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Profa.

Camila Penha Abreu Souza


Profa. Vera Lúcia Maciel Silva

Parte II
SUMÁRIO

PARTE 2

UNIDADE 3 - Biodiversidade e Conservação ............................................................. 43

3.1 Conceitos Importantes em Biologia da Conservação ....................................................... 43


3.2 Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção ........................................................ 46
3.3 Espécies Exóticas Invasoras ....... ................................................................................................ 47
3.4 Fragmentação de Habitats ......................................................................................................... 50
3.5 Projetos Conservacionistas ......................................................................................................... 53
3.5.1 Projeto Ararinha na Natureza .......................................................................................... 53
3.5.2 Projeto TAMAR ...................................................................................................................... 56
Resumo ........................................................................................................................................................ 58
Atividades ................................................................................................................................................... 58
Referências ................................................................................................................................................. 59

UNIDADE 4 - Biodiversidade e Genética .................................................................... 61


4.1 Revelando a Biodiversidade Escondida .................................................................................. 61

4.3 Bioinvasões ....................................................................................................................................... 65


4.4 Sexagem ............................................................................................................................................ 66
4.5 Considerações ................................................................................................................................. 67
Resumo ........................................................................................................................................................ 68
Atividades ................................................................................................................................................... 69
Referências ................................................................................................................................................. 70
BIODIVERSIDADE E CONSERVAÇÃO

e
Objetivos

ad
Diferenciar Preservação de Conservação;
Reconhecer os vários níveis de ameaça as espécies;

id
Identificar os principais problemas envolvidos na
introdução de espécies invasoras;

Un
Identificar as causas da fragmentação de hábitat e as
suas consequências;
Compreender a atuação dos projetos de conservação
da biodiversidade.

“Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram


paisagens e ecologias, pelas quais, certamente são
responsáveis, ou deveriam ser.”

Aziz Ab’Sáber, Geólogo e Professor

A Biologia da Conservação é uma disciplina muito ampla que tem


contribuído de forma valorosa na conservação da biodiversidade.
Apresentamos nessa unidade os principais temas que são enfrentados
pelos conservacionistas, assim como medidas para minimizar os danos
causados pelas atividades humanas na biodiversidade.

3.1 Conceitos importantes em Biologia da Conservação

Os conceitos apresentados a seguir são de extrema importância


para a biologia de conservação. Observe:
PRESERVAÇÃO: proteção a longo prazo das espécies, habitats e
ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos, em seu
estado natural, sem interferência humana, independente de seu valor
utilitário ou econômico (BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000);

CONSERVAÇÃO: proteção dos recursos naturais, a manutenção, a


utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural,
para que possa produzir o maior benefício, de forma sustentável, às
atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer às necessidades e
aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres
vivos em geral (BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000);

RESTAURAÇÃO: restituição de um ecossistema ou de uma população


silvestre degradada o mais próximo possível da sua condição original
(BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000);

RECUPERAÇÃO: restituição de um ecossistema ou de uma população


silvestre degradada a uma condição não degradada, que pode ser
diferente de sua condição original (BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho
de 2000);

SISTEMAS AGROFLORESTAIS: são formas de uso ou manejo da terra onde


culturas agrícolas são plantadas reunidas a representantes de florestas
nativas (Figura 1);

Figura 1 - Exemplificação de esquemas de Sistemas Agroflorestal

3m 3m

Nim Banana Milho Mamão

Açaí Mandioca Pupunha Café

Mogno Copaíba Andiroba Abacaxi

Fonte: Adaptada do site http://confins.revues.org/6778

44 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


ESPÉCIES BANDEIRAS: são espécies escolhidas como ícone ou
símbolo de conservação de um ecossistema ou de sua própria
espécie. São exemplos de espécies bandeiras no Brasil o   Mico-Leão
Dourado  (Leontopithecus rosalia), o Muriqui-do-Sul (Brachyteles
arachnoides) e a Onça-pintada (Panthera onca),  que representa a
conservação do bioma Mata Atlântica (Figura 2);

Figura 2 - Espécies bandeiras para conservação da Mata Atlântica no Brasil

Fonte: http://www.wwf.org.br/informacoes/sala_de_imprensa/?40524/Conservao-de-Espcies#

ESPÉCIES GUARDA-CHUVA: são espécies que precisam de extensas áreas


preservadas para sobreviver e se reproduzir, e conservando ela e seu
habitat, indiretamente preserva-se outras espécies que convivem no
mesmo ecossistema. A onça-pintada é um exemplo de espécie guarda-
chuva, pois a sua preservação e de seu habitat natural, protege outras
espécies;

ESPÉCIES CARISMÁTICAS: são aquelas espécies que tem um apelo


emocional no público em geral, que olhamos e dizemos que “fofinho”
ou “bonitinho”. Geralmente, as espécies-bandeiras são espécies
carismáticas, que chamam a atenção do público para alguma causa
ambiental. Um exemplo de espécie carismática é o panda-gigante
(Ailuropoda melanoleuca), que de tão carismática foi escolhido como
marca da WWF (World Wide Fund for Nature) (Figura 3).

