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Cartas ao irmão confirmam nazismo e anti-semitismo de Martin Heidegger

Correspondência do filósofo alemão com o seu irmão, Fritz, vai ser publicada na
próxima semana na Alemanha.

SÉRGIO C. ANDRADE
13 de Outubro de 2016, 21:49 actualizado a 13 de Outubro de 2016, 19:12
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Martin Heidegger FRITZ ESCHEN/ULLSTEIN BILD VIA GETTY IMAGES
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A anunciada publicação da correspondência entre Martin Heidegger (1889-


1976) e o seu irmão, Fritz, vai trazer mais achas para a fogueira da discussão
sobre o nazismo e anti-semitismo daquele que foi um dos filósofos mais
marcantes do século XX.

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No final de 1931, Martin enviou ao seu irmão, cinco anos mais novo, um
exemplar do livro Mein Kampf (A Minha Luta), de Adolf Hitler, elogiando,
numa das missivas, “o excepcional e seguro instinto político” do futuro ditador
nazi. Noutra carta, comenta a designada “manobra Papen” – a acção política do
chanceler da República de Weimar, Franz Papen, em 1932, com o objectivo de
impedir a ascensão do partido nazi – como “um complot judeu”.

As cartas entre os irmãos Heidegger vão ser publicadas, na próxima semana, na


Alemanha, pela editora Herder. Excertos dessa correspondência foram
publicados, esta quarta-feira, pelo semanário alemão Die Zeit (e também pelo
francês Nouvel Observateur), num artigo assinado por Adam Soboczynski e
Alexander Cammann. Aí se confirma – dizem os jornalistas – que o anti-
semitismo foi “um traço essencial” da filosofia de Heidegger, como de algum
modo tinha já sido revelado em 2014, com a publicação, por Peter Trawny,
dos Cadernos Negros, uma espécie de diário com notas privadas do filósofo
alemão, escritas entre 1930-70.

“As cartas são documentos-chave essenciais para compreender a obra e os seus


efeitos, já que até agora não possuíamos qualquer declaração do filósofo sobre o
seu engajamento nacional-socialista”, escreve agora Soboczynski e Cammann,
antecipando a importância que a publicação da correspondência vai ter para se
entender melhor a relação de Heidegger com o nacional-socialismo.
De facto, se as referências do filósofo ao nacional-socialismo são escassas, e se
ele foi normalmente visto como uma personalidade apolítica, afastada do
mundo real, que tinha apenas cometido alguns deslizes ideológicos entre 1933-
34, ano da subida de Hitler ao poder, as cartas vêm agora mostrar que a
realidade não era bem essa. Quando, em 1931, envia Mein Kampf ao seu irmão,
que era apenas um empregado bancário bastante distanciado do nacional-
socialismo, Martin Heidegger estava a “tentar conquistá-lo para a causa
do Führer”, defendem os autores do artigo do Zeit. “Descobrimos que
Heidegger, contrariamente àquilo em que acreditávamos até agora, é um
observador muito atento dos acontecimentos políticos”, acrescentam.

Sobre a já referida “manobra Papen”, o filósofo – que em 1933 chegaria a


inscrever-se no partido nazi – lamentava que os judeus tivessem conseguido
uma “manobra” que mostra bem como “seria difícil fazer frente a tudo aquilo
que era o grande capital”.

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“A tomada do poder por Hitler suscita, nestas cartas, ondas de entusiasmo a


favor dos novos governantes”, escrevem Soboczynski e Cammann,
acrescentando que, enquanto reitor da Universidade de Friburgo – onde entrara
como assistente do seu mestre Edmundo Husserl –, Heidegger se queixava
apenas do facto de a expulsão dos seus colegas ter significado um aumento de
trabalho para ele.

RECOMENDAÇÃO

 Deus não joga aos dados?


 Só faltava o assassino racista no esgoto a céu aberto
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Noutra carta ao seu irmão, o filósofo desculpa as “coisas bastante baixas e pouco
recomendáveis” do novo regime, quando confrontadas com “os grandes
desígnios” do Führer. E, já em 1943, Heidegger lamentava que o “espírito
germânico” corresse o risco de ser destruído pelo “bolchevismo” e pelo
“americanismo”.

A desmoronar ainda mais o mito de que o filósofo se distanciara do nacional-


socialismo, os jornalistas alemães citam uma passagem de uma sua carta ao
irmão em Julho de 1945, estava a guerra a aproximar-se do desfecho, em que
Heidegger se refere assim ao facto de alguns dos sobreviventes dos campos de
concentração terem sido alojados no seu apartamento: “É pouco agradável!

Heidegger e o ser-no-mundo
O filósofo alemão Martin Heidegger, falecido em
1976, foi um dos mais influentes pensadores do
século XX. Abandonando a teologia, mergulhou nos
gregos para tentar encontrar neles a substância
que de alguma forma amparasse o homem
contemporâneo num mundo desesperançado de
Deus. Erguendo-se contra a tradição metafísica,
voltou-se para o ser (ontologia), procurando
Martin encontrar um norte num cenário onde os valores
Heidegger (1889- da religião e da metafísica haviam sido abalados
1976)
até as suas raízes.

O Cenário do Pensamento Alemão

Um dos acontecimento intelectuais mais significativos da Idade


Contemporânea - visto que a Germânia desconheceu o Renascimento
- foi o abrupto despertar do pensamento filosófico e cientifico alemão.
Dando seus primeiros passos à época do Iluminismo e da Revolução
Francesa de 1789, o Deutschesgeist, o espírito alemão, espantou o
Ocidente por sua complexidade, diversidade, seriedade e
profundidade. Nomes como Kant, Hegel, Marx e Nietzsche, traduzidos
para a maioria dos idiomas importantes, nos dão uma idéia disso.
Martin Heidegger irá constituir com eles (com exceção de Marx, a
quem ele ignorou)

Nietzsche e Kierkegaard,
uma relação de diálogo crítico e de predecessores de
tentativa de superação que o conduziu à Heidegger
filosofia existencial. Esta ruptura com a ilustre tradição da metafísica
alemã explica-se historicamente: em 1918, o II Reich alemão
sucumbira frente a coligação de impérios e nações a que movera
guerra por quatro anos. Desde então foi como se na Alemanha
tivessem aberto a caixa de Pandora, permitindo que todo os
fantasmas e demônios viessem à luz.

O Fim das Certezas

O rápido desabamento das instituições que davam


sustentação a o regime guilhermino, corroídas pelo
esforço bélico e pela revolução que se seguiu (em
novembro de 1918 o Kaiser Guilherme II foi
deposto, sucedido pela República de Weimar, uma
coalizão de sociais-democratas e liberais),
evidentemente abalaram as certezas que os grande
sistemas filosóficos de Kant e de Hegel haviam
O herói incutido na gente culta da Alemanha imperial,
(gravura irônica abrindo caminho para que fosse desafiada por todos
de os lados.
George Grosz)
A Cultura de Weimar
O período de 15 anos que transcorreu entre a
revolução de novembro de 1918 até a ascensão de
Hitler ao poder, em janeiro de 1933, é conhecido
na história alemã como a época da Cultura de
Weimar. Foi um momento muito especial no qual
um clima derrotista e depressivo, resultante do
desastre militar de 1918, misturou-se à extrema
criatividade artística e intelectual daqueles anos O caos
bizarros. Berlim tornou-se a capital das
vanguardas nos anos 20. Notáveis foram as contribuições

nas áreas das artes plásticas, da arquitetura, do


cinema, do teatro, da literatura e da filosofia,
abrigando Otto Dix, Grosz, Kandinsky, Nolte, Gropius,
Lubitsch, Lang, Murnau e Pabst, Hauptmann, Brecht,
Reinhardt, Piscator, os irmãos Mann, Husserl e
Heidegger, identificados com as correntes do Neue
Sichklichkeit (a nova objetividade) do expressionismo,
O funcional do dadaísmo, da Bauhaus, da fenomenologia e do
existencialismo.

O Caleidoscópio Cultural
Um caleidoscópio que mostrou uma incrível e
inusitada diversidade cultural, onde imagens
tortuosas, deliberadamente deformadas, alternavam-
se com linhas retilíneas, funcionais, onde cenografias
visando a politização intercalavam-se com exposições
filosóficas despolitizantes, tudo isso em meio a muita
briga de rua entre comunistas e nazistas. Neste
cenário confuso, caótico, de descrença absoluta e de
desesperada necessidade de esperança, onde os
extremos ideológicos se enfrentavam em cada esquina
da Alemanha, nasceu o existencialismo de Martin
Brecht no Heidegger.
clima
de Weimar O Menino de Messkirch

Martin Heidegger nasceu no 26 de setembro de 1889 em Messkirch,


um lugarzinho da Suábia, nas proximidades da Floresta Negra -
coração romântico da Alemanha - filho de sacristão católico, muito
modesto, situação que o garoto escapou de repetir graças a uma
bolsa de estudos que lhe permitiu ir estudar, a partir de 1903, no
liceu de Constança. Entrou para o seminário em Friburgo em 1909 e
no ano seguinte ensaiou o seu primeiro escrito em favor do monge
Abraham a Sancta Clara, um importante sermonista barroco do sul da
Alemanha, um xenófobo e anti-semita que morrera em 1708, o qual
provavelmente afirmou ainda mais o caminho dele para interessar-se
pelos místicos alemães e depois pelo escolástico Duns Scotus (um
crítico da razão falecido em 1308).

Da mesma forma que Nietzsche, filho de um pastor,


jamais deixou de estar psicologicamente ligado às
coisas da religião, Heidegger, ainda que ambivalente,
nunca desvinculou-se da sua predisposição à mística,
daqueles seus anos de infância de menino-sineiro e de
seminarista.

Foi assistente de Edmund Husserl, o fundador da


fenomenologia, praticamente desde que o mestre
chegara à Universidade de Friburgo em 1916. No
universo acadêmico alemão daquela época ninguém Elevação
destoava da política de pleno apoio à guerra em defesa de Madalena
dos interesses do II Reich e, quando a república
democrática foi implantada, sucedendo o regime do Kaiser, a imensa
maioria dos docentes, todos ultraconservadores, não escondia o
desprezo por aquele "governo de judeus", como normalmente eles se
referiam à República de Weimar.

Nasce uma estrela


Para onde o desamparado olhar do homem europeu
sobrevivente da matança de 1918, poderia voltar-se?
Os macrossistemas de Kant e de Hegel, as
manifestações maiores do olhar racional sobre o
mundo, estavam abaladíssimos, assim como a fé em
Deus. Qualquer que ele fosse. Como imaginar um Ser
Supremo, magnânimo e bondoso, para uma geração
que viu Verdum, a batalha do Somme, a morte vinda
Husserl, o
pelo gás, pelos bombardeios inclementes, os corpos
mestre de
mutilados pela metralha apodrecendo nas trincheiras de
Heidegger
toda a Europa? A isso juntou-se o fato de que por toda
a parte as dinastias que por séculos controlavam os destinos das
gentes afogaram-se num piscar de olhos no maremoto revolucionário
de 1917-1918. Do dia para noite foram-se os Romanovs, os
Hohenzollers, os Habsburgos e outros dinastas menores, varridos
pelos povos que gritavam por sua emancipação e liberdade. A queda
de Deus, do rei, e da metafísica clássica, fez com que Heidegger,
rompido definitivamente com o catolicismo desde 1919, concentrasse
o seu interesse no ser, no ser-aqui, na existência (Dasein), vindo a
ocupar o vácuo deixado por um "mundo sem Deus", anunciando-se
no cosmo filosófico alemão como uma nova estrela do amanhã.

Existencialismo e Fenomenologia
Heidegger, para tanto, uniu o existencialismo de
Kierkegaard e a fenomenologia do seu mestre
Husserl, abolindo com os dualismos que
caracterizavam a metafísica clássica (corpo/alma,
interior/exterior, subjetividade/objetividade,
ser/parecer), mantendo porém a irredutível
separação do "eu" com o seu "próximo". Ao
privilegiar no seu famoso livro Zein und Zeit (Ser e
Tempo, 1927), o retorno da filosofia para o ser
(ontologia), imaginou que ele doravante estaria
Da floresta ao aberto, livre, pronto para eleger o que desse e
sol: o ser em viesse. "Ser-no-mundo é morar no mundo", e não
busca da estar tenuamente ligado a ele. "Ser", para
existência Heidegger, como observou Sartre, "é ser as
próprias possibilidades: é fazer-se ser". O que
importava era a autenticidade da decisão tomada. O seu limite era
dado pelo tempo, pelo prazo de vida que cada um tinha, porque era a
morte quem revelava a finitude do ser humano. Não havia mais céu
para acolher a alma, nem o regaço de Deus para depositar-se as
inquietações e as esperanças, o ser estava entregue a si mesmo, ao
nada (niilismo). Uns aceitavam as coisas assim como são, sobrevivem
apenas, "vivem" o seu cotidiano sem grandes inquietações, sem
voltar-se sobre si mesmos. Outros, ao contrário, "existem", testam os
limites da vida, lançam perguntas, indagam, enriquecem o ser,
angustiam-se, querem fugir do tédio e da ansiosidade, sensibilizam-
se.

Linhas Abertas
Apesar do envolvimento de Heidegger com o nazismo,
quando o ser-ai dele integrou-se no movimento nacional-
socialista a partir de 1931-2, sua filosofia permitiu uma
abertura de linhas e de decisões tão amplas que os seus
discípulos, admiradores e seguidores, sentiram-se
H.Arendt autorizados a seguir pelas estradas que bem lhes
aprouvessem.

Os casos mais exemplares, em que dois seguidores de


Heidegger tomaram caminhos totalmente contrários ao
do mestre, foram os de Hannah Arendt (a jovem e
talentosa estudante judia que foi sua amante), uma
exemplar crítica do totalitarismo, e o do filósofo Jean Paul
Sartre, o mais engajado nas causas da esquerda dos J.P.Sartre
pensadores do após-guerra de 1945. (*)

(*) Hannah Arendt celebrizou-se pelo ensaio Origins of


Totalitarianism,(Origens do Totalitarismo), de 1951. E J.P Sartre pelo
título marcadamente heideggeriano L 'être et le néant (O Ser e o
Nada), de 1943.

A Revolução Parda

Para Victor Faria, um ex-discípulo que tornou-se um acerbo crítico de


Heidegger nenhuma surpresa houve na adesão dele ao nacional-
socialismo. O seu passado identificado com o catolicismo
ultraconservador, sua admiração pelo monge xenófobo Abraham a
Sancta Clara, e sua simpatia para com as bandeiras do nacionalismo
extremado do após-guerra fizeram com que a sua indicação pelos
nazistas para o cargo de novo reitor da Universidade de Friburgo, em
1933, se tornasse por assim dizer natural. A sua caderneta de
membro do partido, registro 312.589 4 Gau Baden, aponta o dia 1º
de maio de 1933 como o da sua admissão, a qual se estende até
1945. Heidegger foi um entusiasta da revolução parda (a revolução
"dentro da ordem") proposta por Hitler, e foi recebido de braços
abertos pelo ministro da Cultura do III Reich, Alfred Rosemberg,
porque o nome de Heidegger - uma personalidade filosófica
internacionalmente reconhecida e alto membro do estabelecimento
acadêmico alemão -, trazia respeitabilidade à Nova Ordem. Ele, por
sua vez, sentiu que ancorado na revolução parda, poderia lançar-se
como o führer da filosofia alemã para concretizar uma nova
metafísica. Desta maneira cumprir-se-ia a afirmação
dele de que a trindade formada
pelo Dichter, Führer und Denker (o
poeta, o líder político e o filósofo),
eram os elementos constitutivos de
uma nação: o representante das artes,
era Hölderlin; o fundador do Estado era
O poeta, o chefe, e o filósofo
Adolf Hitler; e a autoridade pensante,
(Hölderlin, Hitler e Heidegger)
era ele mesmo, Martin Heidegger.

