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Uma Nuvem De CALÇAS,

W. Maiakovski.

Por andré nogueira, 2012.

1
(Prólogo):

VOSSO PENSAR,
meditabundo no miolo mole,
igual a um lacaio gordo largado no imundo estofado
irei fustigar, com farrapos de coração ensangüentado,
até fartar cascando o bico descarado.

Na alma comigo não trago


um só fio branco
nem meiguice vovozinha.
O mundo eu absurdo quando a voz retumbo
e, lindo, desfilo
sexy, não sexagenário.

Miguchos,
o amor ao violino vós deitais
os brutos o deitam no bumbo.
Não podeis desrosquear igual eu faço
ininterruptos lábios serdes, nada mais?

Vinde aprender,
das salas de visita sintas-liga
e da liga angelical condecoradas funcionárias,

e aquela folheando lábios que mitiga


igual cozinheira a receitas culinárias.

Quereis –
e serei carne rábica
– e, igual o céu, nuançando de tons –
Quereis –
e serei de impecável meiguice,
não homem, mas – uma nuvem de calças!

2
Não dou crédito a que haja a florida Nice!
Comigo de novo tamburibularão
os homens, largados, como macas de hospitais
e mulheres, gastadas, como palavras proverbiais.

1.

VÓS PENSAIS
que isto é um delírio de malária?

Isto foi,
foi em Odessa.

« Chego às quatro » – Maria falara.

Oito.
Nove.
Dez.

Eis que anoitece


e às trevas do uivo
travesso a janela do quarto, sombrio
macabro...
Dos ombros recurvos
relincham de rir
candelabros.

Ninguém poderia imaginar:


quase ele chora, torcendo
a tencionada imensidão.
Qual intensão que uma rocha dessas poderá?
Mas esta rocha está é cheia de tesão!

Não se arroga de ser badalado


este feito de bronze
o coração de ferro frio.
Quando às onze a escuridão
quero guardar este badalo
em lugar tenro e feminil.

3
E eis – imenso,
corcovado na fenestra
o vidro fundo com a testa.
Será amor ou não? Eu penso:
e qual – grande? minúsculo?

Grande de que jeito, tanto músculo que tenho?


Terá de ser pequeno,
um amorzito dócil,
par-de-meias:
Espantam-na os apitos dos carros;
já, dos carrosséis
as sinetas a comovem.
Chove-chuva
e gotas dágua que ela cataputa
cataporas de seu rosto
no rosto meu,
e eu: aguardo.
Ei-la – a noite-meia:
capturou,
decaptou,
do último segundo espada.

A hora décimo-segunda despencou


igual do cepo a cabeça decepada.

As gotas cinzas da vidraça


que vidram
em careta de derrame,
como uivo vindo de fantasmas
da catedral de Notre Dame.

Maldita!
Então não basta disto tudo?
Logo a boca soltará um grito.

4
Escuto:
como, da cama, o doente,
um nervo que salta, silente.
E eis –
deu, bambo, de andar
e logo, bam bam bam, de acelerar.
Enervado, contável
já um terço deles sem conter-se
arrasta em celerado tchá tchá tchá.

Desandou no andar debaixo a argamassa.

Grandes,
pequenos, pelo menos
cem!
É a rábia – bamboleiam e, a seguir
bambeiam os braços também.

No lodo não nada de olho pesado,


a noite a se infiltrar pelos batentes

Súbito, retinem as portas


como se todo o hotel batesse os dentes.

Entras, dizes: « Espera aí...


... Eu vou casar »,
e as luvas de camurça esganas.
Vai, casa! E daí?
Não ligo e não vou te ligar.
Não vês quanto estou sossegado?
Não pulsa o defunto na cama.

Lembras?
Dizias assim –
« Jack London, grana,
amor e paixão » –
e eu, que só via a ti, Gioconda
a qual se podia furtar

E furtaram então.
5
Mais uma vez malabarista neste jogo
arder na labareda enamorado.
E daí? Eu acostumo:
foi a casa consumida pelo fogo
e há desabrigados vagabundos
os quais nela têm morado!

Tu atiças? « Estas tuas


esmeraldas de loucura
valem menos
que uns trocados que não tens ».
Te cuida: esse teu « vale » soterrando
o Vesúvio dá o troco
se Pompéia desavém.

Ei, senhores!
Diletantes – do delito,
amadores – dos tumultos,
amantes – violando túmulos sagrados,
vós já vistes algo tão aterrador
quanto
o rosto meu
quando
eu
estando
absolutamente sossegado?

E sinto – « mim »
que já não basta – bestas minhas
que se alastram.
Quem liga? ... Alô??
Mãma?
Mãma!
Teu filho está super doente!
Mãma!
Ele tem, no coração, um incêndio!
Diga às manas, Liúdia e Olga:
já não tenho onde meter-me.

6
Cada palavra, até a lorota,
pula (do puteiro, que está pelando
a toda pelada puta)
pela boca crepitante que a enxota.

Já o povo sente o cheiro


que exala, de fritura.
Resgatar alguma coisa, vão
ou coisa alguma –
Capacete!
É proibido entrar de botas!

Falai aos bombeiros:


ao coração mais cálido de todos
só com carícias se escala.
Arregala-se o olho da cara
como o tonel do caminhão-pipa.
(Tenta nas costelas sustentar...)
Vou saltar! Vou saltar! Vou saltar!
(... e desabam-se elas:
do coração não te chispas!)

Dos lábios cavernosos


um beijinho sujo de carvão
espiralou até o rosto que chamusca.

Mamãe!
Cantar não posso.
Na igrejinha do coração
todo um coral faz música.

7
Figuras centelhas de números e nomes
do crânio
como, do arranha-céus que fulgura,
toda a prole
que cai.
Assim o medo
de agarrar-se ao céu
vai a pino, quando
do « Lusitânia » em brasas
os braços se levantam.
Para a gente que treme
à parte, no silêncio dos apês,
já uma clarão de olhos cêntuplos explode
do cais.
Grito último, -
tu, pelo menos, vai dizer
que eu ardo é pelo século dos levantes!

2.

GLORIFICAI-ME!
Não sirvo de par nem para os grandes.
Eu estaco o meu « nihil »
sobre tudo já feito antes
de mim.

Eu nunca nada quis ler.


Livros?
Que livros o que!
Eu antes pensava –
os livros são feitos assim:

Chegou o poeta
e, à guisa da boca de favas aberta
já logo se põe a cantar
inspirado simplório.
8
Ah, faz o favor! Descoberta:
antes que logo se punha a cantar
os punhos torcia, longamente
andando pra lá e pra cá
e já não pode respirar
no entupido coração de lodo
da imaginação o estúpido peixe-beta!
O nada a nadar, enquanto vervem
de todo guisado
quaisquer rouxinóis e donzelas...
vemver: que a rua murmura, analfabeta –
não há que conversar ou levantar a voz a ela.

Da cidade as babilônicas torres,


cheios de vãglória,
outra vez nós soerguemos
e, rastelando as migalhas do castelo,
Deus dá termo
embaralhando os termos.

A rua, sem reclamar, arrastava o seu calvário,


até que o grito saltou em pé da glote.
Só que se aglomeraram,
socados na goela em transversal,
roliços taxis e ossudas passarelas
perambulâncias pelo tórax
e perda total.

Era a cidade
interditando a estrada em suas trevas...

E quando - apesar de tudo –


a turba pela praça expectoras
empurrando a arruaça ao campanário da garganta,
se dizia – a sedição,
nos coros coralinos de arcanjas
Deus, pilhado, castiga!

9
E a rua, lá debaixo, igual o crocodilo
escancarado para a janta,
disse: « É hora de encher a barriga! »

A cidade é nestes termos descrita


pelos Krupp e sua trupe,
supercílios termômetros da ameaça.
E, no meio da boca
palavras falecidas decompõem-se
igual cadáver;
duas delas vivem, só
e cada vez mais gordas – « miserável »
e qualquer coisa
como – « s.o.p.a ».

Os poetas, desfalecidos
ensopados de pranto e soluço
escapulem da rua
desalinhando o penteado:
« Como, usando deste duo,
cantaremos
as señorinhas
o amor
e as florezinhas ao sereno? »

E saem, atrás dos poetas –


os glutões da rua:
de suas maletas, mercadores
dos puteiros, putas
e estudantes das escolas.

Auto lá, senhores!


Deixa disso, truta!
Não sois mendigos,
não pedis favores ou esmola!

10
Vós, estirpe de sadios,
com passadas espaçadas,
já não tendes de escutar, mas extirpar o mal –
os malas, carrapatos de suplementos gratuítos
agarrados a todas as camas de casal!

Acaso a eles pedir servilmente


« Acudi! », e dobrar a cervical
rogando hinos, oratórios?
Vós mesmos sois os criadores
ao reger ardentes hinos, estes:
o fragor das fábricas e laboratórios!

Que tenho eu com o fantástico Fausto


em foguetões de artifício
deslizando com Mefistófeles no palanquete?
Eu sei –
o prego do meu sapato
é mais terrífico
que a imaginação de Goethe!

Eu,
Crisostomíssimo,
de cuja cada palavra
re(cém-)nasce a alma
dizendo ao corpo: « aceito! »
digo-vos:
o átomo mais ínfimo de vida
mais vale
do que tudo o que eu já tenha feito!

Escutai!
Está a pregar
raios emana dentre os dentes
o Zaratustra dos dias atuais!
Vós
da cidade-leprosário dependentes
de ouro e lama, ataduras e ais;
11
Vós
De faces, dependuradas, como lençóis
de lábios, dependurados, como lustres
Vós, mais límpidos e ilustres
que o azul, depois, veneziano
de lavado por cem-sóis, cem-oceanos, Sois!

Eu me lixo que não haja


em Ovídio, em Homero
gente igual a gente,
da fumaça a fuça tomada de bexiga.
Eu duvido que o sol, vendo as nossas almas
cheias de valiosíssimos minérios,
não se extinga.

Músculos, tendões, ao invés de orações


cheias de sofreguidão!
Ora, vós, proletários, implorando
por menos coléricos futuros?
Cada um de vós – guidão,
entre o dedão e o dedinho sustentando
o cabo teleférico dos mundos!

A mim viéram auditórios


do Gólgota: Odessa,
Kiev, Petrogrado, Moscou,
e não houve um só que não gritasse:
« pregai-o,
pregai-o na cruz! »
Só que, a mim, a gente, até essa
a que ultrajou
sobre todas as coisas, Vós Sois –
o meu raio
de luz.

Viram o cão
como lambe a mão que o socou?!

12
Ridente da raça de hoje,
igual fosse comprida,
escabrosa anedota,
eu, sobre a montanha, já vejo
os dias vindouros que não vês;
onde o rabo de olho da gente se enrosca
na crista onda das hordas dos esfomeados,
a coroa de espinhos que traga
a revolução dos anos dezesseis.

Eu sou – convosco.
Eu, seu precursor, convoco-vos.
Estou em qualquer canto aonde doa.
Na cruz eu me coloco
se a lágrima queda da bilha.
Nunca mais a coisa alguma se perdoe.
Eu passo a foice nas almas
aonde brotou o milharal da ternura.
E esse passo
é mais difícil que tomar
milhares de bastilhas!

E quando ele chegar,


anunciada inssurreição,
saíde para a salva, o salvador –
eu tiro, eu saco a minha alma para vós
e, para que seja maior,
em minhas mãos esmagarei-a
e ensangüentada a dou,
como se fosse uma bandeira.

13
3

AI!
Para que isso?
De onde isso?
Para o clarão alegremente
os punhos sujos agitá-los!

Surgiu,
e mutila o pensamento a idéia
do, de loucos, internato.

E–
como, quando afunda o couraçado,
à escotilha aberta
as almas se atiram eletrocutas –
sobre eles, eclodindo o olho no gogó,
galgou, enlouquecido, Burliúk.
Quase estatelou
a jugular dos séculos
pisando-os na nuca contra o chão;
escalou,
levantou
foi
se bem que gordo, imprevistamente terno
ele pegou e disse:
« Isso é bom! »

É nada mal, quando revistas


tua alma interna no, de couro, macacão!
É nada mal, quando
(estão falando nas revistas)
já ao cadafalso se berrou:
« Beba Van-guten cacau! »

E, esse segundo fatal


estridente-de-sabre
eu não trocaria por...
eu não trocaria nem...
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Mas, da fumaça de cigarro
e do pigarro de licor
já se esticou o rosto
do ébrio Severianine.

Como pode? Tanto brio


denominar-se de poeta
e, mole como um colibri,
chilrar!
Hoje
necessita
na marreta
a moleira deste mundo arrebentar!

Vós,
do pensamento bento, só pensais:
« É de gala, nesta valsa, este passo? »
Arre! Vede como, galinhão, eu me divirto –
sem virtude, e virtuose cafetão
nas cartas que trapaço!

De vós arredo o pé,


bodas do século de ouro
que de lágrimas regados.
Eu, o sol como monóculo
coloco-o
no olho arregalado.

Inverossimilmente trajado,
viajando pelo mundo
pra agradar farei verão.
E, adiante, como a um poodle
em rédias curtas guiarei Napoleão.