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 45


Figura 3 - Logo da WWF - World Wide Fund for Nature (Fundo Mundial para a Natureza),
ONG internacional que atua na conservação da biodiversidade

C
R

Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/World_Wide_Fund_for_Nature

3.2 Lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção

Como sabemos que uma espécie está ameaçada de extinção?

Utilizamos o método de classificação de grau de ameaça criado pela ONG


suíça IUCN (sigla inglesa para União Internacional para a Conservação da
Natureza e dos Recursos Naturais), em 1963. Esse método desenvolvido
pela IUCN é utilizado internacionalmente e é a base para a elaboração do
chamado “Livro Vermelho” das espécies ameaçadas de extinção, aqui no
Brasil essa listagem é feita pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade
– ICMBio, conforme Figura 4, a seguir: (FRANKHAM et al., 2008).

As espécies são classificadas em sete graus de ameaça: extinta, extinta


na natureza, criticamente em perigo, vulnerável, quase ameaçada e
pouco preocupante. Espécies criticamente em perigo são aquelas que
apresentam, por exemplo, redução do tamanho populacional em ≥
80% nos últimos 10 anos ou três gerações, ou uma área de ocupação ≤
100 quilômetros quadrados, ou uma população estável ≤ 250 adultos,
ou uma probabilidade de extinção ≥ 50% nos próximos 10 nos ou três
gerações, ou alguma dessas características combinadas. Por exemplo,
a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma espécie brasileira de ave que
possui atualmente 92 indivíduos vivos em cativeiro, sendo considerada
pela IUCN como criticamente em perigo, apesar de o governo brasileiro
já ter declarado que essa espécie está extinta da natureza desde 2000
(FRANKHAM et al., 2008).

46 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


A listagem das espécies no Livro Vermelho em categorias de
ameaça fornece uma ferramenta importante para a conservação da
biodiversidade, sendo utilizada como base de muitas políticas e leis
para proteção de espécies e hábitats.
Figura 4 - Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, elaborado pelo
Instituto Chico Mendes de Biodiversidade – ICMBio.

Livro Vermelho Livro Vermelho


da Fauna Brasileira da Fauna Brasileira
Ameaçada de Extinção Ameaçada de Extinção

Fonte: https://bibliotecabebedouro.wordpress.com/2011/03/23/20110323b/

3.3 Espécies Exóticas Invasoras

Uma espécie “exótica”, “introduzida” ou “naturalizada”, pode ser definida


como uma espécie que se encontra fora da área de sua distribuição
natural, introduzida por ações humanas. Quando essa espécie se
estabelece no novo hábitat, expande a sua distribuição e começa a
ameaçar outras espécies nativas, hábitats e ecossistemas onde foi
introduzida, passando a ser considerada uma espécie exótica invasora
(PIMENTEL et al., 2001; LEÃO et al., 2011).

As características mais comuns das espécies exóticas invasoras são


a rápida reprodução e crescimento, alta capacidade de dispersão,
plasticidade fenotípica, e capacidade de sobreviver com vários tipos de
alimentos e em uma ampla gama de condições ambientais.

Espécies exóticas invasoras têm invadido e afetado ecossistemas em


todo o planeta, decorrente das alterações ambientais e interferência
humana, além da agressividade e capacidade de excluir espécies nativas.

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 47


Já foram registradas no Brasil a ocorrência de 386 espécies exóticas
invasoras, sendo a maior parte introduzidas intencionalmente por
motivos econômicos (LEÃO et al., 2011). São exemplos de espécies
exóticas invasoras no Brasil:

 Caracol-gigante-africano (Achatina fulica) (Figura 5), nativo no leste-


nordeste da  África, foi introduzido no Brasil em  1988,  visando o
cultivo e comercialização do escargot. A comercialização fracassou,
os criadores foram abandonados e os caracóis foram soltos no
ambiente, hoje já são encontrados em 23 dos 26 estados brasileiros
(PAIVA, 2004);

Figura 5 - Exemplo de espécie exótica invasora, caracol-gigante-africano (Achatina fulica)

Fonte: http://bagarai.com.br/caramujo-gigante-africano-o-escargot-que-virou-praga-no-brasil.html

 Mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) (Figura 6), originário da


Ásia, foi introduzido em 1991 através de água de lastro de navios
mercantes na Argentina. O seu primeiro registro no Brasil foi em
2001 no rio Paraná, hoje já pode ser encontrado no pantanal
matogrossense. A sua população pode chegar a uma densidade
populacional de 150 mil indivíduos por metro quadrado, o que
tem gerado incrustações massivas e obstrução de encanamentos
e filtros de água de estações de tratamento, fábricas e usinas
hidrelétricas, causando graves perdas econômicas (MANSUR et al.,
1999; GISP, 2005);

48 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Figura 6 - Colônia de mexilhão-dourado em instalação de usina hidrelétrica

Fonte: http://www.cultivandoaguaboa.com.br/noticias/mexilhao-dourado-infestacao
-diminui-mas-medidas-de-prevencao-continuam

 Camarão-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii) conforme Figura


7, espécie de camarão de água doce originária da região da Ásia,
introduzido no Brasil para cultivo, representa uma grave ameaça
às espécies nativas devido ser um carnívoro voraz, como também
gera um grande impacto no ambiente por ser portador do vírus da
mancha branca. No Maranhão, essa espécie já pode ser encontrada
em toda costa e Baixada Maranhense (LEÃO et al., 2011).
Figura 7 - Exemplo de espécie exótica invasora no Brasil: camarão-da-malásia
(Macrobrachium rosenbergii)