Um Mosteiro de Filósofos

Depois de ter renunciado à reitoria de Freiburg em abril de 1934, um


tanto frustrado, Heidegger tratou de levar uma nova idéia ao
Ministério da Cultura em Berlim: a Dozentakademie. Tratava-se do
projeto de criar na capital alemã uma academia de docentes pela qual
todos os que desejassem ser catedráticos nas universidades do
Estado nacional-socialista deveriam obrigatoriamente passar. Seria
algo parecido como um mosteiro de filósofos, onde gente vinda de
todas as partes teria uma vida regrada

de acordo com as determinações monacais,


entremeadas, porém, com exercícios militares.
Uma vida em comum, simples, ascética,
dedicada ao estudo, com a pretensão de renovar
e ir além do cientificismo americano "partindo de
suas necessidade interiores" (seja lá o que isso
Um invólucro significava na linguagem heideggeriana).
antigo contra
o moderno
Uma Mente Labiríntica
Naturalmente que Heidegger, como proponente,
esperava que fosse ele o indicado pela alta burocracia
como o abade-filósofo nesta tentativa de superar a
ciência especializada (característica da era da técnica,
que pessoalmente abominava). As reações não
tardaram. O ministério Rosemberg foi alertado, entre
outros pelo psicólogo Jaensch, para não entregar o
futuro dos cérebros científicos da Alemanha nacional-
socialista a uma mente tão labiríntica, "esquizofrênica",
confusa e excêntrica como a de Martin Heidegger, cujo
ensino teria efeitos pedagógicos "devastadores". A.Rosemberg,
Terminou sendo preterido, não por razões ideológicas ministro da
mas em função do temor que sua maneira nebulosa, cultura do
obscura, incompreensível de expor suas idéias, Terceiro
causaria na instituição. O projeto revela, acima de Reich
tudo, as acomodações impossíveis que caracterizaram Heidegger e
mesmo a própria revolução conservadora a quem ele aderira (o
"modernismo reacionário" como o denominou Jeffrey Herf). Para
combater a crescente especialização científica dos tempos modernos
ele imaginou, talvez como resultado da nostalgia dos seus sonhos de
menino de igreja, nada menos do que restaurar as condições de um
eremitério medieval!

O Fim

Heidegger, depois de 1945, com a derrota do Estado nazista foi


proibido por decreto de ensinar na universidade alemã até 1949, após
ter sido submetido a um inquérito. Neste espaço de tempo, devido a
Jean Paul Sartre e a outros intelectuais franceses que o admiravam, o
existencialismo ganhou o mundo. Tornou-se, no após-guerra, a
principal "moda" intelectual entre os bem-pensantes europeus e até
norte-americanos pelo menos até a entrada dos anos 60. A tortuosa
e oblíqua terminologia heideggeriana, que um crítico de direita
denominou de "alemão talmudista", produto de um "esquizofrênico
perigoso", inundou o universo acadêmico internacional até bem
recentemente. A sua filosofia como se sabe não legou um sistema,
mas inquietações: um instrumento para perguntar e questionar mas
não para responder. De certo modo pode-se considerá-lo como "o"
filósofo na medida em que ele procurou

manter, de modo intransigente, a filosofia


afastada da sociologia e da ciência, dois totens
modernos que a cercavam por todos os lados.
Heidegger, que morreu em 26 de maio de
1976, nunca retratou-se do seu apoio ao
nazismo. Certamente o seu imenso orgulho e a
sua inquebrantável arrogância, resultante da
M.Heidegger (1889- consciência de ser considerado o maior filósofo
1976)
da Alemanha no século XX, impediu-o de
reconhecer a enormidade do seu erro.

Cronologia
Data Acontecimento
1889 Martin Heidegger nasce no dia 26 de setembro em
Messkirch, filho de um sacristão local (região da Floresta
Negra na Suábia)
1903 Bolsista no Ginásio em Constança, preparação para a vida
sacerdotal, envolvido em atividades intelectuais anti-
modernistas
1915 Tese de livre docência sobre Duns Scotus (1266-1308)
1918- Discípulo e assistente de Husserl, rompimento com o
23 catolicismo. Derrota do Reich alemão na Guerra de 1914-18
1923 Início da celebridade devido suas conferencias sobre a
Ontologia, tornando-se "o rei secreto da filosofia alemã"
1927 Edição do "Ser e Tempo", obra que o consagrou como
grande pensador
1929 Confronto com E.Cassirer em Davos: existencialismo x
neokantismo
1933 Nazistas no poder: reitor na Universidade de Friburgo,
afastando-se dela um ano depois
1934 Fracassa sua abadia de sábios em Berlim, retira-se de volta
para a filosofia
1936 Conferências sobre Hölderlin e Nietzsche
1945 Derrota da Alemanha nazista na IIª Guerra Mundial.
Heidegger proibido de lecionar
1953 Reintegrado no clima da Guerra Fria, reinicia sua carreira
filosófica
1976 Morre em 26 de maio, sendo enterrado em Messkirch em
exéquias católicas

Leia mais:

HEIDEGGER

Época, vida e obras de Martin Heidegger

Página de Filosofia
Contemporânea
escrita por Rubem
Queiroz Cobra
(Site original:
www.cobra.pages.nom.br)

//////

Introdução. Filósofo alemão que escreveu sua filosofia


em linguagem altamente cifrada e, apesar de que o
dizem dificilmente compreensível, é romanticamente
cultuado por um grande número de admiradores de
fragmentos poéticos do seu pensamento sobre o Ser.
No entanto, ele próprio desistiu de suas idéias,
preferindo não publicar o segundo volume de sua obra
principal, "O Ser e o Tempo". Fervoroso adepto do
nazismo antes da derrota da Alemanha na segunda
guerra mundial, para muitos foi um pensador original,
um crítico da sociedade tecnológica do século XX. De
sua obra ficou a designação de "Existencialismo" para
a corrente de pensamento anti-determinista fundada
por Kierkegaard, à qual se filiou. Foi um escritor prolixo:
calcula-se que reunir tudo que escreveu daria uns 70
volumes

Primeiros anos e juventude. Martin Heidegger nasceu


a 26 de setembro de 1889 em Messkirch, na
Schwarzwald (Floresta Negra), Alemanha, e faleceu em
26 de maio de 1976, na mesma Messkirch, então parte
da Alemanha Ocidental. Seu pai foi um sacristão
católico, incumbido das vestes e dos objetos sagrados,
de tocar os sinos e também de cavar as sepulturas no
interior do templo. Heidegger mostrou uma
preocupação religiosa precoce e teve seu interesse
despertado para a filosofia ainda ao tempo de seus
estudos básicos, através da leitura do filósofo católico
do final do século XIX Franz Brentano. Impressionou-o
a psicologia "descritiva ", como é apresentada no Von
der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach
Aristoteles ("Dos vários significados do Ser de acordo
com Aristóteles"-1862) de Brentano. De seu estudo
inicial de Brentano procede também seu entusiasmo
pelos gregos, especialmente os pre-Socraticos. Após
terminar os estudos básicos, Heidegger entrou para a
ordem dos Jesuítas. Como noviço, estudou a
Escolástica (filosofia cristã medieval) e a teologia
tomista, na universidade de Freiburg.

Por toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado


pela possibilidade de haver um sentido básico do verbo
"ser" que estaria por trás de sua variedade de usos. As
suas concepções quanto ao que existe, são uma
Ontologia (o estudo do que é, do que existe: a questão
do Ser) dependente dos filósofos antes de Sócrates, da
filosofia de Platão e de Aristóteles, e dos Gnósticos. Foi
influenciado ainda por diversos filósofos do século XIX
e do início do século XX, principalmente pelo pensador
cristão dinamarquês Søren Kierkegaard , pelos
filósofos alemães Friedrich Nietzsche (1844-1900) e
Wilhelm Dilthey (1833-1911), e pelo seu mestre e
fundador da fenomenologia (o estudo do modo como
as coisas se manifestam), Edmond Husserl (1859-
1938).

Quando ainda em seus 20 anos, Heidegger estudou


em Freiburg com o filósofo Heinrich Rickert (1863-
1936), mais tarde fundador da escola de Baden do
pensamento neo-kantiano, e com Husserl, que era
então já famoso. A fenomenologia de Husserl, e
especialmente sua luta contra a inclusão da psicologia
nos estudos essenciais do homem – que ele sentiu que
deviam ser conduzidos, em vez, no nível filosófico –
determinou o substrato da dissertação doutoral do
jovem Heidegger (1914). Consequentemente, o que
Heidegger mais tarde disse e escreveu sobre a
ansiedade, pensamento, perdão, curiosidade, angústia,
cuidado, ou medo com certeza não se referia à
psicologia; e o que ele disse sobre o homem, não
pretendeu que fosse sociologia, antropologia, ou
ciência política. Suas proposições objetivavam
descobrir maneiras de ser.

Maturidade. Heidegger começou a lecionar na


universidade de Freiburg durante o semestre
acadêmico do inverno de 1915 e ganhou sua
habilitação com um estudo do filósofo franciscano
escocês falecido na Alemanha John Duns Scotus
(1266-1308).Moço ainda e agora um colega de Husserl,
era de esperar que levasse o movimento
fenomenológico mais longe dentro do espírito de seu
antigo mestre. Entretanto, de grande vocação religiosa,
ele preferiu seu próprio caminho, e em 1927
surpreendeu o mundo filosófico alemão com Sein und
Zeit ("O ser e o tempo", 1962) – um trabalho que,
embora quase impossível de se ler, foi imediatamente
considerado da maior importância. O livro foi aclamado
como um trabalho profundo e importante não somente
em países de língua germânica mas também nos
países latinos, onde a fenomenologia era já bem
conhecida mas a língua alemã nem tanto.

Heidegger influenciou fortemente Jean-Paul Sartre, na


França, e outros existencialistas e, apesar dos
protestos de fé do próprio Heidegger, ele foi
considerado, por força deste livro, como um líder
do existencialismo ateu. Entretanto, entre os
intelectuais ingleses, mais avessos aos modismos do
Continente, sua recepção foi um tanto fria, e sua
influência foi insignificante por várias décadas.

Em "O ser e o tempo", o propósito declarado de


Heidegger é trazer à luz o que significa ser para o
homem, ou "como é ser". Pode se dizer que o aspecto
messiânico da sua filosofia está em levar cada homem
a fazer essa pergunta com o máximo envolvimento. Na
crise atual da humanidade, já seria bastante que o
homem se detivesse nesta reflexão; e se ele
eventualmente chegará ou não a qualquer resposta
definitiva, torna-se de importância secundária. Sem
esta reflexão, o homem segue uma maneira não
autêntica de ser, em uma alienação que o
desenvolvimento tecnológico agrava cada vez mais.
Na ocasião da publicação de "O ser e o tempo",
Heidegger era professor "ordinarius" em Marburg onde
lecionou por diversos anos (desde 1923). Renunciou a
esse lugar e, em 1928, retornou a Freiburg, desta vez
como o sucessor de Husserl. Seu discurso de posse na
cátedra foi Was ist Metaphysik?("Que é Metafísica?"-
1929) no qual elabora um de seus temas favoritos, das
Nichts; isto é, "o Nada".

Adesão ao Nazismo. No início dos anos 30 ocorreu


uma reviravolta no pensamento de Heidegger, um giro
afastando-o do problema do ser e do tempo. Isto foi
negado por ele, que insistiu que toda a vida, desde sua
juventude, estivera fazendo aquela mesma pergunta
fundamental, mas em seus últimos anos tornou-se
claramente mais relutante em voltar ao assunto, e a
oferecer qualquer resposta ao problema básico do ser
e do tempo.

Aproximadamente na época dessa reviravolta ocorreu


também sua adesão ao nazismo, curta devido
certamente apenas ao desenlace desfavorável da
guerra, mas nem por isso uma participação menos
eloqüente. Seu envolvimento com a política cultural do
terceiro reich teve início mesmo antes de Adolf
Hitler assumir o poder em novembro de 1933. Com o
crescimento do Partido e sua penetração nos meios
intelectuais, as universidades alemãs foram expostas a
pesadas pressões. Esperava-se que apoiassem a
"revolução nacional" e eliminassem os intelectuais
judeus e suas doutrinas (tais como a da relatividade). O
reitor em Freiburg, um cientista anti-nazista, renunciou
como protesto, e a equipe de professores elegeu
unanimemente o engajado Heidegger como seu
sucessor.

Como Heidegger aprendeu com Husserl, é o método


fenomenológico e não o método científico que revela os
modos de ser do homem. Assim, ao seguir este
método, Heidegger cai em conflito com a dicotomia da
relação sujeito-objeto, que implicou tradicionalmente
que o homem, como cognescente, é algo (alguma
coisa) dentro de um ambiente que ele confronta. Esta
relação, entretanto, deve ser transposta porque,. ao
contrário, o Saber mais profundo é matéria
do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a
palavra da qual "phenomenologia", como um método, é
derivada. Algo está exatamente "lá" na luz. Assim, a
distinção entre o sujeito e o objeto não é imediata mas
vem somente mais tarde com a conceitualização, como
nas ciências.

O discurso de posse de Heidegger na reitoria ("A auto-


afirmação da universidade alemã") foi uma ampla
afirmação de Nazismo. Para garantir, ele dividiu as
tarefas dos estudantes em serviço do trabalho, serviço
militar, e serviço científico. Porém, para seus
admiradores, ansiosos por livrá-lo tanto quanto possível
de compromissos com a ideologia nazista, Heidegger
estava apenas copiando a política educacional
autoritária de Platão, e afinal, alegam, o discurso
sequer terminou com um "Heil, Hitler!", mas com uma
citação da república de Platão: "todas as grandes
coisas se expõem ao perigo".

No entanto, em seu discurso Heidegger não mostra


adesão última à filosofia nazista. No texto ele incita à
pergunta "o que é ser?", coloca sua advertência contra
perder-se alguém em "coisas" que o alienam do ser
autêntico (Seiendes), e opõe-se à especialização
científica. Porém, entrou para o partido nazista e
apesar de renunciar à reitoria em 1934, em várias
ocasiões pronunciou sólidos discursos pro-Hitler.
"o Führer ele mesmo," disse Heidegger, "e somente ele
é a realidade alemã, presente e futura, e sua lei". Não é
de se esperar que o defensor da autenticidade não
fosse ele mesmo autêntico, inclusive enquanto nazista.

A história do Nacional-Socialismo depois de 1934, e até


o fim da II Guerra Mundial, pode ser dividida em duas
partes com aproximadamente igual duração de seis
anos. É importante – para compreender a adesão de
muitas pessoas inteligentes e sensatas ao nazismo –
, reconhecer que o primeiro período foi de promessas
que pareciam de realização justa e eminente e,
aparentemente, apenas o segundo foi marcado por
inquestionáveis crimes cometidos pelo partido até a
desilusão e a derrota final. Os anos entre 1934 e 1939,
foram gastos pelo Partido em estabelecer o inteiro
controle em todos os níveis da vida na Alemanha.
Durante aqueles anos Hitler e seu movimento
ganharam o apoio e mesmo o entusiasmo da maioria
da população alemã. Muitos alemães haviam crescido
conscientes dos conflitos políticos, da instabilidade
econômica e política, e da desordem geral que
caracterizou os últimos anos da República de Weimar.
Eles saudaram com crescente esperança o forte,
decisivo, e aparentemente competente governo
implantado pelos nazistas. Após 1934 a interminável
horda de ociosos na Alemanha rapidamente diminui na
medida em que os desempregados eram colocados a
trabalhar em projetos de obras públicas e nas fábricas
de armamento que se multiplicavam rapidamente. Os
alemães foram naturalmente arrastados para esse
movimento de massas ordeiro, poderosamente
objetivo, destinado a restaurar a dignidade, o orgulho e
a grandeza do seu país, e devolver-lhe o primeiro lugar
no palco europeu. A recuperação econômica dos
efeitos da Grande Depressão e o forte nacionalismo
alemão eram, assim, os fatores-chave no apelo do
Nacional-Socialismo para a população alemã.
Finalmente, os êxitos constantes de Hitler no campo
diplomático e suas conquistas externas a partir de 1934
até os primeiros anos da II Guerra garantiu o apoio
incondicional da maioria dos alemães, inclusive, muitos
que haviam inicialmente se oposto a ele.