Toda a terra tremerá


como uma mulher, querendo dar,
as carnes sacudindo;
as coisas bailarão
os lábios delas em sussurro:
« lindo, lindo, lindo! »
15
E, do nada, urro:
toda a extensão nublada
levantou-se em turbulência
como, sublevados contra o céu
de todo o mundo os operários
declarando greve em escarcéu.

Soa o trovão – se endireita,


por um segundo segurando-se,
o rosto celeste a se crispar,
e as narinas dilatadas assoa,
vira o cão:
a carranca de lata do Bismark.

E alguém
embrenhando o braço pela bruma
faz menção para o café –
É suave igual a pluma
terno igual a mulher
qual um fuzil engatilhado.

Vós pensais
que isto é um gentil raio ensolarado
a puxar a alça da xícara de café?
É, de novo, a metralhar os sublevados
o general Galifet!

Descruzai, cabaços, os braços!


Pegai a pedra, a faca ou a granada!
E quem não tiver braços
vinde dar que seja cabeçadas!

Vós, talher em mãos, sem prato que cortar


e mordidos pelas pulgas!
Esfomeados, esfumaçados, esfarrapados,
baixai, agora, às ruas!

16
De sangue ressacadas, declarai
segunda e terça-feiras, feriados!
No corte da facada, a terra inteira
se recorde de quem ela quis ver rebaixados.

A terra, gorda e humilde


igual aquela amante, depois que a largou
Rotschild.

Os estandartes tremulem no tiroteio –


cada fanfarra, nos dias desta grande festa,
que passar pela pista.
As carcaças, lá no alto, hasteiem,
postes de luz, em suas setas
sujas de sangue dos capitalistas!

Xinguei,
abri a matraca
carquei a faca
subi atrás de alguém morder
o músculo do ombro inimigo.

No céu, rubro-Marselhesa, até morrer


o crepúsculo, para as sombras, míngua
até quando enlouqueça
e pedra sobre pedra não haver.
A noite circula, encontra, morde
e forrará a barriga.

Olhai –
o céu, outra vez, tramando a morte
como Judas, que trai
estrelas trazendo
na concha das mãos!
Ela chegou, como Mamai
sentando a bunda
sobre a populenta imensidão:
esta noite, negra como Azef
olho algum agüenta olhá-la.
17
Num canto de taberna me encolho,
em aguardente a alma debulhando e a toalha,
e vejo:
Do canto, olhos envoltos num manto,
coração adentro, Santa Maria dardeja.

A quem, a auréola pela moldura vulgar


a esta galera da taberna, divulgarás?
Olha – como antes, agora
ao suplicante do Gólgota
eles preferem Barrabás!

Eu, talvez,
meio o amálgama humano,
o rosto meu cobrindo esteja.
E eu, talvez,
de todos filhos teus,
o mais bendito seja.

A eles,
estragados pelo prazer,
dai, de pronto, a hora grave,
para que as crianças,
quando estiverem prontas,
venham a ser,
os garotos – pais,
as garotas – grávidas.

Para que sejam grandes e professos,


como os cabelos brancos dos magos,
os novos rebentos dessa prole;
para que sejam, pelos nomes dos meus versos,
batizados, Santa, olhe.

Eu, que idolatro


as máquinas e a Inglaterra,
aposto:
neste, de hábito, evangelho, sou
o décimo-terceiro apóstolo.
18
E quando minha voz,
hora após hora
e dias após, expirar
de tanta ofensiva,
talvez venha, Jesus Cristo, farejar
a minha alma inesquecível.

MARIA! Maria! Maria!


Deixa entrar, Maria, deixa!
Não quero dormir na rua.
Não desejas?
Queres, arreganhadas
as covinhas das bochechas,
provado por todos,
já sem gosto,
que eu chegue
e, desdentado, gagueje:
“Sou, hoje,
de pureza à toda prova”?

Maria, veja:
já surge em mim a corcova!

Nas ruas, olhinhos uns despontam


pregados do quadragésimo mal-dormido ano,
quando a gente brita a gordura
no quarto andar da papada –
tirar uma onda
que, outra vez, sujando a dentadura,
farelos das carícias ontem consagradas.

19
Eis, carpideira da calçada
a chuva, Ave!
Larápia lacônica, ela lambe
oprimido como um paralelepípedo
das ruas
o cadáver.
E, dos sobrolhos grisalhos –
sim – como geleiras,
lágrimas dos olhos
sim – dos olhos paralapsos
dos encanamentos com goteiras!

A tromba dágua chupa os transeuntes


adentro. Nas carruagens
que os ginastas da gordura se bezuntem
e a gente, de tão gorda, se arrebente
até, da dobradiça, a banha que ressumbre
igual, da carruagem, riacho barrento
e, junto aos pãezinhos sem fermento,
a dobradinha de costume.

Maria, me diga:
como, nesta orelha gordurenta, enfiaremos
uma palavra gentil?

A avezinha
desfiando canções, mendiga
beberando pio-pios –
reclamações de fome;
e eu, Maria, um homem
que não presta
escarro da estrela tuberculosa
na concha das mãos
da via Présnia.

Maria, um tipo desse quererás?


Maria, desce, vá!
Os dedos convulsos, vou apertá-los
na garganta de lata da campainha!
20
Maria!

Na rua
o mato alto segue a lei do « matarás »
e, no pescoço, o vulto dos dedos
da dileta companhia.

Maria, dói!

Igual o dente-de-leão, estoura


e, nas meninas dos olhos, alfinetes
de chapéu de senhora!

Deixou, já entro!

Meu tesouro!
Não te assustes,
em minha nuca de touro,
a cordilheira chuvosa
de mulheres que se sentam –
Isto pela vida se armazena:
milhões de grandes companhias
puras, limpas, como a sua
e, milhões vezes milhões, de pequenas...
companheiras
que suam.
Não te assustes
que, outra vez, na intempérie da traição
eu tenha, nos rostos
dessas lindas meninas,
meu consolo: « Amantes de Maiakovski ».
Esta série, no coração deste louco,
é uma dinastia – entronadas tzarinas
em estoque.

Maria, sói!

21
Dá-me o sésamo dos lábios
seja de tesão despido
ou de terror, o arrepio.
É que meu coração
jamais chegou a maio
mas, a vida vivida,
um só centésimo abril.

Maria!
O poeta pia
supersticiosamente
seus sonetos a Tiana.
E eu,
como os cristãos conjugam
“dai-nos hoje
o pão de cada dia”,
cônjuge supérstite,
inteiro carne humana.

Maria, dai!

Maria!
Receio esquecer o nome teu
como o poeta receia
esquecer de Deus na santa ceia!

Maria, sai!

O corpo teu
vou amá-lo
e cuidá-lo tão bem
quanto um soldado
mutilado da guerra,
inútil,
sem ninguém,
cuida
de sua única perna!

22
Maria!
Não queres?
Sim?

Não queres!

Que assim seja –


como o cão
arrasta
pra casinha
a pata atropelada pelo trem,
arrastarei o coração
que lágrimas goteja
arrasado
outra vez, amém.

Das pétalas grudadas em minha bata


o sangue atapeta a pista.
Mil vezes dançará o sol
em volta da terra
como Salomé
em volta
da cabeça de João Batista.

Dançai
os anos da minha carne
para o fim
e, para a casa de meu pai
pelas varizes
são milhares de caminhos carme
sins.

Que eu deslize
enlameado (de pernoitar na fossa)
e, lado a lado, possa
lhe dizer ao pé do ouvido:

23
- Senhor Deus, ouve:
não te estafas no céu
nesse pudim de nuvens
descansando
teu olhar dominical?
Construamos um carrossel
na árvore
do conhecimento do bem e do mal.

Omnipresente, cada armário te hospede!


Serviremos sobre a mesa aquelas vinhas
de propósito, que incitem
a dançar a « garrafinha »
para o rabugento Pedro Apóstolo!
Novas Evas nós traremos para o Éden:
uma palavra tua
e, do jardim, eu trago para ti
as mais belas das mulheres.

Queres?

Não queres?

Tua cabeça pendes para o lado?


Fazes cara feia para mim, senhor?
Consideras
que esse aí, atrás de ti,
de asas, entende
o que é isto, chamado
de “amor”?

Eu também sou anjo, já fui um –


açucarado e pastorinho, todo cupido.
Mas já chega de ser este
que serve
às éguas, de presente,
nuns vasinhos de Sèvres,
os meus suplícios esculpidos.

24
Todo-poderoso, déste
a cada um
uma cabeça sobre o torso
e inventaste o par de mãos;
tu désses que pudéssemos
beijar, a outro par, sem a dor
da paixão!

Criador omnipotente, já se nota


que, deuzito pequerrucho,
és um incompetente...
Espia aqui:
do cano da bota
tiro, quando me curvo,
uma faca de trinchete...
Agachai-vos no paraíso!
Espichai os rabichos,
arrepiai as plumas,
velhacos de asas!
Eu os destrincho,
os que do incenso se defumam,
daqui até o Alasca.

Abre alas, vou entrar!

Seguro?
Não me seguram!
Certo
ou errado,
eu não posso sossegar.
Vem ver só – outra vez,
no céu, ensangüentado igual um açougue,
as estrelas se decapta.

Ei vocês!
Céu!
Tira o chapéu
que estou adentrando!

25
Não me ouve.

Dorme o universo
e a orelha enorme
cheia de carrapatos de estrela
encostada sobre a pata.

1914/1915.

Notas:

“Vagar en las tierras de otro y encontrarse a sí mismo en la tierra natal”.

→ Colhidas palavras de Marina Tsvetaeva; “Vladimir Maiakovski e Boris Pasternak” ...


(?) (a linha de cima já prestes a arrebentar, juntados esses três nomes!), de 1932:
(http://hablardepoesia.com.ar/numero-25/vladimir-maiakovski-y-boris-pasternak-
epos-y-lirica-en-la-rusia-contemporanea/). Mais outro caso em que venho sido
ajudado por amigos, alimentado espiritual e materialmente (tenho andado na corda
bamba!). Mesmo dia quando recebi a notícia da publicação de um poema inédito de
Maiakovski “na tradução contida e sóbria de Zóia Prestes (filha de Luis Carlos
Prestes ...
.
.
.
),” [despencou!] “... que a dedicou ao PC russo” (no Estadão de hoje, 7 de
Setembro, 2012). Bernardini termina o artigo dizendo que “notas de rodapé mais
extensas seriam bem-vindas”. Estas minhas notas eu as dedico, do fundo da minha
sobriedade, a todos aqueles amigos já mencionados (só não citados, para o bem
destas linhas).

26
Advertência:

Um dado da minha biografia vou citar, não por vaidade de tradutor, e sim
advertindo estas traduções, sobre de onde as estou advertendo. Muitos, neste
mundo, perdem as mães; poucos perdem a língua materna. Se poesia foi por
não saber língua nenhuma, crescer fazendo testes e gerando textos... As
traduções não necessitam ser atestados de experiência na outra língua; sejam
testes, experimentos desta “minha”. Admitindo toda a deficiência, faço-me apto
à admissão do emprego. Além da minha, não sei falar a língua de
Maiakovski... (faço o melhor que posso...). Depois das primeiras notas de
rodapé, apresentadas em estrofes de todo cheias de hipotéticas, estas notas
de agora são segundos rodapés. Mas não deixem de experimentar desta
cozinha, só por não ser ela típica. Estas traduções poderão ser estudadas
junto aos meus poemas que estão vindo (posso o melhor que faço!)

p.s.: „Ad‟, em russo “Aд” = inferno.

(Sub-nota assustada: rolei para as estrofes russas, disposto a pescar o caracter


“д” da palavra primeiro saltada aos olhos... Caiu “душу вытащу” (“a alma
esmagarei-a”... ). Saltar, um pedacinho da alma, e já... para o inferno? Cuida!
Bem sei: cada palavra que testo me testa. Sejam vistos olhOs arregalados por
trás de cada frase destes textos).