Fonte: http://www.pointdocamarao.com.br/produtos

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 49


Figura 8 - Característica da doença: manchas
A Doença da Mancha Branca brancas na carapaça da cabeça dos camarões
(White Spot Syndrome –
WSS), causada pelo vírus
de mesmo nome (WSSV), é
uma doença infecciosa que
Fonte: http://www.biologico.sp.gov.br/
provoca manchas brancas artigos_ok.php?id_artigo=147#
na carapaça da cabeça dos camarões (Figura 8). Essa enfermidade
pode causar uma grande mortalidade em populações de camarões
suscetíveis ou que estejam sob estresse, mas não representa risco à
saúde humana (HIPOLITO et al., 2010).

3.4 Fragmentação de Habitats

A Fragmentação de Habitats é um processo de degradação de uma


região nativa e homogênea que resulta em remanescentes menores e
separados entre si (os fragmentos) conforme Figura 9. Essa modificação
altera as condições presentes na área inicial, modificando aspectos
da ocupação, reprodução, alimentação e até a sobrevivência de uma
espécie em particular (FRANKLIN et al., 2002).

As causas da fragmentação podem ser naturais, como desastres


ambientais, ou antropogênicas, ou seja, causadas pelo homem como
a agricultura, pastagens e expansão das cidades, sendo esta a principal
causa de fragmentação de habitats.

Figura 9 - Fragmentação de Habitat decorrente de ações antropogênicas

Fonte: http://www.guiaflorestal.com.br/dinamico/img/thumbs/conteudo/2531/grande_422.jpg

50 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Os impactos são percebidos principalmente nas espécies que precisam
de maiores áreas para sobreviver, essas espécies são conhecidas
como espécies de interior e geralmente desaparecem em fragmentos
pequenos e/ou muito impactados. Enquanto isso, outras espécies
de borda ou região de ecótono permanecem e até aumentam sua
população como se pode ver na Figura 10.

Figura 10 - Esquema de fragmentação de um habitat e consequente perda de espécies


O Efeito de Borda cau-
Espécies de interior sa uma alteração na
composição, estrutura e
Espécies de borba
abundância relativa de
espécies na parte mar-
ginal de um fragmento,
sendo um dos fatores
mais preocupantes em
áreas de fragmento.
O tamanho da borda,
Fragmentação segundo especialista,
é de 100m, sendo que
essa área do fragmento
fica mais exposta à ilu-
minação, calor, vento e
outros fatores. Algumas
espécies que precisam
de condições específicas
de temperatura e umi-
dade podem ser extintas
desse fragmento, haven-
Hábitat interior e espécies diminuem do dessa forma, perda
Hábitat interior
de espécies. O efeito de
Hábitat borda e espécies aumentam
Hábitat borda borda é mais intenso em
fragmentos pequenos
e isolados, apresentan-
Fonte: Adaptada do site https://historiasnaturais.wordpress.com/2010/07/28/ecologia-de-zumbis/
do uma menor taxa em
fragmentos com forma
mais próxima do circular.
O exemplo da figura 11 demonstra a relação entre a fragmentação
de habitats e as espécies de borda e interior. Os gráficos mostram
a probabilidade de ocorrências de quatro espécies de pássaros
existentes na América do Norte, sendo duas espécies de borda
(Dumetella carolinensis e Turdus migratorius) e duas espécies de
interior (Helmintheros vermivorus e Seiurus aurocapillus), em áreas de
fragmentos. A probabilidade de ocorrência das espécies varia com
o tamanho do fragmento, observando que as espécies de interior
possuem uma maior ocorrência em fragmentos com tamanho maior
ou igual a 32 hectares (SMITH & SMITH, 1998).

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 51


Figura 11 - Probabilidade de ocorrência de quatro espécies de pássaros, (a) duas espécies de
borda (Dumetella carolinensis e Turdus migratorius) e (b) duas espécies de interior (Helmintheros
vermivorus e Seiurus aurocapillus). As duas espécies de interior têm probabilidade de ocorrência
maior em fragmentos igual ou maior que 32 hectares. Extraído de Smith & Smith, 1998.

Fonte: Modificado de Smith& Smith, 1998.

A conservação de espécies que vivem em fragmentos é um desafio


para a biologia da conservação, mas é possível que haja um manejo
adequado que permita o fluxo gênico entre populações de diferentes
fragmentos. Uma das principais medidas conservacionistas, além do
próprio manejo, que diminuem o impacto causado pela fragmentação
de hábitats, são os Corredores Ecológicos como sinaliza a Figura 12.
Figura 12 - Exemplo de corredor ecológico na Holanda, país que conta com cerca de 600
passagens subterrâneas, pontes e corredores que servem como passagem para a fauna e
ligação entre áreas florestais

Fonte: https://brunomaxwel.wordpress.com/2012/11/02/corredor-ecologico-na-holanda/

52 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Os Corredores Ecológicos conforme cita a figura 12, são porções
de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando unidades de
conservação ou fragmentos de florestas nativas, possibilitando
entre eles o fluxo de genes e a movimentação da biota, facilitando
a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas,
bem como a manutenção de populações que demandam para sua
sobrevivência áreas com extensão maior (BRASIL. Lei nº 9.985, de 18
de julho de 2000).

