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O Naufrágio de Sepúlveda ou o reverso da medalha dos Descobrimentos

A História Trágico-Marítima, publicada em 1735-1736 por Bernardo Gomes de


Brito, é uma colectânea de relatos de naufrágios de algumas naus portuguesas
na rota da Índia. Tentaremos, através de alguns pontos e analisando em
particular o relato do naufrágio do galeão grande São João, mostrar que é de
importância fundamental a sua abordagem dentro da problemática dos
Descobrimentos. Agora, que comemoraremos os quinhentos anos desse
grandioso feito, seria bom repor a História Trágico-Marítima ao lado de Os
Lusíadas como seu complemento. De facto, sendo Os Lusíadas a parte heróica
e gloriosa das Descobertas, a História Trágico-Marítima, como o próprio título
indicia, é a sua parte trágica.

O naufrágio de Sepúlveda é o primeiro relato e o mais característico da


colectânea. O autor, de que desconhecemos o nome, parece ter-se servido das
palavras de um Álvaro Fernandes, sobrevivente do galeão, para escrever a
história, tal como diz no prólogo. Tendo-se servido ou não, descobrimos, pela
forma como descreve os acontecimentos, que estava bem dentro do âmbito da
empresa marítima. Era profundo conhecedor dos navios, das terras exóticas e
do mar. Pensamos que terá vivido na pele alguma ou algumas viagens e
perigos semelhantes.

Vamos desvendar o porquê e o como das tragédias marítimas, sobrelevando


alguns pontos para o seu maior esclarecimento.

1. HISTÓRIA MESTRA DA VIDA

O autor do relato diz no prólogo por que resolveu escrever a narrativa que tem
por protagonista Manuel de Sousa Sepúlveda: «por me parecer história que
daria aviso e bom exemplo a todos, escrevi os trabalhos e morte deste fidalgo e
de toda a sua companhia, para que os homens que andam pelo mar se
encomendem continuamente a Deus e a Nossa Senhora».

Há nestas razões uma motivação, segundo Giulia Lanciani, didascálica, que se


manifesta «quando o leitor assume o relato de naufrágio como reportório de
ensinamentos tirados das experiências de testemunhas oculares» (Lanciani,
1979: 40). Estes ensinamentos seriam úteis para aqueles que viessem a
enfrentar os mesmos perigos. A nosso ver, há também uma motivação
religiosa, bem patente no prólogo do relato: «Cousa é esta que se conta neste
naufrágio para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons
cristãos».

A história, mestra da vida, é referenciada ao longo de todo o relato por


pequenas reflexões do narrador. Este, face às acções das personagens, louva
ou critica o resultado obtido em considerações ora de censura, ora de
comiseração. A propósito da traição dos cafres e do conselho do reizinho que
os portugueses não seguiram, comenta o autor: «e por aqui verão os homens
como nunca hão-de dizer nem fazer cousa em que cuidem que eles são os que
acertam ou podem senão pôr tudo nas mãos de Deus Nosso Senhor».
As personagens, num acesso de bom senso, olham para as suas acções numa
atitude de arrependimento e reconhecimento do erro: «Quando Manuel de
Sousa isto viu, bem se lembraria quão grande erro tinha feito em dar as
armas».

2. CAUSAS DO NAUFRÁGIO

São muitas e variadas as causas do naufrágio do galeão grande São João.


António Sérgio culpava uma má política de gestão na maior parte dos
naufrágios das naus portuguesas. Chamou albuquerquismo à «desmesura,
impulsividade, imprevidência e insânia da acção desbussoladora do Afonso de
Albuquerque». E acrescenta, dizendo, que «não teriam decerto naufragado
tantos se se houvessem dirigido os nossos negócios asiáticos com a
orientação característica de um Dom Francisco de Almeida» (Sérgio, 1974:
148).