27
(Prólogo):

→ (12/7/12) MISTÉRIOS DOLOROSOS DA ESTROFE: Presta atenção, quando


compões uma oração, nas torturas, nas coisas enfiadas pelos buraquinhos das letras.
Que a palavra “composição” não passe a falsa sensação de que se trata de quebra-
cabeças, de encaixes horizontais. A magia poética se faz por instrumentos de
amarração. E, a eficácia da oração, “o que atares ou desatares na Terra será atado e
desatado nos Céus” – que a sintaxe vire simpatia. Itálicos são sinais de que a palavra
está submetida à tortura. Dividi-las ao meio? Só se as valises dessas palavras forem
coisas abrindo-se – na realidade, foi encontrado um zíper da palavra. De jeito
nenhum a tradução poderia se dar pela transfusão até a palavra mais conveniente do
português a partir de uma russa posicionada bem de frente (no caso de um livro
fechado) – geralmente, em edições bilíngües, nas páginas esquerdas. Até as sílabas
das palavras perguntam se têm ali direito de estar, e olharão para os lados, entrando
em esquemas de delação. A harmonia da estrofe não se dá pela relação de
harmônica vizinhança; pelo contrário: as lutas faladas no poema vão sendo
desempenhadas pelas palavras poéticas e, que algumas delas se torturem, é sinal de
que pela amarração está passando a corrente das forças. A palavra torturada está
posicionada no local da decisão. Por último, há o itálico da insinuação, quando a
palavra arqueia a sobrancelha. Leitor algum deve ler o poema sem desconfiar e
investigar que, além dos explícitos dos conceitos falados na palavra, haja implícitos
aquém dela. Veja “carna rábica” (мяса бешеный), que significa, no explicito:
tomada/infectada pela raiva (podendo “raiva” ser aquele afeto espiritual... [mas,
afinal, “carne” é palavra carnal]); no implícito estamos ajudados pelos
“meditabundos” (мечтающую...) ou “bumbos” (литавры), nos quais se deita o
amor, e outras insinuançadas palavras, como “desrosquear” (вывернуть). Pois
em “rábica” está contido o rabicó (“Rabcors”, M. Poética, pág.51) e, inclusive em
“nuançando”, está-se abrindo um zíper.
→ (30/7) Requisitei de alguns amigos, entendedores dos radicais gregos, ajuda para
solucionar este problema, da dimensão da palavra: “двадцатидвухлетний”, um
adjetivo para “22 anos”. Não capta e capa a ironia libidinal o simples “aos 22 (anos
(de idade))”. Cheguei a pensar em “22 anos de alta idade”; Alfredo sugeriu “do alto
dos meus 22”. Tal ironia só poderia ser transmitida pelo sufixo, equivalente a “de
(alta) idade”, “... genário”, anteposto de um correspondente (como aos 80 em
“octogenário”) aos 22. A potência de Maiakovski – deidade. Os radicais gregos
ofereciam suas aberrações para vir ao mundo (icosa, icosakaihena, etc.); estava claro

28
que necessitava de outra radicalidade. Esta surgiu pelas mãos do Acaso; eu respeito e
acrescento à minha tradução, sem contestar (e acasos desses são, é verdade, dos
meus principais critérios), as palavras proferidas pelo amigo que, além de tudo, se
chama Wladimir – Wladimir Vaz, a quem não falta a libido revolucionária, e sequer
sabia estar dizendo as palavras de minha salvação poética (ele pretendia homenagear
o amigo Divino, patriarca de nós ali reunidos, pelo sexagésimo aniversário dia desses
completado): “Sexy, não sexagenário!”.

→ (14/7)

“Onde queres ternura sou tesão” –

Gostaria de ver esta frase, anotada de uma música do Caetano (talvez “Chove-chuva
[e gotas dágua que ela cataputa]” tenha daí alguma influência) tomada como segunda
e mais importante epígrafe destas notas. As duas palavras, “intensão” e “tesão”
(“Qual intensão que uma rocha dessas poderá? Mas esta rocha está é cheia de
tesão!”), são o mesmo verbo (“хотеться”, simplesmente: querer), empregado nos
dois versos, correspondendo ao adjetivo “жилистая”, “tencionada”. A conversão da
intensão no tesão é operada pela mudança de pontuação, de um verso (?) a outro (!);
pela mudança de uso do verbo, de um verso (poderá querer?) a outro (quer!); e a
relação transcendental destas mudanças (passagens de um estado a outro) com a
tensão (“tencionada”) e, enfim, a contorção (корчится). Isto, afirmando e negando
o que, no prólogo, é afirmado e negado: a meiguice (нежности/ “ternura”). Antes de
Maiakovski dizer “Se quiseres, então serei meigo”, diz não ter um só fio de meiguice.
A estrutura do poema seguinte está inscrita nesta fórmula “se, então”, a revoluta (e
que acaba dizendo algo sobre a revolução) tentativa de o não-meigo ser meigo.
Deste modo a pergunta: “que intensão que uma rocha destas poderá?” é feita por
um Maiakovski-fingidor e a resposta: “Mas esta rocha está é cheia de tesão!” é dada
pela sua consciência vulcânica de si (Maiakovski sabendo-se Vesúvio). Assinala-o na
mudança do vocabulário em questão – a resposta sobre o tesão conclui um
silogismo ternário, guardando implícita uma segunda pergunta entre os dois versos:
“Que intensão pode haver num vulcão?”
→ (14/7) Entre estas traduções, que estou a fazer, de Maiakovski, e aquelas de
Iessiênin, as quais há pouco fiz, encontra-se o dia (*1) em que descobri a sua Poética

29
(Ed. Global, 84). Em toda a segunda parte de sua Poética, Maiakovski se utiliza,
ilustração prática de “como fazer versos” (estas notas estão influênciadas deste
subtítulo da Poética), do causo de sua resposta ao poema de suicídio de Iessiênin.
“Finalidade: paralisar de modo refletido a ação dos últimos versos de Essenine,
tornar a morte de Essenine desinteressante, fazer preceder no lugar da fácil beleza
da morte uma outra beleza, porque todas as forças são necessárias à humanidade
operária para prosseguir a Revolução, que exige – apesar das dificuldades
encontradas no caminho, apesar dos contrastes da N.E.P. – que nós glorifiquemos a
vida, a alegria da mais difícil das caminhadas: a que conduz ao comunismo” (pág.39).
A briga entre a “pulsão de morte” (ele-Iessiênin) e a “glorificação da vida” (Eu-
Maiakovski) foi a frincha por onde entrou Maiakovski, acordando a felicidade de ser
Maiakovski – já estes pré-soviéticos poemas têm, como principal incisão, a
afirmação revolucionária da vida invés da repressão (dos impulsos e dos povos).
Especialmente lá onde Maiakovski diz não gostar de ler [“eu estaco o meu „nihil‟”/
“[está a pregar] o Zaratustra dos dias atuais”], Maiakovski demonstra conhecer as
palavras letradas da literatura filosófica a este respeito.
Foi nos idos destes dias, em visita ao amigo e poeta Tomaz Amorim e seus amigos
de proa, dianteira da luta política na sua cidade. No ônibus, perto das quatro, escrevi
“Chego às quatro” duas vezes: uma avisando Tomaz da minha chegada; outra, pois
eu chegava trazendo Maiakovski na bolsa (“ - Maria falara”). Dia de panfletagens e
reuniões... A tradução, na qual até então prosseguia em paz, ganhou caráter de
urgência: terminar ao menos até o dia das eleições. Das flores de Iessiênin senti
ligeira vergonha. Iessiênin representa, igualmente neste caso, o anti-mandato social
(ver Poética, pág.25, etc.). Pelas minhas mãos, depois de por elas voltar a negatividade
de Iessiênin, irrompeu outra vez Maiakovski, pela vida do comunismo (eterno
retorno do não-mesmo). A solução da urgência (“Substituir a lentidão no tempo por
uma mudança de lugar”, pág. 42) foi o que sucedeu pelo Acaso, igualmente na
Poética: “Eis o motivo por que adiantei mais o poema sobre Essenine durante o
caminho entre o Lubianski Proezd e a Direção do Chá, na Mianitskaia (...) [que] foi
o contraste violênto necessário depois da solidão de um quarto de hotel”. Enquanto,
eu, antes: “Os mesmos quartos de hotel, os mesmos tubos, a mesma forçada
solidão” (pág.40). A leitura deste “poema de amor” (?) de Maiakovski, o qual vai da
intensão ao tesão, estará ajudada pela transposição político-revolucionária da
passagem “de um estado para outro” até “de um Estado para outro”.
(*1) Por volta de 2011, um daqueles aforismos sobre “o milagre da multiplicação
dos parênteses”, alguns de meus escritos ainda não conhecidos: “(Um susto no
trânsito): A não-existência de algo furtado, ao final da frase, pelo aparecimento de um
diabrete, está sempre acompanhada de uma pista: a seta de sua cauda, decepada por

30
um parêntese-ratoeira, apontando a direção para onde ele terá fugido”. Embaixo:
“Esta frase foi integralmente capturada de um sonho e recuperada, desde sua
palavra final, „fugido‟, seguindo a verdade de seu conteúdo, a partir de uma cauda
encontrada!”
Dias atrás estou abrindo o livro de Maiakovski, Poética. Estas palavras, dali
transcritas, dão agora de apresentação à Nuvem de Calças:

“Por volta de 1913, ao regressar de Saratov a Moscou, querendo provar a pureza


das minhas intensões a uma mulher jovem que viajava comigo no mesmo comboio,
disse-lhe que não era um homem, mas uma nuvem de calças. Mal pronunciei estas
palavras pensei que poderiam ser úteis a um verso e que me arriscava a vê-las
repetidas, gastas. Terrivelmente inquieto comecei a interrogar a mulher durante
cerca de meia hora, fazendo-lhe perguntas pérfidas, e só me acalmei ao ficar com a
certeza de que as minhas palavras já lhe tinham saído pela outra orelha./ Dois anos
mais tarde a “nuvem de calças” serviu-me para título de um poema. / Durante dois
dias meditei nas palavras de ternura que um solitário dirige à sua única bem
amada./ Como vai ele olhar pra ela, amá-la?/ Na terceira noite fui deitar-me com
dores de cabeça, sem nada ter descoberto. Por fim achei uma definição:/ O teu
corpo/ hei-de cuidá-lo e amá-lo/ como um soldado mutilado na guerra/ inútil, sem ninguém,/
cuida/ de sua única perna. / Saltei da cama, meio acordado. Na escuridão, com a ponta
de um fósforo queimado rabisquei na caixa de fósforos: “perna única”, e adormeci.
De manhã demorei bem duas horas para me lembrar do significado dessa “perna
única” apontada na caixa de fósforos e como ela tinha ido ali parar./ Uma rima que
estamos quase a agarrar pela cauda...” (pág. 30) (!)

→ (17/7) CUBA: A busca pela tchetchetka (tchetchiótka?) (чечеткой) termina no


tchatchatchá. Começou pelos vídeos, díspares entre si, achados na internet. Pensei em
“tango”, tentação de terminar em “tango down”. Mas tango não pode ser a três e
talvez não celerado, apesar de Schnittke. Fui levado a “tchá tchá tchá” pela fonética, os
repetidos chás, o que o russo pode representar numa só letra, o ч. Talvez a fala de
algumas onomatopéicas rastreie a coisa de que se fala, aquele tanto que tchetchetka e
tchatchatchá, por menos palpáveis que sejam ao não-russo ou ao não-cubano, vêm a
combinar pela palpitação. A confirmação está na fotografia do verbete (“Chá-chá-
chá (dança)”, na wikipédia): “Competição júnior de chá-chá-chá na... República
Tcheca” (!)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Ch%C3%A1-ch%C3%A1-
ch%C3%A1_%28dan%C3%A7a%29)
→ (17/7) “Tchiotkii” (четкий), ou seja: legível (pela nitidez), é diferente de
“tchiotki” (четки), ou seja: rosário, terço... Contudo, já vem sido prenunciada a
vinda divina. Fazer, então, do legível, o contável. Além do mais, o verso é, em tempo
real, coincidente ao ato de contar (um, três, muitos... ). Razão da alteração do verso
seguinte, literalmente: “Depois ele e mais dois”, fazendo o três deles de um terço deles,
31
adiantando, então, o “cem” (muitos, многие) de seis versos além. É que, logo pela
manhã, antes de dar com este verso, fiz uma impressão dos poemas de Isabela
Vieira e, abrindo em página aleatória, li: “Conta de rosário – cravo no desgarrado
coração”.
→ (23/7) A amiga Júlia Teles escreve: “Estou na Rússia. Vou ficar mais 15 dias.
Tem algum pedido deste lado de cá do mundo?”. – Tenho, sem dúvida (tendo uma
dúvida): talvez aí alguém saiba o que significam estas 15 letras: “звоночки
коночек”!
→ (25/7) VALE: É isto o que convém ao tradutor fazer: “„Estas tuas/ esmeraldas
de loucura/ valem menos/ que uns trocados que não tens‟./ Te cuida: este teu „vale‟
soterrando/ o Vesúvio dá o troco/ se Pompéia desavém” – versos suados estes,
“trabalho muito fatigante” (Poética, pág. 43)... Para o texto ser poético, as palavras
têm de ser as protagonistas da luta. O “troco” do Vesúvio é, antes, a troca de
valores definidos pelas palavras – neste caso exemplar, a troca de valores de “troca”
e “vale”. O “vale”, perante o qual o poeta não tem um trocado, é o “vale” sobre o
qual o poeta-vulcão pode dar o troco. O caminho do poeta ao poeta-vulcão se faz
pela subversão dos conceitos, um poder sobretudo declarativo – a luta de classes da
palavra é contra a classificação.
→ (26/7) De jeito nenhum “prole” é a palavra mais adequada para “дети”, que quer
dizer, apenas – crianças. Fui levado à prole pela necessidade de palavra no singular,
provocar a rima entre “cai” e “cais” e, aproveitando, uma ante-rima: “prole” e
“explode”. Um minuto depois noto a até então oculta razão da eleição – a
explosão... é do proletariado!
→ (26/7) Tentação de escrever “Lusitânia brasil”... (isto é, em brasas: “... um tal de
Brasil... ” (Maiakovski, Minha Descoberta da América, Pág.52, M.Fontes).

