Timisa Q11alquerCoísa]6ía, Bícho.Muíto Ci11emt1 Transcc11de11tal 89

aos ataques xenófobos que e]es vinham sofrendo por vo-negativo do trópicalisn10, e voltaria a aparecer com
parte da imprensa - sobretudo ligada ao Pasquim -, força, na sua obra, nos discos dos anos 80 e 90, sobretu-
que deu ao grupo de "imigrantes" baianos o apelido do a partir de Ve/6, em 1984.
de "baihunos" ,87 fundindo o nome de seu estado natal Contudo, há uma canção de Doces Bárbaros que
com o das hordas bárbaras que invadiram a Europa no drena toda a energia solar das canções desse período
sé'culo 5º. na edificação de um herói redentor, selvagem e fu-
Revertendo a acusação, eles cantam:"Com amor turo, puro e miscigenado: "Un1 índio descerá de uma
no coração/ Preparamos a invasão", ecoando o clima estrela colorida, brilhante/ De uma estrela que virá
de descontração irreverente do grupo Novos Baianos, nmna velocidade eston-teante/ E pousará no coração
,que numa canção da época difia: "Saindo dos prédios do hemisfério Sul/ Na América, num claro instante/
para a praça/ Uma nova raça" ("Colégio de Aplica- Depois de exterminada a úl'tima nação indígena/ E .
;.
ção", 1970). "Queremos ser Doces Bárbaros assim o espírito dos pássaros das fontes de água límpida/
como o doce de jenipapo é um doce bárbaro!", pro- Mais avançado que a 1nais avançada das 1nais avança-
voca Caeçano, em texto de apresentação ao show. E das das tecnologias".
finaliza: "Mas que horda é esta que vem do planeta "Un1 Índio" é uma canção q·ue fala, em to111 de
terra bahia, todos os santos?". 88 "profecia utópica", desenvolvendo, pela dicção de
Na já referida "C=ferência no MAM", feita em Caetano Veloso, uma tenlática que. Chico Buarque,
1993, Caetano declara que a "descida aos infernos" havia esboçado em "Rosa-dos-Ventos" (1970), aó des-
empreendida pelos tropicalistas não pretendia esgotar- crever un1 aco.nteciµ1ent~ epifânico (uma "enchente
se no contato despudorado com a" geléia geral brasilei-
ra" - na exposição masoquista das suas entran~as-, 1nas
amazônica", uma "explosão atlântiCa") que romperia
o "sono dos séculos" fazendo a multidão atônitJ. assis-
1
efetuar-se ritualisticamente como ''estratégia de inicia- tir, "ainda que tarde" ;"o seu despertar".
ção ao grande otimismo". 89 Essa é a posição que embasa
i
Em "Um, Índio'-', esse herói "preservado e1n ple-
sua entrega ao "poder do algo mais e da alegria" ("País
Tropical", de Jorge Ben) na utopia planetária dos anos
no corpo físico" é ao mesmo ten1po um símbolo nútico
n·acional - o "bom selvagem" dos árcades e dos ro- t
70, desfocando a discussão acerca do Brasil como "ruí- mânticos - "e uma figura concreta, atual, como o caci-
na" e "construção", que embasou o projeto construti- que Jurunà, que despontaria pouco tempo depois na 1

cena política, ou os sobreviventes da mais recente cha- i


cina nas_ disputas territoriáis-com seringuéiros ouga-
rimpeiros. Mas, acima 4-e tudo, é uma síntese poderosa
7
' A expre,,ão foi c~iada por Millôr Fernandes, em artigos escritos no A1sq11i111 a_panir das misturas raciais transnacionais, como o resultado 1
de 1972, alguns meses após a volta de Caetano e Gil do exílio. Essa posição reflete de laboratório da maiS perfeita miscigenação hmnana:
um racha havido no grupo do semanário carioca.que culminou na saída deTàrso de :1- .
"um preto norte-americano forte" convertido ao islã ' .
Castro e Luiz Carlos Maciel. Cf. Gcraçiio em Tm11se, op. cit .. p. 240-41.
'' Publicado em Ele[,,- Ela, uº 86,junho de 1976. ("Impávido que nem Muhammad Ali"); um índio .1
"'' "Diferentement~• dos Americanos do Norte", em O Mimdo Não É Chata, op.cit., p. 51. "puro", habitante das florestas brasileiras e do imagi- it,1

lt
-li
f

/
9o Caetano Veloso Tra//5a Qualquer Coisa]óía, Bídw.Midto Cinema Tra11su11de11tal 91

nário europeu ("Apaixonadamente como Peri"); um "Um Índio" é uma canção profética mas não mes-
mestre da arte marcial milenar chinesa, ostentando um siânica. O ponto de encontro (e de fuga) de ma profe-
nome americano ("Tranqüilo e infalível como.Bruce cia é o tempo histórico real, o aqlli e o agora.
Lee"); e um bloco de carnaval afro-brasileiro que
homenageia um líder pacifista indiano ("O axé do
Afoxé Filhos de Gandhi"). .
Assim, o sentido enigmático dessa aparição reden..:.
SEMPRE TESO O ARCO DA PROMESSA
tora anunciada pela canção, ''nun1 ponto eqüidistante
entre o Atlântico e o Pacífico", se esclarece no verso ·Toda a política mais afiada, presente no 1nodo como
final, como uma revelação deSconcertante: "E aquilo C_aetano lê o mundo e o tensiona, passa não por uma
que nesse n1omento se revelará aos povos/ Surpreen- análise político-econônllca das estruturas sociais, ou
derá a todos não por ser exótico/ Mas pelo fato de pelo alinhamento artístico a algmna "causa" derivada
poder ter sempre estado oculto/ Quando terá ;ido o de injunções ideológico-partidárias, mas por uma es-
óbvio". Isto é, a epifania da canção desvela o obv10- tétjca das relações· hmnanas, cujo motor é essencial-
oculto soterrado na realidade cotidiana da vida: tudo n1ente erótico, Um eras espontâneo e natural - en1
tudo contrário a uma concepção exótica do sexo e da
o que deve ser revelado já está aqui, da~o, ~~contráve~
na situação presente, e por isso mesmo 1nv1s1vel. O rei libido - que se 1nostra, tan1bém, cmllo un1 éthós, isto é,
(índio) está nu. uma instância de valor capaz de medir conceitos con10
Essa é a n1ensagem irradi~da com força pelos desenvolvünento e subdesenvolvin1ento através ·dos
Doces Bárbaros, n1arcante tan1bém na canção "Fé Ce?'3, ciitérios de elegância, originalidade, saúde criatiya,
c01npetência, dever de grandeza. ·
Faca Amolada" (Milton Nascimento e Ronaldo Bas-
tos, 1975), apresentada no show, que reverte o ponto - Suas canções dos anos 70 e início dos 80, sobre-
de vista que prometia n1essianicamente o futuro na tudo no disco Bicho (1977) e nos trabalhos feitos em
canção de ·protesto: "Agora não pergunto ma~s aonde conjunto com A Outra Banda da Terra (1978-83) -
vai" a estrada/ Agora não espero mais aquela madruga- período que considera a "fase de maior felicidade" de
da/Vai ser, vai se~, vai ter que ser, vai ser, faca amolada/ sua vida n1usical 91 - , são caracterizadas por uma malí-
Um brilho cego de paixão e fe, faca amolada". . cia leve e expansiva,.presente tanto nas letras quarito
Nesse "claro instante", a "poesia não se paralisa nas músicas, en1 que o prazer e o deleite predominam
olhando o dia-que-virá: e;m vez disso, se põe inteira- na instrumentação percussiva "jamaicubana'\ e no fre.:..
qüente deslocamento entre a estrutura- melódica e a
mente, e em movimento, no tempo em que esta," .\)()
acentuação rítmica, como numa inusitada fusão entre
bossa nova e reggae em roupagem pop. Esse embara-

'!''José MiguelWisnik,"Tudo de Novo (As Profecias dos Doces Bárbaros)", 1vl,>11i11m1-


to, n" 53, 517/1976), em Gilberto Gil: Ei:press,, 2222 (Sfo Paulo: Corrupio, 1982),
1
Antonio Ri.sério (org.), p. 125. '' Verd<1dc Tropic<1!, op. cit., p. 495.

)
92 Caetano Veloso
Tmnsa Q11alq11aCoisaJóía. Bid10.M11iro CÍ/le111<1 Tn111scc11dmtal 93

lhamento entre ten1pos fortes e fraC:OS na cadência a-trama" das profecias agourentas ("Ele Me Deu Um
balançada dos arranjos aparece, por exemplo, em can- Beijo na Boca") em prol da beleza, como exclama nos
ções como "Tempo de Estio", em que o acento tôni- versos iniciais de ''Outras Palavras'':''Nada dessa cica de
co da melodia entra meio ten1po atrasado em relação palavra triste em mini. na b~Ka/ Travo trava mãe e papai
ao pulso principal ("Quero comer/ Quero mamar/ alma buena dicha loca [... ]/ Crista do desejo destino
Quero preguiça"), e "A Outra Banda da Terra", em deslinda-se em beleza".
que o mesn10 se dá inversan1ente, com a melodia ante- Assim, no amplo espectro de canções desse petio-
cipando-se ("Amar/ Dar tudo/ Não ter medo"). do, não é apenas o clima leve de paquera que vigora no
Tematican1ente, o "coração de eterno flerte" que horizonte de sedução dü canto, mas um eros potente e
rege essas canções extrapola o limite dos sexos, lan- 1nultiforme qúe assume expressões infinitamente di-
çando seu olhar igualn1ente sobre as 'fmeninas" do Ri'o versas, como signo de saúde e poder: "Você é forte/
de Janeiro ("Rio, eu quero suas meninas:'), e os n1eni- Dentes e músculos/ Peitos e lábios" ("Você É Linda");
nos do Rio e de Salvador, cor110 o surfista Peti ("Me- de iluminação epiíanica:"Menino Deus/ Quando a flor
nino do Rio"), ou o "n1oço lindo" que. é "Salva-Vida" do teu sexo/ Abrir as pétalas para o universo/ Então
no mar da Bahia ("Que é fera na doçura, na força e na por um lapso se encontrará nexo" ("Menino Deus");
graça/ Ai ai/ Quem dera que eu tambén1 perte1~cera de elegância, desprendimento e sensualidad~: "Não me
a essa raça"). Canções em c_iue o pulso do desejo se amarra dinheiro não/ Mas formosura/ Dinheiro não/
n1ove continuan1ente na presença atraente do outro A pele escura/ Dinheiro não/ A carne dura" ("Beleza
("quando eu te vejo eu desejo o teu desejo"), cuja Pura"); de nobreza cívica:"Preta sã, ela é filha de lansã/
beleza da existên~ia "111antém sempre teso o árco da Ela é muito cidadã/ Ela tem trabalho e tem carnaval"
promessa" ("A Tua Presença Morena"). · ("Neide Candolina"); de vaidade e relaxamento:"Na
Essa pulsão extrovertida, solar, em Caetano ilumi- maré da utopia banhar todo dia/ A beleza do corpo
na a "banda" exposta de uma esfera que ta1nbén1 possui, convém" ("Love Love Love"); e de alegria e esponta-
' con1o vimos, um outro lado: o da reflexão existencial,
neidade: "ó certo é ser gente linda e dançar, dançar,
da formulação do inundo como totalidade inapreensível, dançar" ("Two Naira Fifty Kobo").
da solidão, dos medos e das angústias - a "face oculta
O ícone maior dessa fase é "Odara", uma verda-
azul do araçá:'. Contudo, não representa simplesn1ente deira ode à entrega corporal plena ao poder envolvente
o complemento har~ônico dessa face oculta, mas fun- ·da música: "Deixa eu càntar/ Pro meu corpo ficar
ciona, e1n grande medida, como um amuleto contra· os Odara/ Minha cara/ Minha cuca ficar Odara/ Deixa
seus abismos insolúveis: o 1nedo da morte individual
eu dançar/ Que é pro mundo ficar Odara/ Pra ficar
(" Araçá Azul fica sendo/ O nome mais belo do medo/ tudo jóia rara/ Qualquer coisa que se sonhara/ Canto
Com fé em Deus/ Eu não vou morrer tão c_edo", em e danço que dará". Tomada de uma língua africana
"Araçá Blue") e da morte coletiva ("Todo fim de ano é
como designação de algo bonito, bacana, essa palavra
fim de mundo, e todo fim de mundo é tudo que já está passou a encarnar, através da canção, a acirrada polari-
no ar", en1 "Flor do Cerrado"),literalmente"desativando
zação entre 1nilitância política e liberdade art~stica, que
94 Cacta110 Veloso Th111s,1 QuafqufrCoisaJâfo, l3idw.ivluiro Ci11cm,1 Trausand,,11r,1! 95

continuava imperando Í-10.meio da crítica n1usical desde que 111arca mna virada na sua carreira em direcào J
a época dos festivais. "Odara'", para a üpinião vinda música afro e· à consciência cultural e política ne- d;
dos grupos intelectuais de esquerda e/ou de setores gritude no Brasil e J)O mundo. Não· por acaso, estão
menos seduzidos pelo ritn10 quente das discotecas, tor- entre às discos nlais maltratados pela crítica em toda a
nou-_se o símbolo .de un1a "antiteoria" alienada, para- ~a_rr.ei~-a dos dois artistas, prolongando uma antipatia
digma tje um desbunde acintosamente inaceitável en1 m1c1ada um ano·antes e111 Doces Bárbaros, e que se esten-
tempos sombrjos.. · deria en1 clinia de guerra até o ano seguinte.(no caso
Partindo de uma visão superficial e idealizada do ~e Caeta_no),no slzo1lldo disco .i111dto, em que o compo-
tropicalismo, os termos correntes da crítica faziàn1 crer sitor _fazia longos e inflan1ados discursos 611 resposta
. que tanto Caetano, com Biçho, quanto Gil, com Rdávela, e/ou provocação a seus críticos detratores. .
tinham abandonado a posição de vanguarda "para se . · Contemporâneo ao surgimento dos prin1eiros
dedicar à curtição da sua própria beleza"•.')~ Quando, na grandes bailes f1111k no R..io, o Bicho .Bm'fe Shou, era um
verdade,o que esses críticos estavan1 fazendo era reed~tar ttspetácul~ dançante, en1 que se transfor;11ava a-platéia
a n1esma polarizaçàb dos tempos dos festivais, adotando dos teatros em pi.Sta, retirando-se as cadeiras. Caet.:uio
uma posição gue o tropicalisn10 julgara já ter exorciza- subia ao palco vestindo um macacão de cetim cor-de-
do. Mais un1a vez, parecia estranho o fato de Caetano e rosa - e às vezes, também, um bustiê, e cmn os Jábi~s
Gil, em vez de fazeren1 oposição abertà ao regime nü- pintados de batom -, e dividia a aprese,ntaçào com a
1itar, voltarem suas armas contra a crítica, acusando o Banda Black Rio, cujo son1 combinava o samba-jazz
renitente provincianismo da classe n1édia brasileira, que, carioca a outros ritmos, como o black so11I e o fi111k.
· em nome de uma coerência ideológica, só fazia refor- Essa adesão ao mundo das discotecas, d~ "{renetic
çar a repressão comportamental vigente. Contra a "pa- Dancin' Days", vinculando a expressão f:ie um· fenô_:.
:;1 trulha ideológica" das esquerdas, na in1prensa, surgiran1 me1:o de massas à Vitalidade da cultura negra, não é
exaltadas reações en1 defesa ao "grupo baiano", apeli- novidade nas carreiras de Caetano e GiL Na verdàde,
dadas, então, de "patrulha odara"_'H é o elo fundan1ental gue está na base do interesse de
'Í,1 · Esses dois discos·, lançados em 1977, foram feitos an1bos pe16 carnaval de rua da Bahia - dos trios elé-
',j após mua in1portante excursão dos dois artistas à tricos e dos blocos de Afoxé (como os Filhos .de
Nigéria, e sua ramada de contat? con1 o balanço da Gandhi), e depois de Axé -, e pelo neo-rock'n'ro/l in-
j1,-j11 nmsic- que Caetano incorporou e1n "Two. Naira glês, cuja fonte inspiradorá fundamental está no blues
Fifty Kobo", e Gil na sonori_dade geral de Refcwela; americano de Bes.Sie Smith a Black Panthers'J-1 (tema
tratado em "Chuck Berry Fields Forever", de Gil,gra-
vado ezn Doces Bárbaros).
·i: Silvio Lmn:llotti,'·Urn Exercício d,: Tolicl' t' NarL~sisn10 ·•. r.;,_~11c. agosto de ! 977.

"''Ver Lt1iz Cario~ M.1cid,"A !)oce Invasão", Ele & Ela. uovembm de !977; Glaubcr
Rocha:'l3aianices·•. l.<1t1 É, ?.711 / 1977: Gardênia Garcia, "Caetario, llravo. Convida o
Povo a Danpr". 1.<1,, É, 271711<)77; e "C.10;:tano De1abafo: Sou da Patrulha qdara. E
1J,ií?". t'lltrt'Vl5ta a Rt'ynivaldu de l.lrito. A 1i1rdc, 2/J/ 1979. .,, CC"BonÜinho .. ( 1'J72). em .·l/,;~ri,1,. ~l(~n;1, op. rit
Assim, há un1 sentido de violência prinütiva, de
possessão mágica ·e conmIJhão tribal, que atravessa tanto
a experiência do carnaval quanto um show dos Rolling
Stones, fazendo desses acontecimentos os teatros dio-
nisíacos da vida moderna. Tal aproximação está indicada
na marcha-frevo "Deixa Sangrar", que Caetano fez
5. LANÇAR MUNDOS
para o carnaval, con10 c01nentário a mnJ canção dos NO MUNDO
Rolling Stonei ("Let It Bleed", ela própria uma piada
sobre "Let lt Be", dos Beatles). Canção qu'e, de resto,
se insere na longa tradição de marchas que Caetano
compôs ano a ano, de fornia militante, para o carnaval·
de rua da Bahia, de 1968-69 ·("Atrás do Trio Elétri-
co") a 1980-81 ("Massa Real'' e "Annandinho").

'
"
La11ç11r iWi111dos 110 !).1u11d11 99

pressionante força empática de sua obra vai muito alén1


da capacidade de estabelecer essas pontes. Ela está, antes,
na habilidade de construir unidades novas e podero"
san1ente orgânicas a partir desses estímulos, con1 unia
fluência poucas vezes vista na MPB. Há, em suas can-
çõe~, uma inteligência son1ada a· uma intuição, que
aqm poden1os resum.ir en1 unia palavra: an1bição. Unia
àmbição espontânea, espacial, gu.iada por un1a voca.-
ção totalizante que "quis ser" canção, e pôde (e soube)
apresentar-se com a simplicidade de um "ato 1nero".
Caetano sabe dosar como poucos os graus de in-
forn1ação e redundância nas mensagens que veicula. No
plano das letras que compõe, como observou Luiz Tatit,
a singularidade costuma ton1ar o viés da "iconização",
procedimento que, em oposição à descricão narrativa
tende a c"onstruir imagens através de 111eciforas·sensiti~
"estilo" cancional de Caetario é não ter vas.% Conio exen1plo, poden1-se destàcar aqui canções
estilo definido, e poder transitar por como "O Ciú111e" ("Só vigia um ponto negro: o meu
~diccões diversas estabelecendÜ a sua ciúme"), "O Homem Velho" ("A solidão agora é sólida,
esp~cificidade na n1ultiplicidade, como uma pedra ao sol") e "Jenipapo Absoluto" ("Como será
que a transformar o sincretismo experimental tro- que isso era, este som/ Que hoje sim, gera sóis, dói en1
picaJista em marca pessoal, ao con1por canções de dós?"). No entanto, toda a dificuldade con1Llnicativa que
grande difusão. Há, portanto, traços inconfundi- -!
'I poderia reter o ouvinte na pouca transparência dos ícones
i'. - velmente singulares no seu mo.do de articular mú- é tensionada e revertida pela determinação tensiva das
1 sica e letra, que vão desenhando, ao longo do tem- sua5 melodias, que quase sempre veiculam conteúdos
i-j po, possibilidades imprevistas de encontro entre a passionais diretos e intensamente emotivos.
sofisticada depuração bossa-novista e a agilidade Mas .isso não qu'er dizer que a marca· autoral da
pregnante das baladas oriundas do rock (de Beatles invenção, nas s~as canções, apareça mais nas letras do que
a Roberto Carlos). nas ·músicas. Nestas, elas surgeni, muitas vezes, em ines-.
Mas não é só ·isso. Também é possível falar em perados des1ocan1entos dentro de uma estrutura•s.in1ples.
unu predisposição à verve excessiva, inestancável (da
prosódia barroca baiana), afiada pela incorporação cria-
tiva da imperfeição e do inacaban1ento (do rock, de
,,_; Cf. Francisco Uosco, "C.tet~ll0 Velo.10 -~pontarilt'ntos a l'.1s.1eio ·•, e111 Ti:rcârn Jlar·
Bob Dylan), e temperada, mais mna vez, pela ·econo- gtrn (Rio de Janeiro; 7 Letras/UFRJ, 2004).
mia minimalista da bossa nova.'':; No entanto, a im- w. Cf. O Canâ,>rús/4, op. cit .. P· 2.Ci6-73.
100 Caetano Veloso