Últimos anos. Em novembro 1944 Heidegger parou de


lecionar. A invasão da Alemanha derrotada pelas
potências aliadas tornou difícil a situação dos nazistas
mais destacados. Em 1945 ele foi proibido de lecionar
oficialmente e suas atividades nazistas foram
investigadas. Não foi incriminado em nenhum dos
crimes praticados pelos partidários de Hitler e por isso
não perdeu seus direitos a uma aposentadoria. Deu
regularmente influentes conferências nos anos 1951-
58, e continuou um intelectual importante dentro do
movimento fenomenológico internacional até seu
falecimento em 1976.

FILOSOFIA

O conhecimento. Tradicionalmente, o conhecimento


implicava a dicotomia da relação sujeito-objeto, em que
o homem, como cognoscente, é algo dentro de um
ambiente que ele confronta (separadamente um
conceito de sujeito e um conceito de objeto). Para
Heidegger, esta relação deve ser transposta. O Saber
mais profundo, ao contrário, é matéria
do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a
palavra da qual fenomenologia, como um método, é
derivada. Algo está exatamente "lá" na luz. Assim,
neste conhecimento profundo, a distinção entre o
sujeito e o objeto não é imediata mas vem somente
depois com a conceitualização, como nas ciências .
Então o homem existe segundo certos fenômenos, que
são os modos como ele está lá, na luz (Dasein, "o ser"
em alemão é, etimologicamente, a palavra da, que
significa "lá" com a palavra sein, que significa "estar")

Terminologia. Heidegger evita termos das ciências


sociais ou da psicologia tanto quanto possível, em favor
de uma terminologia ontológica. Viu-se então na
necessidade de criar uma terminologia nova, palavras
novas para exprimir seu pensamento. Foi criticado por
desenvolver seu próprio alemão, seu próprio grego, e
seu próprio tipo de etimologias. Inventa, por exemplo,
aproximadamente 100 palavras complexas novas que
terminam com "- sendo." Ao ler seus trabalhos se deve,
assim, traduzir muitos de seus termos chaves de volta
em palavras gregas a fim de entender suas
interpretações e etimologias. Isto faz um risco que, ao
"interpretar" a filosofia de Heidegger, alguém esteja na
verdade, criando, pelo menos em parte, sua própria
"filosofia de Heidegger"

Os existenciais. Heidegger divide a existência em três


"estruturas existenciais": afetividade, fala e
entendimento. São três fenômenos existenciais que
caracterizam como as coisas do passado, do presente
e do futuro se manifestem para o homem e a unidade
desses três fenômenos constitui a estrutura temporal
que faz a existência inteligível, compreensível..

1) a afetividade: as coisas do passado chegam ao


homem como valores, afetando-lhe os sentimentos,
que podem ser públicos, compartilhados, e
transmissíveis.

2) a fala: no presente, as coisas se traduzem em


palavras da linguagem na articulação dos seus
significados

3) o entendimento: as coisas do futuro, onde o projeto


que define o homem encontrará a morte, são as coisas
não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele
o sentimento de que não está em casa neste mundo,
mesmo estando entre as coisas que lhe são mais
familiares.

Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e


está dado, - existe -, nestes três fenômenos, nestes
três "existenciais".

A alienação. O homem está fora das coisas, diz


Heidegger em "O ser e o tempo", nunca sendo
completamente absorvido por elas, mas não obstante,
não sendo nada, à parte delas. O homem vive, até o
fim, em um mundo no qual ele foi jogado. Sendo algo
jogado em meio às coisas, estando-lá (Da-sein),
constitui algo à parte (Verfall) mas está no ponto de ser
submergido nas coisas. É continuamente um projeto
(ent-wurf); mas ocasionalmente, ou mesmo
normalmente, pode ser submergido nas coisas a tal
ponto que é absorvido nelas temporariamente
(Aufgehen in). O homem encobre aqueles
condicionantes existenciais, - aquilo que ele de fato é -,
entregando-se a uma rotina de superficialidades
"públicas" na vida cotidiana. Não é então ninguém em
particular; e uma estrutura que Heidegger chama das
Man ("o eles ") é revelada, como uma tendência da
alienação de si mesmo que leva o homem à tendência
de se conhecer apenas através da comparação que faz
de si mesmo com os outros indivíduos seus pares.

A característica do das Man é a conversa inócua


(Gerede) e curiosidade (Neugier). No Gerede, o que
fala e o ouvinte não estão em nenhuma relação
pessoal genuína ou em qualquer relação intima com
aquilo sobre o que falam, o que, portanto, conduz à
superficialidade. A curiosidade é uma forma de
distração, uma necessidade para o "novo," uma
necessidade para algo "diferente," sem interesse ou
capacidade de maravilhar.

A angústia. Mas uma coisa pode acontecer que


desperta o homem dessa alienação, a angústia (Angst).
Ela resulta da falta de base da existência humana. A
"existência" é uma suspensão temporária entre o
nascimento e a morte O projeto de vida do homem tem
origem no seu passado (em suas experiências) e
continuam para o futuro, o qual o homem não pode
controlar e onde esse projeto será sempre incompleto,
limitado pela morte que não pode evitar.

A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a


liberdade (Frei-sein) como uma potencialidade. Ela
enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si
mesmo.

Na angústia, a relevância do tempo, da finitude da


existência humana, é experimentada então como uma
liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das
Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um
contínuo "estar relacionado com" sua própria morte
(Sein zum Tode). Na angústia, todas as coisas, todas
as entidades (Seiendes) em que o homem estava
mergulhado se afastam, afundando em um "nada e em
nenhum lugar," e o homem então em meio às coisas
paira isolado, e em nenhuma parte se acha em casa
(Un-heimlichkeit, Un-zu-hause). Enfrenta o vazio, a
"nenhuma-coisidade" (das Nichts); e toda a "rotinidade"
desaparece – e isto, para Heidegger, é bom, uma vez
que ele então encontra a potencialidade de ser de
modo autêntico.

Assim, a angustia "sóbria" (nüchtern) e a confrontação


implicada com a morte são primeiramente ferramentas,
têm importância metodológica: certos fundamentos são
revelados. A ansiedade abre o homem para o ser.

Entre as estruturas reveladas estão as potencialidades


do homem para ser alegremente ativo ("conhecer a
alegria [die wissende Heiterkeit] é uma porta para o
eterno"). Isto não quer dizer que o ser participa do lado
negro do desespero, da angústia; o ser é associado
com a " luz " e com " a alegria " (das Heitere). Pensar
o ser é chegar ao verdadeiro lar.

Por isso, dos três existenciais, Heidegger privilegia o


futuro, porque esta projeção para o advir e o golpe da
devolução no embate com a morte que lá está é que o
leva a pensar e à autoconscientização.

O homem pode então introduzir esse conhecimento


existencial no projeto de sua vida, e assim se apropriar
da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se
autêntico, não mais um ente sem raízes.

Essa visão existencial do homem, em que ele se


conscientiza das estruturas existenciais a que está
condicionado e que o tira da superficialidade em que
desenvolve seus conflitos tornou-se sedutora para a
psiquiatria, surgindo ai proeminentes terapeutas
existencialistas como Binswanger, Boss e Ronald
Laing.
CONCEITOS DO EXISTENCIALISMO VISTOS SOB A ÓTICA DE MARTIN
HEIDEGGER

FILOSOFIA
Martin Heidegger, existencialismo, conceitos, influências das correntes filosóficas na
criação de abordagens psicológicas.
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O episódio das duas grandes guerras mundiais abalou de maneira intensamente negativa
toda a humanidade; pode-se dizer que os episódios horrendos das guerras abalaram até
mesmo a confiança da humanidade em si mesma. Nesta fase os valores chegaram a ficar
confusos em meio a tanta desgraça. Além disto, as guerras também demonstraram o
vazio que permeava os sistemas filosóficos da época, como o idealismo e o positivismo,
etc; os quais eram limitados no que diz respeito a compreensão de aspectos
fundamentais da humanidade (existência humana) e do mundo. Diante disto percebeu-se
a urgência de novas correntes filosóficas / uma renovação da filosofia. E foi aí que
surgiu o Existencialismo, e, através dele uma nova maneira de ver e interpretar as
coisas, e o sentido da existência.

A corrente existencialista ocupa-se antes, e acima de tudo, do ser humano. Sendo que
suas características fundamentais são: o método fenomenológico (esclarecimentos no
âmbito das experiências / fenômenos tal como ocorrem / de tudo aquilo que somos
conscientes); ponto de partida antropológico; e interação de dimensões do homem. O
Existencialismo é a, segundo Mondin (1977), “corrente de pensamento que concebe a
especulação filosófica como uma análise minuciosa da experiência cotidiana em todos
os seus aspectos, teóricos, e práticos, individuais e sociais, instintivos e intencionais...
da raça humana”.

Este artigo fala sobre o filósofo Martin Heidegger, um dos mais influentes filósofos do
Existencialismo (embora ele tenha negado tal título). O trabalho expõe a época na qual
o filósofo vivia; um pouco de sua história pessoal; suas principais obras; e a forma
como interpretava conceitos por ele criados (por exemplo, o conceito de existências), e
também como interpretava conceitos já existentes (como, ser, ente, existência,
temporalidade, morte, linguagem, e verdade). Tudo com base em material extraído de
livros, do próprio filósofo e também de outros autores.

O objetivo deste artigo é esclarecer dúvidas a respeito dos conceitos citados. E informar
um pouco a respeito do surgimento e dos pressupostos filosóficos da fenomenologia e
do existencialismo. Com o objetivo de possibilitar a compreensão da influência que
estas correntes filosóficas tiveram na criação de algumas abordagens psicológicas.

Conceitos

A primeira especulação de Heidegger, puramente ontológica (parte da filosofia que trata


da natureza do ser), é toda orientada para a solução desta questão. De acordo com
Heidegger, a questão do ser, embora sempre estudada ao longo da história da filosofia,
jamais foi resolvida; sendo até muitas vezes deturpada (uma vez que outros filósofos
estudavam aspectos particulares / algumas “partes” do ser, e não este como um todo).
Em Ser e Tempo, sua obra mais reconhecida, ele faz uma elaboração concreta à cerca
do sentido do ser; não de forma conceitual, mas sim de maneira interpretativa. Ele
elabora uma análise existencial a partir do método fenomenológico; o qual, Heidegger
considera o único possível ao esclarecimento e interpretação dos fenômenos da
existência.

Segundo Heidegger (2005), “o ser não somente não pode ser definido, como também
nunca se deixa determinar em seu sentido por outra coisa nem como outra coisa. O ser
só pode ser determinado a partir do seu sentido como ele mesmo”. Ou seja, o ser é
autônomo, independente, e indefinível.

O ser nunca se manifesta direta ou imediatamente, mas sim como ser de um ente.
Aquilo que faz presente o ente e que o ilumina, mas que também se faz presente e
manifesta-se no ente. A compreensão do ser está sempre incluída em tudo que se
apropria do ente; porém, o ser não é um ente. Vem daí a confusão básica, e que
precisamos tomar cuidado ao abordá-la, entre ser e ente, e suas compreensões. O ente é
um modo de ser e é determinado por este. O ente é tudo aquilo de que falamos / nos
referimos; diz respeito a muitas coisas e em sentidos diferentes (como um cachorro, um
pássaro, e até mesmo uma cama ou uma cadeira); é o que somos e como somos.

Porém, o homem é o único ente cujo qual podemos ter acesso ao ser, o qual podemos
extrair o sentido do ser; ele é um ente que tem relação singular com seu ser. Portanto,
quando Heidegger aprofunda esta questão do ser e da existência ele parte deste ente
singular e consciente que é o ser humano. A filosofia do ser parte da análise da
existência desta presença.
Heidegger define como existência toda a amplitude das relações recíprocas entre esta
(existência) e ser, e entre esta e todos os entes; através de um ente, que ele julga
privilegiado, que é o homem. E complementa que, de acordo com esse significado, só o
homem existe; que outras “coisas” são, mas não existem. O homem é privilegiado,
segundo Heidegger (2005), devido, “a aceitação do dom da existência que lhe entrega a
responsabilidade e a tarefa de ser e assumir esse dom”. Uma vez que o homem só pode
ser, de acordo com o filósofo, “compreendido a partir da sua existência, da possibilidade
(que lhe é própria) de ser ou não ser ele mesmo”. Abrão (2004) diz que, “a existência é
o modo de ser deste ente que é o homem”.

Heidegger identifica, através de sua pesquisa antropológica, traços fundamentais


característicos do ser, aos quais denomina existenciais. O primeiro existencial é o ser-
no-mundo (mundo no que se refere a “tudo”: círculo de conhecimentos, afetos,
interesses, desejos, preocupações, etc); ou seja, o ser está sempre em relação com algo
ou com alguém. Heidegger afirma que o homem é sempre um ser-no-mundo, ou seja,
um ser-em-situação. Porém, que ele não está preso à situação em que se encontra; mas
sim, sempre aberto para tornar-se algo novo.

O segundo traço existencial / fundamental característico de ser é a existência (conceito


citado anteriormente). De acordo com Mondin (1977), “Heidegger chama existência a
esta característica do homem de ser fora de si, diante de si, por seus ideais, por seus
planos, por suas possibilidades”. Ele afirmava que a existência é definida por esta
característica do homem que é denominada transcendência. Sempre nos projetamos
para além do que somos diante do mundo, somos seres dinâmicos (pensamos no futuro,
nos preocupamos com o que nos acontece, escolhemos possibilidades,
fundamentalmente nos antecipamos, superamos o presente), ou seja, transcendemos o
que somos a cada momento. A natureza do homem, ou seja, sua essência, consiste na
sua existência; esta precede e determina esta essência.

Através dos conceitos destes dois existenciais percebe-se a relação que o ser tem com o
tempo, devido a sua existência e sua situação no mundo.

O terceiro existencial que Heidegger identifica é a temporalidade. Temporal significa o


transitório / o que passa com o tempo, no decurso deste; mas não o tempo em si. Para
Heidegger a situação existencial é inseparável da temporalidade; o homem só existe
porque está essencialmente ligado ao tempo. Pois o existir é construir o futuro (“é isto
que distingue o homem dos entes que são prisioneiros do presente” (Abrão, 2004)). A
temporalidade une a essência com a existência, une os sentidos do existir; é o que torna
possível a unidade da existência, constituindo assim a totalidade das estruturas do
homem. Muito mais do que uma soma de momentos, mas uma compreensão, no sentido
mais amplo, do passado, do presente, e do futuro. É isto que faz com que o homem,
segundo Mondin (1977), “não repouse no ser, mas que, no seu verdadeiro ser, ele se
encontre sempre além de si mesmo, nas suas possibilidades futuras”. Uma vez que o ser
humano é o único ente possibilitado de realizar uma união consciente entre o que já foi
e o que é ou será; e de “recomeçar” ou “reconstruir” sua vida. Para Heidegger o
presente é um misto de retomada do passado e de antecipação do futuro. Heidegger
afirmava que existir é o mesmo que temporalizar-se. Uma vez que o ser, enquanto
presença / existência, é determinado pelo tempo; e que este é também determinado
através de um ser.

Outro existencial, ou seja, estrutura fundamental característico do ser é a morte. Este


existencial é a maior das certezas humanas. O ser está sempre nesta possibilidade. O
homem é, sobretudo um ente que está no mundo para a morte. Contudo,
paradoxalmente, (antes da própria morte) só temos experiência com esta indiretamente,
através da morte dos outros. A medida em que vivemos, a “idéia” de morte é algo que
cresce e se desenvolve em nós. Heidegger afirma que a morte é uma possibilidade
presente constantemente, e não distante. O filósofo afirma que esta possibilidade (a
morte) é a última que o homem realiza; que enquanto ela chega falta ao homem alguma
coisa, algo que ainda será. Ou seja, a vida humana só torna-se um todo por intermédio
da morte. Heidegger, assim como outros autores, definem a morte como a única maneira
de atingir a individuação, ou seja, conquistar a totalidade de sua vida (pois antes da
morte a individuação existe apenas enquanto potencial); ele a chama de princípio de
individuação, uma vez que a morte é a única possibilidade que determina a totalidade do
ser, que o limita, e que lhe permite ser completo.