→ (27/7) CUBO: Quem poderá dizer, da foice, “foi-se”? Continuará havendo


marxistas, nos períodos de férias das universidades, reunidos em congressos e, na
frente das salas de auditórios, banquinhas de livros, foices nas capas de todos eles.
Será questão de preenchê-los de conteúdo realmente explosivo? Num destes
seminários de arte e revolução, acreditei que a máxima de Luka fosse de um Lukacs
mal-transliterado: “As pulgas não são más; todas elas são negras, todas saltam” (...)
Anotei duas interrogações no papel:

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1) Porta-voz, discutis
com umas portas?
2) Respublicas
para deixar cair ao rés-do-chão?

“Os fracos não conseguem avançar e esperam que o acontecimento passe, para
refleti-lo; os fortes ultrapassam-no de modo a arrastar o próprio tempo” (Poética).
No Brasil a palavra “realista” significa (acepção de igual influência prática dentro e
fora da academia literária) estar e agir conforme (conformado a) uma realidade dada.
Toda a realidade, para esse realista, que não está dada, é dadá. O “seja”, do “seja
realista” do realista, é repressivo: (seja (tu...) real). Mas o “seja” do poeta não chega
reprimindo; uma vindoura realidade desejada se põe ao lado deste “seja”, para se
realizar (seja real isso (tudo)). Senão tomarás por parede o que é porta – para entrar.
A temporalidade do arrastar é contada por um ponteiro que tem a forma da foice do
“vai ser”. Para o cubo-futurismo não terminar no vãguarda-roupa de conceitos,
[cubo] no qual se guardar, invés de cubo3 ao qual se elevar! A linha do tempo, na qual o
presente assinala o ponto futurista ao cubo, é arrastada, como que pela passagem da
seta em alta velocidade. Se não é desse jeito, o ponto futurista no cubo pode ser
guardado a qualquer “altura” (uma altura horizontal! Pois aqui não falamos de um
inseto que saiba saltar do plano do chão) da linha, e temos um tempo que se arrasta –
molenga, gordo, etc. O gênero preferido de Maiakovski, os versos de “agitação”,
para ler... em auditórios? (“Auditórios do Gólgota”). Poesia é a língua libertadora;
fora dela, onde não há suficiente agito, acidula-se a crítica, vira corrosão pela
corrosão – e, institutos além, arte pela arte. Tudo só há enquanto balança... Já no
discurso estacionado entre estes estacionamentos, a gente manobra suas bagagens, e
desse jeito tem de ser, quadradinho, para caber nessa vaga. A vaga poética é onda...
pra que venham mais vagas. Esta onda tem, em seu rodamoinho, a mantra “Om”; a
aspiração, na palavra vaga, que a tragamos, vagando lugares e vagalhando sentidos –
e direções a seguir. Quando for para mover a montanha, seja realista – para realmente
mover a montanha. Dentro da fórmula há, de fato, um explosivo, a explosão da
geração, para encarnar o mundo das plausibilidades infinitas. A teoria lógica do Ex
Contradictione Quodlibet
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_de_explos%C3%A3o), Da
contradição obtem-se o que se queira, fez-se carne em Virgem-Mãe, e realizou-se o
milagre. Politicamente é a contradição das classes que dará a brecha, e então será
hora de a geração saber enunciar-se. E que a fé reaja ao estado de coisas, não
esperando, e sim almejando e obtendo (pois estamos de esperanças do dever ser).

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→ (2/8) “Nos coros coralinos de arcanjas”/ “в хорах архангелова хорала”... Como
reproduzir esta redundância e não desmatar as aliterações? (Supondo que eu não
tenha mal-interpretado “в хорах” (“хор” [coro] no prepositivo plural) e “хорала”
(“хорал” [coral] no genitivo singular). “Coro coral” teria sido a minha precipitação...
na pobreza. “Coro coralino” surgiu do pulso de cada palavra, o qual a remete ao
assunto central, o mesmo da Poética: a poética revolucionária contraposta à poética
daquela ternura, a lírica das “florezinhas ao sereno”. Ignoro se Cora Coralina
corresponde a algum destes planos (de fato, talvez a mais distante referência desta
fagulha de idéia seja o dia no qual encontrei, na estante de literatura russa desta
biblioteca, o livro Kyra Kyralina, Panaït Strasti). Seja como for, ter escrito “coros
coralinos” na folha de papel, além de qualquer explicação, fez surgir uma canja em
“arcanjos”. (Dias depois surgiria uma última confirmação desta escolha: a entrevista
de Paulo Azeviche por Cara Caralina, http://xavante.art.br/2012/09/04/cara-
caralina-entrevista-paulo-azeviche/ )
→ (2/8) 2008, eu compunha o Bestiário, álbum de animais. O poema A MOSCA
surgiu fruto da compreensão da bela ambigüidade existente na palavra, em
português, “decomposição” (разлагаются). Por isso, apesar dos “aderentes e
vibrantes conteúdos acessórios”, o poema destaca “sobretudo os seus dois olhos/
no compor e decompor cartesianos/ nos cárceres de seus meridianos/ não há nada
que lhe escape à inquisição/ arctectônica no óptico fenômeno/ nas carnes faz
panópticos sardôneos/ assaz apaixonada pela decomposição”. Nesta poética uma
qualidade positiva da palavra será cruzar, copular as acepções do “carnal” e do
espiritual, destes decompor cartesiano e a decomposição das moscas. São palavras
lógicas (até as palavras “cruzamento” e “cópula” estão hora nos domínios do léxico
tradicional da lógica, hora dominadas pela carne); suas acepções não são, contudo,
assépticas. Uma felicidade para as nossas experimentações é ser Maiakovski usuário
de aspas – “miserável”, “s.o.p.a” – , ajuizador de palavras – “já falecidas (que)
decompõem-se... igual cadáver”. Chegou a ocasião, na meta-poesia da Nuvem, de,
decompondo “sopa” (борщ), redimir os Anonymous (e Sua Online Piracy Activity) de
não ter usado “tango down”. Abrindo mão do “кажется” (“parece”), o “como” de
“qualquer coisa como” (expressão que, sozinha, já é interessante...) devolve a sopa
para a sua decomposição fora da frieza de geladeira das siglas. A seguir, isso me
possibilita usar a palavra “ensopados” (размокшие), o que me libera acrescentar
“desfalecidos”, como se estivesse só a prefixar. “Pазлагаются” guarda perfeitamente,
de “decomposição”, a sua dupla face de dois cortes. É universal, já previsto pelos
olhos quadriculados da varejeira: a defunção natural nada é além da divisão de
elementos orgânicos. Podia ter usado a palavra “defunção”, para negar “função” –

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aquela história da arte burgusa, quando não funciona às intenções aos tesões
proletários, ser chamada de “degenerada”.
→ (2/8) A idéia de escrever “fantástico Faustão” (Фауста,
феерией ракет) e, deste modo, colocar todo o horário nobre dominical da
televisão, junto a “Mefistófeles, deslizando no palanquete”, tendo sido represada,
contudo vazou e, vazando, torturou a palavra “foguetões”. Assim, quando citado o
nome de Goethe, talvez induza ao aumentativo dos nomes próprios ao redor. Isto
foi alguns dias depois de eu ter recusado (Idem Ibidem, por causa do “trabalho
fatigante”) um convite para ver, na séde sindical dos acadêmicos demingueiros, um
filme chamado “Fausto”.
→ (3/8) Uma violência ao poema: a fim de que “sois” fosseis “Sóis”, tive de trocar
“nós (мы)” por “vós (вы)” ao longo de algumas estrofes. Esta pira sacrificial, na
qual bem-sucedidamente produziu-se o sol, não é preciso realimentar.
→ (3/8) Revelei ao amigo Alfredo onde fica a cabine, no fundo da biblioteca (vale,
igualmente na biblioteca, a regra de que o oriente e, com ele, a grande literatura
russa, estejam geograficamente a postos o quão distante se vá), onde estudo; e ele
veio convidar a um café, falar de boas novas – lutier e helenista, segue aos
finalmentes da fabricação de sua lira. Dias atrás, noticiaram que morreu o último
espécime daquela espécie de tartarugas, de Galápagos, da qual Darwin se alimentava,
comendo – “sopa”. Um capacete de operário, encontrado na calçada entre a biblioteca
e aquele, fazendo sombra nela, imenso cubo em construção, autorizou-me fazer a
seguinte indagação: “Os esforços da lutieria, esticando neste capacete certas tripas,
conseguiriam transformá-lo em uma lira?” A lenda da criação da lira, Hermes e a
tartaruga, explica Alfredo, acha-se em Homero, “antes das relações capitalistas de
produção e da Classe Operária” – (Retratando-me ao Alfredo: justo a parte entre
aspas foi a que ele não disse). De volta à minha cabine, no fundo da biblioteca,
dando marcha ao combio de versos a traduzir, procedo na estrofe seguinte: “Não
me lixo que não haja/ em Ovídio, em Homero/ gente igual a gente”. (!)
→ (4/8) “O cabo teleférico dos mundos...” – “миров приводные ремни”, ao pé da
letra: “a correia de transmissão dos mundos”. Os cinco dedos ligam uma corrente
que, serpenteando entre eles, põe em funcionamento um sistema, como no motor
do automóvel. Já os mundos estão sendo levados ou trazidos (desrealizados ou
realizados) pelo teleférico – não é o movimento da alimentação do sistema. Esta
imagem foi para ser acessível – entrevistei algumas mulheres, descobri nem todos
terem idéia do que seja uma correia de transmissão. Protejo-me pela primeira cena
de Kárhozat, Béla Tarr: o prelúdio de Shostakovich e o teleférico, soviético por
excelência, transportando carvão, e não turistas, pela Sibéria, e não pela “cidade das
crianças”. A escolha me permitiria, além do mais, fazendo dois os cinco dedos,

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transformar a sofreguidão em guidão – aos operários, não só a força; a direção. Só
me decidi pela alternativa, a qual sei insuficiente, quando, entrando no escritório de
meu Pai, ouço: “Мы шли, мы просили работы”.
http://www.youtube.com/watch?v=7AR-A32mEZk
http://www.youtube.com/watch?v=gTHiP1uvhHk
→ (6/8) VALE: “Vale” se desenvolverá para o vale aquele dos “valiosíssimos
minérios”, de que estão cheias as nossas almas. (“O átomo mais ínfimo de vida/
mais vale/ do que tudo o que eu já tenha feito”) – equivalamos “tudo o que eu já
tenha feito” a “esmeraldas de loucura”, cifras versus cifrões. O ouro da alma está
acima até dessa vala. “Vale”, nós o dizemos desta forma: “mais vale (a vida)”; o
“vale da sombra e da morte” é o lugar onde predomina a realidade realista, “Jack
London, grana...”, onde o que “mais vale” mais valia.
→ (6/8) CUBA: Fala-se de uma revolta acontecendo, neste instante, no México.
Minhas leituras de Minha Descoberta da América estão surtindo efeito. Justamente, fui
levado a ler o capítulo “México”, para rebater a acusação de que seja montagem a
fotografia (a qual colei na minha “linha do tempo”) de Frida Kahlo, segurando um
revolver... ao lado de Maiakovski. Maiakovski diz: “Diego Rivera me encontrou na
estação. Por isso, a pintura foi a primeira coisa que conheci na Cidade do México.
Antes eu apenas ouvia dizer que Diego era um dos fundadores do Partido
Comunista, que Diego era o maior artista mexicano, que Diego acertava uma moeda
no ar com um (revólver) Colt. (...) Naquele dia almocei na casa de Diego. Sua
mulher é uma alta beldade de Guadalajara. Comemos só coisas mexicanas (...)
depois passamos à sala de estar. No centro do sofá, o filho de um ano, largado,
enquanto na cabeceira, em uma almofada caprichada, jaz um enorme Colt” (págs.
23-26). Seguindo silogisticamente, não importa qual a coisa mexicana, se dorme com
Diego, dorme na companhia de um Colt. Nesta linha do tempo cujo layout azul é o
céu, o lugar demarcado, onde o revólver-Maiakovski pode tornar a ser segurado,
renovadamente chega. E talvez não tenhamos de passar pelos auditórios do
Gólgota, tais palavras combinadas em algum lugar do mundo. 25 anos depois da
rápida passagem de Maiakovski pela ilha de Cuba, para comprar ananases (pág.15),
não terá derivado daquele “Viva o bolchevique!” (“... e apenas no fim disse
macarronicamente, para me safar: „I am rrãchã!‟. Essa foi a atitude mais precipitada.
O mendigo apertou minha mão entre as suas e pôs-se a vociferar: - Viva o
Bolchevique! I am bolchevique! Viva, viva! Esquivei-me sob olhares transtornados e
temerosos dos transeuntes”) o dia em que a ilha toda decidiu gritar: “Come ananás/
mastiga em paz/ seu último dia chegou, burguês!”? (Poética, pág. 22).
→ (4/8, 18 da tarde, praça da Sé, São Paulo): “Cadê a chave do carro?” –
perguntou, calibre debaixo da jaqueta, o assaltante... Espantado do forró ali debaixo,