É o que acontece, ritmicamente, en1 muitos casos já co- São muitos os casos em que Caetano faz, de n1od~
mentados, mas ta_mbém na conl.binação entre a simplici- sen1elhante, unJa abertura lun1inosa brotar i_nespe..!.
dade melódica mais básica e uma divisão irregular dos radan1ente no interior de uma alteração harnJÔnica,
compassos, como em ''Cá Já", em que os acentos regula- como, pór exemplo, em "Coração Vagabundo"(" ... Que
res, na n1étrica de 5/4, não coincidén con1 a acentuação passou por meu sonho sem dizer adeus/ E fez dos olhos
tônica das palavras, dando continuidade fluida e circular meus.um chorar mais sen1 fin1"), "A Tua Presença Mo-
a uma melodia que poderia soar linear e esquen1ática, rena" (A tua presença/ Mantén1 se1npre teso o arco da
porque feita de seqüências simples de graus conjuntos, e promessa) e "Odara" ("Deixa eu_ cantar/ Que é pro
acompanhada de acordes que sobem em paralelo. · mundo ficarOdara"). Momentos poético-melódicos que
Os deslocamentos são, também, n1_uitas veies me- parecen1 realizar concretan1ente no ar- no espaço ocu-
lódicos, como na própria "Cá Já", e e1n "Uns", em que pado pelo _son1 - aquilo que é atribuído ao verso e111
toda a seqüência natural de descida, en1 movimentos '~Livros": o poder de "lançar ·mundos no mundo"·.
repetidos na escala de dó maior, é tle repente tensionada Esses ele1nentos-surpresa recorrentes são muitas
por Um salto abrupt0 para fora da estrutura: "Vejo que vezes o aspecto mais visível de un1;,i. pern1anente osci-
areia línda/ Brilhando cada grão", "Uns dizem siin/ Uns lação ent':."e c;:imp9s harmônicos aparentemente incon1-
dizem fim/ E não há out[9s". Saltos que, ao desponta- patíveis. E o que ocorre, tan1bém, em "Você é Linda",
' rem como exceções repentinas, revela1n, sinrnltanea- no deslizamento em senütons que ameaça fazer a can-
mente, a graça da sin1plicidade e da repetição. çã0 derivar para uma outra região harmônica entre os
Já em "Luz do Sol", esse efeito surpresa surge, de versos "Kabuki máscara" e "Cho9,ue entre o azul" .98
modo menos-evidente, na harmonia, no acorde de si com No fundo, trata-se, de fato, de um equacionamento
sétima maior que incide na palavra "folha" (" Em verde intuitivo, original .e "errático" entre as transições
novo/ Em folha ... "), e cuja nota fundamental (si natural) nuançadas e macias da bossa nova, cheias de notas al-
desloca em meio-totn o campo harmônico da canção (mi teradas e acordes de passage1n, e os saltos duros e evi-
bemol). Por isso mesrno,esse· acorde surge co1n a amplidão dentes das baladas pop.
de um raio de luz que se abre no int~rior da canção. Em A relação de Caetano con1 a música é significati-
seguida, no desenrolar da fraie, que corresponde à exten- vamente distinta da que Gilberto Gil e Chico Buarque
são completa do processo de fotossíntese, a canção desliza estabelecem. Pois,se o prüneiro toma a música ("musa
novamente para o seu campo harmônico original até re- única") con10 esposa, mãe dos se'us filhos, porto segu-
pousar em "luz", consumando ·a transmutação vital: "Em ro que lhe faz navegar .("Ela"), e o segundo usa o do-
folha, em graça, em vida, em força, em luz'' .97
j
.)
'
'" O jogo ,1qui se dá entre o> campos de lá maior!_/} ~ustenido menor (e.,plorando a
•oAo longo d,•ssa pa.1,agcp1, dá-~e um fenômeno siugubr chan1ado enarmonia. em not:i, 11e\~t" conte.,to, "bos.1:i-novi.1ta" de 10] .1u,tcnido) e n: maior (em que o sol~
que uma mesma nota troca do: Ítlnçào harmônica ao longo do: tuna c:1dJncia - no nattiral), que surge .1urpree11dentemente, deslizando meio-tom acima dê um acorde
aso, de mi bemol para ré sU\tenido, e novarnentt" para mi bemol. de dó smtenido menor (tene1ru grall de lá/ domin,mte menor de 1'1 .1t1~tenido).

.,
'
101 Caetano Veloso
LançarMundos110Mutulo 103

rnínio sedutor da poesia ("Saiba que os poetas como nhos do mundo:" Meninos, ondas·, becos, mãe/ E,
os cegos podem ver na escuridão") para dobrá-la às só porque não estás/ És para mim e nada mais/ Na
suas vontades ("Choro Bandido", com Edu Lobo), 99 poca das manhãs/ Sou triste, quase um bicho tris-
Caetano 'parece enredar-se na teia de su~s tramas te/ E brilhas mesmo assim/ Eu canto, grito, cor.ro,
labirínticas:"Nessa melodia em que me perco/ Quem rio/ E nunca chego a ti" ("Mãe").
sabe, talvez um dia/ Ainda te encontre, minha musa/ São muitas as canções em que Caetano cons-
Confusa[ ... ]/ Nesse descaminho, meu caminho/ Te trói essa relação umbilical com a música, como o
percorre a ausência/ Corpo, alma, tudo, nada, musa/ "sinal" de algo que passa pela voz sem o filtro da
Difusa" ("Errática"). · consciência, e portanto longe do controle mais di-
"Bússola" e "desorientação'?, a música/voz.para reto. Mas a sua síntese maior está em "Motriz''., fei-
Caetano, é uma "luz escondid~" ("Minha Voz, Mi- ta para B~thânia, em que a voz da irmã, e a sua, se
nha Vida"), encontrada menos na cump)icidade co- tecem na voz da mãe, na imagern de uma gênese
tidiana entre "samba e amor" do que no silêncio da que.se cumpre na travessia, de trem, de Santo An1aro
men1ória, nunu região recôndita da sensibilidade a Salvador: "Embaixo, a terra; e1n cima, ·o macho
que o canto vem resgatar e revelar: "O. silêncio é céu/ E, entre os dois, a idéia de mn sinal/ Traçado
tê-la/ A voz dessa luz sem fim; sem fim" ("Que em luz/ E111 tudo, a voz de minha mãe .. ./ E a n1i-
Não Se Vê"). 100 Assim, para ele, a música não apa- nha voz na dela .. ./ E a tarde dói .. ./ Que tarde que
rece figurada nem como esposa nem como ama1:_te, atravessa o corredor!/ Que pazl/ Que luz que faz!/
mas como mãe: "Tudo são trechos que escuto: vem Que voz .... que dor. ..-; Que doce amargo cada vez
dela/ Pois minha mãe é minha voz" ("Jenipapo Ab- que o vento traz/ A nossa voz que chama/Verde do
soluto"): 101 Impulso original e longínquo,que lite- canavial/ Canavial.../ E nós, mãe: Candeias, Mo-
ralmente lhe dá a luz, mas o deixa órfão nos cami- triz!// Aquilo que eu não fiz e tanto quis/ É tudo
que eu Ilão sei 1nas a voz diz/ E que n1e faz, e traz,
capaz de ser feliz/ Pelo céH, pela terra/ E a tarde
igual/ Pelo sinal/ Pelo sinal/ E a Penha - Matriz!/
'" Rdaçâo semdhantc aparect.' em "De Volta Ao Samba":"Pcnsou que eu não vinha
mais, pensou/ Cansou de esperar por mim/ Acenda o refletor/ Apure o tamborim/
Motriz .. ./ Motriz ..."w2
Aqui é o meu ]uga.r/ Eu vim[ ... ]/ Eu sei que fui um impostor/ Hipócrita,que~ndo
renegar seu amor/ Porém tlle deixa ao menos .1er/ Pela última vez o seu compositor/
Quem vibrou nas minhas mãos/ N.ão yai me largar assim".
,,., Cf. David Ca!deroni,"O Silêncio à Luz de Caetano Veloso", em Giovanna Bartucci
(org.), Psicrmálise,Arte e Estéticas rle Subjetivação (Rio de Janeiro: lmago,2002).
"" De forma complementar, a esposa também aparece figurada como mãe:"Quem vê
assim pensa que você é muito minha filha/ Mas m verdade você é bem mais núnha 1

Motriz ê o nome do trem movido a óleo diesel qut.' ligava Santo Amaro e outr.i";.
"~

mãe" ("Minha Mulher"). Sendo que a sensibilidade musical é, também, associada à


cidades-do Recôntavo à capita! baiana, em substituição à antiga "maria-fün1aça".
irmã mais velha:"Se algum dia eu conseguir can~1r bonito/ Muito terá sido por causa
Essa canção, gravada por Maria Bethânia em Ciclo (1983), parece ecoar a" Evocação
de você,Nicinha/ A vida tenl uma dívida com a música perdida/ No silêncio dos seus
do Recife", de Manuel Bandeira, na pontuação reticente da memória, t.' no lastro
dedos/ E no canto dos meus.medos/ No entanto você é a alegria da vida" ("Nicinha").
recorrente de algu!llas imagens ('Capiberibe/ ...'. Capibaribe") ~ modo de refrão.
104 Caetano Veloso Lançar Mundos no Mtmdo 105

ENIGMÁTICA MÁSCARA BOI possibilitando-lhe a compreensão precoce de que "a


queda é uma conquista" ("Santa Clara, Padroeira da
Não será exagerado dizer .que Caetano é o con1po- Televisão"), tão importante na revolução empreen-
sitor brasileiro que mais fez canções en1 homenagem dida pelo tropicalismo. .
explícita a cidades: Londres ("London, London"), Caetano viveu desde cedo o impacto do
Nova York ("Manhatã"), São Paulo ("Sampa"), cosmopolitismo d;ts grandes metrópoles como cho-
Brasília,("Flor do Cerrado"),R.io de Janeiro ("Pai- que de desprovincianizaçãó e perda da inocência. Pois,
sagem Util", "O Nome da Cidade"), Sal;ador ("Be- num p~ís de migrantes como o Bra5il," o chegar sem-
leza Pura"), Aracaju ("Aracaju") e Santo Àmaro pre a outra cidade adversa e desejada constitui~se num
("Trilhos Urbanos", "Purificar o Subaé"), além das rito de passagen1" que, para a sua origem social, regio-
que s~brevoam n1uitas delas, como "Vaca Profana" nal e etária, "n1ultiplica-se numa verdadeira série de.
e ''Tapete Mágico", e outras, ainda, que tratam do cidades-limiares", que uma vez transpostas deixam
problema filosófico da sua existência ritual con10 p_ar~ -trás outra cidade "amada" e "velha", e "vão pro-
"Aboio" e "Cantiga de Boi" . 103 '
duzindo uma visão nova do país e do n1undo". 111 (, A
Natural de Santo An1aro da Purificação, no re- partir daí· será cad~ vez mais· difidl associar aquele
côncavo baiano, Caetano pertence a uma família -de "vulto feliz de mulher", do seu cancioneiro inicial, a
classe média n1odesta - seu pai 'era agente postal te- um "sonho feliz de cidade" - ambos afastados e per-
legráfico-, e cresceu em uma casa que abrigava, além didos. para esse "coração vagabundo" de poeta-músi-
dos oito filhos do casal (seis naturais e duas filhas de co que, quer abraçar o mupdo em si quando já está
lançado à errância. ,
criação); três tias, oito primas e um prin10 (todos n1ais
velhos, coffi idades próxin1as à de seus pais). 104 Esse Por outro lado, Santo Amaro, àquela altura
universo familiar feminino e amoroso, próprio da cul- (anos. 50), era uma cidade que, apesar de pequena e ~'

tura do _recôncavo - e arquetípico do Nordeste bra- 1ntenoran_a, não estava apartada do que se passava no
sileiro-, é fundamental na definição de sua pe'rsona- mundo.Ao contrário, era um local cujos cinemas exi-
lidade. Sendo, também, o dado biográfico que biam uma infinidade de filmes hoje restritos ã cir-
impulsiona, por contraponto, a necessidade de de- cuitos cult das grandes metrópoles (italianos, france-
sarraigar-Se do núcleo urbanístico-afetivo original, 105

u,; "Essas cidades br.:is1leir:t1, de colonizaçào portuguesa, ao contrário d.1s cidadt"S norte-
americanas, por exemplo, são muito fochadas, E Santo Amaro é bem típica: você sei1te a
dt"m~rcaç~o nítida do_pt'rimetro urbano,st"nte qtlt' msceu dentro daquilo, e tudo que t'Stá
1"·'
':Amo a palavra C/IJADE. Aino cidades. Me sitlto um ser urbano:' Caetano Veloso, fora e muito longe psicologicamt'nte. O que não é urbano está fora, é um outro mundo.""
Sobre as ·U'tras, op. cit., p. 18. Caetano Vdoso, dt"poimento em Mapas Urba1105 (direção: Danid Augusto, J998).
"" "Todas.junto com dona Canô, seu Zeca e a tiaju - minhaju - paparicavam as ic~, Guilherme Wimik,José Miguel Wisnik e Vadim Nikitin, "Pólis Cósmica t' Caôti-
crianças, qut' obt"deciam a_ todos dt" qut"nl rect"bia111 cuidados t' muito carinho." Mabd ca - Cosmopolitismo em Caetano Veloso", Caramelo 7 (São Paulo; Faullsp, 1994), p.
Vdloso, Caetano Vcloso (São Paulo: Modt'rna, 2002), p. 8. 79. Esse texto é base para uma sérit" de considt"r.1.ções feitas aqui.

l
io6 Caa1mo Veloso Lançar Mundos 110 M1mdo 1(1/

ses, mexicanos e americanos), 11 )7 e onde se podia ou- na, para Caetano, não representa apenas mna imobili-
vir, em um bar de esquina, o disco Chega de Sa11dadc dade Conservadora a ser ron1pida, mas ta111bén1 unia
(1959), de João Gilberto, que acabara de ser lançado. matriz renovadora, e.m que a concavidade do recôncavo
Santo Amaro ten1, portanto, para a imaginaçãQ senti- se transn1uta na extroversão do "Reconvexo".
mental de Caetand, a grandeza da "aldeia" natal do Particulannente, no. seu caso, duas vivências
poeta Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pes- fi.mdantes marcaran1 ess'a experiência de desgarramento
soa), cuja auto-suficiência mítica foi- cantada preco- prin1ordial: a temporada de un1 ano no Rio de Janeiro,
cemente e~1 ''Onde Eu Nasci Passa Um Rio", e entre os 13 e 14 anos de idade, ten1atizada em "Meu
longamente ·reelaborada, con10 1nen1ót'ia musical, en1 R.io", e a mudança para Salvador~ a grande "metrópo-
discos mais recentes: Fi11a Estampa (1994), Fi11a Es- le" de sua vida-, com 17 anos, contada em "No Dia E111_
ta111pa Ao Vivo (1995), Onmi.gio à Federiw e Gi11/ietta Que Eu Vim-Me Embora" (com Gil) e "Adeus, Meu
(! 999) e A Foreign So1111d (2004). Santo .Atnafo". Na prime!ra, "se.111 pai nem mãe", ele
Nessa "volta ao nmndo" através de canções en1 viveu p0r um te1npo longo na Zona Norte da então
língua estrangeira, Caetano está, mais do que nunca, de capital do país (no bairro de Guadalupe), aberto ao im-
volta ao universo íntin10 da sua infància. 1rn> -O que de- pacto das ameaças e pron1essas daquele carnaval urbano
monstra que todo o seu cosn10politismo vanguardista sen1 Paragens ("Rapazes maus, n10ças nuas/ O teu car- •
se alimentou da dialética entre a necessidade de forçar naval/ É u1-i1 vapor luzidio").Já,então,decisivamente atra-
uma saída intelectual da província, e a de provar que o vessado pela "cidade maravilhosa" (dos auditórios .da
olhar sobre o n1undo pode ser construído a partir do Rádio Nacional, em uril mon1ento ainda pré-bóssa nova),
vínculo sentimental con1 a mesma: "Bonde da Trilhos ele, no entanto, a contempla con1 un1 certo recuo ("do
Urbanos/ Vão passando os anos/ E eu !}ão te perdi/ outro lado da baía"),tendo a visão virginal de un1 nmn-
Meu trabalho é.te traduzir". Isto é:a origem provincia- do que iria, mais adiante, ganhar outra dünensão:"Tudo
no n1eu coração/ ESperava o bon1 do son1: João/ Tom
Jobim/ Traçou por fim/ Por sobre mim/ Teu monte-
céu/ Teu próprio deus/ Cidade" ("Meu R.io").
C.iet.nm contJ qut', certa vez. ao surpreender um açougueiro da cidade - um Mas' o impacto de tranSforn1ação mais decisivo
mulato at,1rrnc;1do e it-,'llornnte chamado seuAgnelo Rato Cros.w -.chorJndo à ,aíd;1
em sua trajetória biográfico-cancional está na n1udança
de / Vi1dfo11i, dt> Fdlini. este justificou-se dizendo: "Esse filme (: ,a vid:i dJ geiue!".
1ád<1,fr ·n-c,piml, op. cit .. p:31-32.
de Santo Amaro para Salvador, na despedida da famí-
'"' fiiM Er,mip<1, por exemplo. resultou de ttl11J decisão de C.ieuno de aceitar J lia (" Minha avó já quase morta/ Minha mãe até a
solicitação da gravadora de fazer um disco pa~ o mercado btino-a111encano, mas, ao
porta/ Minha irmã até a rua/ E até o porto meu pai"),
1e,1110 tt>mpo. inwrtt>11do a eucomenda: em vez de t~dnzir suas canÇÕt's p:ira o
I! 11
c;1stdhano, fazt'r uma leitura pes.,oal do repertório que lhe t'r.l (Jro aletivanw11te. No e no encontro c01n o vazio de seus propósitos· ("E
LI
i'i ct,o do ,i,n11 ; ell1 hom_enagcm a Fdhni e Giulietta Masina, de diz o seguinte: "erJ quando eu me vÍ sozinho/Vi que não entendia nada/
: preoso põr tudo na perspectiva de min~_a meninice em Santo Amaro, onde ett vi os
Nem de por que eu ia indo/ Nem dos sonhos que eu
tilme, de Fdlintpeb primeib vez e de onde me vem esse sentiinrnto de recuperação
metafisica do tempo perdido que i": semelhantt' ao 1entimemo que percebo ;1t's,es sonhava"'), nmna atitude de desprendimento_ neutro
tihnes'' (encarte·do ~i~co Ü//1<\1;'.l(Í<' a frdcriw e Gi1diC11<1). ("Afora isso ia indo, atravessando, seguindo/ Nen1

i'!,
(i
\
108 Cartauo VdMo Lanf«r Mimdos 110 M1111do io9

chorando, nem sorrindo/ Sozinho pra capital"). Des-. palmeira! de cimento"), e a luz néon e fluorescente dos
prendimento que só não é já o "nada no bolso ou nas logotipos, como a "lua oval da E~so", que "con1ove e
mãos" de "Alegria, Alegria" porque carrega o sinal ilumina o beijo/ Dos pobres tristes felizes/ Coracões
sacrificial do mundo agrário, o canto do bode de uma amantes do nosso B~·asil" .Ali, a aurora "sempre nas~en-
era que termina: a "nula de couro" que ''embora <;s- do ", do urbanismo n10derno de arquitetos e paisagistas
tando forrada/ Fedia,cheirava mal" ("No Dia Em Que como Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx,
Eu Vim~Me Embora"). expressa penet:antemente_toda a abstração impessoal e
Essas são as experiências seminais que prepara111 auto-afirmativa da vanguarda - aquilo mesmo que pa-
novos encontros, agora já no contexto do olhar de un1 recia faltar na "dura poesia co!1creta" das esquinas de
artista que tensiona sua visão de nmndo a partir desses São Paulo ("Sampa"), embora sobrasse nos seus diver-
embates formadores. Há, nesse caso, p,elo menos três sos artistas. 1111
exemplos importantes: o reencontro con1 o Rio ("ter- Assin1, se por úm lado a sua trajetória não·deixa
reiro" em que Chacrinha dava as ordens,já no limiar do de trazer as marcas mais profundas da experiên.cia bra-
tropicalisrno), o desencontro produtivo com São Paulo sileira, e111 que as migrações (sin1bólicas e concreta~)
("o avesso do avesso do avesso do avesso") e a identifica- entre o pré-moderno, o moderno e o pós-n1oderno
ção liberadora com Nova York, cidade que o·desinibiu fazen1 parte da história de gerações, ela abre-se, por
para o contato com os estrangeiros, e sobre a qu;il veio a outro - a partir do batismo nessas grandes n1etrópoles -,
dizer o seguinte:"a monumentalidade aliada à sen1-ceri- ao sentimento radical de un1a pólis cósmica plural,
mônia produzen1 naturalidade ern face do tempo e da condensada tanto em "pontos de luz vibrando na noi-
minha capacidade de fazer marcas no ten1po" . 111') te preta" ("Tapete Mágico") quanto nas "ramblas do
"Paisagem Útil" (1967), a primeira canção tropi- planeta" ("Vaca Profana"). Na verdade, depois de vis-
calista, significativamente focaliza o espaço urbano (con1 tas de fora, como a "Terra", as cidades passan1 a ser
"olhos abertos em vento") em contraposição paródiça objeto de uma reflexão essencializada em algunias de
à auto-suficiência introspectiva de "Inútil Paisagen1" suas canções. Quer dizer, é. o próprio "ser" da cidade -
(Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), que recusa atribuir con10 n1ito e construção histórica - que aparece
sentido às coisas do n1undo. Inaugurando eni' si a dis- rematizado, em contraposição -à recorrente imagem
posição de lançar o lirismo ao universo desencalltado do boi: signo sagrado_ daquilo que precisou ser sacrifi-
da mercadoria, Caetano, nessa canção, incorpora poeti- cado para que ela pudesse existir (nesse sentido, o si-
camente o shnbolo nnior do esforço hun12rio de trans- 1nétrico inverso da "vaca profana").
formaçàô "útil" da natureza: a praia artificial do Aterr6 ·
do Flamengo, formada pelo desmonte de morros ("Frio
11
' Como Rita Lce.At1gt_1>to e HarolJo de Campo, ("Eu Vtjo _surgir teus poc1a.1 de
campo1 t' c1p.1ço1"), o Tc-,aro Oticin,1 ('Tu.11 oficim, de- flore;ra~, tt·us dc•uw, d.1
chuv.1") e Jos<: Agrippino do; PauLi ("P.m-Amfric.1s de África.< utópica,"), homo;na-
,..i [·l·rdadc "lh>pi,-,d. op. cit., p. 505. gcados t.'lll '"S-.impa".