Sendo assim, quando se assume a tarefa de elaboração para uma resposta acerca da
questão do ser torna-se precipitado e impossível descrever-se este isoladamente de
outros conceitos; uma vez que o ser está sempre direta ou indiretamente relacionado
com outros destes. De acordo com isto, torna-se possível à compreensão da união, que
Heidegger faz, de ser e tempo, ao abordar essa questão tão complexa da filosofia: os
fenômenos da existência.

Assim como a filosofia do ser e do homem é fundamental e essencial para Heidegger,


a linguagem ocupa também um lugar especial na filosofia heideggeriana. Uma vez que
não existe uma ontologia autônoma, isto é, sem a antropologia; já que é no homem que
o ser vem á luz da consciência. Assim como a antropologia e a ontologia são
impossíveis sem a semântica. Por isto, é através da linguagem que se dá à aparição do
ser.

Heidegger considera a linguagem em relação com o ser, isto é, na sua função


ontológica. Esta relação se dá através de duas formas de linguagem: uma original e
outra derivada.

A linguagem original exprime diretamente o ser, mostra-o, revela-o e o traz para a luz.
Esta linguagem não se baseia em nenhum sinal particular, num simples conjunto, mas
dela se originam todos os sinais. Quando se considera a estrutura do dizer original, não
é possível atribuir o mostrar nem o operar humano. Heidegger atribui á linguagem
original uma densidade ontológica fundamental. A palavra não é somente o sinal da
“coisa”, mas também aquilo que sustenta o ser de todas as coisas.

A linguagem derivada é a linguagem humana, a qual consta de duas fases: a de


resposta e a de proclamação. Estes dois traços óbvios do falar humano cotidiano (o
ouvir e responder), estão enraizados no plano mais profundo. È a linguagem derivada
que vai fazer a conexão entre linguagem original e linguagem humana; a fim de
incumbir o ser humano de fazer esta transferência do dizer original (que não tem som)
para o som da palavra.

Outra questão importante para Heidegger é o que diz respeito à essência da verdade.
Ele deixa de se preocupar com as várias “verdades” abordadas em tantos campos da
vida humana (como, por exemplo, a verdade da pesquisa científica, da filosofia, da
religião ou experiência de vida), mas dirige seu olhar para aquilo que caracteriza
unicamente toda a “verdade” enquanto tal.

O verdadeiro, seja uma coisa verdadeira ou uma proposição verdadeira, é aquilo que
está de acordo, que concorda. Verdade é adequação do conhecimento com a coisa, a
verdade como conformidade; os objetos se conformam de acordo com os nossos
conhecimentos. Sendo assim, necessariamente uma interpretação é relativa a essência
do homem como sujeito que é portador e realizador do intellectus.

Admite-se como igualmente evidente que a verdade tem o contrário, e que a não
verdade pode ser compreendida como não estar de acordo.

A verdade passa a ser agora definida como adequação do olhar ao objeto, como
correspondência entre o modo de ver a natureza da coisa. Encontrado, por exemplo, na
fórmula aristotélico-escolástica; segundo a qual a verdade é a adequação do intelecto
com a coisa. A verdade se torna mais uma relação sujeito-objeto (base de toda nossa
concepção de epistemologia central no pensamento moderno; mas que se origina de
acordo com esta interpretação).

A essência da verdade é a liberdade, a essência é o fundamento da possibilidade que é


inerente daquilo que é admitido como conhecido. Verdade significa o velar iluminador
enquanto traço essencial do ser. A questão da verdade se encontra na proposição: a
essência é a verdade da essência.

“O homem é o ”guarda do ser”, mas só cumprirá está missão se souber preservar a


dignidade do ser, isto é, se souber defender a sua incompreensibilidade, a sua
inegabilidade, a sua transcendência sobre tudo aquilo que é puramente categorial. O
homem permanece sempre só com a natureza, isto é, com o imediato; jamais poderá ele
encontrar imediatamente o esse ipsum (o “próprio ser”). Mas o homem sabe que o ser
dá a todo ente a “garantia do ser”; sem ela, todo ente permaneceria no nada, na privação
absoluta do ser. Mas o modo pelo qual se dá este constituir-se do ente por meio do ser é
coisa que não lhe é dado saber”. (Mondin, 1977)

Por Adriano Watanabe; Alessandra Bressam; Poliana P. M. Pardal

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRÃO, Bernadette. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural Ltda, 2004.
(Coleção Os Pensadores).

FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia. 24ª ed. Rio de Janeiro: Agir,
1990.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 14ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

MARCONDES, Danilo. Iniciação á Historia da Filosofia: dos Pré-Socráticos a


Wittgenstein. 9a ed. São Paulo: Jorge Zahar, 2006.

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. 6a ed. São Paulo: Paulus, 1977.

SCHUTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. História da Psicologia Moderna. 16ª ed. São
Paulo: Cultrix, 1992.

STEIN, Ernildo. Martin Heidegger: conferências e escritos filosóficos. São Paulo:


Nova Cultural Ltda, 2005. (Coleção Os Pensadores).

Publicado por: Poliana Priscila Matos Pardal

Martin Heidegger (Meßkirch, 26 de setembro de 1889 – Friburgo em


Brisgóvia, 26 de maio de 1976) foi um filósofo, escritor, professor universitário e
reitor alemão. Ele é visto como o ponto de ligação entre o existencialismo
de Kierkegaard a fenomenologia de Husserl. Sua preocupação maior foi a de
elaborar uma análise da existência, ou seja, esclarecer o verdadeiro sentido do
ser.

Índice
[esconder]

 1Biografia
 2Filosofia
 3Conceitos fundamentais
o 3.1Dasein
o 3.2Neokantismo
o 3.3Husserl
 3.3.1Fenomenologia
o 3.4Dilthey
o 3.5Kierkegaard
 4Estudiosos lusófonos da obra de Heidegger
 5O pensamento de Heidegger e a psicoterapia
 6Publicações
 7Bibliografia
 8Ver também
 9Referências
 10Ligações externas

Biografia[editar | editar código-fonte]

A cabana onde Heiddeger escreveu a maior parte de Ser e Tempo


Nascido na pequena cidade de Meßkirch, distrito de Kaden, no interior da
Alemanha. Inicialmente quis ser padre e chegou mesmo a estudar teologia
na Universidade de Freiburg. Depois, estudou filosofia na mesma Universidade,
com Edmund Husserl, o fundador da fenomenologia.
Em 1913, doutorou-se em Filosofia. Ao estudar os clássicos protestantes
de Martinho Lutero, João Calvino, entre outros, enfrentou uma crise espiritual e
rompeu com o catolicismo. Em 1917 se casa com a Luterana Elfrid Petri.[1]
Em 1916, como tese de habilitação ao ensino universitário, publicou A Doutrina
das Categorias e do Significado em Duns Escoto. Mais tarde descobrir-se-ia
que a obra de Escoto considerada por Heidegger, isto é, a Gramática
Especulativa não era de Duns Escoto. Mas isso não tinha muita relevância no
pensamento de Heidegger, já que o seu trabalho, com os interesses
metafísicos e teológicos que dominam, é mais teórico do que histórico.
Nesse meio tempo Husserl foi chamado a ensinar em Friburgo e Heidegger o
seguiu como assistente. Professor por alguns anos na Universidade de
Marburgo, em 1929 Heidegger sucedeu Husserl na cátedra de filosofia em
Friburgo, dando sua aula inaugural sobre O que é a Metafísica?. Desse mesmo
ano é o ensaio Sobre a Essência do Fundamento, bem como o livro Kant e o
Problema da Metafísica.
Em 1927, porém, saíra o trabalho fundamental de Heidegger, Ser e Tempo. A
obra seria seguida de uma segunda parte, que, no entanto, não apareceu, já
que os resultados alcançados na primeira parte impediam o seu
desenvolvimento. Ser e Tempo é dedicado a Husserl, que posteriormente não
aprovou a obra, o que ocasionou o rompimento entre ambos. Heidegger, no
entanto, afirmava trabalhar com o método fenomenológico.
Heidegger inscreveu-se no partido nazista (NSDAP) em 1 de maio de 1933
(ano da chegada ao poder de Adolf Hitler), tendo posteriormente sido
nomeado reitor da Universidade de Friburgo, pronunciando o discurso A Auto-
afirmação da Universidade Alemã. Porém, pouco depois se demitiu do cargo de
reitor, sendo pressionado por outros professores da universidade, que
tentavam boicotar o Partido Nazista para o qual Heidegger emprestou sua
credibilidade.
Martin Heidegger teve como aluna a judia Hannah Arendt, que se tornou
também uma importante filósofa do século XX, com quem se envolveu
amorosamente.

Filosofia[editar | editar código-fonte]

A Universidade de Friburgo, da qual Heidegger foi reitor, entre 1933 e 1934.


Heidegger considerava o seu método fenomenológico e hermenêutico. Ambos
os conceitos referem a intenção de dirigir a atenção (a circunvisão) para o
trazer à luz daquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que se
mostra, mas que é precisamente o que se manifesta nisso que se mostra.
Assim, o trabalho hermenêutico visa a interpretar o que se mostra pondo a
lume isso que se manifesta aí mas que, no início e na maioria das vezes, não
se deixa ver.
O método vai diretamente ao fenómeno, procedendo à sua análise, pondo a
claro o modo como da sua manifestação. Heidegger afirma que esta
metodologia corresponde a um modelo kantiano, ou copernicano da colocação
ou projeção da perspetiva. Neste sentido, a sua metodologia operava
uma inflexão do ponto de vista, na medida em que o foco deveria ser desviado
do dasein para o ser. Esta inflexão focaliza os modos de ser do ente,
correspondendo a uma inversão da ontologia tradicional.
Além da sua relação com a fenomenologia, a influência de Heidegger foi
igualmente importante para o existencialismo e desconstrucionismo.

Conceitos fundamentais[editar | editar código-fonte]


É habitual dividir a produção filosófica de Heidegger em duas partes, uma até
ao final da década de vinte, outra a partir daí. Por vezes considera-se também
uma terceira anterior à produção de O Conceito de Tempo (conferência
proferida em 1924, mas publicada apenas em 1983, em Francês). Assim é
comum falar-se do primeiro ou do segundo Heidegger, conforme se faz
referência às suas produções anteriores ou posteriores ao seu livro Da
essência da Verdade, escrito em 1930, embora a publicação seja de
1943. Gianni Vattimofala de três momentos da filosofia de Heidegger.
A divisão da filosofia de Heidegger em momentos não é pacífica. Há quem
recuse a divisão, defendendo a continuidade do seu pensamento.
O ponto de partida do pensamento de Heidegger, principal representante
alemão da filosofia existencial, é o problema do sentido do ser. Heidegger
aborda a questão tomando como exemplo o ser humano, que se caracteriza
precisamente por se interrogar a esse respeito. O homem está especialmente
mediado por seu passado: o ser do homem é um "ser que caminha para a
morte" e sua relação com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de
preocupação, angústia, conhecimento e complexo de culpa. O homem deve
tentar "saltar", fugindo de sua condição cotidiana para atingir seu verdadeiro
"eu".
As bases de sua filosofia existencial foram expostas em 1928, na obra
inacabada Ser e Tempo, 1927, publicada em Marburgo, que o tornou célebre
fora dos meios universitários. Oriundo de uma família humilde, Heidegger pôde
completar sua formação primária graças a uma bolsa eclesiástica, que lhe
permitiu também iniciar estudos de teologia e de filosofia. Profundamente
influenciado pelo estudioso de fenomenologia Edmund Husserl, de quem foi
assistente após a Primeira Guerra Mundial (até 1923), começou então seus
estudos no seio da corrente existencialista.
Embora sempre tenha vivido em Friburgo, exceto nos cinco anos em que foi
professor em Marburgo (recusou uma proposta para Berlim), cedo se tornou
um dos filósofos mais conhecidos e influentes, influência essa que se estendeu
mesmo à moderna teologia de Karl Rahner ou Rudolf K. Bultman. Sua
disponibilidade para colaborar com o regime nazista, após a tomada de poder
por Hitler, em 1933, aceitando o lugar de reitor em substituição a outro vetado
pelos nazistas, abalou seu prestígio. Também contribuiu para isso o fato de
equiparar o "serviço do saber" na escola superior ao serviço militar e funcional.
Em 1946, as autoridades francesas de ocupação retiraram-lhe a docência, que
lhe foi restituída em 1951. Outras importantes obras suas são "Introdução
à Metafísica", 1953, "Que Significa Pensar?", 1964, e "Fenomenologia e
Teologia", 1970. A obra completa de Heidegger foi editada na Alemanha em 70
volumes.
Dasein[editar | editar código-fonte]
Ainda assim, até ao final da década de trinta, a leitura da filosofia de Heidegger
estrutura-se sobre conceitos como Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo),
morte, angústia ou decisão. Como entroncamento central de toda a sua
fenomenologia encontra-se o conceito de Jeweiligkeit: ser-a-cada-momento ou
de-cada-vez (respetividade). Esta noção é fundamental para se compreender a
de Dasein, que não deve ser sem mais vertida para Ser humano, homem, nem
mesmo para Realidade Humana (ver, a este respeito, A Carta sobre o
Humanismo- para mais pormenores sobre a difícil tarefa da tradução do termo
veja-se o artigo correspondente, Dasein).
O horizonte de fundo de toda a sua investigação é o do sentido de Ser, os
modos e as maneiras de enunciação e expressão de ser. Nesta medida o
importante está em alcançar a colocação correta da questão pelo sentido de
ser. Assim, ele põe a claro a desvirtuação dessa investigação ao longo da
tradição que sempre se prendeu a uma compreensão ôntica (metafísica),
dominada pelo ente, em vez de se dedicar adequadamente ao estudo do ser.
Dessa forma, crítica os gregos por fundamentarem-se em uma metafísica
cosmológica, os medievais por se fundamentarem em uma metafísica
teológica, e o humanismo moderno por um discursos positivo-epistemológico
do sujeito (que também qualifica como metafísico).[2] Esta notificação deve
indicar-nos que não apenas o ente é, mas que o ser tem modos: há modos de
ser. E cada ente deve ser abordado a partir do modo adequado de o abordar, o
que deve ser esclarecido a partir do modo de ser próprio do ente que em cada
caso está em estudo.
O Dasein, pela sua especificidade, inicia qualquer interrogação. O Dasein é o
ente que em cada caso propriamente questiona e investiga. É também
o Dasein que detém a possibilidade de enunciar o ser, pois é ele que tem o
poder da proposição em geral. Daí que na questão acerca do sentido de ser
seja fundamental começar por abordar o ser deste ente particular. E tem que
ser o próprio Dasein a fazer isso, tem que ser ele próprio a mostrá-lo, a partir
duma análise fenomenológica esclarecida (hermenêutica).
Neokantismo[editar | editar código-fonte]
Ver artigo principal: Neokantismo