Figura 13 - Exemplo de fluxo gênico: besouros que


O Fluxo Gênico, tam- possuem o gene para a coloração marrom migram
de uma população para outra
bém conhecido como
migração, pode ser
definido como a mo-
Resulta em um
ão
vimentação de genes igr

aumento na frequência
de gases marrons
Im
de uma população
para outra conforme
a Figura 13. Fonte: Adaptada do site http://www.ib.usp.br/
evosite/evo101/IVBMechanisms.shtml

3. 5 Projetos Conservacionistas

3.5.1 Projeto Ararinha na Natureza

A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma espécie ameaçada de extinção


da fauna brasileira (Figura 14). A sua categoria é de extinta na natureza
desde o ano 2000. Originária da região de caatinga da Bahia, a ararinha-
azul teve a sua população quase toda devastada, principalmente devido
ao tráfico de animais silvestres e a degradação do hábitat onde viviam.
Hoje existem somente 92 espécimes em cativeiro, sendo que somente
11 estão no Brasil. Por serem tão poucos indivíduos, todas as instituições
que possuem em cativeiros esses espécimes, trabalham de forma

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 53


coordenada e lidam com os espécimes como uma população única
(ICMBio, 2014).

Figura 14 - Ararinha-Azul (Cyanopsitta spixii), espécie extinta na natureza

Fonte: http://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/a-extincao-da-ararinha-azul/

Cuidado para não confundir a Ararinha-Azul (Cyanopsitta spixii,


figura 14), a Arara-Azul (Anodorhynchus hyacinthinus, figura 15) e a
Arara-Azul-de-Lear (Anodorhynchus leari, figura 16), apesar de serem
muito parecidas e estarem ameaçadas de extinção, são espécies
diferentes. Saiba mais no site: http://www.projetoararaazul.org.br/

Figura 16 - Arara-Azul-de-Lear (Anodorhynchus leari)


Figura 15 - Arara-Azul (Anodorhynchus
hyacinthinus)

Fonte: http://pt.wikipedia. Fonte: http://www.arkive.org/lears-macaw/anodorhynchus-leari/


org/wiki/Arara-azul-grande image-G2064.html

54 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


O Projeto Ararinha na Natureza foi criado com o objetivo de
transformar esse quadro, com ações que visam a reprodução dessas
aves em cativeiro e para que no futuro elas sejam reintroduzidas em
seu habitat natural, além de ações educativas e políticas públicas,
que possam conservar o habitat natural da ararinha-azul e criar
condições que permitam a sua reintrodução (Figura 17).

Figura 17 - Filhotes de Ararinha-Azul (Cyanopsitta spixii) nascidos


em cativeiro, através do Projeto Ararinha na Natureza

Fonte: http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/noticias/20-geral/6668-
nascem-filhotes-de-ararinha-azul-especie-extinta-na-natureza.html

O projeto é coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação


de Aves Silvestres (CEMAVE/ICMBio), com a parceria da VALE, do Fundo
Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e da Sociedade para a Conservação
das Aves do Brasil (SAVE Brasil) (ICMBio, 2014). Também são parceiros desse
projeto as organizações internacionais   Al Wabra Wildlife Preservation
(AWWP) e Association for the Conservation of Threatened  Parrots (ACTP),
essas instituições possuem exemplares da espécie em cativeiro.

Figura 18 - Filme Rio,


As ararinhas-azuis ganharam destaque e sucesso lançado em 2011
Fonte: http://www.megafilmesonlinehd.

mundial em decorrência do filme de animação “Rio”


com/assistir-rio-dublado-2011/

(Figura 18), onde o personagem principal “Blu”, uma


ararinha-azul macho, é levado para o Rio de Janeiro
para acasalar com uma fêmea da espécie. Assista
ao filme, é uma forma bem didática de apreender
mais sobre a conservação de aves e sobre o tráfico
internacional de aves.

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 55


3.5.2 Projeto TAMAR

O Projeto TAMAR surgiu com o objetivo de proteger as tartarugas-


marinhas no Brasil, que estão ameaçadas de extinção. O projeto foi criado
em 1980 pelo antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal -
IBDF, atualmente o IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente. O nome
do projeto surgiu da contração do nome tartaruga marinha necessária no
início do projeto devido ao pouco espaço que as placas de metal utilizadas
para a identificação das tartarugas possuíam. Hoje, o nome TAMAR é
utilizado para designar o  Programa Brasileiro de Conservação das
Tartarugas Marinhas, executado pelo ICMBio - Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade, protegendo 1.100km do litoral brasileiro,
em 25 localidades que servem como áreas de alimentação, desova,
crescimento e descanso desses animais, no litoral e ilhas oceânicas, em
nove estados brasileiros como veremos a seguir na Figura 19.