\
110 Caetano Veloso Lançar Mundos 11a Mundo 111

"Aboio" (19.93) e "Cantiga de Boi" (2000) são dios e europeus, em que o selvagem oferece o fruto
canções irmãs. A primeira é quase uma oração, um da terra (um caju) ao estrangeiro, "num gesto de níti-
pedido de que a grande cidade se pe·nse, inverta por da benevolência e disposição à troca"., 111 e, aqui tam-·
um instante seu movin1ento expansivo e devorador e, bém, uma cena atual, em que uma "menina muitÓ
por uma súplica, se renda e olhe o que está à sua volta, contente toca a coca-cola na boca". Nesse caso, o nome
o outro ("Enigmática máscara boi"), sendo capaz de que designa o lugar, e que se tornou um símbolo do
transformar, antropofagicamente, o tabu em totem (o Brasil, e do cosmopolitismo do Rio de Janeiro, é ori-
sacrifício em alegria): Na segunda - uma corriplexi- ginário dos índios dá Bolívia, passando pelo filtro do
ficação da primeira -, a cidade é lida na refração de cristianismo - a Virgem de Copacabana, uma das san-
tempos disparada pelo brilho do CD colado à testa de tas mais importantes da América espanhola. E a coca-
um boi - possivelmente um bun1ba-meu-boi -, que cola, tomada com amor pela menina, mostra-se como
será.sacrificado na festa.Aqui, aquela "enigmática nlás- um preSente da civilizaçãó aos nativos, numa recons-
cara" não est_á mais fora,-mas dentro da cidade, e111 suas . trução poética da colonização que quer voluntaria-
vísceras, fazendo dela (" o que eternamente nasce") a. mente celebrar suas conquistas na imagem de uma
representaçãà de um" desafio ao destino". América mestiça e potente: o braço levantado com 0
Tal conclusão é fundamental, e não se restringe a caju e a tocha na mão, a maçã que se morde e a coca-
essas duas canções densas.A cidade, na obra de Caetano, cola que se bebe, nun1 "momento de purq amor".
é a materialização da emancipação humana, do desejo
de intercâmbio criativo, da miscigenação.Aí está a gra-
ça de se pronunciar o nome da ilha ~ Manhattan - PL.UMAS DE UM VELHO COCAR
centro do império mundial anglo-saxão do século 20 -
como se fosse uma palavra tupi: "Manhatã" ("o nome C_omo foi dito anteriormente, em meados dos anos 80 ·
doce da cunhã"). Por isso, nessa canção, a cidade de dá-se uma importante guinada na obra de Caetano em
Nova York se mostra em corte sincrônico: a chegada direção a uma nova focalização temática do Brasil -
dos imigrantes à ilha, que tinham que ser lavados aos tanto como afirmação de um pbtencial singular-cons-
pés da Estátua da Liberdade ("Deusa da lenda na proa trutivo contido na sua riqueza cultural quanto como
levanta urna tocha na mão"), e uma cena contemporâ- acusação da miséria de sua realidade social urbana. Há,
nea, na imagem de uma "menina bonita mordendo a portanto, um retensfonamehto da rel~ção de suas can-
polpa da ma,ã" - que sintetiza o pecado construtivo da ções com o país,.na forma de uma recllperação daquela
civilização em ato antropofagico, já que Nova York é glosa-paródia da "geléia geral brasileira" que fora, de
conhecida como the Big Apple (a grande maçã). certa forma, sublimada durante os anos 70.
Tal construção, não por acaso, é 111-uito semelhante
à de uma canção bem anterior ("Jóia", 1975), que
descreve dois momentos equivalentes na praia de 111
Stt:lio Marras, "Caetano Veloso Pensador do Brasil", Sexta Feira 2 (São Paulo:
Copacabana: o instante inaugural do contato entre Ín- Plecora, 1998),p.47. . -

•'1
,)
112 Caetano Veloso Lançar Mundos no Mim do 113

Essa guinada, em que Caetano mais uma vez zil anos?". O que ·demonstra, como notou LuizTatit,
reinventa a sua obra, coincide co~ pelo menos duas · que a volta a esse tema parece dever-se n1enos.a uni
circunstâncias históricas importantes, sendo urna par- desejo voluntário do compositor do que a uma obri-
ticular e outra geral. A primeira é a dissolução d' A gação de éircunstància, numa canção que "consegue
Outra Banda da Terra, e o término-de uma simbiose a p,oeza de falar com extrema atualidade de sua pró-
criativa que ficou indissociavelmente associada ao cli- pria obsolescência". 11•
ma utópico da década que passava. Mudança que se Quer dizer, no limiar da abertura política do país,
desdobrou na formação da Banda Nova 112 - com uma Caetano está sítuado no pólo oposto do sentimentalis-
sonoridade mais roqueira-, e coincidiu com à subs- mo ufanista de "Coração de Estudante" (Milton Nasci-
tituição do experin1entalisn10 artesanal iniciado em mento e Wagner Tiso), que marcou a eleição (indireta)
Transa e Araçá Azul pela formatação maís "profissio- de Tancredo Neves e a ·comoção nacional com a sua
nal"·da sonoridade dos seus trabalhos, através da parce- morte inesperada. Mas está, também, distante da exaltação
ria com produtores-arranjadores. 113 A segunda apoteótica - embora irônica - de "Vai Passar" (Chico
circunstância é mais geral: a campanha por eleições Buarque), igualmente emblemática desse período. Pois
diretas marcando a ·_abertura política do país depois enquanto Chico, ligado aos anseios de transforn1ação
de 20 anos de ditadura militar. social representados pela emergência histórica do Parti-
"Podres Poderes", a canção que abre o disco . do dos Trabalhadores, se engajava positivamente no ideal
Velô (1984), é um exaltado pronunciamento contra de libertação ali representado, Caetano desconfiava da
as "trevas" seguidamente. perpetradas pela sociedade imaturidade política do país, preferindo enxergar o futu-
brasileira na forma de "gestos naturais" ("morrer e ro democrático corno mn ~quacionamento de extremos:
tnatar de fome", avançar"sinais vern1elhos", recorrer "Quando é que em vez de rico/ Ou polícia ou mendigo
a "ridí"culos tiranos" etc). Seu discurso retoma, en1 ou pivete/ Serei cidadão/ E quem vai equacionar as pres-
to1n de desabafo .in1paciente, a pergunta já_ formula- sões/ Do PT, da UDR/ E fazer dessa vergonha/ Uma
da anteriormente em "O Que Será": "Ser:á, será que nação?" ("Vamo Comer", 1987).
será que será que ·s·erá/ Será que essa minha estúpida Para Caetano, a violência da situaçãO brasileira in1-
retórica/ Terá C}ue soar, terá que se ouvir/ Por mais põe ao artista a necessidade de desrespeitar os pruridos
de Sensatez que normalm,ente cercam as opiniões polí-
ticas, convicção que o levou a dizer, por exemplo, que
acha Antônio Carlos Magalhães sexy, e a defender, mui-
11 " Composta por Toni 'Costa, Tavinho Fialho, Marcelo Costa, Ricardo Cristaldi,
tas vezes, posições intencionalmente provocativas, corno
Marçal e-Zé Luís.
'ii Caetano, difertc"ntemente de Gil, manteve durante nluito tempo (até o di;co U11s,

1983) uma atitude dtc" "resistência contra a produçfo padronizada de gosto internacio-
nal" represent:ida na fi6'Ura do produtor, vi.1ando preservar o experimentalim10 dos
arranjos. Postura que se refletiu, por exemplo, em duras criticas ao que lhe pareciJ
1
um "popismo fãcil" no disco Realce (1979), de Gil. Cf. Tropicá/ia 2 (texto de divulga- '; Luiz Tatit, em;Arna]do Cohen ct ai., Ilha Descria: Discos (São Paulo: Publifolha,

ção do disco, 1993), em O ,W1mdo Não É Chato, op. <:it., pp. 184-189. 2003),p. !29.
114 Caetano velaso Lançar Mundos no Mtmdó 115

a hipótese de uma candidatura de Jânio Quadros à pre- cando uma permanência velada da escravidão. 118 Práticas
sidência da República em 1-989: "Não quero qué seja que indicam um mesmo diagnóstico severo: "Ninguém
Paulo Francis que fique sugerindo que se deva perse- é cidadão" ("Haiti"). Portanto, retirado o álibi da opres-
guir os homossexuais! Tinha de serJânio Quadros! Jânio são política e ideológica, era necessário mostrar, naquele
Quadros tinha de proibir o show de Ney Matogrosso. E momento, que não tínhamos mais o direito de reprodu-
aí a g~nte ia Í-esponder e ver c01n quem estava tratando. zir visões colonizadas de nós mesmos.
Não é num jornal liberal que quero ler isso. Quero que Nesse deslocamento da adesão ao clima otimis-
venha do monstro. Mas temos de eleger o monstro. para ta da ;bertllra política, há uma sensível coerência con1
botá-lo para fora!'". 115 a postura tropicalista de não denionizat a ditad~ra
Essa oscilação entre posturas anárquicas e de centro militar, e não ceder, portanto, à nostalgia do Brasil
moderado marca a independência de suas posições libe- nacional-popular dos anos 50, país idílico cuja pure-
rais, cuja contundência está menos no séu teor específi- za teria sido maculada pelo golpe de·64. Esta visão
co do que na capacidade de desafiar a sobrevivência de romântica, em que se· tenta freqüentemente encerrar
prática5 arbitrárias e retrógradas no seio da "Nova Repú- a obra de Chico Buarque, 119 está de fato na antípoda
blica", como o obscurantismo moralista da c~nsura im- da posição assun1ida por Caetano Veloso, atento ao
posta pelo presidente José Sarney ao filme ]e Vous Salue, fato de que o Brasil e toâa a "América Católica" ao
.Marie, de Godard, apoiada por Roberto Carlos, 116 o in- longo da sua história, freqüentemente" optaram" por
dividualismo "boçal" dos motoristas que desrespeitam as substituir suas democracias por líderes carismáticos
leis de trânsito e "avançain os sinais vermelhos", 117 e o ou "ridículos tiranos". "Será que a gente consegue
racismo generalizado no apartheid s_ocial brasileiro, indi- fazer um EsEado democrático razoável, ter uma polí-
tica. liberal respeitável?", pergunt_a Caet_ano. "Ou a
· gente tem que estar sempre sob o regime de força"?
'l'>"Caetas, o Estr.mgeiro", entrevista a Geneton Morae.1 Neto, especial para ojomal
"Que gente somos nós?" 12º
do Brasil, republicada em Revista da jomal da Ballia, maio de 1989, p. 7. "A verdade é
que sinto falta de Glauber. Tenho a impressfo de que ele jamai, apoiaria Tancredo
Neves para presidente da República. E l:1ncredo foi um péssimo pres.ideme, porque
armou um ministério horrível, aquele vice horrível e m~rreu antes da posse. O pior
presidente que a gente podia imaginar!". Idem. 1
'"Tema presente em "Haiti" (1993),"0 Navio Negreiro" (1997), sobre um ex,::erto.
' Cf.CaetanoVdoso,"Fora de Toda Lógica" (1986),em O Mm1da Não É Cliaro,op.cit.,pp. 228-232.
1
'
de Castro Alves, e, de·rnodo geral, no disco J\loites do 1\íorte (2000), cuja faixa-título ê
117
Es.,a revolta aparece em nada menos que quatro canções suas: "Podres Poderes" a musicali:zaçào de um texto de Joaquim Nabuco.
{1984), "Vamo Comer" _(1987)," Neide Candolina" (l 991) e "Haiti"(l 993). Raciocí- ,,., Ver, por exemplo, o _documentário Cliico Ou o País da Delicadeza Perrlida (direção:
nio semelhante pode ser encontrado,e fund;unentado,ern um texto de Antonio Cícero, Walter S:illesjr., 1990};
que aborda o problema filosófico do trânsito no Brasil. Para Ciéero, a impunidade no •.!<• Eritrevista a Tarso de Castro, O Naóo11a/, abril de 1987. Essa posição tem grandes
trânsito é sintoma da incapacidade de autonomia da sociedade brasileira. Contudo, semelhanças com o diagnóstico feito por Sérgio Buarque de Holanda em Ralzes do
apesar de constituir um fenômeno da ordem do efeito, ele considern que a "instauração Brasil, sobretudo no capítulo final: "Nossa R,evoluçào". Consciência que também
efetiva do princípio formal do direito,ainda que 'apenas' no plano do trànsito,seria um aparece na auto-ironia de "Vai Passar"tde Chico Buarque, ao relativizar a p~ópria
progresso mais real e de maior conseqüência do que qualquer desenvolvimento que euforia descrevendo a "evolução da liberdade" como uma "alegria fugaz, uma ,:o_fe~
pudesse ser representado pelas variações dos índices econõmico.>''. "O Trânsito no Bra- gante epidemia", isto é: carnaval. Cf. Fernando de Barros e :Silva, Chico Buarque (Sãó
sil", em: Q Muudo Desde o Fim (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995),p, 210. Paulo: Publifolha,série "Folha Explica", 2004),p. 92.
116 Caetano Veloso La11çarM11ndos110M111Jdo 117

A partir daí, a imagem que o tropicalismo cons- "Rei dos animais", o hon1em velho não é mais o
truiu do país ("Aqui é o fim do mundo") retorna sem "índio" que se prometia voltar um dia, "preservado em
carnavalização, na imagem de uma sociedade sitiada: pleno corpo físico", desrecalcando verdades e vontades
"A mais triste nação/ Na época mais podre/ Com- encobertas c.on10 num freudiano "retorno do reprimi-
põe-se de possíveis/ Grupos de linchadores" (" O Cu do". Ponto culminante de uma evolução humàna,o ho-
do Mundo"). Imagem que, em "Haiti'', aparece na mem velho "dói e brilha único,indivíduo,maravilha sem
substituição dos pedidos feitos em canções anteriores igual", pois ''.já tem coragem de saber que é imortal".
("O Havaí seja aqui", "Cuba seja aqui") pela afirma- Assim, quando aquele "índio" (doce bárbaro) de fato
ção ambígua:"O Haiti é aqui/ O Haiti não é aqui". volta, no cenário apocalíptico da canção "Fora da Or-
Passage1n en1 que se dá uz:na· troca tanto_ do referencial dem" ("Meu canto esconde-se como um bando de iano-
político-geográfico quanto da unívocidade da com- mâmis na floresta/ De curdos na montanha/ Na minha
paração ("é" e simultaneainente "nã-o é"), e do tempo testa caem, vêm c01ar-se plumas de um velho cocar"),
verbal empregado (o subjuntivo pelo indicativo).E o ele signifi.cativaínerite não traz m.ais redenção alguma_, ou
canto falado, em ritmo de rap, aciescenta um tom vio- "juízo final". Ap_enas pisa um "monte dé imundo lixo
lento e desencantado à afirmação do refrão, precedida baiano" por ent_re o "esgoto exposto do Leblon ".
de imagens de espancamento,racismo,_corrupção,hipo-
crisia, e um apelo imperativo ao ouvinte: "Pense no
Haiti/ Reze pelo Haiti',' (em direção semelhante ao
"Pensa-te", de ~'Aboio."). · VELHO E VASTO ESTRANHO REINO
Contudo, de um ângulo mais profundo, a maior
nmdança anunciada em· Velá é subliminar, e está e1n Há um dilema cada vez mais presente nas reflexõ_es qu'e'
outra canção: "O hon1e1n velho deixa vida e morte Caetano te1n feito acerca do seu pap~l na história da
para trás/ Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nun- MPB, e mesmo do Brasil: não terá sido a demolição
ca mais/ O grande espelho que é o mundo ousaria tropicalista, seguida do incentiv9 à composição de can-
refletir os seus sinais/ O hon1en1 velho é o rei dos ções razoavelmente "banais" para competir no mercado,
animais" ("O Homem Velho").Aqui ~ em versos que um projeto cujas ambições fossem, no fundo, meiamen-
ecoam•, talvez, algtima coisa da poesia romântica in- te comercialescas, amparadas em "atração para o estrelato
glesa, especialmente Wordsworth, com seus extraordi- mais vazio"? Quer dizer: não teriam eles, os ·tropicalistas,
nários anciões vagando solitários pelo ·campo-, uma por sua aposta irrestrita no poder saneador da indústria
série de imagens afirmativas da eterna juventude são de consumo, uma parcela de culpa na vulgarização geral
revisitadas e superadas, tais como o espelham~nto en- que tomou conta da vida cotidiana no Brasil? 121
tre "gente" e "estrelas" (ou "murido"), e a imunidàde
ao envelhecimento: "Eu vi muitos cabelos brancos {la
fonte do artista/ O tempo não pára e no entanto ele l!I Cf. ~rdadeTropica!,op. cit., p. 145,231, 238,287.V._.r tan,1bém o fihn,..-docum,..ntário ·_;f
nunca envelhece" ("Força Estranha"). 0111ros (Dores) Bárbaros (dil"t:'çào:Andrucha Waddington,.2004). '
.,:i
::
· 118 Caetano Veloso Lançar Mundos 110 Mundo 119

Essa dúvida, com tudo o que tem de exagera- oportunidade de falar eu me singularizo, me parti-
damente ambiciosa e ao mesmo teillpo autopllnitiva, cufarizo, me individualizo. [, .. ] eu sou como que re-
não parece ser mera retórica, nem um fabricatjo blefe ac10nár10 em relação a isSo. Eu reajo quase que bur-
cujo objetivo real seja a autocomplacência. Ao con- guesamente [ ... ] Ainda mais que eu tenho desde
trário, trata-se, mais un1a vez, de um exercício menino um negócio meio místico, eu era predesti-
intelectual lúcido e corajoso, de alguém que não teme nado a salvar o mundo. E . ., quando a realidade às
colocar em xeque as suas posições, expondo-as publi- vez~s parece confirmar, isso me angustia. Eu não gosto,
camente. Curiosamente, a dúvida coincide com uma eu reajo, eu esperneio, eu digo que não teriho nada
impressão difusa que te'ru ·crescido a respeito da sua co~ isso. Não me negaria a liderar se eu fosse capaz
carreira, e que tende a acusar o seu sucesso no merca- de liderar. Mas eu não quero que um pouco de ta-
,,
1 ~· do - n1ais do que consumado a partir dos anos 90, lento, misturado com um pouCo de charme, seja con-
sobretudo com o sucesso de Prenda Minha (1998) - fundido pelas pessoas com liderança" .12 2 .
como verdade última (e única) dos seus propósitos De fato, sente-se en1 muitas_ de suas ca~ções mais
iniciais, de modo a poder-se finalmente descartar o recentes um incômodo com aquilo· que chamou de
seu legado crítico. o "meu velho e vasto estranho reino" ("Você É Mi-
Pelo que foi exposto até aqui, não parece justo nha"), como Se perguntasse: que rei sou eu? E aqlli
(nem mesmo possível) s~ construir uma teleologia li- parece estar o nódulo mais profundo de um certo
near _a partir da obra de Caetanô, que se caracterizou dilema que acompanha a sua produção nos últimos
sempre pela imensa capacidade de atacar cristalizações, dez anos, e cuja acusação de "ambições comer-
reinventando-se de modo- profundo no presente de cialescas" nada mais é do que a face superficiai:'toda
cada instante. No entanto, que haja uma convergência a sua entrada e afirmação na cena artística esteve ba-
entre o questionamento feito pelo próprio artista e o seada na incorporação estética e transgressiva 'da ati-
clima de antipatia crescente em relação ao seu traba- tude de um país que queria se tornar sujeito da his-
lho é algo digno de nota - o que, de certa forma, vem tória do mundo, e de modo original. No entanto, de
a confirmar a ambição grandiloqüente contida na lá para cá, não só esse projeto de país desandou -
autocrítica de Caetano. com tudo o que ele implicava de investimento na
Por outro lado, em que pese a vocação solar do idéia de "formação nacional"-, como, no plano q.a ,,'i
ar.tista - que avisa: "Alguém que agüente o sol'' canção de massas, aquilo que o filósofo alemão '.i
("Tempestades Solares") -, parece havef, em Caeta- Theodor Adorno chamou de "regressão da audição"
no, uma espécie de reação instintiva, e algo suicida, avançqu enormemente, sobrecarregando o seu grau
i
às situações de consenso·e unanimidade em torno de de redundância em detrimento da originalidade.
si, como a que claramente se configurou em Circuladô
(1991-92), Na referida entrevista ao Bondinho, dada
logo após ·a sua volta do exílio, Caetano já se dizia
1
angustiado na posição de líder: "Quando tenho, a -'i "Bondinho",Alcgria,Alcgria, op. dt.,p. 107~9.
120 Caetano Veloso
Lançar Mundos 110 M1111do 111