Essa política reflectia-se logo a partir da construção dos navios. Eram mal
construídos, utilizavam-se madeiras impróprias, a calafetagem era má, a
fiscalização era nula por parte das entidades. A preparação dos pilotos e até
mesmo dos engenheiros de construção era deficiente. De Itália vinham os
engenheiros e os especialistas que lá não serviam. A manutenção dos navios
quase não existia; depois de uma embarcação sair dos estaleiros, nunca mais
lá entrava para reparações. O carpinteiro de remendos era o fundo do mar.

O galeão grande São João estava demasiado velho. Diz o autor do Relato:
«tardaram muito em ver o cabo por causa das ruins velas que traziam, que foi
uma das causas, a principal, de seu perdimento»; «por o leme ser podre, um
mar que lhe então deu lho quebrou pelo meio e levou-lhe logo ametade».

Estas são algumas das causas remotas da perda do galeão. Uma outra causa
é a carga exagerada que trazia. António Sérgio, a propósito, comenta: «Os
estivadores carregavam conforme mais lhes convinha, ao sabor das espórtulas
de cada passageiro e dono, atulhando o galeão de fardarias em barda»
(Sérgio, 1974: 155).

O narrador do relato explica que, «ainda que a nau levava pouca pimenta, nem
por isso deixou de ir muito carregada de outras mercadorias, no que se havia
de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas».

A causa próxima do naufrágio foi a tempestade. Na verdade, se a tempestade


não grassasse, a embarcação possivelmente chegaria a bom porto, mesmo tão
carregada como estava e em tão más condições de controlo material e
humano. O barco não resistiu ao vento e às ondas, obrigando os tripulantes e
os passageiros a arribar.

O próprio autor fala das razões do naufrágio e abandono do navio: «as razões
que davam para arribar foram que a nau era muito grande e comprida e ia
muito carregada de caixaria e de outras fazendas, e não traziam já outras velas
senão as que traziam nas vergas, que a outra equipação levou um temporal
que lhe deu na Linha, e estas eram tão rotas que se não fiavam nelas».
Sofreram a tempestade por terem partido tão tarde do porto, devido aos ventos
contrários. Na terra do Natal, «eram os ventos tais, que, se um dia ventava
levante, outro se levantava poente».

Face a tão grandes contrariedades, o barco não poderia escapar insane. Tudo
contribuía para a sua perda: a degradação do casco e das velas, certa
ignorância e imprevidência humanas, a cobiça de lucros, o abarrotar de carga e
a tempestade fatal.

3. O FATALISMO

Uma das características do povo português é, para Jorge Dias, o fatalismo.


Segundo este pensador, herdámo-lo dos árabes e faz parte agora da nossa
personalidade. Não sabendo, ou não querendo atribuir as responsabilidades do
naufrágio a indivíduos ou grupos, o autor do relato remete-as para o destino.
Este é a causa, o motor essencial da perda do galeão.

Manuel de Sousa, à luz do autor, é inocente em tudo o que lhe aconteceu, a si,
á sua família e aos seus homens: «como já estava de cima que acabasse este
capitão com sua mulher e filhos e toda sua companhia, nenhum remédio se
podia cuidar a que a fortuna não fosse contrária».

É o fatum que guia os portugueses para a tragédia: «como parece que estava
determinado acabar Manuel de Sousa nesta jornada com a maior parte de sua
companhia, não quiseram seguir o conselho deste reizinho»; «os cegou a sua
fortuna, que não quiseram senão caminhar avante».

A imagem do destino ainda agora, nos finais do século XX, parece absorver a
psicologia de cada um dos portugueses. As expressões «é o destino», «ao
destino ninguém foge» são um lugar comum na boca das nossas gentes.

4. PLANOS E EMERGÊNCIAS

Perante a tempestade, «o capitão chamou o mestre e o piloto e lhes perguntou


que deviam fazer com aquele tempo, pois lhe era pela proa, e todos
responderam que era bom conselho arribar». Mas a tempestade aumentou de
tal intensidade, que se viram obrigados a adiar esse plano. Ficando sem velas
sobre um mar de tormenta, impuseram-se-lhes algumas emergências para
impedir que o navio se afundasse. «Quando se viram sem vela, e que não
havia outra, acudiram com diligência a tomar a vela de proa»; «Houveram por
melhor remédio, para se não irem a fundo a pique, cortarem o mastro da proa
que lhes fazia abrir a nau».