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agora estou sentado ao pé da catedral. Saco Maiakovski da bolsa, e chego à frase
seguinte: “Só que, a mim, a gente, até essa/ a que ultrajou/ sobre todas as coisas,
Vós Sois, o meu raio/ de luz”). Pai, as coisas desejadas sobre todas as coisas estejam
sobre todas as Giocondas e chaves de carro, as quais se pode furtar, pouquinho acima
do teto de Tua catedral. (“Acima das cruzes e dos topos/ Arcanjo sólido, passo
firme/ Batizado a fumaça e fogo/ Salve, pelos séculos, Vladímir!” – Marina
Tsvetaeva, A Vladimir Maiakovski, trad. de H. Campos). É que a gente está tendo as
sacadas erradas. Maiakovski (salva, pelos séculos, Wladimir!) – calibre versus colibri.
E, apenas enquanto versus, versos.
→ (8/8) MISTÉRIOS DOLOROSOS DA ESTROFE: Não basta puxar setas da
estrofe russa e, impecavelmente, transportá-las à estrofe portuguesa, de modo a ter
tudo ligado entre elas, a segunda algo como o conjunto imagem da outra. Cada verbo
tenha seu verbete e, acima das definições de cada um, esteja a definição do princípio
(“Não perca de vista seu ponto de partida”) – a poética? Veja lá como vais definir.
O pecado inevitável deve deixar de ser chamado “pecado”. Disso já sabíamos: o
texto, na realidade, não é em português; mesmo se apresentado for, cada uma das
palavras portuguesas não significa o que significa. Achar palavras-vaga (“tiro”, ou
“liro”; “tira”, ou “lira”), onde está preservado o seu “nada é”, e de onde muito pode
ser. “Eu tiro, eu saco a minha alma”... A alma, a qual eu saco, é quase arma e, logo,
tiro. E, porque “salva” é salva de tiros ou de palmas, desta salva é o Salvador. Tomo
a liberdade, de canto de olho no dicionário, de substituir a definição do verbo
выжечь, “Я выжег” (reduzir a cinzas, “Eu... fulminei”), pela do verbo выжaть
(ceifar/ “Eu... passo a foice!) – estas duas expressões, fulminar e ceifar, no plano das
almas, não descrevem o mesmo evento? A foice, raio de luz desta fulminação
prestes surgirá na última linha: “Como se fosse uma bandeira”/ “как знамя”...
→ (9/8) O poeta, na foto, ao lado de Frida Kahlo, não é Maiakovski! Em letras
grandes, ali ... ao lado da fotografia, a ruina de todo este projeto: ... enlouqueci!

→ (11/8) Oculta num livro de desenhos díspar, a palavra “Colt”, tocada sem querer,
disparou esta terça parte.
→ (13/8) CUBO: “Na Escola apareceu Burliúk. Ar insolente. Lorgnon.
Sobrecasaca. Caminha cantarolando. Pus-me a provocá-lo. Quase chegamos às vias
de fato./ Sala de Reunião da Nobreza. Um concerto. Rakhmaninov. A ilha dos
mortos. Fugi da insuportável chatura melodizada. Instantes depois, também Burliúk.
Soltamos gargalhada, um na cara do outro. Saímos para vadiar juntos” (Ed.

37
Perspectiva, pág. 39). Não é isto, saltar para fora de um concerto de Rakhmaninov
para, de uma noite de vadiagem (“...), fundar o futurismo, a introdução da terça
parte da Nuvem? – Burliuk, ao escapulir do naufragante século XIX, pisa-o na nuca,
para ser um ativista desse naufrágio – tem de afundar o real para fundar realizável
(... Da chatura rakhmaninoviana, passamos à da Escola, e da escolar a toda a chatura
clássica. Em David [Burliúk] havia a ira de um mestre que ultrapassara os
contemporâneos, em mim – o patético de um socialista, que conhecia o inevitável
da queda das velharias. Nascera o futurismo russo”) (pág. 40).
→ (23, 24, 25, 26, 27, 28/8) MISTÉRIOS DOLOROSOS DA ESTROFE: Burliúk
surge “с нежностью, неожиданной в жирном человеке” (“com ternura
inesperada numa pessoa gorda”)... “[foi] se bem que gordo, imprevistamente terno”.
Retiro, de “imprevistamente”, não “ternura”, mas “terno”, e “imprevistamente”
sofre uma tortura. Ela prevê uma dicotomia do vestuário – de um lado, “terno”
(“Lorgnon. Sobrecasaca...”); de outro, “macacão”/ “желтую кофту”, ao pé da letra:
“a blusa amarela” – a maior perda desta tradução, deixar de mancionar o
inverossimilmentre trajado Maiakovski (“A Blusa Amarela/ Eu nunca tivera um
terno. Tinha duas blusas, de aspecto miserável. Método já experimentado: enfeitar-
me com uma gravata. Não tinha dinheiro. Apanhei com minha irmã um pedaço de
fita amarela. Amarrei. Fiz furor. Quer dizer: o mais aparente e bonito numa pessoa é
a gravata. Logo: se você aumenta a gravata, também aumentará o furor. E visto que
as dimensões das gravatas são limitadas, lancei mão de esperteza: fiz da gravata uma
blusa e da blusa uma gravata. Uma impressão irresistível”, pág. 41). A “vista”, torcida
dentro de “imprevistamente terno”, saltou de lá, produzindo vagas – “revistas/ [tua
alma interna no, de couro, macacão]”/ (“в желтую кофту/душа от осмотров
укутана”). “Vista” que é vistoria (осмотров, de “revistar”) e, ainda, questão de
vestuário (de revestir), e “interna” no interior da vestimenta e (inevitável, ainda
quando o sujeito de “interna” é a alma eletrocuta), do internato. Depois dependeu
de eu ter quebrado a cabeça, sem entender o significado de “брошенный в зубы” e,
além disso, de, tendo ido buscar ajuda na nota de rodapés sobre Van-Guten, tomar
esta nota, como parte integrante da estrofe, para preencher a lacuna não-entendida –
“(estão falando nas revistas)”. A nota diz: “Маяковский имел в виду факт, о котором
писали тогда газеты: приговоренный к смерти согласился крикнуть в момент казни:
«Пейте какао Ван Гутена!» За это рекламное выступление фирма Ван Гутен обещала
большое вознаграждение семье казненного”; isto é: “Maiakovski tinha em mente o fato,
sobre o qual escreviam os jornais de então: um condenado à morte concordou em
gritar no momento da execução: „Beba cacau Van-Guten!‟ Em troca deste
aparecimento propagandístico a empresa Van-Guten prometera grande recompensa
à família do executado”.

38
A atuação deste poema continua sendo o combate contra o “mole” (“Vosso pensar,
meditabundo no miolo mole, ... irei fustigar/ “Denominar-se de poeta e, mole como
um colibri...”), o tema desta Nuvem, ou seja: нежность, ternura, meiguice ou, se
quiser, “molice”. Tive que dar um jeito de fazer minha marreta (para não usar as
palavras “soco-inglês” ou “soqueira”/ кастетом) bater/entrar “миру в черепе”/ “no
crânio do mundo” – ... é que o soco de soqueira bate/entra. O jeito é fazer ele
bater/entrar (e aqui eu acerto justo o objeto combatido) pela moleira do mundo, para
o mal da molice; poesia do poeta-calibre, para o mal do poeta-colibri. Traduzirei
bater/entrar por “arrebentar”... Esta palavra se dividirá em duas, pois estas duas,
“bento” e, em resposta, “arre!”, são, novamente, a cisão-tema desta Nuvem. Esta
cisão, a partir de um “arrebentar” bem sucedido, ecoará até o fim do poema: o
“arre!”, em relação ao “bento” (“É de gala, nesta valsa, este passo?”), arreda o pé
(“уйду я”); o “arre!”, em relação ao “bento” (“que de lágrimas regado”), (“солнце
моноклем/ вставлю в широко растопыренный глаз”) o sol como monóculo/
coloca-o/ no olho arregalado, para incinerar o “de gala”. A “gala” logo há de
conhecer seu oponente: a “galera” da taberna. É a palavra-vaga, “arrebento”,
gerando rebentos – “os novos rebentos dessa prole”. A explosão dentro de
“arrebento”, igual a que existe dentro de Virgem-Mãe, a prole daquele proletariado:
“um clarão de olhos cêntuplos explode/ do cais”... é o Rex Contradictione.
→ (28/8) Alguns dias de meditação febril até descobrir: a alça da xícara é o tal elo,
longamente perseguido, entre “café” e “Galifet” – é o gatilho dos fuzilamentos. Esta
sugestão ficou boiando na sopa de possibilidades, pois tinha forma de gancho e
exigia ser puxada sem reflexão de conseqüências. E puxei-a, para ela assumir
inteiramente a palavra “щечке”.
→ (10/9) “Ela chegou, como Mamai,/ sentando a bunda/ sobre a populenta
imensidão:/ esta noite, negra como Azef...”. As notas, as que acompanham o
poema, estão aqui transcritas: Mamai – “A fala remete aos vencedores que se
banqueteavam sentando-se em tábuas colocadas sobre os corpos dos vencidos. Na
realidade, este vencedor não é o khan da Horda Dourada, Mamai, e sim o chefe
militar Genghis Khan, depois de conquistado o Cáucaso no ano de 1223”; e Azef –
“Provocador, trabalhou na espionagem socialista-revolucionária. Seu nome tornou-
se sinônimo de traição”. Cume da depressão, a bunda de Mamai encobre agora a
terça-parte da Terra. Maiakovski depara a proporção universal da Batalha: esta noite
“olho algum agüenta olhá-la”/ глазами не проломаем, ao pé da letra: “não
haveremos de fender com os olhos”. Reverberam as palavras ditas por Burliúk no
dia da criação (“Isso [o futurismo] é bom!”) e aquelas outras surgidas ao fim deste
estágio da luta: “e pedra sobre pedra não haver” (“Ничего не будет”/ ao pé da
letra: “Nada haverá/restará”). “Olho algum agüenta olhá-la” inverte a fórmula

39
apocalíptica da vinda do Salvador: “todo olho O verá”. Na espiritualidade e na
fisiologia, o “todo olho O verá” só acontece no limiar a partir de onde “olho algum
agüenta olhá-la”. Esta idéia pressupõe uma desigualdade das forças e aposta na
vitória dos oprimidos, a qual só pode ser de virada, possibilitada pela fé, justo na
ocasião em que tudo está perdido. Herda desta disposição a crença de que a
intensificação das contradições favoreça a vinda do levante. O batalhador, ao provar
da aguardente (вином/ vinho), enxerga – a Virgem-Mãe. Há não-pedra sobre pedra
e, diante disso, quando, debulhando-se sobre a toalha, a toalha vira manto, naquele
instante em que o círculo passa pelo quadrado (“a auréola pela moldura vulgar”, “a
coroa de espinhos que traga”...), torna-se plausível explodir a montanha. As
próximas e últimas estrofes desta terça parte serão uma oração, na qual Maiakovski
conjugará, enunciará a geração por vir, a fim de que a gestem as forças celestiais, a
oração sintática feita apelação extrema. Maiakovski dissera: “Músculos, tendões,
invés de orações...”; a mudança de patamar, contudo, chega pela oração, encolhidas
palavras ditas baixinho na solitude da taberna e tanto mais decisivas que as gritadas
aos auditórios.

→ (29/8) “O sistema dos sete conhecidos (setimal). Dei início a sete relações de
jantar. Aos domingos, „janto‟ Tchukovski, às segundas, Ievriéinov, etc. Às quintas,
era pior: comia os capinzinhos de Riépin. Para um futurista de estatura quilométrica,
era inadequado. Ao anoitecer, vagueio pela praia. Escrevo a „Nuvem‟. Fortaleceu-me
a consciência da proximidade da revolução” (Idem, pág. 43). Foi ontem, quando
tirei da bolsa o livro de Maiakovski para ler esta passagem às novas amizades que fiz
no instituto de artes – Todos os dias, depois de uma tarde trabalhando nesta mesma
Nuvem, quando bate a hora da refeição, o estômago já roncando, ando por aí, alma
penada dos corredores desta universidade, à espreita de obter um cartão emprestado
para entrar no bandejão. Cortam abruptamente a comida dos formandos para
conscientizar, pelo choque, de que chegou a hora da miséria. Ao começar a fala de
Maiakovski em voz alta, pela fração do segundo entrou a questão: incluir ou não a
frase sobre a proximidade da revolução? E saiu pela boca. Estas orações são, eu o
digo, estômagos-vaga. Hoje pela manhã o sindicato soltou a seguinte nota: “Há um
ano, os trabalhadores do RU precisaram cruzar os braços para forçar a reitoria a
trocar a antiga máquina, etc. (...)Por isso, na tarde de ontem, o STU comunicou à
Fundação que, caso não sejam reconhecidos o direito aos 30 minutos de folga (...)