Algumas obras de Heidegger revestem-se de inspiração kantiana, quer pelo


método crítico que os rege, quer pelos seus resultados, quer pela escolha dos
temas. Regra geral considera-se que as obras anteriores a Ser e Tempo são
de teor kantiano. Esta fase do seu pensamento constitui para alguns
estudiosos o primeiro momento da sua filosofia, marcado pela influência
de Kant e pela pujança fenomenológica. Apesar das reservas dos seguidores
da sua metodologia, Heidegger tende a ser aproximado ao movimento
existencialista. Esta fase é aquela que mais facilmente se relaciona com este
movimento.
A tese de doutoramento sobre A teoria do juízo no psicologismo (1913), a tese
de docência acerca de A doutrina das categorias e do significado em Duns
Escoto (1916) e o tratado A História do Conceito de Tempo, também conhecido
como Conceito de Tempo em Historiografia (1914), são consensualmente
aceites como (neo)kantianas. Estas obras, dentro de uma terminologia e
temática próprias do Neokantismo, abordam problemas que o extravasam e já
não podem ser resolvidas nas estritas fronteiras kantianas.
A facticidade da existência, que viria a fazer parte da terminologia de Ser e
Tempo, torna impraticável a posição de um sujeito do conhecimento como
sujeito puro que se supõe na reflexão de tipo transcendental.
A consciência implica uma temporalidade irredutível ao tempo físico,
estritamente métrico ou cronológico. Esta temática torna-se o cerne da sua
lição inaugural, na Faculdade de Teologia da Universidade de Marburgo, A
História do Conceito de Tempo.
Husserl[editar | editar código-fonte]
Nos escritos de Husserl, na formulação conhecida até 1920, Heidegger podia
encontrar já uma novidade radical relativamente ao Neokantismo. Este
privilegiava a ciência e aspirava para a Filosofia uma linguagem igualmente
rígida e estrita. Para Husserl, o ato de cognição resolvia-se na intuição eidética
(Anschauung). O ato cognitivo não podia assim ser limitado ao conhecimento
científico, pois trata-se dum encontrar as coisas.
O ir às coisas elas mesmas husserliano ficou conhecido para sempre: trata-se
dum encontro com as coisas em carne e osso. Esta conceção já não entende o
fenómeno em oposição à coisa em si ou ao númeno, mas
como manifestação positiva da própria essência da coisa, por assim dizer
(veja-se a este respeito H. G. Gadamer, Die phänomenologische
Bewegung em Philosophisce Rundschau 1963, pp. 19-20). Esta posição saía
da matriz neokantiana e dos limites do transcendentalismo.
Fenomenologia[editar | editar código-fonte]
Heidegger encontra na fenomenologia, na forma que tinha à época, nas obras
de Husserl até então publicadas, um mundo em pleno desenvolvimento.
Husserl afirmava que "a Fenomenologia somos eu e Heidegger".
A Fenomenologia recebe assim influência de Heidegger que lhe inculca alguns
dos seus problemas e temas centrais, tais como a Lebenswelt. A influência é,
portanto, mútua. Nesta altura Heidegger recebe também vigorosas influências
provenientes da segunda edição de Kierkegaard e de Dostoievski, ao mesmo
tempo que vê surgir o interesse por Hegel e Schelling por todo o meio
académico alemão. As poesias de Rilke e de Trakl são outras fontes de
inspiração. Nietzsche, influência e preocupação maior dos anos que vão de
1935 a 1943, está ainda, entre 1910 e 1916, longe do seu pensamento.
A esta altura Heidegger encontra-se principalmente ocupado na interpretação
de Dilthey e Kierkegaard.
Dilthey[editar | editar código-fonte]
Dilthey ocupará um lugar central em Ser e Tempo. O pensamento dele e o
do conde de Yorck têm o sentido de mostrar que a historicidade só se pode
fundamentar se fundeada numa recolocação do problema do ser. Em
permanente diálogo com Duns Escoto começam-se a delinear em Heidegger
as linhas mestras que haveriam de produzir Ser e Tempo: o problema da
historicidade é um problema da filosofia da vida. São precisamente os
fenómenos da historicidade e da vida que instam à recolocação do problema
do ser.
Nesta envolvência instala-se essa preocupação fundamental com a dinâmica
existencial. É nesta perspetiva que Kierkegaard adquire uma relevância
importante.
Kierkegaard[editar | editar código-fonte]
Para Heidegger, para os heideggereanos e, de facto, para a maior parte dos
existencialistas, Kierkegaard é um pensador que enunciou explicitamente o
problema da existência. Contudo, Heidegger considera que a colocação do
problema não remanesceu existencialmente, mas que, pelo contrário,
permaneceu geralmente a um nível existenciário ou ôntico.
A formação do pensamento que levaria ao Ser e Tempo encontraria ainda
contributos de São Paulo, de Lutero e de Calvino. No semestre de Inverno do
ano escolar de 1919-1920, Heidegger profere um dissertação em jeito de
discurso sobre os Fundamentos da mística medieval e, no ano seguinte, um
de Introdução à fenomenologia da religião.
No semestre de verão de 1921 surge um discurso intitulado S. Agostinho e o
neoplatonismo. Isto numa época em que as suas preocupações estão
centradas na problemática da temporalidade com o estudo de Kierkegaard a
fornecer-lhe novos horizontes, e Heidegger traçava novos planos teóricos
rasgando com o esquema da ontologia clássica que o próprio Kierkegaard
havia deixado intacto, bem como com a estrutura
metafísica helénica preservada pelo neoplatonismo e adaptada por Aurélio
Agostinho.

Estudiosos lusófonos da obra de Heidegger[editar | editar código-fonte]

 Francisco Rüdiger
 António Caeiro
 Mário Jorge de Carvalho
 Benedito Nunes
 Ernildo Stein
 Emmanuel Carneiro Leão
 Jeannette Antonios Maman
 Zeljko Loparic
 Gilvan Fogel
 Marco Antonio Casanova
 Mafalda Faria Blanc
 Marcos Aurélio Fernandes

O pensamento de Heidegger e a psicoterapia[editar | editar código-fonte]


Em 1947, Heidegger respondeu pessoalmente a uma carta enviada
pelo psiquiatra suíço Medard Boss pedindo esclarecimentos sobre suas ideias
filosóficas.
Iniciaram um processo de troca de correspondência e visitas que se prolongou
por doze anos e frutificou na iniciativa de Boss em promover a realização de
uma série de encontros com a participação aberta para alunos e colegas
psiquiatras, os Seminários de Zollikon, realizados entre 1959 e 1969.
Considerados fundamentais na conceção e conceituação da Daseinsanalyse,
nestes seminários discutiram as possibilidades de integração da ontologia e
da fenomenologia de Heidegger
à teoria e práxis da medicina, psicologia, psiquiatria e psicoterapia.
Os protocolos destes seminários e as correspondências trocadas por
Heidegger e Boss foram publicados na Alemanha em 1987.
Heidegger também contribuiu e participou da edição da obra de
Boss "Existential Foundations of Medicine and Psychology", publicada em
1979, texto que advoga uma fundamentação existencial para a medicina e para
a psicologia.
Publicações[editar | editar código-fonte]

 Novas Indagações sobre Lógica (1912);


 O Problema da Realidade na Filosofia Moderna (1912);
 A Doutrina do Juízo no Psicologismo (1914);
 A Doutrina das Categorias e da Significação em Duns Scoto (1916);
 O Conceito de Tempo na Ciência da História (1916);
 Ser e Tempo (1927);
 Que é Metafísica? (1929);
 Da Essência do Fundamento (1929);
 Kant e o Problema da Metafísica (1929);
 Hölderlin e a Essência da Poesia (1936);
 A Doutrina de Platão sobre a Verdade (1942);
 Da Essência da Verdade (1943);
 A Carta sobre o Humanismo (1949);
 Caminhos Interrompidos ou Caminhos de Floresta (1950);
 A Origem da Obra de Arte (1950);
 Introdução à Metafísica (1953);
 Da Experiência de Pensar (1954);
 O Que é Isto, a Filosofia? (1956);
 Da Pergunta sobre o Ser (1956);
 O Princípio da Razão (1956);
 Identidade e Diferença (1957);
 A Caminho da Linguagem (1959);
 Língua e Pátria (1960);
 Nietzsche (1961);
 A Pergunta sobre a Coisa (1962);
 Tese de Kant sobre o Ser (1962);
 Marcas do Caminho (1967);
 Sobre o Assunto Pensamento (1969);
 Fenomenologia e Teologia (1970);
 Heráclito (1970);

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

 HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo, Nova


Cultural, Coleção Os Pensadores, 1989.
 HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho.
Campinas, SP; Rio de Janeiro, RJ: Editora da UNICAMP: Vozes, 2012.
 MARTINS, Joel e DICHTCHEKENIAN, Maria Fernanda S.F. Beirão.
(Orgs.) Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo, Editora
Moares, 1984.
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Martin Heidegger (26 de setembro de 1889 – 26 de maio de 1976), filósofo


alemão.

Obras[editar]

 "Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm".


- Wir kommen nie zu Gedanken. Sie kommen zu uns.
- Aus der Erfahrung des Denkens, 1910-1976 - página 78, Martín
Heidegger - V. Klostermann, 1983 - 253 páginas
Ser e Tempo[editar]
Tradução de Marcia Sá Cavalcanti Schuback, Editora Vozes, 2005

 "A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão


do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho
concreto da fenomenologia."
 "A possibilidade de se compreender o ser deste ente vai depender
da segurança com que se exerce um modo conveniente de acesso."

 "(...) as modalidades de acesso e interpretação devem ser


escolhidas de modo que esse ente possa mostrar-se em si mesmo e
por si mesmo."

 "(...) a analítica existencial da pre-sença mobiliza igualmente uma


tarefa, cuja urgência não é menor que a questão do ser, a saber, a
liberação do a priori, que se deve fazer visível, a fim de possibilitar a
discussão filosófica da questão 'o que é o homem'."

 "Não se deve, porém, tomar a cotidianidade mediana da pre-sença,


como um simples "aspecto". Pois a estrutura da existencialidade
está incluída a priori na cotidianidade e até mesmo em seu modo
impróprio. De certa forma, nele está igualmente em jogo o ser da
pre-sença, com o qual ela se comporta e relaciona no modo da
cotidianidade mediana mesmo que seja apenas fugindo e se
esquecendo dele."

Atribuídas[editar]

 "Por que há simplesmente o ente e não antes o nada?"


- "Heidegger: introdução a uma leitura" - Página 79, CHRISTIAN
DUBOIS, Jorge Zahar Editor Ltda, 2000, ISBN 8571108234,
9788571108233 - 248 páginas

 "A poesia é a fundação do ser pela palavra."


- citado em "Poesia brasileira contemporânea" - página 165, Alceu
Amoroso Lima - P. Bluhm, 1941 - 169 páginas
(Martin Heidegger, Hólderlin und das Wesen der Dichtung, in "Mesures"
15|7|37, p. 121).

 "A grande tragédia do mundo é que não cultiva a memória, e


portanto se esquece dos mestres."
- Fonte: Super Interessante – ANO 9 - Nº 5 – Maio de 1995 - Dito & Feito
- Pág; 90

Sobre a Serenidade de Martin Heidegger

QUA

28

set

2005
Home ≫ Filosofia Contemporânea, Heidegger, Textos Introdutórios, Trabalhos
Acadêmicos Ensaios e Artigos.
Autor:Isabel Maia

Índice

Sobre a "Serenidade" de Martin Heidegger


Por Isabel Maia
A ciência moderna postula sempre a monótona
estupidez do mundo que ela interroga
PRIGOGINE

A "Serenidade" é um belo texto de Heidegger onde ele reflecte sobre a essência da