Vemo-los a lutar contra a tempestade e a morte, agarrados aos cordames e


aos mastros aos martelos e ás agulhas de coser: «vendo-se Manuel de Sousa
e oficiais sem nenhum remédio, determinaram o melhor que puderam de fazer
um leme e de alguma roupa que traziam de mercadorias fazerem algum
remédio de velas».
Não havendo outra alternativa senão abandonar o navio pela sua consequente
perda, Manuel de Sousa providencia um acampamento em terra para acolher
os náufragos. Dias após o trágico acontecimento e tendo os feridos
restabelecido a saúde, o capitão, num discurso que faz lembrar os heróis
homéricos, exorta os sobreviventes a iniciarem o caminho de regresso. É por
entre território de cafres que se vão tomando medidas para encontrar
mantimentos.

Quando os náufragos ficaram sem chefe, a desordem esbateu-se sobre eles e


o grupo desorganizou-se: «Como já não levavam figura de homens nem quem
os governasse, iam sem ordem por desvairados caminhos».

Jorge Dias diz que há no homem português una enorme capacidade de


adaptação a todas as coisas. Adaptam-se a outro ambiente tão bem, que
parece ter sido assimilado por ele. Não sendo propriamente um homem de
razão, o português é um homem de acção. No relato do naufrágio de
Sepúlveda, os portugueses, não perdendo o sangue frio, quer pelo medo, quer
pelo excessivo descontrole da coragem, adaptam-se às circunstâncias hostis
do mar e da terra com bastante desembaraço.

Frente ao perigo, todos colaboram na sua superação. Tanto marinheiros e


escravos como soldados e fidalgos se afadigam a coser velas, a cortar
madeira, a buscar água. No trabalho de salvamento, a distinção de classes não
existe, apesar de cada um não se esquecer da sua posição social.

É de um grande espírito de solidariedade a fala do piloto, momentos antes do


navio se afundar: «Irmãos, antes que a nau abra e se nos vá ao fundo, quem
se quiser embarcar comigo naquele batel o poderá fazer».

A colaboração de todos, no bom e no mau, está patente desde o começo até


ao fim do relato. No final, desiludidos e cansados da caminhada e da fome,
sem armas, quase nus e sem capitão, como que guiados pelo inconsciente
colectivo, recomeçaram o caminho. A maior parte deles ficou no mato e foi
comido pelas feras.

5. AS CLASSES SOCIAIS

A sociedade da época, apesar de alguns esforços para a humanização de


todas as classes, era ainda fortemente hierarquizada, com senhores, súbditos
e escravos. Alguns historiadores apontam até para um recrudescer das
diferenças sociais, como Oliveira Marques. À ausência de escravatura durante
quase toda a Idade Média, surge agora, com a descoberta de novas raças, o
direito do homem branco sobre o de cor.

Apesar do perigo comum, dos sofrimentos, das necessidades, é de uma


sociedade dividida em classes que nos fala o relato de Sepúlveda. O herói é
um nobre cavaleiro, Manuel de Sousa Sepúlveda. Diz Giulia Lanciani que «os
padecimentos sofridos por personagens de classes privilegiadas tiveram
sempre (...) um impacto emocional na opinião pública bem superior às
vicissitudes do homem comum» (Lanciani, 1979: 39). Com efeito, o autor do
relato, não menosprezando os restantes náufragos, centra a história nesta
personagem com laivos de figura trágica. Os acontecimentos sucedem-se em
volta de si. A sua preocupação última não será pôr a salvo os homens que o
acompanham e de quem ele é capitão, mas a da esposa e filhos.