Figura 19 - Presença do TAMAR no Brasil

Fonte: http://www.tamar.org.br/noticia1.php?cod=560

56 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


O projeto é exemplo mundial de projeto de conservação marinha,
atuando na pesquisa aplicada, inclusão social e educação ambiental. O
projeto procura apoio das comunidades costeiras para conservação das
tartarugas-marinhas, e para tanto, oferece alternativas econômicas que
ajudam na economia da própria comunidade. Em troca da conservação
dos ecossistemas marinho e costeiro, a estratégia de conservação é
conhecida como espécie-bandeira ou espécie-guarda-chuva.

As tartarugas-marinhas protegidas são como mostra a Figura 20:

Tartaruga-cabeçuda, Caretta caretta

Tartaruga-de-pente, Eretmochelys imbricata

Tartaruga-de-couro, Dermochelys coriácea

Tartaruga-verde, Chelonia mydas

Tartaruga-oliva, Lepidochelys olivácea

Figura 20 - Espécies de tartarugas-marinhas protegidas pelo projeto TAMAR

Fonte: http://www.tamar.org.br

Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 57


Sugestão de sites de programas, ONGs e institutos para conservação
da biodiversidade:
Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP): http://awwp.alwabra.com/
Association for the Conservation of Threatened  Parrots (ACTP): http://
www.act-parrots.eu/
Instituto Hórus para espécies exóticas: http://www.institutohorus.org.br/
Projeto TAMAR: http://www.tamar.org.br/
WWF Brasil: http://www.wwf.org.br/
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio:
http://www.icmbio.gov.br/portal/
Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira – SiBBr: http://
www.sibbr.gov.br/

Resumo

Nesta unidade, apresentamos alguns conceitos em biologia da


conservação, identificamos as categorias de espécies ameaçadas
segundo a IUNC, discutimos os impactos causados pela introdução
de espécies exóticas e pela fragmentação de habitats, e também
apresentamos dois exemplos de projetos de conservação: o projeto
Ararinha na Natureza e o projeto TAMAR.

1. Nesta unidade apresentamos dois projetos de conservação da


biodiversidade: a Ararinha na Natureza e o TAMAR, que atuam
na conservação da ararinha-azul e das tartarugas-marinhas,
respectivamente. Faça uma pesquisa sobre outros programas de
conservação da biodiversidade desenvolvidos no Brasil. Escolha um
e elabore um texto de divulgação do programa, coloque no texto o
que você achar mais importante para divulgar o programa. Depois
você pode escolher uma rede social para divulgar o seu texto e
ajudar na conservação da biodiversidade.

58 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Referências

BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000; Decreto nº 4.340, de 22


de agosto de 2002.Sistema Nacional de Unidade de Conservação da
Natureza – SNUC: 3. ed. aum. Brasília: MMA/SBF, 2003. 52 p.

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da Conservação. Ribeirão Preto, SP: SBG – Sociedade Brasileira de
Genética, 2008. p. 280.

FRANKLIN, A., NOON, B. & GEORGE, T. What is habitat fragmentation


Studies in avian biology, 25, 2002. p. 20-29.

GISP - Programa Global de Espécies Invasoras. América do Sul invadida.


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HIPOLITO, M. ; FERREIRA, C. M. ; MARTINS, A.M.C.R.P.F. ; CATROXO, M. H.


B. Mancha branca do camarão: um risco presente para a produção de
camarão marinho no Brasil. Comunicado Técnico Instituto Biológico, nº
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ICMBio: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.


Nasceram filhotes de ararinha-azul, espécie extinta na natureza.
2014. Disponível em: <http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/
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LEÃO, T. C. C,; ALMEIDA, W. R.; DECHOUM, M.; ZILLER, S. R. Espécies


Exóticas Invasoras no Nordeste do Brasil: Contextualização, Manejo
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Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Recife,
PE. 2011. 99 p.

MANSUR, M. C. D.; RICHINITTI, L. M. Z.; DOS SANTOS, C. P. Limnoperna


fortunei (Dunker, 1857) molusco bivalve invasor na bacia do Guaíba,
Rio Grande do Sul, Brasil. Biociências, Porto Alegre, v. 7, n. 2. p. 147-149,
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PAIVA, Celso do Lago. Achatina fulica: praga agrícola e ameaça à saúde


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Biodiversidade e conservação | UNIDADE 3 59


PIMENTEL, D.; McNAIR, S; JANECKA, J.; WIGHTMAN, J.; SIMMONDS, C.;
O’CONNELL, C.; WONG, E.; RUSSEL, L.; ZERN, J.; AQUINO, T.; TSOMONDO, T.
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SMITH, R.L. & SMITH, T.M. Elements of ecology. Benjamin Cummings, Inc.
Menlo Park, Ca., USA. 1998. 555 p.

60 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


BIODIVERSIDADE E GENÉTICA

Objetivo

Identificar as aplicações da Genética no estudo da


Biodiversidade.

A Genética tem auxiliado o estudo da biodiversidade com pesquisas


em diferentes campos, como, por exemplo: (a) estimar os níveis
de variabilidade genética de uma população e relacioná-los com a
eficiência reprodutiva e resistências a doenças; (b) na identificação
molecular de espécies crípticas ou sem dimorfismo sexual aparente; (c)
verificar níveis de endemismo, fluxo gênico, endogamia e outros fatores,
em populações ameaçadas para dar subsídios de manejo e políticas
ambientais; (d) na identificação de produtos oriundos de animais e
plantas ameaçadas de extinção comercializadas de forma ilegal; e (e) na
identificação e acompanhamento do processo de bioinvasão.