Evidentemente, não é apenas em Caetano que essa que muitas vezes parec~u aproxin1ar-~e demais de teses
"crise" se faz presente, A observação recente, de Chico sociológicas, como a questão da escravidão (Noites do
,r.
,, Buarque, 123 de que o público em geral prefere comprar as Norte, 2000), ou a sobreposição da percussão baiana aos
suas coletâneas do que discos novos reflete O mesmo metais do coo/jazz etc.(Livro, 1997),
desconforto - que, aliás, acompanha um significativo des- Contudo, com Verdade Tropical (1997) Caetano inse-
locamento de energia criativa tanto de Gil como de Chico re-se na grande tradição dos intérpretes da "formação"
e de Càetano, da canção, para outras áreas: a política, o brasileira: desdobrando na área da carição popular e do
romance e o ensaio,respectivamente.No caso de-Caetano, show busmess aspectos de uma reflexão que dialoga com
como observou Nuno Ramos, a impressionante capaci- figuras como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda
dade de criar novidades pela exposição viva das contradi- e Antonio Candido, e que encontra na abordagem marxista
ções sempre se fez como uma "hipérbole do sentido", de Roberto Schwarz pontos de tensão e diálogo de ferteis
fragmento de "um·todo nunca formado" capaz de unifi- conseqüências,sóbretudo pelo 1nodo con10 se contrapõem·.
car simbolicamente "a cisão das grandes tensões nacio- Sem precisar desdobrá-las, por enquanto, seria suficiente
nais", sendo portanto, na opinião do autor, criativan:ente comparar a análise que cada um constrói a partir de uma
dependente dessas tensões, que se abrandaram progressi- emblemática figura: o passista de escola de samba,
vamente com a volta à normalidade democrática. 124 No caso de Roberto Schwarz; a alusão a esse perso-
Com efeito, a esta altura deve estàr claro que O nagem aparece numa perspicaz con1paração com o agre-
ponto de vist_a defendido 'aqui procura mostrar o quan- gado José Dias, em Dom Casmurro (1899), de Machado de
to a obra de Caetario conseguiu não apenas manter-se Assis - caracterizado pelo contraste entre "a gravidade vi-
viva nos anos 80 e iillcio dos 90,mas configurar-se co~o toriana" da impostação e "os cuidados subalternos a' que se
uma das mais eloqüentemente criativas nesse período. obriga" .Assim, a comparação com o passista, que lança luz
No en.tanto, não se pode deixar de reconhecer que um sobre ·o fato de ser este, de algum rnodo, uma tradução
certo fastio pela composição de canções - Caetano lan- contemporânea daquela "convivência espúria ,da. relação
çou apenas dois discos inteiramente autorais em 14 de favor com aspirações de independência e cidadania",
anos 125 - , somado a uma hipertrofia do Brasil no cam- surge da descrição tisica da personagem em Machado de ~i
po de suas preocupações intelectuais, acabaram deslo- Assis, comà um "homem com duas marchas". Estrutura
cando-o de forma brilhante para uma vocação anterior semelhante, segundo Schwarz, à do passista: "vágaroso e
à de cancionista: a de pensador da cultura e intérprete principesco da cintura para cima, enquanto os pés se dedi-
do Brasil - em p"rejuízo dá tensão artística mais efetiva, cam a um puladinho acelerado e diversificado", 126
A mesma figura, com efei.to,- é a personagem cen-
tral de uma canção de Caetano ("Os Passistas"), que in-
•~·1 Cf. entrevista de Chico Buarque a Fernando Barros e Silva, Folha de S.Paido,

26/12/2004.
rn Nuno Ramos,"Ao Redor de Paulinho d.1 Viola", O Estado de S. Paulo, 15/5/2005. 12<, Roberto Schwarz, "A Pot'.sia Envenenada de Dom Casmurro", Duas 1vleni11as
1'·' u~ro (1997) e Noites do Norte (2000), desde Cirmladô (1991). (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), p. 21.
111 caetan~ Veloso

siste no poder libertador dos seus passos, como uma be-


leza que se rouba ao tempo e se dá de graça, espelhando
a dor na roda de maneira a invertê-la num palíndromo:
"roda a dor". Caetano, a partir da lição de João Gilberto,
propõe uma interpretação da cultura brasileira em que a CRONOLOGIA
"instância' da n1úsica popular" é ton1ad;i. como "deter- por Guilherme Wisnik e Maria Guimarães Sampaio
minante de nossa verdade dada e criável", mostrando-se
como potencialmente violadora da sua imobilidade so-
cial e, portanto, cá.paz de reverter o recente ceticismo em
relação ao país em afirmação renovada.
Ela é, portanto, "o som do Brasil do descobrimento
sonhado", 127 em que se vislumbra um outro descobri-
mento, menos identificado ao conquistador português
do que ao índio que não cobria suas "vergonhas", e que,
ao primeiro contato, subiu tão sem medo à nau alienígena
que ali adormeceu. Um país jovem, miscigenado e ainda
em formação, como o san1ba, "pai do pr~er-"·e "filho da
dor", e que, ao contrário do que reivindicam os tradicio-
nalistas, figura na sua canção corno algo que "ainda vai
nascer", que "ainda não chegou" ("Desde Que o Samba
É Samba"). Para Caetano, a partir de João Gilberto, o
samba é um projeto de Brasil. Ou, por isso mesm9, um
projeto de mundo através do Brasil, de seu poder trans- '
formador estampado nos gestos do passista:
"Vem
Eu vou j:,ousar a mão no teu quadril
Multiplicar-te os pés por muitos mil
Fita o céu
Rodá:
A dor define nossa vida toda
Mas estes passos lançam moda
E dirão ao mundo por onde ir".

121 VerdadeTropical,op.cit.,p.17.

/
Cronologia 115

, Inha") o leva para o Rio de Janeiro (bairro de


Guadalupe, Zona Norte), sob o pretexto de
"cúidar da garganta". Lá, ele permanece du-
ralite todo- o ano, onde freqüenta o auditório
da Rádio Nacional, palco de apresentações dos
maiores ídolos musicais do mon1ento.

195.7 - Compõe uma canção chamada "Ciclo" a par-


tir de um poema do prof. Nestor. Essa canção
foi gravada, mais tarde, por Maria Bethânia, e
dá nome ao LP (1983).

1959 - João Gilberto lança Chega de Saudade, disco


que Caetano ouve pela primeira· vez no ~lube
Uirapuru, em Santo Amaro, e depois no "bar
de Bubu", acompanhado de alguns amigos que
1942 - Em 7 de agosto, dia de são Caetano, nasce, em também se tornam aficionados pela novidade.
Santo Amaro da Purificação, no recôncavo
baiano, Caetano Emanuel Vianna Telles Vel- 1960 - Publica artigos sobre cinema no jornal O Ar-
loso, o quirito dos seis filhos naturais de José chote, de Santo Am~ro. Muda-se para Salvador.
Telles Velloso, agente postal telegráfico, e Ingressa no curso" clássico", no Colégio Esta-
ClaudionorVianna Telles Velloso (dona Canô). dual Severino Vieira.

1946 - Em 18 de junho, nasce a irmã Maria Bethânia, 1961- Cresce o seu interesse por :giúsica e cinema,
cujo non1e foi escolhido por Caetano, por cau- dado o impacto provocado pela bossa nova e
sa da canção "Maria Bethânia", de Capiba,su- pelo ·cinema novo. Na Universidade, uma in-
cesso na voz de Nelson Gonçalves. tensa programação de eventos instaura uin am-
'i
biente modernizador e vanguardista. Caetano 'j

1953 - Caetano grava seu primeiro disco: um exem- passa a escrever crítica de cinema também para
plar único (78 rpm) cantando "Mãezinha Que~ o Diário de Notícias, de Salvador. Canta com
rida" (Getúlio Macedo e Lourival Faissal),"Pa- Bethânia em bares da cidade. Na TV, se inte-
rabéns Pra Você" e "Feitiço da Vila" (Vadico e ressa por um cantor novo que aparece às. ve-
Noel Rosa), com sua irmã Nicinha ao piano. zes, chamado Gilberto Gil. Em novembro é
aberta; em Santo Amaro, uma exposiçãq com
1956 - Durante as ferias, a prima Mariinha ("Minha pinturas suas e de Emanoel Araújo.
126 Caeta,10 Veloso
f.: Cronología 127

1962 - Faz seu primeiro trabalho musical: a trilha so- Geraldo Sarno.Volta para a Bahia, em período
nora da peça O Primo da Califórnia, em mon- . que chamou de "íntermezzo haian'o ".
tagem do diretor baiano Álvaro Guimarães,
no Teatro Popular da Bahia. E compõe, para o
mesmo diretor, a trilha de A Exceção e a Regra,·
de Bertolt Brecht.
PROGRAMA
1963 - Ingressá na Faculdade de Filosofia da UFBA
(curso que abandonaria dois anos depois). OO!l!\'AL CAYMi\!I .
fo.lo Valemjo ;.,_,,,.-e~

·Eu 11;\o tenho onde morar
Compõe a trilha sonora do filme Moleques de NOEL ROSA O X Ja pr~hknia '::/:~~'.:,
1

Rua, de Álvaro Guimarães, e j)articipa do elen-


co na sua montagem da peça O Boca de Ouro,
)ERG[{) RfÇARDO
tíi:~1:e~1~t.r,;,-?-'·t~,_ : ,. /-~- ,~~
C.·\ RLOS L[Ri\ Quarta-feira de ci11;:.1«t•,'.;.,., 'i,J_'
de Nelson Rodrigues. E apresentado a Gil- B.-\TA"(INHA Sofrimento e Padecer,.,_,... ('
berto Gil pelo produtor Roberto Santami, e !l1I DEN.V1.N!CIU5 Jkrinibau :~ ',,-,,. · ;...
Consola,;ão . :. , . ,
inicia amizade também com Gal Costa (ainda Samba d,1 llenção ; - •,~t. ~---";: ,1___ -_
·\. C. JOBIM-VINICIUS Agua de Beber .•,11~---x. /.1:., ·
Maria da Graça, à época) e Tom Zé.
,-;F.flAi.DO VANDRt Menino da L:11·a1\ja ,!; '.. ('::, _{_) ./
,__:_ l.Yl(A-BOSCOLI Se /: t,1rJc mc pcrd6a l' ~• •'
1964 - Estréia o show Nós, Por Exemplo, com Gil, CHICO FEITOSA Fim de núite _;~ .. ,~-.·;~ ',( ·-<.
Bethânia e Gal, entre outros, no Teatro Vila
Velha. Depois, acompanhados de Tom Zé ,rea-
lizam, no mesmo teatro, os shows Nós, Por em bom ·no c~n-;' /l 11 .t;f.'_;if ·?
Exemplo 2,e Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova. Tema. Jc ~-<n<lomblé ']/·'.;_•;-~ ·, /..., ·
- Crcpúsnr!o. . •.'/-" ·-'·'
CI\ET.-\NO VFLOSO ~oi Negro!.'.; ;~f .\ ~l'-i.. r....;',;/ ,'t_:,It.c
1965 - Segue para o Rio de Janeiro acompanhando E de manhã(:~:.·, :•... ,_,.
N:ío jlo>10 mais dii.er ~áeus, - ·
Bethânia, que havia sido convidada para subs- H:R NANO()· LONA L~mento do Ju1tiuo i
tituir Nara Leão no show Opinião. Lança seu S:tudúle sem nome ~:, .h,·..... !·
S.imba de Negrn 1 •
primeiro compacto, com "Cavaleiro" e "Sam- GILBERTO GIL i\fari,1. l -~ 1
ba Em Paz", e tem a canção "De Manhã" in- · Samba ;1il1d~ sem nomej J-
.\-f_•\Rl,\ BETH,\Nl-\ -
cluída no "compacto best-seller" de estréia de CAETANO Vai pr:r Ír(!nte j ,_ -~- ·;.-.:, ..
Bethânia, que traz também "Carcará" (João do DJALMA CORRÊA Boisa 2 ooo D. C. ,\ _ -.• ( t, . ,
( solo d~ bateria) '") ·
Vale). Participa, ao.lado de Gil, Gal, Bethânia
e Tom Zé, do espetáculo Arena Canta Bahia, Salvador - 22 de ago$to .de 196--1 -· As 21 hs-
dirigido por Augusto Baal e apresentado no OJ~ri~ G. f,unp.úo
-TBC, em S_ão Paulo. Tem canções incluídas
no- curta-metragem Viramundo, dirigido por Programa do show Nós, Por Exemplo /1964)
118 Caetano Veloso Cronologia 129

1966 - Publica artie;o "Primeira Feira de B_alanço", anterior, e o LP coletivo Tropicá/ia on Panis Et
na revista Angulos (Faculdade de Direito da Circencis.Apresenta "É Proibido Proibir" no III
UFBA). Participa do debate "Que Caminho Festival Internacional da Canção (FI C), da TV
Seguir na Música Popular?", publicado na Globo. Vestido com roupas de plástico, impro-
Revista Civilização Brasileira. Sua canção "Boa visa un1 histórico discurso contra a platéia uni-
Palavra" classifii::a-se en1 quinto lugar no Fes- versitária que o vaiava,no Tuca (Teatro da PUC-
tival Nacional da Música. Popular, da TV SP). Depois, em evento paralelo ao Festival, faz,
Excelsior. Com "Um Dia", recebe o prêmio ao lado de Gil e do·s Mutantes, uma histórica
de melhor letra no II Festival de Música Po- temporada de shows tropicalistas na Boate Su-
pular Brasileira, da Record. Muda-se para o cata, no Rio de Janeiro. Estréia o progranu de
Rio de Janeiro, n1orando na_ casa do artista vanguarda Divino, Maravilhoso na TV Tup·i, en1
gráfico Alex Chacon, e depois no legendário que se realiza o "enterro" simbólico do n1ovi-
Solar da Fossa. mento. Em 27 de dezembro, 14 dias após a de-
cretação do AI-5, Caetano e Gil são presos em
1967 - Tem participação destacada no programa Esta São_Paulo, e levados para o quartel do Exército
Noite Se Improvisa, da TV Record. Compõe a de Marechal Deodoro, no Rio.
trilha do filme Proezas de Satanás na Terra do
Leva-e- Traz, de Paulo Gil Soares. Contratado 1969 - Na quarta-feira de cinzas, Caetano e Gil são
pela Philips, lança seu LP de estréia, Domingo, soltos e seguem para Salvador, onde fica1:n con-
dividido com Gal Costa e produzido por Dori finados por quatro n1eses. No Teatro Castro /

Caymmi. Sofre grande impacto ao assistir ao Alves, em Concerto da Orquestra Sinfônica


filme Terra em Transe, de Glauber Ró~ha.Apre- da UFBA, o maestro Carlos Veiga inclui, con1
senta a marcha "Alegria,Alegria" no Ili Festi- grande escândalo, "Alegria,Alegriâ' no reper-
val da MPB, da Record, classificando-se em tório. Con1 Gil, grava as bases de voz e violão
quarto lugar. Essa apresentação, acompanhada de seu segundo disco individual, Caetano Veloso.
das guitarras elétricas do conjunto pop argen- Em julho, após três shows de despedida no Tea-
tino Beat Boys, somada à da cantiga de capo- tro Castro Alves, os dois partem com suas·
eira "Domingo no Parque", de Gilberto Gil, mulheres para o exílio, fixando-se em Lon-
acompanhada pelos Mutantes, deflagra o iní- dres. O espetáculo se transformará no disc'o
cio do movimento depois chamado de Barra 69, lançado três anos mais tarde. De Lon-
tropicalista. Em 21 de novembro, casa-se, em dres,
-
colabora
'
com o. serrianário Pasquim.
· Salvador, com a também baiana Dedé Gadelha.
1970 -Faz o personagem principal no filme O
1968 - Muda-se para São Paulo. Lança seu primeiro Demiurgo, dirigido por Jorge Mautner em
LP individual, Caetano Veloso, gravado no ano Londres.
130 Caetano Veloso cronología 131

1971 - Lança o disco Caetano Vefoso,pelo selo Famous, shows no Teatro Vila Velha, cujas gravações são
produzido por Ralph Mace e Lou Reisner. incorporadas no álbum coletivo Temporada de
Cmn permissão para passar um mês no Bra~il, Verão (com Gil e Gal).Muda-se para,o Rio de
ven1 ao país assistir à missa pelos quarenta anos Janeiro "para fazer psicanálise".
de casamento de seus pais. No Rio, militares
praticamente o seqüestram para um interro- 1975 :._ Lança dois LPs simultaneamente:Jóia e Qualquer
gatório, no qual pedem que ele faça uma can- ' Coisa, acompanhados de manifestos que os defi-
ção' elogiando a rodovi~ Transamazônica. Em nem ironicamellte como pseudomovimentos.
agosto, convocado por João Gilberto, volta ao
Brasil para apresentar-se ao lado deste e de 1976 :- Doze anos depois de Nós, Por Exemplo,junta-
Gal em mn programa especial nas TVs Globo se novamente a Gil, Gal e Bethânia para reali-
e Tupi. zar o Show Doces Bárbaros, que se transforma
em disco (gravado ao vivo) e em filme (maki_ng-
·1972 - En1 janeiro, retorna definitivamenre ao Brasil. of da turnê dirigido pdo cineasta Jom Tob
Lança o disco Transa, gravado em Londres. Pro- Azulay, finalizado no ano seguinte). Durante a
duz o disco Drama, de Maria Bethânia, e com- temporada do show, Gil e o baterista Chiquinho
põe a trilha sonora do filme São Bernardo, de Azevedo são presos por porte de maconha.
Leon Hirszm.an: Faz show com Chico Buarque
. no Teatro Castro Alves, que se transforn~a en1 1977 - Participa, com Gil, do It Festival Mundial de Arte
· disi::o. Em 22 de nove1nbro, nasce, em Salva- e Culrura Negra, em Lagos, Nigéria, onde passa
dor, seu primeiro filho, Moreno s;adelha cerca de um mês. Publica o livro Alegria,Alegn·a,
Veloso. uma compilação de artigos," manifestos, poemas
e entrevistas, organizada pelo poetaWaly Salomão.
1973 - Lança Araçá Azul, disco que pelo alto grau de Lança os discos Bicho e Muitos Carnavais (uma
experimentaliSmo anticomercial tem um gran- coletânea da produção carnavalesca de Caetano
de número de devoluções; sendo retirado de feita principalmente a partir de gravações de mú-
catálÜgo. Inicia uma série de ·apresentações pelo sicas lançadas anteriormente em compactos).
interior do Brasil, seguindo o roteiro dos cir-: Realiza, em companhia da Banda Black Rio, o
cuitos universitá_rios. Apresenta-se no evento dançante e controvertido Bicho Baile Show, que a
Phono 73, surpreendendo o público ao cantar "patrulha ideológica" de boa parte da imprensa
"Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", com o can- classifica como "alienação Odara". ·
tor e compositor "brega" Odair José.
1978 - Lança Muito (Dentro da Estrela Azulada), mar-
197 4 - Produz os LPs Cantar, de Gal Costa, e Smetak, cando o início da colaboração dos músicos de
do músico experimental Walter Smetak. Faz A Outra Banda da Terra em seu trabalho. O
,:

132 Caetano Veloso Cronologia 133

disco é "pichado pela imprensa", tendo ven- 1985 - Compõe e grava "Milagres do Povo", músi-
dagem pouco expressiva. No show, Caetano faz ca-tema da série Tenda dos Milagres, da Rede
longos discursos rebatendo as críticas e acu-: Globo, sobre a obra do escritor Jorge Amado.
sanda o "boicote sacana". Lança Maria Bethd.nia Produz o disco Antimaldito, de Jorge Mautner.
e Caetano Veloso Ao Vivo. Faz apresentações na Europa (Lisboa e Madri)
e n.o Carnegie Hall, em Nova York.
1979 - Em 7 de janeiro, nasceJúha Dedé, filha do casal
que, no entanto, vive apenas alguns dias. Lança 1986 - Separa-se de Dedé Veloso e se une à carioca
Cinema Transcendental, pelo'selo Polygram. Bem Paula Lavigne. Dirige o filme longa-metragem
recebido pela crítica, o disco represen'ta uma O Cinema Falado. Apresenta, por sete meses,
virada ascendente em §Uas vendas. com Chico Buarqm'', o programa musical Chico
& Caetano, na Rede Globo. Lança o '-álbum
1981 - Lança Outras Palavras, que se torna o disco mais Totalmente Demais, gravado ao vivo durante as
vendido da carreira do artista até então (100 apresentações no projeto Luz do Solo, no ano
mil cópias), dando-lhe seu primeiro "Disco de anterior. O álbum quebra os recordes de ven- _
Ouro". É lançado, pela WEA, o álbum Brasil, dagem de Caetano até então, atingindo 250
de João Gilberto, Caetano e Gil (e participa- ml! cópias e lhe rendendo um "Disco de Plati-
ção de Maria Bethânia). Musicaliza alguns na". Lança, pelo selo N onesuch, de Nova York,
poemas de Vladímir Maiakóvski, como "O o LP Caetano Veloso, apelidado de "disco ame-
Amor", para a peça O Percevejo, dirigida por ricano".
Liüz Antonio Martinez Corrêa.
1987 - É relánçado Araçá Azul. Lança o disco Caeta-
1982 - Lança Cores, Nomes. Interpreta Lamartine Babo no. Rompe relações com a imprensa, 1nanten-
no filme Tabu, de J úl(o Bressane. do-se em "silên~i</'. por quase dois anos.

1983 - Inaugura o programa Conexão Internacional, 1988 - Faz shows em Paris e em Nova York. É. publi-
da TV Manchete, entrevistando Mick Jagger. cado o songbook Caetano Veloso, produzido por

l
Canta em Paris (Olympia), em Israel, no Fes- Almir Chediak.
tival de Jazz de Montreux (Suíça),-em Roma
e em Nova York (pela primeira vez). Lança o 1989 - Faz apresentações na Itâlia. Interpreta o poeta
disco Uns, após o qual o grupo A Outra Ban-
da da Terra se dissolve. Em 13 de dezembro
1 Gregório de Matos no filme Os Sermões - A
Hist6ria de Antônio Vieira, de Júlio Bressane. Lança
morre, aos 82 anos,José Telles Velloso, seu pai.