técnica moderna e onde mostra a necessidade de recuperar aquilo que ele chamou de
pensamento meditativo. Não se trata de negar a técnica, obviamente, mas de repensar a
nossa relação com ela. O apelo heideggeriano ao longo deste belo texto é, pois, o de
mantermos acordado o pensamento já que o que o homem tem de mais próprio é,
justamente, ser um ser pensante.
A técnica não é um instrumento neutral nas mãos do homem uma vez que ela
pode ser objecto de diversos tipos de uso, ela poderá ser usada para o bem ou para o mal e
também não deve ser encarada como um acontecimento acidental no mundo ocidental!
Segundo Heidegger, a técnica consiste no resultado lógico, subsequente daquela evolução
pela qual o homem, esquecendo-se do Ser, se deixou "amarrar" pelas coisas convertendo a
realidade em puro objecto que há que dominar e explorar. Esta atitude acabou por se
transformar numa verdadeira fé na técnica como possibilidade de domínio sobre todas as
coisas. Assim, o esquecimento do ser não é um facto que atinja só o pensamento, mas determina todo o
modo de ser do homem no mundo.i
Heidegger diz no seu texto "A Época das Concepções do Mundo" que a técnica
mecanizada é um fenómeno essencial dos Tempos Modernos funcionando como o
prolongamento mais visível da essência da tecnologiamoderna. A ciência e a técnica
mecanizada aparecem assim como duas importantes manifestações dos Tempos
Modernos.
A ciência é, enquanto pesquisa, um fenómeno essencial dos Tempos Modernos,
pois em consequência da emancipação do homem (o processo de libertação das amarras da
Idade Média até atingir a sua própria liberdade), os Tempos Modernos introduziram o
reino do subjectivismo e do individualismo.
A modernidade é também o domínio do princípio de razão. Este domínio
coincide com a interpretação do "ente" como objecto, uma vez que o "ente" é posto
perante um sujeito certo e seguro de si que assegura, por seu turno, o modelo técnico
daquilo que é, e a questão abissal do ser é assim esquecida. A investigação e o método
tecnologizam o pensamento, a ciência torna-se investigação pelo projecto que assegura no
próprio rigor da investigação. O projecto e o rigor desenvolvem-se mediante o método.
É neste contexto que faz sentido a reflexão de Heidegger sobre a essência dos
Tempos Modernos, reflexão essa centrada na necessidade de recuperar o pensamento
meditativo. Para Heidegger, os ídolos da idade técnica, tais como a ciência, o progresso e a máquina
devem ser destronados do mesmo modo que os da razão: a dignidade humana, os valores e as Ideias de
Absoluto. É regressando ao Ser, isto é, ao que dá densidade aos seres e às coisas que podemos repensar o
sentido dos antigos valores.ii
No seu texto "A Serenidade" e a propósito uma celebração em memória de um
compositor, Conradin Kreutzer, Heidegger convida-nos a reflectir sobre a essência daquilo
a que chamamos "pensar", começando por dizer que toda a comemoração exige que pensemos.
Mas o que pensar, o que dizer numa festa consagrada à recordação de um músico?iii. Ora bem, a
questão é então, até que ponto celebrar uma festa em nome da música não equivale a celebrar uma festa
onde pensamos?ivMas Heidegger diz-nos que não tenhamos ilusões, porque acontece a todos
nós sermos pobres em pensamentos mesmo aos que fazem do ofício de pensar- dever
profissional.
A carência de pensamentos é um hóspede inquietante que se insinua por todo o lado no mundo
de hojev. Nos dias de hoje tudo se aprende da maneira mais rápida e mais económica e no
momento a seguir é tudo rapidamente esquecido. Por conseguinte, dentro em breve, uma celebração
é suplantada por outra celebração e, assim, as festas comemorativas tornam-se cada vez mais pobres em
pensamentos.vi
No entanto, Heidegger acentua a dimensão pensante, meditativa, pois a
compreensão é uma característica humana de forma que, mesmos que estejamos privados
de pensar não renunciamos ao poder que temos de o fazer, tal como se nos podemos
tornar surdos é precisamente porque ouvimos e se podemos envelhecer é porque já fomos
jovens. Da mesma forma, se nos podemos tornar pobres em pensamentos ou, até,
destituídos dos mesmos, é porque a essência do homem é, justamente, pensar, como diria
Pascal "O homem é visivelmente feito para pensar. É essa toda a sua dignidade e toso o seu mérito.
Para Heidegger,a falta crescente de pensamentos repousa no processo que ataca a
substância mais íntima do homem contemporâneo: o homem contemporâneo foge diante
do pensamento e isso explica a falta de pensamentos e mais, o homem contemporâneo não
quer sequer reconhecer esta fuga, muito pelo contrário, ele afirma o oposto remetendo
para tudo o que o conhecimento científico tem produzido. Um tal pensamento tornou-se
indispensável e reveste-se de um carácter particular: trata-se do pensamento calculador-
parte-se de um projecto que se impõe, de um pressuposto que se põe em causa. O
pensamento que conta, calcula. Submete ao cálculo as possibilidades todos os dias novas, cada vez mais
ricas em perspectivas e ao mesmo tempo mais económicas.vii
O pensamento que calcula não nos deixa nenhum prazo e impele-nos de uma
possibilidade a outra. O pensamento calculador não persegue, efectivamente, o sentido- ele
antecipa, não se espanta, não medita.
Há, assim, dois tipos de pensamento por sua vez legítimos: o pensamento que
calcula e o pensamento que medita e é este último que Heidegger tem em vista quando diz
que o homem está em fuga perante o pensamento. Mas podemos perguntar: não andará o
pensamento meditatitvo longe da realidade? Efectivamente, ele parece não ajudar nada nas
realizações de ordem prática. Não será este pensamento demasiado "exigente", "elevado"
para o entendimento comum? Na realidade, podemos até dizer que o pensamento
meditativo é menos espontâneo que o pensamento calculador pois o pensamento que
medita requer um esforço significativo, reclama alguns cuidados…
Por outro lado, qualquer um de nós pode, dentro dos seus limites seguir os
caminhos da meditação, e porquê? Por que o homem é um ser pensante, isto é, meditativo
e não é necessário que a meditação nos leve até "regiões superiores". É preciso que nos
fixemos sobre aquilo que nos é próximo. Heidegger sublinha aqui a tónica no
enraizamento. É da circunstância que devemos partir. É a partir do solo natal que uma obra de
arte é criada e concluídaviii. Haverá uma terra natal onde o homem permaneça enraizado?
Poderá o homem do futuro ser um ser meditativo? Como diz Heidegger, poderá o homem do
futuro se desenvolver, poderá a sua obra amadurecer a partir de uma terra natal já constituída?, ou ficarão
as coisas presas nas garras da planificação e do cálculo, da organização e do automatismo?ix
O enraizamento do homem está hoje ameaçado no seu mais íntimo e não só
devido apenas às circunstâncias exteriores ou ao modo de vida superficial do homem, mas
sim as espírito da época em que o osso nascimento nos fixou. O pensamento técnico
fortaleceu-se, efectivamente, na Modernidade, de forma que se chega a afirmar que nasceu
com ela. Mas se o pensamento técnico é algo que já existe no mundo grego, é na
Modernidade que o paradigma da teoria e da praxis para a ser o paradigma técnico.
A nossa época está ameaçada pelo desenraizamento. Esta época tem o nome de
idade atómica e a sua característica mais evidente é a bomba atómica. Heidegger diz-nos
que o poder escondido no seio da técnica contemporânea determina a relação do homem com aquilo que ele
é. Ela reina sobre a terra inteira. O homem começa já a afastar-se da terra para penetrar no espaço
cósmicox. A terra é, pois, transformada num espaço cósmico. Esta revolução radical na
nossa visão do mundo realiza-se na filosofia moderna. O mundo aparece como um objecto
sobre o qual o pensamento que calcula dirige os seus ataques e a esses ataques nada deve
resistir! A natureza torna-se num único reservatório gigante, uma fonte de energia para a
técnica e indústria modernas. Seja como ‘era atómica’, seja como civilização de consumo, a época
moderna é (…) caracterizada pela maneira como a humanidade quer pôr ao seu alcance a totalidade do
ente e adquirir sobre esta totalidade a maior força possível graças ao domínio de todas as energias naturais,
incluindo as da destruiçãoxi .E portanto, a questão não é, então, a da técnica propriamente dita
mas a da relação do homem com a técnica. O perigo depende do uso que se faz da técnica.
É nesta relação com o mundo que o pensamento meditativo se mostra diferente.
Se nós conseguirmos dominar a energia atómica e conseguiremos, diz-nos
Heidegger, começará um novo desenvolvimento do mundo técnico. Todas as técnicas que
conhecemos hoje, desde os filmes à T.V, à informação, alimentação, etc, são apenas
tentativas. Ninguém pode prever os transtornos que se seguirão. Não
conseguimos/podemos travar os progressos da técnica e um dos traços deste novo mundo
técnico é a rapidez com a qual os êxitos são conhecidos e publicamente admirados.
Mas o que é realmente inquietante não é que o nosso mundo se torne um mundo
completamente técnico, mas antes que o homem não esteja preparado para essa
transformação, que não se consiga explicar pelos meios do pensamento meditatitvo.
A questão a que a filosofia deverá hoje responder é à falta de preparação do
homem para esta transformação, logo, a filosofia como pensamento hermenêutico deverá
ser capaz de responder a isto. A filosofia vai ser caracterizada por Heidegger como
dimensão originária do existir.
De facto, o homem da era atómica será "atirado" sem aviso nem defesa na onda
crescente da técnica. E sê-lo-á efectivamente s e renunciar ao pensamento meditativo
assumindo o pensamento simplesmente calculador. A questão é agora: será que a era
atómica é uma fatalidade ou permitirá ela um novo enraizamento?xii
Poder-se-ía pensar que Heidegger nega a técnica, mas é evidente que não se trata
de negar a técnica…dependemos dos objectos tecnológicos, a questão é que não nos
podemos tornar seus escravos. O homem moderno é o funcionário da técnicaxiii. É possível
utilizarmos os objectos tecnológicos servindo-nos deles e, ao mesmo tempo, deles nos
libertarmos, ou seja, podemos dizer "sim" à utilização da técnica, mas também "não" ao
facto de a técnica monopolizar, desunir e violar o nosso ser. A questão é a de o homem
não deixar que a técnica atinja o que temos de mais íntimo e de mais próximo. Heidegger
sempre apelou a que se pensasse a técnica a partir da sua essência.xiv
Mas dizer "sim" e "não" não significará um relacionamento ambíguo com o
mundo? Não, muito pelo contrário, torna-se um relacionamento mais pacífico. A
serenidade consiste em admitir a técnica, os objectos tecnológicos ao mesmo tempo que os
deixamos repousar sobre eles próprios como algo que não tem nada de absoluto. Por que é
que a serenidade não é, então, ambígua? Simplesmente porque há uma dimensão conflitual
no homem. Em tudo o que ele constrói reina um sentido que ele não recebe, que não
constrói. O homem não é só espontaneidade, é também negatividade.
Apesar de, no limite, o homem ser votado ao nada, é também um ser que exige
sentido e isto leva Heidegger da Antropologia à Ontologia. Apesar da negatividade, o
homem é afirmação originária, é postulado de sentido. A Modernidade descobriu o
homem como exigência de sentido ao descobrir o "cogito", mas esqueceu que é também
sentido. Heidegger vai partir desta situação de negatividade que caracteriza o homem, pois
ele é isso embora não coincida com isso.
Esta exigência incondicional de sentido que o homem é, leva Heidegger a pensar
que a raíz do sentido é qualquer coisa que excede o próprio homem. Para Heidegger, o
homem é definido como pré-compreensão do sentido. O que constitui a sua essência é a
exigência de sentido, a esperança, o desejo de ser na falta do próprio Ser. Heidegger toma
consciência desta experiência "de constraste", desta dialéctica do existir. Na Modernidade a
orientação para o sentido aparece como coincidência. Para Heidegger, não.Apesar de o
homem ser orientação para o sentido, ele ainda não é, está a ser, ele é excesso que não
coincide e é muito mais do que é. É só perante esta experiência de negatividade que ele
pode tomar consciência daquilo que é.
O sentido do mundo técnico oculta-sexv. Deixar-se entrever e ao mesmo tempo ocultar-
se não é o traço fundamental daquilo a que chamamos segredo? Para Heidegger, na raiz da
técnica está a tomada de posição face à verdade. Subjaz, de facto, à ciência moderna uma
noção de ente substancializada/sujeito puro e uma ideia de verdade como
adequação/certeza. Mas a verdade não é adequação, mas desvelamento. Em que é que
Heidegger fundamenta a ideia de que a verdade é revelação? O facto de o dasein estar no
mundo leva-o à revelação. O dasein começa por existir no mundo segundo um modelo
relacional, segundo o modelo da disponibilidade. A verdade como revelação tem como
fundamento a verdade como pressuposição. Não existe verdade em si, mas verdade para o homem,
porque ele acredita nela. O homem é expectativa de verdade. A verdade é inerente ao
homem, mas com a qual ele não coincide.É isto que levará Gadamer, por exemplo, a
recuperar o modelo da obra de arte.
A verdade é, então, desvelamento. A dimensão técnica perde a dimensão da luz.
Quando a luz é considerada única, todo o segredo é confundido com ambiguidade
negativa. Se virmos que a técnica tem também uma dimensão que se oculta por detrás de si
própria, estamos já no caminho de uma boa relação com ela. Trata-se, pois, de restaurar a
dimensão de segredo/oculto da verdade. É o restaurar desta dimensão que vai ser o
objecto do pensamento meditativo e só se pode restaurar essa dimensão quando o homem
tomar consciência da sua historicidade.
O que levanta a questão da historicidade é uma questão muita mais radical, mais
significativa que a questão ontológica.
Por que levanta Heidegger a questão ontológica, a questão do Ser? A experiência
do sentido é a experiência fundamental. Qual é o pressuposto do sujeito transcendental? A
sua condição "desencarnada". O sentido escapa ao homem. Aparece-lhe como aquilo que
escapa à representação. O Ser é agora a questão fundamental de tudo. A questão é agora a
questão do ser e esta é a questão fundamental do homem quando confrontado com a sua
negatividade.
A experiência da historicidade como negatividade confronta o homem com aquilo
que ele não é. Heidegger mostra em Ser e Tempo que é necessário repôr a questão do Ser e
analisá-la. Ela foi mal pensada pela tradição. Pensara historicidade é repensar a questão do
Ser. A questão do ser do homem não é conforme com a ideia de uma ontologia
substancialista. Para compreender a historicidade é preciso tomar a questão do existir
como dasein. É do dasein que se parte para chegar à questão do seu sentido r da sua
historicidade.
Por que motivo, então, se torna urgente recuperar a dimensão meditativa do
pensamento?…
Heidegger sublinha que o que o grande perigo que nos ameaça é, de facto, a total
falta de pensamentos, a robotização do homem. Somos seres finitos, mas ao mesmo
tempo, abertos ao que nos transcende. É esta a condição finita do homem. É necessário
que o homem não rejeite aquilo que possui de mais próprio- o facto de ser um ser
pensante. Trata-se, então, de salvar essa essência do homem. Trata-se de manter acordado
o pensamento. A Modernidade esqueceu o Ser, a realidade. Uma coisa é viver absorvido
pela técnica, outra coisa é ler o mundo, habitar num mundo lendo a outra dimensão do
sentido literal ou técnico que essa dimensão tem.
Assim quando despertar em nós a identidade da alma perante as coisas, e o espírito se abrir ao
outro, podemos esperar alcançar um novo caminho, uma nova terra, um novo solo. Nesse solo, a criação de
obras perduráveis pode enraizar-se de novo.xvi
Bibliografia

 FERRY, Luc e RENAUT, Alain, Heidegger e os Modernos, Trad. de Alexandre C.


Sousa, Ed. Teorema, Lisboa, 1989.
 HEIDEGGER, Martin, Questions III, Trad. de A Préau, R. Munier e J. Hervier, Ed.
Gallimard, Paris, 1989.
 ___________________El Ser y el Tiempo, 7ª ed.,Trad. de J. Gaos,F. Cultura
Economica, México/Madrid/Buenos Aires, 1989.
 ___________________Chemins qui ne mènent nulle part, 9ª ed., Trad. De
Wolfgang Brokmeier, Ed. Gallimard, Paris, 1986.
 RESWEBER, Jean-Paul, O Pensamento de Martin Heidegger, Trad.de J.
Agostinho Santos, Livraria Almedina, Coimbra, 1979.
 VATTIMO, Gianni, Introdução ao Pensamento de Martin Heidegger, Trad. de
João Gama, Col. "O saber da Filosofia", Ed. 70, Lisboa, 1987.

Notas

 i Vattimo, G., Introdução a Heidegger, p.134.


 ii Resweber, J.P., O Pensamento de Martin Heidegger, p. 147.
 iii Heidegger, M., Questions III, p. 162. iv Ibid., p.163.
 v Ibid., p.163.
 vi Ibid., p.164.
 vii Ibid.,p.165.
 viii Ibid., p.167
 ix Idib., p.170
 x Ibid., p.172
 xi Luc Ferry, Heidegger e os modernos, p.72.
 xii Aquilo que nos é próximo não é dado. O que nos é mais próximo é simbólico,
por isso, o pensamento moderno na aproximação a isto escolheu uma via,,
seguiu um só caminho. A Modernidade também viu que o dado não é simples
só que fez dele algo de simples o que levou a um esquecimento do Ser, da
realidade, do verdadeiro sentido das coisas e daí a necessidade de "acordar" o
pensamento meditativo. Heidegger defende a necessidade do retorno às coisas
e esse retorno terá de ser hermenêutico porque não é claro.
 xiii Ibid., p. 72.
 xiv Ibid., p.72.
 xv Heidegger, M. Questions III, p.178.
 xvi Ibid., p. 179.
 Heidegger
 (Edição - em que procuramos manter o estilo oral - de conferência de
Julián Marías, que, como se sabe, não se vale de texto escrito.
Conferência do curso “Los estilos de la Filosofía”, Madrid, 1999/2000.
Edição: Jean Lauand. Tradução: Sylvio Horta / http://www.hottopos.com )