Nesta unidade veremos algumas dessas aplicações.

Unidade
4.1 Revelando a Biodiversidade escondida

Na unidade 1, discutimos os vários problemas que os cientistas


enfrentam na identificação de espécies, tais como a existência de
espécies crípticas e politípicas. A maioria das espécies é descrita a partir
de caracteres morfológicos, o que é bastante dificultada nos grupos
que apresentam espécies crípticas, como por exemplo, os veados-
muntjac da China (Muntiacus reevesi, Figura 1) e da Índia (Muntiacus
muntjak, Figura 2) que são morfologicamente similares, mas constituem
duas espécies diferentes, pois, o primeiro possui um conjunto de 46
cromossomos e o último apresenta 6 cromossomos nos machos e 7 nas
fêmeas (FRANKHAM et al., 2008).
Figura 1 - Veado-muntjac da China (Muntiacus reevesi)
que apresenta um conjunto de 46 cromossomos

Fonte: http://www.hlasek.com/
muntiacus_reevesi.html
Figura 2 - Veado-muntjac da Índia (Muntiacus
muntjak) que apresenta um conjunto de 6
cromossomos para machos e 7 para fêmeas

berniedup/7109814545/in/photostream/
Fonte: https://www.flickr.com/photos/

Nesses casos, o emprego de ferramentas moleculares tem ajudado


aos taxonomistas na delimitação de espécies, identificação de
híbridos e subespécies. Por exemplo, um caso de identificação de
espécies crípticas em golfinhos do gênero Sotalia que ocorrem no
Brasil. Acreditava-se que a espécie Sotalia fluviatilis (Figura 3) possuía
dois “ecótipos”: um marinho e outro fluvial. Mas estudos com dois
marcadores do DNA mitocondrial revelaram que os dois ecótipos
são, de fato, duas espécies diferentes com separação entre as duas
datadas do Plioceno (Figura 4).

Com esses dados, o ecótipo marinho, conhecido como boto-cinza,


foi denominado de Sotalia guianensis (Figura 5), enquanto o fluvial,
conhecido como tucuxi, reteve o binômio Sotalia fluviatilis. Esses
resultados foram importantes pra a conservação das duas espécies,
pois cada uma delas precisa de um plano de manejo separado já que
possuem habitats completamente diferentes (CUNHA et al., 2005).

62 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Em uma célula animal, nós podemos encontrar DNA dentro do
núcleo da célula e dentro da mitocôndria. O DNA mitocondrial
(Figura 6) é uma pequena célula circular que é herdado pela
linhagem materna das espécies. É muito utilizado nos estudos
de diversidade genética por possuir várias cópias em uma única
célula, ser de fácil extração e purificação, além de apresentar uma
variabilidade genética muito maior que DNA nuclear.

Figura 6 - Esquema mostrando o DNA presente no núcleo da célula e nas


mitocôndrias. O Dna Mitocondrial difere do DNA nuclear por ser circular e
inteiramente de origem materna.

Fonte: http://www.brusselsgenetics.be/media/images/Illustraties/ill_eng/ill-5-E_orig.jpg

Figura 4 - Árvore filogenética feita a partir de dois marcadores moleculares do DNA


mitocondrial (citocromo b e região controle), mostrando as relações genéticas entre as
duas espécies de Sotalia: a marinha e a fluvial. Os números próximo dos nós são valores de
bootstrap e Steno bredanensis foi utilizado como grupo externo
PA 21
66/51/- PA 24
S SE 01
Marinho

RN04
PA RN14
91/62/81 PA 29
PA 13
PA 27
PA 25
PA 08
PA 11
AM109
Fluvial

AM805
93/57/91
AM113
AM75
AM802

0.005

Fonte: modificado de Cunha et al., 2005.

Biodiversidade e Genética | UNIDADE 4 63


4.2 Identificação forense para conservação

A aplicação da genética estende-se para identificação de produtos de animais


e plantas ameaçadas de extinção comercializadas de forma ilegal. Alguns
tentam enganar a lei, comercializando produtos de espécies próximas cujo
comércio é legalizado ou oriundas de cultivo, mas a utilização de marcadores
moleculares permite a identificação a partir material já industrializado e pode
fornecer o local de origem do indivíduo. Por exemplo, kits de análise baseados
em Polimorfismos no Comprimento de Fragmentos de Restrição Terminal
(T-RFLP) de genes mitocondriais e nucleares já estão disponíveis para a
identificação e controle da pesca ilegal de peixes brasileiros, como o mero
(Epinephelus itajara), cuja carne, vendida em postas e filé, é comercializada
como se fosse garoupa (Epinephelus marginatus). Esses kits são importantes
instrumentos para os órgãos de fiscalização ambiental e fornecem provas
concretas para condenação dos infratores (FRANKHAM et al., 2008).