É verdade que, tanto nobres como plebeus, escravos ou soldados, ricos ou


pobres se atarefavam em conjunto para salvarem a embarcação, num esforço
de solidariedade a que já aludimos. Mas também é verdade que as diferenças
e sua consciencialização, quando menos se espera, vêm ao de cima. Se não
releiam-se as passagens do negócio da água durante a caminhada pelos
matos e o negócio das frutas e da caça. Quem dispunha de pecúlio ia-se
mantendo. Os outros não teriam senão o pó e as pedras.

Se quiséssemos fazer um esquema da hierarquização das classes sociais


dentro do galeão São João, organizá-lo-íamos pela ordem seguinte: o capitão
Manuel de Sousa com a sua família e outros fidalgos, os oficiais e cavaleiros, o
mestre Cristóvão Fernandes da Cunha, o contramestre Duarte Fernandes, o
piloto André Vaz, os soldados, o carpinteiro da nau, os marinheiros, as aias e
os escravos. Portanto, três classes distintas: a nobreza, o povo e os escravos.
Ao clero não há nenhuma referência.

Giulia Lanciani, falando da igualização hierárquica que parece adivinhar-se no


relato, explica: «Quando se alude à fome e à sede sofridas indistintamente por
ricos e por pobres, cumpre-se obra ao mesmo tempo consolatória e
mistificante» (Lanciani, 1979: 38). Quanto a nós, achamos que o autor do relato
teria essa intenção, mas ficou aquém, já que, apesar das necessidades
comuns, o pobre sofreu sempre um pouco mais do que o nobre ou o rico. As
desgraças partilhadas por todos eram menos partilhadas por uns do que por
outros.

6. RELAGÕES COM OS CAFRES

Os cafres constituem em geral um perigo para os portugueses. No relato, o


contacto entre uns e outros é-nos mostrado desde o inicio. Quer-nos parecer
que a maioria dos escravos transportados no barco era negra, sobretudo de
Moçambique. Porém, os problemas que embaraçaram os náufragos foram
mais causados pelos cafres da zona onde arribaram do que pelos que traziam.
Os escravos estariam já aculturados.

Após o afundamento do navio e estando acampados na praia, os portugueses


decidiram fazer o reconhecimento da área: «dali a dous dias lhes pareceu bem
mandarem um homem e um cafre do mesmo galeão, para ver se achavam
alguns negros que com eles quisessem falar para resgatar algum mantimento.
E eles andaram lá dous dias sem acharem pessoa viva, senão algumas casas
de palha despovoadas, por onde entenderam que os negros fugiram com
medo». Três dias depois, apareciam-lhes no acampamento alguns cafres com
uma vaca. Com a intenção de trocarem a vaca por pregos, resolveram não
fechar o negócio. Isto porque apareceram mais alguns cafres a bradarem de
longe para que o não fizessem. Os portugueses deixaram-nos partir com o
animal, apesar de terem muita necessidade dele.
Esta atitude dos portugueses revela certo respeito pelo alheio, o que não
parece normal numa política de conquista. Jorge Dias diz que nunca sentimos
repugnância por outras raças. Sendo reis e senhores do oceano, a atitude
vulgar seria tirarem a bem ou a mal a vaca aos cafres. Ora, isso não
aconteceu.

O cheiro da guerra e o potencial desentendimento entre uns e outros depara-se


logo na cena em que os portugueses encontram a aldeia negra despovoada.
Admite o narrador que «em algumas das casas acharam frechas metidas, que
dizem que é o seu sinal de guerra». Os portugueses vão respirar de alívio
quando encontrarem durante a jornada um reizinho deveras simpático: «vieram
ter com o cafre, senhor de duas aldeias, homem velho, e que lhes pareceu de
boa condição (...) e lhes disse que não passassem dali, que estivessem em sua
companhia e que ele os manteria o melhor que pudesse». Explicou-lhes estar
em guerra com outro cafre vizinho e aconselhou-os a não irem avante, pois
poderiam sofrer insídias.