 Julián Marías

 Boa tarde, já estamos terminando este curso; só nos restam esta conferência e a
próxima.
 Hoje vamos falar de uma personalidade particularmente importante: Heidegger.
Heidegger é, evidentemente, um dos maiores filósofos de nosso tempo. Tive a
oportunidade de conviver com ele em certa ocasião como recordarei mais
adiante.
 Heidegger passou a ser conhecido no ano de 1927: publicou o livro Sein und
Zeit, Ser e Tempo, que teve imediata repercussão. Ortega leu o livro
imediatamente e no número de fevereiro de 1928 da Revista do Ocidente, ao
final de um artigo que escreveu, dizia em nota de pé de página: "Sobre estes
temas, finas verdades e finos erros no recente livro de Martin Heidegger: Sein
und Zeit".
 Quer dizer, ele tinha lido o livro com grande interesse, logo após a sua
publicação. Gostaria de saber - não posso sabê-lo - que pessoas leram Heidegger
então? Outro fato curioso é que não se encontra nenhuma referência a esse livro
na obra de Unamuno: as conexões entre Unamuno e Heidegger são bastante
claras, há muitas semelhanças entre os dois pensadores. Surpreendeu-me muito
que em Unamuno não houvesse nenhuma só alusão à obra de Heidegger. Isto me
pareceu bastante estranho e demorei muitos anos para atinar com a razão deste
fato: Unamuno não cita Heidegger e parece não conhecê-lo - nem pouco nem
muito - simplesmente porque estava na França. Se estivesse em Salamanca,
como lhe era habitual, teria sabido da publicação de Sein und Zeit, tê-lo-ia
pedido imediatamente, tê-lo-ia devorado e com certeza, tê-lo-ia comentado. Mas
na França este livro não despertou eco algum: ninguém – ou quase ninguém –
sabia que existia esse livro nem que significado poderia ter. E isso explica a
ausência total de referências a Heidegger em Unamuno.
 Isto nos remete a uma outra experiência curiosa, ocorrida também, naqueles dez
dias de convivência que tive com Heidegger em 1955. Numa daquelas longas
conversas que tivemos, ocorreu-me falar-lhe de Unamuno e perguntar sobre ele.
Parecia-me muito plausível que o houvesse conhecido: tinha sido muito
traduzido ao alemão nos anos 20. Contudo, Heidegger disse-me que não o
conhecia, que não havia lido nada dele, mas que lera García Lorca. Isso me
surpreendeu bastante, porque a distância entre Lorca e Heidegger é imensa...
 Isso me leva a pensar em como funciona o mundo atual, em como afinal se
conhecem as coisas de que se fala. É evidente que por razões políticas - que
deram grande fama a Lorca desde 1936, a guerra civil espanhola – sua obra
chegou ao conhecimento de Heidegger, que o leu com interesse. Mas é claro que
enquanto parece quase obrigatório o conhecimento de Unamuno por Heidegger,
não parece necessário o conhecimento de Lorca: e assim caminha o mundo de
hoje... A ausência de um e a presença do outro; a ausência mútua de Heidegger e
Unamuno, é um fenômeno que requer explicação e que evidentemente revela
uma faceta da vida intelectual do nosso tempo.
 Eu li Heidegger já em 1934 - e isto parece tão incrível que se não fosse evidente
eu mesmo o colocaria em dúvida. Eu me reunia com umas quantas colegas,
companheiras de curso, para lhes dar aulas sobre certos temas bastante gerais de
filosofia já que eu estava um pouco mais avançado nos estudos filosóficos e elas
tinham que se preparar para um exame chamado intermediário e não havia
cursos gerais de filosofia, mas somente cursos puramente monográficos. E isso
durou dois anos, com dois grupos, e elas prestaram o exame com surpreendente
sucesso, porque tinham encontrado naqueles meus cursos improvisados o que
necessitavam para passar no exame.
 Ao final do curso, informal, puramente entre amigos, essas jovens - acho que
eram doze ou quatorze - deram-me dois livros. Na escolha dos livros percebia-se
- claramente - a mão de Ortega: Sein und Zeit de Heidegger e a Ética de Nicolai
Hartmann. Fui bolsista naquele ano na Universidade de Santander, que se
chamava então Universidade Internacional de Verão Santander - que não era,
naturalmente Universidade Menéndez Pelayo, ainda não se chamava assim, o
que só veio a acontecer muitos anos depois - e levei o livro de Heidegger, junto
com o dicionário alemão Langenscheidt. Eu ficava num quarto e passava horas e
horas com o livro de Heidegger e o dicionário. Nem é preciso dizer que
Heidegger ainda não estava traduzido a nenhuma língua; quer dizer, só se podia
ler Heidegger em alemão. E parecia-me que só se podia lê-lo em alemão, porque
as pouquíssimas traduções - muito fragmentárias - que havia, eu não as entendia,
nem as entendo ainda hoje... Entendo Heidegger apenas em alemão; na tradução,
não entendo absolutamente nada. Há uma tradução de meu mestre, professor
queridíssimo, José Gaos, que o traduziu muitos anos depois, mas eu também não
a entendo...
 A dificuldade do alemão de Heidegger é especial. O alemão não é uma língua
fácil, mas além disso o alemão filosófico tem certas dificuldades e, no caso de
Heidegger as tem em grau superlativo. Porque Heidegger escreve não em
alemão, mas no seu alemão particular. Ele até acreditava - eu acho que é um
erro, mas enfim ele pensava deste modo - que a filosofia só pode ser escrita em
duas línguas: grego e alemão. Eu acho que não, creio que é um erro e até um
erro grave de Heidegger. Acredito que a filosofia se pode... - ia dizer se pode
escrever em qualquer língua, mas tampouco acredito nisso: poder-se-ia fazer um
catálogo de línguas nas quais não se pode fazer filosofia; mas, em muitas,
certamente, isto é possível. E nas grandes línguas européias, das quais tenho
alguma idéia; e de outras - das quais não tenho nenhuma idéia - estou certo de
que se pode fazer filosofia.
 Além disso o alemão de Heidegger é um alemão muito pessoal; um alemão no
qual ele introduz uma enorme quantidade de variantes, de modificações. Há uma
seleção de vocabulário muito rigorosa. Emprega também alguns artifícios que o
tornam particularmente difícil. Por exemplo, emprega freqüentemente dupla
clave, quer dizer, usa a palavra alemã, de origem alemã, mas também vale-se da
palavra de origem latina, com um sentido diferente. Por exemplo, aparece a todo
momento - e trata-se do contexto capital da sua filosofia - a idéia de dasein.
Dasein é um verbo que significa existir e naturalmente é também o substantivo
"existência", Dasein. A palavra Dasein se traduz, naturalmente, por existência, é
a tradução normal. Mas há um momento em que Heidegger define Dasein e diz:
"Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz", que se se traduz literalmente:
"a essência do Dasein consiste em sua existência", resulta em uma tautologia. Eu
propus uma tradução que pelo menos não é uma tautologia. Porque como
"existir" é um infinitivo e o espanhol - e o alemão - admite o infinitivo
substantivado, que se converte em substantivo, então traduzo: "a essência do
existir consiste em sua existência". Não é totalmente claro, mas não é uma
tautologia. De modo que esta é uma tradução possível, que me parece melhor do
que a tautológica: "a essência da existência é sua existência".
 E há muitas coisas mais. Por exemplo, no alemão, as palavras vão
acompanhadas freqüentemente de prefixos ou de sufixos, que modificam o
sentido. Por exemplo: a palavra "perguntar" se diz em alemão "fragen"; mas
existem os verbos compostos: "anfragen", que é "perguntar a"; "befragen", que é
perguntar em sentido transitivo, perguntar algo; "erfragen", perguntar em um
sentido originário, algo parecido ao prefijo ur, que é o primitivo... Naturalmente,
isto em espanhol não tem muito sentido porque - ao contrário do alemão - não
distinguimos "befragen", "erfragen", "anfragen".
 Há, também, sufixos, uma palavra tem uma terminação que altera seu sentido.
Por exemplo, a palavra Zeit significa tempo e zeitlich é temporal; mas também
há zeitig - outro sufixo - ou zeitmässig, adequado ao tempo... No alemão isto se
entende, entende-se quando Heidegger dá um valor particular a estas formas;
mas em espanhol, não. Quando Gaos traduziu Sein und Zeit, ele inventou, forjou
alguns adjetivos como: temporal, temporâneo, temporáceo, temporoso... Eu me
pergunto: O que quer dizer isso em nossa língua? Pode-se até definir estas
palavras, pode-se explicar o que se entende por temporáceo ou temporoso, mas
por si mesmas essas palavras não têm significado algum.
 Como podem ver, as dificuldades são consideráveis e em última análise
encontra-se uma série de expressões que não chegam a ter um sentido
determinado. E isso acrescenta dificuldades muito grandes à leitura de
Heidegger em qualquer língua.
 Há além disso outro problema: a dificuldade de se traduzir as frases mais
importantes de Heidegger. Há uma frase famosíssima, citada mil vezes, segundo
a qual, diz Heidegger, que o homem é sein zum Tod, que se traduz
invariavelmente como "ser para a morte". O único problema é que isto não quer
dizer no alemão "ser para a morte"; porque a palavra sein, que quer dizer
certamente "ser", significa também outras coisas como "estar"; os alemães não
dizem "estar" porque não têm o verbo "estar". Costumo dizer que dariam uma
das poucas províncias que lhes restam em troca dos verbos ser, estar e haver,
três maravilhosos verbos para fazer filosofia.
 Mas, claro, ser é ser ou estar. Os livros de gramática - em geral - dizem que
"ser" é o essencial, o fundamental, o permanente, enquanto que "estar" é o
passageiro, o transitório, ou que se trata de um estado momentâneo... Eu me
pergunto se quando rezamos o Pai Nosso e dizemos: "Pai nosso, que estás no
céu...", queremos dizer que está lá passando as férias? Parece-me que não, se há
algo permanente é justamente esse estar no céu. Como podem ver, "estar" tem
um sentido radical, real, muito real. Eu tenho feito uma observação empírica,
sem maior importância, mas que é bastante iluminadora: quando se diz a uma
mulher que ela é muito bonita, ela agradece, mas agradecerá mais ainda se lhe
disserem que “está muito bonita”: ao lhe dizer que “é muito bonita”, elogia-se a
sua beleza, a sua qualidade estética; mas quando se diz a uma mulher "você está
muito bonita", isso significa que "estou me deparando com o fato de que você é
realmente muito bonita", o qual é algo concreto, real, eficaz...
 Por outro lado, a preposição zu não quer dizer "para", mas "a". Isto é, a
expressão "sein zum Tod", poderia ser traduzida por "estar à morte (estar a la
muerte)". Qual é a condição dos homens - e das mulheres, evidentemente - não
somente quando nos atropela um caminhão ou quando temos pneumonia dupla?
O homem está à morte sempre, está na possibilidade de morrer, está em potência
próxima de morrer, está exposto à morte: e é isso justamente o que quer dizer
"sein zum Tod", estar aberto à morte, estar nessa possibilidade próxima, real,
eficaz. Quero dizer portanto que a tradução, que me parece incorreta, de "sein
zum Tod" como "ser para a morte" deve-se não tanto a que o tradutor não saiba
bem o alemão, mas que não sabe bem espanhol: o que é muito mais grave.
 Essas dificuldades rondam naturalmente a obra de Heidegger, afetando sua
compreensão. Como a obra de Heidegger é muito densa, muito complexa,
extremamente original, atinge um nível profundíssimo de intelecção e de
conceituação, isso significa que a intelecção de Heidegger é bastante
problemática e sempre exige muito esforço.
 Além do mais, Heidegger formula que a tarefa de sua filosofia é a de
descobrir der Sinn der Seins überhaupt, o sentido do ser em geral. Ele trata de
determinar o que quer dizer "ser" e faz uma distinção - que é válida para
algumas línguas e para outras não - entre Seiendes e sein; a distinção de
sempre: on/einai (em grego), ens/esse (em latim), ente - particípio de presente -
e ser (infinitivo). No alemão se diferenciam bem; em latim e em grego se
distinguem bem e nas línguas procedentes do latim essa distinção é também
bastante natural. É curioso que em francês não havia isso: chamava-se
igualmente être ao ente e ao verbo ser. E é interessante notar que por influência
de Heidegger, quando se introduziu a terminologia de Heidegger, foi necessário
introduzir uma palavra em francês para dizer "ente": étant, que é um particípio
presente construído sobre o verbo être. E esse uso hoje é normal e há, por
exemplo, livros de filosofia que se chamam: L´être et les étants.
 Como podem ver, há problemas muito delicados. Heidegger leva muito a sério
isso e inclusive faz uma distinção que me parece um pouco duvidosa: ele
diferencia entre o que ele denomina ôntico e ontológico, distinção bastante
curiosa e que nunca chega a ser totalmente clara. Porque ôntico é o que se refere
aos entes, às diferentes formas de entes; o que se refere ao ser, é o que ele irá
chamar de ontológico (inclusive há um momento em que fala do que é ôntico-
ontológico...).
 Vejam, portanto, como há uma grande dificuldade conceitual ao se querer
penetrar a fundo no pensamento de Heidegger.
 Mas o que tem de mais original, de mais criador, é precisamente que ele desce a
um nível muito profundo, mais profundo que qualquer filósofo contemporâneo,
sem dúvida nenhuma, e então ele aponta o que é o problema fundamental da
filosofia: o sentido do ser em geral; ele trata de entender o que quer dizer a
palavra ser - em geral, em todos os sentidos - mas - e aí está a grande
descobrerta de Heidegger - a abordagem do problema do ser depende
precisamente do problema do Dasein, do problema do existir, porque justamente
o nível, diríamos, em que se aborda o problema do ser é o problema do Dasein,
o problema - diríamos - da pessoa. A pessoa que é cada um, cada um de nós,
esse ente que somos nós. Não é o homem, porque se falamos de homem,
falamos de antropologia e aqui se fala precisamente da estrutura da própria
realidade; justamente o que chamamos o ser, a pessoa. E isso é o que suscita o
problema do ser em geral; o problema do ser em geral se expõe precisamente ao
analisar o Dasein, ao analisar esse gemeines, esse cada um de nós, que somos e
que tem um tipo de realidade novo, completamente distinto, que é o que será
chamado de existencial.
 A palavra "existencial" é introduzida por Heidegger, seguindo afinal Kierkgaard,
mas é uma expressão que também não é inteiramente clara, porque justamente
quando passamos ao ôntico, ao que não é ontológico, já se perde este sentido: há
certos resquícios de inexatidão, de imprecisão terminológica.
 Evidentemente Heidegger chega a uma análise de uma enorme profundidade.
Essa realidade a que chamamos Dasein, que é cada um de nós, essa realidade
pessoal é uma realidade temporal, afetada pela temporalidade, condicionada pela
temporalidade - não se esqueçam do título do livro: "Ser e Tempo" - e portanto
há toda uma série de categorias, categorias que precisamente são as que vão
delinear a realidade nos diferentes aspectos. Ele distinguirá por exemplo entre o
que é existente - o que é vorhanden - e o que é zuhanden, o que está à mão,
aquilo que nós manejamos e está à mão. O que existe, o que está presente
é vorhanden, o que está a frente, a frente da mão; mas zuhanden é aquilo que
está à mão. Quer dizer, elabora uma complexíssima ontologia das diferentes
realidades, que vai desde as coisas exteriores, as coisas que integram o mundo,
as coisas físicas, até justamente o mais profundo da pessoa.
 Como podem ver, portanto, a compreensão do pensamento heideggeriano é
enormemente complicada, mas desce a níveis muito profundos: fala de vida
autêntica e de vida inautêntica; do que é o cotidiano e do que não é cotidiano; o
que ele chama de Zuhandenheit... e todos os outros conceitos que devem ser
elucidados pela lingüística: não que eu queira ser pedante, mas não é possível
não ser...
 Então, a compreensão de Heidegger levanta problemas gravíssimos – problemas,
principalmente para ele: como se pode comunicar o pensamento de Heidegger?
Como se pode estar certo de compreendê-lo adequadamente?
 Lembro-me de que nessa reunião no Château de Cerisy na Normandia, ele deu
uma breve conferência introdutória - O que é isto, a filosofia? - Was ist das - die
Philosophie? - e então nos pediu à quatro dos participantes - Gabriel Marcel,
Paul Ricoeur, Lucien Goldmann e eu - que fizéssemos quatro contra-
conferências, que abordassem o problema geral a partir de nosso ponto de vista
pessoal, indicando as coincidências, as divergências, as discrepâncias para
apresentar quatro visões da questão fundamental proposta por ele em sua
conferência inicial.
 E depois tivemos três seminários: um sobre Kant, outro sobre Hegel e outro
sobre o grande poeta Hölderlin, que para ele era algo capital. E umas reuniões,
diríamos, já de colóquio geral, interessantíssimas, para as quais chamei a atenção
num texto que publiquei pouco depois: "A Oficina de Heidegger". Nela os
conceitos eram analisados, desmontados, procurados, buscava-se chegar ao
fundo, com dificuldades consideráveis - ele era um homem tímido e disse: "sou
muito tímido porque sou filho de camponeses". Era um homem simples (ia dizer
que tinha "os olhos de um homem astuto", como no verso de Antonio Machado;
tinha uma atitude de certo modo receosa, cauta, de homem do campo...). Ele
vinha vestido como todo mundo, mas um dia colocou uma jaqueta esverdeada -
traje típico da Floresta Negra - e foi algo apaixonante ver Heidegger analisando
os conceitos, com essa simplicidade, entrando na discussão, sem entender direito
o que lhe diziam a menos que fosse em alemão. Havia uma convenção:
Heidegger falaria em alemão e os outros falarariam entre si e a ele em francês.
Supunha-se que isso iria dar certo; mas reparei que quando lhe falavam em
francês, ele não entendia. Não é que não entendesse o francês; é que não
entendia o que lhe era dito em francês. E passados alguns dias eu cansei e me
dirigi a ele em alemão e, aí sim, ele entendia.
 Como vêem, era uma experiência humana, intelectual, realmente apaixonante
estar na oficina de Heidegger – por dez dias estivemos falando de tudo, da
poesia, dos grandes filósofos - os gregos apareciam por todos os lados - foi algo
inesquecível e estou certo de que os que passaram aqueles dias em Cerisy
tiveram uma impressão duradoura, que não se poderá nunca esquecer. Surgiram
as questões mais profundas... a clave da comunicação, como se pode comunicar
esse pensamento noutras línguas. Ele nunca respondeu claramente sobre isso.
Recordo-me de que Gabriel Marcel lhe perguntou sobre isso com bastante
seriedade, mas ele afinal desentendia-se da questão de como se pode expressar
essa filosofia em outras línguas: isto não ficou nunca claro.
 Evidentemente a marca do pensamento heideggeriano permaneceu em nós e foi
algo muito importante. Creio que esta experiência - tal como acabo de contar -
com sua incoerência, com suas obscuridades, com suas vacilações, que
requereriam uma larga reflexão posterior, na solidão da casa de cada um, com os
textos de Heidegger e outros..., foi algo absolutamente inesquecível e deixou
uma marca muito profunda.
 Já estamos terminando este curso e nos falta apenas Ortega. Ortega é outro
mundo, outro estilo da filosofia, não cabe estilo mais profundamente diferente
nem mais profundo nem mais valioso. Os dois tiveram uma estimação muito
profunda um pelo outro - certamente, não há nenhuma dúvida - mas isto já supõe
mudar de clima, mudar de país, mudar de luz, mudar de estilo intelectual. É o
que tentaremos fazer na próxima semana.