T-RFLP - Polimorfismos no Comprimento de Fragmentos de Restrição


Terminal (do inglês Terminal Restriction Fragment Length Polymorphism)
é uma técnica de biologia molecular que analisa a variação no tamanho
de fragmentos de DNA obtidos a partir de enzimas de restrição,
separados em gel de eletroforese e visualizadas por meio de sondas
marcadas com fluorescência (Figura 7).
Figura 7 - Esquema com as etapas da técnica de T-RFLP: 1) extração de DNA; 2) amplificação por
PCR com primers marcados com fluorescência; 3) produtos de PCR amplificados e marcados;
4) corte do DNA em regiões específicas por enzimas de restrição; 5) Padrões de bandas
visualizados em Gel de Eletroforese; 6) Leitura dos fragmentos em sequenciador.
1 DNA Total 3 Produtos de PCR
2 PCR com
marcadores
fluorescentes

4 Clivagem com enzimas de restrição

a d
c
a b e
a b
b f c f
c
e
d
6 Identificação dos Fragmentos 5 Separação dos fragmentos em gel de eletroforese

Fonte: Adaptada do site http://wiki.biomine.skelleftea.se/biomine/molecular/index_12.htm

64 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


4.3 Bioinvasões

Dados de Biologia Molecular e genética podem ser utilizados também


para acompanhar o processo de bioinvasão e para propor medidas
que minimizem os impactos causados por espécies exóticas invasoras.
Um exemplo bem sucedido de utilização de dados genéticos foi o
estudo realizado com dados de microssatélites para o controle de
populações invasoras de porcos ferais (Sus scrofa) na Austrália. Esses
animais são prejudiciais a conservação de espécies nativas, pois
apresentam um comportamento competitivo e predatório, além de
disseminarem doenças.

Como medida de controle das populações de porcos ferais eram realizadas


periodicamente abatimento desses animais. Entretanto, o tamanho de
Figura 8 - Área do estudo com porcos ferais mostrando as populações
algumas populações não em cinza, as linhas coloridas representam as Unidade de Erradicação
proposta pelo estudo
diminuíam com o abate. O
estudo com microssatélites
revelou que as populações
que não diminuíam eram
geneticamente similares a
outras populações, sendo
que essas serviam como
fonte de imigrantes.

Como alternativa, propôs-


se a divisão das populações
em Unidades de Erradicação,
que uniria as populações
que serviam de fonte
(nesse trabalho foram
identificados 5 Unidades
de Erradicação), e os
abates seriam realizados
concomitantemente em
todas as Unidades de
Fonte: modificado de Cowled et al., 2008
Erradicação (Figura 8).
Dessa forma, os abates passaram a ser mais eficientes e as populações
de porcos ferais diminuíram (COWLED et al., 2008).

Biodiversidade e Genética | UNIDADE 4 65


4.4 Sexagem

Algumas vezes, a sexagem morfológica de animais é dificultada, devido


à mostra de estudo não apresentar genitálias (como é o caso de amostras
degradadas, carcaças etc.), e for de difícil visualização ou a espécie não
apresentar dimorfismo sexual visível (como ocorre em cerca de 50% das
aves). Nesses casos, marcadores moleculares podem ser usados para a
determinação do sexo de forma não invasiva (GRIFFITHS et al., 1998).

Um exemplo dessa aplicação é o uso de marcadores do cromossomo


Y, como o fator de diferenciação testicular (SRY), ou regiões
pseudohomólogas do cromossomo X e Y, que é o caso dos genes da
proteína zinc finger (ZFX e ZFY). O marcador molecular SRY produz
uma banda em machos (referente a presença do fragmento do Y) e em
fêmeas não apresenta nenhuma banda (devido a ausência do Y). Já o
marcador molecular ZFX e ZFY baseia-se na amplificação simultânea de
fragmentos presentes no cromossomo X e Y: machos produzem duas
bandas, enquanto as fêmeas produzem só uma banda (referente a
presença só do cromossomo X) (Figura 9).

Figura 9 - Esquema dos cromossomos Y e X mostrando a localização específica dos genes


da proteína zinc finger (ZFX e ZFY) e do fator de diferenciação testicular (SRY).

Fonte: http://ajpcell.physiology.org/content/306/1/C3

66 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Esses marcadores têm sido Figura 3 - Tucuxi, Sotalia fluviatilis

utilizados na sexagem, por


exemplo, do boto-cinza
(Sotalia guianensis, Figura 5)
e do tucuxi (Sotalia fluviatilis, A foto-identificação é
uma técnica que permiti
Figura 3). Esses cetáceos a identificação de um in-
não apresentam dimorfismo divíduo dentro de uma
Fonte: http://www.elhogarnatural.com/cetaceos/Sotalia%20 população por meio de
sexual externo facilmente fluviatilis.htm fotos de parte do corpo
do animal que seja con-
observável e a maioria dos estudos dessas espécies são realizados siderada como única,
como, por exemplo, a
Figura 5 - Boto-cinza, Sotalia guianensis pela técnica de foto- barbatana caudal de ba-
leias cachalote.
identificação, o que torna
difícil a determinação do sexo,
já que a foto-identificação
depende de uma boa foto da
região ventral do animal, o
que é bem difícil de conseguir
Fonte: http://guapionline.com/mpf-atua-para-preservacao-
do-boto-cinza/ no campo.

