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UFRJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
DISCENTE: Leonardo Botelho Dória DRE: 114153329
DOCENTE: Rodrigo Almeida Cruz DISCIPLINA: Legislação e Ética
TURMA: Publicidade e Propaganda SEMESTRE: 2017.1

1ª Avaliação – Trabalho sobre o filme “Obrigado por fumar”

Apesar de ser categorizado como uma comédia, o filme “Obrigado por fumar”
(2005) traz em seu enredo uma discussão pertinente e bastante importante nos dias
atuais: a influência da publicidade nos hábitos de consumo das pessoas. Focado mais
diretamente na indústria do tabaco, a crítica apresentada no longa pode também ser
aplicada às indústrias do álcool e das armas de fogo, além, é claro, da grande mídia e do
governo que, direta ou indiretamente, exercem influência nesse ciclo vicioso.

Nick Naylor – interpretado por Aaron Eckhart – é o personagem principal da


trama, um lobista que representa os interesses da indústria tabagista norte-americana.
Ele busca influenciar outras pessoas e entidades a acreditarem que o consumo de cigarro
não é prejudicial e, para isso, por meio da persuasão tenta passar uma imagem benéfica
no que diz respeito ao consumo de tabaco. Dessa forma, o poder da argumentação é o
que embasa todo o processo, pois é a partir desta que o lobista consegue debater,
questionar e manipular as palavras em prol do seu argumento.

A maneira convincente em que Naylor emprega no seu discurso não se distancia


do modo em que as campanhas publicitárias fazem uso da linguagem retórica para
convencer o seu público-alvo. Para atrair o consumidor, a publicidade tenta apelar para
o desejo e o imaginário das pessoas, estimulando que estas se sintam motivadas para
comprar ou adquirir produtos e/ou serviços. É por isso que, no processo de construção
de uma peça atraente, na maioria das vezes utiliza-se a linguagem não verbal em
conjunto com a verbal, ou seja, o uso das imagens atreladas a um texto persuasivo, a fim
de reforçar o argumento e atrair ainda mais o consumidor.
É nesse sentido que o lobista, ciente do poder que as imagens possuem, procura
fazer com que estas não tornem-se suas inimigas, muito pelo contrário, busca utilizá-las
em prol do seu discurso. Isso pode ser visto em alguns trechos do filme, como por
exemplo: 1) no embate que Nick tem com o senador Ortolan Finistirre, que tenta
aprovar a impressão de uma caveira nos maços, indicando que o cigarro faz mal à
saúde; 2) o pagamento de uma quantia considerável para o célebre “Homem de
Marlboro”, antigo garoto propaganda da marca de cigarro Marlboro, que encontra-se
com câncer por conta do produto que ele próprio anunciava, e utiliza a mídia para fazer
reclamações; 3) a procura de um produtor de Hollywood para que este pudesse inserir o
uso do cigarro nas produções, assim como era feito antigamente, onde este acaba não
somente aceitando, mas também sugerindo o nome de grandes astros para fazerem
cenas fumando cigarro.

É através destas estratégias que a comédia tenta mostrar como a indústria do


tabaco se mantém em alta, mesmo com tanta repercussão negativa no seu entorno.
Apesar do tom irônico empregado, revela uma importante articulação envolvida para
trazer uma imagem positiva da organização, o que envolve investimentos milionários
para manipular a opinião pública. Cabe destacar, contudo, o papel fundamental que os
comunicadores exercem nessa empreitada, onde a presença de publicitários, assessores
de imprensa, relações públicas e até mesmo jornalistas se tornam peças-chave em todo o
processo de construção de um ponto de vista pautado em um determinado interesse.

A forma como o personagem Nick Naylor age por conta da sua profissão traz à
tona uma discussão em torno do quão ético são suas atitudes. Como o mesmo menciona
no filme, ele tem o papel de “vender morte”, muito embora utilize a premissa de que
exista uma liberdade de escolha por parte dos consumidores, já que nada é imposto,
ainda que haja uma manipulação pautada no convencimento. O seu modo de agir
aparenta, num primeiro instante, não ser uma atitude ética, mas se analisado
cuidadosamente, percebe-se que ele não fere os princípios éticos, pois está vendendo
apenas um produto – assim como uma empresa vende um celular, por exemplo – e as
pessoas optam por consumi-lo ou não, mesmo tendo noção dos malefícios que isso pode
trazer à sua saúde.

Desse modo, Naylor não age contra a ética ou valores morais, ele apenas já está
acostumado a lidar com essa situação que sua profissão exige, tendo, portanto, uma
frieza já naturalizada. O personagem traça uma comparação no próprio filme ao
exemplificar o papel de um advogado ao defender um assassino, pois aparenta ser um
absurdo perante os princípios éticos, mas é preciso lembrar que existe a possibilidade
dele não ser um assassino. Assim, Naylor cumpre o seu papel de vender um produto por
meio de suas técnicas argumentativas, mas a responsabilidade de consumi-lo parte de
cada um. Por mais prejudicial que seja o consumo do cigarro, trata-se de um produto
cuja venda é permitida, portanto, não descumpre a legalidade.

O que se pode notar, entretanto, é que a ética de uma sociedade vai se moldando
com o tempo, onde algo que antes era visto com bons olhos, pode simplesmente ferir a
moral e os bons costumes (e vice-versa). O próprio cigarro por um bom tempo foi
considerado objeto de requinte e glamour, sendo bastante utilizado em peças
publicitárias, filmes e novelas. Com o passar dos anos e com pesquisas comprovando os
malefícios do cigarro, aumentou-se o número de campanhas antitabagismo, tornando-o
um dos grandes males do século.

Contudo, atualmente, mesmo que proibido os comerciais e com uma redução de


sua aparição em propagandas, filmes e novelas, o cigarro ainda possui sua venda
legalizada, tendo um alto consumo por parte da população e sendo um dos principais
causadores de morte no mundo. Entretanto, diversos outros produtos também não fazem
bem à saúde e ainda assim são bastante consumidos no dia-a-dia, sendo tratados com
plena naturalidade: bebidas alcoólicas, refrigerantes, fast-foods, dentre outros. Por mais
que se tenha conhecimento do quão prejudicial podem ser, a sedução em consumi-los é
maior. Futuramente, quem sabe, estes possam ser mal vistos sob a ótica da ética, do
mesmo modo que ocorreu com a indústria tabagista, sendo os novos vilões que dão
espaço a outros protagonistas de consumo.

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