40
etc., os bandejões da UNICAMP terão o funcionamento interrompido a partir de
amanhã (29/08)”. (!)
→ (10/9) “Inferno”, de onde adverto esta poesia: a influência desse livro de Strindberg
(Ed. 34)e seus cyclamen verifica-se hoje quando, no crivo do crível, dou valor e o
maior valor aos sinaisinhos, pequenas piscadelas recebidas. Dado que venho
descrevendo até aqui, dispenso explicar o que são essas piscadelas. Exemplifica a
almôndega extra recebida hoje e o ponto-e-vírgula que se desenhou – se não fosse a
piscadela da, concha nas mãos, trabalhadora, talvez não tivesse notado, à tarde, indo
aos versos seguintes, algo de significativo no verbete: “котлетa: croquete,
almôndega, costeleta”, as “dobradinhas de costume”. A piscadela será, então, um
sinalzinho delgado, senão não penetra até a pontuação, e não é trazido por anjo, e
sim encontrado junto a um duende que habita os buraquinhos das letras. Sinais são
sempre de pontuação, para direcionar o trabalho. Podemos nos sentir acalentados:
este sinal vem do Mesmo que o pão nosso nos dá hoje e dará amanhã.
→ (7 de Outubro): Esta quarta parte foi sofrida. Volto agora a estas notas, atestado-
as eu ter me afastado nestes últimos dias (duas palavras carregadas) – pois as notas
vão se manifestando como compreensões – , como alguém que acaba de
compreender. O principal, até então: de que jeito não se condenar, o tradutor, pelas
afirmações do traduzido? Depois do acidente burocrático que me salvou de prestar
o juramento da colação de grau (“Não jureis nem pelo céu nem pela terra nem façais
qualquer juramento”, Tiago 5:12), dei-me conta. Foi uma angústia real que me fez
entrar naquela cabine de banheiro do instituto de artes, a meio caminho do salão
nobre. O violinista, que praticava embaixo das escadas, entoando o hino nacional,
quis dizer: “Vai lá, pra tua formatura; está tudo resolvido!”. Uma angústia dessas foi
o que me manteve afastado destas notas por alguns dias – os da gestação desta
última parte da Nuvem... - ; além da entranha, o inferno é a outra coisa que borbulha.
No dia 19/9 escrevia: “Os dedos convulsos, vou apertá-los/ na garganta de lata da
campainha./(...) Na rua o mato alto segue a lei do „matarás‟/ e, no pescoço, o vulto
dos dedos/ da dileta companhia”. Suado ainda destes versos, adentro a sala escura
onde já está rolando a sessão de cinema do escontro de estudos literários – ... um
“me dá! não dou!” de casal, homenagem a Nelson Rodrigues, e que dá... em
estrangulamento! Já quando traduzi “arrasta, pra casinha, a pata atropelada pelo
trem”, encontrava-me na plataforma, embarcando de volta a Poá, onde esta
tradução teve seu início. Chamado a participar do sarau, leio “Pedágio” pela
primeira vez. De volta a Campinas, noutro sarau, por conta da presença estonteante
das dançarinas de dança do ventre, um dos participantes pronunciou, por três vezes,
em alta voz: “Por você eu traria, agora, a cabeça de João Batista!”. Os versos
seguintes da Nuvem a traduzir foram: “Mil vezes dançará o sol em volta da terra/

41
como Salomé/ em volta/ da cabeça de João Batista” (!). Este experimento
tradutório, neste cenário, pressuposta a presença e interferência de um observador,
encrespou quando Maiakovski resolveu interpelar, diretamente, quem penso ser esse
observador. Já estava previsto: por intermédio de Santa Maria, Maiakovski terminou
a terça parte sugerindo um encontro com Jesus: “talvez venha, Jesus Cristo, farejar a
minha alma inesquecível”. Agora neste quarto poema, lado de lá da moldura do
ícone da Virgem-Mãe, a batalha transcorre no espiritual, tratando direto com as
entidades. E, neste ponto, tem de ter cuidado: sempre haver um pé de ouvido, para
aquele que chega na mesma altura (“lado a lado”) ter de falar, ainda, tão debaixo
quanto dos pés. Recorro, nalguns casos de alta periculosidade, ao russo-russo
(Akademia Nauk CCCP insitut ruskovo izika, Moscou, 1985); “Мотаешь” e
“Супишь” (“Balançar [a cabeça]” e “franzir [o cenho]”) serão reprovação, diante da
tentação sofrida por Maiakovski, ou sinal, vitória da tentação, de que a cabeça, de
que o cenho, já pondera? No verbete “Супить” encontrei: “„Хочешь? Не хочешь?
Мотаешь головою, кудластый? Супишь седую бровь?’ Mаяковский, Oблако в штанах”,
isto é: “„Queres? Não queres? Balanças a cabeça, desgrenhado? Franzes o cenho
grisalho?‟ Maiakovski, Uma Nuvem de Calças” (!) Entrando por rodamoinhos destes,
percebo estar adentrando a zona indeterminável da oração-vaga, na qual tratarei,
também eu, direto com as entidades. A dor (мук), a condicional da experiência do
amor (“tu désses que pudéssemos/ beijar, a outro par, sem a dor da paixão”), no
carnal (“beijar a outro par”) e espiritual (“beijar a outro par [de mãos]”), reclamação
de Maiakovski a Deus, não é pecado, estava em Cristo: “Pai, se é possível, afasta de
mim esse cálice; todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus
26:39). A questão recai (e nela fiquei decaído, ao longo de algumas semanas), era de se
esperar, na revolta, o conteúdo da estrofe seguinte, o que significa dizer: “Seja como
eu quero, e não como tu queres”. Aqui outra vez encontrei-me na minha cabine,
desesperado, até ouvir o hino que me dizia: “Vai lá, para a tua Nuvem; está tudo
resolvido”. 29/9, São Miguel: “Quando Lúcifer teve o pensamento de que poderia
ocupar o lugar de Deus (e não aos pés dele), produziu-se uma mancha na sua veste;
tentou escondê-la com a asa, mas foi notado por Miguel”; e, por ter botado minha
camisa branca (e traduzido, na véspera, o verso “Eu também sou anjo; na verdade,
já fui um - ”...), estive descuidado quando nela caiu um grãozinho de arroz. Surge a
chance descoberta do clinamen (“Ele pediu a Lúcifer que se desculpasse e a mancha
sumiria”), sumindo a mancha que encobria a solução da estrofe: “Meu encontro
com Jesus só eu sei destrinchar”. Esta consideração toda é retrospectiva a partir da
continuação de meu trabalho, na segunda-feira, 1º de Outubro, quando, num
cantinho do verbete “сапожный”, no dicionário, leio: “сапожный ножик:
trinchete, faca de sapateiro”. É claro – “ножик”, faca; “сапожный”, de sapateiro;

42
mas... trinchete? Esta palavra confirmou a autorização, não a última delas, para eu usar
“destrinchar” na tradução de “раскрою”, isto é (segundo o Moscovo Edições,
1989): “retalhar” (“Я тебя раскрою отсюда до Аляски”/ “Eu os retalho [velhacos
de asas] daqui até o Alasca”). Engloba a definição, exatamente, da palavra “trinchar
– cortar em pedaços ou fatias (iguarias à mesa, especialmente carne)” (Houaiss).
Tenho de corrigir os parentes que, em ocasiões natalinas, usam destrinchar para
falar de cortar o frango. Destrinchar é sutil: “separar em fios e fibras de; dizer ou
expor pormenorizadamente; desvendar, esmiuçar; achar solução de, resolver...”, etc.
Por outro lado, não deixa de significar o que minha tia quer dizer. Encontra-se a
ambigüidade ideal, pela qual não desmentir Maiakovski e não condenar-se junto a
ele a ad-entrar (entrar para o inferno). Pois, não deixando de fazer arrepiar tudo que
é galináceo, que pia e arcanja, o destrinchar que é encontro de solução encontro com
Jesus Cristo é, alvejante de almas. Agora vejo: estas notas são, e já vinham sendo
preparação, destrinchar – a apresentação em pormenores deste encontro. Estas
últimas palavras, as que dão fim a este trabalho de tradução, eu as anoto hoje, 7/10,
usando a caneta vermelha roubada da sede eleitoral. A palavra final (e abri minha
última estrofe para tal), eu a deixarei para que Deus a dê. E a solução final.
→ (9/10): MISTÉRIOS DOLOROSOS DA ESTROFE: No dia 3 de Outubro,
chegando dos correios (fiz algo que não faço todos os dias – despachei uma
epístola...) de volta para a biblioteca, abro um livro qualquer da estante e leio a oração
do começo da página: “Na primeira quinzena de outubro, escreve de Paris a Lauris:
„Georges, minha temperatura não me permite escrever-te por mais tempo.
Perguntas-me se Saint-Beuve está concluído. Como acertaste! O aborrecimento é
saber onde publicá-lo‟”. Foi quando percebi ter concluída a minha tradução, pelo
favor das chaves já apresentadas, e sequer ter o aborrecimento do qual me salvou
Wladimir Vaz, já interessado nestes estudos. Concluirei estas notas agora de volta às
palavras e dicionários.
A exclamação “arre!” segue repercutindo nesta quarta parte. “Arre!”, arroubo de
resposta revoltosa, necessariamente responde opondo-se a uma outra terminação, a
qual não é mais “bento” ou “gala”, e sim “pio” ou “ganha”. Ter visto “Papa” dentro
de “papada” (зобах)? Pia (Птица поет) o poeta (поэт), o larápio (... “tanto brio,
denominar-se de poeta e, mole como um colibri, chilrar”/ “O poeta pia,
supersticiosamente, seus sonetos a Tiana...” – duas menções ao poeta I. Severianin),
a quem Maiakovski rebate com, “de tesão despido ou de terror, o arrepio”. É aquela
tensão, a que apresentei no princípio destas notas, citando Caetano, entre a ternura e
o tesão. Ela produziu oposições e, entre essas oposições, lutas entre as classes de
palavras, ao longo de toda a tradução da Nuvem e, nesta última parte dela, conta
alguns exemplos; eles concluirão a série de assuntos começados. Sobre os ombros

43
recurvos consegui sustentar que, entre as “covinhas” (щеки) e as “corcovas”
(сутулиться) encontra-se o “provado por todos” (попробованный всеми) invés de
“à toda prova” (удивительно честный). Este já chamado “poema amoroso”
(“Parece-me evidente, hoje, que a parte que mais envelheceu, dessa poesia, são os
versos políticos de tom apologético [...] O civismo programado dos poemas de
„encargo social‟ é tão menos tolerável, quanto mais decepcionante se revelou a
utopia soviética [...] Extraordinariamente viva continua a ser a poesia amorosa de
Maiakóvski, da „Nuvem de Calças‟ aos fragmentos finais...”, etc. [!] A. Campos, Ed.
Perspectiva, pág.164) justamente fala do ideal da “companhia sua”, piada pelo poeta
e, de outro lado, motivo de piada para o poeta-Vesúvio, o qual tem nas costas as
“companheiras que suam”. “Nas meninas dos olhos, alfinetes de chapéu de...
Senhora”... (acrescentei “meninas dos ...[pupilas dos]” a “olhos” e traduzi
“дамских” [“de dama”] por “de senhora”), aquele ideal outra vez, que vem cegar
aquelas meninas para as quais temos olhos. Maiakovski-fingidor é este que se arrasta,
piada de si mesmo; Maiakovski-Vesúvio arrasta. Quando tira a faca, revela ter estado
fingindo ao se curvar (“Eu tiro, quando me curvo, uma faca de trinchete”). No final
da 1ª parte, Lusitânia em brasas, Maiakovski deseja não ser levantador desesperado
de braços. “Eu ardo”, ele diz, “(e apenas então levanto-me) é pelo século dos
levantes!”. Ele endereça seu último grito para dizê-lo após terminado este naufrágio
do qual é ativista, para que não o confundam num distante “hoje”, porque tenha
ontem afundado junto ao navio-Rakhmaninov. Será a vez do Lusitânia Brasil. A
mensagem portada por Maiakovski é dita por dentro de uma aspereza consonantal
igual a da língua, a qual faz doer a boca, de sua legião operária. Os poetas amorosos
portam massagens, e uma preguiça muscular é o que derrete a palavra na boca deles,
aquela decomposição. Fazer versos em português, para que reproduzam este
conflito, onde as consoantes são matéria de atrito. Já não faremos poemas dispersos;
eles chegam à batalha cósmica, cujo conflito das classes é uma das figurações,
declarando o ajuntamento de forças. Os cardumes das gentes andarão percebendo a
sombra dos grandes cascos. Induzido, pela coincidência dos nomes da amada de
Maiakovski e da Mãe do Amor, a enxergar maiúsculas em palavras-chave, vejo mais
verídica a decaptação de estrelas que as brigas de casal dentro dos apês. Metáforas?
Os dragões são a real forma das Babilônias, manifesta no céu para a dimensão
espiritual do profeta João, e a Foice e o Martelo uma variante, provida de hastes
(pontes de acesso para uso das mãos humanas), da Lua Crescente e a Estrela.
Tive de assumir: desde criança conjugo errado o verbo “decapitar”, e terei de
corrigir a autosensura praticada no meu Pedágio
(http://xavante.art.br/2012/09/30/p-acreditar-2/). Sem querer, substituindo o
“decapto” (o qual rimava “exacto”) por “decapitei”, assim que relembrei que se

44
tratava de meu vício, restitui a palavra de uma decaptação sofrida. A palavra
“decaptação”, por mais inadequada, diga ainda mais de perto a decapitação, fazendo
desaparecer a cabeça. Uma verdade, contida na palavra, que faz, da necessariamente
proparoxítona “espírito”, “esprito”. Nesta sopra-se, pra fora – os “pr”. Em “decapto”
alavanca-se, para fora – os “pt”. Solução para os corruptos!