A aplicação dos marcadores ZFX/ZFY e SRY tem permitido a identificação


do sexo dos indivíduos foto-identificados e também de carcaças recolhidas
Figura 10 - Foto de Gel de Eletroforese mostrando os
já em estado de putrefação. Na padrões observados na sexagem molecular de machos
(M) e fêmeas (F) do boto-cinza (S. guianensis), usando
Figura 10 vemos o resultado os marcadores moleculares ZFX/ZFY e SRY. 1kb é um
marcador de tamanho de bandas de DNA conhecido.
de um gel de eletroforese para
a determinação do sexo de
indivíduos de Sotalia guianensis
utilizando os marcadores
ZFX/ZFY e SRY: para ZFX/ZFY,
machos aparecem com duas
bandas e fêmeas só com uma;
para o SRY, machos aparecem
com uma banda e fêmeas não Fonte: Cunha e Solé-Cava, 2007
apresentam nenhuma (CUNHA; Solé-Cava, 2007).

4.5 Considerações

Como vimos nesta unidade, A Genética e a Biologia Molecular


tem contribuído grandemente para estudos da biodiversidade,

Biodiversidade e Genética | UNIDADE 4 67


principalmente na área da conservação. Essa área da ciência tem
avançado muito e cada vez mais tem fornecido instrumentos que auxiliam
os pesquisadores na identificação de novas espécies, conservação da
biodiversidade, determinação do sexo de animais sem dimorfismo
sexual aparente, entre outros. É necessário que os professores estejam
capacitados para contribuir e transmitir esse conhecimento para seus
alunos, afim de que, a genética transponha as paredes do laboratório.

Resumo

Nesta unidade discutimos as aplicações da Genética no estudo da


biodiversidade, como, por exemplo, na identificação de espécies
crípticas, acompanhamento do processo de invasão e propostas de
medidas de controle, genética forense para identificação de comércio
ilegal de espécies ameaçadas de extinção e sexagem de animais que
não possuem dimorfismo sexual aparente.

68 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


1. Você recebeu seis amostras de tucuxi (Sotalia fluviatilis)
para determinar o sexo pela técnica de biologia molecular
utilizando como marcador molecular os sistemas ZFX/
ZFY e SRY. Apresentamos a seguir o esquema de dois géis
de eletroforese com os resultados para as seis amostras:
(a) Gel de Eletroforese para o marcador ZFX/ZFY; (b) Gel de
Eletroforese para o marcador SRY. Determine o sexo dos
indivíduos analisados. Dica: relembre o padrão de bandas
que cada sistema produz para machos e fêmeas no texto da
unidade 4 sobre sexagem.

(a) Esquema de Gel de Eletroforese para o marcador ZFX/ZFY

(b) Esquema de Gel de Eletroforese para o marcador SRY

Biodiversidade e Genética | UNIDADE 4 69


Referências

COWLED, B. D., J. ALDENHOVEN, I. O. A. ODEH, T. GARRETT, C. MORAN


and S. J. LAPIDGE. Feral pig population structuring in the rangelands
of eastern Australia: applications for designing adaptive management
units. Conservation Genetics 9(1): 211-224. 2008.

CUNHA H.A.,  SOLÉ-CAVA A.M.  Molecular sexing of  Sotalia


fluviatilis  (Cetacea: Delphinidae), using samples from biopsy darting
and decomposed carcasses. Genetics and Molecular Biology 30: 1186-
1188. 2007.

CUNHA, H.A.; V.M.F. SILVA; J. LAILSON-BRITO JÚNIOR; M.C.O. SANTOS;


P. A.C. FLORES; A.R. MARTIN; A.F. AZEVEDO; A.B.L. FRAGOSO; R.C.
ZANELATTO & A.M. SOLÉ-CAVA. Riverine and marine ecotypes of Sotalia
dolphins are different species. Marine Biology 148: 449-457. 2005.

FRANKHAM, R.; BALLOU, J. D.; BRISCOE, D. A. Fundamentos de Genética


da Conservação. Ribeirão Preto, SP: SBG – Sociedade Brasileira de
Genética, p. 280, 2008.

GRIFFITHS R, DOUBLE MC, ORR K, DAWSON RJ. A DNA test to sex most
birds: short communication. Mol Ecol, v.7, p.1071-1075, 1998.

70 ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DE GENÉTICA


Camila Penha Abreu Souza

Possui graduação em Ciências Biológicas Licenciatura pela


Universidade Estadual do Maranhão (2012) e mestrado em
Biodiversidade e Conservação pela Universidade Federal
do Maranhão (2014). Atualmente, é Bióloga do Laboratório
de Estudos Genômicos e de Histocompatibilidade (LEGH)
do Hospital Universitário da Universidade Federal do
Maranhão – HUUFMA, também tutora a distância do curso
de Especialização no Ensino de Genética - UEMANET. É
membro do Grupo de Estudos em Genética e Conservação
– GGC. Tem experiência na área de Genética e Biologia
Molecular, com ênfase em identificação molecular de
animais, citogenética e filogeografia.

Vera Lúcia Maciel Silva

Mestre em Genética (Universidade de São Paulo- Ribeirão


Preto). Especialista em Biologia e Genética Molecular
(Universidade Federal do Maranhão - UFMA). Graduada
em Ciências Biológicas (Universidade Federal do
Maranhão - UFMA). Atualmente, é professora assistente
da UEMA e membro do Grupo de Estudos em Genética e
Conservação - GGC.

Biodiversidade e Genética | UNIDADE 4 71