1984 - Lança Velô, acompanhado da Banda Nova.


l o disco Estrangeiro, produzido por Arto Lindsay
e Peter Sherer, gravad~ eni Nova York. Recebe
o "Prêmio Shell para a música brasileira".
134 Caetano Veloso cronofogía IJ5
i''
I> 1990 ,- Atentado contra a sua casa em Ondina, Salva- um livro de men1órias e reflexões-sobre os anos
t dor, após ter feito duras criticas à administra- 60, que se chamará ,Verdade Tropical. Fina Es-
I'
ção do prefeito Fernando José. Participa no- tampa excursiona pela América Latina. J\.pre-
!
'.
vainente do festival de Jazz de Montreu"i. É
· lançado no Brasil Caetano Veloso, o seu "disco
americano" de 1986. Para promover o lança-
senta-se no Central Park, ein Nova York, ao
lado de R yuichi Sakamoto. Lança Fina Estampa
Ao Vivo. No réveillon, participa com Paulinho
mento, realiza o show Acústico. da Viola, Gil, Gal, Chico Buarque e Milton
Nâscüllento de um show ·en1 tributo a Ton1
1991 - Apresenta-se em NovaYork (Town Hall).Lan- Jobim, falecido no ano anterior.
ça o disco Circuladô, que marca o início da
'
colaboração do maestro e violoncelista Jaques . 1996 - Compõe a trilha para o filme Tieta do Agreste,
; i
··1:
., Morelenbaum em seu trabalho. de Cacá Diegues, com participação de Gal
,, ( Costa. É lançada a caixa Todo Caetano, com 30
'! 1992 ~ Em 7 de março, nasce, no Rio, Zeca Lavigne CDs do artista.
H Veloso, primeiro filho de Caetano com Paula
Lavigne. Em homenagen1 aos seus 50 anos, a 1997 - Em 25 de janeiro, dia do aniversário de Tom
TV Manchete exibe uma série especial de cin- Jobim, nasce, em Salvador,Tom Lavigne Veloso,
co programas, dirigida pelo cineasta Walter segundo filho do casal. Faz tutnê pela Europa
Salles Jr. Lança o disco duplo Circuladô Vivo. e os Estados Unidos. Faz um s/,ow na Repú-
Recebe três prêmios Sharp de música. blica de San Marino, perto de Rimini, cidade
natal do cineasta Federico Fellini. Lança si~
1993 - Lança, com Gil, Tropicália 2, em comemoração multanea1nente un1 livro e un1 disco: Verdade
aos 26,anos do movünento. ' Ti·opícal e Livro.

1994 - A Mangueira homenageia os Doces Bárbaros, 1998 - É premiado na categoria "MPB" do Video Music
que desfilam na Escola no carnaval. Os quatro Brasil;na MTV Lança Prenda Minha, com gra-
. '
artistas apresentam-se em Londres (Royal Albert vações do show Livro Vivo.
Hall). Ca.etano lança Fina Estampa, com clássi- Recebe o título de Doutor Honoris Causa
cos latinos relidos sob uma perspectiva bossa- da Universidade Federal da Bahia em cima
novista. Faz, com Gil, o show TropicáliaDuo. Com- de um trio elétrico, e não no Salão Nobre
põe, com Jaques Morelenbaum,a trilha sonora dà Reitoria.
para o filme O Quatrilho, de Fábio Barreto. Recebe das mãos de Rita LÚ o título de
"cidadão paulistano", conferido pela Câmara
1995 - A partir de uma encomenda da editorá norte- Municipal de São Paulo, durante show no
americana Alfred Knopf, começa a escrever Parque Ibirapuera.
136 Caetano Veloso Cronofogia 137

1999 - Superando a marca de um milhão de cópias, Estados Unidos, o livro Tropical Truth. Apre-
Prenda Minha bate todos os seus recordes de senta-se em Nova York (Beathe Beacon
vendagem, rendendo"lhe um "Disco de Dia- Theater). Reúne-se a Gil, Gal e Bethânia no ·
. mante".Assina a trilha sonora do filme Orfeu, show de reencontro dos Doces Bárbaros, no
de Cacá Diegues.Apresenta-se com João Gil- Rio e em São Paulo.
berto em Buenos Aires (teatro Gran Rexpor).
Produz show em Paris (Cité de La Musique) 2003 - Participa da cerimônia de entrega do 75º Oscar,
com, Augusto de Campos e Lenine. Lança cantando "Burn lt B!ue", trilha sonora do filme
Omaggío a Federico e' Giulietta, uma gravação Frida. Recebe o Prêmio do 4º Grammy Latino
do show feito na Itália, em 97. 2003, ao lado de Jorge Mautner, com Eu Não
Peço Desculpa, como "melhor álbum de música
2000 - Produz o CD João Voz e Violão, de João Gil- popular brasileira". Lança o livro Letra Só, pela
berto. 128 Ganha o Grammy 99 de melhor ál- Companhia das Letras; organizado. pelo. poeta
bun1 de world musíc con1 o disco Livro. Faz a carioca Eucanaã Ferraz. Seu filn1e Cinema Fala-
direção artística do CD Nós, de Virgínia do é relançado em DVD. Faz a direção artística
Rodrigues. Lança Noites do Norte. do CD Mares Profundos, de Virgínia Rodrigues.

2001 - Faz a direção musical do CD Nova Cara, do 2004 - Lança A Foreign Sound, com um repertório va-
grupo carioca Afro Reggae. °Lánça Noites do riado de músicas norte-americanas, cujo show
Norte ao Vivo. Produz, c_mn Celso Fonseca, o é apresentado em NovaYork (Carnegie Hall);
CD Meiga Presença, de Mart'nália. Lança, em Lisboa, o livro O Mundo Não E
Chato, uma coletânea de textos e -elltrevistas
2002 - Faz a direção musical do disco Pé do Meu Sam- organizada por Eucanaã Ferraz. É lançado o
ba, de Mart'nália. Excursiona pelo Chile, Peru, DVD Outros (Doces) Bárbaros,making-efdos bas-
Venezuela e México. Participa do 36º Festival tidores dos shows de reencontro dos Doces Bár-
de Montreux. Lança, com Jorge Mautner, Eu baros em 2002.
Não Peço Desculpa. É lançado o filme Fale Com
Ela, de Pedro Almodóvar, em que Caetano 2005 - Separa-se de Paula Lavigne. Faz turnê pelo Japão.
canta "Cucurrucucú Palon1a" no set. Sai, nos Compõe, com Zezé di Camargo, a trilha sono-
ra do filme Dois Filhos de Francisco, de ·Breno-
Silveira. Compõe, com Zé Miguel Wisnik, a
1
•'Disseram que ~u produzi o düCo do João (... ), mas, na verdade, n:io produzi
""' trilha sonora do balé Onqqt8, do Grupo Çorpo;
nada, eu apenas ia com ele para o estúdio. E o certo é que ningui:n"1 produz o João; e, com Milton Nascimento,a trilha do filme O
na hora em que ele chet,>;1, canta o que quer; dt'pois muda; não canta as coisas que a
gente pede, embora diga que sim, que vai cantar; depois .. "C,1etano Vdo~o, Sobre as
Coronel e o Lobisomem,de Maurício Farias. Lança
Letras, op. cit., p. 33-4. edição b~asileira de O Mundo Não É Chato.
1
. ~.
i

1
,, DISCOGRAFIA
por Guilherme Wisnik e Maria Guimarães Sampaio

Araçá Azul [1973]

Circuladô [199 I] A Foreign Sound [2004]


Díscogrefia ~ 141

cps: compacto simples AS. Domingo (Caetano Veloso) por Caetano Veloso
cp: compacto com mais de d-Úas faixas e Gal Costa
. LP: long play A6. Nenhuma Dor (CaetanoYeloso -Torquato
CD: compact disc Neto) por Gal Costa ·
B 1. Candeias (Edu Lobo) por Gal Costa
B2. Remelexo (Caetano Veloso).por Caetano Veloso
B3. Minha Senhora (Gilberto Gil - Torquato Neto)
por Gal Costa
B4. Quem Me Dera (Caetano Veloso) por Caetano
Veloso
BS. Maria Joana (Sidney Miller) por Gal Costa
B6. Zabelê (Gilberto Gil .:_Torquato Neto) por
Caetano Veloso e Gal Costa

cps: Philips.m - 365.222 (p) 1967


A.Alegria,Alegria (Caetano Velosof
1965 B. Remelexo (Caetano Veloso)
Caetano Velloso - Caetano Velloso
cps: RCA-Victor.m - LC-61S9 (p)196S 1968
A. Cavaleiro {Caetano Veioso) Caetano Veloso - Caetano Veloso
B. Samba em Paz (Caetano Veloso) LP: Philips.m-R76S.026L (p)l 968'"'
Al. Tropicália (Caetano Veloso)
1967 A2. Clarice (Caetano Veloso - Capinan)
Domingo - Gal e Caetano Velloso 12' A3. No Dia Que Eu Vim-me Embora (Caetano
LP: Philips.m - R76S.007L (p)l 967 Veloso - Gilberto Gil)
Al. Coração Vagabundo (Caetano Veloso) por A4.Alegria,Alegria (Caetano Veloso)
Caetano Veloso e Gal Costa AS. Onde Andarás (Caetano Veloso - Ferreira .
A2. Onde Eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso) Gullar)
por Caetano Veloso A6. Anunciação (Caetano Veloso ~ Rogério Duarte)
A3.Avarandado (Caetano Veloso) por Gal Costa B1. Superbacana (Caetano Veloso)
A4. Um Dia (Caetano Veloso) por Caetano Veloso ,,
u., Embora lançado no Início de 1968, este disco já estava inteira'meme pronto ern
Até aqui o sobrenome de Caetano é grafado como Vclloso, embora na contracapa
I:!'• 67. Cf. Caetano Veloso, Letm Só, Eucanaà Ferraz (org). Silo Paulo: Companhia das
já apareça na grafia atual, com um"!" apenas: f/eloso. Letras, 2003, p. 326.
142 Caeta110 Veloso Díscografia 143

B2. Paisagem Útil (Caetano Veloso) AS. Parque Industrial (Tom Zé) por Gilberto Gil,
B3. Clara (Caetano Veloso) por Caetano Veloso Gal Costa, Caetano Veloso, Mutantes e .coro
B4. Soy Loco porTi,J\mérica (Gilberto Gil, Capinar\) A6. Geléia Geral (Gilberto Gil -Torquato Neto) por
BS. Ave-Maria (Caetano Veloso) Gilberto Gil
Bfr Eles (Caetano Veloso - Giloerto Gil) Bl. Baby (Caetano Veloso) por Gal Costa e Caetano.
Veloso
cps: Philips.m-365.236PB (p)1968 B2. Três Caravelas (Las Tres Carabelas) (A.Alguero Jr -
A Yes! Nós Temos Banana Ooão de Barro - G. Moreau -versão:João de Barro) por Caetano
Alberto Ribeiro) Veloso .e Gilberto Gil
B. Ai de Mim, Copacabana (Caetano Veloso - B3. Enquanto Seu Lobo Não Vem (Caetano Veloso)
·Torquato Neto) por Caetano Veloso, Gal Costa e Rita Lee
B4. Mamãe, Coragem (Caetano Veloso - Torquato
cps: Philips.m-365.257PB (p)1968 Neto) por Gal Costa ·
A É Proibido Proibir (CaetanoVeloso) BS: Batn)akumba 132 (Gilberto Gil - Caetano Veloso) por
B. É Proibido Proibir/ Ambiente de Festival'" Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa, Caetano Veloso
(Caetano Veloso) B6. Hino ao Senhor do Bonfim O.Antonio
Wanderley - Petion de Vilar) por Caetano
Tropicália ou Panis et Circencis - Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa e coro
Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil,
Mutantes, Nora Leão, Rogério Duprat, cps: Philips-441.420-(pj1968
Tom Zé A Soy Loco porTi,América (Gil - Capinan)
LP: Philips.m-R765.040L (p)1968 Superbacana (Caetano Veloso)
Al.Miserere Nobis (Gilberto Gil - Capinan) por B. Clarice (Caetano Veloso - Capinan)
Gilberto Gil e Mutantes
A2. Coração.Materno (Vicente Celestino) por . Ao vivo - Caetano Veloso & Os Mutantes
Caetano Veloso cp: Philips - 441.429PT - (p) 1968
A3. Panis et Circenses (Gilberto Gil - Caetano· Al .A Voz do Morto (Caetano Veloso)
Veloso) por Mutantes
A4. Lindonéia (Gilberto Gil - Caetano Veloso) por
Nara Leão ·
132
No disco a canção estâ grafada com "e", mas Gilberto qil propõe o uso do "k":
"Eu tenho a impressão de que çhegamos a grafar a palavra cofn k porque vimos que
o poema formava um k. O k passava a idéia de consumo,de ooio;a moderna,interna-
ciona], pop. E também de um corpo estranho; não sendo uma letra natural do alfabé-
to português-brasileiro, cau'lava uma estranheza que era tambéi,1 a estranheza do
u, A faixa Ai: gravada em escúdio,e a B é mu registro ao vivo feito em 15/9/1968,no Batman".Em Gilberto Gil-Todas as Letras (edição revista e ampliada), Carlos Rennó
Tuca, em São Paulo,contendo as vaias da pfati:ia e o dlscurso-/1<1ppet1ing dt: Cat:tano. (0rg). São Paulo: Companhia das Letras,2003, p. 107. /
144 Cactmw Veloso
Díscogrqfra 145

A2. Baby (Caetano Veloso) B2. Cambalache (E.S. Discépolo)


B1. Saudosismo (Caetano Veloso) B3. Não Identificado (Caetano Veloso)
B2. Marcianita (J. l. Marcone - G.VAlderete) B4. Chuvas de Verão. (Fernando Lobo)
BS. Acrilírico (Caetano Veloso - Rogério Duprat)
1969 por Caetano Veloso & Jussara Moraes
cps: Philips.m - 365.264PB (p) 1969 B6. Alfômega (Gilberto Gil)
A. Atrás do Trio Elétrico (Caetano Veloso)
B. Torno a Repetir (dorrúnio público: arr: Caetano 1911
· Veloso) O Carnaval de Caetano - Caetano Veloso
cp: Phonogram.m -6245.006 (p)1971
cps: Philips.m - 365.285PB (p) 1969 A1. Chu·va, Suor e Cerveja (Caetano Veloso)
A Irene (Caetano Veloso) A2. Barão Beleza (Tuzé de Abreu)
B. Marinheiro Só (adap. & arr,: Caetano Veloso) Bl. Qual É, Baiana' (Caetano Veloso - Moacyy
Albuquerque)
cps: Philips.m-365.296 (p)1969 B2. Pula, Pula (Salto de Sapato) (Macalé - Capinan)
A Charles Anjo 45 (Jorge Ben) por Caetano Veloso B3. La Barca (Caetano Veloso - Moacyr
e Jorge Ben Albuquerque) ,
B. Não Identificado (Caetano Veloso)
Caetano Veloso - Caetano Veloso
Caetano Veloso nº l - Caetano Veloso LP: Famous.st - 6349.007 (p)l 971
cp: Philips -441.455 - (p)1969 Al. A Little More Blue (Caetano Veloso)
A Irene (Caetano Veloso) A2. Londón, London (Caetano Veloso)
Carolina (Chico Buarque) A3. Maria Bethânia (Caetano Veloso)
B. Os Argonautas (Caetano Veloso) B1. lf You Hold a Stone (Caetano Veloso)
Chuvas de Verão (Fernando Lobo) B2. Shoot Me Dead (Caetano Veloso)
B3: ln the Hot Sun of a Christmas Day (Caetano
Caetano Veloso - Caetano Veloso Veloso - Gilberto Gil)
LP: Philips.m - R765.086L (p)1969 B4. Asa Branca (Luiz Gonzaga - Humberto
Al. Irene (Caetano Veloso) Teixeira)
A2. The Empty Boat (Caetano Veloso)
A3. Marinheiro Só (adap. e arr. Caetano Veloso) 1972 ,
A4. Lost in the Paradise (Caetano Veloso) Transa - Caetano Veloso
AS. Atrás do Trio Elétrico (Caetano Veloso) LP: Phonogram.st- 6349.026 (p)1972
A&. Os Argonautas (Caetano Veloso) Al. You Don't Know Me (Caetano Veloso)
BL Carolina (Chico Buarque) A2. Nine Out of Ten (Caetano Veloso)
146 Caetano Veloso Díscogr1:fía 147

A3. Trist.e Bahia (Gregório de Matos - Caetano Disco de Bolso 2


Veloso) (O Pasquim)
Bl. lt's a Long Way (Caetano Veloso) cps: zem produtora.m - 2801.005 (p)l 972
· B2. Mora na Filosofia (Monsueto Menezes - A. A Volta da Asa Branca (Luiz Gonzaga) por
Arnaldo Passos) Caetano Veloso
B3. Neolithic Man (Caetano Veloso) B Mucuripe (Fagner/Belchior) por Fagner
.
B4. Nostalgia (Caetano Veloso)
.
Caetano e Chico Juntos e aci Vivo
Barro 69 - Ao Viva na Bahia - Caetano Veloso e Chico Buarque
- Caetano Veloso & Gilberto Gil LP: phonogram.st- 6349.059 (p)1972 134
LP: Pirata.m- 1.401 (p)1972 133 AI. Bom Conselho (Chico Buarque) por Chico Buarque
Al. Cinema O1ympia (Caetano Veloso) por Caetano A2. Partido Alto (Chico Buarque) por Caetano
Veloso Veloso
A3: Superbacana (Caetano Veloso) por Caetano A3. Tropicália (Caetano Veloso) por Caetano Veloso
Veloso A4. Morena dos Olhos d'Água (Chico Buarque) por
Bl. Atrás doTrio Elétrico (Caetano Veloso) por Caetano Veloso
Caetano Veloso AS. A Rita (Chiw Buarque) por Caetano Veloso
B3. AJegria,AJegria (Caetano Veloso) por Esse Cara (Caetano Veloso) por Caetano Veloso
Caetano Veloso e Gilberto Gil A6. Atrás da Porta (Chico Buarque - Francis Hime)
Hino do Esporte Clube Bahia (Adroaldo por Chico Buarque
Ribeiro Costa) por Caetano Veloso e Bl. Você Não Entende Nada (Caetano Veloso) por
Gilberto Gil Caetano Veloso e Chico Buarque
Aquele Abraço (Gilberto Gil) por Caetano Cotidiano (Chico Buarque) por Caetano Veloso
Veloso e Gilberto Gil e Chico Buarque
B2. Bárbara (Chico Buarque) por Caetano Veloso e
cps: Philips .m - 6069 .039 (p j 1972 Chico Buarque
A. Cada Macaco no Seu Galho .(Riachão) por B3. Ana .de Amsterdam (Chico Buarque) por Chico
CaetanoVeloso e Gilberto Gil . · Buarque
B. Chiclete com Banana (Gordurinha -Almira B4. Janelas Abertas Nº 2 (Caetano Veloso) por Chico
Castilho) por Gilberto Gil Buarque -
B5. Os Argonautas (Caetano Veloso) por Caetano Veloso

l.lJ Gravação ao vivo no Teatro CastroAlves,e111 Salvado.r, frità por ?erinhoAlbuquerque u, Gr:ivado ao vivo no Teatro Cas1roA!ves, Salvador, nos dias 10 e 11 de novembro
e Djalma Correa, em 20 e 21/7/1969 e transforma\h ,:;"il tl~co em 1972. de 1972. .
148 Caeta110 Veloso
Díscografia 149

1973 B. Hora da Razão (Batatinha - J. Luna)


Araçá Azul - Caetano Veloso
LP: Phonogram.st - 6349.054 (p)l 973 135 Temporada de Verão ao Vivo na Bahia 136 -
Al. Viola Meu Bem (anônimo) por Edith Oliveira Caetano Veloso, Gal Costa & Gilberto Gil
A2. De Conversa (Caetano Veloso) LP: Phonogram.st - 6349.108 (p) 1974
A3. Tu Me Acostumbraste (E Dominguez) Al. Quem Nasceu (Péricles Cavalcanti) por Gal
A4. Gilberto Misterioso (Caetano Veloso - Costa
Sousândrade) i'Q. De Noite na Cama (Caetano Veloso) por
AS. De Palavra em Palavra (Caetano Veloso) Caetano Veloso
A6. De Cara (Lanny - Caetano Veloso) A3. O Conteúdo (Caetano Veloso) por Caetano
Eu Quero Essa Mulher (Monsueto Menezes - Veloso
José Batista) A4. Terremoto üoão Donato - Paulo César
Bl. Sugar Cane Fields Forever (Caetano Veloso) por Pinheiro) por Gilberto Gil
Caetano Veloso e Edith Oliveira Bl. O Relógio Quebrou üorge Mautner) por
B2. Cravo e Canela (Milton Nascimento - Ronaldo Gilberto Gil
Bastos) B2. O Sonho Acabou (Gilberto Gil) por Gilberto
Júlia/Moreno (Caetano Veloso) Gil
B3. Épico (Caetano Veloso) B3. Cantiga do Sapo üackson do Pandeiro - Buco
B4. Araçá Blue (Caetano Veloso) do Pandeiro) por Gilberto Gil
B4. Acontece (Cartola) ,por Gal Costa
cps: Philips.m- 6969.066 (p)1973 BS. Felicidade (Felicidade Foi Embora) (Lupicínio
A Um Frevo Novo (Caetano Veloso) Rodrigues) por CaetanoVeloso
R É Coisa do Destino (Moacyr Albuquerque -
Tuzé de Ab~u) 1975
cps: Philips.st-6069.132 (p)1975
_cps: Philips - 6069.085 (p)l 973 A A Filha da Chiquita Bacana (Caetano Veloso)
A Deus e o Diabo (Caetano Veloso) B Escapulário (Caetano Veloso - Oswald de
R Frevo do Trio Elétrico (Osmar - Dodô) Andrade)