Este reizinho é a parte bondosa de todo o enredo. Os portugueses «lhe


puseram nome Garcia de Sá, por ser velho e ter muito parecer com ele e ser
bom homem, que não há dúvida senão que em todas as nações há maus e
bons; e por ser tal fazia agasalhos, e honrava os portugueses».

O tom confessional do narrador distinguindo maus e bons em todas as nações,


remete-nos para certa imparcialidade. Como há portugueses bons e maus,
assim acontece com os cafres. Todavia, esta imparcialidade dissolve-se no
momento em que os portugueses sofrem os primeiros revezes. Sendo
ludibriados, roubados, maltratados ou mortos, a conclusão torna-se evidente.
Os portugueses passam a ser as vítimas e os cafres os malvados. É exemplar
o brado de Manuel de Sousa: «Perros, aonde me levais?».

Estranha-se a falta de conhecimento dos portugueses quanto à forma de agir


dos negros. O autor, numa reflexão de significado contundente, demonstra-nos
essa ignorância: «Não tinha sabido tanto dos cafres como agora sabemos por
esta perdição e pela da nau São Bento». O ardil dos nativos era exemplar para
um povo a que chamaríamos primitivo. Nem toda a astúcia e experiência dos
portugueses os levou à desconfiança e à salvação. Pelo contrário, confiaram
piamente nos cafres: «Tanto que os cafres viram os portugueses sem armas
como já tinham consertado a traição, os começaram logo a apartar e roubar, e
os levaram por esses matos».

7. O CAPITÃO MANUEL DE SOUSA

Como atrás referimos, Manuel de Sousa Sepúlveda é a personagem central


deste relato. Logo no prólogo e através da antítese, o autor introdu-lo e
caracteriza-o. Diz que era um fidalgo de bom nascimento e que «na Índia
gastou em seu tempo mais de cinquenta mil cruzados em dar de comer a muita
gente, em boas obras que fez a muitos homens; por derradeiro foi acabar sua
vida e de sua mulher e filhos em tanta lástima e necessidade entre os cafres
faltando-lhe o comer e beber e vestir»
Afundado o barco, Manuel de Sousa toma previdências quanto ao seu futuro,
de sua família e de seus homens. Era incansável o seu desvelo como chefe: «o
capitão (...) andava na praia esforçando os homens, e dando a mão aos que
podia os levava ao fogo que tinha feito, porque o frio era grande. (...) Assim
esteve sempre com muito cuidado e vigia, levantando-se cada noite três e
quatro vezes a rondar os quartos, o que era grande trabalho para ele».

Antes de iniciarem a jornada a pé e após a recuperação dos feridos e doentes,


reuniu todos os portugueses e discursou. Foi por nós atrás referida a
identificação com os heróis homéricos. Nesta fala, Manuel de Sousa
assemelha-se a Ulisses quando fala a seu povo após a morte de Antínoo.
Neste discurso vemos um homem senhor de si e consciente dos seus.

Todavia, o amor de Manuel de Sousa à família era maior do que a dedicação


aos seus homens. Esteve para «perder o siso» quando lhe disseram que um
seu filho bastardo durante a caminhada ficara para trás. O desvelo para com a
esposa e os filhos foi causa de sua perdição: «Não lhe esquecia a necessidade
que sua mulher e filhos passavam de comer». E vemo-lo a ir pelas matas em
busca de frutos e água.

A demasiada vigia e o muito trabalho desarticularam-lhe a sanidade mental. O


capitão estava cansado e tal facto repercutia-se no seu agir. A teimosia em não
querer ouvir os conselhos do reizinho eram o resultado disso. «Quem
conhecera a Manuel de Sousa e soubera sua discrição e brandura, e lhe vira
fazer isto, bem poderia dizer que já não ia em seu perfeito juízo, porque era
discreto e bem atentado; e dali por diante ficou de maneira que nunca mais
governou a sua gente».

O autor chega mesmo a afirmar, numa expressão bastante sui generis, que
Manuel de Sousa estava «maltratado do miolo». Malgrado a doença e vendo-
se roubado pelos cafres, a sua reacção foi a de um homem de senso: «dado
caso que já havia dias que vinha doente da cabeça, todavia sentiu muito esta
afronta».