45
ОБЛАКО В ШТАНАХ[1] Владимир Маяковский

ТЕТРАПТИХ

Вашу мысль,
мечтающую на размягченном мозгу,
как выжиревший лакей на засаленной кушетке,
буду дразнить об окровавленный сердца лоскут;
досыта изъиздеваюсь, нахальный и едкий.

У меня в душе ни одного седого волоса,


и старческой нежности нет в ней!
Мир огромив мощью голоса,
иду — красивый,
двадцатидвухлетний.

Нежные!
Вы любовь на скрипки ложите.
Любовь на литавры ложит грубый.
А себя, как я, вывернуть не можете,
чтобы были одни сплошные губы!

Приходите учиться —
из гостиной батистовая,
чинная чиновница ангельской лиги.

И которая губы спокойно перелистывает,


как кухарка страницы поваренной книги.

Хотите —
буду от мяса бешеный
— и, как небо, меняя тона —
хотите —
буду безукоризненно нежный,
не мужчина, а — облако в штанах!

Не верю, что есть цветочная Ницца!


Мною опять славословятся
мужчины, залежанные, как больница,
и женщины, истрепанные, как пословица.

46
1

Вы думаете, это бредит малярия?

Это было,
было в Одессе.

«Приду в четыре», — сказала Мария.

Восемь.
Девять.
Десять.

Вот и вечер
в ночную жуть
ушел от окон,
хмурый,
декабрый.

В дряхлую спину хохочут и ржут


канделябры.

Меня сейчас узнать не могли бы:


жилистая громадина
стонет,
корчится.
Что может хотеться этакой глыбе?
А глыбе многое хочется!

Ведь для себя не важно


и то, что бронзовый,
и то, что сердце — холодной железкою.
Ночью хочется звон свой
спрятать в мягкое,
в женское.

И вот,
громадный,
горблюсь в окне,
плавлю лбом стекло окошечное.
Будет любовь или нет?
Какая —
большая или крошечная?
Откуда большая у тела такого:
должно быть, маленький,
смирный любѐночек.
Она шарахается автомобильных гудков.
Любит звоночки коночек.

Еще и еще,
уткнувшись дождю
лицом в его лицо рябое,
жду,
обрызганный громом городского прибоя.

47
Полночь, с ножом мечась,
догнала,
зарезала, —
вон его!

Упал двенадцатый час,


как с плахи голова казненного.

В стеклах дождинки серые


свылись,
гримасу громадили,
как будто воют химеры
Собора Парижской Богоматери.[2]

Проклятая!
Что же, и этого не хватит?
Скоро криком издерется рот.

Слышу:
тихо,
как больной с кровати,
спрыгнул нерв.
И вот, —
сначала прошелся
едва-едва,
потом забегал,
взволнованный,
четкий.
Теперь и он и новые два
мечутся отчаянной чечеткой.

Рухнула штукатурка в нижнем этаже.

Нервы —
большие,
маленькие,
многие! —
скачут бешеные,
и уже
у нервов подкашиваются ноги!

А ночь по комнате тинится и тинится, —


из тины не вытянуться отяжелевшему глазу

Двери вдруг заляскали,


будто у гостиницы
не попадает зуб на зуб.

Вошла ты,
резкая, как «нате!»,
муча перчатки замш,
сказала:
«Знаете —
я выхожу замуж».

48
Что ж, выходите.
Ничего.
Покреплюсь.
Видите — спокоен как!
Как пульс
покойника.

Помните?
Вы говорили:
«Джек Лондон,
деньги,
любовь,
страсть», —
а я одно видел:
вы — Джиоконда,
которую надо украсть!

И украли.

Опять влюбленный выйду в игры,


огнем озаряя бровей загиб.
Что же!
И в доме, который выгорел,
иногда живут бездомные бродяги!

Дразните?
«Меньше, чем у нищего копеек,
у вас изумрудов безумий».
Помните!
Погибла Помпея,
когда раздразнили Везувий!

Эй!
Господа!
Любители
святотатств,
преступлений,
боен, —
а самое страшное
видели —
лицо мое,
когда
я
абсолютно спокоен?

И чувствую —
«я»
для меня мало.
Кто-то из меня вырывается упрямо.

Allo!
Кто говорит?
Мама?
Мама!
Ваш сын прекрасно болен!
Мама!
y него пожар сердца.
Скажите сестрам, Люде и Оле, —
ему уже некуда деться.
Каждое слово,

49
даже шутка,
которые изрыгает обгорающим ртом он,
выбрасывается, как голая проститутка
из горящего публичного дома.

Люди нюхают —
запахло жареным!
Нагнали каких-то.
Блестящие!
В касках!
Нельзя сапожища!
Скажите пожарным:
на сердце горящее лезут в ласках.
Я сам.
Глаза наслезнѐнные бочками выкачу.
Дайте о ребра опереться.
Выскочу! Выскочу! Выскочу! Выскочу!
Рухнули.
Не выскочишь из сердца!

На лице обгорающем
из трещины губ
обугленный поцелуишко броситься вырос.

Мама!
Петь не могу.
У церковки сердца занимается клирос!

Обгорелые фигурки слов и чисел


из черепа,
как дети из горящего здания.
Так страх
схватиться за небо
высил
горящие руки «Лузитании».[3]
Трясущимся людям
в квартирное тихо
стоглазое зарево рвется с пристани.
Крик последний, —
ты хоть
о том, что горю, в столетия выстони!

50
2

Славьте меня!
Я великим не чета.
Я над всем, что сделано,
ставлю «nihil». [4]

Никогда
ничего не хочу читать.
Книги?
Что книги!

Я раньше думал —
книги делаются так:
пришел поэт,
легко разжал уста,
и сразу запел вдохновенный простак —
пожалуйста!
А оказывается —
прежде чем начнет петься,
долго ходят, размозолев от брожения,
и тихо барахтается в тине сердца
глупая вобла воображения.
Пока выкипячивают, рифмами пиликая,
из любвей и соловьев какое-то варево,
улица корчится безъязыкая —
ей нечем кричать и разговаривать.
Городов вавилонские башни,
возгордясь, возносим снова,
а бог
города на пашни
рушит,
мешая слово.

Улица муку молча пѐрла.


Крик торчком стоял из глотки.
Топорщились, застрявшие поперек горла
пухлые taxi и костлявые пролетки.
Грудь испешеходили.
Чахотки площе.

Город дорогу мраком запер.

И когда —
все-таки! —
выхаркнула давку на площадь,
спихнув наступившую на горло паперть,
думалось:
в хорах архангелова хорала
бог, ограбленный, идет карать!

А улица присела и заорала:


«Идемте жрать!»

51
Гримируют городу Круппы и Круппики
грозящих бровей морщь,
а во рту
умерших слов разлагаются трупики,
только два живут, жирея —
«сволочь»
и еще какое-то,
кажется — «борщ».

Поэты,
размокшие в плаче и всхлипе,
бросились от улицы, ероша космы:
«Как двумя такими выпеть
и барышню,
и любовь,
и цветочек под росами?»

А за поэтами —
уличные тыщи:
студенты,
проститутки,
подрядчики.

Господа!
Остановитесь!
Вы не нищие,
вы не смеете просить подачки!

Нам, здоровенным,
с шагом саженьим,
надо не слушать, а рвать их —
их,
присосавшихся бесплатным приложением
к каждой двуспальной кровати!

Их ли смиренно просить:
«Помоги мне!»
Молить о гимне,
об оратории!
Мы сами творцы в горящем гимне —
шуме фабрики и лаборатории.

Что мне до Фауста,


феерией ракет
скользящего с Мефистофелем в небесном паркете!
Я знаю —
гвоздь у меня в сапоге
кошмарней, чем фантазия у Гете!

Я,
златоустейший,
чье каждое слово
душу новородит,
именинит тело,
говорю вам:
мельчайшая пылинка живого
ценнее всего, что я сделаю и сделал!

52
Слушайте!
Проповедует,
мечась и стеня,
сегодняшнего дня крикогубый Заратустра![5]
Мы
с лицом, как заспанная простыня,
с губами, обвисшими, как люстра,
мы,
каторжане города-лепрозория,[6]
где золото и грязь изъязвили проказу, —
мы чище венецианского лазорья,
морями и солнцами омытого сразу!

Плевать, что нет


у Гомеров и Овидиев
людей, как мы;
от копоти в оспе.
Я знаю —
солнце померкло б, увидев
наших душ золотые россыпи!

Жилы и мускулы — молитв верней.


Нам ли вымаливать милостей времени!
Мы —
каждый —
держим в своей пятерне
миров приводные ремни!

Это взвело на Голгофы аудиторий[7]


Петрограда, Москвы, Одессы, Киева,
и не было ни одного,
который
не кричал бы:
«Распни,
распни его!»
Но мне —
люди,
и те, что обидели —
вы мне всего дороже и ближе.

Видели,
как собака бьющую руку лижет?!

Я,
обсмеянный у сегодняшнего племени,
как длинный
скабрезный анекдот,
вижу идущего через горы времени,
которого не видит никто.

Где глаз людей обрывается куцый,


главой голодных орд,
в терновом венце революций
грядет шестнадцатый год.

А я у вас — его предтеча;


я — где боль, везде;
на каждой капле слѐзовой течи
распял себя на кресте.
Уже ничего простить нельзя.

53
Я выжег души, где нежность растили.
Это труднее, чем взять
тысячу тысяч Бастилий!

И когда,
приход его
мятежом оглашая,
выйдете к спасителю —
вам я
душу вытащу,
растопчу,
чтоб большая! —
и окровавленную дам, как знамя.

Ах, зачем это,


откуда это
в светлое весело
грязных кулачищ замах!

Пришла
и голову отчаянием занавесила
мысль о сумасшедших домах.

И —
как в гибель дредноута
от душащих спазм
бросаются в разинутый люк —
сквозь свой
до крика разодранный глаз[8]
лез, обезумев, Бурлюк.
Почти окровавив исслезенные веки,
вылез,
встал,
пошел
и с нежностью, неожиданной в жирном человеке,
взял и сказал:
«Хорошо!»

Хорошо, когда в желтую кофту


душа от осмотров укутана!
Хорошо,
когда брошенный в зубы эшафоту,
крикнуть:
«Пейте какао Ван-Гутена!» [9]

И эту секунду,
бенгальскую
громкую,
я ни на что б не выменял,
я ни на...

А из сигарного дыма
ликерного рюмкой
вытягивалось пропитое лицо Северянина.

54
Как вы смеете называться поэтом
и, серенький, чирикать, как перепел!
Сегодня
надо
кастетом
кроиться миру в черепе!

Вы,
обеспокоенные мыслью одной —
«изящно пляшу ли», —
смотрите, как развлекаюсь
я —
площадной
сутенер и карточный шулер!

От вас,
которые влюбленностью мокли,
от которых
в столетия слеза лилась,
уйду я,
солнце моноклем
вставлю в широко растопыренный глаз.

Невероятно себя нарядив,


пойду по земле,
чтоб нравился и жегся,
а впереди
на цепочке Наполеона поведу, как мопса.

Вся земля поляжет женщиной,


заерзает мясами, хотя отдаться;
вещи оживут —
губы вещины
засюсюкают:
«цаца, цаца, цаца!»

Вдруг
и тучи
и облачное прочее
подняло на небе невероятную качку,
как будто расходятся белые рабочие,
небу объявив озлобленную стачку.

Гром из-за тучи, зверея, вылез,


громадные ноздри задорно высморкал,
и небье лицо секунду кривилось
суровой гримасой железного Бисмарка.

И кто-то,
запутавшись в облачных путах,
вытянул руки к кафе —
и будто по-женски,
и нежный как будто,
и будто бы пушки лафет.

Вы думаете —
это солнце нежненько
треплет по щечке кафе?
Это опять расстрелять мятежников
грядет генерал Галифе! [10]

55
Выньте, гулящие, руки из брюк —
берите камень, нож или бомбу,
а если у которого нету рук —
пришел чтоб и бился лбом бы!

Идите, голодненькие,
потненькие,
покорненькие,
закисшие в блохастом грязненьке!

Идите!
Понедельники и вторники
окрасим кровью в праздники!
Пускай земле под ножами припомнится,
кого хотела опошлить!

Земле,
обжиревшей, как любовница,
которую вылюбил Ротшильд!

Чтоб флаги трепались в горячке пальбы,


как у каждого порядочного праздника —
выше вздымайте, фонарные столбы,
окровавленные туши лабазников.

Изругивался,
вымаливался,
резал,
лез за кем-то
вгрызаться в бока.

На небе, красный, как марсельеза,


вздрагивал, околевая, закат.

Уже сумасшествие.

Ничего не будет.

Ночь придет,
перекусит
и съест.

Видите —
небо опять иудит
пригоршнью обрызганных предательством звезд?
Пришла.
Пирует Мамаем,
задом на город насев.[11]
Эту ночь глазами не проломаем,
черную, как Азеф! [12]

Ежусь, зашвырнувшись в трактирные углы,


вином обливаю душу и скатерть
и вижу:
в углу — глаза круглы, —
глазами в сердце въелась богоматерь.