1974
cps: Philips-' 6069.096 (p)l 974
A Cara a Cara (Caetano Veloso) 1.1,, Registro de momentos dos shows fritos em sr:par.i.do pe-10s três artistas, embora na
contracapa do disco haja um t,;'Xto do produtor Guilherme Araújo dizendo o seguin-
te:" Mais uma vez CAETANO VELOSO, GILBERTO GJL E GAL COSTA juntos, como sempre,
para deleite de seus inúmeros fãs e admir:idores queridos, gravados ~o vivo n:i Bahia,
133 O ano de registro (p) no seio é 1973, embora o da capa seja 1972. no Te:itro Vila Velha, no período de 1{J de janeiro a 22 de fevert'_iro de 1?74".
150 Caetano Veloso Díscogmjla 151

cps: Philips.st - 2801.032 (p) 1975 137 B7. Escapulário (Caetano Veloso - Oswald de
A. Qualquer Coisa (Caetano Veloso) Andrade)
B. Jóia (Caetano Veloso) '
Qualquer Coisa - Caetano Veloso'-19
A Caixa Preta (livro de Augusto de Campos & LP:Phonogram.st - 6349.142 (p)l 975
Juto Plaza contendo o cps) . Al. Qualquer Coisa (Caetano Veloso)
cps: Philips.st- 2801.034 (p) 1975 A2. Da Maior Importância (Caetano Veloso)
A Dias, Dias, Dias (Caetano Veloso ~ Augusto de A3. Samba e Amor (Chico.Buarque) ·
Campos) A4. Madrugada e Amor (José Messias)
Volta (Lupicínio Rodrigues) AS. A Tua Presença Morena (Caetano Veloso)
B. Pulsar (Caetano Veloso -Augusto de Campos)
,l
''.i
A6. Drume Negrinha (Drume Negrita) (Eliseo
Granet - versão: Caetano Veloso)
Jóia - Caetano Veloso 138 Bl. Jorge de Capadócia (Jorge Ben)
LP: Phon~gram.st- 6349.132 (p)1975 B2. Eleanor Rigby (Lennon - McCartney)
Al. Minha Mulher (Caetano Veloso) B3. For No One (Lennon - McCartney)
N •- O
A2. Guá (Perinho AJbuquerque - Caetano Veloso) B4. Lady Madonna (Lennon - McCarmey)
A3. Pelos Olhos (Caetano Veloso) B5. La Flor de la Canela (Chabuca Granda)
A4. Asa,Asa (Caetano Veloso) B6. Nicinha (Caetano Veloso)
AS. Lua, L~a, Lua, Lua (Caetano Veloso) .
A6. Canto do Povo de um Lugar (Caetano Veloso) 1976
por Caetano Veloso e Grupo Bendengó Doces Bárbaros - Caetano Veloso, Maria
Bl. Pipoca Moderna (Caetano Veloso - Banda de Bethânia, Gal Costa & Gilberto Gil
Pífanos de Caruaru) cp: Phonogram.st - 6245.059 - (p)l 976 14 "
B2.Jóia (Caetano Veloso) Al. Chuckberry Fields Forever (Gilberto Gil)
B3. Help (Lennon - McCartney) A2. São João, Xangô Menino (Caetano Veloso -
B4. Gravidade (Caetano Veloso) Gilbertp Gil)
BS. Tudo Tudo Tudo (Caetano Veloso) B 1. Esotérico (Gilberto Gil)
B6. Na Asa do Vento (Luiz Vieira - João do Vale) B2. O Seu Amor (Gilberto Gil)

Doces Bárbaros - Caetano Veloso, Maria


137 Não colocado à venda,feito apenas p;ira divulgação. C( Heber Fonseca, _Caeta,iv - Bethânia, Gal Costa & Gilbe·rto Gil
Esse Cara,op.cit.,p.175.
1.1s Pburns dias depois do seu lançamento, este di1co foi apreendido e sô voltou às
lojas depois da troca di capa. Nos anos 90,a reedição voltou a apresentar sua versão ll~Os discos Jóia e Qualquer Coisa foram lançados juntos.
gráfica original.: uni d~senho na ~apa, e uma foto na contracapa,ambos com Caetano, gravações do compacto Doces Bárbaros foram feitas em estúdio, diferentemente
'fü As

Dedé e Moreno nus. do LP duplo, gravado ao vivo.


15z Caetano Veloso
Discogrefía 153

LPl álbum duplo: Phonogram.st - 6349.307 - (p) 1976 B4. São João, Xangô Menino (Gilberto Gil -
Al. Os Mais Doces Bárbaros (<'.:aetano Veloso) por Caetano Veloso) por Doces Bárbaros
Doces Bárbaros BS. Nós, por Exemplo (Gilberto Gil) por Doces
A2. Fé Cega Faca Amolada (Milton Nascimento - Bárbaros
Ronaldo Bastos) por Caetano Veloso e Maria B6. Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso) por
Bethânia - Doces Bárbaros Doces Bárbaros
A3. Atiraste uma Pedra (Herivelto Martins - David
Nasser) por Doces Bárbaros Palco Corpo e Alma 141 - Caetano Veloso
A4. Pássaro Proibido (Caetano Veloso - Maria (participação de)
Bethânia) por Caetano Veloso e Doces Bárbaros LP nº 3: Phonogram.st - 9299.224 (de caixa
Bl. Chuckberry Fields Forever (Gilberto Gil) por contendo três LPs) - (p)1976
Doces Bárbaros Al. Let lt Bleed (Mick Jagger - Keith Richard)
B2. Gênesis (Caetano Veloso) por [)oces Bárbaros A2. Por Causa de Você (Tom Jobim - Dolores Duran)
B3. Tarasca Guidon (Waly Sailormoon) por Doces A3. Casa Portuguesa (Artur Fonseca - R. Ferreira)
Bárbaros A4. Felicidade (Antonio ,'.'Jmeida - João de Barro)

LP2 álbum duplo: Phonogram.st - 6349 .308 - 1977


(p)1976 Bicho - Caetano Veloso
Al. Eu e Ela estávamos ali ... (Gilberto Gil - LP: Phonogram.st - 6349.327 (p) 1977
Caetano Veloso - José Agrippino de Paula) por A1. O dara (Caetano Veloso)
Caetano Veloso, Gal Costa - Doces Bárbaros A2. Two Naira Fifty Kobo (Caetano Veloso)
A2. Esotérico (Gilberto Gil) por Maria Bethânia e A3. Gente (Caetano Veloso)
Gal Costa - Doces Bárbaros A4. Olha o Menino (Jorge Ben)
A3. Eu Te Amo (Caetano Veloso) por Gal Costa - Bl. Um Índio (Caetano Veloso)
Doces Bárbaros B2. A Grande Borboleta (Caetáno Veloso)
A4. O Seu Amor (Gilberto Gil) por Gilberto Gil - B3. Tigresa (Caetano Veloso)
Doces Bárbaros B4. O Leãozinho (Caetano Veloso)
AS. Quando (Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto BS. Alguém Cantando (Caetano Veloso) por
Gil) Gilberto" Gil. canta; Maria Bethânia, Gal Caetano Veloso e Nicinha
Costa, Caetano Veloso fazem contracanto
Bl. Pê Quente Cabeça Fria (Gilberto Gil) por
Doces Bárbaros . "' Caixa com 3 lPs contendo gravações ao vivo, originais e inéditas do elenco da
B2. Peixe (Caetano Veloso) por Doces Bárbaros Philips-Phonogram (Maria Uethiinia, Chico Buarque, Gal Costa, Jorge ~t;n, Elis
Regina, Gilberto Gil, Jair Rodrigues, Baden Powell, Caetano Veloso, Vinicius de
B3. Um Índio (Caetano Veloso) por Maria Bethânia Moraes, Nara Leão e MPB-4). Aqui citada a partiçipaçào de Caetano em Caet1111,>
- Doces Bárbaros Vi•los<1 w1 Cm1cat<1, Teatro Tere_za Rachel, Rio de Janeiro, maio de 1974.
154 Caetano Veloso Díscogreffo 155

éps: Philips.m-6969.171 (p)1977 cps: Philips,st - 6069.21 O (p) i 978


A Piaba (Caetano Veloso) · .. A O Bater do Tambor (Caetano Veloso)
B. A Filha da Chi quita Bacana (Caetano Veloso) R Samba da Cabeça (Caetano Veloso)

Muitos Carnavais ... - Caetano Veloso 1" Muito (Dentro da Estrela Azúlada)
LP: Phonogram.st- 6349.356 (p)1977 - Caetano Veloso ·
Al. Muitos Carnavais (Caetano Veloso) LP: Phonog~am.st - 6349.382 (p) 1978
/12.. Chuva, Suor e Cerveja (Caetano Veloso) - de Al. Terra (Caetano Veloso)
1971 A2. Tempo de Estio (Caetano Veloso)
A3. A Filha da Chiquita Bacana (Caetano Veloso) -: A3. Muito Romântico (Caetano Veloso)
de 1975 ' A4. Quem Cochicha o Rabo Espicha Gorge Ben)
A4. Deus e o Diabo (Caetano Veloso) de 1973 AS. Eu Sei Que Vou Te Amar {Tom Jobim -Vinicius
AS. Pi aba (Caetano Veloso) - de 1977 , de Moraes)
A6. Hora.da Razão (Caetano Veloso)· - de 1974 Bl. Muito (Caetano Veloso)
Bl. Atrás do Trio Elétrico (Caetano Veloso) ~ de B2. Sampa (Caetano Veloso)
1969 B3. Lave, Lave, Lave (Caetano Veloso)
B2. Um Frevo Novo (Caetano Veloso) - de 1973 B4. Cá-Já (Caetano Veloso)
B3. Cara a Cara (Caetano Veloso) - de ·1974 BS. São João, Xangô Menino (Caetano Veloso
B4. La Barca (Caetano Veloso - Moacyr e Gilberto Gil)
· Albuquerque) - de 1971 . B6. Eu Te Amo (Caetano Veloso)
B5. Qual É, Baiana? (Caetano Veloso - Moacyr
Albuquerque) - 'de 1971 Maria Bethânia e Caetano Veloso ao Vivo -
B6. Guarde Seu Conselho (Luis de França - Caetano Veloso e Maria Bethânia ·
Alcebíades Nogueira) LP: Phonogram.st - 6349.386 (p) 1978
Al. Tudo de Novo (Caetano Veloso) por Caetanó
1978 Veloso e Maria Bethânia
cps:Philips-6069.193 (p)1978 · A2. Carcará Goão do Vale.:_ José Cândido) por
A Amante Amado Gorge Ben) 143 Caetano Veloso
R Pecado Original (Caetano Vefoso) 144 A3. João e Maria (Chico Buarque) por Caetano
• Veloso e Maria Bet~ânia
A4. Número Um (Maria Lago - Benedito Lacerda)
por Caetano Veloso
ii, Reúne gravações lançadas anteriormente em compact<.?s, com exceção de "Mui-
AS. Maria Bethânia (Capiba) por Caetano Veloso
tos Carnavais" e "Guarde Seu Conselho", gravadas especialmente.
1-1.'Trilha sonora do filme Com ·a Boca 1/0 Mundo.
Bl. O LeJozinho (Caetano Veloso) por Maria
114 Trilha sonora·do filme A Dama do Lotação, dt: Neville de Almeida (1978). Bethânia

·1
156 Caeta110 Veloso
Discogrefía 157
B2. Meu Primeiro Amor [Lejania] (H. Gimenez - A Massa Real (Caetano Veloso)
versão: J. Fortuna e Pinheirinho) po_l'_ Caetano B. Badauê (Môa do Catendê)
Veloso e"Maria Bethânia
B3. Falando Sério (Maurício Duboc - Carlos Colia) -1980
por Maria Bethânia •
Hino a Nossa Senhora da Purificação -
B4. Reino An.tigo (Rosinha de Valença - Maria Caetano Veloso e Maria Bethânia
Bethânia) por Caetano Veloso cps: Philips.m /promociorial 145 - 2801.044
Adeus Meu Santo Amaro (Caetano Veloso) por A Hino a Nossa Senhora da Purificação (Carlos
Maria Bethânia e Caetano Veloso · Sepúlveda)
BS. Maninha (Chico Buárq,ue) por Maria Bethânia e B. Hino a Nossa Senhora da Purificação (Caetano
Caetano Veloso Veloso)
B6. Doce Mist~rio da Vida (v. Herbert - versão: -
Alberto Ribeiro) por Maria Bethânia e Caetano 1981
Veloso Outras Palavras - Caetano Veloso
LP: Polygram.st - 6328.303 (p) 1981
1979
Al. Outras Palavras (Caetano Veloso)
Cinema Transcendental - Caetana'veloso A2. Gema (Caetano V.eloso) ·
LP: Polygram.st - 6349.436 (p)1979 A3. Vera Gata (Caetano Veloso)
Al. Lua de São Jorge (Caetano Veloso) A4. Lua e Estrela (Vinícius Cantuária)
A2. Oração ao Tempo (Caetano Veloso) AS. Sim/Não (Bolão - Caetano Veloso)
A3. Beleza Pura (Caetano Veloso) A6. Nu com a Minha Música (Caetano Veloso)
A4. Menino do Rio (Caetano Veloso) Bl. Rapte-me Camaleoa (Caetano Veloso)
AS.'Vampiro (Jorge Mautner) B2. Dans Mon Íle (M. Pon - Henri .Salvador)
A6. Elegia (Péricles Cavalcanti -Augusto de B3. Tem Que Ser Você (Caetano Veloso)
Campos, a partir d.e um poema de John Donne) B4. Blues (Péricles Cavalcanti)
Bl. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso) BS. Verdura (Paulo Leminsl::i)
B2. Louco Por Você (Caetano Veloso) B6. Quero um Baby Seu (Paulo Zdanowsl::i - Carlos
B3. Cajuína (Caetano Veloso) Siqueira) ·
B4. Aracaju (Tomaz Improta -Vinícius Cantuária - B7.Jeito de Corpo (Caetano Veloso)
Caetano Veloso).
·. BS. Badauê (Môa do Catendê)
B6. Os Meninos Dançam (Caetano Veloso)

Carnaval 80 de Caetano - Caetano Veloso i,_; Disco promocional cujos excmpbres foram doados à igreja de Nossa Senhora da

cps: Polygram.st - 6069.229 (p) 1979 Purificação, em Santo Amaro, Bahia. Em 1996, Maria Béthânia reeditou o material
em CD com a mesma finalidade.
158 Caetano Veloso Díscagrefía 159

Brasil - João Gilberto, Caetano Veloso & Gilberto B3. Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso)
Gil (participação especial de Maria Bethânia) B4. Gênesis (Caetano Veloso) por Caetano Veloso,
LP:Wea.st -BR 38.045 (p)1981 Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil
Al. Aquarela do Brasil (Ary Barroso) por Caetano B5. Sonhos (Peninha)
Veloso,João Gilberto, Gilberto Gil B6. Surpresa (João Donato - Caetano Veloso)
A2. Disse Alguém -Ali Off Me (Seymour Simmons
- Gerald Marks - versão: Haroldo Barbosa) por 1983
Caetano Veloso,João Gilberto, Gilberto Gil Uns - Caetano Veloso
A3. Bahia com H (Denis Brian) por Caetano Veloso, LP: Polygram.st - 812 747-1 8 (p)l 983
João Gilberto, Gilberto Gil Al. Uns (Caétano Veloso)
Bl. No Tabuleiro da Baiana (Ary Barroso) por A2. Musical (Péricles Cavalcanti)
Caetano Veloso, Maria Bethânia,João Gilberto, A3. Eclipse Oculto (Caetano Veloso)
Gilberto Gil A4. Peter Gast (Caetano Veloso)
B2. Milagre (Dorival Caymmi) por Caetano Veloso, AS. Quero Ir a Cuba {Caetano Veloso)
João Gilberto, Gilberto Gil A6. Coisa Mais Linda (Carlos Lyra ,-Vini;ius de
B3. Cordeiro de Nana (Mateus - Dadinho) por Moraes)
Caetano Veloso,João Gilberto, Gilberto Gil Bl. Você É Linda (Caetano Veloso)
B2. Bobagens, Meu Filho, Bobagens (Marina Lima -
cps: Philips - 6069.242 (p)l 981 Antonio Cícero)
A Sim/Não (Bolão - Caetano Veloso) B3. A Outra Banda da Terra (Caetano Veloso)
R Armandinho (Caetano Veloso) B4. Salva-Vida {Caetano Veloso) participação de
Maria Bethânia
1982 B5. É Hoje (Didi - Mestrinho) participação de
Cores, Nomes - Caetano Veloso Maria Bethânia >
LP: Polygram.st - 6328.381 {p)1982..:. gravado nos
estúdios da Polygram em dezembro de 1981 Brazil Night - Montreux 83 - Caetano Veloso
Al. Queixa (Caetano Veloso) LP: Barclay- 815 233-1 (p)1983
A2. Ele Me Deu um Beijo na Boca (Caetano Veloso) Eclipse Oculto (Caetano Veloso)
A3. Trem das Cores (Caetano Veloso) Eu Sei Que Vou Te Amar (Tom Jobim -Vinic;ius de
A4. Sete mil Vezes (Ca~tano Veloso) Moraes)
AS. Coqueiro de ltapoã (Dorival Caymmi) Folia no Matagal (Eduardo Dusek - Luiz Carlos
A6. Um Canto de Afoxé para o Bloco do llê . Góes) por Caetano Veloso e Ney Matogrosso
.(Caetano Veloso - Moreno Veloso) Maria Bethânia (Caetano Veloso)
Bl. Cavaleiro. de Jorge (Caetano Veloso) Odara (Caetano Veloso)
B2. Sina (Djavan) por Caetano Veloso e Djavan Terra (Caetano Veloso)
'T.
160 Caetaiw Veloso Discografia...._ 161

l 00/nos de Carnaval na Bahiá - Caetano Veloso AS. Kalú (Humberto Teixeira)


cps: Philips - 814 992-7 (p) 1983 Bl. Totalmente Demais (Arnaldo Brandão -
A Pra Valer (Moacyr Albuquerque) Roberio Rafael -Tavinho Paes)
B. É Hoje (Didi - Mestrinho) B2. Pra Que Mentir (Noel Rosa -Vadico)
B3. Dom de Iludir (Caetano Veloso)
1984 B4. Solidão (TomJobim -Alcides Fernandes)
Velô - Caetano Veloso BS. Cuesta Abajo (Carlos Gardél -Alfredo le Pera)
LP: Polygram.st - 824 024-1 (p)l 984 B6. Lealdade (Wilson Baptista -Jorge de Castro)
Al. Podres Poderes (Caetano Veloso) B7. Todo Amo_r Que Houver Nessa Vida (Frejat -
A2. Pulsar (Caetano Veloso -Augusto de Campos) Cazuza)
A3. Nine Out ofTen (Caetano Veloso) B8. Amanhã (Guilherme Arantes)
A4. O Homem Velho (Caetano Veloso)
AS. Comeu (Caetano Veloso) Caetano Veloso - Caetano Veloso
A6. Vivendo em Paz (Tuzé de Abreu) LP: Nonesuch - 79127 (p) 1986 - recorded
Bl. O Quereres (Ca~tano Veloso) September 1985
B2. Grafitti (Caetano Veloso -Antonio Cícero - Al. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)
Waly Salomão) A2. O-Homem Velho (Caetanó Veloso)
B3. Sorvete (Caetano Veloso) A3. Luz do Sol (Caetano Veloso)
B4. Shy Moon (Caetano Veloso) participação de Ritchie A4. Cá-Já (Caetano Veloso)
BS. Língua (Caetano Veloso) participação de Elza Soares. AS. Dindi (Tom Jobim -Aloysio de Oliveira)
A6. Nega Maluca (Fe,:nando Lobo - Ewaldo Ruy)
1986 A7. O Leãozinho (Caetano Veloso)
Totalmente Demais 146 - Caetano Veloso Bl. Coração Vagabundo (Caetano-Veloso)
LP: Polygram.st - 830 145-1 (p)1986 B2. Pulsar (Caetano Veloso -Augusto ·de Campos)
Al. Vaca Profana (Caetano Veloso) B3. Get Out ofTown (Cole Porter)
A2. Oba-Lá-Lá/Bim Bom Qoão Gilberto) B4. Saudosismo (Caetano Veloso)
A3. O Quereres (Caetano Veloso) BS. Odara (Caetano Veloso)
A4. Nosso Estranho Amor (Caetano Veloso) B6. Terra (Caetano Veloso)
AS. Calúnia (Marino Pinto - Paulo Soledade)
A6. Nature Boy (Éden Ahbez) Melhores Momentos Chico & Caetano ao Vivo 147
A7. Estranha Forma de Vida (Amália Rodrigues - - Caetano Veloso e Chico Buarque
Alfredo Duarte) LP: Som Livre.st/m - 530.045 (p)l 986

1
1' ' Gr.:ivado ao vivo no Go!den Room, do Copacabana Palace, Rio de Janeiro. " Com gravaçõ1;s do programa Chico & Caetano, da TV Globo (1986).

i,
'

161 Caetano Veloso


Discogrefia 163

Al. Festa Imodesta (Caetano Veloso) por Caetano'