Após a morte de sua esposa Dona Leonor, não chorou nem disse «cousa
alguma, estando assim com os olhos postos nela». Abriu uma cova e enterrou-
a, «se meteu pelo mato e nunca mais o viram». E assim acaba a história desta
curiosa personagem.

8. MODO DE SER PORTUGUÊS

Jorge Dias é da opinião de que foi no clima dos Descobrimentos que os


elementos psíquicos díspares do povo português se fundiram. O relato do
naufrágio de Sepúlveda, enquadrando-se nesse clima, é depositário da maior
parte das características comportamentais dos portugueses. Sendo um
temperamento paradoxal, levou a que ainda hoje os seus elementos psíquicos
se mantenham praticamente inalteráveis. O modo de ser português é a
conjugação de todos esses elementos.
A entreajuda em tempos difíceis ou momentos de perigo é uma das
características que nos parece definir. No relato vemos nobres soldados ou
gente do povo com o mesmo objectivo: a salvação de todos e do barco. Aliado
à entrajuda, há o sentimento de comiseração. Sofre um, sofre a colectividade:
«É certo que ver ficar estes homens, que cada dia lhe ficavam vivos por esses
desertos, era causa de grande dor e sentimento para uns e para outros».

A tristeza é também um dos elementos característicos da nossa psicologia. O


fado de Lisboa e de Coimbra são disso uma prova. Na literatura, para dar
apenas alguns exemplos, o Só de António Nobre é , como o poeta diz em
epígrafe, «o livro mais triste que há em Portugal». Lembremo-nos também
do Amor de Perdição de Camilo, que tantos corações devastou de tristeza e
compaixão. José de Paço D'Arcos diz com alguma chacota que «somos um
povo de tristes». No relato, esse sentimento de tristeza aparece em algumas
considerações do narrador: «cuidar bem nisto é cousa para quebrar os
corações!»; «Em verdade que não sei quem, por isto passe sem grande lástima
e tristeza».

A ganância do lucro que ainda hoje define boa parte dos portugueses está bem
patente nalgumas atitudes dos náufragos do galeão São João. Afirma o autor
que Manuel de Sousa quisera «mandar buscar alguma água, e não houve
quem quisesse ir menos de cem cruzados cada caldeirão». Uma das causas
da perdição do navio, como já vimos, foi a da carga excessiva. Era pela
ganância do lucro que os portugueses atulhavam as embarcações.

O pudor e a cortesia à mulher é outra das características. Dona Leonor, esposa


de Manuel de Sousa Sepúlveda, após ter sido maltratada pelos cafres e
ficando nua diante das suas gentes, não foi presa da chacota, antes pelo
contrário: «Os homens que estavam ainda em sua companhia, quando viram a
Manuel de Sousa e sua mulher despidos, afastaram-se deles um pedaço pela
vergonha que houveram». Talvez seja este elemento da nossa psicologia o que
actualmente está mais em extinção. Na verdade, os mediavão desbragando a
nossa sociedade.

CONCLUSÃO

Tendo em mira o que nos propuséramos evidenciar, concluímos da importância


de relatos como o da perda do Galeão grande São João para o estudo daquilo
que foi a nossa aventura marítima. Eduardo Lourenço diz que uma nação é
uma «reactualização incessante do que fomos ontem em função do que somos
hoje ou queremos ser amanhã» (Lourenço, 1985).

Nós, como portugueses descobridores de novas terras, fomos grandes. Essa


grandeza deveu-se a imensos sacrifícios e esforços. Foram largas as perdas
materiais e humanas. Giulia Lanciani, na obra de que nos servimos durante a
nossa exposição, conclui: «os relatos de naufrágios representam o reverso da
medalha das exaltantes crónicas oficiais de vitórias de conquistas, de triunfos
em terras longínquas e entre gentes exóticas».