56
Чего одаривать по шаблону намалеванному
сиянием трактирную ораву!
Видишь — опять
голгофнику оплеванному
предпочитают Варавву? [13]

Может быть, нарочно я


в человечьем месиве
лицом никого не новей.
Я,
может быть,
самый красивый
из всех твоих сыновей.

Дай им,
заплесневшим в радости,
скорой смерти времени,
чтоб стали дети, должные подрасти,
мальчики — отцы,
девочки — забеременели.

И новым рожденным дай обрасти


пытливой сединой волхвов,
и придут они —
и будут детей крестить
именами моих стихов.

Я, воспевающий машину и Англию,


может быть, просто,
в самом обыкновенном евангелии
тринадцатый апостол.

И когда мой голос


похабно ухает —
от часа к часу,
целые сутки,
может быть, Иисус Христос нюхает
моей души незабудки.

Мария! Мария! Мария!


Пусти, Мария!
Я не могу на улицах!
Не хочешь?
Ждешь,
как щеки провалятся ямкою,
попробованный всеми,
пресный,
я приду
и беззубо прошамкаю,
что сегодня я
«удивительно честный».

57
Мария,
видишь —
я уже начал сутулиться.

В улицах
люди жир продырявят в четыреэтажных зобах,
высунут глазки,
потертые в сорокгодовой таске, —
перехихикиваться,
что у меня в зубах
— опять! —
черствая булка вчерашней ласки.

Дождь обрыдал тротуары,


лужами сжатый жулик,
мокрый, лижет улиц забитый булыжником труп,
а на седых ресницах —
да! —
на ресницах морозных сосулек
слезы из глаз —
да! —
из опущенных глаз водосточных труб.

Всех пешеходов морда дождя обсосала,


а в экипажах лощился за жирным атлетом атлет:
лопались люди,
проевшись насквозь,
и сочилось сквозь трещины сало,
мутной рекой с экипажей стекала
вместе с иссосанной булкой
жевотина старых котлет.

Мария!
Как в зажиревшее ухо втиснуть им тихое слово?
Птица
побирается песней,
поет,
голодна и звонка,
а я человек, Мария,
простой,
[14]
выхарканный чахоточной ночью в грязную руку Пресни.

Мария, хочешь такого?


Пусти, Мария!
Судорогой пальцев зажму я железное горло звонка!

Мария!

Звереют улиц выгоны.


На шее ссадиной пальцы давки.

Открой!

Больно!

Видишь — натыканы
в глаза из дамских шляп булавки!

Пустила.

58
Детка!
Не бойся,
что у меня на шее воловьей
потноживотые женщины мокрой горою сидят, —
это сквозь жизнь я тащу
миллионы огромных чистых любовей
и миллион миллионов маленьких грязных любят,
Не бойся,
что снова,
в измены ненастье,
прильну я к тысячам хорошеньких лиц, —
«любящие Маяковского!» —
да ведь это ж династия
на сердце сумасшедшего восшедших цариц.

Мария, ближе!

В раздетом бесстыдстве,
в боящейся дрожи ли,
но дай твоих губ неисцветшую прелесть:
я с сердцем ни разу до мая не дожили,
а в прожитой жизни
лишь сотый апрель есть.

Мария!
Поэт сонеты поет Тиане,[15]
а я —
весь из мяса,
человек весь —
тело твое просто прошу,
как просят христиане —
«хлеб наш насущный
даждь нам днесь».

Мария — дай!

Мария!
Имя твое я боюсь забыть,
как поэт боится забыть
какое-то
в муках ночей рожденное слово,
величием равное богу.

Тело твое
я буду беречь и любить,
как солдат,
обрубленный войною,
ненужный,
ничей,
бережет свою единственную ногу.

Мария —
не хочешь?
Не хочешь!

Ха!

59
Значит — опять
темно и понуро
сердце возьму,
слезами окапав,
нести,
как собака,
которая в конуру
несет
перееханную поездом лапу.

Кровью сердца дорогу радую,


липнет цветами у пыли кителя.
Тысячу раз опляшет Иродиадой[16]
солнце землю —
голову Крестителя.

И когда мое количество лет


выпляшет до конца —
миллионом кровинок устелется след
к дому моего отца.

Вылезу
грязный (от ночевок в канавах),
стану бок о бок,
наклонюсь
и скажу ему на ухо:

— Послушайте, господин бог!


Как вам не скушно
в облачный кисель
ежедневно обмакивать раздобревшие глаза?
Давайте — знаете —
устроимте карусель
на дереве изучения добра и зла!

Вездесущий, ты будешь в каждом шкапу,


и вина такие расставим по столу,
чтоб захотелось пройтись в ки-ка-пу[17]
хмурому Петру Апостолу.
А в рае опять поселим Евочек:
прикажи, —
сегодня ночью ж
со всех бульваров красивейших девочек
я натащу тебе.

Хочешь?

Не хочешь?

Мотаешь головою, кудластый?


Супишь седую бровь?
Ты думаешь —
этот,
за тобою, крыластый,
знает, что такое любовь?

Я тоже ангел, я был им —


сахарным барашком выглядывал в глаз,
но больше не хочу дарить кобылам
из севрской муки изваянных ваз.[18]

60
Всемогущий, ты выдумал пару рук,
сделал,
что у каждого есть голова, —
отчего ты не выдумал,
чтоб было без мук
целовать, целовать, целовать?!

Я думал — ты всесильный божище,


а ты недоучка, крохотный божик.
Видишь, я нагибаюсь,
из-за голенища
достаю сапожный ножик.
Крыластые прохвосты!
Жмитесь в раю!
Ерошьте перышки в испуганной тряске!
Я тебя, пропахшего ладаном, раскрою
отсюда до Аляски!

Пустите!

Меня не остановите.
Вру я,
в праве ли,
но я не могу быть спокойней.
Смотрите —
звезды опять обезглавили
и небо окровавили бойней!

Эй, вы!
Небо!
Снимите шляпу!
Я иду!

Глухо.

Вселенная спит,
положив на лапу
с клещами звезд огромное ухо.

1914-1915

1. ↑ Черновой автограф не вошедшей в текст строфы и строк 717—724 (БММ); отрывки —


в альманахе «Стрелец», П. 1915 (строки 21—26, 535—556, 575—611, 624—638); отрывки
— в статье Маяковского «О разных Маяковских» — «Журнал журналов», П. 1915, август
(строки 278—289, 304—347, 360—368, 404—409, 460—471); 1-е изд. поэмы; текст
цензурных изъятий 1-го изд. — в экземплярах О. М. Брика и Л. Ю. Брик (1915);
«Простое как мычание»; отрывки — в журн. «Новый сатирикон», П. 1917, № 11, 17
марта (строки 342—368, 435—471, 476—482); 2-е изд. поэмы; «Все сочиненное»; «13
лет работы», т. II; «Избранный Маяковский»; 3-е изд. поэмы; Сочинения, т. I;
отрывки — в сб. «Школьный Маяковский» (строки 217—368, 435—495).
Начало работы над поэмой относится к первой половине 1914 года. В
автобиографии «Я сам» Маяковский говорит; «Начало 14-го года. Чувствую
мастерство. Могу овладеть темой. Вплотную. Ставлю вопрос о теме. О революционной.
Думаю над «Облаком в штанах». Закончена поэма была в июле 1915 года в Куоккала
(под Петроградом). «... Вечера шатаюсь пляжем. Пишу «Облако» («Я сам»).
Выступая в марте 1930 года в Доме комсомола Красной Пресни, Маяковский
вспоминал: «Оно («Облако в штанах») начато письмом в 1913/14 году и сначала
называлось «Тринадцатый апостол». Когда я пришел с этим произведением в цензуру,
то меня спросили: «Что вы, на каторгу захотели?» Я сказал, что ни в коем случае,
что это никак меня не устраивает. Тогда мне вычеркнули шесть страниц, в том числе
и заглавие. Это — вопрос о том, откуда взялось заглавие. Меня спросили — как я
могу соединить лирику и большую грубость. Тогда я сказал: «Хорошо, я буду, если

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хотите, как бешеный, если хотите — буду самым нежным, не мужчина, а облако в
штанах».
До выхода поэмы в свет отрывки из пролога и 4-й части появились в сборнике
«Стрелец» (февраль 1915 г.) и несколько строф из 2-й и 3-й частей было
процитировано в статье Маяковского «О разных Маяковских» в «Журнале журналов»
(август 1915 г.). И в сборнике и в журнале поэма была названа «трагедией», а
затем в отдельном издании Маяковский дал ей подзаголовок «тетраптих» (т. е.
композиция из четырех частей).
Выход сборника «Стрелец» был отмечен вечером, устроенным в артистическом
подвале «Бродячая собака» 25 февраля 1915 года. На этом вечере, где присутствовал
М. Горький, Маяковский прочел отрывок из поэмы. Следует упомянуть также чтение
отрывков поэмы Горькому в июле 1915 года.
Первое издание поэмы было выпущено О. М. Бриком в сентябре 1915 года. Оно
содержало большое количество цензурных купюр. «Облако» вышло перистое. Цензура в
него дула. Страниц шесть сплошных точек» (см. «Я сам»).
Цензурой были изъяты: во 2-й части строки 250—253, 323—335, 348—355, 360—
363; в 3-й части — строки 456—459, слова «под ножами» в строке 467 («Пускай земле
под ножами припомнится»), 474—475, 501—505; в 4-й части — строки 620—623, 630,
668—708. Кроме того, в ряде строк были изъяты отдельные слова: «богоматерь»,
«евангелие», «апостол», «Иисус Христос», «господин бог».
В 1916 году поэма была перепечатана в сборнике «Простое как мычание» (изд.
«Парус», руководимое М. Горьким) с меньшим, но все же значительным числом
цензурных изъятий. После свержения самодержавия Маяковский напечатал в журн.
«Новый Сатирикон», № 11, 17 марта 1917 года не пропущенные ранее цензурой отрывки
из 2-й и 3-й частей поэмы под заглавием «Восстанавливаю» и со следующим
предисловием: «Моя книга «Облако в штанах» была послана в цензуру под
первоначальным названием «Тринадцатый апостол». Помещаю из этой изуродованной в
первом и кастрированной во втором издании книги — 75 строк».
Полностью с восстановлением всех изъятых цензурой мест поэма вышла в начале
1918 года в Москве под маркой организованного Маяковским издательства «Асис»
(Ассоциация социалистического искусства). В предисловии к этому изданию
Маяковский писал: «Облако в штанах» (первое имя «Тринадцатый апостол» зачеркнуто
цензурой. Не восстанавливаю. Свыкся) считаю катехизисом сегодняшнего искусства;
«Долой вашу любовь», «долой ваше искусство», «долой ваш строй», «долой вашу
религию» — четыре крика четырех частей.
2. ↑ Химеры Собора Парижской богоматери — изваяния мифических чудовищ на здании
собора.
3. ↑ «Лузитания» — пассажирский пароход, торпедированный германской подводной лодкой
7 мая 1915 года и сгоревший в открытом море.
4. ↑ nihil - Ничто (лат.)
5. ↑ Заратустра — мифический создатель религии в древнем Иране. У Маяковского это
имя употреблено в нарицательном смысле — глашатай, проповедник.
6. ↑ Лепрозорий — изолированное убежище для прокаженных.
7. ↑ ...Голгофы аудиторий... — Маяковский имеет в виду свою поездку по городам
России в конце 1913 — начале 1914 года. Буржуазная пресса встречала выступления
Маяковского руганью и издевательствами.
8. ↑ Сквозь свой до крика разодранный глаз... — Д. Бурлюк был слеп на один глаз.
9. ↑ Пейте какао Ван Гутена... — Маяковский имел в в виду факт, о котором писали
тогда газеты: приговоренный к смерти согласился крикнуть в момент казни: «Пейте
какао Ван Гутена!» За это рекламное выступление фирма Ван Гутен обещала большое
вознаграждение семье казненного.
10. ↑ Галифе — генерал, жестоко расправившийся с парижскими коммунарами в 1871 году.
11. ↑ Пирует Мамаем, задом на город насев... — Здесь речь идет о победителях, которые
пировали, сидя на досках, положенных на тела побежденных. В действительности так
пировал не хан Золотой Орды Мамай, а полководцы Чингисхана после битвы на Калке в
1223 году.
12. ↑ Азеф — провокатор, работавший в эсеровском подполье. Имя его стало синонимом
предательства.
13. ↑ Варавва — по евангельскому преданию, разбойник, осужденный в тот же день, что и
Христос. Толпа требовала от судей помилования Вараввы и казни Христа.
14. ↑ Пресня — улица в Москве, где жил Маяковский.
15. ↑ Тиана — женское имя из одноименного стихотворения И. Северянина.
16. ↑ Иродиада. — По евангельскому преданию, танцевала вокруг блюда с головой
казненного проповедника Иоанна Крестителя не Иродиада, а ее дочь Саломея.
17. ↑ Ки-ка-пу — модный в то время эстрадный танец.
18. ↑ Севрские вазы — вазы знаменитого фарфорового завода в Севре (Франция).

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