Bl. "Vamo" Comer (Caetano Veloso) por Caetano
Veloso e Chico Buarque
Veloso e Luiz Melodia
/\2. Nega Maluca (Fernando Lobo - Ewaldo Ruy) B2. Canto do Bola de Neve (Caetano Veloso)
por Caetano Veloso
B3. Giulietta Masina 149 (Caetano Veloso)
Billy Jean (Michael Jackson) por Caetano Veloso B4. O Ciúme (Caetano Veloso)
A3. Roberto Corta Essa Gorge Ben) por Jorge Ben BS. Fera Ferida (Roberto Carlos - Erasmo Carlos)
A4. Adiós N onino (Astor Piazzolla) por Astor B6. Ia O mim Bum (domínio público)
Piazzolla
AS. Tiro de Misericórdia Goão Bosco -Aldir Blanc) 1988
por Elza Soares
Dedé Mamata 15º - Gal Casta, Caetano Veloso,
Bl. Não Quero Saber Mais Dela (Sombrinha - Raul Seixas, Rita Lee e Tutti Frutti, Ricardo
Almir Guine to) por Beth Carvalho, Chico Cristaldi
Buarque e Caetano Veloso LP: Somlivre.st- 402.0023 (p)1988
B2. London, London (Caetano Veloso) por Caetano Al. 'Fá Combinado (Caetano Veloso) por Gal Costa
Veloso e Paulo Ricardo
A2. Falou,Amizade (Caetano Veloso) por Caetano.
B3. Águas de Março (TomJobim) porTomJobim, Veloso
Chico Buarque e Caetano Veloso B:Z. Tigresa (Caetano Veloso) por Gal Costa
B4. Sentimental (Chico Buarque) por Chico Buarque
BS. Luz Negra (Nelson Cavaquinho e Irahy Barros) 1989
por Cazuza
Estrangeiro - Caetano Veloso
B6. Merda 148 (Caetano Veloso) por Caetano Veloso, LP: Polygram.st- 838 297~1 (p)1989
Chico Buarque, Rita Lee e Luís Caldas Al._O Estrangeiro (Caetano Veloso)
A2. Rai das Cores (Caetano Veloso)
1987 A3. Branquinha (Caetano Veloso)
Caetano - Caetano Veloso A4. Os Outros Românticos (Caetano Veloso)
LP: Polygrain.st- 832 938-1 (p)1987 ÂS. Jasper (Arto Lindsay - Peter Sherer - Caetano
AI. José (Caetano Veloso) . Veloso)
A2. Eu.Sou Neguinha? (Caetano Veloso) Bl. Este Amor (Caetano Veloso)
A3. Noite de Hàtel (Caetano Veloso) B2. Outro Retrato (Caetano Veloso)
A4. Depois Que o Ilê Passar (Miltão) B3. Etc. (Caetano Veloso)
AS. Valsa de uma Cidade (Ismael _Neto -Antonio Maria)

1
''' Idem, em razão da palavra "puta" -
''". C~mposta par.1 a peça lvliss Bamma, esta cançào teve radiodifusão e execução
1.>1•Trilha sonora do filme homônimo, de,Rodo!fo Brandão (1987). Estão referidas
pública proibidas por cau~a da palavra-título "merda".
apenas as canções de autoria de Caetano Veloso.
164 Caetano Veloso
Díscogrefia 165
B4. Meia-Lua Inteira (Carlinhos Brown) 5. Queixa (Caetano Veloso)
B5. Jenipapo Absoluto (Caetano Veloso) 6. Mano a Mano (Carlos Gardel - José Razzano -
Esteban C. Flores)
1991 7. Chega de Saudade (Tom Jobim -Vü:iicius de
Circuladô - Caetano Veloso Moraes)
o CD: Polygram-510.639-2 (p)1991 [LP: Polygram 8. Disseram Que Eu Voltei Americanizada (Vicente
- 510.639-1 (p)1991] Paiva - Luiz Peixoto)
'' 1. Fora da Ordem (Caetano Veloso)
2 Circuladô de Fulô (Caetano Veloso - Haroldo
9. Quando Eu Penso na Bahia (Ary Barroso)
10. A Terceira Margem do Rio (Milton Nascimento
de Campos) - Caetano Veloso)
3. ltapuã (Caetano Veloso) por. Caetano Veloso e · 11. Oceano (Djavan)
Moreno Veloso
4. Boas-Vindas (Caetano Veloso) por Caetano CD 2: 510 467-2
Veloso & Gilberto Gil 1. . Joker1:1-an (Bob Dylan)
5. Ela Ela (Caetano Veloso -Arto Lindsay) 2 Você E Linda (Caetano Veloso)
6. Santa Clara, Padroeira da Televisão (Caetano 3. O Leãozinho (Caetano Veloso)
Veloso) 4. ltap'uã (Caetano Veloso)
7. Baião da Penha (Guio de Moraes - David Nasser) 5. Debaixo dos Caracôis dos seus Cabelos
8. Neide Candolina (Caetano Veloso)
9. A Terceira Margem do Rio (Milton Nascimento
(Roberto Carlos - Erasmo Carlos)
6. _Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso) l
- Caetano Veloso) 7. A Filha da Chi quita Bacana (Caetano Veloso)
10. O Cu do Mundo (Caetano Veloso) por Caetano Chuva, Suor e Cerveja (Caetano Veloso)
Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil 8. Sampa (Caetano Veloso)
11. Lindeza (Caetano Veloso)
1993
]992 Marcianita - Caetano Veloso 151 •
Circuladô Vivo - Caetano Veloso maxi CD 5 faixas single: Polygram - M862 397-2
CD duplo: Polygram - 510 459-2 (p)l 992 (p)l 993
CD 1: 510 463-2
1. Marcianita GJ.Marcone -VV.AJdereto) por
1. A Tua Presença Morena (Caetano Veloso) Caetano Veloso e Os Mutantes
2. Black or White (Michael Jackson) 2 Ouro de Tolo (Raul Seixas)
Americanos (Caetano Veloso) 3. Fera Ferida (Roberto Carlos - Erasmo Carlos)
3. Um Índio (Caetano Veloso)
4. Circuladô de Fulô (Caetano Veloso - Haroldo
de Campos) '" Todas ~s faixas sào reutilizações de fonogramas.
166 Caetanoveloso Discogrefía 167

4. Sonhos (Peninha) 2. Pecado (Carlos Bahr - Pontier Francini -


5. Pecado Original (Caetano Veloso) argentina, 1975)
3. Maria Bonita (Agustín Lara - mexicana, 1941)
Tropicália 2 - Caetano Veloso e Gilberto Gil 4. Contigo en la Distancia (César P. de la Luz -
CD:Polygram-518178-2 (p)1993 cubana, 1952)
1. Haiti (música: Gilberto Gil e Caetano Veloso __: 5. R~cuerdos de Ypacarai (Zulema de Mirkin -
letra: Caetano Veloso) por Caetano Veloso e Demetrio Ortiz - paraguaia, 1953)
Gilberto Gil 6. Fma Estampa (Chabuca Granda - peruana, 1956)
. 2. Cinema Novo (música: Gilberto Gil - letra: 7. Capulhto de Aleh (Rafael Hernández - porto-
Caetano Veloso) por Caetano Veloso e Gilberto nquenha, 1931)
Gil 8. Un Vestido y unAmor (Fito Paez - argentina, 1992)
3. Nossa Gente (Roque Carvalho) por Caetano 9. Mana la O (Ernesto Lecuona - cubana, 1931)
Veloso e Gilberto Gil 10. Tonada de Luna Llena (Simón Diaz -
4. Rap Popcreto (Caetano Veloso) por vozes venezuelana, 1961) .
sampleadas 11. Mi Cocodrilo Verde (José Dol~res Quiiíone -
5. Wait Until Tomorrow (Jimi Hendrix) por cubana)
Caetano Veloso e Gilberto Gil 12. Lamento Borincano (Rafael Hernández -
6.. Tradição (Gilberto Gil) por Caetano Veloso porto-riquenha, 1930)
7. As Coisas (Gilberto .Gil -Arnaldo Antunes) por 13. Vete de Mi (Virgílio Expósito - Homero
Gilberto Gil Expósi_to - argen_tina, 1958)
8. Aboio (Caetano Veloso) por Caetano Veloso e 14. La Golondrina (N. Serradel - N. Zamacois -
Gilberto Gil mexicana, 1860)
9. Dada (música: Caetano Veloso - le.tra: Gilberto 15. Vuelvo al Sur (Astoi Piazzolla - Fernando -
Gil) por Caetano Veloso e Gilberto Gil Solanas - argentina, 1988) ·
10. Cada Macaco no Seu Galho (Riachão) por
. 1995
Caetano Veloso e Gilberto Gil .
11. Baião Atemporal (Gilberto Gil) por Caetano Fina Estampa ao Vivo - Caetano Veloso
CD: Polygram - 528918-2 (p)1995.
Veloso e Gilberto Gil
12. Desde Que o Samb~ É Samba (Caetano Veloso) 1. O Samba e o Tango (Amado Regis)
por Caetano Veloso e Gilberto Gi_l 2.. Lamento Borincano (Rafael Hernáridez)
3. Fina Estampa (Chabuca Granda)
1994 4. Cucurrncucú Paloma (Tomás Mé~dez)
Fina Estampa - Caetano Veloso 5. Haiti (Gilberto Gil - Caetano Veloso) ·
CD:Polygram-522745-2 (p)1994 6. Canção_ de Amor (Chocolate - Elano de Paula)
1. RumbaAzul (Armando Orefiche - cubana, 1942) 7. Suas Maos (Pernambuco -Antonio Maria) .

.i
Díscogrefia 169
168 Caetano Veloso

8. Lábios Que Beijei (Álvaro Nunes - Leonel-. (Caetano Veloso) por Mareio Montarroyos:
trun1pete & orquestra
Azevedo)
9. Voe~ Esteve com Meu.Bem? Ooão Gilberto - 7. Venha Cá (Caetano Veloso) por Gal Costa
Antonio C. Martins) 8. Ascânio no Jeguinho (Coração-Pensamento)
10. Vete de Mi (Virgílio Expósito ~ Homero (Caetano Veloso) por orquestra · .
Expósito) 9. Zé Esteves (Caetano Veloso) por orquestra
11. La Barca (Roberto Cantora!) 10. Tieta e Ascânio (Coração-Pensamento)
12. Ay,Amor! (Ignacio Villa) (Caetano Veloso) por orquestra
13. O Pulsar (Caetano Veloso -Augusto de 11. Coraçãozinho (Caetano Veloso) por Gal Costa e
Flora Diegues ,.1·
Campos) ·
14. Contigo en la Distancia (César Portillo de la 12. Miragem de Carnaval (Caetano Vel~so) por !-
Luz) . Zezé Mota
15. Itapuã (Caetano Veloso) 13. Leonora na Janela (Coração-Pensamento)
16. Soy Loco porTi,América (Gilberto Gil..:. (Caetano Veloso) por Jaques Morelembaum:
Capinan) cello e orquestra
17. Ton_ada de Luna Llena (Sim6n Díaz) · 14. Vento (Caetano Veloso) por Gal Costa
15. Perpétua (Caetano Veloso) por orquestra
1996 16. Tieta Vê Lucas (Venha Cá) (Caetano Veloso) por
Tieta do Agreste 152 - Gal Costa, Caetano Veloso, Gal Costa
.Zezé Motta e Didá Banda Feminina 17. Canto das Lavadeiras (domínio público) por
co: Natasha - NAT 055 - 2 (p)1996 Coro das Lavadeiras
1. A Luz de Tieta (Caetano Veloso) por Caetano 18. Construção da Casa (Coraçãozinho) (Caetano·
Veloso e Gal Costa . Veloso) por Oswaldinho do Acordeon
2 Imaculada (Caetano Veloso) por Cristina Braga: 19. O Prefeito Relembra (Vento) (Caetano Veloso)
por orquestra
harpa e orquestr4
3. O Motor da Luz (Caetano Veloso) por Gal 20. Festa (Vento, Luz, Coração, Miragem) (Caetano
Costa Veloso) por orquestra
4. Coração-Pensamento (Caetano Veloso) por 21. Cardo Vai Embora (Imaculada,Vento) (Caetano
Caetano Veloso Veloso) por Caetano Veloso ..
5. Perpétua e Zé Esteves (CaetanoVeloso) por 22. Tonha e Tieta (Zé Esteves) (Caetano Veloso) por
orquestra
Oswaldmho do Acordeon -
6. Tieta Sorri para Perpétua (A Luz de Tieta) 23. Final (Vento, Coração, Motor) (Caetano Veloso)
por Sônia Braga (texto] e orquestra .
24. Miragem de Carnaval (Caetano Veloso) por
,;~Trilha 1onora original do filme homônimo de Caci Diegues (19?6).
Caetano Veloso
170 Caetano Veloso Discografia 171

1997 13. Mel (Caetano Veloso - Waly Salomão)


Livro - Caetano Veloso Mie] (Mel) (Caetano Veloso - Waly Salomão -
CD: Polygram - 536 584 - 2 (p) 1997 versão: Willie Colón)
l. Os Passistas (Caetano Veloso) 14. Linha do Equador (Caetano Veloso - Djavan)
2. Livros (Caetano Veloso) 15. Odara (Caetano Veloso)
3. Onde o Rio é Mais Baiano (Caetano Veloso) 16. A Luz de Tieta (Caetano Veloso)
4. Manhatã (Caetano Veloso) 17. Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já
5. Doideca (Caetano Veloso) Morreu (David Corrêa - Paulinho.Carvalho -
6. Você É Minha (Caetano Veloso) Carlos Sena - Bira do Ponto)
7. 'Um Tom (Caetano Veloso) 18. Vida Boa (Fau.sto Nilo -Armandinho)
8. How Beautiful Could a Being Be (Moreno
Veloso) 1999
9. O Navio Negreiro (excerto) (Antônio de Castro Omaggio a Federico e Giulietta - Caetano Veloso
Alves) por Caetano Veloso e Maria Bethânia CD: Polygram - 73175466382 (p)l 999
10. Não Enche (Caetano Veloso) 1. Que Não Se Vê (Come Tu Mi Vuoi) (Nino Rota
11. Minha Voz, Minha Viâa (Caetano Veloso) - T.Amurri '- letra em português: Caetano Veloso)
12. Alexandre (Caetano Veloso) 2. Trilhos Urbanos (Caetapo Veloso)
13. Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso) 3. Giulietta Masina (Caetano Veloso)
14. Pra Ninguém (Caetano Veloso) 4. Lua, Lua, Lua, Lua (Caetano Veloso)
5. Luna Rossa (V de Crescenzo -A. Vian)
1998 Le Notte di Cabiria (Nino Rota) .
Prenda Minho - Caetano Veloso 6. Chega de Saudade (Tom Jobim -Vinicius de
CD:Polygram-538 332-2 (p)1998 Moraes)
1. Jorge de Capadócia (Jorge Ben) 7. Nada (Dames - Sanguinette - versão: Adernar
2. Prenda Minha (tradicional) Muharran)
3. Meditação (TomJobim - Newton Mendonça) s: Come Prima (M. Panzeri - S. di Paola - S.
4. Terra (Caetano Veloso) Taccani)
5. Eclipse Oculto (Caetano Veloso) 9. Ave Maria (Erothildes de Campos)
6. Verdade Tropical, Texto (Caetano Veloso) 10. Chora Tua Tristeza (Oscar Castro Neves -
7. Bem Devagar (Gilberto Gil) Luvercy Fiorini)
8. Drão (Gilberto Gil) 11. Coração Vagabundo (Caetano Veloso)
9. Saudosismo (Caetano Veloso) 12. Cajuína (Caetano Veloso)
10. Carolina (Chico Buarque) 13.. Gelson;úna (M. Galdieri - Nino Rota)
11. Sozinho (Peninha) 14. Let's Face the Music and Dance (Irving Berlin)
12. Esse Cara (Caetano Veloso) 15. Coração Materno (Vicente Celestino)
-
172 Caetano Veloso Díscogrefía 173

16. Patrícia (Damaso Peres 'Prado - versão:A. 7. O Último Romântico (Lulu Santos -Antonio
· Bourges) · Cícero)
17. Dama das Camélias Goão de Barro -Alcyr Pires 8. Araçá Blue (Caetano Veloso)
Vermelho) 9. Nosso Estranho Amor (Caetano Veloso)
18. Coimbra (Raul Ferrão - José Galhardo) 10. Escândalo (Caetano Veloso)
.!.
11. Cobra Coral (Caetano Veloso -Waly Salomfo)
2000 por Caetano Veloso e Lulu Santos
Noites do Norte - Caetano Veloso 12. Como uma Onda (Zen Surtismo) (Lulu Santos
CD: Universal Music- 73145483622 (p)2000 - Nelson Motta) por Caetano Veloso - Lulu
1. Zera a Reza (Caetano Veloso) Santos
2. Noites do Norte (música de Caetano Veloso 13. Mimar Você (Alain Tavares - Gilson Babilônia)
sobre texto de Joaquim Nabuco) 14. Magrelinha (Luiz Melodia)
3. 13 de Maio (Caetano Veloso) 15. Rock'n'Raul (Caetano Veloso)
4. Zumbi Gorge Ben) 16. Zera a Reza (Caetano Veloso)
5. Rock'n'Raul (Caetano Veloso)
6. Michelangelo Antonioni (Caetano Veloso) CD 2: Universal Music - 04400165292 (p)2001
7. Cantiga de Boi (Caetano Veloso) 1. Dom de Iludir (Caetáno Veloso)
8. . Cobra Coral (música: Caetano Veloso - poema: Tapinha (Naldinho)
Waly Salomão) por Caetano Veloso, Lulu Santos, 2. Carrunhos Cruzados (Tom Jobim- Newton
Zélia Duncan Mendonça)
·9. la (Caetano Veloso) 3. Tigresa (Caetano Veloso)
10. Meu Rio (Caetano Veloso) 4. Trem das Cores (Caetano Veloso)
11. Sou Seu Sabiá (Caetano Veloso) 5. Samba de Verão (Marcos Valle - ~aula Sérgio
12. Tempestades Solares (Caetano Veloso) Valle)
6. Menino do Rio (Caetano Veloso)
2001 7. Meu Rio (Caetano Veloso)
'Noites do Norte ao Vivo - Caetano Veloso 8. Gatas Extraordinárias (Caetano Veloso)
CD 1: Universal Music - 04400165272 (p)2001 9. Língua (Caetano Veloso) ·
1. Two Naira Fifty Kobo (Caetano Veloso) 10. Cajuína (Caetano Veloso)
2. Sugar Cane Fields Forever (Caetano Veloso) 11. Gente (Caetano Veloso)
3. Noites do N arte (música Caetano Veloso sobre 12. Eu e a Brisa (Johnny Ali)
texto de Joaquim Nabuco) 13. Tropicália (Caetano Veloso)
4. 13 de Maio (Caetano Veloso) 14. Meia-Lua Inteira (Carlinhos Brown)
5. Zumbi Gorge Ben) · 15. Tempestades Solares (Caetano Veloso)
6. Haiti (Gilberto Gil - Caetano Veloso) 16. Menino Deus (Caetano Veloso) .
:'! 174 Caetano Veloso Díscogrefia 175
i-,,\
:, i
;L.' 2002 2004
Eu Não Peço Desculpo - A Foreign Sound - Caetano Veloso
Caetano Veloso e Jorge Moufner CD: Universal Music - 60Z49808621 (p)2004
CD: Universal Music-04400645192 (p)2002 1. Carioca (The Carioca) (Edward Elíscu - Gus
1. Todo Errado Qorge Mautner) por Caetano Kahn -Vincent Youmans)
Veloso e Jorge Mautner 2. So in Love (Cole Porter)
2. Feitiço (Caetano Veloso)_ por Caetano Veloso, 3. I On]y Have Eyes for You (Harry Warren -AI
Jorge Mautner e Gilberto Gil Dubin)
3. Manjar de Reis Qorge Mautner - Nelson 4. It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding) (Bob Dylan)
Jacobina) por Caetano Veloso e Jorge MaLÍtner 5. Body and Sou! (Robert B. Sour ...'. Edward
4. · Tarado (CaetanôVeloso - Jorge Mautner) por Heyman - John W Green - Frank Eyton)
Caetano Veloso e Jorge Mautner 6. Nature Boy (Eden Ahbez)
5. Maracatu Atômico (Nelson Jacobina - Jorge 7. The Man I Lave (George Gershwin - Ira
Mautner) por Caetano Veloso Gershwin)
6. O Namorado (Caetano Veloso) por Caetano 8. There Will Never Be Another You (Harry
Veloso e Jorge Mautner Warren - Mack Gordon)
Urge Dracon Qorge Mautner) por Caetano 9. Smoke Gets in Your Eyes Qerome Kern - Otto
· Veloso e Jorge Mautner Harbach)
7. Coisa Assassina (Gilberto Gil - Jorge Mautner) 10. Diana (Paul Anka)
por Caetano Veloso· e Jorge Mautner 11. Sophisticated Lady (Duke Ellington - Mitchell
8. Homem Bomba Qorge Mautner - Caetano Parisli - Irving Mills)
Veloso) por Caetano Veloso e Jorge Mautner 12. Come as You Are (Kurt Cobain)
9. Lágrimas Negras Qorge Mautner - Nelson 13. Feelings (Morris Albert - Louis Gaste)
Jacobina) por Caetano Veloso 14. Summertime (Dubose Heyward - George
_ Doidão Qorge Mautner) por Jorge Mautner Gersh win - Dorothy Heyward - Ira Gershwin)
10. Morre-se Assim Qorge Mautner - Nelson 15. Detached (Arta Lindsay - Ikue Mori - Tim
Jacobina) por Caetano Veloso e Jorge Mautner Wriglit)
11. Graça Divina (Caetano Veloso - Jorge ·Mautner) 16. Jamaica Farewell (Lord Burgess)
por Caetano Veloso e Jorge Mautner. 17: Lave for Sale (Cole Porter)
12. Cajuína (Caetano Veloso) por Jorge Mautner 18. Cry Me a Ri'ver (Arthur Hamilton)
13. Voa,Voa, Perereca (Sergio Amado) por Caetano 19. If lt's Magic (Stevie Wonder)
Veloso 20. Something Good (Richard Rodgers)
14. Hino do Carnaval Brasileiro (Lamartine Babo) 21. Stardust (Hoagy Carmichael - Mitche11 Parish)
por Caet_ano Veloso e Jorge Mautner 22. Blue Skies (Irving Berlin)
23. Lave Me Tender (Elvis Presley -Vera Matson)
. 176 Caetano Vdoso Discogriifía 177

2005
Onqotô 153 - Caetano Veloso e José Miguel Wisnik
cd: Grupo Corpo
1. · Fla-Fl\l (Caetano Veloso - José Miguel Wisnik)
2. É Só Isso (Caetano Veloso - José Miguel Wisnik).
3. Madre Deus (Caetano Veloso) por José Miguel
Wisnik
4. A Cobra do Caos (Caetano Veloso - José
Miguel Wisnik) por Caetano Veloso
5. Mortal Loucura Oosé Miguel Wisnik - Gregório
de Matos) por Caetano Veloso e José Miguel
Wisnik
6. Big Bang Bang (Caetano Veloso e José Miguel
Wisnik) por Caetano Veloso
7. Tão Pequeno (Caetano Veloso - Luís de
Camões) por Greice Carvalho [2002]
8. Pesar do Mundo Oosé Miguel Wisnik e Paulo
Neves) por Caetano Veloso
9. Onqotô (Caetano Veloso e Josf Miguel Wisnik)
por Caetano Veloso e José Miguel Wisnik

1
í
1
liJ Trilha de h~é homônino do Grupo Corpo, comercializad~'apena, pelo grupo.
't
1
'
-
BIBLIOGRAFIA E SITES

[1997]
i
i
[2003]

[2005]
-
Biblivgn!f/11 t' Sih'i 181

Heber Fonseca, Caetall(\ Esse Cara. Rio de Janeiro:


', Revan, 1993.
'f Gilda KorffDieguez e Ivo Lucchesi, C.1etano. Por Que
t ]\lào?: U111a ViaJ:c111 E11trc aA11rora e a Sombra. Rio de
Janeiro: Leviatà, 1993.
: Alcir Pécora e Paulo Franchetti (org.), Cacta110 Veloso
!1 - Literat11ra Comentada. São Paulo: Abril Educação,
1981. .
j
j. Mabel Velloso, Caetano Veloso. São Paulo: Moderna, 2002.