Martin Heidegger conversa com um Monge Budista sobre Tecnologia e Filosofia


PUBLICADO EM 05/09/2016 ATUALIZADO EM 30/11/2017
O Ser em si tem sido escondido dos seres humanos. E é por isso que
agora temos que fazer esta questão para obter uma resposta sobre o que
e quem é o ser humano.
– Martin Heidegger
Martin Heidegger foi um filósofo alemão habitualmente estudado no
existencialismo, embora para ele a filosofia se tratasse de uma laboriosa e
rigorosa pergunta pelo Ser. Sua obra tem sido considerada uma das mais
importantes do século XX, e na sua maior parte é dedicada à questão do Ser,
como é evidente no seu trabalho mais conhecido, Ser e Tempo, embora tenha
abordado também questões relativas à critica do significado (hermenêutica), à
política, aos mitos gregos e à poesia. Sua influência chegou inclusive à
Tailândia, onde o monge budista e professor universitário Bhikku Maha Mani
chegou a pensar que Heidegger era “o filósofo alemão”.
Maha Mani entrevistou Heidegger em 1963 para o canal SWR. Pode-se
esperar considerações por parte de Heidegger com respeito aos problemas
filosóficos comuns entre o existencialismo e o budismo ou outras disciplinas
orientais. Porém, Heidegger não se refere propriamente a problemas
determinados pela geografia, mas pela necessidade de construir um
pensamento global que pode esclarecer o ser humano na sua relação com o
Ser, independentemente de categorizações políticas e tecnológicas que
dividem as pessoas. Heidegger nos adverte para o perigo de convertermo-nos
em “máquinas” obedientes. (Via: Pijamasurf)
Segue os vídeos da entrevista (legendado em português):
1º Parte:
2º Parte:
Transcrição:
Bhikku Maha Mani: Ao longo de décadas você tem reflectido sobre a
essência do ser humano, que compreensão você obteve?
Martin Heidegger: A experiência decisiva do meu pensamento, e o que significa
ao mesmo tempo para a Filosofia Ocidental, isto é, a contemplação sobre a
história do pensamento Ocidental me revelou, que no pensamento
contemporâneo uma questão nunca foi feita, a saber, a questão do ser. Esta
questão é importante, porque no pensamento Ocidental a essência do ser
humano é determinada em sua relação com o Ser, isto é, existe em
correspondência ao Ser. Isso significa que o ser humano é este
correspondente, esta essência, que tem uma linguagem. Diferentemente,
penso eu, dos ensinamentos Budistas, o pensamento Ocidental criou uma
distinção essencial entre os seres humanos e os demais seres vivos, plantas e
animais.
O ser humano se distingue por sua linguagem, isso significa que ele possui um
conhecimento em relação ao Ser. E esta questão do Ser não foi colocada na
atual história do pensamento Ocidental. Ou, para falar mais claramente O Ser
em si tem sido escondido dos seres humanos. E é por isso que agora temos
que fazer esta questão para obter uma resposta sobre o que e quem é o ser
humano.
Você acha que deveríamos criar uma atitude nova fundamental em
relação à vida, ou devemos aprofundar os ensinamentos actuais da
religião?
Eu acho que pela minha resposta à sua primeira pergunta já deixei claro
que um novo modo de pensar é necessário. É especialmente necessário,
porque a questão não pode ser interrogada pela religião. Também é necessário
interrogar esta questão, porque a relação do Ocidente com o mundo inteiro já
não é transparente, mas confusa em parte por causa das clareiras das crenças,
da igreja, pela filosofia, pela ciência e do estranho facto de que agora, no
mundo moderno, a ciência é considerada como se fosse algum tipo de
religião. Eu vou esclarecer melhor esta frase mais tarde.
Por que você não tenta compartilhar seus pensamentos com as pessoas
através das mídias modernas, como rádio e TV?
A tarefa que carece de pensamento hoje, como eu a entendo, é nova de um
modo que requer um novo método de pensamento, e este método só pode ser
alcançado na conversa imediata de ser humano para ser humano, e pela longa
prática e exercício num sentido de uma observação do pensamento. Isso
significa que este modo de pensar, a princípio, é apenas compreensível para
poucas pessoas. Porém, através de diferentes aspectos da educação, pode ser
comunicado aos outros. Vou dar-lhe um exemplo. Hoje toda a gente sabe como
usar um rádio e um aparelho de televisão sem compreender as leis físicas que
os governam, sem compreender os métodos e pesquisas necessárias dessas
leis. Esses métodos, necessários para a pesquisa sobre essas leis, em seu
conteúdo substancial, são compreendidos apenas por cinco ou seis físicos.
É o mesmo que acontece com esse pensamento. Em primeiro lugar, esse
pensamento é tão difícil que só poucas pessoas podem ser educadas
nele. Mas isso pode levar a mal-entendidos, que essas eram pessoas
extraordinárias. No entanto, a verdade é que todo ser humano, enquanto for
um ser pensante, poderá realizar este pensamento. Mas em nosso sistema de
ensino atual e de acordo com a nossa história, apenas poucas pessoas irão
cumprir o requisito para este pensamento.
Há um ponto de encontro entre Tecnologia e Filosofia?
Para a sua pergunta, eu diria que “sim”, há de facto uma relação muito
essencial. Ela é dada no surgimento da tecnologia moderna a partir da
Filosofia. Foi na Filosofia Moderna que pela primeira vez foi estabelecido o
princípio de que só o que eu posso claramente, ou seja, matematicamente
saber, é real.
Há uma frase muito famosa do físico alemão Max Planck, que diz: “Real é só o
que se pode medir”.
Este pensamento de que a realidade só é acessível ao ser humano, desde que
seja mensurável no sentido da física matemática; este pensamento domina
toda a tecnologia. E, na medida em que isso foi pensado inicialmente por
Descartes, o fundador da Filosofia Moderna, a relação entre Filosofia e
tecnologia moderna torna-se bastante clara.
No Ocidente, pessoas sem religião têm sido muitas vezes identificadas
como comunistas, outras pessoas, contudo, que vivem em conformidade
com os preceitos religiosos, estão sendo chamadas de loucas. O que
você pensa sobre isso?
As asserções de que pessoas sem religião são comunistas e pessoas com
religião são loucas, são duas acusações que, creio eu, podem ser esclarecidas
se refletirmos sobre: o que se entende por religião aqui? Religião significa,
como a palavra mesmo diz, uma ligação de retorno a poderes, forças e leis que
substituem a capacidade humana. Daí você pode até mesmo falar de uma
religião ateísta, como é caso do Budismo, que não concebe Deus e apesar
disso é uma religião, pois contém uma ligação particular em si.
Gostaria também de dizer que tais pessoas enquanto comunistas têm uma
religião, a saber, a crença na ciência. Eles acreditam incondicionalmente na
ciência moderna. E essa crença incondicional, quer dizer, a confiança na
certeza dos resultados das ciências, é uma crença, e, de certo modo, é algo
que está além do ser humano, portanto é uma religião. Eu diria que nenhum
ser humano está destituído de religião, e que todo ser humano está de alguma
forma além de si mesmo, ou seja, louco.
Nós deveríamos abolir a religião e a filosofia que apesar de suas
existências multimilenares, nunca influenciaram a vida humana como
demandaram, e por que a filosofia e a religião parecem ser
contraditórias?
Não podemos e não devemos abolir o pensamento e a crença, porque em sua
longa jornada não alcançaram o patamar que objetivaram chegar. Nós não
podemos abolir o pensamento e a crença, porque a essência humana é
finita. Porque em sua essência o homem é sempre compelido a tentar
novamente. E, especialmente, neste momento, eu diria, voltando à sua primeira
pergunta que uma reflexão sobre o que é o ser humano, é necessária agora
com o perigo que o homem está à mercê da tecnologia de que um dia seja
controlado como uma máquina.
Você também fez outro comentário, relacionando ao seu país. No qual você
disse que o seu país e as pessoas nele pertencem aos países
subdesenvolvidos. Se alguém vos fala em subdesenvolvimento, alguém tem
que perguntar para que fim o desenvolvimento foi pensado. De acordo com o
moderno entendimento Europeu e Americano, o desenvolvimento é, em
primeiro lugar, uma questão tecnológica. A partir desta lógica, eu diria que seu
país, por causa de suas tradições antigas e contínuas, está altamente
desenvolvido. os norte-americanos, por outro lado, com todas as suas
tecnologias e bombas atómicas são subdesenvolvidos.
Há alguma forma de harmonizar as pessoas e poderá esta forma ser
traduzida para situações globais reais, como no caso Berlim Oriental e
Ocidental?
Esta questão é tão abrangente que primeiramente temos que diferenciar entre
as condições políticas para uma possível unidade e as condições humanas
emocionais à reunião dos seres humanos. Para ambas as condições, eu diria
que, por causa de toda a nossa situação histórica. E por causa da separação
dos seres humanos em religiões diferentes, filosofias diferentes e diferentes
relações com a ciência. Não existe hoje em dia terreno comum para o
entendimento simples e imediato.
Eu acho que nós precisamos diferenciar entre um país Europeu com esta
história e passado, e um país onde você reside. Desse modo eu diria que se há
alguma possibilidade ao entendimento num futuro próximo isso só pode
acontecer se, independentemente de condições políticas, se os seres humanos
de todas as partes encontrarem auto-consideração. Mas esta auto-
consideração, como já mencionei em outras perguntas suas, tornou-se
difícil, isso não é só na Alemanha, mas por toda a Europa em geral. Não temos
nenhuma relação clara, simples e comum com a realidade e com nós
mesmos. Esse é o grande problema do mundo Ocidental, e parte da razão da
confusão de opiniões em todas as diferentes áreas.
___

Heidegger
e a Filosofia da Irrupção

Por mais que Heidegger tentasse manter a filosofia


num campo próprio, sem seduzir-se pela ciência ou
pela sociologia, de alguma forma deixou-se permear,
ainda que por um curto tempo, pela política. Afinal
numa Europa dividida entre Hitler e Stalin não
poderia ser diferente.

A Filosofia da Irrupção
Afastado da reitoria de Freiburg em
abril de 1934 e preterido da "abadia"
do mosteiro científico que pretendia
instalar em Berlim,
a Dozentakademie, fracassada sua
incursão pela política, Heidegger
refluiu para a filosofia. Desejou
preservá-la como um espaço
especial, colocando-a à disposição do
"espírito da irrupção" que estava Hitler, cavaleiro
andante
ocorrendo na Alemanha com a
ascensão do nacional-socialismo. Para tanto era
preciso uma nova metafísica - "uma nova experiência
fundamental do seyn" (neologismo heideggeriano
para dizer da experiência vivida, daquilo que já foi
experimentado e incorporado ao ser). Hitler, para
Heidegger, era o guia-mestre que por meio da
audácia arrancara o povo alemão da caverna (a
barafunda e o Kulturpessimismus da República de
Weimar), trazendo-o para a claridade e a plenitude
do völkisch Staat, do Estado
A face da nazista. Heidegger aprofunda então
filosofia da seus estudos sobre dois paradigmas do
irrupção novo regime, os poetas-filósofos
Hölderlin e Nietzsche, querendo
estabelecer uma ponte, em suas conferências sobre a
dupla, entre a literatura anti-racionalista - elegendo-
os como pilares da Nova Ordem -, e a situação de
euforia e mobilização coletiva em que se encontrava o
país. Porém, nuvens se acumulavam no horizonte,
ameaçando e cerceando o espírito da irrupção: ao
oeste, a América bramia a técnica, ao leste, a URSS
era uma intimidação econômica.

Um Diagnóstico do Tempo
A era moderna caraterizava-se,
segundo ele, pela derrubada do
poder do espírito (entendida como
"a morte de Deus", como o colapso
da metafísica clássica, ou ainda o
impotência da teologia, etc.). E isso
deu-se em razão do que? Porque o
espírito no nosso tempo fora
capturado pela razão instrumental,
deixando-se tomar de assalto ou ser
seduzido pela "inteligência
O homem puro
calculadora" - expressão de contra a técnica
interesses em geral espúrios (sejam
ideológicos ou lucrativos). Além disso, colocou-se à
disposição de uma Weltanchauung, de uma visão de
mundo marcadamente ideológica (o liberalismo, o
marxismo), ao mesmo tempo em que - tanto a
versão marxista como a positivista - voltou-se quase
que exclusivamente para as coisas vulgares, terrenas,
como a regulamentação e o "domínio das condições
de produção material". A crítica de Heidegger à
modernidade, que ele via como uma espécie de
doença dos tempos, indutora da desumanização do
homem, retoma assim as antigas bandeiras do
romantismo (valorizando a intuição, o sentimento, o
desprendimento, o "verde" da vida) contra a razão
(planejamento, previsão, interesse, utilidade,
precisão, o "cinza", enfim), ressurgindo como uma
confirmação, em linguagem mais rebuscada e
obscura, da célebre frase de Goethe ("Cinza é o
conhecimento, verde é a árvore da vida").
O Escurecimento do Mundo
"Quem quer que use máquinas ganha um coração de máquina."
Paul Ernst - Der Zusammenbruch des deutchen idealismus, 1918
A instrumentalização da razão operava-se pela
adoção da técnica. As máquinas eram as principais
responsáveis pela "desumanização" e pelo
crescente "escurecimento do mundo", fazendo com
que se desse o fenômeno do que Ernst Niekisch
chamou de Menschenfressen Tecnick, a tecnologia
que devora os homens. A mentalidade tecnológica
havia posto em fuga os deuses, provocava a
destruição da terra, massificava os seres humanos
e perseguia tudo o que fosse realmente criativo e
livre. O céu, morada do divino, dos mitos, dos
Indústria, um espectros heróicos do passado, fora varrido do
vulcão poluidor imaginário do homem moderno devido à "fúria da
técnica" então desencadeada e pelas ilimitadas
possibilidades de organização - a excessiva divisão do trabalho - do
ser humano comum.

A Nova Mística Antimoderna


Quem como Heidegger teve um pai artesão chocava-
se com os processos industriais do taylorismo e do
fordismo, predominantes no mundo fabril, enquanto
que parece natural a quem teve uma intensa
formação religiosa como ele entender que o universo
das sombras, dominante no mundo moderno,
resultou do fim do sagrado. Mas então veio Hitler
para fazer o céu de novo resplandecer. Uma nova
mística, a do Volk und Rasse, a do povo e da raça,
afugentava o cinza da racionalidade tecnológica,
abrindo uma brecha para a vida, para o instinto, para M.Heidegger
a coragem, para heroicidade. Com o Führer a (1889-1976)
imaginação suplantara a razão!

A Técnica entre os Antigos e entre os Modernos


"Nasce a ciência, desaparece o pensamento."
M.Heidegger

Talvez tenha sido o moderno pensamento alemão que mais tenha


levantado obstáculos à introdução da tecnologia e ao mundo das
máquinas. O que não deixa de ser um paradoxo tratando-se de um
dos países que mais rapidamente executou a revolução fabril no
século XIX, demonstrando notável aptidão para as artes mecânica e
para as ciências naturais. A possível razão disso deve-se ao
movimento romântico alemão do século XVIII e XIX ter-se oposto
firmemente ao racionalismo predominante na vizinha França e ao
mecanicismo vitorioso na Grã-Bretanha. Para muitos adeptos do
romantismo a ojeriza à técnica "desumanizante" passou a fazer parte
do caráter cultural do "verdadeiro alemão". Assim é que vamos
encontrar, ainda que desarticuladas e ideologicamente divergentes,
várias manifestações hostis à maquina no jovem Marx, em Nietzsche,
em Spengler, em Simmel, em Sombart, em Heidegger, e até nos
"marxistas ocidentais" como Adorno e Horkheimmer. Quase todos
eles, independentemente de inclinarem-se à direita ou à esquerda,
afinando as vozes na denúncia da "alienação", da "instrumentalização
da razão", na "padronização castradora", "diabólica", "vulgar", etc. e
tantos outros epítetos lançados contra o moderno mundo da indústria
e suas inevitáveis conseqüências. Heidegger, em conferência
realizada em 1933, a Questão da técnica, inclinou nitidamente a favor
da nostalgia ao identificar a existência entre os gregos antigos de
uma tekné (técnica) positiva, "esclarecedora", contrapondo-a à
moderna, apontada como sombria, opressora do homem,
"falsificadora do ser".

Técnica para Heidegger


Antigos gregos Moderna
Ela revelava, não É violenta, exercida sobre o ser pelo
fabricava. Dirigia as existente. Acionada para produzir e não
coisas para a plenitude, para esclarecer, levando o mundo ao
despertando para a obscurecimento, à alienação
aurora da verdade. desumanizadora e à coisificação e
reificação.