ARTIGOS E ENSAIOS
SOBRE CAETANO VELOSO

OBRAS DE CAETANO VELOSO Daniel Augusto, "O Samba Sempre ExistiLl",


www.uoLcom.br/tropico
Alegria, Alc,gria - Uma Cactandve Ü(~a11izada por Waly Giovanna Bartucci (org.), Psica11álise arte e estéticas dC
1

Sa/0111ào. Rio de Janeiro: Pedra Q Ronca, 1977 (es- s11bjeti11açào. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
gotado). Francisco Bosco, "Cae:tano Veloso -Apontamento~ a
T/crdade Ti-opiral. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Passeio", Terceira Margem - Re11ista do Programa de
Letra Só e Sobre as Letras, Eucanaã Ferraz (org.). São Pós-graduação em Ciência da Líteraf;fra, n.11. Rio de
Paulo: Companhia das Letras, 2003. Janeiro: UFRJ, 2004.
O Mnndo Não É Chato, Eucanaã Ferraz (org.). Lisboa: David Calderoni, "O Silêncio à Luz de Caetano", em
O Independente, 2004. Versão ampliada e revista, Giovanna Bartucci (org.), Psicanálise, arte e estéticas
São Paulo: Companhia das Letras, 2005. de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
!vã Carlos Lopes e Luiz Tatit, "Ordem e Desordem
em 'Fora da Orden1"', Teresa - Revista de Literatura
Brasileira 415. São Paulo: FFLCH-USP/Editora 34,
LIVROS SOBRE CAETANO VELOSO 2003.
Stélio Marras, "Caetano Veloso, Pensador do Brasil",
Almir Chediak (org.), Caetano Veloso. Rio de Janeiro: Sexta Feira 2 - Re~ísta de Antropo!o<çzia,Arte_~ eHuma-
Lumiar Editora, 1988. nidades. São Paulo: Pletora Editora, 1998.
J\rthur Nestrovski, "Sw11111crtíme Não É Verão", Bra- Horizo11 l~{flt,c11tieth-Ce11t11ry Litcratll/'€'. Princeton, N.
uo!;jan. 2005. 1.: Princeton University Press, 2005.
Carlos Rennó, "Caetano Veloso", em Arthur Nes- Carlos Calado, Tropícálía -A História de 11111a RcvolHçao
trovski (org.), :vl,ísica Popular Brasileira Ho/c. São Pau- lvl//sical. São Paulo: Editora 34, 1997.
lo: Publifolha, 2002. Augusto de Campos, Balanço da Bos.rn e Outras Bl1ssas.
Sih..;iano Santiago, "Caetano Veloso, os 365 Dias de São Paulo: Perspectiva, [19(,8] 2003 (5' edição).
Carnaval", Cademos de Jomalís1110 e Co11111uícaçào n. Mário Chamie, "O Trópico Entrópico deTropidlia",
·411, 1973. O Estado de S. Pa11/o, 6/4/1968.
Guilherme Wisnik, José Miguel Wisnik: e Vadim Antonio Cicero, "O Tropicalismo e a MPB", Fh1r1lid11-
Nikitin, "Pólis Cósmica e Caótica - Cosmopo- dcs Sc111 Fi111. São Paulo: Companhia das Letras, 20()5.
,

litismo em Caetano Veloso", Car11111clo 111.1· 7.. São Celso Favaretto, T,,opírália -Ale._(?oría,Alcgria. S:l.o PJtilo:
Paulo: Fauusp, l 994. Ateliê Editorial, [ 1979] 1995.
!' josé Miguel Wisnik, "Onde Não Há Pecado Nem Luiz Carlos Maciel, GcraçJo c111 Transe - Afc111órias do

! i
Perdão" e "Oculto e Obvio (Entrevista con1 Caeta-
no Veloso)", A/111a11aq11e n. 6. São Paulo: Brasiliense,
1978.
Tc//lpo do Ti-opicalis1110. Rio de Janeiro: Nova Fron-
teira, 1996.
Santuza Canibraia Naves, Da Bossa No11a à Tl'opirá/ia.
_, "O Som e a Vi~ibilidade", Artéria n. 4. Santos: Se- Rio de janeiro:Jorge Zahar Editor, 1991.
cretaria de Cultura de Santos, 1992. Santuza Can1braia Naves e Paulo Sérgio Duarte (orgs.),
_, "Cajuína Trarlscendental", [-1996}, em Sem Rcccita Do Samba-Cançao à Tropiráfia. Rio de Janeiro: Relu-
- Ensaios e Ca11çõcs. São Paulo: Publifoih·a, 2Q04. me-Dumará/Fape1j, 2003.
_._. "Tudo de Novo", Movi111c11to 11. 5, S/7 /1976, em
Gilberto Gil: Expresso 2222,Antonio R,.isério (org.).
São Paulo: Corrupio, 1982.
LIVROS, ARTIGOS E ENSAIOS
SOBRE CANÇÃO E MPB

LIVROS E ARTIGOS Carlos Calado, A Divina Comédia dos ),;Jurantes. São


Paulo: Editora 34, 1995.
SOBRE O TROPICALISMO Bob Dylan, Crdnicas- Vol11111e U111. São Paulo: Planeta,
2004.
Carlos Basualdo (ed.), Ti-opicália: A Rcvol11tio11 i11 Walter Garcia, Bim Boni: A Contradição Sem Co11/litos
Brazilia11 C11/t11rc, 1967-1_972. São Paulo: Cosac de João Gilberto. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
Naify, 2005,. Gilberto Gil,-Gilberto Gil: Expresso 2222, Antonio
Nicholas Brown_, "Postmodernism as Semiperipheral Risério (org.). S_ão Paulo: Corrupio, 1982.
Sympton1", e111: Utopía11 Generatío11s..., The Po!itíca! _, Gilberto Gil-Todas as Letras, Carlos Rennó (org.).
184 Caetano Vdosõ
Bíblíogrefia eSites 185
São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (edição re-
_, "Algumas Questões de Música e Política No Bra-
vista e ampliada).
sil" [1987], em Sem Receita- Ensaios e Canções. São
Lorenzo Mammi. "João Gilberto e o Projeto Utópico Paulo: Publifolha, 2004.
da Bossa Novà", Novos Estudos 34. São Paulo:
_, "O Minuto e o Milênio - Ou Por Favor, Profes-
Cebrap, 1992.
. sor, Uma Década de Cada Vez" [1979],. em Sem
Lorenzo Mammi, Arthur Nestrovski e LuizTatit, Tris
Receita - Ensaios e Canções. São Paulo: Publifolha,
Canções de Tom Jobim. São Paulo: Cosac Naify, 2004. 2004.
Zuza Homem de Mello, Folha Explica João Gilberto.
Tom Zé, Tropicalista Lenta Lut;, São Paulo: Publifolha,
São Paulo: Publifolha, 2001. 2003.
Nelson Motta, Noites Tropicais - Solo.s,-Impr<!vísos e Me-
Paulo Tarso Cabral de Medeiros, Mutações do Sensível
m6rias Musicais. Rio d.e Janeiro: Objetiva-, 2000.
- Rock, Rebeldia e MPB P6s-68. João Pessoa:
Paulo Neves, Mixagem: O Ouvido Musical do Brasil. São Manufatura, 2004.
Paulo, Editora Max Limonad, 1984.
Torquato Neto, Torquatá/ia, Paulo Roberto Pires (org.).
São Paulo: Rocco, 2004.
Nuno Ramos, "Ao Redor de Paulinho-da Viola", em OUTRAS OBRAS SOBRE
O Estado de S Paulo, 15/5/2005. ARTE E CULTURA
Antonio Risério, Caymmi: Uma Utopia de Lugar. São
Paulo: Perspectiva, 2003.
Antonio Cícero. O Mundo Desde o Fim. Rio de Janei-
Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, A Canção ro: Francisco Alves, 1995.
No Tempo: 85 Anos de ,Músicas Brasileiras. São Paulo:
Lygia Clark e Hélio Oiticica, Cartas: 1964- 74, Luciano
Editora 34, 1998.
Figueiredo (org.). Rio de Janeiro: Editora UFRJ,
Fernando de Barros e Silva, Folha Explica ChicÔ Buarque. ,1998.
São Paulo: Publifolha, 2004.
Zé Celso Martinez Corrêa. Primeiro Ato: Cadernos,
Luiz Tatit, O Candonista - Composição de Canções no
Depoimentos; Entrevistas (1958-1974), Ana Helena
Brasil. São Paulo:Edusp, 1996.
Camargo de Staal (org.). São Paulo:Editora 34, 1998·.
_, O Século da Canção. São Paulo: Ateliê Editorial,
Rogério Duarte, Tropicaos, Narlan Matos,Mariana Rosa
2004.
e Sérgio Cohn (orgs:): R:io de Janeiro: Azo.ugue
_, "LuizTatit", em Arnaldo Cohen e_t ali, llha Deser- Editorial, 2003.
ta: Discos. São Paulo: Publifolha, 2003.
Hélio Oiticica, "Brasil Diarréia" [1973], Hélio Oiticica.
Gilberto Vasconcellos, Música Popular: De Olho na Fresta.
Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1996.
Rio de Janeiro: Graal, 1977.
· Antonio Risério. Avant-Garde na Bahia. São Paulo:
José Miguel Wisnik, "A Gaia Ciência: Literatura e Instjtuto Lina Bo e P M. Bardi, 1995.
Música Popular No Brasil" [1994], em Sem Receita
Glauber Rocha, Revolução do Cinema Novo. São Paulo:
- Ensaios e Canções. São Paulo: Publifolha, 2004. Cosac N aify, [ 1963] 2004.
-
Maria Sa111paio, Recô11cm(o, Santo Amaro. Salvador: SITES
Desenbanco, 1985.
Silviano Santiago, "Democratização_ no Brasil 1979-
1981 (Cultura Versus Arte)", em Dcclí11io da Arte - ww'Y. caetan ove l oso. com, br
\.V\.V\V. uol. com. br/ tropicalia
Asccnsao da Cu/tum, Raul Antelo, Maria Lúcia de
Barros Camargo, Ana Luiza Andrade e Tereza www. ca etano-vel oso.letras._terra. com. br
Virgínia de Almeida (orgs.). Florianópolis:Abralic/
Letras Contemporâneas, 1998.
Roberto Schwarz, "Cultura e política, 1964-ó9", O
Pai de Fa111ílja e 011tros Estudos. São Paulo: Paz e
Terra, [ 1978) 1992.
fsnúi1 Xavier, Alc,~orias do S11hdcscuvoll'i!llcllto -. Cinc-·
11w i\7o1'iJ, Tropica/is1110, Cinema .A!fm;11,i11ai. São Paulo:
Brasiliense, 1993.

FILMES E DVDS

O Ci11cma Falado,direçào: Caetano Veloso, 1986 (DVD,


2003).
O Dc111i11rgo, direçào:Jorge Mautner, 1970 (indisponí-
vel).
Os Doces Bárbaros, direção,JomTob Azulay, 1977 (dis-
ponível por enquanto apenas em VHS).
Cirm/add Vivo, direção:José Henrique Fonseca e Walter
Sallesjr., 1992 (VHS).
Outros (Doces) Bárbaros, direção:Andrucha Waddington,
2004 (DVD).
,~·

AGRADECIMENTOS

A meu pai,José Miguel Wisnik, que fez das can-


ções de Caetano a nllnha base afetiva mais profunda e
extensa. E tne deixou à vontade para estar aqui, do
outro lado do espelho;
Maria Guin1arães San1paio, minha eterna guia pra
Cidade da Bahia. Dona de um precioso arquivo sobre
"os Velloso" (que já venho consultando ao longo de
memoráveis temporadas de verão), e parceira de luxo
neste livro: na cronologia, na discografia e nas infinitas
inforn1ações trocadas pelos correios eletrônico e postal;
Arthur Nestrovski: editor querido, professor de E
hannonias e enarn:10nias, e co-autor de muitas p~ssa-
gens pre_sentes agm;
Rodrigo Velloso, que me Ievou à inesquecível
lavagem de São BraZ, e 1ne fez "rei" e1n Santo An1aro;
Vadim Nikitin: nossa parceria é uma travessia:
estrada só assovio, lua só;
Zé Tatit:Trem das Cores;
Erecê: Cinema Olympia!;
Laura: Coração Vagabundo;
Marina e Iara: Gema, Sim-Não e Maninha;
Manu Lafer: O Ciúme; ·
André Stolarski: Pipoca Moderna;
Daniel Augusto: Circuladô de Fulô;
Rodrigo Cerviii.o: paulistano reconvexo, que sabe
como ninguém rir com a risada de Andy Warho1;
Celso Sin1-Sim'. os orixás nos saudaran1;
Rodrigo Navés, Nuno Ramos, Clima, Raquel
Zangrandi, Sérgio Cohn, Maria Cesar Carvalho,
Roberto Conduru, Eucanaã Ferraz, Thyago Nogueira;
Minha mãe J;,úcia, mil1ha avó Nícia e meu •,avô
Joffre, por conta de quem eu sou baiano também;
Elaine: pra ela, esse objeto não-identificado.
--
SOBRE O AUTOR

Guilherme Wisnik é arquiteto e_ n1estre em histó~ia


social pela USP Foi crítico de arquitetura da Folha de
S.Pa11/o, escreveu o livro Lucio Costa (Cosac Naify,
2001) e o roteiro do documentário O Risco- L11cio
Costa e a Utopia Moderna (Bang Bang Filmes Produ-
ções, 2003, prêmio do júri no Festival de Gramado).
Tan1bén1 é autor do ensaio "Modernidade Congêni-
ta", incluído no Iivi;o Arquitetura A1odcnza Brasileira
(Phaidon Press, 2004).
-
FOLHA
EXPLICA

Folha Explica é uma série de livros breves, MACACOS Drauzio Varella


abrangendo todas as áreas do conhecimento e cad.a · 2 OS ALIMENTOS TRANSGÊNICOS Marcelo leile
um resumindo, e1n linguagem acessível,_ o que de
3 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE francisco Achcar
n1ais importante.se sabe hoje sobre determinado
assunto. _ 4 A ADOLESCÊNCIA Comardo Calligaris
Como o nome indica, a série an1biciona expli-
5 NIETZSCHE Oswaldo. Giacoia Junior
car os assuntos tratados. E fazê-lo num contexto bra-
sileiro: cada livro 9ferece ao leitor condições não só 6 O NARCOTRÁFICO Mário Magalháes
para que fique be1n informadq, mas para que possa
7 O MALUFISMO Maurício Puls
refletir sobre o .tema, de un1a perspectiva atual e
consciente das circunstâncias do país. 8 A DOR Joáo Augusto Figueiró
Voltada para o leitor gera~, a série serve tambén1
9- CASA~GRANDE & SENZALA Roberto Yemura
.a quem domina os assuntos, mas tem aqui um~ chance ~

de se atualizàr. Cada volun1e é escritO por um autor 10 GUIMARÃES ROSA Walnice Nogueira Galváo
reconhecido na área, que fala coni seu próprio estilo.
11 AS PROFISSÕES DO FUTURO Gilson Sch1vam
Essa enciclopédia de temas é, assim, uma enciclopédia
de vozes tal11bém: as vozes que pensam, hoje, temas de 12 A MACONHA Fernando Gabeira
todo o mundo e de todos os tempos, nesfe 1n01nento
13 O PROJETO GENOMA HUMANO Mónica Teixeira
do Brasil.
14 A INTERNET ManaErcilia 37 O CIGARRO Mano Cesar Carvalho
15 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO Amirlabaki 38 O IS LÃ Paulo Daniel Farah
16 A CERVEJA Josimar Melo 39 A MODA Erika Palomino
17 SÃO PAULO Raquel Rolnik 40 ARTE BRASILEIRA HOJE Agnaldo Farias
1s A AIDS Marcelo Soares 41 A LINGUAGEM MÉDICA Moacyr Scliar
19 O DÓLAR Joáo Sayad 42 A PRISÃO . luis francisco CaITalho filho
20 A FLORESTA AMAZÔNICA Marceloleite 43 A HISTÓRIA DO BRASIL
21 O .TRABALHO INFANTIL AriCipola NO SÉCULO 20 (1900-1920) 0scarPilagallo
22 O PT André Smger 44 O MARKETING ELEITORAL CarlosEduardolinsdaSilva
23 O PFL Eliane Camanhéde 45 O EU RO Si/via Bittencourt
24 A ESPECULAÇÃO FINANCEIRA GustavoPatú 46 A CULTURA DI GlT AL · RogénodaCosra
25 JOÃO CABRAL DE MELO NETO JoáoAlexandreBarbosa 47 CLARICE LISPECTOR YudithRosenbaum
26 JOÃO GILBERTO ZuzaHomemdeMello 48 A MENOPAUSA SilviaCampolim
27 A MAGIA António flavio Pierucci 49 A HISTÓRIA DO BRASIL
28 O CÂNCER Riad Naim Younes NO SÉCULO 20 (1920-1940) 0scar Pilagallo
29 A DEMOCRACIA Renato Janine Ribeiro 50 MÚSICA POPULAR
30 A REPÚBLICA Renato Janine Ribeiro BRASILEIRA HOJE Arthur Nestro~ki lo~.)
31 RACISMO NO BRASIL lilia Moritz Schwarcz 51 OS SERTÕES Roberto Ventura
32 MONTAIGNE Marcelo Coelho 52 JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA Aimarlabaki
33 CARLOS GOMES lorenzo Mammi 53 MACHADO DE ASSIS AlfredoBosi
34 FREUD l~i, Tenório Oliveira lima 54 O DNA ~arceio leiie
35 MANUEL BANDEIRA Murilo Marcondes de Moura 55 A HISTÓRIA DO BRASIL
36 MACUNAÍMA Noemi Jaffe NO SÉCULO 20 (1940-1960) üscarPilagallo
56 A ALCA Rubens Ricupiro
57 VIOLÊNCIA URBANA Paulo Sérgio Pinheiro e
i:;i Guilherme Assis de Almeida
/L 58 ADORNO -Mareio Seligmann-Silva
ili!
rirl, 59 os CLONES Mareia laehtermaeher-Jriunfol
J:' 60 LITERATURA BRASILEIRA Manuel da Costa Pinto
:! ;
. l ', HOJE
: 1.

1.' 61 A HISTÓRIA DO BRASIL


1,,1
i1.'. NO SÉCULO 20 (1960-1980) Osear Pilagallo
, .f 62 GRACI LI ANO RAMOS Wander Melo Miranda
1
Ti '
- 63 CHICO BUARQUE Fernando de B_arros eSilva
f,.i
·-
64 A OBESIDADE rucardo Cohen e
!'
'!i Maria Ro~ria Cunha
'íi 65 A REFORMA AGRÁRIA Eduardo xolese
1:I'' 66 A ÁGUA josé Galizia Jundisi e
f'
1;t>! Jakako Matsumura Jundisi
67 CINEMA BRASILEIRO H-• J E Pedro Bute_her
,I'
•!
_,{! 68 CAETANO VELOSO Guilhtrme Wisnik
69 A HISTÓRIA DO BRASIL
NO SÉCULO 20 (1980-2000) Osear Pila~llo
-----

j;.
\ -
tl':\
·;1.
1Ili{,,.
i'

Este l;vro foj composto nas fontes


Bembo e Geometr 41 Se impresso em
abril de 2006 pelo Prol Gráfo:o,
sobre papel ollsel 90 gim'

------- ------------ - - - - -